Rolling Stones
Os Rolling Stones em 1965: Wyman, Jones, Jagger, Richards e Watts.

Após décadas de expectativa, finalmente os Rolling Stones lançaram um álbum com suas gravações na rádio BBC: está nas lojas físicas e virtuais On Air, que traz um compilado de canções tocadas ao vivo nos estúdios e nos teatros da rádio estatal britânica nos anos 1960.

Desde os anos 1990, criou-se na Inglaterra uma tradição de lançar como discos as gravações históricas na rádio BBC. Isso acontecia porque, como é estatal, a BBC só podia dedicar uma pequena faixa de sua programação à música comercial (ou seja, veicular discos), então, como saída estratégica, os programadores levavam os artistas para se apresentarem nos estúdios da rádio, ou então, os gravavam em teatros diante de uma pequena plateia. Com isso, ficavam punhados de gravações que eram diferentes daquelas comuns que ouvimos nos discos de estúdio dos artistas. Os Beatles fizeram um enorme sucesso em 1994 com o lançamento de Live At BBC, no que foram seguidos pela maioria das bandas clássicas, como The Who, The Jimi Hendrix Experience, Led Zeppelin etc. O Pink Floyd lançou há alguns anos uma grande coleção de material extra também recheado de gravações da rádio. Desde que os lançamentos do tipo começaram, se falava que os Rolling Stones iam lançar o seu, no que os fãs aguardam desde então.

rolling stones on air cover 2017On Air se concentra na primeiríssima fase da banda, quando o guitarrista Brian Jones ainda era um membro ativo e o cantor Mick Jagger e o guitarrista Keith Richards estavam apenas dando os primeiros passos para o estabelecimento de sua parceria de composição de canções. Os registros foram realizados entre outubro de 1963 (quando a banda tinha acabado de lançar seu primeiro compacto, com o cover de Come on de Chuck Berry) até novembro de 1965 (quando a banda colhia o sucesso repentino da canção autoral Satisfaction), em vários programas distintos da BBC, a maioria nos estúdios da rádio e alguns em teatros, diante de plateia.

A versão standart do CD tem 18 faixas, enquanto a Deluxe traz outras 14 de bônus, totalizando 32 canções, 8 delas totalmente inéditas. O repertório tem apenas 5 faixas autorais, 3 das quais na primeira parte: The spider and the fly, o primeiro blues composto por Jagger e Richards; The last time, a primeira grande canção da dupla; e (I can’t get no) Satisfaction, o primeiro sucesso autoral. No bônus, outras duas: Little by little, na qual Jagger e Richards assinam com o produtor Phil Spector; e 2120 South Michigan Avenue, número que é assinado como Nanker Phelge, um pseudônimo para as criações coletivas do conjunto em seus primeiros dias.

Além da pequena amostra autoral, os Stones eram mesmo uma banda de covers no início de sua carreira e daí vemos performances mais relaxadas e dinâmicas de faixas como It’s over now, Route 66, Around and around, You better move on, Everybody needs somebody to love, I just want to make love to you e I wanna be your man (canção de autoria de John Lennon e Paul McCartney dos Beatles, que foi o segundo compacto dos Rolling Stones e seu primeiro sucesso). Também há Roll over Beethoven (também de Chuck Berry), canção que era uma favorita dos roqueiros britânicos e que o grupo tocava bastante em seus primeiros shows (embora nunca a gravaram em estúdio, porque os Beatles fizeram primeiro em novembro de 1963).

O ouvinte casual, que conhece os Rolling Stones por seus grandes medalhões como Jumpin’ Jack flash, Gimme shelter, Start me up e Honky tonky women irá estranhar essa sonoridade mais bluseira e crua do grupo de Jagger e Richards, mas era assim que a banda soava em seus primeiros álbuns, antes de encontrarem sua sonoridade lá por volta de 1968.

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Os Rolling Stones se formaram em 1962 em Londres a partir da união do guitarrista Brian Jones com a dupla Mick Jagger (vocal) e Keith Richards (guitarra). O trio rodava pelo circuito de R&B e foi conseguindo membros e oportunidades de apresentação, consolidando a formação com Bill Wyman no baixo e Charlie Watts na bateria. A banda ganhou sua primeira notoriedade com suas apresentações incendiárias no The Crawdaddy Club, em Richmont, o que os levou a conseguir um contrato de gravação com a gravadora Decca. O primeiro compacto foi Come on (de Chuck Berry), em 1963, e não causou grande impressão, mas as coisas começaram a mudar com o segundo single I wanna be your man (de John Lennon e Paul McCartney, dos Beatles, que eram seus amigos). O grande sucesso do quarteto de Liverpool incentivou Mick Jagger e Keith Richards também se unirem como compositores e começar a escrever o próprio material, no que foram muito bem sucedidos.

Cada compacto fazia mais sucesso e os primeiros álbuns também venderam muito bem até o conjunto começar a dominar também os Estados Unidos, na virada para 1965, com suas gravações e shows. Naquele novo ano, o compacto (I can’t get no) Satisfaction (apenas o segundo autoral da banda) explodiu nos dois lados do Atlântico e tornou os Stones uma das bandas mais famosas do planeta.

O grupo seguiu em frente, experimentou o psicodelismo entre 1966 e 1967, retornando o foco para uma sonoridade mais blues em 1968 e fazendo mais sucesso ainda. O guitarrista Brian Jones teve sérios problemas com as drogas e terminou expulso do grupo, morrendo em circunstâncias estranhas logo em seguida, em julho de 1969, sendo substituído por Mick Taylor, que acompanhou os Stones em sua fase áurea, até 1974, com álbuns aclamados como Let it Bleed (1969), Sticky Fingers (1971) e Exile on Main Street (1972).

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Os Rolling Stones ao vivo em 2016: Watts, Wood, Jagger e Richards.

Em 1975, Ron Wood entrou como segundo guitarrista e os Rolling Stones prosseguiram sua extensa carreira, alternando fases de muito sucesso com outras de baixa popularidade, mas sempre produzindo material interessante e, mais importante, fazendo concertos vibrantes. O baixista Bill Wyman saiu em 1993 e o grupo resolveu não substituí-lo, tornando-se um quarteto desde então. Em 2012, a banda comemorou 50 anos de carreira e, em seguida, saiu em uma longa turnê celebrativa, que passou pelo Brasil em 2016. Nesse ano, lançaram seu mais recente álbum, Blue & Lonesome, que voltava às origens e trazia covers de blues.