infinity war the first promo art completeEsta é uma Resenha SEM SPOILERS.

Vingadores – Guerra Infinita é a culminação de 10 anos do Marvel Studios fazendo os próprios filmes. Isto é claro desde o logo da Marvel no início, que traz aquele número embutido no nome da editora. Tudo o que aconteceu nos 18 filmes lançados desde Homem de Ferro, lá atrás em 2008, de algum modo se resolve e finaliza neste novo. É um movimento bonito de assistir. E o fato de Guerra Infinita ser espetacular ajuda muito.

É meio chavão dizer que os filmes da Marvel são bons, mas temos que dizer: quem gosta do cinema da Casa das Ideias irá sair estupefato de Guerra Infinita: o filme é sensacional. Esse negócio de “é o melhor…” é sempre complexo, mas não há dúvida: Guerra Infinita é uma experiência diferente de todos os outros. Nenhum outro é tão sério, dramático, catastrófico e surpreendente como este.

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Homem-Aranha, Homem de Ferro, Drax, Star-Lord e Mantis: ameaça de outro nível.

Os irmãos Joe e Anthony Russo já tinham mostrado saber lidar com a seriedade profunda em Capitão América – O Soldado Invernal; e que podiam manejar uma série de personagens diferentes sem perder a linha da história ou enfraquecer os personagens em Capitão América – Guerra Civil; então, são o par (ou quarteto) de mãos corretos para realizar esta empreitada. Nos dois filmes citados – e mais ainda no primeiro – tinham mostrado com veemência como as lutas podiam ser realistas, duras e sensacionais; e agora demonstram que podem fazer o mesmo usando efeitos digitais.

Guerra Infinita coloca os Vingadores em uma missão extrema: como derrotar um alienígena poderosíssimo, que está prestes a se tornar mais poderoso ainda se for capaz de reunir as seis Joias do Infinito? O longa mostra a gravidade da situação e como meros seres humanos têm que lidar com a possibilidade de, como diz Gamora no trailer, “eliminar metade do universo com um estalar de dedos”. O que fazer diante de uma ameaça dessas? Não há outra alternativa: é lutar até a morte.

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A seriedade respeita o nível do problema.

Guerra Infinita lida o tempo todo com esse drama e, com isso, tem um ar de seriedade bem maior do que a maioria dos filmes do Marvel Studios. Claro, o humor está lá – os trailers mostraram isso – mas ele vem apenas em alguns momentos de “descarga de emoções” e parece haver (ao contrário de alguns outros filmes) uma preocupação de não estragar o peso e a cerimônia que algumas cenas exigem, assim como suas consequências, com piadinhas. Assim, enquanto na maioria das obras da Marvel a piada vem ao final da cena, para dar aquela aliviada na tensão, isso não ocorre aqui. A piada (quando vem) aparece no meio, mas o final da cena tende a ser trágico ou dramático. E isso cai muito bem ao clima do filme e à trama que entrega.

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Thanos é outro tipo de vilão.

A trama de Guerra Infinita é relativamente simples e pode ser resumida (sem spoilers) por aquilo que já dissemos: Thanos realiza a iniciativa de reunir as Joias do Infinito e os Vingadores (e os Guardiões da Galáxia) se mobilizam para impedir, embora não exatamente reunidos – afinal, alguns estão espalhados pelo universo e os que estão na Terra ainda estão divididos em duas facções rivais devido às consequências de Guerra Civil – e vão se dividindo em grupos forjados pelas situações para fazer o melhor para impedir o Titã Louco de realizar seu objetivo. O que traz densidade ao filme é a bagagem dos personagens e as relações emocionais que travam entre si.

