A franquia dos X-Men produzida pela 20th Century Fox foi encerrada definitivamente em 2019 com o lançamento de X-Men – Fênix Negra e completou 20 anos em 2020. Mas marcou época como o ato inaugural da incrível fase de adaptação dos super-heróis e das histórias em quadrinhos ao cinema. Por isso, o HQRock traz um Dossiê Especial com TODOS OS FILMES da franquia!

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Os X-Men da Fox.

Ao mesmo tempo em que acumulou críticas por não ser muito fiel aos quadrinhos e desrespeitar elementos essenciais dos personagens e de suas histórias, a saga dos X-Men nos cinemas também deixou muitos fãs, fez sucesso, virou referência e rendeu a vinculação de alguns bons atores aos personagens que interpretavam, como Hugh Jackman como Wolverine, Patrick Stewart como Xavier e Michael Fassbender como Magneto.

Como a cronologia dos longametragens é uma bagunça mesmo, vamos apresentá-los na ordem em que foram filmados, fazendo referências de como se encaixam em uma pretensa cronologia e mostrando como foram produzidos, filmados e os impactos que tiveram. O HQRock já tem um Dossiê para falar especificamente da cronologia dos filmes, acesse aqui.

Então, ajuste seu visor de quartzo de rubi ou ponha suas garras de adamantium para fora, vista uma roupa preta de couro, embarque em um jato preto e mergulhe no mundo (não tão fabuloso) dos Fabulosos X-Men nos cinemas!

Wolverine e Xavier no primeiro filme.

Antecedentes

Adaptar super-heróis ao cinema não é uma novidade. Na verdade, os heróis das HQs são levados às telas desde o início dos anos 1940, com seriados para o cinema de Batman, Capitão América, Capitão Marvel (Shazam) e Superman. Nos anos 1960, 70 e 80 veio outra leva, agora na TV, com Batman, Mulher-Maravilha, Shazam, Hulk, Homem-Aranha, Capitão América e vários outros. Infelizmente, a maioria dessas produções eram baratas e mal feitas, pois produtores e emissoras não levavam os personagens a sério e queriam lucro fácil.

Uma nova era surgiu de dentro dessa: lançado em 1978, Superman – O Filme, dirigido por Richard Donner, mostrou que havia profundidade, beleza, poesia e diversão nos personagens de quadrinhos. Foi um sucesso arrebatador de público, a crítica adorou e ele até ganhou o primeiro Oscar de Efeitos Especiais oficialmente estabelecido (um ano antes, Star Wars tinha ganho um, mas era um prêmio honorário, pois não existia essa categoria). Mas essa nova era foi mais promessa do que realização: o homem de aço ganhou outros três filmes, cada um com menos qualidade do que o anterior; e até a Supergirl ganhou um longa péssimo.

A bola subiu outra vez em 1989, com Batman – O Filme, de Tim Burton, que tal qual seu amigo das HQs, foi sucesso de público e crítica, dessa vez tendo até ganhando o Oscar Melhor de Direção de Arte; além da performance arrebatadora de Jack Nicholson como Coringa. A coisa parecia que ia engatar de vez, pois Batman – O Retorno, de 1992, pode até ter feito menos sucesso, mas foi ainda mais adorado pela crítica e cristalizou algumas imagens bastante icônicas na memória do grande público, como a sensual e letal Mulher-Gato de Michelle Pfeiter e o assustador e grotesco Pinguim de Danny DeVito.

O constrangedor trio de Batman & Robin: Sem comentários.

Mas também não era daquela vez: com a saída de Tim Burton do comando da franquia – pois o estúdio o considerava radical demais – os filmes seguintes do homem-morcego foram um horror completo! Batman & Robin, de 1997, foi tão ruim, mas tão ruim, que praticamente colocou uma pá de cal no gênero de super-heróis. Nenhum estúdio queria mais investir nele depois disso.

A Nova Era dos Filmes de Super-Heróis

Olhando em retrospecto, a mudança veio até rápida. Em 1998, houve um pequeno ensaio: Blade – O Caçador de Vampiros adaptava um personagem super obscuro da Marvel Comics em uma produção de baixo orçamento e fez um sucesso considerável. Não foi um arrasa-quarteirão, mas emplacou bem no segmento de público fã de filmes de ação (herdeiros da safra de Sylvester Stallone, Arnold Schwaznegger e Jean-Claude Van Damme), mostrando que os heróis podiam emplacar. Se deu certo com um personagem desconhecido, o que aconteceria com um famoso?

É aí que entram os X-Men (e Wolverine!).

O time de heróis mutantes era um arrasa-quarteirões nas HQs. Criados em 1963 por Stan Lee e Jack Kirby, os X-Men passaram uma década como personagens do terceiro escalão da Marvel, até a reinvenção da equipe em 1975 comandada pelos escritores Roy Thomas (editor), Len Wein (criador) e Chris Claremont (desenvolvedor) mais o desenhista Dave Crockum (com auxílio de John Romita e Gil Kane) tornou os X-Men uma revista interessante. Em 1977, quando Chris Claremont uniu as forças com o desenhista John Byrne, os “mutunas” viraram um fenômeno de vendas, virando o maior sucesso da Marvel e quebrando a hegemonia de duas décadas do Homem-Aranha! Não era pouca coisa. Nos anos 1980, o sucesso dos heróis só aumentou, levando suas vendas à estratosfera e começando a tornar aqueles antes obscuros personagens em figuras reconhecíveis fora do circuito nerd-geek de leitores de HQs.

Capa tripla de “X-Men 01” por Claremont e Lee: recorde imbatível de vendas.

Os anos 1990 chutaram a porta: uma nova revista mensal chamada X-Men foi lançada em 1991 e o primeiro número vendeu oito milhões de cópias!!!!! É o recorde absoluto de sucesso de uma HQ em toda a história! Pouco depois, em 1992, estreou o desenho animado da equipe na TV e foi um sucesso estrondoso. Toda uma geração de fãs nasceu tomando o primeiro contato com os mutantes através de suas versões em movimento na telinha.

Mas o sucesso tem seu preço. Uma série de decisões equivocadas e má gestão levaram a Marvel Comics a entrar em processo de falência e pedir concordata em 1997! A ToyBiz, empresa parceira que produzia bonecos articulados, terminou por comprar a editora e seu grupo (a Marvel Entertainment) e no afã de gerar capital terminou vendendo a preço de banana os direitos de adaptação dos heróis da Marvel para vários estúdios diferentes. A Columbia Pictures já tinha os direitos do Homem-Aranha desde o fim dos anos 1980, mas uma disputa judicial impediu que o usassem até exatamente esse período. A 20th Century Fox comprou um pacote com vários personagens: os X-Men, Quarteto Fantástico, Demolidor e Motoqueiro Fantástico, cada qual com seu universo particular. A Universal comprou Hulk e Namor, o príncipe submarino. A Paramount, Capitão América, Homem de Ferro e Thor.

O fracasso concomitante de Batman & Robin, também em 1997, e as más lembranças com a franquia do Superman deixavam os estúdios temerosos e a maioria estava disposto a prosseguir com o modelo dos anos 1960-70: filmes baratos para lucro fácil. A coisa mudou de figura quando Richard Donner e sua esposa, Lauren Shulen Donner, entraram na jogada dispostos a investir à sério em um dos produtos da Fox: os X-Men. Com a chegada de um diretor em ascensão chamado Bryan Singer, a coisa, então, turbinou!

X-Men – O Filme encontrou resistências dentro da Fox e até mesmo do elenco em ser visto como algo sério, mas o esforço de Donner, Shullen e Singer deu frutos: classificado como uma ficção científica, o longametragem foi lançado em 2000 e fez muito sucesso na época, chamando a atenção dos críticos para sua seriedade, clima sombrio e referências políticas enrustidas por trás da metáfora dos mutantes perseguidos em um mundo preconceituoso, que remete, claro, à questão étnica que também inspirou Stan Lee e Jack Kirby a criar os X-Men em 1963, fazendo uma clara analogia de Charles Xavier e Magneto com Martin Luther King e Malcolm X e as visões ideológicas de cada um, a saber, um sonho de convivência pacífica mais colaboração versus a supremacia e a imposição.

O sucesso de X-Men – O Filme deu início, então, a Nova Era dos Filmes de Super-Heróis, incentivando os estúdios a investir no filão de um modo diferenciado. O Homem-Aranha lançado em 2002 apenas confirmou o novo momento. Os mutantes e o teioso ainda provaram uma velha teoria (elaborada quando do fracasso da franquia do homem de aço): os filmes realizados com seriedade e fidelidade ao material original eram aqueles que conseguiam os melhores retornos, tanto de sucesso quanto de aclamação.

Por isso, quem não seguiu a nova regra – Demolidor – O Homem Sem Medo, Elektra, O Justiceiro, Motoqueiro Fantasma, Mulher-Gato – se deram muito mal e afundaram em prejuízos. [Hulk, de 2003, é a exceção que confirma a regra]. Quem manteve os princípios só teve a ganhar, casos dos mutantes e do aranha, mas também de Batman nas mãos de Christopher Nolan.

Entendendo a importância e o pioneirismo da franquia dos X-Men no cinema, vamos aos filmes propriamente ditos.

Ah, e não custa dizer. Os comentários estão REPLETOS DE SPOILERS! Portanto, cuidado!

Levando os mutantes aos cinemas

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X-Men: fenômeno editorial no fim dos anos 1980. Arte de Jim Lee.

Assim como vários de seus outros personagens, a Marvel passou décadas tentando levar os X-Men às telas. A primeira empreitada séria nesse sentido se deu em 1984, quando a Marvel Comics fechou um acordo com a Orion Pictures para adaptar os mutantes e os escritores de quadrinhos Gerry Conway e Roy Thomas foram comissionados a produzir um tratamento de roteiro para o filme. Thomas havia escrito as histórias dos mutantes nos anos 1960 (inclusive, a célebre fase ao lado do desenhista Neal Adams) e também o editor responsável por trazê-los de volta no meio dos anos 1970. Conway nunca tivera nenhum envolvimento com os mutantes, mas era um grande narrador com fases clássicas de Homem-Aranha, Capitão América e Quarteto Fantástico nas mãos. O roteiro foi feito, mas o estúdio acabou indo à falência antes do projeto deslanchar.

Winner of Best Director and Best Motion Picture of 2009, Kathryn Bigelow poses backstage during the 82nd Annual Academy Awards at the Kodak Theatre in Hollywood, CA on Sunday, March 7, 2010.

Então, 1989, Stan Lee (o Publisher da Marvel) e Chris Claremont (principal escritor dos mutantes nas HQs) entraram em contato com o diretor James Cameron (de O Exterminador do Futuro) que se interessou no projeto. O acordo foi fechado com a Carolco (estúdio que fez os dois primeiros O Exterminador do Futuro), e ficou decidido que Cameron iria produzir o filme e sua então esposa Kathryn Bigelow (mais tarde vencedora do Oscar por Guerra ao Terror) iria dirigir e até produziu um tratamento de roteiro, mas o projeto também não foi adiante, tanto porque Cameron ficou mais interessado em adaptar o Homem-Aranha (projeto que foi bem adiante, embora nunca realizado), quanto porque a Carolco também faliu (os anos 1980 foram bastante difíceis para os estúdios).

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O desenho dos X-Men: sucesso e uma nova geração de fãs.

Os direitos de adaptação dos X-Men ao cinema voltaram à Marvel de novo, após a falência da Carolco, e Stan Lee conseguiu convencer o canal Fox Kids a produzir um desenho animado baseado nos mutantes. X-Men – The Animated Series estreou em 1992, com design de personagens baseados na fase liderada pelo desenhista Jim Lee, em voga na época.

Nos anos 1990, o mercado de quadrinhos passou de seu maior momento para o pior em poucos meses. A década iniciou com uma sequência de revistas que venderam mais de 1 milhão de cópias (números só atingidos antes na década de 1940!) e grandes sucessos, como Homem-Aranha e X-Men. A revista já citada X-Men 01 de Chris Claremont e Jim Lee vendeu 8 milhões de cópias em 1991! Mas tamanho sucesso gerou um mercado especulativo e as vendas subiram muito para a saturação total do mercado e a queda brusca nas vendas. No meio desse processo, em 1993, a Marvel Entertainment Group se associou ao grupo empresarial formado pelo investidor Ike Perlmutter e o empresário Avi Arad, que eram sócios da ToyBizz (empresa de brinquedos).

Avi Arad virou um dos donos da Marvel.

Na busca por melhorar as finanças em declínio, Arad capitalizou a criação do Marvel Studios para investir no cinema. Mesmo com a má situação financeira da empresa, os organismos de controle autorizaram a fundação do braço cinematográfico em 1996, na qual Arad ficou como o primeiro presidente.

O investimento da Marvel no setor de cards (tão populares nos EUA) e o esgotamento do mercado especulativo nas HQs fizeram a empresa começar a perder dinheiro, resultando num pedido de falência em 1997. Liderando a retomada, o grupo empresarial formado por Ike Perlmutter, Arad e a ToyBizz, comprou a maioria das ações e se tornaram donos majoritários da Marvel.

Uma estratégia de capitalização da empresa foi vender os direitos de adaptação cinematográfica de seus personagens aos grandes estúdios, o que deu bastante dinheiro à Marvel para se recuperar.

Mas a Fox já era dona dos direitos cinematográficos dos X-Men. O sucesso imediato do desenho animado dos mutantes em 1992, motivou Avi Arad a uma agressiva negociação com o estúdio e o acordo foi fechado já em 1993. Provavelmente, tal aquisição foi o grande motivador para Arad criar o Marvel Studios três anos depois, exatamente quando a produção do filme dos mutantes começou a se movimentar de verdade.

Lauren Shuler Donner, produtora dos filmes dos X-Men.

A produção de X-Men – O Filme

Dentro da Fox, a produção de X-Men foi passada à produtora Lauren Shulen Donner, esposa e sócia do diretor Richard Donner, famoso por ter realizado Superman – O Filme, em 1978. A escolha se deu justamente por causa dessa experiência anterior com os super-heróis. O staff da produtora já tinha dois nomes que teriam grande importância nos super-heróis e suas adaptações, que eram Kevin Feige e Geoff Johns, com o primeiro trabalhando diretamente no projeto do filme.

Andrew Kevin Walker foi o primeiro contratado para escrever o roteiro e produziu uma peça em que os X-Men combatiam a Irmandade de Mutantes de Magneto e eram perseguidos pelos Sentinelas. Ao que consta, em termos de personagens, este texto focava na rivalidade entre Wolverine e Ciclope e nas dúvidas deste enquanto líder de campo, ao mesmo tempo em que Magneto teria sido o responsável pelo desastre de Chernobyl; e Henry Peter Gyrich e Bolivar Trask eram os responsáveis pelos Sentinelas.

Porém, no típico processo de Hollywood, uma fila de outros escritores foram contratados para adicionarem elementos ao roteiro, dentre os quais, Ed Solomon (de Homens de Preto), John Logan (de O Gladiador), James Schamus (O Tigre e o Dragão) e Joss Whedon (futuro diretor de Os Vingadores), embora nenhum deles tenha ganho créditos no final. A Fox ainda não ficou satisfeita e Michael Chabon foi contratado para resumir tudo em um tratamento de seis páginas, que entregou em 1996, com uma história em que Wolverine e Jubileu eram introduzidos nos X-Men e o filme seria um grande desenvolvimento de personagens, com grandes tensões, mas sem vilões.

Bryan Singer.

O produtor Tom DeSanto ficou responsável por encontrar um diretor para o filme e seu primeiro convidado foi Bret Ratner (de A Hora do Rush e que anos mais tarde dirigiria X-Men – O Confronto Final), que recusou. Depois, Robert Rodriguez (de A Balada do Pistoleiro e Sin City) também foi convidado, mas também recusou. Ao mesmo tempo, Bryan Singer tinha feito bastante sucesso com Os Suspeitos, 1995, e estava prestes a filmar O Aprendiz (estrelado por Ian McKellen). Prosseguindo sua parceria com a Fox, Singer estava interessado em fazer uma ficção científica e estava estudando a proposta de dirigir Alien – A Ressurreição, mas foi convencido por Tom DeSanto de que os X-Men seriam melhores para o diretor.

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Primeiras versões do roteiro colocavam rivalidade entre Ciclope e Wolverine como central.

 

Bryan Singer assinou o contrato em 1996 e trouxe consigo o roteirista Christopher McQuarrie (que tinha trabalhado em seus três filmes). Ainda assim, a Fox exigiu um tratamento de Singer e DeSanto antes que McQuarrie pegasse o texto. Singer e DeSanto aproveitaram vários elementos das versões anteriores (especialmente, a de Chabom), mas trocaram Jubileu por Vampira, porque esta tinha poderes mais dramáticos (e também era mais popular por causa do desenho animado). Também trouxeram de volta a ideia de opor os X-Men à Irmandade de Mutantes de Magneto, mas dessa vez, moveram o conflito de Wolverine-Ciclope para Xavier-Magneto.

Lauren Shulen deu a versão do roteiro de Joss Whedon para Singer, mas havia humor, e o diretor queria algo mais dramático e sério e terminou por usar apenas duas frases de diálogo do texto.

No fim, o roteiro “quase final” era um mix das versões de Christopher McQuarrie e Ed Solomon, mas por algum motivo, Singer trouxe David Hayter como um terceiro elemento para polir e finalizar o texto. Hayter estava apenas iniciando sua carreira como roteirista, tinha se destacado no Festival de Sundance no ano anterior com seu roteiro para Burn, mas era mais conhecido como dublador (inclusive, tinha feito o Capitão América nas participações do desenho animado do Homem-Aranha), mas faria vários outros filmes no futuro, inclusive, Watchmen de Zack Snyder.

O próprio Hayter contou, anos mais tarde, que Singer o contratou oficialmente como auxiliar de escritório e como Hayter era um grande fã dos X-Men, pediu que ele escrevesse o roteiro (a partir da versão de McQuarrie e Solomon) em segredo. Depois, o produtor associado Ralph Winter levou a informação ao gerente de produção Peter Rice, alertando ao risco jurídico de alguém não contratado estar trabalhando no texto. Rice pagou 35 mil dólares para Hayter como um “cala boca”.

Porém, McQuarrie e Solomon ficaram irritados com a inclusão “ilegitima” de Hayter – fontes discordam qual o amonte real das contribuições do último – e ativaram o Sindicato dos Roteiristas para intervir, mas no fim das contas um acordo foi feito. Mas McQuarrie e Solomon eram dois roteiristas em ascensão e famosos, então, num arroubo de orgulho solicitaram que seus nomes fossem retirados dos créditos, o que lhes fez perderem milhões de dólares.

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O Fera era para aparecer desde o início, mas sempre cortado por causa do orçamento. Arte de Jim Lee.

A versão final do roteiro sugeria um orçamento de US$ 75 milhões, o que ultrapassava o teto de 60 milhões estabelecido pela Fox, por isso, Singer teve que cortar Fera e Noturno (dos X-Men) e Pyro (da Irmandade) do filme, bem como a Sala de Perigo. Com as filmagens marcadas para 1999, Shulen, DeSanto e Singer saíram em busca do elenco.

A Reunião do Elenco

Desde o início, o roteiro sugeria como personagens principais Xavier, Magneto e Wolverine, de modo que começou a caça aos atores para preencher tais vagas.

A notícia da produção de um filme dos X-Men moveu bastante o terceiro escalão de Hollywood: o cantor Michael Jackson, por exemplo, um fã de quadrinhos, fez lobby para interpretar o professor X; enquanto Shaquille O’Neil pediu para interpretar o mutante Forge, que não estava no roteiro do filme; e Mariah Carey queria um papel no filme, talvez a Tempestade.

O caso de Michael Jackson foi o mais hilário: o cantor visitou os escritórios da Fox e se negando a apertar a mão de qualquer pessoa, pois não gostava de contato, e pedindo diretamente à produtora Lauren Donner para pegar o papel de Xavier. A produtora lhe disse que Xavier era um homem branco, velho e careca, mas Jackson disse que podia usar maquiagem e próteses. Claro, ninguém levou a solicitação a sério.

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Magneto: o principal vilão.

Muitas curiosidades sobre o elenco ocorreram. A Fox queria Terence Stamp (o Zod de Superman II) para viver Magneto, mas Singer preferiu escalar Ian McKellen, com quem tinha trabalhado no seu filme anterior, O Aprendiz. McKellen, um ator de teatro britânico, famoso por papeis como Ricardo III de Shakespeare, trouxe muita respeitabilidade ao projeto.

A icônica versão de Zod de Terence Stamp.

Mas Stamp chegou a conversar com os produtores e quando Patrick Stewart negou o papel de Xavier, Stamp disse ao roteirista David Hayter que Stewart havia negado porque não queria ficar confinado à cadeira de rodas, mas que ele não teria esse problema e que aceitaria o papel. Os Donners – que haviam trabalhado com Stamp em Superman, onde ele viveu o vilão Zod – gostaram muito da ideia, mas Singer e a Fox preferiram mesmo Stewart, que após algum trabalho de convencimento – e motivado pelo aceite de seu grande amigo McKellen – concordou. Ainda mais porque o foco do filme seria a amizade-rivalidade entre Xavier e Magneto.

Patrick Stewart fora escolhido como Xavier após sua participação em A Teoria da Conspiração, que fora dirigido pelo também produtor de X-Men, Richard Donner.

Quem iria fazer Ciclope era Jim Caviezel (de A Última Paixão de Cristo), mas a agenda do ator se chocou com Alta Frequência e foi trazido James Mardsen. Angella Bassett foi convidada para ser a Tempestade, mas declinou. A Fox queria Charlize Teron para viver Jean Grey, mas ela recusou o papel.

Dougray Scott (aqui ainda no início dos anos 2000) seria Wolverine.

A primeira opção para Wolverine era o ator australiano Russell Crowe (de O Gladiador), mas este declinou do convite e indicou seu amigo (também australiano) Hugh Jackman para o papel. Ainda assim, Singer escolheu Dougray Scott para viver Logan no filme e o ator até assinou o contrato. Contudo, Scott sofreu um acidente de motocicleta enquanto filmava Missão Impossível II, o que o levou a ser hospitalizado e atrasar as filmagens deste, de modo que ficou impossível participar de X-Men. Assim, a fila andou para o segundo lugar e Hugh Jackman foi contratado para fazer Wolverine, no que seria o seu primeiro papel em Hollywood.

