O diretor de vídeos musicais (e várias vezes ganhador do Grammy) Jonas Akerlund irá comandar uma cinebiografia do empresário dos Beatles, Brian Epstein. Um dos primeiros grandes empresários do rock, Epstein criou não apenas uma usina de sucessos, mas um celeiro de astros que reuniu vários artistas além do quarteto de Liverpool. Judeu e homossexual, ele viveu uma vida atormentada numa época em que ser gay era considerado crime no Reino Unido.

A produção tem o título de Midas Man – em referência ao rei Midas, da mitologia grega, que transformava em ouro tudo o que transformava – a vida de Epstein parece ser um grande veículo para Akerlund. Em entrevista à Variety, ele diz:

A história de Brian Epstein tem tudo o que estou procurando em uma história. É tudo sobre a singularidade de Brian para mim. Eu amo como Brian parecia saber cada passo do caminho que ninguém mais sabia. Sua visão era impressionante, ele criou uma cultura que não existia. O filme é mais como excursionando a mente de Brian e é mais sobre como era ser ele do que uma coisa levar a outra cronologicamente. Eu quero trazê-lo de volta à vida!

Akerlund tem um rico currículo na área musical, tendo trabalhado com Paul McCartney (ex-membro dos Beatles), Rolling Stones, Ozzy Osbourne, Metallica e U2, além de nomes do pop.

Brian Epstein e Martin: parceria de negócios.

Esta não é a primeira produção sobre Epstein – existem alguns filmes em curta e média metragem no Reino Unido – e ficou bastante conhecido o projeto chamado The Fifth Beatle (o quinto beatle), baseado na graphic novel que contou a história do empresário em quadrinhos, que seria dirigido em 2013 por Peyton Reed (de Homem-Formiga), mas que terminou desandando.

Midas Man é produzida por Trevor Beattie e será filmada em Londres, Liverpool e nos EUA, com lançamento previsto para 2021.

Brian Epstein nasceu em Liverpool, na Inglaterra em 1934, filho de um casal de judeus que emigraram da Lituânia no fim do século XIX. Seu pai veio em condições bem difíceis, mas terminou enriquecendo através da empresa NEMS (North End Music Stores), uma loja de discos e instrumentos musicais. Brian era um jovem de olhar artístico e chegou a estudar teatro antes de ser “obrigado” pelo pai a continuar os negócios da família.

Brian tinha um irmão mais novo, Clive, que era seu braço direito, e se descobriu homossexual numa época difícil: ser gay era crime no Reino Unido de então, e caso fosse pegue poderia ser preso.

Foi à frente da NEMS, em 1961, que Epstein percebeu a crescente demanda por um disco de uma banda chamada The Beatles gravado na Alemanha: era o single My Bonnie, na qual o grupo aparecia apenas como banda acompanhante do cantor Tony Sheridan (também de Liverpool, mas radicado em Hamburgo). Curioso, descobriu que os tais Beatles tocavam todos os dias na hora do almoço no The Cavern Club, um pub que estava na mesma rua da loja, na Matthew Street, no centro da cidade. Em outubro daquele ano, Epstein desceu os dois lances de escada até o porão subterrâneo onde ficava o Cavern e viu os Beatles tocando freneticamente para uma plateia tão elétrica quanto.

Paul McCartney e John Lennon tocando no Cavern Club.

Enxergando um grande potencial ali, Brian se apresentou se ofereceu para empresariar o grupo, embora nunca tenha feito nada parecido. O grupo ficou um pouco ressabiado, mas aceitou. Ele conseguiu uma gravação de teste com a gravadora Decca, de Londres, a segunda maior do país, que o grupo realizou na noite de ano novo de 1962. Mesmo dispensados pela Decca, aquilo mostrou que sabia o que estava fazendo. Após mais algumas tentativas, os Beatles foram contratados pelo selo Parlophone, do produtor George Martin, parte da poderosa EMI Records, a maior das gravadoras.

Epstein “disciplinou” os Beatles, tirando-os das roupas de couro preto que usavam e adotando o terno tradicional que o restante dos músicos usavam. Mas permitiu que a banda ostentasse sua grande marca visual de então: os cabelos longos. Além disso, dava total liberdade artística aos Beatles, estimulando que a dupla John Lennon e Paul McCartney compusessem seu próprio material, no que foram, obviamente, bem sucedidos. Também teve a sagacidade de criar a Northern Songs, uma editora musical exclusiva para administrar as canções de Lennon & McCartney, da qual se tornou sócio.

