Nos últimos anos, a cidade de Liverpool, na Inglaterra, reconheceu sua vocação turística como a terra-natal dos Beatles e vem investindo em estruturas que possam atrair visitantes. Mais uma ganhará vida em 2021: o Conselho Municipal autorizou a criação do George Harrison Woodland Walk em homenagem ao membro da banda, George Harrison.

George Harrison no Concert For Bangladesh, em 1971.

O Woodland Walk será um bosque arborizado, com uma pequena trilha e a instalação de diversas peças artísticas, que sirva ao lazer e à contemplação, e ficará localizado na zona sul de Liverpool, ao longo do parque de Allerton Towers, bem próximo de onde o guitarrista nasceu e cresceu.

A novidade foi anunciada por Joe Anderson, prefeito de Liverpool, na terça-feira, dia 25 de fevereiro, data do aniversário do músico, em entrevistas ao Culture Liverpool , NME e ao The Guardian, onde disse que o Conselho Municipal aprovou a iniciativa depois de conversas e apoio de Olivia e Dhani Harrison, viúva e filho do ex-membro dos Beatles.

Foi aberto um edital para a participação de artistas que queiram contribuir com as peças que irão ser expostas no parque e as exigências são de que sejam estruturas permanentes, adaptadas ao ar livre, duráveis, resistentes às intempéries do tempo, que precisem de pouca ou nenhuma manutenção e que seja inspiradas na vida e na obra de Harrison, um artista de sensibilidade peculiar, gosto pelo humor tipicamente ácido dos britânicos, escritor de boas letras refletivas e místicas e adepto fervoroso de misticismo e de religiões orientais. Os candidatos podem se apresentar até 15 de abril próximo. A ideia é começar com algumas obras e ir aumentando seu número com o tempo.

A inauguração do memorial é prevista para março ou abril de 2021.

Liverpool possui o segundo maior porto da Grã-Bretanha, atrás apenas do de Londres, e foi uma cidade muito importante na balança comercial dos tempos áureos do Império e da Revolução Industrial. Nos dias de hoje, tem quase 500 mil habitantes. A cidade tem vários marcos turísticos relacionados aos Beatles, com várias estátuas espalhadas em locais estratégicos e sítios históricos visitáveis, como as casas em que John Lennon e Paul McCartney viveram na adolescência; o The Cavern Club em que a banda fez sua fama; e o The Beatles Story, o maior museu dedicado ao grupo. Recentemente, o Strawberry Field, parque que deu origem à famosa canção homônima, também abriu suas portas ao público.

Os Beatles em 1966.

Os Beatles se formaram em Liverpool, fundados por John Lennon, em 1956, como uma banda de garagem com amigos da escola, mas nos anos seguintes se formalizou com os companheiros Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. O quarteto estreou em disco em 1962 e no ano seguinte se tornou um fenômeno de popularidade na Europa, atingindo o sucesso nos Estados Unidos e no mundo em 1964. Inicialmente esnobados pela crítica musical, gradativamente, o grupo mudou o jogo, com as fortes canções de Lennon & McCartney, que revolucionaram a música popular e o rock, com suas abordagens melódicas e harmônicas, uso criativo do processo de gravação e difusão de mensagens de paz e amor, além de crítica social. No meio do processo, George Harrison também emergiu como um compositor destacado, e os Beatles entregaram obras revolucionárias como Sgt. Peppers (1967), The White Album (1968) e Abbey Road (1969). O grupo se separou em 1970 e cada um de seus membros conseguiu sucesso na carreira solo.

Harrison e Lennon em 1969.

George Harrison nasceu em Liverpool, em 25 de fevereiro de 1943, filho de uma numerosa família de irlandeses na zona pobre da cidade. Seu pai era motorista de ônibus e ele mesmo trabalhou como assistente de eletricista antes de poder viver exclusivamente da música. Harrison entrou para a banda que seriam os Beatles (ainda usando outro nome), em 1958, a convite do colega de escola Paul McCartney. Conhecendo mais acordes musicais do que McCartney e Lennon – e menos dotado da capacidade cantar, embora o fizesse – Harrison terminou assumindo a função de guitarra solo no grupo. Quando o grupo se tornou famoso, os solos de Harrison, embora simples, se destacaram pela melodiosidade e beleza. Mesmo permanecendo à sombra de Lennon & McCartney nas composições e nunca lançando mais do que duas canções por álbum, Harrison ainda produziu de sua pena alguns dos maiores clássicos dos Beatles, como Something, Here comes the sun e While my guitar gently weeps.

Nos anos 1980, o guitarrista se tornou um recluso.

Na carreira solo, curiosamente, Harrison foi o que mais fez sucesso nos anos imediatamente posteriores ao fim do grupo, em álbuns como All Things Must Pass (1970), Concert For Bangladesh (1971) e Living in the Material World (1973). Sua popularidade mingou no decorrer da década de 1970, porém, nos anos 1980 viveu outro surto de popularidade, como em discos como Somewhere in England (1981) e, principalmente, Cloud Nine (1987), além de ter feito um sucesso enorme como membro do supergrupo Travelling Wilburys, ao lado de Bob Dylan, Roy Orbison, Tom Petty e Jeff Lyne, que lançou dois álbuns, em 1988 e 1990.

Já doente, no fim da vida.

Nos últimos anos de sua vida, porém, Harrison viveu recluso e fora dos holofotes, não lançando nenhum álbum depois do fim dos anos 1980. Ele revelou uma batalha contra o câncer, em 1998, e ainda sofreu um atentado em 1999, quando um fã com distúrbios mentais invadiu sua casa e o esfaqueou. Harrison terminou falecendo de um câncer no cérebro em 29 de novembro de 2001, aos 58 anos.

Averso à fama que adquiriu, Harrison gostava de dizer que era essencialmente um jardineiro, e esse era o seu maior passatempo enquanto vivia em sua suntuosa casa em Henley on Thames, próximo a Londres. Daí, a inauguração de um bosque e um jardim rodeados de arte caem muito bem à sua memória.