Quando dizemos “relativamente simples”, claro, estamos tratando das linhas gerais da trama. Isso não quer dizer que a história se desenvolva de forma simples. Isto não ocorre por causa das ligações emocionais construídas entre os personagens. Todo mundo sabe, o Visão carrega a Joia da Mente em sua testa, o que o transforma em um alvo preferencial de Thanos, e isto tem uma grande implicação para a relação entre ele e Wanda Maximoff, a Feiticeira Escarlate. Uma relação que já havia sido delineada ligeiramente em Guerra Civil, mas que agora é aprofundada de um modo muito bonito e que carrega o filme de emoção e encontra eco nas boas interpretações de Paul Bettany (que consegue se expressar a despeito da maquiagem pesada que usa) e Elizabeth Olsen.

infinity war strange and iron man in battleTal qual já haviam feito em Guerra Civil, os irmãos Russo (e os roteiristas Christopher Marcus e Stephen McFeely) sabem dimensionar muitos personagens com maestria. Cada um deles tem um propósito no filme e não há participações gratuitas. A maioria ganha um momento para brilhar que reforça a ideia do “a que veio”. Nessa equação, claro, existem os protagonistas destacados – Thanos, Homem de Ferro, Thor, Capitão América, Gamora, Star-Lord, Doutor Estranho, Feiticeira Escarlate, Visão – e os outros que ajudam a desenvolver a trama, mas o uso deles, e a divisão em grupos (os que vão a Titã, os que partem noutra missão paralela, os que estão na Terra), funciona muito, muito bem.

O longa trabalha muito bem a relação entre os personagens e o afeto que os envolve, permitindo aos atores trabalharem.

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Magia e ciência unidas.

O companheirismo de “brothers in science” entre Tony Stark e Bruce Banner é outro exemplo; e é divertido ver a polaridade (e rivalidade) destes com o mundo mágico e místico de Stephen Strange e Wong; e também como Banner termina tendo um papel mediador por causa de sua experiência em Thor – Ragnarok. A relação mestre e pupilo entre Stark e Peter Parker, o Homem-Aranha é outro caso, e é divertido o modo como o filme desenvolve essa relação e o modo “casual” como o “amigão da vizinhança” vai parar no meio dessa trama cósmica.

Robert Downey Jr., o rei desse processo todo, continua com sua interpretação firme de Tony Stark, aqui adicionada do elemento incomum na qual seu personagem se encontra. Mark Ruffalo mais uma vez demonstra como é o ator ideal para Bruce Banner, entregando uma versão atormentada do cientista, mesmo nos momentos calmos, e uma interpretação com uma riquíssima expressão corporal. Benedict Cumberbatch tem a oportunidade de mostrar seu Stephen Strange agora acomodado no seu papel de mestre místico (e não mais um aprendiz), o que lhe dá ainda mais elegância.

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Capitão América: o peso das decisões.

Menos como uma relação com outra pessoa especificamente, o filme também lança um holofote sobre Steve Rogers, o Capitão América, que está confortável no lugar que sempre foi dele, o de líder, mas cai sobre seus ombros o peso das decisões mais arriscadas. Chris Evans tem um papel com menos tempo de tela do que em seus filmes solo, mas aproveita cada momento para passar a imagem desse Capitão desiludido com as decisões políticas e assumindo a postura mais altiva de seus últimos filmes, sintetizando sua fase na frase “Já passei do tempo de pedir permissão”.

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Thor tem uma agenda própria no filme.

Thor também tem uma jornada pessoal neste filme e compõe um dos pilares da história toda. Os eventos de Thor – Ragnarok ecoam fortemente sobre seus ombros, e Guerra Infinita adiciona ainda mais elementos à sua narrativa pessoal. É curioso neste caso como, ao contrário do pastelão e leviandade de Ragnarok, aqui Chris Hemsworth é exigido em seus dotes dramáticos, e corresponde muito bem. Particularmente, preferimos o Thor dramático ao comediante, e é muito bom ver esta abordagem de volta; adicionando o fato de que, talvez com exceção de Os Vingadores, temos o Thor mais envolvido com a história da equipe e o modo como é afetado por ela.

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Gamora: centro emocional do filme.

