Escrever revistas do Batman é para poucos, e nos últimos anos a tarefa esteve nas mãos de Tom King, cuja temporada no cavaleiro das trevas acabou que anunciar seu fim. Inicialmente prevista para durar 100 edições (ou seja, 100 meses) a temporada do escritor foi encurtada pela DC Comics e se encerrará no número 85.

Depois de chamar a atenção de público e crítica em revistas não-ortodoxas como o Visão na Marvel e o Senhor Milagre na DC Comics, esta última convidou Tom King para assumir Batman, a revista principal do homem-morcego em 2016, com a dificílima tarefa de suceder o escritor Scott Snyder, que passou cinco vitoriosos anos à frente da publicação, com grandes sagas de sucesso, como A Corte das Corujas, Ano Zero, Morte da Família, Fim de Jogo etc.

Tom King iniciou Batman com uma nova numeração, um novo número 01, em 2016, coincidindo com o início da fase Rebirth/ Renascimento e manteve o pique em alta. Seus primeiros arcos – Eu Sou Gotham, Eu Sou Suicida, Eu Sou Bane – chamaram a atenção de público e crítica com a disposição do escritor em tocar em pontos delicados do personagem e trazer uma abordagem nova do herói.

Em Eu Sou Suicida, por exemplo, coloca Bruce Wayne como um suicida em potencial, por meio do próprio personagem refletindo sobre sua condição de vigilante combatente ao crime que sai às ruas todas as noites pronto a morrer, e ainda, de um modo muito criativo, narrado através de uma correspondência entre o homem-morcego e Selina Kyle, a Mulher-Gato.

A relação entre o herói e a ladra foi o grande tema da etapa seguinte, com As Regras do Comprometimento e Noiva ou Ladra, histórias que trouxeram o Batman pedindo a mão da Mulher-Gato em casamento, os dois ficando noivos e chegando à beira do altar. O modo como conduziu essas histórias, analisando a psiquê de Bruce Wayne – e de Selina Kyle – foi muito bem construída também.

Porém, os dois não casaram, claro. A DC Comics não quis e nem aceitaria um movimento desse tipo num personagem tão valioso quanto o Batman e o gesto gerou algum desgaste aos leitores, que ficaram decepcionados.

Esta é uma lição que também deveria ser aprendida pelos produtores e roteiristas de Games of Thrones – e de Lost há mais tempo – de que mexer com a expectativa do público é algo muito perigoso. Isso gera ansiedade e ansiedade gera altas expectativas, que são difíceis de ser satisfeitas. Foi o que aconteceu nos três casos (as séries de TV e a HQ do Batman).

Ao “fazer de conta” que Batman e Mulher-Gato iriam casar, se criou uma expectativa impossível de cumprir e isso frustrou os fãs. Mesmo aqueles que já suspeitavam que a dupla não iria trocar mesmo as alianças.

Seja por isso ou pela má resolução da DC quanto ao Renascimento – que anda em círculos e a grande questão envolvendo o Batman especificamente, que é o mistério dos três Coringas, ainda ficou para ser resolvido em outra história, que não a revista mensal – só gerou cansaço nos leitores.

O anúncio da interrupção veio quase que em seguida a notícias de que as vendas de Batman vem declinando nos últimos meses.

Ao mesmo tempo, a notícia chega pouco depois da DC Comics anunciar City of Bane, na qual Batman enfrentaria o vilão numa história em que Tom King promete (via anúncio oficial) que iria mostrar o homem-morcego em toda a sua plenitude (após meses do personagem sendo “torturado” pelas histórias do escritor) e com a garantia de que Batman 75 irá mudar o cavaleiro das trevas por uma geração.

Ninguém sabe o que será, mas o que se diz é que a temporada de King na revista terminará em Batman 85, encurtando o previsto que seriam 100 edições sob o domínio do escritor.

Além das vendas, outras coisas podem influenciar a decisão da editora, como a má recepção dos leitores a outras obras de King na DC, como Heroes in Crisis, que transformou Wally West em um vilão.

Além disso, existem rumores de que King estaria trabalhando com a Marvel para adaptar seu arco de histórias do Visão na série de TV que o personagem terá ao lado da Feiticeira Escarlate no Disney+ e que se chamará WandaVision.