Mas a produção já tinha iniciado e Jackman, um sujeito magro, teve que fazer uma dieta maluca para ganhar musculatura em apenas algumas semanas e chegando aos sets quando as filmagens já rolavam há três semanas! Por causa disso, as cenas de Logan sem blusa foram gravadas apenas no fim das filmagens, para que Jackman estivesse com uma melhor forma física. E em duas sequências – na jaula do Clube de Luta e na mesa médica em que é analisado por Jean Grey – foram usados dublês de corpo mais musculosos.

As filmagens ocorreram no segundo semestre de 1999, em Toronto, no Canadá. A produção começou relativamente tranquila, pois a data de lançamento era para o natal de 2000, porém, quando Steve Spielberg teve que abandonar os planos de lançar Minority Report no verão daquele ano, porque foi destacado para concluir o filme Inteligência Artificial que foi deixado inacabado por Stanley Kubrick, a Fox decidiu preencher a data do meio do ano com X-Men, o que fez com que a pós-produção ocorresse de forma apressada para conseguir cumprir o prazo.

As Filmagens

Fazer os filmes de modo apressado, com prazos estourados se tornaria a marca maior dos X-Men da Fox.

Hugh Jackman como Wolverine: por pouco.

A produção teve alguns problemas. O primeiro, já citado, foi o fato de que o acidente de Dougray Scott deixou o filme sem Wolverine quando as filmagens começaram. Hugh Jackman terminou sendo uma incrível adesão e o papel rendeu sua carreira e “fez” a própria franquia, mas foi por pouco.

Lauren Shuler Donner and Bryan Singer during Women In Film presents: “FILM BRINGS US THE WORLD” – The 2006 Crystal + Lucy Awards at The Century Plaza Hotel in Century City, CA, United States. (Photo by E. Charbonneau/WireImage for PMK/HBH)

Outra questão foram conflitos entre a visão de Bryan Singer e Lauren Donner. Donner queria uma abordagem realista e que reverberasse conflitos do mundo real, como nas HQs, já que Stan Lee e Jack Kirby criaram os X-Men como um tipo de espelho das tensões raciais dos EUA nos anos 1960. Singer comprou a ideia, embora como era homossexual, transformou a tensão e o sentido de segredo do filme mais associados à sexualidade.

Contudo, Donner queria que o filme se mantivesse fiel aos quadrinhos dentro do que possível, e Singer não estava muito interessado nisso. O diretor não só não conhecia as HQs como também não estava muito preocupado em manter a “essência” dos personagens em favor de suas escolhas cinematográficas.

Inclusive, Singer proibiu que HQs dos X-Men entrassem nos sets para que não influenciassem o resultado final.

Halle Berry como Tempestade.

Isso levou a uma série de escolhas que chatearam os fãs: Ciclope, o grande líder dos X-Men, teve um papel diminuto no filme e não inspira liderança por causa do roteiro, apesar da boa performance de James Mardsen, que tem pouco material com o que trabalhar; Tempestade, outra personagem de muito destaque nas HQs, ganhou uma atriz relativamente conhecida na época, Halle Berry, mas também não tem o que fazer no filme; Wolverine e Dentes de Sabre se encontram e aparentemente não se conhecem; e o problema que se tornaria endêmico da saga, que é o total centralismo em torno de Wolverine, ainda que isso não seja tão determinante no primeiro filme.

A relação tensa entre Ciclope, Jean Grey e Wolverine, causado pelo interesse sexual deste por ela, aparece no filme, mas o roteiro toma o partido de Logan, tratando Scott como um careta chatinho; e mostrando Jean em uma posição apática na disputa. Uma cena sugere a personagem encantada com o físico de Logan sem blusa em cima de uma maca – ela é retratada como médica – mas a performance de Frank Jamssen não deixa isso muito claro e a coisa não se desenvolve.

Kevin Feige, Tom DeSanto, Ian McKellen e Bryan Singer.

A postura de Bryan Singer, indiferente à bagagem das HQs preocupou a produção e isso motivou Lauren Donner a colocar como seu braço direito dentro do filme o jovem produtor Kevin Feige, o futuro presidente do Marvel Studios, mas ali, bem no início de sua carreira. Feige era fã da Marvel e um grande conhecedor dos quadrinhos e ocupou o papel de defender a visão original dos personagens e suas características principais dentro do filme, mesmo que sua voz não fosse majoritária.

De qualquer modo, ao fim da produção de X-Men, Feige foi contratado por Avi Arad para trabalhar no Marvel Studios, e já em 2000, se tornou o vice-presidente do estúdio. Feige continuaria envolvido nos filmes dos X-Men dali em diante, mas agora, pelo time da Marvel.

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Cartaz de X-Men – O Filme.

Além disso, nos últimos anos vêm surgindo relatos do comportamento errático de Bryan Singer no set, como alguém grosseiro, impaciente, que destratava os atores e que chegava a abandonar as filmagens por alguns dias ou interromper as filmagens por causa de arroubos nervosos.

O relato mais contumaz em relação ao primeiro filme era Rebecca Romijn-Stamos passar horas na cadeira de maquiagem para assumir a aparência de Mística e Singer, sem motivo aparente, dispensar o trabalho da atriz naquele dia.

Mas Singer ficou mais famoso nos últimos anos pelas denúncias de abuso sexual e estupro de jovens meninos. E indícios fortes desse comportamento começaram a aparecer já nos tempos de produção de X-Men. Singer empregou seu então namorado, Adam Robitel (mais tarde, ele também diretor) como um extra nas filmagens, o que foi uma forma de fazer o estúdio pagar pela passagem de Robitel de Los Angeles até Toronto para acompanhar as filmagens. E não parou por aí. X-Men é repleto de homens jovens e bonitos ocupando todo o tipo de papel secundário, desde policiais a estudantes da Escola de Xavier, e depois, surgiram denúncias de que Singer oferecia esses papeis (como promessa de primeiro passo rumo ao estrelato) em troca de favores sexuais.

Alex Burton em X-Men.

O caso mais chamativo, contudo, envolveu Alex Burton, um jovem de 18 anos, jovem e bonito, que foi escalado para o pequeno papel de John, o mutante Pyro (futuro membro da Irmandade de Mutantes), que no filme é um dos estudantes da Escola Xavier e aparece em uma cena disputando a atenção de Vampira contra o Bobby Drake (o Homem de Gelo) de Aaron Ashmore. Burton não era ator, nunca tinha participado de um filme, mas mesmo assim, teve sua passagem de avião paga de Los Angeles até Toronto para gravar um punhadinho de cenas, em vez de se usar um figurante local, que sairia mais barato.

Apenas 8 dias depois da estreia de X-Men – O Filme, Alex Burton acusou 3 amigos e sócios de Singer na empresa Digital Entertainment Network (um canal de vídeo anos antes do YouTube) de o terem estuprado. Singer não foi citado no processo, mas Burton não voltou ao papel de Pyro em X-Men 2, onde foi substituído pelo ator profissional Aaron Standford, que interpreta o personagem largando Xavier e os X-Men e se unindo à Irmandade de Mutantes.

Vamos agora, analisar o filme e a produção dos filmes seguintes.

X-MEN – O FILME, 2000

Dirigido por Bryan Singer. História de Tom DeSanto e Bryan Singer; roteiro de David Hayter.

Elenco: Patrick Stewart (Charles Xavier/ Professor X), Ian McKellen (Erik Lehnsherr/Magneto), Hugh Jackman (Logan/ Wolverine), Ana Paquim (Marie D’Ancanto), Halle Berry (Ororo/Tempestade), James Mardsen (Scott Summers/ Ciclope), Framke Jamssen (Jean Grey), Rebecca Romijn-Stamos (Raven/ Mística), Bruce Davison (Senador Robert Kelly), Tyler Mane (Dentes de Sabre), Ray Park (Groxo), Shawn Ashmore (Bobby Drake/ Homem de Gelo), Samuela Kay (Kitty Pryde), Katrina Florence (Jubileu), Donald MacKinnon (Piort Rasputin/ Colossus).

A trama da estreia dos mutantes na telona é relativamente simples: em um futuro próximo (mas de algum modo dentro dos anos 2000), os mutantes (seres humanos com habilidades especiais) começaram a ser descobertos pelo grande público e geram medo e preconceito. O Congresso dos EUA estuda ações preventivas (e persecutórias) contra eles, o que motiva o terrorista Magneto a promover um ataque de retaliação a uma conferência de líderes mundiais que ocorrerá em Nova York. Descobrindo os planos de seu ex-amigo, o professor Charles Xavier envia seus “alunos”, os X-Men, em uma missão para impedi-los; e tudo se mostra mais complexo com a chegada de dois novos elementos: Wolverine e Vampira.

Essa história mesclava vários pequenos elementos de HQs famosas dos X-Men, notoriamente do famoso arco Dias de Um Futuro Esquecido, do qual aproveitava a campanha anti-mutante do Senador Robert Kelly e a ação da Irmandade de Mutantes para matá-lo.

Hugh Jackman como Wolverine no primeiro X-Men.

No filme, os X-Men já são uma equipe estabelecida (e secreta) e fica (apenas subtendido) que os principais membros – Ciclope, Jean Grey e Tempestade (somente), que estão nos 20 e poucos anos – são treinados por Xavier desde a adolescência. Ele diz que Scott Summers, Jean Grey e Ororo foram seus primeiros alunos. A Escola Para Jovens Superdotados do Professor Charles Xavier está totalmente operacional e vemos vários alunos com habilidades mutantes estudando por lá. A maioria deles é genérico – não são especificados nomes nem poderes – e os únicos que são claramente (mesmo) identificáveis são Kitty Pryde (que aparece duas vezes rapidamente e seu nome é mencionado), Bobby Drake (o Homem de Gelo) e John Allerdyce (Pyro).

Quando a história começa, Wolverine está perdido e isolado no Canadá e há 15 anos sem memórias de seu passado. O modo como é representado neste ponto lembra vagamente o início da HQ Arma X, embora no filme Logan “atue” como lutador em gaiolas. (Curiosamente, em Logan, de 2017, Xavier dá a entender que o canadense era matador de aluguel nesse período, embora este primeiro filme não mostre isso). Tudo muda quando Logan encontra a jovem Vampira (cujo o nome Marie é mencionado, ao contrário dos quadrinhos em que o nome dela era desconhecido) escondida em seu trailer. Ela é uma mutante que absorve as lembranças e habilidades daqueles que toca. Não demora muito e a dupla é atacada por Dentes de Sabre, mas são salvos por Ciclope e Tempestade.

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Xavier mostra o Cérebro a Wolverine.

Levados à Mansão X, a nova dupla é convidada a ficar. Vampira aceita imediatamente, enquanto Wolverine reluta, aceitando apenas por dois motivos: a paixão imediata por Jean Grey e a promessa de Xavier de usar seus poderes telepáticos para ajudá-lo a descobrir suas origens. Neste ponto, curiosamente, o filme dá a entender que nem Xavier, nem Magneto sabem quem Wolverine é – algo que será “desfeito” no filme seguinte (mais abaixo).

No caso da Irmandade de Mutantes, além de Magneto, Dentes de Sabre e Groxo, também temos Mística, que é representada em uma versão exuberante, nua e coberta por meio de uma pintura corporal que simula escamas. Diferente da HQ, o plano deles não é matar Kelly, mas ensiná-lo uma lição: testam nele um procedimento por meio de uma misteriosa máquina que (de modo totalmente ilógico e não explicado) usa os poderes de Magneto para transformar um humano comum em um mutante. É uma prévia para o ataque à convenção. Kelly é capturado e atingido, transformando-se em uma criatura gelatinosa que parece água. Ele é encontrado pelos X-Men, mas morre. O plano de Magneto não é matar os líderes mundiais, mas transformá-los em mutantes. Mas o vilão não sabe do fracasso e, quando é informado, não acredita nisso.

Enquanto isso, Mística substitui Kelly no Congresso, começando a propor políticas favoráveis aos mutantes. Xavier pensa que o alvo da Irmandade é Wolverine, mas na verdade é Vampira: o uso da máquina quase mata Magneto e ele quer usar os poderes de Marie para substitui-lo. Por isso, Mística se disfarça de Bobby Drake e vai à Escola instigar Vampira a fugir (pois é vista como indesejada). Mística também aproveita para sabotar o Cérebro – a grande máquina que o Professor X usa para intensificar seus poderes e, com isso, conseguir localizar cada mutante no planeta – de forma que quando Xavier o usa para buscar a foragida Vampira, termina incapacitado. Ciclope, Tempestade e Wolverine vão atrás dela, encontrando-a em um trem. Mas Magneto e a Irmandade aparecem e capturam a jovem.

A batalha final ocorre na Estátua da Liberdade – que Magneto quer usar como um tipo de antena transmissora – onde há uma grande batalha. Wolverine luta contra Mística (que assume a aparência dele mesmo) e Dentes de Sabre pela segunda vez. Curiosamente, não há qualquer menção de que os dois se conheçam, o que será revisto (mas não explicado) nos filmes seguintes. O uso da máquina dá a Vampira sua característica mecha de cabelos brancos, mas a ação coordenada de Ciclope e Tempestade termina por derrotar Magneto.

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Professor X e Magneto jogam xadrez na última cena do filme.

Erik Lehnsherr é aprisionado em uma cadeia toda feita de plástico e o filme termina com ele e Xavier jogando xadrez, mostrando que os dois foram grandes amigos no passado, mas são separados por suas ideologias.

Poster de X2.

X-MEN 2, 2003

Dirigido por Bryan Singer; com história de Bryan Singer, David Hayter e Zack Penn; e roteiro de Michael Dougherty e Dan Harris.

Elenco: Hugh Jackman (Logan/ Wolverine), Patrick Stewart (Charles Xavier/ Professor X), Ian McKellen (Erik Lehnsherr/ Magneto), Halle Berry (Ororo/Tempestade), Framke Jamssen (Jean Grey), Brian Cox (Coronel William Stryker), Alan Cumming (Kurt Wagner/ Noturno), James Mardsen (Scott Summers/ Ciclope), Ana Paquim (Marie D’Ancanto), Rebecca Romijn-Stamos (Raven/ Mística), Shawn Ashmore (Bobby Drake/ Homem de Gelo), Aaron Standford (John Allerdyce/ Pyro), Kelly Hu (Yuriko Oyama/ Lady Letal), Bruce Davison (Senador Robert Kelly), Michael Raid McKay (Jason Stryker/ Mestre Mental), Daniel Cudmore (Piort Rasputin/ Colossus), Katty Stewart (Kitty Pryde), Kea Wong (Jubileu), Shauna Kain (Syrin), Bryce Hodgson (Artie).

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A HQ que inspirou o filme.

Com o sucesso do primeiro filme, a pré-produção do segundo começou quase imediatamente. Dessa vez, David Hayter e Zak Penn (que havia escrito Hulk, lançado pela Universal em 2003) foram contratados para escreverem roteiros separados, cada um, e depois se juntaram para produzir um terceiro que combinasse elementos dos dois. A premissa de Bryan Singer era de um vilão humano, de modo que foi escolhida como base a história Deus Salva, o Homem Mata, de 1986, escrita por Chris Claremont e belamente desenhada por Brent Anderson, que foi publicada dentro da primeira série de Graphic Novels da Marvel Comics. Na trama, uma organização religiosa começa a perseguir e matar mutantes, gerando uma onda de ódio contra os mutantes, o que obriga os X-Men a unirem forças com o inimigo Magneto para deter uma ameaça comum.

Após a combinação dos dois roteiros em uma terceira versão, Hayter e Singer produziram uma quarta versão. Por fim, no início de 2002, a dupla Michael Dougherty e Dan Harris foi contratada para fazer a quinta versão do roteiro. Houve ainda uma sexta versão, que foi a final, que foi produzida especificamente para dar mais espaço de tela e relevância à Tempestade, já que Halle Berry ganhou o Oscar de Melhor Atriz por A Última Ceia.

O caso de Berry ainda colocava a produção em uma situação delicada, pois a atriz – além do Oscar – estava em evidência em Hollywood, aparecendo em filmes que renderam grande atenção da mídia e do público, como a agente Jinx em 007 – Morra em Um Outro Dia, em 2002, e como a protagonista de Mulher-Gato, em 2004. Mas apesar disso, Tempestade continua tendo muito pouco o que fazer no filme, ganhando apenas uma personalidade mais agressiva e criando um vínculo com Kurt Wagner, o Noturno.

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O Noturno de X-Men 2.

Dessa vez, Singer conseguiu incluir Noturno no filme, mas novamente os planos para o Fera não puderam se concretizar e Hank McCoy ficou de fora por questões orçamentárias e por não se inserir na história. Mas no filme, de modo quase imperceptível, aparece um homem de terno sendo entrevistado em talk show e o nome Hank McCoy aparece na legenda; o que se for levado à sério cria mais um problema de continuidade para o filme seguinte.

O Anjo também estava planejado para aparecer – como um mutante que sofria experimentos de William Stryker e se transformava no Arcanjo – mas terminou limado, também por questões orçamentárias e de história. Havia sido planejado o retorno de Dentes de Sabre, mas o personagem terminou deixado de lado porque já havia muitos outros.

O ataque de Pyro causou um acidente no set.

As filmagens ocorreram de novo no Canadá no segundo semestre de 2002, desta vez, mais centralizados em Vancouver, e apesar de fazer frio, várias cenas que se passam neste país, especialmente no final, tiveram que contar com neve falsa para fazer parecer um inverno mais rigoroso. Por fim, houve um acidente grave nas gravações da cena da batalha de Pyro contra a polícia que quase resultou na morte do Diretor de Fotografia Newton Thomas Sigel e de dois motoristas.

O produtor Tom DeSanto e Bryan Singer: disputas no set.

Mas surgiram outros problemas. Bryan Singer estava usando drogas e seu comportamento errático piorou muito nesse filme, o que o levou a se ausentar das filmagens por dias seguidos e torturar psicologicamente os atores. Uma saída encontrada foi o produtor Tom DeSanto assumir a direção do filme em muitas cenas.

Uma sequência do time no interior do X jato comandada por DeSanto, que envolvia turbulência, terminou em um pequeno acidente, com Hugh Jackman se machucando e recebendo um ferimento que sangrou um pouco. Quando Singer retornou, dispensou de modo grosseiro os serviços de DeSanto, mas isso desagradou profundamente o elenco do filme. Dessa forma, Berry, Jackman e mais alguns atores, vestidos em seus uniformes, confrontaram Singer, ameaçando irem embora se DeSanto saísse.

Muitos consideram o segundo filme da franquia o melhor deles. Ou pelo menos da primeira trilogia. Com certeza, é um dos melhores da franquia. Lançado após o sucesso de Homem-Aranha e em meio a uma enxurrada de filmes de heróis – Hulk, Demolidor… – X2 – X-Men United (o título original) serviu para consolidar a relevância da franquia.

A trama aproveita a imensa positividade com a qual foi recebida a interpretação de Hugh Jackman como Wolverine, dando a ele um papel ainda mais central neste filme. Se por um lado isso é bom, pois rende ótimas cenas e uma boa trama, por outro lado, é ruim, pois deixa a maioria dos outros membros dos X-Men (como Ciclope, Tempestade e Xavier) em um plano para lá de secundário. Em muitos sentidos, este é um filme solo de Wolverine, com participação especial dos X-Men.

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Nos quadrinhos, Stryker é um pastor e não militar.

Dessa vez, o roteiro faz uma lambança em cima de algumas HQs dos X-Men. De Deus Salva, o Homem Mata (também conhecida como O Conflito de uma Raça), o filme extrai o vilão William Stryker; mas enquanto nos quadrinhos ele é um pastor que lidera uma organização anti-mutante, no filme, ele vira um militar que está ligado ao passado de Wolverine e, mais explicitamente, à implantação dos ossos de adamantium em Logan. Também desta HQ está o fato de Magneto e os X-Men se forçarem a unir as forças para combater um mal comum (e daí o título original do longametragem).

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Wolverine ganha ainda mais destaque.

Outra referência é novamente Arma X, tendo em vista os vislumbres das origens de Wolverine. A HQ escrita e desenhada por Barry Windstor-Smith, narra em detalhes o processo no qual Logan recebe o adamantium em seus ossos, dando ênfase no sofrimento do protagonista e no modo como o procedimento gradativamente diminui sua humanidade e lhe transforma em uma fera animalesca. O filme apenas insinua tudo isso, porém, reduzindo o procedimento há alguns segundos de flashback.

Willam Stryker no filme, vivido pelo ótimo Bryan Cox.

No filme, Stryker sugere que Wolverine não era o mesmo homem que pensa ser agora, dando a entender que Logan fez coisas terríveis no passado e que se submeteu ao procedimento de livre vontade. Stryker tenta aliciar o mutante dizendo que irá esclarecer seu passado misterioso se o seguir. E Logan se depara com uma encruzilhada quando está justamente atrás de respostas.

E falando nisso, em X2, ao contrário do que é mostrado no filme anterior, Xavier e Lehnsherr sabem exatamente quem Logan foi em seu passado e chegam a conversar sobre isso, embora sem dar tantas pistas. A trama sugere que o Professor X está meio que sabotando a busca de Wolverine por seu passado, com medo de que ele saiba quem ele é.

O filme também faz menções leves à Saga da Fênix Negra, tendo em vista o fato de Jean Grey ter surtos de descontrole de seus poderes e o fim do filme (mais abaixo).

Na trama, pouco após os eventos do filme anterior, Xavier cumpre sua promessa e usa seus poderes para ajudar Wolverine, localizando uma instalação secreta no Lago Alkali, nos confins do Canadá, que está relacionada ao passado de Logan e a perda de sua memória. Ele vai lá, mas não encontra nada que lhe ajude. Frustrado e de volta à Escola, encontra os X-Men tendo que lidar com uma ofensiva do Governo dos EUA contra os mutantes, impulsionada por um ataque à Casa Branca liderado por um mutante misterioso de aparência demoníaca.