E, por fim, o coração do filme é de certo modo a relação entre Thanos e Gamora, pai e filha, vilão e heroína, que se encontram em lados rivais e inconciliáveis dentro dessa jornada, mas onde a emoção não está ausente. Pelo contrário.

E aqui abrimos para falar sobre Thanos. Há uma queixa generalizada sobre os vilões do Marvel Studios, contudo, neste caso não precisa se preocupar. O titã louco é tudo aquilo que é nos quadrinhos e no filme funciona maravilhosamente bem. Não é um vilão caricato daqueles de “quero dominar o mundo”, mas dotado de um propósito, uma missão autoimposta que traz desafios pessoais, mas que ele segue em frente, determinado, irrefreável, porque acredita que isso é o certo a fazer. E não é exagero dizer: Thanos é o protagonista do filme. Isso mesmo. Não é Tony Stark, Steve Rogers, Thor ou Star-Lord e Gamora. Guerra Infinita é um filme de Thanos na qual ele enfrenta os Vingadores.

Gamora tem um papel diferenciado nisso tudo e Zoe Saldana entrega a versão mais madura e profunda de sua personagem, que precisa lidar com o legado de seu passado (criada por Thanos, foi a assassina mais temida do Universo), tentar se redimir e impedir o pai de atingir seu objetivo. Sua jornada é a mais dramática da história – talvez apenas igualada pela de Thor – e ponto forte de tudo.

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As expressões faciais de Thanos lhe dão credibilidade ímpar entre personagens digitais.

Nisto temos que destacar duas coisas: uma, o ator Josh Brolin, já indicado ao Oscar (por Onde os Fracos Não Têm Vez) que empresta a voz, as feições faciais e os movimentos para Thanos e que, ao contrário da maioria dos personagens inteiramente construídos digitalmente, entrega uma interpretação de verdade, carregada de emoção. E podemos dizer: poucos (ou nenhum) personagens digitais foram tão bem feitos quanto Thanos, ao ponto do filme não ter pudores nenhum em mostrar seu rosto em close em diversas cenas, explorando as nuances de suas expressões faciais e como as emoções estão nele. É um efeito fantástico, e nisto, é a outra coisa a destacar: os efeitos especiais do filme estão muito acima da média. Mesmo para os padrões Marvel.

infinity war star lord and iron manFalando em efeitos, também é preciso destacar a fotografia. Guerra Infinita é um filme bonito visualmente. Embora não seja “afetado” (no bom sentido) como Thor – Ragnarok e menos colorido do que os dois Guardiões da Galáxia, explora seus vários ambientes (a Terra e uns outros quatro planetas) de modo detalhado e bem realizado. Cada ambiente tem sua textura, sua luz, sua paleta de cores e tudo isso funciona muito bem. Confirmando uma notícia de alguns meses atrás, realmente, parte de Guerra Infinita foi filmada nos Lençóis Maranhenses, no Brasil, e o momento em que essa ambiente aparece, em uma cena importantíssima da história, é muito bonito.

O uso de câmeras IMAX também favorece as cenas com atores, com seus rostos, roupas e o ambiente ao redor, surgindo com nitidez e beleza. As cenas da Batalha de Wakanda, no Ato Final, são lindas, pois são mais claras, e o contraste entre a vegetação e os personagens em seus uniformes coloridos cria imagens sensacionais.

Guerra Infinita é assim, uma jornada emocional, que agarra o fã do Universo Marvel nos Cinemas pelos ombros e o deixa atônito, sem acreditar no que está vendo. Não faltam momentos de cair o queixo (de verdade), há aparições surpresas que vão acender o coração e instantes em que o telespectador vai engolir em seco e pensar “caramba” ou “oh, não” com sinceridade.

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Shuri e Banner.