Epstein cometeu erros e alguns historiadores acham que poderia ter sido mais ambicioso ao negociar os contratos dos Beatles, mas sem dúvidas, estava trilhando um caminho – como disse o diretor Akerlund – que ninguém havia trilhado. Até então, existira apenas o “Coronel” Tom Parker de Elvis Presley, mas era nos EUA e não havia informação naqueles tempos como há hoje. Epstein teve que descobrir sozinho como criar um império musical e cavar o caminho para que os Beatles se tornassem não apenas a banda de maior sucesso da época, mas o maior fenômeno musical de massas do século XX.

Os Beatles chegam aos EUA em 1964, com Epstein.

Claro, é possível que os Beatles chegassem no topo sem Epstein, apostando apenas no seu talento musical, porém, sem dúvidas, seria bem mais difícil sem o direcionamento “certinho, mas acertado” do empresário. Com cada passo por vez, ajudou os Beatles a conquistarem a Inglaterra, depois, o Reino Unido, a Europa em seguida, e finalmente, em 1964, os Estados Unidos, cuja explosão e superexposição garantiu sucesso no mundo inteiro. Epstein criou uma estrategia curiosa de fazer os Beatles irem aos EUA em fevereiro daquele ano se apresentarem no programa de TV de Ed Sullivan (a maior audiência do país na época), mas não fazer uma turnê propriamente dita, apenas 4 aparições televisivas e dois concertos (em Washington, DC e Nova York) como uma forma de criar demanda. Deu certo! Epstein organizou aquela que foi durante muito tempo a maior turnê da história para a banda nos EUA, em agosto, com um sucesso estridente.

Aliás, talvez, organizar turnês fosse o esporte favorito de Epstein e ele exerceu essa função alegremente com os Beatles. Infelizmente, a banda se encheu daquilo, pois tocava para plateias histéricas, que gritavam o tempo todo e tão alto que os gritos se sobrepunham ao som da banda, que ainda não gozava, pela época, de suficiente tecnologia para produzir uma parede sonora massiva em cima do público como aquela que surgiria por volta de 1969.

Bem antes disso, os Beatles realizaram seu último concerto oficial, em agosto de 1966. Dali em diante, se focaram no trabalho em estúdio, gravando discos.

Epstein não sentou no louro dos Beatles: assim que a banda estourou em 1963, passou a empresariar um time de grupos de Liverpool através da NEMS, como Gary and the Peacemakers, Cilla Black, Billy J. Kramer & the Dakotas, The Fourmost e alguns outros, e conseguiu sucesso com todos eles, ainda que a maioria fossem pálidas imitações dos Beatles.

Um jovem de 19 anos chamado Andrew Loog Oldham trabalhou com Epstein em 1963 e ao assistir um show dos Rolling Stones em um bar viu que era sua chance de replicar o que o patrão fez. Oldham criou uma imagem “selvagem” dos Stones se opondo aos Beatles – embora, Oldham e os Stones fossem, na verdade, grandes amigos dos Beatles – e isso deu muito certo.

Mandatory Credit: Photo by DAVID MAGNUS/REX/Shutterstock (20093ag) Brian Epstein, George Martin and Geoff Emerick The Beatles at Abbey Road Studios for the ‘Our World’ live television broadcast, London, Britain – 25 June 1967

Mas a febre dos artistas de Liverpool passou – apenas Cilla Black persistiu com alguma notoriedade – e com o fim das turnês dos Beatles, Epstein ficou sentindo que meio não tinha mais o que fazer. Um de seus projetos paralelos foi fundar o The Saville Theatre, uma pequena casa de shows que lançou uma série de artistas à notoriedade, como o Cream de Eric Clapton e o The Jimi Hendrix Experience. Seu parceiro nessa empreitada foi Robert Stigwood, que a partir dali se tornou um importante empresário também comandando as carreiras de Cream e Eric Clapton, além de Bee Gees.

Dizem que esta é a última foto de Epstein com os Beatles, em uma sessão em Abbey Road, em 1967.

Aqueles que conheciam Epstein diziam que ela achava que sua vida estava vazia. O empresário ainda lançou a ideia de lançar a Apple Corps., uma empresa para concentrar as atividades artísticas dos Beatles, o que aconteceria depois de sua morte.

Epstein morreu de uma overdose acidental de drogas e medicamentos em 27 de agosto de 1967, quando tinha 32 anos.

Os Beatles tinham lançado o álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, seu maior sucesso até então dois meses antes. A banda decidiu seguir sem um empresário e terminaria por se desligar de Clive Epstein e da NEMS, a partir da criação da Apple Corps., em 1968. Mas os problemas com os negócios levaram o grupo a contratar o empresário dos Rolling Stones, Allen Klein, em 1969, antes de encerrarem as atividades em 1970.