Usando o Cérebro, Xavier localiza o tal mutante: Kurt Wagner, uma ex-“aberração de circo” que se intitulava Noturno, um jovem que apesar de uma aparência maligna, é de origem alemã, puro de coração e católico. Ele e Tempestade criam um vínculo imediato.

James Marsden como Ciclope nos filmes.

Ao mesmo tempo, numa visita a Magneto na prisão, Xavier e Ciclope caem em uma emboscada e ficamos sabendo que o general William Stryker (alguém que também tem laços no passado com o Professor X e Magneto) está usando seu próprio filho – chamado Jason e que remete ao Mestre Mental dos quadrinhos – para produzir um soro que controla a mente dos mutantes. (Foi o recurso utilizado em Noturno).

Pouco tempo depois, Mística põe em prática um plano no qual vai em um bar e assume a forma de uma mulher estonteante – que é a própria Rebecca Romijn-Stamos sem maquiagem – e consegue seduzir e, com isso, infiltrar grandes quantidades de ferro no corpo de um dos guardas da prisão, de modo que o uso desse ferro permite que Magneto conquiste sua liberdade.

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Uma das grandes cenas do filme é o ataque à Mansão X.

Com autorização do Presidente dos EUA, Stryker lidera uma operação de ataque à Escola para Jovens Superdotados do Professor Xavier, com a missão de capturar todos os mutantes. Stryker provou que Xavier é o mantenedor dos X-Men, que são uma equipe à margem da lei e desconhecida do grande público. Os militares promovem uma ação devastadora na Mansão X e, apesar da interferência de Wolverine, muitos adolescentes são capturados. Logan fica frente à frente com Stryker, mas não o reconhece, embora o militar conte do vínculo que tiveram no passado.

Apesar de tentado a continuar falando com o coronel e descobrir mais sobre si mesmo, Wolverine é persuadido pelos jovens em fuga a ajudá-los e reúne um grupo formado por alguns alunos, dentre os quais Bobby Drake (Homem de Gelo), John Allerdyce (Pyro), Vampira e Pior Rasputin (Colossus). No ataque, outros personagens são sugeridos (por seus poderes ou aparência), como Kitty Pryde, Syrin e Jubileu. A primeira e a última, inclusive, têm os nomes mencionados ao longo do filme.

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Magneto ajuda os mocinhos dessa vez.

Em fuga, Wolverine termina levando os garotos à casa de Bobby Drake, em busca de um refúgio, sendo o momento em que o jovem revela à família que é um mutante. Esta cena, inclusive, foi assessorada por Ian McKellen, um famoso articulador do movimento gay, para que a tal revelação parecesse com uma “saída do armário”.

Mas o irmão dele não aceita o fato e liga para a polícia, que ataca os jovens recém-chegados. O confronto não se prolonga mais, porque Tempestade, Jean Grey e Noturno chegam em um jato para resgatá-los. Perseguidos pela Força Aérea, os X-Men tentam várias manobras para se safar, mas são abatidos e só não morrem na queda porque o jato é parado no ar pelos poderes de Magneto. Isolados em um acampamento, os X-Men remanescentes, seus alunos e Magneto e Mística não têm outra opção que não reunir suas forças contra Stryker. No acampamento, Mística tenta dormir com Wolverine usando a aparência de Jean Grey, o que serve para explorar os sentimentos que ele tem por ela. Também há uma cena de Mística ao lado de Noturno, que atiça o imaginário dos fãs (pois nas HQs eles são mãe e filho, mas o filme não remete a isso diretamente).

Eles vão ao Canadá, à mesma instalação visitada por Wolverine no começo do filme, no Lago Alkali, e descobrem que é lá que funciona a base de operações de Stryker. O militar construiu uma réplica do Cérebro para inverter sua funcionalidade e, em vez de localizar mutantes, matá-los, amplificando os poderes de Xavier. Descobrimos que Jason foi um dos estudantes de Xavier, mas este não conseguiu ajudá-lo. E o uso dos poderes mutantes dele (projetar imagens e cenas na cabeças das pessoas) terminou por causar o suicídio de sua mãe (o que fica implícito como a causa do ódio de Stryker pelos mutantes, algo que também será contradito nos filmes posteriores).

Jason é uma referência ao vilão Jason Wyngarde, o Mestre Mental, um dos membros originais da Irmandade de Mutantes de Magneto nos quadrinhos, e alguém que teve grande importância na Saga da Fênix Negra. Mas não há, nos quadrinhos, qualquer vinculação com Stryker, que por sua vez, foi um vilão pontual, aparecendo apenas em Deus Salva, o Homem Mata.

Manipulando a delicada mente de seu filho, o general consegue dominar Xavier para usar o procedimento. (Um detalhe é que foram gravadas mais cenas da tortura de Xavier e de Ciclope que não foram usadas na versão final, o que deixou o tempo de tela desses dois personagens bastante reduzidos).

Os X-Men, Magneto e Mística chegam à base e atacam as forças de Stryker, mas ele usa sua arma secreta: uma mulher que também tem os ossos de adamantium, mas em vez de garras, usa unhas incrivelmente grandes (e que é a Lady Letal, vilã de Wolverine nas HQs, embora esse nome não seja usado).

O selvagem confronto entre Wolverine e Lady Letal em “X-Men 2”.

Enquanto luta, Logan é abalando pelos pequenos vislumbres de memória do processo de implantação dos ossos de adamantium em seu corpo. Wolverine vence a batalha e consegue libertar os outros alunos sequestrados, mas a batalha não está ganha. Jean Grey precisa confrontar Ciclope, que está com a mente dominada pelo soro extraído de Jason. Na batalha, uma rajada óptica de Ciclope destrói a estrutura da instalação, comprometendo sua estabilidade. Ao mesmo tempo, ao ser atingido por Jean recobra a consciência e ajuda seus amigos. A base está ligada a uma represa e esta começa a se romper. Todos têm que fugir rapidamente.

Magneto amarra Stryker em um jogo de correntes e o deixa para morrer. Wolverine o encontra e o coronel se oferece para revelar todo o seu passado, mas Logan prefere seguir em frente e se manter com seus amigos. A represa se rompe e todos estão prestes a morrer quando Jean Grey se oferece para se sacrificar e salvá-los. Usando seus poderes cada vez maiores, ela consegue segurar a força das águas por tempo suficiente para que o helicóptero com os heróis parta e, em seguida, simplesmente deixar a água fluir, pretensamente morrendo esmagada e/ou afogada.

Famke Janssen como Jean Grey nos filmes dos X-Men.

Os X-Men ficam de luto e permitem que Magneto e Mística escapem em troca de seu auxílio. Ao mesmo tempo, vão diretamente à Casa Branca, onde Xavier usa seus poderes permitir que o grupo tenha uma conversa direta com o presidente, que está prestes a fazer um pronunciamento sobre os mutantes. O filme deixa o final em aberto sobre tal declaração.

X-MEN – O CONFRONTO FINAL, 2006

Dirigido por Brett Ratner. Roteiro de Zak Penn e Simon Kinberg.

Elenco: Hugh Jackman (Logan/ Wolverine), Halle Berry (Ororo/Tempestade), Ian McKellen (Erik Lehnsherr/ Magneto), Framke Jamssen (Jean Grey),  Kelsey Grammer (Hank McCoy/ Fera), Ellen Page (Kitty Pryde), Shawn Ashmore (Bobby Drake/ Homem de Gelo), Ana Paquim (Marie D’Ancanto), Aaron Standford (John Allerdyce/ Pyro), Rebecca Romijn-Stamos (Raven/ Mística), Daniel Cudmore (Piort Rasputin/ Colossus), Vinnie Jones (Cain Marko/ Fanático), Ben Foster (Warren Worthington III/ Anjo), Dania Ramirez (Callisto), Eric Danne (Jaime Madrox/ Homem-Múltiplo), Michael Murphy (Warren Worthington II), Shohreh Ashdashloo (Dra. Kavita Rao), Jeff Sommer (presidente dos EUA), Bill Duke (secretário Trask), Cameron Bright (Jimmy/ Sanguessuga), Kea Wong (Jubileu), Shauna Kain (Syrin), Halley Ramm (jovem Jean Grey), Cayden Boyd (jovem Warren Worthington III). Participação especial: Patrick Stewart (Charles Xavier/ Professor X), James Mardsen (Scott Summers/ Ciclope).

O último capítulo da primeira trilogia dos mutantes da Marvel é justamente o ponto mais baixo de toda a franquia. Um enorme desperdício. E aos fãs, tudo fica pior ao sabermos que toda essa tragédia foi causada por simples birra infantil. Vamos aos fatos.

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Bryan Singer saiu atrás do Superman.

Apesar de X2 ter feito ainda mais sucesso (de público e crítica) do que o primeiro filme, a produção de X3 demorou a começar. Nunca havia ficado clara a razão até que, em 2020, começaram sair relatos dos abusos de Bryan Singer nos sets. É possível que a demora tenha tido haver com isso.

Outra coisa é que começavam a surgir denúncias de abuso sexual de Bryan Singer contra meninos jovens. Alguns processos chegaram a ser colocados na justiça, embora sem grande alarde na imprensa na época, ao contrário do que ocorreria depois.

Estava claro pelo fim do filme anterior, que o terceiro deveria adaptar A Saga da Fênix Negra, quando Jean Grey se torna superpoderosa e é consumida por seus poderes, tornando-se totalmente maligna. Ciclope cita episódios de descontrole de Jean no primeiro filme; e o conflito moral dentro dela é ligeiramente tocado no segundo (embora mais direcionado ao sexo, em relação a Wolverine). Mas o final com Jean segurando a água da represa enquanto os X-Men fogem e sendo esmagada depois e o símbolo da Fênix brilhando na água no fim deixavam bem claro.

E aqui um parêntese importante: A Saga da Fênix Negra é a mais famosa e mais apreciada entre as histórias dos X-Men em todos os tempos. Então, em uma revista farta em boas histórias, a melhor dentre todas é algo bastante chamativo aos fãs, não é? Mas vale à pena falar um pouco mais sobre a HQ, seja por causa de O Confronto Final, seja por sua reencarnação em Fênix Negra, de 2019.

A Saga da Fênix Negra: maior clássico dos X-Men.

a A Saga da Fênix Negra foi publicada na revista Uncanny X-Men, entre os números 129 a 138, de 1980 e 1981, escrita por Chris Claremont e desenhada (e corroteirizada) por John Byrne. Como é típico dos quadrinhos, a trama dava prosseguimento a um evento anterior, quando Jean Grey se tornou a Fênix, na 100ª edição da revista. Em linhas gerais, os X-Men estão no espaço e precisam voltar à Terra em uma nave danificada no meio de uma enorme tempestade solar e Jean se sacrifica para usar sua telecinese para conter a radiação o suficiente para manter a integridade da nave até que cheguem ao chão. Claro, Jean morre no processo. Mas depois que o ônibus espacial cai na Baía da Jamaica, na cidade de Nova York, Jean emerge ressuscitada e superpoderosa como a Fênix. Ela agora pode mover as moléculas do próprio corpo e seu poder é quase infinito.

Pin Up de John Byrne para a Fênix Negra e sua contraparte, a Rainha Negra do Círculo Interno do Clube do Inferno:abordagem profunda da psiquê de uma heroína em queda.

Essa transformação impele Jean para fora dos X-Men e ela fica “na reserva” por muitos meses, enquanto Ciclope, Tempestade e Wolverine continuam a salvar o mundo dos mais variados perigos. Mas então, Jean começa a ter visões de uma antepassada sua que se envolve com um lorde britânico do século XVIII chamado Jason Wyndgarde, que vai incentivando-a a se libertar de suas amarras sexuais e morais. Gradativamente Jean vai gostando dessas visões e fica estarrecida quando encontra uma contraparte do presente de Jason e se vê meio apaixonada por ele. Mas tudo isso é um plano ardiloso do Círculo Interno do Clube do Inferno, uma organização secreta de mutantes poderosos que quer dominar o mundo e se esconde no interior de um daqueles clubes de ricaços de Nova York, e que a queriam como sua Rainha Negra. E da qual faz parte o tal Wyndgarde, que era ninguém menos do que o Mestre Mental, um velhíssimo inimigo dos X-Men. Como resultado das manipulações e do próprio descontrole de Jean em relação aos seus novos superpoderes, ela se transforma na Fênix Negra, uma criatura com poder infinito e sem moral.

O clássico fim da Fênix: imposição editorial.

Apesar da virada de Jean, os X-Men vencem o Clube do Inferno, mas o pior vem depois: os alienígenas S’hiar, aliados dos heróis vêm à Terra dispostos a matar Jean, porque num arroubo de fúria, a Fênix foi ao espaço e destruiu um sistema solar com seis bilhões de vidas. E isso ocorre quando Jean consegue regressar ao seu estado normal e deixa de ser a Fênix. Temerosos do poder dela, os S’hiar querem matá-la mesmo assim, e os X-Men tentam defendê-la. Mas no fim, por amor a Ciclope, e por medo de perder o controle de novo, Jean se suicida.

Esse longo relato é só para mostrar como a história é sensacional e O Confronto Final não tem absolutamente nada a ver com isso.

Apesar da produção do filme simplesmente não andar por vários meses, em meados de 2004, provocados pela Fox, Singer e os roteiristas Michael Dougherty e Dan Harris (de X2) finalmente produziram um tratamento do roteiro na qual Jean Grey ressuscitava e tinha sua mente manipulada por Emma Frost para se tornar a Fênix. Atormentada por sua própria transformação, Jean cometeria suicídio, mas não morreria totalmente, pois a entidade Fênix continuaria viva e má, o que obrigava os X-Men a entrar em confronto.

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A Fênix Negra nos quadrinhos.

A Fox, contudo, achou a premissa muito sombria para um filme mainstream e começou a ficar relutante em levar o projeto adiante dessa forma. O estúdio decidiu paralisar temporariamente a produção (possivelmente, enquanto iam atrás de outro roteirista para arrumar outra premissa ou esperando uma forma de se livrar de Bryan Singer).

Ao mesmo tempo, e cansado de esperar o “sinal verde” da Fox, Singer recebeu um convite da Warner Bros. para relançar a franquia do Superman com um novo filme. Singer terminou aceitando o convite e levou seus dois roteiristas consigo. Tal gesto despertou a ira dos executivos da Fox, que se apressaram em prosseguir com o projeto de X-Men 3. Joss Whedon foi a primeira escolha do estúdio (ele tinha sido um dos cotados para o primeiro filme), pois também escrevia quadrinhos, inclusive, histórias dos X-Men, mas naquele momento estava na Warner escrevendo um filme (nunca lançado) da Mulher-Maravilha (mais tarde ele ficaria famoso como o diretor de Os Vingadores).

O diretor Matthew Vaughn foi contratado em seu lugar e encarregou um novo roteiro e começou o processo de pré-produção.

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Astonishing X-Men: obra-prima de Joss Whedon e John Cassaday também inspirou o filme.

Durante a busca por um novo diretor, Zak Penn foi trazido de volta para produzir um roteiro e foi repetida a estratégia de um outro escritor produzir outro texto e os dois combinarem um único no final: Simon Kinberg, que já tinha trabalhado em Elektra e Quarteto Fantástico. Foi de Kinberg a ideia de dividir o filme em duas partes: uma adaptando A Saga da Fênix Negra e outra com Giften, a HQ dos X-Men escrita por Joss Whedon que tinha acabado de ser lançada e trazia a história dos conflitos entre os mutantes após a divulgação de uma “cura” ao fator-x (código genético causador da mutação). Isso talvez fosse um indicativo de que a Fox queria fisgar Whedon, mas sabemos que não deu certo.

Quando assinou o contrato, Vaughn trouxe sua parceira em quase todos os seus filmes, a roteirista Jane Goldman, para produzir a versão final do roteiro a partir dos textos de Penn e Kinberg, enquanto este último, por seu trânsito em Hollywood, foi elevado também à categoria de produtor. Isso trouxe ainda mais tensão à produção, pois se tinha um diretor com opiniões fortes (Vaughn), um produtor com interesses distintos (Kinberg) e outro time de produtores querendo outra direção (Laura Donner e Kevin Feige).

E os problemas só estavam começando!

A Fox teve algum trabalho em reunir os atores novamente, pois o time só tinha assinado contrato para dois longametragens. Os mais trabalhosos foram Hugh Jackman, que exigiu no contrato a aprovação do novo diretor; e Halle Berry, que afirmou que só voltaria caso Tempestade tivesse mais importância, pois ainda não ficara satisfeita com o papel pequeno de X2. De fato, a personagem ganha bem mais tempo de tela e tem uma postura mais agressiva. E um novo corte de cabelo, mais curto e natural.

O Fera finalmente aparece!

Com uma trama que teria foco em Jean Grey e precisava dar protagonismo a Wolverine e Tempestade e ainda dar tempo de tela aos outros membros da equipe, os produtores decidiram limar Noturno do filme, pois o roteiro não lhe dava espaço o suficiente para justificar o trabalho de maquiagem para montá-lo. Em contrapartida, Hank McCoy, o Fera foi incluído no filme, num papel importante na trama, servindo como um intermediário entre as duas tramas principais. Era um afago aos fãs.

Quando a Fox descobriu que Superman – O Retorno iria ser lançado no verão do hemisfério norte de 2006, bateu o pé e marcou a estreia do fim da trilogia dos mutantes para o mesmo período, para bater de frente com o novo filme de Singer. Detalhe é que já estavam nos primeiros meses de 2005 e tinham pouco mais de um ano para produzir uma superprodução que sequer tinha um roteiro finalizado.

A nova data fez Mathew Vaughn pular fora do projeto, achando o prazo simplesmente irrealizável. O diretor Brett Ratner (de A Hora do Rush), outro que havia sido cotado ainda para o primeiro filme dos mutantes, topou a parada e foi trazido para dentro do barco, porém, não conhecia absolutamente nada sobre os X-Men, tendo que confiar inteiramente nos roteiristas e em Simon Kinberg. O filme foi gravado às pressas no segundo semestre de 2005, com a pós-produção acontecendo concomitantemente.

Isso trouxe vários problemas, como o fato de Ian McKellen estar na Inglaterra gravando O Código Da Vinci e ter que fazer os dois filmes ao mesmo tempo! Assim, uma pequena equipe de filmagens foi designada à Grã-Bretanha para gravar várias das cenas de Magneto em separado, inclusive, parte da sequência da batalha na floresta e a última cena do filme, com o vilão no parque. O restante da produção foi realizada, como de costume, no Canadá, especialmente em Toronto.

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Ciclope tem pouquíssimo tempo de tela e é morto pela amada Jean Grey.

James Mardsen terminou tendo uma participação extremamente reduzida no filme (duas cenas!) porque aceitou o convite de Bryan Singer para um papel coadjuvante em Superman – O Retorno. Isso levou aos executivos da Fox a solicitarem a Brett Ratner a matar Ciclope fora de cena, fazendo com que os personagens apenas citassem o fato em um diálogo, sem que o personagem aparecesse, mas o diretor não achou isso justo, tendo em vista o relacionamento entre Scott Summers e Jean Grey. Aparentemente, a possibilidade de Ciclope ter um papel maior – pois as filmagens de X-Men 3 e O Retorno não foram concomitantes – não era uma opção para a Fox, então, Ratner filmou Mardsen em duas cenas para pelo menos dar um final um pouco mais digno ao personagem. A tensão entre o amor e o dever que Ciclope sente na HQ original da Saga da Fênix Negra foi transferida para Wolverine, o que enfureceu os fãs dos quadrinhos.

Outro que terminou tendo sua participação bastante reduzida foi Patrick Stewart, que também gravou apenas algumas cenas, pois Xavier é morto logo no início do filme. E o ator não sabia disso até receber o roteiro, o que o deixou bastante chateado.

X-Men – O Confronto Final inicia com uma cena do passado, onde vemos versões mais jovens de Xavier e Magneto (rejuvenescidos por uma técnica especial de filmagem digital) se dirigindo à casa da adolescente Jean Grey, que já se demonstra ser uma mutante bastante poderosa, erguendo os carros da rua com sua teleccinese. Essa cena entra em choque com a origem de Grey em outros filmes, como X-Men – Apocalipse e X-Men – Fênix Negra.

Também há outra cena no passado, onde vemos um rico empresário flagrando o filho no banheiro: Warren Worthington III está tentando arrancar as asas que crescem em suas costas, para o horror de seu pai.

Em seguida, saltamos ao presente, onde após alguns meses da morte de Jean (em X2), os X-Men prosseguem de luto e são aturdidos com a notícia de um programa governamental que promete uma cura para o gene mutante. Ciclope está um pouco alheio por causa da dor da perda de sua amada e vai constantemente ao Lago Alkali em que ela morreu. Numa dessas visitas, Jean ressurge de dentro da água, mas está visivelmente perturbada, terminando por matar o ex-namorado.

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O Anjo em X-Men 3.

Ao mesmo tempo, somos introduzidos a Hank McCoy, o Fera, que é um dos velhos X-Men e, agora, trabalha como Presidente do Comitê de Assuntos sobre Mutantes da Presidência dos EUA, pois agora, o país tem um presidente favorável aos mutantes. A notícia de uma cura deixa os X-Men divididos, pois alguns – notadamente Vampira – estão dispostos a se submeter ao programa; outros estão em dúvida, como o próprio Fera; enquanto outros, como Tempestade, são totalmente contra. 

O projeto da cura é comandado por Warren Worthington II e este pretende comprovar publicamente o efeito do processo em seu próprio filho. Porém, na hora do teste, o jovem muda de ideia e termina fugindo voando pela janela. Depois, descobrimos que a cura é extraída a partir de uma criança chamada Artie (nos quadrinhos seria o mutante Sanguessuga) que tem a habilidade de anular os poderes mutantes de quem se aproxima dele.

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Jean Grey se torna a Fênix.

