O Led Zeppelin em 1969: Bonham, Plant, Page e Jones.

O Led Zeppelin é uma das mais lendárias e cultuadas bandas de rock de todos os tempos e teve um fim trágico: encerrou as atividades em 1980, em decorrência da morte do baterista John Bonham. Mas desde então, o saudosismo dos fãs sempre traz à tona de um possível retorno. Mas isto não irá acontecer. De jeito nenhum! E o filho do baterista original, Jason Bonham, disse o por quê em entrevista à revista Billboard.

De fato, o velho zeppelin de chumbo voou três vezes desde então: em 1985, 1988 e um bombástico concerto em 2007.

Em 1985, o trio remanescente – Robert Plant (vocais), Jimmy Page (guitarra) e John Paul Jones (baixo) – se uniu ao baterista sensação Phil Collins e tocaram de improviso no Live Aid, o grande festival beneficente contra a fome na África. Mas foi uma má ideia: sem ensaiar o suficiente, a apresentação foi sofrível.

Em 1988, foi bem melhor: para celebrar os 40 anos da gravadora Atlantic Records, a companhia norteamericana fundada por Ahmet Ertegun que apostou no grupo desde o começo, o trio remanescente se uniu de novo, agora, acompanhados pelo jovem Jason Bonham, o filho do baterista original. Deu muito certo!

Houve depois, dois retornos “clandestinos” da banda, quando somente a dupla Page e Plant se reuniu a partir de 1994 para gravar dois álbuns e fazerem algumas turnês, sem a presença de Jones, o que não caracteriza, portanto, uma volta do grupo, tecnicamente falando.

A banda reunida pela última vez no O2 Arena, em 2007: agora nos cinemas.

Porém, em 2007, o zepelin de chumbo fez uma última viagem de despedida. Novamente, foi para celebrar Ahmet Ertegun, desta vez, em honra de sua memória, pois o produtor havia morrido. O trio e Jason Bonham se reuniu para um único concerto no O2 Arena em Londres. A venda de ingressos foi instantânea. A demanda por bilhetes foi na casa de dezenas de milhões!!! Seria necessário vários anos de concertos todos os dias para que todos que tentaram comprar ingressos pudessem assisti-los. Para acalmar um pouco o facho dos fãs, a banda lançou o concerto como álbum e filme, The Celebration Day.

A partir do imenso sucesso, ficou a pergunta: “por que os velhos membros não se reúnem para uma turnê de celebração, tal qual fazem outras bandas?”.

O guitarrista Jimmy Page e até o sempre recluso baixista John Paul Jones já se mostraram dispostos em entrevistas, mas o vocalista Robert Plant vem sendo categórico sobre a questão: não haverá retorno!

E agora, Jason Bonham finalmente explica por que. Falando à Billboard (via Rolling Stone), disse:

A verdade [do não retorno] é mais profunda. [Em 2007] Ficamos seis semanas ensaiando para um único show. Então, eu pensei que haveria mais.

Eu disse [a Plant]: “Eu preciso perguntar: A gente vai reunir a banda novamente?”. E ele disse: “Eu amava seu pai demais. Não é um desrespeito a você. Você conhece o nosso material melhor que nós mesmos e ninguém vivo é capaz de tocar como você. Mas não é a mesma coisa. Eu não posso ir lá e fingir. Não consigo ser uma jukebox, não consigo sair e tentar fazer dessa forma.”

Ele me disse que quando meu pai morreu, deixou esse mundo, também era o fim do Zeppelin. Ele não conseguiria fazer o que o The Who fez.

The Who ao vivo em 1969.

O The Who é outra banda célebre de rock que perdeu seu baterista, o lendário Keith Moon, em 1978, vítima de uma overdose de comprimidos contra o alcoolismo com álcool. Apesar de ser uma peça fundamental à sonoridade do grupo britânico, o The Who resolveu seguir em frente e contratou Kelley Jones (da banda The Faces) para segurar as baquetas até quando “encerraram” as atividades oficialmente, em 1984. Depois disso, o The Who foi voltando aos poucos, fazendo turnês celebrativas, até que a partir da década de 1990, passou a contar com uma agenda constante de turnês, contando com outro filho famoso ocupando a bateria (no caso, Zak Starkey, o filho de Ringo Starr, dos Beatles), e inclusive, comemorou 50 anos da banda em 2014 e se apresentou no Brasil, pela primeira vez, em 2017.

