Lidar com o legado de uma banda famosa é um fardo e uma responsabilidade, e a “propriedade” da voz que conta a história sobre essa banda é um objeto de disputas acirradas. O caso recente do Sex Pistols é exemplar desse campo de disputas. E agora, foi resolvido na Suprema Corte da Inglaterra. O caso em questão é o seguinte: o ex-vocalista da banda John Lydon (vulgo Johnny Rotten) entrou na Justiça para impedir que as canções do grupo fossem usadas na trilha sonora da série de TV Pistol, que contará a história do conjunto.

Lydon/ Rotten e Jones nos tempos da banda.

O problema é que a série é apoiada pelo ex-guitarrista Steve Jones, já que se baseia em sua autobiografia. O livro trata Lydon “sob uma luz hostil e nada favorável”, segundo o advogado Mark Cunningham. Por causa disso, Lydon não quer que a sua música seja usada na série, mas um acordo contratual da própria banda, de 1998, definiu que as decisões sobre licenciamento seriam decididas por maioria simples. O baterista Paul Cook está ao lado de Jones, o que motivou Lydon a recorrer à Justiça.

As audiências do caso ocorreram na Suprema Corte de Londres em julho e na segunda-feira (dia 23 de agosto) foi dado o veredito a favor de Jones e Cook, segundo informa a agência de notícias AFP.

Sex Pistols: radicalismo.

O caso ilustra a complexidade do legado de uma banda e as formas diferenciadas que uma mesma história pode ser contadas, ainda mais quando as discordâncias estão dentro do próprio grupo. Além do feudo entre Lydon de um lado e Jones e Cook do outro; os outros dois membros da banda não estão envolvidos no processo: o baixista original Glen Matlock deixou a banda em 1977 e seu substituto, Syd Vicious já é falecido, embora seus representantes legais apoiem a causa de Jones.

A série Pistol será dirigida por Danny Boyle (de Quem quer ser um milionário?), baseada no livro de Jones, que foi lançado em 2016.

Sid Vicous automutilado em show, ao lado de Johnny Rotten.

O Sex Pistols foi uma banda que formou em Londres em 1975, pela união de Johnny Rotten (vocais), Steve Jones (guitarra), Glen Matlock (baixo) e Paul Cook (bateria), fazendo um rock simples, sujo e barulhento, fundando o Movimento Punk na Inglaterra. Empresariados por Malcolm McLaren (então, marido da estilista Vivienne Westwood), o grupo virou um fenômeno de público nas periferias de Londres e lançou seu primeiro single, Anarchy in the UK, que tomou de assalto a mídia, ainda mais quando o segundo compacto, God saves the Queen, tirava sarro da monarca justamente nas comemorações do Jubileu de Prata de seu reinado. O grupo expulsou o baixista Glen Matlock “porque ele gostava de Beatles” e o substituiu pelo radical Syd Vicious, que se transformou em um ícone do Movimento Punk, apesar de mal saber tocar. Expulsos de duas gravadoras antes de lançarem seu álbum, Never Mind the Bullocks, lançado em 1977, os Sex Pistols encerraram as atividades já em 1978, em meio à sua primeira turnê pelos Estados Unidos. Vicious terminou preso acusado de matar a namorada, e ao ser libertado sob condicional, morreu por uma overdose em 1980. Rotten passou a usar o nome verdadeiro, John Lydon, e continuou em evidência na banda PIL. Os Sex Pistols se reuniram algumas vezes para realizar turnês – trazendo Matlock de volta – a última delas em 2008.