O renascimento de Jean Grey não passa desapercebido e, tal qual no início do filme, Xavier e Magneto terminam indo à casa dela, onde a jovem se refugiou. Mas ao tentar convencê-la a ir para a Mansão X, o Professor X termina também sendo morto por ela. Magneto se salva e pensa que pode controlá-la levando-a consigo para integrar a Irmandade de Mutantes. Com a notícia da cura, Magneto é notoriamente contra e vai a uma reunião secreta de mutantes na cidade de Nova York, e termina conseguindo arregimentar todo um exército que se opõe ao projeto.

Magneto ataca um comboio prisional que leva Mística – que havia sido capturada – e termina libertando outros dois mutantes bastante poderosos: Cain Marko, o Fanático, e Jamie Madrox, o Homem-Múltiplo.

O Fanático foi interpretado por Vinnie Jones e o ator, anos depois, reclamou da produção do filme: quando fora contratado por Matthew Vaughn, seu personagem tinha um arco de história, mas a direção de Bret Ratner simplesmente eliminou tudo isso e transformou Cain Marko em um figurante brutamontes que tem uma única cena de ação no filme e serve quase como um alívio cômico. Nas HQs, o Fanático não é um mutante, mas tem seus poderes através da magia e é irmão de criação de Xavier, o que rende algum drama às suas histórias.

De volta à cena da fuga no trem, Mística é atingida com o soro que cura os mutantes, que também foi transformado em arma, e termina perdendo seus poderes e virando uma mulher comum. Decepcionado, Magneto a abandona nas mãos dos policiais.

Magneto reúne seu exército de mutantes em uma floresta próxima à cidade de San Francisco, pois o governo instalou o projeto da cura na antiga prisão de Alcatraz, em uma ilha na baía. Jean Grey é levada para lá e Wolverine tenta fazê-la ver a razão, mas ela se volta contra ele.

Magneto e seu exército atacam violentamente a ilha-laboratório (usando seus poderes para arrancar a Ponte Goldengate de seu lugar e colocá-la como um caminho até Alcatraz) e os X-Men desfalcados recrutam os novatos Homem de Gelo, Colossus (já vistos no filme anterior) e Kitty Pryde (em sua primeira aparição de verdade na franquia), que se juntam a Wolverine, Tempestade e Fera. Em minoria numérica, os X-Men precisam travar uma batalha muito esganiçada para conseguir vencer. Inclusive, adotam a postura totalmente antiética (e contraditória ao que lutam) de usar contra os oponentes a arma da cura.

A missão prioritária da Irmandade é matar o jovem Artie e o Fanático é encarregado disso, mas é detido pela esperteza de Kitty Pryde. No fim das contas, os X-Men recebem o reforço de Warren Worthington III (o Anjo) que vem combater o projeto de seu pai.

No fim, os X-Men vencem e Magneto também é atingido pela arma da cura, perdendo seus poderes, mas conseguindo escapar diante da confusão que vem a seguir: Jean Grey se volta contra seus amigos. No fim das contas, cabe a Wolverine, que também é apaixonado por ela, tomar a dura decisão de matar a ex-companheira de equipe com suas garras.

O filme termina com o governo desistindo do processo de cura, Warren Worthington III voando pelos ares livremente e Magneto disfarçado como um idoso comum jogando xadrez no parque. Porém, a câmera foca seus dedos e vemos que ele consegue mexer ligeiramente a peça de metal sem tocá-la.

Após o aparente fim do filme, temos uma cena no meio dos créditos em que a Dra. Moira McTagger – uma médica cientista amiga de Charles – trata de um paciente que está há muitos e muitos anos em coma. O paciente desperta e a chama pelo nome, com ela percebendo que ele é Xavier.

O Confronto Final foi mal recebido por público e crítica e virou a maior mácula da franquia dos mutantes da Fox, que pareciam ali encerrar de modo melancólico uma trajetória tão promissora.

O Wolverine de Hugh Jackman.

X-MEN ORIGENS – WOLVERINE, 2009

Dirigido por Gavin Hood. Roteiro de David Benioff e Skip Wood.

Elenco: Hugh Jackman (James Howlett/ Logan/ Wolverine), Liev Schreiber (Victor Creed/ Dentes de Sabre), Ryan Reynolds (Wade Wilson/ Deadpool/ Arma XI), Danny Hudson (major William Stryker), Taylor Kitsch (Remy LeBeau/ Gambit), Will.i.am (John Wraith), Lynn Collins (Kyla Starfox), Daniel Henney (Agente Zero), Kevin Durand (Fred Dukes/ Blob), Dominic Monaghan (Chris Bradley), Tim Pocock (jovem Scott Summers/ Ciclope), Max Cullen (Travis Hudson), Julia Brake (Hearther Hudson), Tayhna Tozzi (Emma Starfox), Troye Sivan (Jovem James Howlett), Michael James Olsen (jovem Victor Creed), Aaron Jeffrey (Thomas Logan), Alice Parkison (Elizabeth Howlett), Peter O’Brian (John Howlett). Participação especial: Patrick Stewart (Charles Xavier).

weapon x by barry windor-smith
Arma X na arte deslumbrante de Barry Windsor-Smith.

Terminada” a saga dos X-Men, o que fazer em seguida? A Fox definitivamente não sabia. Como saída, escolheu voltar para trás e produzir prelúdios. Assim, nasceu o projeto X-Men – Origens, que iria destrinchar o passado de vários personagens. De cara, dois foram escolhidos: Wolverine e Magneto.

O filme de Wolverine seria destinado a contar suas origens, aproveitando que, após décadas de mistérios, a maior parte da origem do herói foi contada nas HQs, como em Arma X (1991) e Origem (2002). O cinema tinha tocado no assunto de modo mais detalhado em X2 e era hora de expandir isso. Dessa vez, Hugh Jackman foi trazido como produtor executivo do filme, para ter direito a voz e veto, e também garantir que o ator permanecesse interpretando o herói após três filmes e o fiasco de crítica que foi O Confronto Final.

A ideia de um filme sobre as origens de Wolverine, na verdade, partiu do roteirista David Benioff, que era fã de quadrinhos e instigou o estúdio a fazê-lo. No fim das contas, Laura Donner e Hugh Jackman gostaram da abordagem e as primeiras conversas ocorreram ainda durante as filmagens de O Confronto Final e deu origem à ideia dos filmes prelúdios, da qual Magneto seria apenas o segundo de uma longa fila planejada. Foi dada a Benioff a missão de escrever o roteiro.

No início da produção de X-Men Origens – Wolverine, entretanto, houve mudanças na relação entre a Fox e a Marvel quando o produtor Kevin Feige, que se tornou o presidente do Marvel Studios em março de 2007. A questão por trás é curiosa: dez anos após se tornar um dos donos da Marvel ao lado de Ike Perlmutter, Avi Arad tinha comandado a escalada da Marvel nos cinemas e produzido pelo menos duas franquias vitoriosas: os X-Men e o Homem-Aranha (na Sony). Outros filmes foram entre altos e baixos, mas a Marvel virou uma propriedade quente em Hollywood.

Contudo, o Conselho Diretor da Marvel tinha planos ousados para o cinema: afinal, com os rios de dinheiro que foram ganhos nas adaptações entre 2000 e 2006, o Marvel Studios tinha chegado ao ponto em que era capaz de finalmente produzir seus próprios filmes e não apenas comissioná-los como fizera até então. Fazer seus próprios filmes permitiria à Marvel criar não somente filmes ou franquias, mas levar seu Universo aos cinemas, com filmes de franquias diferentes conectados entre si.

Kevin Feige, presidente do Marvel Studios.

Mas Avi Arad era contra a ideia e na tensão que se seguiu, Arad abdicou da presidência do Marvel Studios e passou a se dedicar exclusivamente à sua maior paixão: a comandar a franquia do Homem-Aranha na Sony. Kevin Feige por sua vez, que já era o vice-presidente do Marvel Studios, assumiu o comando e endureceu a relação com a Fox, que ficou mais tensa, já que o produtor achava que o estúdio desvirtuava os personagens. Feige lançou Homem de Ferro em 2008 e criou o Marvel Cinematographic Universe (MCU).

Enquanto isso, para manter o espírito dos filmes dos X-Men, Benioff teve a ideia de incluir outros populares personagens do universo mutante, como Deadpool e Gambit, além, é claro, do vilão Dentes de Sabre.

Naquele momento, o ator Ryan Reynolds e o escritor/ diretor David S. Goyer (roteirista da Trilogia Cavaleiro das Trevas) já tinham tentado emplacar um filme solo de Deadpool em 2003, quando trabalharam juntos em Blade – Trinity. Sabedores do projeto, o time da Fox convidou Reynolds para viver o Deadpool no filme e ele aceitou prontamente, seguro de que seria uma janela para um filme solo do personagem no futuro breve.

Sabretooth
Os produtores queriam redimir Dentes de Sabre como um personagem.

 Nos fins de 2006, David Benioff entregou um roteiro que tinha Censura 18 anos, pois achava que assim deveria ser o filme, carregado e sombrio, mas a Fox não queria isso, e sim, o tom mais leve da franquia dos X-Men.

Aproveitando que Hugh Jackman tinha que filmar Austrália em seu país natal, a Fox encarregou o roteirista Skip Woods (de Hitman) para polir o texto e dar-lhe uma versão mais branda, enquanto o ator ficava livre de seu compromisso.

Wolverine by Andy Kubert
Cena de “Wolverine Origin”, desenhada por Andy Kubert. O início do primeiro filme solo de Wolverine foi tirado diretamente da minissérie escrita por Paul Jenkins.

Encontrar um diretor não foi muito fácil. Tanto Brett Ratner quanto Byan Singer sinalizaram disposição de assumirem o projeto, mas Fox queria gente nova. (Sentiam-se traídos por Singer e Ratner parecia ter estragado a franquia). Zack Snyder (de 300 de Esparta) chegou a ser convidado, mas estava filmando Watchmen e declinou. Assim, Hugh Jackman acabou convidando o diretor sulafricano Gavin Hood.

As filmagens iniciaram no finalzinho do ano de 2007 e para agradar Jackson e poupar impostos, a Fox mudou a produção para a Austrália, onde tinham um grande complexo de estúdios. A produção também gravou cenas externas na Nova Zelândia. Mas a Fox não é conhecida por ser um estúdio caótico à toa: quando as filmagens começaram, o estúdio não considerava o roteiro ainda totalmente finalizado, por isso, James Vanderbild (de Homem-Aranha 3) e Scott Silver contribuíram com o texto final, embora não sejam oficialmente creditados.

A produção na Austrália não ocorreu bem, porque Gavin Hood e a Fox tinham grandes diferenças sobre como o filme deveria ser. Isso causou um grande atraso nas filmagens. A situação ficou tão ruim que o produtor Richard Donner precisou ir até lá para apaziguar os ânimos. No fim das contas, problemas com o tempo também geraram mais atrasos e Hugh Jackman teve que interromper as gravações para fazer a divulgação de Austrália. Por causa disso, a parte final da produção foi transferida para o Canadá, em Vancouver, onde foi finalizada.

Uma pequena curiosidade é que o jovem Kodi Smit-McPhee iria interpretar Wolverine criança, mas com o atraso das filmagens, ele abandonou o projeto para fazer outro filme. Anos mais tarde, o ator interpretaria a versão adolescente do Noturno.

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As origens de Wolverine.

X-Men Origens – Wolverine acompanha a história do herói por várias décadas. O filme começa em Alberta, no Canadá, em 1845, onde o jovem James Howlett é herdeiro de um grande proprietário de terras e vive doente. Logo fica claro que sua mãe, Elizabeth, teve um caso com o capataz Thomas Logan, que é beberrão e raivoso. Determinada noite, Thomas invade a casa principal e tenta falar com Elizabeth, no que é contido por John Howlett, o marido dela. Na briga que se segue, Thomas termina por matar John e Elizabeth, enquanto o jovem James ataca o capataz, desesperado. Sem entender como, James vê garras de osso saindo de seus punhos e as usa para matar Logan. O filho de Thomas, Victor Creed, que tem quase a mesma idade de James, o incita a fugir, porque também odiava o pai, que batia nele violentamente de modo constante. (Porque Victor tem o nome diferente do pai, não é explicado).

Tendo em vista que Thomas também tinha garras, fica claro que James e Victor são irmãos e fogem juntos. As décadas passam e vemos James e Victor lutando juntos em várias guerras: a Guerra de Secessão nos EUA, a I Guerra Mundial e a II Guerra Mundial. James e Victor não envelhecem porque compartilham um fator de cura mutante.

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Logan e Creed: irmãos em guerra.

Em algum momento entre o fim dos anos 1960 e o início dos 70, James e Victor estão prisioneiros na Guerra do Vietnã e vão a fuzilamento, mas sobrevivem. Presos numa cela, são libertados pelo Major William Stryker, do Exército dos EUA, que lhes faz uma proposta: reunir-sem a um time tático especial formado por mutantes como eles. James é mais reticente à ideia – está cansado de guerra – mas Victor aceita rapidamente e o outro vai junto.

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Ryan Reynolds como Deadpool em “X-Men Origens – Wolverine”.

O time de Stryker traz vários outros agentes, como Wade Wilson (Deadpool), Fred Dukes (Blob), John Wraith, Chris Bradley e o Agente Zero; e fazem uma série de missões pelo mundo ao longo dos anos 1970. Fica subtendido que é nesse período que James e Victor assumem os codinomes de Wolverine e Dentes de Sabre, respectivamente. Numa das missões, na Nigéria (África), estão atrás de um tipo de mineral raro (o adamantium), mas a matança generalizada de vidas civis deixa James transtornado e ele decide abandonar o grupo.

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Liev Schrieber como Dentes de Sabre: a melhor coisa do filme.

Passam seis anos e James Howlett mudou seu nome para Logan e vive escondido trabalhando como lenhador no Canadá e é casado com a indígena blackfoot Kyla Silverfox (Raposa Prateada), uma professora de escola. Ele é feliz e está tranquilo. Ao mesmo tempo, descobrimos que Victor está caçando os velhos membros da equipe, por um motivo desconhecido. Certo dia, Logan é encontrado por Stryker, que pede que volte à ativa: Bradley e Wade foram mortos por Dentes de Sabre, que teria ficado totalmente maligno e está caçando os ex-companheiros. Wolverine se nega a ajudá-lo e, pouco depois vê que sua esposa foi morta por Victor.

Logan e Victor se reencontram em um bar e lutam, mas Wolverine é derrotado. Stryker oferece a Logan uma oportunidade de se tornar mais forte do que Dentes de Sabre: implantar adamantium em seus ossos.  Cego de vingança, ele aceita e o procedimento é realizado, causando uma dor insuportável. Mas em meio ao processo, consegue ouvir o major dizer que vai apagar sua mente para virar uma arma manipulável, então, Logan se liberta e arrebenta o lugar, fugindo pelas terras frias do Canadá.

Logan consegue abrigo em na fazenda dos Hudsons (referência à Tropa Alfa dos quadrinhos) e tenta lidar com as novas garras de adamantium. Mas ele é encontrado pelo Agente Zero, que mata os dois velhinhos. Wolverine consegue detê-lo e sai atrás de Stryker e Victor.

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Gambit em X-Men Origens – Wolverine.

Logan vai contactar seus velhos parceiros de time especial, Fred Dukes e John Wraith, e descobre que um cajun de Nova Orleans sabe aonde está a outra base de Stryker. Logan e Wraith vão atrás dele e conhecem Remy LeBeau (Gambit), um malandro jogador de poker que tem o poder de energizar pequenos objetos. Logan e Gambit lutam por um mal entendido, mas Dentes de Sabre aparece e mata Wraith e os outros dois se unem contra o vilão.

Victor foge e Gambit consegue um avião para levar Wolverine até a base secreta de Stryker, que fica em Tree Miles Island. Ao chegar lá, Logan descobre que Kyla está viva e que ela é uma mutante que tem a capacidade de manipular as emoções e sempre foi uma agente de Stryker para “mantê-lo na linha”. Ao mesmo tempo, Victor demonstra insubordinação porque quer ser submetido ao mesmo procedimento do adamantium. Kyla tenta explicar que só fez aquilo porque foi obrigada: Stryker mantém a irmã caçula dela como prisioneira, assim como vários outros mutantes adolescentes para experiências científicas.

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Versões adolescentes de Emma Frost e Ciclope em “X-Men Origens – Wolverine”.

A luta de Wolverine contra Dentes de Sabre termina sendo o pretexto para uma grande confusão e Logan e Kyla libertam as dezenas de jovens, dentre eles, a irmã dela – uma garota loira que pode transformar o próprio corpo em diamante (Rainha Branca) – e o jovem Scott Summers, o futuro Ciclope. Scott recebe comandos telepáticos que o ajudam a liderar a fuga dos jovens, e quando saem da instalação, topam com um helicóptero e a figura de um jovem Charles Xavier (Patrick Stewart usando de novo a tecnologia digital de rejuvenescimento).

Enquanto isso, Wolverine é perseguido por Wade Wilson (Deadpool) que é o produto final dos experimentos de Stryker (a Arma XI) e possuí a combinação de vários poderes mutantes extraídos de vários dos jovens aprisionados. Wilson agora é quase invencível e Wolverine só consegue vencer quando é ajudado por Dentes de Sabre, que procura proteger o irmão.

Após derrotar Deadpool, Wolverine e Kyla precisam enfrentar Stryker, que está armado de uma pistola que tem balas de adamantium. Ele atinge os dois, sendo que um dos tiros acerta a cabeça de Logan, que cai desmaiado. Kyla sofre vários disparos, mas antes de morrer, toca o militar e consegue usar seus poderes para fazê-lo andar até destruir os pés. Gambit chega até o local, mas quando Logan desperta está totalmente sem memórias do que aconteceu e sequer reconhece Kyla. Wolverine sai correndo do lugar. Stryker é encontrado pelos militares, mas é preso para responder pela morte de um general que matou antes.

A cena pós-créditos mostra Logan em um bar japonês, bebendo para lembrar, como diz.

X-Men Origens – Wolverine fez sucesso, mas causou uma péssima impressão nos fãs e nos críticos. O filme pareceu confuso, lotado de personagens e situações que diluem as emoções a quase nada e mal resolvido. O resultado foi tão ruim que a Fox decidiu mudar os rumos da franquia depois disso.

Outra questão que deixou os fãs chateados é que Origens trouxe à tona uma série de questões em aberto, como o fato de não explicar porque Dentes de Sabre não conhece Wolverine quando os dois se reencontram em X-Men – O Filme (15 anos depois do fim deste). E se o estúdio queria fazer um filme solo do Deadpool, porque simplesmente estragou tanto o personagem no final? Chegando até a matá-lo?!

X-Men Primeira Classe Banner-15Abr2011
Primeira Classe: origens reveladas.

X-MEN – PRIMEIRA CLASSE, 2011

Dirigido por Matthew Vaughn. História de Bryan Singer e Sheldon Turner. Roteiro de Ashley Edward Miller, Zack Stentz, Jane Goldman, Matthew Vaughn.

Elenco: James McAvoy (Charles Xavier), James Fassbender (Erik Lehnsherr), Jennifer Lawrence (Raven/ Mística), Rose Byrne (Moira McTagger), Kevin Bacon (Dr. Klaus Schmidt/ Bernard Shaw), Nicholas Hoult (Dr. Henry McCoy/ Fera), Lucas Till (Alex Summers/ Destrutor), January Jones (Emma Frost/ Rainha Branca), Caleb Landry Jones (Sean Cassidy/ Banshee), Jason Flamyng (Azazel), Oliver Platt (homem de preto da CIA), Edie Gathegi (Armando Muñoz/ Darwin), Zoe Kravitz (Angel Salvatore), Alex Gonzalez (Janos Quested/ Riptide), Matt Craven (McCone, Diretor da CIA), Rade Serbedjza (General Russo), Glenn Morshower (Coronel Robert Hendry), Don Creech (Agente da CIA Stryker), Michael Ironside (Almirante comandante da frota), Laurence Belcher (Charles Xavier criança), Bill Milner (Erik Lehnsherr adolescente), Morgan Lily (Raven criança). Participações especiais: Hugh Jackman (Logan/ Wolverine), Rebecca Romanjin (Raven adulta).

Apesar de lançado apenas dois anos após X-Men – Wolverine, Primeira Classe teve um longo desenvolvimento e já era o produto de um “acerto de trajetória” em relação aos dois fracassos anteriores.

magneto by jim lee (helm)
A ideia nasceu de um filme sobre Magneto. Arte de Jim Lee.

A ideia de um filme contando as origens dos X-Men era bem antiga, vinda quase desde o começo da franquia, pois X-Men – O Filme já trazia o time maduro e estabilizado. Mas com “o fim” da saga, abriu-se a possibilidade. Além de X-Men Origens – Wolverine e do planejado X-Men Origens – Magneto, a ideia do início da equipe também rodava nos corredores da Fox.

Mas inicialmente, o estúdio investiu no filme de Magneto. O escritor Sheldon Turner foi contratado para fazer o roteiro e criou uma história passada entre 1939 e 1955, que começava com Magneto no Campo de Concentração de Auschwitz e Xavier como um dos soldados americanos que o libertaram. Os dois seriam amigos a princípio, mas a sede de vingança de Erik Lehnsherr de caçar os nazistas que o torturaram tornaria os dois oponentes. David S. Goyer (que tinha escrito os filmes do Batman e já estivera envolvido na tentativa de levar Deadpool às telas) foi contratado para dirigir em 2007 e se planejou um lançamento para 2009. O atraso na produção de X-Men Origens – Wolverine (que só saiu naquele ano) e a greve dos roteiristas de 2007-2008 levou o adiamento para 2010. O atraso fez a Fox ficar mais reticente com o projeto e foi decidido esperar o sucesso de Wolverine para dar “sinal verde” para Magneto.

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Primeira Classe foi (vagamente) inspirado na HQ de mesmo nome.

Em paralelo, o roteirista de O Confronto Final e também produtor da Fox, Simon Kinberg tomou a dianteira de levar adiante o filme de origem da equipe em si, batizando-o de X-Men – Primeira Classe, ligeiramente baseado numa HQ recém-lançada pela Marvel que mostrava a juventude dos membros em uma caracterização adolescente, promovendo um tipo de releitura da fase inicial da equipe nos quadrinhos, quando criados por Stan Lee e Jack Kirby em 1963.