Robert Plant afirma, portanto, que não quer fazer a mesma coisa.

E de fato, tem motivos para isso. Como o próprio Jason Bonham recorda na entrevista à Billboard, ele e seu pai se conheciam desde os 15 anos de idade, eram companheiros inseparáveis e um levou o outro para banda.

Led Zeppelin: material inédito no ano que vem.

Plant e Bonham vinham da periferia de Londres, na Inglaterra, e começaram a tocar juntos nos pubs, numa banda chamada Crawling King Shakes, quando tinham uns 16 anos. Mais tarde, Plant lançou gravações solo pela gravadora CBS, em 1966, e depois, formou a Band of Joy, novamente ao lado de Bonham, que gravou canções na Decca, em 1967, e ganhou prestígio, embora nenhum sucesso.

Enquanto isso, Jimmy Page era um dos mais famosos guitarristas do Reino Unido, começando já em 1964 a trabalhar como sessionman, ou seja, músico de estúdio. Ficou tão famoso no meio que era contratado até por artistas e gravadoras dos EUA para tocar em discos de artistas famosos ou em potenciais sucessos. Porém, querendo ter sua própria voz, Page terminou aceitando se unir à banda The Yardbirds, em 1966, que tinha perdido seu baixista.

Jeff Beck (2º da dir. para esq.) nos Yardbirds: pioneiro na experimentação com a guitarra.

O convite partiu do guitarrista Jeff Beck, um velho amigo de adolescência de Page, com quem tocaram nos pubs e clubes. Agora, Beck era o principal nome dos Yardbirds (ele tinha substituído Eric Clapton na banda, em 1965) e Page foi “apagar o incêndio”, para tocar em shows já marcados, enquanto arranjavam um baixista fixo. Mas Page gostou da experiência e decidiu se manter na banda. Sendo um guitarrista famoso, passou a fazer duo no instrumento com Beck, enquanto o antigo guitarrista base, Chris Deja, migrou para o baixo.

The Yardbirds com Jeff Beck (à esquerda): período de maior sucesso da banda que contou também com o futuro líder do Led Zeppelin, Jimmy Page (segundo à direita).

A dupla Beck e Page fez uma sensação nos Yardbirds no verão de 1966, mas Beck estava cansado daquilo tudo – e não queria compartilhar a glória – e saiu da banda, deixando Page no comando. Os Yardbirds de Page seguiram em frente, buscando manter o sucesso conquistado por Beck (e Clapton antes dele), ao mesmo tempo em que começava a experimentar suas próprias ideias para um grupo. Os Yardbirds tocavam um R&B bastante pesado para a época, mas sua carreira fonográfica buscava minimizar um pouco isso e investir também em sonoridades mais brandas a fim de fazer sucesso. Tal equilíbrio funcionara com Beck. Mas não com Page.

Com a decadência, a banda terminou em 1968, mas Page ainda acreditava no projeto, então, decidiu manter o formato de quarteto dos Yardbirds para consolidar sua visão musical, e daí nasceu o Led Zeppelin. Os membros foram chegando um a um e quando Robert Plant foi contratado como vocalista, insistiu para que o amigo baterista John Bonham viesse junto. O zepelin decolou em 1969, lançando dois álbuns matadores e virando uma lenda desde o início.

Dez anos depois, contudo, a vida de rock star cobrava seu preço: Plant havia dirigido chapado e causou um acidente que quase vitimou sua família e o deixou sem andar por quase dois anos; depois, enquanto excursionava com o Led Zeppelin, seu filho caçula morreu de uma bactéria misteriosa. Page e Bonham, estavam viciados em heroína e outras drogas.

Após uma parada obrigatória, o Led Zeppelin se reorganizou para voltar aos eixos e realizar uma grande turnê “de retorno”, em 1980. Agora, Bonham evitava as drogas pesadas, mas compensava no álcool. Muito álcool. Como resultado, morreu de um coma alcoólico durante os ensaios da turnê nunca realizada.

Algumas semanas após sua morte, um comunicado oficial da banda disse que o Led Zeppelin ia encerrar as atividades, pois não fazia sentido continuar sem Bonham.

E Robert Plant quer se manter fiel à essa mensagem. À memória de seu amigo.

Podemos culpá-lo?