O filme mais esperado do ano estreou. E olha que neste ano teve Logan, Mulher-Maravilha e Liga da Justiça. Mas não tem para quem quer: Star Wars – Os Últimos Jedi é o grande lançamento do ano e aquele com mais chances de chegar ao US$ 1 bilhão de bilheteria. Vamos à resenha do segundo capítulo da nova Trilogia da saga espacial mais amada do mundo. SEM SPOILERS!

Digam o que disser, mas ninguém pode se queixar que Star Wars – Os Últimos Jedi não é ousado. A trama é cheia de reviravoltas, o roteiro prega peças no espectador e coisas inesperadas ocorrem em cada um dos Atos do filme. Porém, ainda assim, está muito longe de ser um dos melhores filmes da saga.

Existe uma curiosa hierarquia em relação ao “melhor” em Star Wars. Geralmente, Star Wars – Episódio V: O Império Contra-Ataca (de 1980) é aclamado como o melhor filme da franquia (o que concordo!), seguido por Star Wars – Episódio IV: Uma Nova Esperança (de 1977, o primeiro a ser lançado) e Star Wars – Episódio VI – O Retorno de Jedi (de 1983), em terceiro. Com o lançamento de Star Wars – O Despertar da Força (em 2015) e Rogue One – Uma História Star Wars (em 2016), muitos críticos (e fãs) se apressaram em colocar um ou o outro em segundo ou terceiro nessa lista do “melhor”. A crítica dos EUA já se apressou em aclamar Os Últimos Jedi como o segundo da lista, mas não é para tanto.

Os Últimos Jedi é um bom filme. É ótimo! O diretor e roteirista Rian Johnson soube imprimir uma história forte e muito focada nos personagens, cheia de viradas interessantes. O visual é arrebatador! As cenas abertas na ilha do planeta Ahch-To onde reside o isolado Mestre Jedi Luke Skywalker são lindas em sua combinação de rochas, limo e água, com o céu hora nublado, ora claro. A Sala do Trono do Supremo Líder Snoke, comandante da Primeira Ordem, os vilões da nova saga, é bela em sua combinação de preto e vermelho espelhados. E o planeta minério de Crait com seu solo branco na superfície e vermelho logo abaixo é lindo, especialmente quando as naves raspam o solo marcando sua trajetória. Mas falta alguma coisa no meio disso tudo para torná-lo “o melhor”.

Claro que classificações em ranking, ainda mais assim tão próximo ao lançamento, são extremamente complicadas, mas arriscaria dizer que O Despertar da Força e Rogue One são melhores.

Isso não quer dizer que Os Últimos Jedi não seja cheio de méritos. Ele é! Para início, além da trama esperta cheia de reviravoltas, o desenvolvimento dos personagens é exemplar. Há um “quê” de estudo de personagens, especialmente no trio protagonista de Luke Skywalker, Rey e Kylo Ren (ou Ben Solo). A General Leia Organa, líder da Resistência, é outro destaque em um nível ligeiramente abaixo; enquanto há também o reforço de características de Finn e Poe Dameron.

No suporte, novos personagens como Rose e Amily Hodo se saem bem, enquanto é muito bom poder ver bem mais de perto o Supremo Líder Snoke, que deixa de ser uma sombra ou holograma para ser alguém real, poderoso e ameaçador.

Luke, Rey e Ben carregam o filme nos ombros, conduzindo a história, cada um com seus conflitos, dilemas e lugares a chegar. Cada um tem um crescimento na história. Os fãs da Trilogia Clássica talvez estranhem o comportamento relutante de Luke – em contraposição ao herói destemido dos filmes antigos – mas a trama justifica seus atos e permite o bom desenvolvimento.

O peso dos personagens se estende aos atores que os vivem. Mark Hamill dá um show de interpretação como a versão idosa e calejada de Luke Skywalker. Uma carreira inteira como dublador – ele também é famoso por ter feito o Coringa nos desenhos animados do Batman – lhe dotaram da capacidade de usar a voz com total domínio para expressar sentimentos diversos, ao mesmo tempo em que também é capaz de conduzir o espectador com o olhar. A Rey de Daisy Ridley ganha bem mais profundidade e atitude desta vez e a atriz se mostra muito a vontade no papel, mergulhando de cabeça e fazendo-a ser sempre alguém que não hesita. Adam Driver tem o papel mais difícil, que é o de tentar dotar Ben Solo de carisma mesmo após o ato odioso de ter matado o próprio pai – o lendário Han Solo – em O Despertar da Força, mas o faz com tranquilidade dotando o vilão de profundidade, conflito e raiva.

Enquanto estrutura, Os Últimos Jedi funciona como um filme dividido em duas partes paralelas que desenvolvem cada uma seus próprios Atos. Uma é focada no trio Luke-Rey-Ben e a outra no restante do elenco, particularmente na Resistência procurando sobreviver à caça impiedosa da Primeira Ordem. Talvez, um dos problemas do filme seja o fato dessas duas partes nem sempre estarem organicamente unidas no desenvolvimento do longa.

Há alguma “gordura” também nesse desenvolvimento, o que faz com que se tenha a impressão de que o filme é mais longo do que deveria. Quando aquelas duas partes colidem, no fim do 3º Ato, pelo menos o espectador é recompensado com algo que os fãs queriam muito ver e o final é bem interessante.

Outro aspecto a ressaltar é que li em uma crítica que faltava contextualidade e consequência no filme, o que não é verdade. OUJ trabalha muito bem a contextualização da Galáxia apavorada pela destruição da República no filme anterior, mas em pequenas nuances, em detalhes de ações e falas e, tal qual Uma Nova Esperança, tem justamente nesse sentimento um tema transversal a todo o filme.

Falando nisso, muito mais do que O Despertar da Força, OUJ é um filme carregado de referências diretas não somente à Trilogia Clássica, como à Trilogia Prelúdio. Fatos, histórias, episódios e ações são referenciados ao longo da projeção de um modo que, enquanto agem como fan service, não soam gratuitos, servem de verdade à trama e são dispostos de modo a não confundir o espectador não-fã.

Então, Os Últimos Jedi é um bom filme, mas fica um gosto de “poderia ser ainda melhor” ao final, se se queimasse alguma gordura e não se esticasse tanto.

Mas ninguém pode criticar Rian Johnson de tomar algumas decisões corajosas.

E claro, não podemos deixar de lamentar a morte de Carrie Fisher, a quem o filme foi dedicado (ela morreu em dezembro do ano passado) cuja Leia tem uma participação muito mais interessante e importante do que no filme anterior, entregando uma ótima interpretação.