Entre o fim da greve e o lançamento de Wolverine, em 2009, Josh Swartz foi contratado para escrever o roteiro de Primeira Classe (a partir da premissa de Kinberg), que seria lançado se Magneto fizesse sucesso. A recomendação de Laura Donner e Simon Kinberg para o roteirista era a de usar personagens novos e não repetir aqueles já vistos nos filmes anteriores. Daí nasceu a ideia de localizar o filme nos anos 1960, quando Xavier e Magneto ainda eram relativamente jovens, em vez de algo localizado nos anos 1980 ou 1990, que seria o lógico para mostrar a juventude da equipe de X-Men – O Filme, de 2000.

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A Fox não cogitou adaptar os X-Men originais dos anos 1960, preferindo criar sua própria versão.

Após a má recepção de Wolverine, o estúdio ficou novamente reticente. Então, Donner convidou Bryan Singer para retornar à franquia como diretor de Primeira Classe, pois criou-se a impressão de que só ele tinha acertado. Os executivos guardavam mágoa do diretor por seu comportamento, porém, era inegável que ele tinha boa mão: os dois primeiros e melhores filmes da franquia haviam sido realizados por ele; e Singer estava no melhor momento de sua carreira, pois apesar da recepção fria de Superman – O Retorno, em 2006, ele tinha sido aclamado pelo lançamento de Operação Valquíria, em 2008. Singer, no entanto, não gostou do texto de Schwartz e o descartou, produzindo ele mesmo um tratamento para Primeira Classe e contratando Jaime Moss para transformá-lo num roteiro. Singer e Moss aproveitaram a ambientação nos anos 1960 e a ideia de usar personagens novos, e foi nesta versão que surgiu a ideia de vincular a história à Crise dos Mísseis de 1962.

O fracasso de Wolverine matou o filme de Magneto e a Fox decidiu seguir adiante apenas com Primeira Classe. Em certo sentido, a proposta dos dois filmes foi mesclada em um, de modo que o Sindicato dos Roteiristas de Hollywood obrigou que Sheldon Turner fosse creditado como o criador da história. De qualquer modo, a Fox ainda contratou a dupla Ashley Edward Miller e Zack Stentz para reescrever o texto do filme.

x-men first class - Xavier
James McAvoy interpreta a versão jovem de Charles Xavier.

O filme teve outro revés em 2010: Superman – O Retorno teve uma bilheteria aquém do que queria a Warner Bros., então, os planos de uma sequência foram abortados. Singer seguiu sua vida, mas por contrato estava devendo um filme à Warner e o estúdio cobrou para que ele filmasse Jack, the Giant Killer. Sem ter como se esquivar, o diretor deixou o comando de Primeira Classe, permanecendo apenas como Produtor Executivo do filme, enquanto a Fox procurava um substituto. O sucesso de Kick-Ass levou Simon Kinberg a convidar Matthew Vaughn para a direção, um nome que a Fox não queria, porque ele abandonou O Confronto Final nas vésperas do início da produção. O acordo foi feito e ele trouxe sua roteirista Jane Goldman para dar o acabamento final do texto, mudando muitas coisas do texto de Miller e Stantz.

O prazo era tão curto que, quando a esposa de Vaughn estava no hospital, após ter dado à luz, o diretor ficou ao lado da cama com Jane Goldman escrevendo o roteiro final do filme.

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Jennifer Lawrence: a nova Mística.

A seleção do elenco priorizou novos nomes que estavam em ascensão em Hollywood, incluindo James McAvoy e Michael Fassbender, ambos já indicados ao Oscar, para viverem as versões jovens de Xavier e Magneto, respectivamente, papeis que caíram como uma luva em cada um deles. Também logo se tornaria uma estrela Jennifer Lawrence, contratada para fazer Mística.

As filmagens iniciaram no verão do hemisfério norte de 2010, para uma estreia menos de um ano depois, no típico cronograma apertado dos filmes da Fox, o que rendeu muita dor de cabeça e pressão e levou a problemas entre Vaughn e os produtores. A maior parte da produção ocorreu dessa vez na Inglaterra, com cenas na Universidade de Oxford e um castelo próximo de Londres servindo como a Mansão X; e os estúdios de Pinewood para as cenas internas. Depois, a produção foi para os EUA, gravar em Tybee Island, na Georgia, para mimetizar o Caribe. Contudo, ainda foram necessárias refilmagens nas praias de Los Angeles há apenas três semanas da estreia do filme!

X-Men Primeira Classe Michael-Fassbender-26Mai2011
.Michael Fassbender como Magneto: caçador de nazistas.

X-Men – Primeira Classe inicia recriando a mesmíssima cena que abre X-Men – O Filme, (e que fora uma ideia de Bryan Singer) com o jovem Erik Lehnsherr (14 anos) sendo arrastado com sua família para um Campo de Concentração. Porém, dessa vez, vemos o que ocorreu depois. Os nazistas percebem os poderes de Erik, que é mandado para ser avaliado pelo médico Klaus Schmidt, que mata sua mãe e faz experimentos nele. Ao mesmo tempo, um Charles Xavier pré-adolescente (12 anos) flagra a cozinha de sua casa sendo “assaltada” por uma menina chamada Raven (09 anos), que tem o poder de mimetizar a aparência de qualquer pessoa. Charles que também é mutante (um telepata) decide protegê-la.

O primeiro corte da nova fase é este, ao estabelecer que Xavier e Mística serem irmãos, apesar dos personagens nunca terem trocado uma única palavra na trilogia inicial e nenhum filme anterior dar qualquer indicativo disso.

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Floresce a amizade entre Charles Xavier e Erik Lensherr.

O tempo salta para 1962 e o Erik adulto é um caçador de nazistas, eliminando aqueles que conseguiram fugir da justiça e seu principal alvo é o Dr. Schmidt. Ele terminará descobrindo que o cientista agora usa o nome de Bernard Shawn e é líder de uma organização secreta chamada Clube do Inferno. Enquanto isso, Charles é graduado em Genética na Universidade de Oxford, enquanto vive com Raven, como se fosse sua irmã. Ele é procurado por uma agente da CIA chamada Moira McTagger, que está investigando pessoas com habilidades especiais, que Xavier chama de mutantes em seu trabalho de doutoramento.

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A Primeira Classe: Professor X, Banshee, Destrutor, Magneto e Mística.

De volta aos EUA, Moira leva Charles à CIA e é criada a Divisão X para investigar mutantes e, especialmente, Shawn, que vinha sendo investigado por ela. O Clube do Inferno é composto por mutantes e está manipulando os EUA contra a Rússia em plena Guerra Fria para causar uma guerra direta. O ataque de Erik a Shawn coloca a Divisão X em ação e enquanto o vilão foge, Erik é agregado ao time.

Então vem outra ruptura com o material original (dos filmes), já que em X-Men – O Filme, Xavier diz que conheceu Erik quando tinha 17 anos e, neste filme, isso ocorre quando ele tem pelo menos 29 anos.

A Mística de Jennifer Lawrence.

Em vista da ameaça do Clube do Inferno, a CIA decide formar uma equipe de ataque, coordenada por Moira e Charles, mais Erik, e o apoio do engenheiro Hank McCoy. Charles e Erik se tornam grandes amigos e, usando uma versão prévia do Cérebro. Aqui, outra ruptura com o material original, pois Magneto diz em X-Men 2 que ajudou a construir o Cérebro e no filme não dá contribuição nenhuma nesse sentido, sendo praticamente um trabalho apenas de McCoy.

Mas usando o aparelho, localizam e recrutam vários mutantes (um deles é Wolverine, que recusa o convite), assim, são recrutados jovens mutantes, como Alex Summers (Destrutor), Sean Cassidy (Banshee) e Angel e Darwin, bem como Raven (Mística).

X-Men Primeira Classe Fera 24Mai2011
Além do Fera, é claro.

Enquanto o jovem time é treinado, Xavier, Moira e Erik vão à Rússia tentar impedir que a parceira de Shawn, Emma Frost (Rainha Branca), manipule um general para causar a guerra com os EUA; Shawn, Azazel e Riptide atacam a Divisão X e matam todos que não sejam mutantes. Shawn convida os jovens a se unirem a ele, enquanto Angel aceita, os outros revidam, resultando na morte de Darwin.

O plano de Shawn dá certo e, sabendo que a CIA tem um telepata, o vilão usa um elmo que o protege desse poder. Enquanto uma frota soviética segue à Cuba para um ataque aos EUA, Shawn e seu time os seguem em um submarino.

Michael Fassbender e Jennifer Lawrence: romance nos X-Men.

Xavier e os outros estão arrasados pelo ataque, mas também há espaço para o amor: Hank está apaixonado por Raven e desenvolveu um soro que acha que pode eliminar a mutação de seu corpo, oferecendo a ela também. Ela titubeia. Raven, por sua vez, tenta seduzir Erik, assumindo a forma de várias mulheres diferentes, mas ele a diz que ela é bonita em sua forma azul. Mas a dispensa porque ela é “muito jovem”. Hank experimenta o soro e ele causa um efeito contrário, transformando-o em uma aparência felina de pêlos azuis.

X-Men primeira classe Kevin-Bacon-e-January-Jones no sofá
Sebastian Shaw e Emma Frost, os principais vilões.

Sabendo dos planos de Shawn, o que restou da Divisão X embarca num jato para o Caribe a fim de impedir a guerra entre os EUA e a União Soviética, lá, são abatidos pelo submarino de Shawn e se inicia um confronto entre os dois times de mutantes. Magneto se lança com toda a sua fúria contra Shawn e, apesar de admitir que concorda com seus ideais de supremacia mutante, terá que matá-lo, porque ele matou a mãe dele. E assim o faz. Emma Frost e os outros conseguem fugir, mas uma vez vencida a batalha, Erik  toma o elmo do vilão e decide usar os mísseis e armamentos militares das duas frotas uns contra os outros. Xavier e Moira tentam detê-lo, mas quando Erik desvia uma das balas dela, esta termina inadvertidamente atingindo Charles, que ficará paralítico a partir de então.

x-men first class - Magneto com elmo
Magneto toma o elmo para si.

O acidente faz Erik rever seus atos e ele desiste por enquanto, indo embora e levando Raven com ele, que passa ao seu lado. De volta à Mansão, Charles decide usar seus recursos financeiros e a tecnologia de Hank para ajudar outros mutantes, mas ao mesmo tempo, apesar de apaixonado por Moira, decide apagar as memórias dela de tudo o que envolve a Divisão X.

Primeira Classe foi um grande sucesso e foi muito bem recebido pela crítica, achando que foi uma ótima revitalização da franquia dos X-Men, após alguns anos de baixa. Isso assegurou o caminho do “passado” em relação à franquia. A bilheteria no fim de semana da estreia foi menor do que os dois últimos filmes – que foram má recebidos pela crítica – mas ainda assim, a arrecadação foi maior do que o filme de 2000. A boa bilheteria e as boas críticas animaram a Fox a seguir em frente.

imortal poster logan and the ninjas
Wolverine: de volta ao presente.

WOLVERINE – IMORTAL, 2013.

Dirigido por James Mangold. Escrito por Mark Bomback e Scott Frank.

Elenco: Hugh Jackman (Logan/Wolverine), Hiroyuki Sanada (Mestre Ichirõ Yashida), Hal Yamanouchi (Shingen Yashida), Tao Okamoto (Mariko Yashida), Rila Fukushima (Yukio), Will Yun Lee (Kenuichio Harada/ Samurai de Prata), Brian Tee (Noboru Mori), Svetlana Khodchenkova (Víbora) e Framke Janssen (Jean Grey).

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Wolverine versus Shingen Tashida em Dívida de Honra. Arte de Frank Miller.

Apesar de em médio prazo X-Men Origens – Wolverine ter causado mal estar, teve um ótimo fim de semana de estreia em termos de bilheteria – o maior da franquia até então – por isso, na mesma semana da estreia do primeiro filme de Wolverine, foi confirmada sua sequência.

Havia certo consenso de que Wolverine 2 deveria abordar a famosa Saga do Japão, a melhor história do personagem, lançada como Dívida de Honra, uma minissérie, em 1982, com roteiro de Chris Claremont e desenhos de Frank Miller. Na trama, Logan vai ao Japão em busca de Mariko Yoshida, quem havia conhecido e se apaixonado nas histórias dos X-Men. Mas ao chegar lá, descobre que ela é filha de Shigen Yashida, o maior chefe criminoso do país e que despreza não apenas a natureza mutante de Wolverine, mas o seu pouco domínio da raiva, em relação à cultura de autocontrole e eficiência dos japoneses. O desenvolvimento da história para o filme, porém, acrescentou elementos de Glória Escarlate, uma história dos X-Men de 1984, que mostrava Logan e Mariko Yoshida quase se casando, mas tendo que lidar com a dupla de vilões Víbora e Samurai de Prata.

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O Samurai de Prata nos quadrinhos. Arte de John Buscema.

Quando a pré-produção começou efetivamente, estava claro que o diretor Gavin Hood (de Origens) não iria voltar, por isso se buscava um novo nome. Ao mesmo tempo, Christopher MacQuarrie – que contribuiu sem ser creditado no primeiro X-Men e roteirizou vários filmes de Bryan Singer – foi convidado para escrever o roteiro de Wolverine 2. O próprio Singer foi convidado para dirigir o filme, mas declinou, pois já estava comprometido com a sequência de Primeira Classe, que também iniciava sua pré-produção.

Em 2010, foi anunciado que Darren Aronofsky (de A Fonte de Juventude) iria dirigir Wolverine 2. A revelação causou calafrios nos fãs e na crítica, pois era um nome vinculado a filmes adultos, sérios, de grande bagagem intelectual.  Todos ficaram animados!

Mas durou pouco. No início de 2011, Aronofsky pediu demissão, afirmando que a produção do filme o deixaria mais de um ano longe de casa, algo que ele não estava disposto a fazer. Outro viés da produção foi o Terremoto e Tsunami do Japão, ocorrido naquele mesmo ano, o que obrigou a Fox a adiar as filmagens naquele país. As gravações foram remarcadas para 2012, o que permitiu que Hugh Jackman se dedicasse à filmagem de Os Miseráveis, filme pelo qual seria bastante aclamado. Uma enorme lista de diretores foram cogitados pela Fox, inclusive, José Padilha (de Tropa de Elite 1 e 2 e Robocop), mas o filme terminou nas mãos de James Mangold (de 3 A.M. to Yuma), que já havia trabalhado Jackman em Kate e Leopold no início de sua carreira. Nesse ínterim, Mark Bomback foi trazido para reescrever o texto de McQuarrie.

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Imortal: Bom filme, mas não fiel à original dos quadrinhos.

Para fazer jus à história do Japão, The Wolverine, como o filme foi originalmente nomeado (no Brasil, ganhou o subtítulo Imortal) contratou a maior parte de seu elenco de atores realmente orientais, o que lhe deu um ar distinto aos filmes de super-heróis.

As filmagens começaram no inverno do hemisfério sul na Austrália, por causa dos incentivos fiscais. A maior parte das cenas foi realizada lá, com apenas algumas semanas de filmagem no Japão em cenas externas, encerrando a produção antes do fim do ano. A cena do meio dos créditos (mais abaixo) foi filmada no Canadá no início de 2013, comandada por Bryan Singer e Simon Kinberg.

Wolverine – Imortal começa em 1945, no fim da II Guerra Mundial. Logan está como prisioneiro em um campo em Nagazaki e testemunha o bombardeio nuclear àquela cidade, conseguindo salvar a vida de um jovem soldado chamado Ichirõ Yashida que em gratidão lhe dá de presente uma espada tradicional de sua família.

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Logan passa o filme inteiro atormentado por  Jean Grey.

De volta ao presente, Imortal é o primeiro filme da franquia dos X-Men que se passa após os eventos de X-Men – O Confronto Final. Assim, após um ou dois anos da morte de Jean Grey (e de Xavier e Ciclope), Logan está de novo no Canadá, vivendo isolado. Ele tem pesadelos constantes com Jean, traumatizado por ter matado a mulher que amava. Então, é encontrado pela misteriosa Yukio que diz que o velho Yashida precisa falar com ele e tem uma oferta.

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A vilã Víbora.

Relutante, Logan aceita ir ao Japão e lá descobre que o velho Ichirõ Yashida está morrendo e lhe oferece a possibilidade de usar a genética de Wolverine para que possa sobreviver ao mesmo tempo em que presenteia Logan com a possibilidade de ter seu fator de cura eliminado e poder finalmente morrer. Ao mesmo tempo, conhece Shigen Yashida, filho do velho, que parece um empresário sem escrúpulos, não gosta de mutantes e quer casar a filha, Mariko, com o Ministro da Justiça japonês Noburo Mori. Logan recusa a oferta e fica para dormir na casa e ir embora pela manhã. Mas de madrugada, a Dra. Green (Víbora) – médica de Yashida – insere algo na corrente sanguínea do mutante.

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Correria no funeral.

De manhã, Logan é informado que Ichirõ morreu e resolve ficar para o funeral do velho. Durante a cerimônia, a família Yashida é atacada pela Yakuza (a máfia japonesa) e o clã Yashida revida com ninjas liderados por Harada, o guarda costas de Ichirõ. Claro que Logan se envolve na luta, mas percebe que seu fator de cura não está funcionando normalmente, fruto da ação da Dra. Green. O alvo principal do ataque é Mariko, porque Ichirõ deixou sua neta como herdeira da empresa e não o filho Shigen. Wolverine toma para si a missão de salvar Mariko e após confrontar a máfia em uma luta que envolve até um confronto no topo do trem bala, consegue fugir com ela pela periferia de Tóquio e indo parar na velha casa de campo de Ichirõ em Nagasaki.

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Mariko e Logan vão criando vínculos.

Lá, Logan e Mariko têm momentos mais tranquilos, e apesar de ainda atormentado pelas alucinações com Jean Grey, os dois se apaixonam e dormem juntos. A tranquilidade acaba quando o casal é atacado e, desta vez, Mariko é sequestrada. Yukio, que tem poderes de previsão do futuro, tinha percebido o que ia acontecer e chega tarde para ajudar. Mas os dois conseguem pegar um dos captores e ele entrega o responsável: é o noivo de Mariko, Naburo Mori. Logan e Yukio vão ao encontro do Ministro e o matam, indo em seguida de volta à casa do clã Yashida, onde enfrentam Harada e Shigen, que também é morto por Logan. Usando o equipamento médico ainda presente lá, a dupla descobre um tipo de parasita no coração de Logan, drenando seu fator de cura, o que o obriga a usar as próprias garras para abrir seu coração e tirá-lo de lá.

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Yukio vai ao resgate.

A busca leva, então, à velha vila onde Ichirõ havia nascido, mas um exército de ninjas está esperando por Logan, que é capturado. Levado à presença da Dra. Green, esta explica que vai transferir o fator de cura dele para um ciborgue gigante chamado Samurai de Prata, que tem uma espada de adamantium. O corpo do robô se abre e se revela que quem está dentro é Ichirõ Yashida, que foi quem tramou tudo e pretende roubar o fator de cura para viver eternamente. Mas o processo é interrompido por Yukio, que contam também com o auxílio de Harada que – por ter sido um grande amor de Mariko no passado – reconsidera suas ações e resolve ajudar.

Na batalha contra o Samurai de Prata, Logan tem suas garras de adamantiu decepadas pela espada do ciborgue e quase é derrotado, mas Mariko usa aquelas mesmas garras para matar seu avô, enquanto Wolverine finaliza o processo e elimina também a Dra. Green.

Assim, Mariko se torna a comandante da empresa da família, o que coloca a relação dela com Logan em segundo plano. Logan, então, resolve partir atrás de aventuras ao lado de Yukio.

Na cena no meio dos créditos, Logan tenta atravessar o detector de metais em um aeroporto quando é encontrado por Charles Xavier e Magneto. O herói fica em choque, pois Xavier estava morto e Magneto sem poderes, mas os dois apenas dizem que há um grande perigo e precisam da ajuda dele, abrindo o caminho para o filme seguinte da franquia.

Imortal foi bem recebido pela crítica e pelo público, embora todos sentissem que ainda não era o filme que Wolverine realmente merecia. Aos fãs, pesou mal o terceiro ato, que desvirtuou o filme e mais ainda a Saga do Japão nas HQs.

Dias de Um Futuro Esquecido nos cinemas.

X-MEN – DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO, 2014

Dirigido por Bryan Singer. História de Jane Goldberg, Simon Kinberg e Matthew Vaughn. Roteiro de Simon Kinberg.

Elenco: Hugh Jackman (Wolverine), James McAvoy (Charles Xavier), Michael Fassbender (Erik Lehnsherr/ Magneto), Jennifer Lawrence (Raven/ Mística), Patrick Stewart (Xavier velho), Ian McKellen (Magneto velho), Nicolas Hoult (Hank McCoy/ Fera), Halle Berry (Tempestade), Anna Paquin (Vampira), Ellen Page (Kitty Pryde), Shawn Ashmore(Homem de Gelo), Lucas Till (Alex Summers/Destrutor), Daniel Cudmore (Colossus), Fang Bingbing (Blink), Peter Dinklage (Bolivar Trask), Omar Sy (Bishop), Adam Canto (Mancha Solar), Booboo Stewart (Apache), Evans Peters (Mercúrio) e Josh Helman (William Stryker). 

O leitor já deve ter notado que os filmes dos mutantes na Fox, especialmente os dos X-Men, tinham produções bastante conturbadas (para não dizer que eram uma tremenda bagunça). Mudanças de última hora, imposição do estúdio, cronogramas apertados demais… E a tradição seguiu.

O sucesso de Primeira Classe gerou uma renovação na franquia e a ideia de que os mutantes podiam ter um futuro glorioso pela frente…. se conseguissem trabalhar em equipe. Não foi o caso.

Primeira Classe criou uma polaridade dentro da franquia: Bryan Singer, o iniciador de tudo, iria fazer o filme e foi impedido, ficando como produtor; Matthew Vaughn dirigiu o longa e escreveu o roteiro. Quem era o chefe? A Fox nunca deu essa resposta e a rivalidade criativa entre os dois começou a crescer e ganhar (mesmo que discretamente e educadamente) a imprensa.