Guerra Infinita ainda não é o fechamento do “primeiro ciclo” (que incluiu 3 Fases) do Universo Marvel – pois ainda faltam Homem-Formiga e a Vespa (que chega em julho), Capitã Marvel (já em 2019) e o misterioso Vingadores 4 (este sim, o ponto final) – mas é o início do fim. E, puxa vida, que início! É inacreditável!

Mais uma vez, a Marvel demonstra a coragem e a ousadia que faltam aos outros estúdios e, talvez até mais importante, fazem isso após consolidar a ligação emocional do espectador com o personagem. Afinal, de que adianta matar o Superman em Batman vs. Superman – A Origem da Justiça (e não entenda mal, gostamos da DC Comics e gostamos mesmo deste filme em questão: leia Resenha do HQRock sobre o filme e confira) como a Distinta Concorrente fez, quando aquela é apenas a segunda aparição do homem de aço em sua nova configuração cinematográfica, e mais importante ainda, após um filme (Superman – O Homem de Aço) em que a maior parte do público e da crítica não gostou e não foi capaz de se relacionar ou se envolver com aquele personagem? Sua morte ao fim de BvS termina sendo vazia e sem propósito, nestes termos, pois falha em gerar comoção no espectador.

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O Visão e a Feiticeira Escarlate.

Definitivamente, não é isso o que a Marvel faz. Ela trabalhou seus personagens e, ao longo dos anos, foi capaz de envolver os espectadores não apenas com os “grandalhões”, como Capitão América, Homem de Ferro e Thor (trio que tem papel protagonista – atrás de Thanos – no filme), mas também, e fundamentalmente, com personagens “novos” , até então totalmente desconhecidos do grande público, como os Guardiões da Galáxia demonstram bem, mas encontramos exemplos desde a Viúva Negra até o Visão e a Feiticeira Escarlate.

Este é o elemento diferencial. É isto que faz a audiência sair da sala de cinema, como vi na sessão em que assisti, exclamando emocionado, satisfeito e atônito: “Caramba, que filme foi esse?!”.

Ah, e não esqueçam: há uma cena pós-créditos (apenas uma e bem no final dos créditos mesmo) que, como de costume, aponta o futuro.

img_20180415_1422281683666841.jpgVingadores – Guerra Infinita é dirigido pelos irmãos Joe e Anthony Russo, e tem roteiro de Christopher Marcus e Stephen McFeely. O elenco traz: Robert Downey Jr. (Tony Stark/ Homem de Ferro), Chris Evans (Steve Rogers/ Capitão América), Chris Hemsworth (Thor), Mark Ruffalo (Bruce Banner/ Hulk), Scarlett Johansson (Natasha Romanoff/ Viúva Negra), Benedicth Cumberbath (Stephen Strange/ Doutor Estranho), Don Cheadle (James Rhodes/ Máquina de Combate), Tom Holland (Peter Parker/ Homem-Aranha), Chadwick Boseman (T’Challa/ Pantera Negra), Paul Bettany (Visão), Elizabeth Olsen (Wanda Maximoff/ Feiticeira Escarlate), Anthony Mackie (Sam Wilson/ Falcão), Sebastian Stan (Bucky Barnes/ Soldado Invernal), Danai Gurira (Okoey), Letitia Wright (Shuri), Dave Bautista (Drax), Zoe Saldana (Gamora), com participação especial de Chris Pratt (Peter Quill/ Star-Lord) e Josh Brolin (Thanos); contando ainda com a participação de: Tom Hiddleston (Loki), Benedict Wong (Wong), Idris Elba (Heimdall), Bradley Cooper (voz de Rocket), Vin Diesel (voz de Groot), Benício Del Toro (Colecionador), Peter Dinklage (Eitri), Karen Gillan (Nebula), Pam Klementieff (Mantis), Michael James Shaw (Corvus Glaive), Carrie Coon (Proxima Mid-night), Tom Vaughan-Lawlor (Ebony Maw), Terry Notary (Cull Obdisian), dentre outros. O lançamento no Brasil é em 26 de abril de 2018.