Wolverine: Jackson iniciando despedida.

Em primeiro lugar, Vaughn nunca escondeu que queria fazer a sequência de Primeira Classe ainda nos anos 1960, pois poderia associar os mutantes a dois fenômenos culturais interessantíssimos: a luta pelos direitos civis dos negros nos EUA e a guerra do Vietnã (com os hippies a reboque). Como um dos períodos culturalmente mais ricos da história da humanidade, a década de 1960 podia render muita coisa! Vaughn até falou em iniciar o filme com o assassinato do presidente John F. Kennedy, que ocorreu um ano após os eventos de Primeira Classe, em 1963, e que coisa mais legal do que pegar a ideia da “bala mágica” e colocar Magneto como o responsável por aquilo?

(Nota para quem não entendeu a referência: no inquérito que investigou a morte do presidente, se afirmou que uma das balas o atingiu na cabeça, saiu pelo pescoço, atingiu seu pulso, atravessou o banco do carro e ainda feriu o Governador do Texas, que estava no banco da frente. Isso gerou a desconfiança de que se tratava de mais de um tiro (e mais de um atirador) e o apelido de “bala mágica” ao artefato. Mas investigações mais apuradas nos últimos anos demonstraram que o percurso do projétil era mesmo possível, dada a potência da arma que o efetivou).

Mas esse não era o plano de Singer, que vendeu à Fox uma ideia – algo tola – de fazer com que cada filme dos X-Men se passasse em uma década, o que seria necessário 5 longas para chegar ao ponto de X-Men – O Filme. A Fox preferiu essa direção.

Singer (e talvez o produtor Simon Kinberg, não está claro) também queria adaptar aos cinemas a história Dias de Um Futuro Esquecido, produzida por Chris Claremont e John Byrne em 1981, e a segunda mais famosa aventura dos X-Men, após A Saga da Fênix Negra. Uma trama de viagem no tempo: no futuro, a humanidade foi dominada pelos Sentinelas, que transformaram os EUA em um deserto nuclear e os mutantes foram praticamente extintos e os poucos sobreviventes vivem em campos de concentração. Os remanescentes dos X-Men (Magneto, Kitty Pryde e Rachel Summers – insinuada como filha de Ciclope e Fênix) conseguem enviar a mente de Pryde de volta no tempo, 30 anos no passado, no nosso presente, para o corpo dela própria adolescente, que havia acabado de ser admitida nos X-Men como membro em treinamento. A missão é impedir a Irmandade de Mutantes de matar o Senador Robert Kelly, ato que desencadeará os eventos que levam a tal futuro.

Então, Matthew Vaughn tentou vender a ideia de que, por melhor que fosse, Dias de Um Futuro Esquecido seria o filme ideal para encerrar uma trilogia, e sugeriu que fizessem um outro longa no meio. Como a Fox não queria outro filme nos anos 1960, ele até sugeriu uma aventura solo de Wolverine nos anos 1970.

A Fox até namorou a ideia, mas Vaughn queria reescalar Logan, colocando um ator mais jovem para interpretá-lo – Tom Hardy (de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, Mad Max – Fury Road e Dunkirk) – o que, além de desnecessário naquele momento, contradizia o que fora feito há pouco tempo, com X-Men Origens – Wolverine, na qual Hugh Jackman interpretava o personagem ao longo das décadas.

O estúdio bateu o martelo em fazer Dias de um Futuro Esquecido e Vaughn até escreveu a primeira versão do roteiro, ao lado de Jane Goldman, sua parceira, entregando o tratamento ainda em 2011, logo após a estreia de Primeira Classe. De início, Vaughn iria dirigir o filme, mas os problemas logo vieram.

Singer de volta ao comando.

Nunca ficou claro quando as coisas desandaram, mas em novembro de 2011, Simon Kinberg foi contratado para transformar o tratamento de Vaughn e Goldman em um roteiro, e só foi comunicado que Vaughn não iria dirigir o longa quase um ano depois, em outubro de 2012, com Bryan Singer anunciado pouco tempo depois. Kinberg assumiu a completude do roteiro a partir de então, e viu seu papel crescer dentro da franquia. Dali em diante, Kinberg passou a ser o “segundo em comando” dos X-Men na Fox, atrás de Singer, mas tomando até certo ponto o espaço que antes era de Lauren Donner.

De volta ao comando, Singer trouxe de volta a maior parte da equipe que lhe acompanhou em X-Men – O Filme e X-Men 2, enquanto Matthew Vaughn foi fazer Kingsmen – O Serviço Secreto.

As primeiras versões do roteiro colocavam Rachel Summers como a responsável pela viagem no tempo, enquanto o viajante no tempo teve papel ocupado tanto por Cable quanto por Bishop – dois personagens que viajaram no tempo nas HQs. Mas no fim das contas, Kinberg e Singer preferiram manter as coisas mais tradicionais, colocando Kitty Pryde como a responsável pela viagem no tempo (seus poderes de viajar pelo espaço – atravessando paredes – poderiam lhe fazer viajar pelo tempo) e o viajante sendo Wolverine, que era o protagonista da franquia. Além do mais, Pryde já havia aparecido nos filmes em destaque em O Confronto Final, ao contrário de Cable ou Bishop.

Passado e presente unidos: os dois Magnetos.

O roteiro demorou mais tempo do que o normal, porque dependia da capacidade de Singer e da Fox em trazer de volta o elenco original da franquia para as cenas do futuro. Em novembro, o diretor usou o Twitter para anunciar o retorno de James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult e que esses iam se unir aos veteranos Patrick Stewart, Ian McKellen e Hugh Jackman. Assim, Dias de um Futuro Esquecido teria a ousadia de reunir McAvoy/Stewart e Fassbender/McKellen nos papeis de Xavier e Magneto respectivamente.

A Fox decidiu assumir Dias… como a mais ousada produção da franquia e deu ao filme o maior orçamento da história do estúdio, de US$ 205 milhões, perdendo apenas para o Avatar de James Cameron. A produção também se mostrou mais complexa, pois o imenso elenco reunindo as duas pontas temporais da franquia dificultou o agendamento das filmagens, que por esse motivo, se estenderam entre abril e agosto de 2013, em Montreal, no Canadá. Enquanto o elenco filmava nos arredores da cidade – que dublou tanto Washington-DC quanto Paris – incluindo o Estádio Olímpico e a Universidade McGuill; a segunda unidade filmou cenas aéreas em Washington, onde se passaria o ato final do longa.

O Sentinela no set e Bryan Singer.

Os efeitos especiais também foram maciços: nada menos do que 12 companhias de efeitos especiais diferentes trabalharam no filme, com especial destaque na criação das duas versões dos Sentinelas (do passado e do futuro) e à cena slow motion que mostra Mercúrio em ação, se movendo em altíssima velocidade ao mesmo tempo em que o mundo parece parado para ele, na cena na cozinha do Pentágono.

Este caso traz uma particularidade interessante, pois enquanto Mercúrio aparece em Dias de Um Futuro Esquecido (da Fox), o herói também apareceria em Vingadores – Era de Ultron (do Marvel Studios) no ano seguinte. O fato era que o personagem – e sua irmã, a Feiticeira Escarlate, surgiram nas histórias dos X-Men, mas se tornaram membros importantes dos Vingadores. E histórias desse grupo revelearam que ambos eram filhos de Magneto! Tais características os faziam estar localizados em um limbo jurídico que permitia às duas empresas usarem-nos ao mesmo tempo.

Ainda assim, foi feito um acordo entre Kevin Feige e Lauren Donner: o Mercúrio dos Vingadores morreria logo no primeiro filme, seguindo adiante apenas sua irmã; enquanto Wanda seria retratada como uma criança no filme dos X-Men e apenas Mercúrio seguiria aos filmes seguintes. Curiosamente, apesar de cenas com a Wanda infante terem sido gravadas, a versão final as excluiu e a irmã é apenas citada numa frase do filme e nunca mais aparece ou é mencionada.

Não existem ainda muitos relatos de como foram as filmagens de Dias…, mas devemos presumir que o caos típico de Bryan Singer tenha permanecido, o que é demonstrado pelo excesso de cenas filmadas que permitiram que personagens fossem tirados do longa. O caso mais célebre foi a Vampira de Anna Paquim, que aparece no material promocional do filme, mas sequer é citada na versão final.

Anos depois, foi lançada em homevideo o The Rogue Cut, que trazia uma versão com 20 minutos adicionais no filme, trazendo o arco de Vampira: no futuro, Xavier e Magneto vão resgatá-la em um tipo de prisão para que ela possa substituir Kitty Pryde em manter Wolverine no passado.

Kitty Pryde e Homem de Gelo: personagens conhecidos de volta.

A trama de Dias de um Futuro Esquecido inicia em 2023, quando os X-Men do futuro (Homem de Gelo, Kitty Pryde, Blink, Bishop, Mancha Solar) lutam contra os Sentinelas (terríveis robôs que se adaptam a qualquer forma ou poder) e são mortos, mas Pryde consegue fazer Bishop voltar algumas semanas no tempo, pondo em ação um novo plano. Então, Pryde se reúne com Xavier, Magneto, Wolverine e Tempestade nas ruínas de um templo na Muralha da China e Xavier lhe explica que os Sentinelas foram criados a partir do DNA de Mística, que fora capturada após matar o criador da primeira versão dos robôs, Bolivar Trask, em 1973. Por isso, os androides, tal qual a mutante azul, podem mudar de forma e se adaptar a tudo.

Wolverine se voluntaria para viajar ao passado, tanto porque já existe como adulto naquele tempo (ao contrário de Tempestade, por exemplo), quanto porque sua capacidade de regeneração poderá lhe fazer sobreviver ao processo (algo ao qual Xavier e Magneto não poderiam). O processo é feito e Pryde envia Logan de volta a 1973, e ele desperta em Nova York, aparentemente trabalhando como guarda-costas da máfia, mas deu certo e ele sabe que veio do futuro e está ocupando o corpo de sua versão 50 anos mais jovem.

Fera e Xavier devem reunir os X-Men de verdade no filme.

Logan vai à Mansão X apenas para descobrir que Xavier fechou a Escola para Jovem Superdotados que abrira na sequência dos eventos de Primeira Classe (em 1962), porque a maior parte de seus alunos foi convocada para a Guerra do Vietnã, e agora, vive como um alcoólatra (e fica subtendido que um drogado também), sob a vigilância reticente de Hank McCoy, o Fera. Ao contrário do que vemos ao fim de Primeira Classe, Xavier ainda pode andar (criou um soro que apaga seus poderes mutantes e traz de volta sua capacidade de andar. O quê? Como? Não pergunte…) e McCoy tem aparência humana e não a animalesca de pelo azul (criou um soro que lhe permite alternar as duas versões).

Após alguma relutância, Logan consegue convencê-los de sua história, mas chegam à conclusão de que precisarão da ajuda de Magneto para encontrar Mística, que está desaparecida. Magneto está preso por ter matado o presidente John Kennedy no subsolo do Pentágono, e Mística seguiu seu próprio caminho. Para resgatar Erik Lehnsherr, Wolverine recruta Pietro Maximoff, o Mercúrio, que é apenas um adolescente, e é filho de Magneto, sem que nenhum dos dois saiba (mas o filme insinua isso de cara).

Mercúrio em Dias de Um Futuro Esquecido.

Com a supervelocidade de Mercúrio, Xavier e Logan resgatam Magneto que se une a eles para encontrar Mística, que vai à Paris para a Convenção que dará fim à Guerra do Vietnã e tentará matar Bolivar Trask. Antes disso, vemos Mística aparecer no Vietnã e libertar alguns mutantes que estão como prisioneiros em um campo, dentre os quais Alex Summers, o Destrutor, que atuou ao lado dela em Primeira Classe. Outro que está lá é uma versão jovem de Groxo, que será um membro da Irmandade de Mutantes em X-Men – O Filme, em 2000, embora com um visual completamente distinto. A cena serve também para apresentar uma versão jovial de William Stryker, aqui ainda um major (e o futuro vilão tanto de X-Men Origens – Wolverine quanto de X-Men 2).

Vemos Mística em ação disposta a matar Trask – cuja empresa está secretamente matando e dissecando mutantes para criar os Sentinelas e equipá-los com dispositivos para combater qualquer mutante. A cena em que a transmorfa invade os arquivos deixa claro que vários dos coadjuvantes de Primeira Classe (Banshee, Anjel, Azazel…) foram mortos. Tal informação põe em questão que nos 11 anos entre Primeira Classe e Dias de Um Futuro Esquecido, Mística e Azazel teriam tido um caso, pois eles são os pais de Kurt Wagner, o Noturno (nos quadrinhos) e os filmes não negam isso (e o seguinte, Apocalipse parece confirmar).

Magneto e Xavier no futuro: menos de 1/3 do filme.

No futuro, Xavier, Magneto e Tempestade precisam se defender de um ataque dos Sentinelas, enquanto Kitty Pryde tenta garantir que a mente de Logan permaneça no passado, a distração e o fato dela enfraquecer o laço a levam a ser atingida pelas garras de Wolverine, o que faz com que por um instante o Logan do passado acorde em meio à tentativa de salvar Trask e só atrapalhe. Trask não é morto nem Mística é capturada, mas a desastrosa ação põe o Fera e a Mística no meio da rua à plena luz do dia, revelando publicamente a existência (secreta) dos mutantes, mudando a história, antecipando algo que só deveria ocorrer bem mais tarde. (Por isso, em X-Men – O Filme e X-Men 2, a população sabe da existência dos mutantes quase como um rumor, mas até os eventos desses dois filmes, eles nunca haviam sido revelados em toda a sua glória. O episódio antecipa a revelação em 30 anos!).

As duas versões de Xavier em Dias de um Futuro Esquecido.

De volta à Mansão X, em 1973, Xavier abandona o uso do soro e retoma suas habilidades telepáticas, fazendo-o ser capaz de, por meio de Wolverine, se comunicar com a versão futura de si mesmo, que o incentiva a abraçar a causa mutante e fundar os X-Men. Usando o Cérebro, o jovem Xavier localiza Mística em Washington.

Michael Fassbender: sempre ótimo!

Como usual, Magneto tem seus próprios planos e retorna a Washington, onde toma posse do elmo que Sebastian Shaw criou para se proteger de telepatas e, sabendo que os Sentinelas são feitos de plástico para que ele não possa combatê-los, secretamente, insere uma série de hastes de metal dentro deles para poder controlá-los. Mística também segue para Washington, continuando seu plano de matar Trask.

Xavier, Fera e Wolverine ficam sabendo que o presidente Richard Nixon e Bolivar Trask irão promover um evento na Casa Branca para lançar publicamente o Programa Sentinela para “proteger” a população dos mutantes. Mas Magneto ataca o evento, erguendo o Estádio JFK e derrubando-o ao redor da Casa Branca para isolá-la e tomando o controle dos Sentinelas para matar o presidente, Trask e todo mundo. Xavier, Fera e Wolverine dão tudo de si, mas são derrotados – Logan é atirado quilômetros de distância, amarrado em hastes de metal, no fundo do rio Potomac – mas é Mística quem o impede, atirando uma bala em seu pescoço.

Em 2023, os Sentinelas se reagrupam e motivam o ataque final aos X-Men sobreviventes, com Tempestade e Magneto se sacrificando para que Pryde e Logan tenham mais tempo.

Magneto usa seu uniforme pela primeira vez.

Em 1973, Xavier consegue convencer Mística a não matar Trask, o que altera o futuro e vemos a batalha de 2023 simplesmente evanescer na existência. No passado, Magneto foge como o criminoso mais procurado do mundo, Mística foge como uma heroína por ter salvo o presidente e ter impedido o primeiro, e Trask é preso por vender segredos militares.

Numa cena subsequente – e não é dada uma pista de quanto tempo depois – Wolverine é resgatado do fundo do rio pelo Major Stryker, mas os olhos dele deixam claro que, na verdade, é Mística no lugar dele, o que mais confunde do que explica a nova linha temporal.

O Wolverine do futuro acorda em 2023, mas está tudo diferente: ele está na Mansão X e Fera, Tempestade, Xavier, Ciclope e Jean Grey estão todos vivos! (Interpretado pelos atores de O Confronto Final) Xavier o chama para um canto e revela que sabe o que se passou (pois era “ele” em 1973).

X-Men – Dias de Um Futuro Esquecido estreou em 2014 e fez um grande sucesso, se tornando a maior bilheteria da franquia até o lançamento de Deadpool dois anos depois. Público e crítica gostaram do filme, encantados com a história ágil, a trama interessante e, claro, o encontro das duas sagas e elenco (passado e futuro), sendo um ponto alta da série.

Por outro lado, se a linha temporal dos X-Men já era uma confusão antes dele, depois, ficou ainda pior, pois as mudanças do passado ainda não eram suficientes para explicar várias outras incongruências.

DEADPOOL, 2016

Dirigido por Tim Miller. Roteiro de Rhett Reese e Paul Wernick.

Elenco: Ryan Reynolds (Wade Wilson/ Deadpool), Morena Baccarin (Vanessa Carlysle/ Copycat), Gina Carano (Angel Dust), Ed Skrein (Ajax), T.J. Miller (Weasel), Stefan Kapicic e Andre Tricoteaux (voz e corpo de Colossos, respectivamente), Brianna Hildebrand (Míssil Magasônico), Jed Reese (O recrutador), Leslie Uggams (Blind Al) e Karan Soni (Dopinder).

Deadpool teve uma carreira de bastidores quase tão longa e complexa quanto o primeiro X-Men. Ainda no rescaldo da venda dos direitos cinematográficos de várias propriedades da Marvel Entertainment, no fim dos anos 1990, a Artisan Entertainment firmou um acordo com a empresa, em 2000, para produzir uma série de filmes dos personagens da editora, dentre os quais estava o “mercenário boca suja”. Várias ideias iam e vinham e, em 2004, quando os primeiros filmes da Marvel já estouravam nas bilheterias (os dois primeiros X-Men, os dois primeiros Homem-Aranha, Hulk, Demolidor etc.), o diretor e roteirista David S. Goyer e o ator Ryan Reynolds se reuniram (após produzirem o terceiro filme de Blade, o caçador de vampiros da Marvel) para produzir o filme adaptando as aventuras de Wade Wilson.

Goyer e Reynolds levaram o projeto para a New Line Cinema e o executivo da empresa Jeff Katz se tornou um entusiasta do filme, porém, o trio descobriu que Deadpool estava dentro do “pacote mutante” da Marvel, e portanto, seus direitos de adaptação pertenciam à 20th Century Fox e não à New Line. Isso terminou por enterrar o projeto e Goyer terminou se afastando, pois ficou muito ocupado como roteirista da Trilogia Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan.

Mas o vácuo não durou muito… Em 2005, Reynolds – um ator não tão famoso na época, mas com um bom trânsito em Hollywood – ficou sabendo que a Fox pensava em usar o Deadpool em algum dos filmes dos X-Men e se aproximou de Lauren Donner com suas ideias. A ideia de um filme na Fox surgiu, mas o estúdio preferiu “comissionar” o personagem para o filme X-Men Origens – Wolverine, cuja pré-produção começou em 2006. Como uma forma de garantir um filme solo de Deadpool para depois, Donner insistiu para que Reynolds interpretasse Wade Wilson no filme. Isso foi possível porque Katz agora também era um executivo da Fox.

A produção de X-Men Origens – Wolverine foi bastante problemática, como já vimos, e apesar do papel de Wade Wilson ter sido aumentado como uma “cortesia” a Reynolds, Deadpool é completamente descaracterizado no filme e, mais ainda, no fim, quando vira a ameaça final e lhe são incorporados uma série de superpoderes e ainda morre no fim. Como a ideia de do filme dele prosseguia, uma cena pós-créditos mostrando que Wade sobreviveu foi adicionada apenas algumas semanas antes da estreia do longa, em 2009.

Lauren Donner e Reynolds começaram a discutir ideias para Deadpool e decidiram ignorar totalmente os eventos de Wolverine para focar numa história que resgatasse as raízes do personagem nas HQs, com sua tagarelice, humor negro e a quebra da “quarta parede” na qual o personagem fala com o leitor da HQ. No início do ano 2010, a dupla de roteiristas Rhett Reese e Paul Wemick foi contratada para desenvolver o roteiro e criaram uma trama para Censura 18 anos, o que era uma ousadia.

Robert Rodriguez (de Sin City) foi convidado para dirigir e se interessou pelo projeto, embora não tenha ficado. Adam Berg também namorou o filme, mas quem terminou escolhido por Tim Miller, que trabalhava como supervisor de efeitos especiais nos filmes dos X-Men. Miller tinha dirigido uma animação em CGI para a DC Comics e ganhou o Oscar de Melhor Curtametragem Animado com Gropher Broke e iria estrear em longametragens com Deadpool.

Enquanto isso, Reynolds estreou Lanterna Verde, na DC Comics, em 2011, e o filme foi um fiasco completo. O maior da história da companhia, e a Fox começou a perder a fé no projeto de Deadpool, principalmente, por causa do fator 18 anos. Ainda assim, a Fox deu um pequeno orçamento de pouco mais de 100 mil dólares para Miller desenvolver uma filmagem de teste. Em 2012, Miller criou um curtametragem em animação com CGI com Reynolds dublando o Deadpool, adaptando uma das cenas do roteiro e mostrou aos executivos da Fox, que não ficaram convencidos pelo projeto e não deram o sinal verde.

Com o sucesso de Os Vingadores, sugeriram fazer de Deadpool um tipo de filme de equipe e Reynolds e Miller começaram a pensar nisso. Mas nomes influentes em Hollywood como David Fincher e, principalmente, James Cameron – cujo Avatar foi feito pela Fox – defendiam o projeto de Deadpool entre os executivos da Fox, o que impediu o projeto de morrer totalmente.

Tudo mudou em 2014, quando o curta animado de Miller e Reynolds vazou na internet e impressionou todo mundo, especialmente os fãs, que ficaram loucos com o tom e a galhofa do texto. O resultado foi tão positivo que a Fox terminou dando o sinal verde para Deadpool e agendando seu lançamento para 2016, embora ainda com um orçamento pequeno, de apenas US$ 58 milhões.

Por isso, a produção do filme foi bem rápida e ocorreu em apenas dois meses no início de 2015 em Vancouver. A Fox se recusou a pagar para que os roteiristas Reese e Wemick permanecessem nos sets de filmagens, então, Reynolds pagou o salários deles do próprio bolso durante a produção. As piadas do filme foram bastante improvisadas, inclusive, aquela que ficou famosa quando Deadpool visita a Mansão X e só encontra Colossus e Megasonic Teenage Warhead, dizendo que isso ocorre porque a Fox não quis pagar para que mais X-Men aparecessem.

O humor histérico, chulo e além da quarta parede chamaram bastante a atenção e quando Deadpool foi lançado causou uma grande impressão e foi aclamado por público, arrecadando mais de US$ 700 milhões nas bilheterias e batendo dois recordes: a maior arrecadação de um filme da franquia dos X-Men e também o Filme de Censura 18 anos de maior sucesso da história.

Apocalipse: cena pós-créditos revelada.

X-MEN – APOCALIPSE, 2016

Dirigido por Bryan Singer. História de Bryan Singer e Simon Kinberg . Roteiro de Simon Kinberg, Dan Harris e Michael Dougherty.

Elenco: James McAvoy (Charles Xavier/ Professor X), Michael Fassbender (Erik Lehnsherr/ Magneto), Jennifer Lawrence (Raven/ Mística), Oscar Isaac (En-Sabar-Nur/ Apocalipse), Nicolas Hoult (Hank McCoy/ Fera), Evans Peters (Peter Maximoff/ Mercúrio), Tye Sheridan (Scott Summers/ Ciclope), Sophie Turner (Jean Grey), Alexandra Shipp (Ororo Monroe/ Tempestade), Ben Hardy (Warren Worthington III/ Anjo), Kodi Smit-McPhee (Kurt Wagner/ Noturno), Lana Condor (Jubileu), Olivia Munn (Betsy Braddock/ Psylocke), Lucas Till (Alex Summers/Destrutor), Rose Byrne (Moira MacTargget) e Josh Helman (Coronel William Stryker), além da participação de Hugh Jackman (Wolverine).

A Fox estava confiante no sucesso de Dias de Um Futuro Esquecido e começou a produção de Apocalipse ainda antes do lançamento daquele. Bryan Singer foi confirmado como diretor e desenvolveu uma história para a trama ao lado de seus usuais parceiros Dan Harris e Michael Dougherty, antes de passar a missão para Simon Kinberg escrever o roteiro final. A trama foi definida em torno do vilão Apocalipse e na origem dos mutantes, já que o personagem advém dos tempos do Egito Antigo, por volta de 3.600 anos atrás.

As filmagens ocorreram no primeiro semestre de 2015 – ao mesmo tempo em que as de Deadpool – em Montreal no Canadá. Mas algumas cenas externas foram realizadas na Inglaterra, já que na impossibilidade de usar o velho castelo da Universidade de Vancouver como a Mansão X, a produção usou um castelo em Berkshire, na Grã-Bretanha.

O vilão com Mística em mãos. Potencial para mais.

Como de costume, foi uma produção turbulenta, em parte pelos arroubos de Bryan Singer com o elenco e a equipe de produção. Simon Kinberg ficou como um tipo de “representante” da Fox para ficar de olho no diretor, e durante as gravações, uma discussão levou Singer a ir embora e ficar 10 dias afastado da produção. A equipe não parou e Kinberg assumiu a função de diretor neste e em outros momentos.

A atriz Olivia Munn, que viveu a Psylocke, anos depois deu um relato sobre a postura abusadora e anti-profissional de Singer nos sets de filmagem.

Capas de “X-Factor” com o arco “A Queda dos Mutantes”, com arte de Walt Simonson e textos de Louise Simonson.

A trama toma de empréstimo ligeiramente os fatos da saga A Queda dos Mutantes, que envolveram principalmente o derivado dos X-Men, o X-Factor, que na época consistia num grupo com os membros originais do time mutante reunidos depois de adultos. Na trama da HQ, escrita por Louise Simonson e desenhada por seu marido, Walt Simonson, publicada em 1987, Apocalipse decide moldar a evolução da humanidade colocando os mutantes em primeiro plano e liderando o seus Quatro Cavaleiros, dotados de poderes de destruição, um dos quais, o ex-X-Men Anjo, agora transformado num ser mais poderoso, o Arcanjo, o Cavaleiro da Morte.

Tempestade, Apocalipse e Psylocke.

Para Singer, o filme teria Apocalipse como protagonista, ao mesmo tempo em que servia como um encerramento da trilogia iniciada em Primeira Classe, o que levou Kinberg a desenvolver uma trama em torno de Mística, que inicia Primeira Classe como aliada de Xavier, depois muda de lado para Magneto; em Dias de Um Futuro Esquecido está por sua própria conta, mas termina ao lado dos mocinhos; e em Apocalipse completa o círculo de volta ao “bem”, terminando ao lado de Xavier e como um tipo de líder da primeira versão dos X-Men.

Os jovens X-Men em Apocalipse.

A transformação de Mística em uma heroína é um desvio total da personagem original das HQ, que é uma vilã surgida nas histórias da Miss Marvel (hoje, Capitã Marvel) e, depois, reutilizada por seus criadores, Chris Claremont e Dave Crockum como uma oponente importante dos X-Men e líder de uma nova versão da Irmandade de Mutantes criada anteriormente por Magneto. A transformação de Raven em heroína parece atender muito menos a um aspecto da história – ela era retratada como uma vilã totalmente maligna na trilogia original dos filmes – e muito mais como uma concessão à atriz Jennifer Lawrence, que no intervalo entre Primeira Classe e Dias de Um Futuro Esquecido, se tornou uma das principais (e mais queridinhas) atrizes de Hollywood, protagonizando a franquia Divergente e ganhando um Oscar de Melhor Atriz.

Outro elemento da ascensão da atriz foi que tanto em Dias… quanto em Apocalipse, Mística aparece o mínimo possível em sua versão azul, para evitar Lawrence do transtorno de passar horas sendo maquiada. Isso também levou ao desenvolvimento de uma técnica mais simples de transformá-la, usando apliques de silicone e um tipo de pancake azul.

Situando Apocalipse em 1983, exatamente dez anos após Dias…, Singer e Kinberg decidiram trazer a real fundação dos X-Men, após a iniciativa frustrada mostrada entre Primeira Classe e Dias… Assim, Apocalipse mostra que Xavier reabriu sua escola e tem sua primeira leva de novos estudantes, dentre as quais está a adolescente Jean Grey. Scott Summers, o Ciclope, é recrutado à escola durante o filme, em uma situação diferente daquela mostrada em X-Men Origens – Wolverine – embora ainda relacionada à destruição de sua escola original. Mas agora, Scott é mostrado como o irmão caçula de Alex Summers, o Destrutor, de Primeira Classe e Dias…; numa situação inversa àquela das HQs. E é levado à escola de Xavier por ele.

O filme também traz a versão adolescente de Ororo, a Tempestade, e a de Noturno, neste caso, dando a entender numa primeira cena, que Kurt Wagner é mesmo filho de Raven, tal qual nos quadrinhos, embora este fato não seja mesmo explorado diretamente nem neste nem nos outros filmes. Inédita nos filmes mutantes até então, Psylocke faz sua estreia. Contudo, o longa “introduz” o Anjo como um adolescente em 1983, o que é uma contradição aos eventos de O Confronto Final, na qual Warren Worthington III continua tendo 20 e poucos anos em 2006!

Michael Fassbender: interpretação excepcional.

Na trama, após Mística ter salvo o presidente dos EUA em 1973, a existência dos mutantes é conhecida de todos e Mística é tida como uma heroína desaparecida; ao mesmo tempo em que Erik Lensherr (Magneto) é o criminoso mais procurado do mundo, apesar dele tentar viver uma vida normal, com uma nova família, anônimo e escondido na zona rural da Alemanha. Enquanto isso, Xavier e Hank McCoy treinam os mutantes em sua escola.

Mas a paz de Erik não dura, quando os moradores de sua vila descobrem que ele é mutante e terminam por matar sua mulher e filha, numa adaptação da clássica origem do vilão nas HQs.

… Os Quatro Cavaleiros de Apocalipse.

Então, En Sabbah Nur – o poderosíssimo mutante egípcio que muda de corpo de tempos em tempos como forma de se manter imortal e era adorado como um deus no Egito Antigo e desde então, soterrado em baixo de uma pirâmide – é encontrado por arqueólogos e decide continuar seu plano de dominação mundial. Tendo o poder de dominar as mentes de mutantes e fazê-los se tornarem malignos, ele recruta um time de mutantes para serem seus Cavaleiros, dentre os quais Magneto, Tempestade, Anjo e Psylocke. A ameaça é tão grande que isso faz Xavier adiantar seus planos e reunir os X-Men como uma equipe para combatê-lo. (Ele agora conhece o futuro e sabe que os X-Men surgirão em algum momento).

X-Men.

O elenco ainda maior do que Dias de Um Futuro Esquecido – que se beneficiava de dividi-lo em dois períodos de tempo – tornou Apocalipse um filme muito inchado, no qual não há espaço para desenvolver sua tríade de tramas: o drama entre Xavier, McCoy, Raven e Erik de um lado; a introdução e os dilemas de Jean Grey e Scott Summers; dar espaço à trama individual de Erik; momentos de ação e destaque para Tempestade ou Psylocke (que viram meras figurantes); e o novo vilão. O retrato de Apocalipse termina sendo caricatural e o roteiro não desenvolve a premissa de enorme potencial de que ele é, basicamente, o Deus do Antigo Testamento, desperdiçando um ator do quilate de Oscar Issak embaixo de quilos de maquiagem que o deixam inexpressivo.

Assim, apesar de não ser efusivamente recebido, Apocalipse ainda foi muito bem nas bilheterias, se tornando a segunda melhor arrecadação de um filme dos X-Men, atrás apenas do antecessor, Dias de Um Futuro Esquecido.

LOGAN, 2017

Dirigido por James Mangold. História de James Mangold. Roteiro de Scott Frank, James Mangold e Michael Green.

Elenco: Hugh Jackman (Logan/ Wolverine), Patrick Stewart (Charles Xavier/ Professor X), Dafne Keen (Laura), Richard E. Grant (Dr. Zander Rice), Boyd Holbrook (Donald Pierce), Stephen Mercant (Caliban).

Na época do lançamento de X-Men – Dias de Um Futuro Esquecido (que terminaria sendo seu último grande filme com os X-Men, pois Apocalipse traria somente uma participação especial), Hugh Jackman já havia interpretado Logan por 14 anos e começou a pensar que havia chegada a hora de aposentar o personagem. E fazer isso em grande estilo!

A ideia de Jackman era fazer o melhor filme possível de Wolverine, que capturasse sua essência enquanto personagem, mas ao mesmo tempo, não fosse um filme do tipo “o mundo irá sobreviver?”, tão comuns à fase pós-2011 da franquia. Ele queria algo mais artístico, mais sério. Afinal, o ator havia crescido em Hollywood e, naquele ponto, já tinha se destacado em várias outras produções, sendo indicado ao Oscar por Os Miseráveis e revelando seus dotes de canto e dança em O Showman. Jackman queria que seu último Wolverine fosse algo pelo o qual pudesse se orgulhar.

Logan.

O ator começou a conversar com Lauren Shullen-Donner e insistiu para que o diretor James Mangold (de The Wolverine) permanecesse na franquia. Jackman contou em entrevistas que, um dia, acordou e gravou um áudio no seu celular com os tópicos que queria que o filme tivesse e, embora nunca tenha revelado quais eram esses pontos, afirmou que todos eles permaneceram na versão final. Mangold certa vez disse que o filme seria uma versão sangrenta e séria de Little Miss Sunshine, o que faz todo o sentido.

A história foi concebida por Jackman (que ganhou o cargo de produtor, de novo) – e que nunca ganhou o crédito por isso – e Mangold e o roteiro foi escrito por Michael Green, e no fim, ganhou versão final de Scott Frank. As filmagens ocorreram entre maio e agosto de 2016, principalmente na Lousinana e New Orleans, mas também nos estados vizinhos, especialmente no Novo México. Algumas cenas de perseguição de carros foram gravadas na Califórnia para se aproveitar de profissionais mais experientes com esse tipo de ação.

Old Man Logan: violência.

O longa era baseado em Old Man Logan (Velho Logan, no Brasil), uma famosa história escrita por Mark Millar e desenhada por Steve McNiven (a mesma dupla de Guerra Civil, a saga dos Vingadores que foi adaptada ao cinema pelo Marvel Studios), e que mostra Logan como um dos últimos heróis da Marvel vivos em um futuro desolado. Na época, Millar era contratado como Consultor da Fox para os filmes dos X-Men.

A trama mostra um “futuro possível” dos X-Men, aparentemente desconectado daquele mostrado em Dias de Um Futuro Esquecido. O ano é 2029. Os X-Men foram heróis reconhecidos no passado, mas tudo terminou em uma grande tragédia sete anos antes, quando um doente Charles Xavier teve um colapso mental que matou várias pessoas – aparentemente, alguns X-Men também. Desde então, Logan vive anonimamente nas cercanias de Las Vegas, trabalhando como motorista de limusine, e cuida de Xavier em um celeiro abandonado. Mas então, ele descobre que um grupo de geneterroristas estão atrás dele e descobre um processo de clonagem que resultou na X-23, ou Laura, uma menina que é um clone de Logan, e tem apenas 12 anos.

Assim, enquanto são perseguidos por Donald Pierce e seus Carniceiros, Logan, Xavier e Laura precisam fugir para o norte, onde ela acredita que existe um território neutro no qual jovens mutantes vivem em paz. Na jornada, Logan encontra vários outros pequenos mutantes e os guia (ou tenta) à sua salvação.

Beneficiado pelo sucesso de Deadpool, Logan também ganhou Censura 18 anos e foi não somente um grande sucesso, quanto bastante aclamado pela crítica, realizando o desejo de Hugh Jackman de sair do personagem e da franquia que lhe deixou famoso de modo honrado e artístico.

Com um custo de apenas US$ 97 milhões – pois não depende muito de efeitos visuais – Logan arrecadou 619 milhões de dólares, se tornando o segundo filme Censura 18 anos de maior arrecadação da história, atrás apenas de Deadpool. E mesmo com essa limitação de público, Logan ainda teve uma bilheteria maior do que a de Wolverine – Imortal.

A crítica se encantou pelo filme, o que lhe valeu uma indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, o primeiro do gênero de super-heróis da história. Não levou, mas essa já foi a vitória.

E Logan ainda ganhou uma versão em preto e branco, Logan Noir, que foi lançado numa edição especial nos cinemas e também em video on demand.

DEADPOOL 2, 2018

Dirigido por David Leitch. Roteiro Rhett Reese, Paul Wernick e Ryan Reynolds.

Elenco: Ryan Reynolds (Wade Wilson/ Deadpool), Josh Brolin (Cable), Zazie Beetz (Dominó), Morena Bacarin (Vanessa), Julian Dennison (Russell), Karan Soni (Dopinder), Stefan Kapicic (voz de Colossos), Leslie Uggams (Blind Al), Eddie Marsan (diretor), Briana Hildenbrand (Míssil Megasônico Adolescente), Shioli Kutsuna (Yukio), T.J. Miller (Weasel), Jack Kesy (Black Tom Cassidy), com participação especial de Rob Delaney (Peter), Terry Crews (Bedlam), Bill Skarsgard (Zeigeist) e Lewis Tan (Shattlestar).

O sucesso estrondoso de Deadpool, que se tornou então o maior filme da franquia mutante deixou a Fox estupefata e, claro, uma sequência foi encomendada de imediato. Ryan Reynolds, Tim Miller e os roteiristas Rhett Reese e Paul Wemick foram contratados para regressar e começaram a desenvolver a história já poucas semanas depois do lançamento do primeiro. Em reconhecimento por todo o seu trabalho, Reynolds foi elevado à categoria de produtor, com direito de decisão criativa e vetar nomes do elenco.

A decisão de todos era explorar o arco em torno de Cable, afinal, foi nessas histórias em que o personagem principal surgiu nas HQs. E aqui entra a explicação do original nos quadrinhos…

A X-Force original na arte de Rob Liefeld.

Nas HQs mutantes do final dos anos 1980, os X-Men foram dados como mortos após a saga A Queda dos Mutantes, e os Novos Mutantes, o grupo de adolescentes que era treinado por Charles Xavier, ficou por conta própria. Obrigados a amadurecer rápido e meio perdidos, o grupo terminou acolhido pelo misterioso Cable e sua amiga Dominó, que tinham uma abordagem mais adulta e militar de atuação heroica. Na trama desenvolvida pelo escritor Fabian Nicieza e o desenhista e corroteirista Rob Liefeld, os Novos Mutantes decidem, assim, adotar o nome de X-Force, mudando também o nome de sua revista. Foi justamente nessa fase que Deadpool fez sua estreia, ainda como um vilão, em New Mutants 98, de 1991, no antepenúltimo número da revista que virou X-Force depois do número 100.

Porém, dessa vez, a máquina estava menos azeitada e a discordância entre Reynolds e Miller levou o diretor a abandonar o projeto antes do fim de 2016. Miller queria uma estética mais estilizada – menos explícita do que o primeiro longa – e o ator Kyle Chandler como Cable, ambas as questões em desacordo com Reynolds. Drew Goddard – que depois criou a série do Demolidor com a Marvel e a Netflix – foi um candidato sério a substituí-lo, mas Reynolds terminou ficando com David Leitch (de John Wick), tanto pelo estilo incrível de ação que desenvolveu naquele filme quanto pelo fato de saber trabalhar com orçamentos bem pequenos e fazê-los parecerem maiores.

O roteiro foi bem mais difícil de produzir dessa vez, com a Fox colocando muitas questões e Reynolds hesitante sobre o que deveria abordar para tornar a sequência melhor do que o anterior. No fim, o trio Reynolds, Reese e Wemick terminou por dividir as cenas entre si e cada um fez uma parte do roteiro, de modo que os três foram creditados como roteiristas. Goddard terminou ajudando-os como um consultor, mas não foi creditado.

O trio decidiu incorporar uma história de viagem no tempo – por causa do background de Cable nas HQS (nos quadrinhos, Nathan Summers é ninguém menos do que o filho de Ciclope que vem do futuro para salvar o presente), e usar isso como uma fonte de piadas, ainda que a trama original de Cable foi totalmente descartada e desconsiderada. Dominó também ingressou no combo, como uma oportunidade de integrar outra atriz negra ou latina, já que Morena Baccarin (que é brasileira) regressava como Vanessa.

A X-Force na tela.

Ademais, Reynolds, Reese e Wemick decidiram transformar a formação da X-Force na grande piada do filme e numa pegadinha dentro do filme: embora os trailers e posters dessem a entender que Deadpool ia formar o seu próprio grupo de X-Men para ação, contando com um elenco estrelado de atores em papeis bem conhecidos dos fãs de HQs; na verdade, o grupo inteiro morre numa atrapalhada entrada em ação e, portanto, só existe por uma única cena. Para despistar isso, Leitch filmou cenas falsas do time em ação para colocar nos trailers, o que foi uma atitude ousada e corria o risco de mexer com a expectativa do público e gerar um sentimento negativo. (Mas não foi o que aconteceu, tão bem e loucamente engraçada é a sequência no meio do filme).

Encontrar o ator para Cable foi o mais difícil e ocupou todo o segundo semestre de 2016 e o início de 2017. A escolha número 1 de Reynolds foi Brad Pitt e o ator até se entusiasmou pelo papel, porém, uma série de conflitos de agenda o impediu. Várias artes conceituais de Pitt como Cable chegaram a ser realizadas. Ainda assim, Pitt gravou uma cena surpresa no filme, aparecendo por um único segundo como um dos membros da X-Force.

David Habour (de Strange Things) foi um sério candidato e fez testes para o papel; enquanto Michael Shannon (o Zod de Superman – O Homem de Aço) foi um dos escolhidos, mas também não pôde por causa de agenda; Pierce Brosnan (o 007 dos anos 1990) também discutiu o papel; mas Cable terminou nas mãos de Josh Brolin, que ao mesmo tempo interpretava o vilão Thanos em Vingadores – Guerra Infinita e depois em Vingadores – Ultimato.

As filmagens ocorreram em Vancouver, no Canadá, entre junho e setembro de 2017, e foram mais ou menos coincidentes com as gravações de Fênix Negra (em Montreal), o que permitiu que Simon Kinberg filmasse uma rápida cena de toda a equipe de X-Men fechando uma porta na Mansão X para não serem incomodados pela tagarelice de Deadpool. Assim, enquanto o personagem tenta repetir a mesma piada do primeiro filme, de que só Colossos e Megasonic Teenager Warhead estão no QG dos X-Men como uma forma de economizar dinheiro, os X-Men aparecem rapidamente e fecham a porta sem que Deadpool perceba.

Tal qual no primeiro filme, Reynolds insistiu para que Reese e Wemick acompanhassem as filmagens para adicionar novas piadas, e dessa vez os escritores foram pagos pelo estúdio.

Infelizmente, nem tudo foi engraçado na produção de Deadpool 2: em 14 de agosto, a motociclista Joi S.J. Harris morreu em um acidente durante a gravação da sequência em que Dominó pilota uma moto. Harris era motociclista profissional há anos, mas estava apenas iniciando a carreira como dublê (era seu primeiro filme) e são duas habilidades distintas. Sem usar capacete porque a personagem não o usa na cena em questão, Harris perdeu o controle do veículo e bateu na famosa Shaw Tower, em Vancouver. Harris tinha se juntado à produção apenas na semana anterior e no dia do acidente havia realizado outras cinco tentativas da cena. O sindicato dos dublês criticou durante a produção por não ter providenciado um capacete para ela usar embaixo da peruca de Dominó e denunciou a produção de estar exigindo horas demais de trabalho por dia aos profissionais. O filme foi dedicado a Harris nos créditos de encerramento.

O filme foi lançado em maio de 2018 e, de novo foi um grande sucesso, se tornando (de novo) a maior bilheteria de um filme Censura 18 anos da história e também o maior sucesso da franquia dos X-Men da Fox, mas crítica foi menos unânime dessa vez. Deadpool ganhou uma versão expandida exibida na San Diego Comic-Con naquele ano, A Super Dupper Edition, com 12 minutos adicionais; e numa estratégia de marketing sem paralelos, foi criado um outro filme baseado nele, chamado Once Upon a Deadpool, com censura livre, e destinado às crianças para o Natal daquele ano, embora não tenha ido tão bem nas bilheterias.

Era uma vez um Deadpool…

Os resultados finais foram animadores o suficiente para todos pensarem na Parte 3 e havia a possibilidade de fazerem realmente um filme da X-Force antes de Deadpool ter seu terceiro filme solo de novo. Porém, nada disso foi adiante quando a Disney comprou a Fox e encerrou a franquia.

Reynolds e o presidente do Marvel Studios, Kevin Feige, garantiram várias vezes em entrevistas que Deadpool 3 ia acontecer mesmo sob o teto da Disney, mas nada de concreto aconteceu até este texto ser escrito.

X-MEN – FÊNIX NEGRA, 2019

Direção e roteiro por Simon Kinberg.

Elenco: James McAvoy (Charles Xavier/ Professor X), Michael Fassbender (Erik Lehnsherr/ Magneto), Jennifer Lawrence (Raven/ Mística), Sophie Turner (Jean Grey), Tye Sheridan (Scott Summers/ Ciclope), Jessica Chastain (Vuk), Nicolas Hoult (Hank McCoy/ Fera), Evans Peters (Peter Maximoff/ Mercúrio), Alexandra Shipp (Ororo Monroe/ Tempestade), Kodi Smit-McPhee (Kurt Wagner/ Noturno).

Se a franquia mutante foi marcada por produções problemáticas, porque não encerrar com a mais complicada de todas? Foi o que aconteceu…

Inicialmente, a Fox estava bastante empolgada com os X-Men, especialmente após o sucesso de Dias de Um Futuro Esquecido e Deadpool, além da promessa de que Apocalipse também ia ser um estouro e começou a pensar qual seria o próximo passo dos mutantes. Duas questões se interpunham: Apocalipse representava o fim dos contratos da equipe “do passado” ao mesmo tempo em que introduzia um novo time que, para efeitos práticos, substituía os antigos protagonistas da velha trilogia. O que fazer então?

Se a Fox queria (tentar) trazer o elenco de Primeira Classe (Lawrence, Fassbender e McAvoy) de volta, teria que ser algo grande, então, automaticamente, os pensamentos se voltaram para A Saga da Fênix Negra, a história favorita dos fãs dos X-Men, o maior clássico mutante, que foi estragado completamente na má fadada tentativa de adaptação de O Confronto Final. Mas como Dias de Um Futuro Esquecido “mudou a linha temporal”, então, o estúdio estava livre das amarras cronológicas para fazer o que quiser. Inclusive, contar a história de novo!

Nos últimos anos, Simon Kinberg se tornara o principal produtor executivo da franquia – tirando o espaço que era de Lauren Donner no passado – e também era o roteirista de Dias… e Apocalipse, então, ainda em 2016, a Fox lhe comissionou a desenvolver a história do próximo filme da franquia. Naquele instante, Bryan Singer ainda estava oficialmente envolvido, porém, parece que os anos de abusos tinham cobrado o seu preço.

Para piorar, mais denúncias de abuso sexuais de meninos jovens vieram à tona justamente no momento em que Apocalipse foi lançado, o que fez a Fox a agir rápido, tirando Singer dos holofotes e colocando Simon Kinberg para ser o “responsável” pelo filme na turnê de divulgação. A Fox ainda deu outra chance a Singer e ele foi dirigir Bohemian Rhapsody – a cinebiografia de Freddie Mercury e do Queen – mas eram outros tempos: o #MeToo ganhava força, denúncias sexuais pipocavam em Hollywood e o comportamento abusivo, grosseiro e anti-profissional de Singer nos sets não foi mais tolerado e o elenco de Bohemian se revoltou contra o diretor, que de novo se afastou da produção por alguns dias. Mas dessa vez, a Fox o demitiu!

Claro, a Fox afastou Singer também de X-Men – Supernova, o título de trabalho do próximo filme e encarregou Simon Kinberg de produzi-lo por si só. Dentro do estúdio começou a nascer a ideia de que Kinberg devia dirigi-lo também – seria sua estreia na direção – pois efetivamente ocupara o cargo atrás das câmeras em várias ocasiões nos “sumiços” de Singer, e como produtor executivo, tinha a visão do todo, de produção e de negócio que a função exigia. A atriz Jennifer Lawrence apoiou totalmente a ideia de Kinberg dirigir e até prometeu que, se ele assumisse o filme, ela retornaria e ainda ajudaria o restante do elenco a regressar também.

Kinberg sabia da responsabilidade de adaptar Fênix Negra de novo: não podia errar. Ainda mais, ele tinha sido um dos roteiristas de O Confronto Final (ao lado de Zack Penn) e, portanto, tinha a oportunidade de se redimir com os fãs. O roteirista tornado diretor preparou uma grande apresentação à Fox de um filme mais dramático, mais pautado nos personagens e mais sombrio, e foi visto com simpatia no momento em que os filmes do Marvel Studios (concorrentes) se tornavam mais sombrios e a produção em andamento de Logan ia no mesmo caminho e era bem recebida por fãs e críticos.

Percebendo a complexidade da trama de A Saga da Fênix Negra, de Chris Claremont e John Byrne (que mostramos lá em cima, lembra?), Kinberg decidiu dividir seu filme em dois. A primeira parte, que teria sido Supernova, mostraria a trama do Clube do Inferno manipulando Jean Grey até ela se tornar a Fênix; enquanto o capítulo seguinte, Fênix Negra, mostraria a parte cósmica da saga, com os S’hiar vindo à Terra. A produção chegou a contratar Chris Claremont como um tipo de consultor de roteiro e ele declarou à imprensa certa vez que a ideia era fazer o público se apaixonar por Jean no primeiro e no segundo fazê-los ficarem tristes.

Como forma de tornar o filme mais forte, Kinberg conseguiu contratar a atriz Jessica Chastain, uma das mais aclamadas de Hollywood, embora a princípio, o papel para ela não estava bem definido: tanto era uma nova versão de Emma Frost, a Rainha Branca (que fora vivida por January Jones em Primeira Classe), na parte do Clube do Inferno; quanto Lillandra, a líder S’hiar, que vinha matar a Fênix.

Mas a recepção fria de Apocalipse fez a Fox cortar os planos do filme: Kinberg teria que resumir tudo em um longa só. Assim, toda a parte do Clube do Inferno foi descartada; e se focou na parte cósmica – algo nunca usado nos filmes dos mutantes. Mas a Fox decidiu trocar os S’hiar pelos Skrulls (que são transmorfos), por algum motivo.

Kinberg foi oficializado na direção e o elenco de Primeira Classe concordou em voltar, com as filmagens ocorrendo entre junho e outubro de 2017 em Montreal, no Canadá. Naquele ponto, a trama girava em torno dos Skrulls se infiltrando na Terra num plano de dominação mundial, e com o terceiro ato começando com uma grande batalha na sede das Nações Unidas dos X-Men contra os Skrulls, mas a batalha final seria com a Fênix no espaço, destruindo as naves alienígenas.

O lançamento estava previsto para março de 2018 e os problemas começaram para valer: os trailers de Capitã Marvel (do Marvel Studios) mostravam a heroína Carol Danvers toda poderosa, voando e brilhando em chamas, destruindo naves espaciais no espaço – igual ao que era desenvolvido em Fênix Negra! E pior: o filme do MCU também trazia os Skurlls!

A Fox ficou preocupada em ver seu filme ser tomado como um plágio da concorrência, então, adiou a estreia – a desculpa oficial foi mais tempo para finalizar os efeitos especiais – e marcou o novo lançamento para 02 de novembro de 2018 e encomendou uma série de refilmagens para mudar o final e os aliens. Assim, saíram os Skrulls e entraram os D’Bari – que mantiveram as características transmorfas daqueles.

Porém, o estrelado elenco de X-Men não pôde ser reunido facilmente, e as refilmagens do terceiro arco ficaram agendadas apenas para agosto e setembro de 2018, o que inviabilizava o lançamento em novembro. E a data de estreia mudou de novo, para 14 de fevereiro de 2019.

Mas desgraça pouca é bobagem… Ao longo de 2018, uma notícia bomba começou a circular e abalar Hollywood: o estúdio 20th Century Fox seria vendido e uma guerra de compradores se mobilizou para fazê-lo, o principal deles, a The Walt Disney Company, dona do Marvel Studios! O rato comprou a raposa e os novos donos começaram a ficar ainda mais reticentes com Fênix Negra. Afinal, a compra indicava uma mudança total: com os mutantes agora propriedade da Disney, claro, todo a franquia mutante seria cancelada para que esses personagens fossem integrados ao MCU dos Vingadores.

Isso fez Fênix Negra ter sua data de estreia mudada pela quarta vez! Foi agendado para 07 de junho de 2019, mas agora, com a certeza de que Simon Kinberg não teria outra chance de contar qualquer história mutante. Assim, o diretor usou alguns truques de edição para dar um “final definitivo”, já que sabia que não haveriam mais sequências.

No fim, a versão de Fênix Negra que chegou aos cinemas sofria de um mal parecido com Apocalipse, com muitos personagens e muita história para contar. Assim, embora o filme realmente faça um esforço para se aprofundar nos personagens mais do que outros capítulos da saga, ficou complicado acomodar todo mundo na história, então, alguns personagens têm arcos dramáticos meio estapafúrdios, como Mística e Fera, afinal, parte da intenção do longa era encerrar o triângulo amoroso McCoy-Raven-Erik que vinha desde Primeira Classe. Deu ruim.

Ademais, a vilã de Jessica Chastain (Vuk) termina meio sem propósito no filme; a ameaça de Jean não é grandiosa o suficiente; e resta ao roteiro reciclar ideias para de novo dar algum motivo que faça Xavier e Magneto ficarem em lados opostos mais uma outra vez. Para piorar, como uma forma baratear o terceiro ato refeito na refilmagem, o clímax se dá num trem, o que ressoa mais do que o necessário a O Confronto Final, que também tinha uma sequência de ação num trem.

Mesmo com as pressões e as mudanças, termina sendo irônico que após ter defendido tanto fazer um filme mais fiel à Saga da Fênix Negra, o resultado final tem muito pouco daquela trama e até a ameaça alienígena é algo meio desarranjado.

Como resultado, Fênix Negra foi um fracasso total! Lançado após a épica conclusão do Marvel Studios com Vingadores – Ultimato, o momento se tornou o menos indicado possível, e o longa arrecadou apenas US$ 250 milhões nas bilheterias, o que deu um prejuízo de mais de 130 milhões à Fox.

Os Novos Mutantes, 2020

Correndo por fora, Os Novos Mutantes teve uma história de produção similar a Fênix Negra e o mesmo fim trágico: destruído pela compra da Fox pela Disney, um lançamento “fora de lugar” e uma recepção fria para dizer o mínimo.

Nas HQs, os Novos Mutantes foi o primeiro spin-off da franquia dos X-Men no papel. A ideia de um grupo de mutantes adolescentes sendo treinado por Charles Xavier veio do editor-chefe da Marvel Comics nos anos 1980, Jim Shooter, e o escritor dos X-Men na época, Chris Claremont, era contra o projeto. Porém, na possibilidade de ver outros artistas usarem “seus” personagens, Claremont terminou aceitando a tarefa e a equipe juvenil estreou na série de graphics novels da Marvel, em 1982.

Na trama da HQ, Xavier pensa que os X-Men morreram em uma missão e decide reabrir a Escola para Jovem Super-dotados, que é uma fachada para ajudar os mutantes a lidar com seus poderes e, em segredo, treiná-los como um time paramiltar, com seus membros: Míssil, Mancha Solar, Miragem e Lupina. Ao longo do tempo, novos membros chegaram Karma, Magia, Cifra, Warlock etc. Curiosamente, em Novos Mutantes, Claremont encontrou um espaço para histórias mais adultas, sérias e experimentais do que nos X-Men (que eram o maior sucesso da Marvel, portanto, bem mais “vigiados” e “controlados”), com destaque para a fase com o desenhista Bill Sienkiewicks e sua arte expressionista da qual vem a trama do Urso Demônio usada no filme.

A impressionante arte de Bill Sienkiewicz em “New Mutants”: adolescentes mutantes dos anos 1980.

Claremont deixou a revista em 1987 e outros escritores deram prosseguimento à saga dos heróis adolescentes, até que após The New Mutants 100, de 1991, sob a batuta da dupla Fabian Nicieza (texto) e Rob Liefeld (argumento e arte), o grupo e a revista mudaram de nome para X-Force, com uma pegada mais adulta, sob a liderança de Cable. Foi justamente no arco de história de transição entre New Mutants e X-Force que surgiu o personagem Deadpool.

A ideia de um filme dos Novos Mutantes veio do diretor Josh Boone, logo após ter terminado o filme A Culpa é das Estrelas. Ao lado do roteirista Knate Lee, Boone recortou quadrinhos da revista da equipe e montou um projeto de uma trilogia dos Novos Mutantes, apresentando-a à Fox e ao produtor Simon Kinberg. Impressionados, foi dada ao diretor a oportunidade de desenvolver um filme.

O desenvolvimento começou em março em 2015, com um roteiro de Boone e Lee. A ideia original era de Novos Mutantes ser um tipo de sequência de X-Men – Apocalipse, embora com um tom totalmente diferente, já que Boone queria fazer um filme de terror dentro do universo dos X-Men, algo que a Fox não estava convencida a fazer. Na ideia original, alguns anos depois de Apocalipse, Xavier e Tempestade reuniriam os Novos Mutantes, sendo a deixa para o retorno de James McAvoy e Alexandra Shipp. Porém, a má recepção de Apocalipse, lançado em 2016, mudou esse direcionamento.

O Mancha Solar nos quadrinhos: herói brasileiro.

A reunião do elenco, entre 2016 e 2017, embora reunindo nomes conhecidos do meio nerd (como Maise Williams de Games of Thrones para o papel de Rahne) provocou algumas polêmicas, com uma acusação de embranquecimento, pois o ator brasileiro Henry Zaga foi escolhido para viver Roberto da Costa, o Mancha Solar; que embora o personagem seja mesmo brasileiro, nas HQs, Roberto é afrodescendente e Zaga é branco. De modo similar, a personagem Cecilia Reyes, que é afrodescendente nas HQs, foi vivida por outra atriz brasileira, Alice Braga, que pode até ser mulata, mas não negra. Curiosamente, houve um movimento real dentro da Fox de garantir a diversidade dentro do filme, inclusive, com uma atriz realmente nativo-americana para Danielle Moonstar e um Roberto da Costa brasileiro de verdade.

O roteiro passou por algumas turbulências para chegar ao ponto: o tratamento inicial de Josh Boone e Knate Lee foi passado para a dupla Scott Neustadter e Michael H. Weber (de A Culpa é das Estrelas), de modo a tirar a ambientação dos anos 1980 para os dias atuais, por causa do fracasso de Apocalipse, e retirando Xavier e Tempestade da trama. Mas a Fox estava preocupada com o tom de terror do filme e queria apenas uma pegada “jovem adulto” sem terror, de modo que foi contratada uma equipe de seis roteiristas para criar uma writers room para reescrever o longa, com Scott Frank, Josh Zetumer, Chad Haeyes, Carey Haeyes, Seth Grahame-Smith, Scott Neustadter e Michael H. Weber.

As filmagens ocorreram entre julho e setembro de 2017 em Boston, totalmente nas dependências do Medfield State Hospital, uma instituição abandonada. Uma versão do filme foi editada e exibida em testes e o público reagiu muito bem, de modo que foram planejadas refilmagens para finalizar o filme. Porém, quando o trailer foi exibido em outubro de 2017 dando destaque aos elementos de terror, o público adorou. Somado ao sucesso de It – A Coisa, lançado no mesmo ano, motivou a Fox a fazer o filme de terror que Boone queria desde o início.

Em janeiro de 2018, a Fox anunciou o adiamento da estreia para 22 de fevereiro de 2019, para que as refilmagens pudessem ser feitas. Mas quando Boone e a Fox sentaram para planejar, chegou-se à conclusão de que metade do filme precisaria ser refilmado, o que mudou a data de estreia para 02 de agosto de 2019. As refilmagens estavam programadas para setembro de 2018, porém, o processo de venda da Fox colocou tudo em compasso de espera. Quando a Disney tomou o controle da Fox, em março de 2019, o Marvel Studios não se mostrou muito interessado no material. Nenhuma refilmagem foi feita e o longa foi finalizado a partir de truques de edição com o material que fora filmado originalmente.

Boone planejava uma cena pós-créditos na qual Antonio Bandeiras interpretaria o pai de Roberto da Costa, mas ela nunca foi filmada, e o diretor viu que não fazia sentido, pois Novos Mutantes não teria uma sequência.

Planejado para lançamento em março de 2020, Novos Mutantes terminou adiado outra vez, dessa vez, por causa da pandemia mundial de Covid-19, terminando por ser lançado nos cinemas de modo restrito em 28 de agosto de 2020, e sendo mal recebido.

A trama mostra os cinco jovens confinados em uma instituição médica liderada pela Dra. Cecilia Reyes, sob o pretexto de aprenderem a controlar seus poderes; mas são aterrorizados por figuras demoníacas e pelo monstruoso Urso Demônio, enquanto descobrem que nada é o que parece.

O Fim

Quando os produtores da franquia dos X-Men perceberam que a Fox seria vendida – e na medida em que ficou mais claro que seria a Disney quem compraria e jogaria no lixo tudo o que fora produzido na franquia mutante até ali, todos se movimentaram feito loucos para que alguns projetos caminhassem e começassem a produção antes da conclusão da venda. Isso nunca aconteceu e nenhum desses projetos ganhou luz verde. Vejamos quais:

Gambit: agora em 2017.
  • Gambit. O mais longevo e mal fadado projeto da franquia teve início logo após X-Men Origens – Wolverine, em 2011: fazer um filme solo do mutante jogador de Nova Orleans. Como se pensou que o ator que representou Remy Lebeau naquele filme (Taylor Kitsch) não era forte o suficiente para levar uma nova franquia, se buscou um nome mais conhecido e se chegou a Channing Tatum, que era um grande fã do personagem e estava mais do que disposto a levá-lo à tela. A pré-produção começou em 2014 e foi escolhido o diretor Rupert Wyatt (de O Planeta dos Macacos – A Guerra), em junho de 2015, mas já se demitiu em setembro do mesmo ano; Doug Liman (de Feito na América) veio logo em seguida, mas terminou sendo demitido em agosto de 2016; passou-se mais de um ano sem novidades, com o projeto aparentemente morto, mas Gore Verbinski (de Piratas do Caribe) foi anunciado em outubro de 2017, apenas para se desligar do projeto em janeiro de 2018. A chegada dele já trouxe boatos de que o vilão Sr. Sinistro seria vivido por Daniel Craig (James Bond, o 007 em pessoa), mas nada se fez. Ainda assim, a data de lançamento foi marcada para 14 de fevereiro de 2019, e com a saída ainda se mudou para junho daquele ano, mas sem diretor, claro, tudo foi por água abaixo. Em meio ao processo da venda da Fox, chegou a circular o boato de que o produtor Simon Kinberg estava tentando acelerar a produção do filme para o ano de 2019, de modo que ele fosse finalizado antes da concretização da fusão. Mas claro, isso não aconteceu.
  • Kitty Pryde. A membro dos X-Men foi uma grande personagem das HQs da equipe nos anos 1980 e tem muitos fãs. No cinema, foi apresentada como coadjuvante em vários filmes, com um pouco mais de destaque em X-Men – O Confronto Final e X-Men – Dias de Um Futuro Esquecido, em que foi vivida por Ellen Page. A Fox criou um projeto de filme solo para ela e o escritor de HQs Brian Michael Bendis foi apontado como o roteirista do longa em fevereiro de 2018 e confirmou que estava fazendo isso um ano depois, em 2019, mas nada mais se falou depois.
  • Homem-Múltiplo. Em novembro de 2011, o produtor Simon Kinberg confirmou que estava em desenvolvimento um filme sobre Jaime Madrox, o Homem-Múltiplo, um obscuro personagem dos X-Men, que foi membro da X-Factor em sua segunda encarnação. O ator James Franco estava à frente do projeto, com a intenção de protagonizá-lo, e o roteiro estava nas mãos de seu irmão, David Franco. Matthew Vaughn chegou a negociar a direção, mas não fechou o acordo. O projeto, claro, não foi adiante. Nos quadrinhos, o Homem-Múltiplo surgiu na revista Giant Size Fantastic Four 04, de 1975, nas mãos dos escritores Len Wein e Chris Claremont e do desenhista John Buscema. Na trama, é revelado que Jaime Madrox é um mutante com o poder de criar clones de si próprio a partir de energia cinética, ou seja, toda vez que é atingido por algo, produz uma cópia de si mesmo, o que é muito útil em batalhas e em missões de espionagem. Também é revelado que ele usa uma roupa especial que armazena energia cinética para que Madrox use seus poderes de forma controlada.
  • X-Force. Durante muito tempo, se falou que Deadpool 3 seria precedido de um filme da X-Force, grupo derivado dos X-Men nas HQs, que, nascido dos adolescentes Novos Mutantes, terminou se transformando em um time mais maduro e violento, liderado por Cable. Seria uma maneira de desenvolver a trama deixada por Deadpool 2. Nas HQs, ainda existiu uma segunda encarnação do time: uma equipe para missões mais sorrateiras e violentas, idealizada por Ciclope e liderada em campo por Wolverine. Com a venda da Fox, não se falou mais nesse filme.