Um dos lançamentos mais esperados dos últimos anos, o box set da nova mixagem do álbum Let it Be dos Beatles deve logo entrar em pré-venda e, hoje, o site Daily Beatles revelou o conteúdo na íntegra do lançamento. As míticas sessões de gravação movimentam o imaginário dos fãs que esperam uma grande quantidade de novidades.

Mas não é o caso.

Embora traga até mais do que o público em geral gostaria, o conteúdo revelado – se for mesmo verdadeiro – irá decepcionar os fãs hardcore do quarteto de Liverpool. O material de 6 discos traz pouca coisa além das canções centrais do projeto em múltiplas versões e mais algumas decisões polêmicas. Embora o site não revele sua fonte, tudo o que está lá está de acordo com outras descrições que vêm chegando à internet nos últimos dias, então, parece mesmo ser autêntico.

Trata-se do box set com versões remixadas do álbum Let it Be, de 1970, o último lançado pelos Beatles, que se separaram meses antes da bolacha chegar às lojas. A banda tem lançado edições comemorativas de 50 anos de seus últimos discos, começando por Sgt. Peppers, e seguindo com The White Album e Abbey Road, em 2017, 2018 e 2019, respectivamente. Let it Be era para ter chegado em 2020, mas foi adiado por causa da pandemia. O projeto é liderado pelo produtor Giles Martin, filho de George Martin, que realizou as gravações originais.

O box set será lançado junto com um documentário em série que irá estrear no Disney+ e um livro.

O projeto Let it Be foi um dos mais audaciosos da banda e teve uma jornada épica e dramática para ver a luz do dia. Após gravarem uma sequência de álbuns pautados na experimentação nos estúdios da EMI em Abbey Road, os Beatles queriam tentar uma coisa nova. A banda tinha deixado de se apresentar ao vivo em 1966, por causa da loucura da beatlemania, mas com os festivais de música levando o rock a outro patamar, particularmente, os líderes John Lennon e Paul McCartney começaram a ficar interessados em voltar a se apresentar, mesmo que de maneira esporádica e especial.

Então, nasceu o projeto Get Back: os Beatles ensaiariam um material novo para realizarem um show especial somente com canções inéditas, gravando um álbum ao vivo e filmariam todo o processo para exibir como um especial da TV (que depois, migrou para um filme para o cinema). Para evitar as loucuras da beatlemania, o concerto seria controlado, em uma casa de shows pequena, como o The Roundhouse ou mesmo o The Marquee Club, ambos em Londres. Na medida em que o tempo passou, ideias de shows em locais exóticos apareceram, como um antigo anfiteatro romano na Tunísia ou num barco no rio Tâmisa.

As sessões começaram em 02 de janeiro de 1969 no Twickenham Studios, no oeste de Londres, um estúdio cinematográfico. Os Beatles começaram a criar novas canções e ensaiá-las diante das câmeras comandadas pelo diretor Michael Lindsay-Hogg, um habitual colaborador. Mas as tensões dentro da banda estavam muito grandes, e o clima azedo culminou com George Harrison deixando a banda no dia 10. O grupo prosseguiu os ensaios enquanto tentava convencê-lo a voltar. Ele aceitou sob duas condições: mudar o lugar dos ensaios e não fazer o show.

A banda aceitou. O projeto parou e foi transferido para o novíssimo Apple Studios, na rua Saville Row, no centro de Londres, no porão do prédio que servia de quartel general da Apple Corps., a empresa do grupo. As sessões foram retomadas no dia 21 de janeiro e, no dia seguinte, o pianista Billy Preston se juntou à banda para lhe servir como músico de apoio e dar mais corpo às faixas.

Mas a ideia de Lennon e McCartney ainda era convencer Harrison a fazer o show, afinal, para o quê estavam ensaiando? E filmando? No fim das contas, a ideia que ficou foi a de que transformariam os ensaios em um álbum “ao vivo” no estúdio, mais ou menos como foram os primeiros discos que gravaram. Mas no fim das contas, meio como pegadinha, conseguiram “vender” a ideia de simplesmente subir no telhado do prédio e fazer um show surpresa lá em cima. Seria a maneira de manter algo da ideia original e dar um final ao filme. O Rooftop Concert ocorreu em 30 de janeiro, e no dia seguinte, os Beatles realizaram a última sessão do projeto, tocando as canções finalizadas que não puderam ser executadas no telhado.

A capa do mix de 2021 traz uma imagem renderizada em altíssima resolução das fotografias da capa original.

Contudo, não terminou aí. A banda encomendou ao engenheiro de som Glyn Johns, que acompanhou as gravações, para montar, editar e mixar um disco a partir das sessões. Acontece que os Beatles estavam tão insatisfeitos com as gravações que recusaram as quatro versões que o lendário produtor apresentou. No fim das contas, Lennon e Harrison convidaram o badalado produtor norteamericano Phil Spector, criador da wall of sound, uma técnica de encorpar as canções por meio de truques sonoros, como eco e reverb, criando um som profundo, grave e forte. Como a canção Get back que dava título ao projeto já tinha sido lançada em compacto em 1969, o disco/filme mudou de nome para Let it Be.

Paul McCartney foi contrário às mudanças que Spector realizou no som das canções, mas foi voto vencido e o Let it Be chegou às lojas em maio de 1970, acompanhado pelo filme de mesmo nome, dirigido por Michael Lindsay-Hogg. Mas quando isso ocorreu, McCartney já tinha anunciado o fim dos Beatles.

Veja na imagem a lista das faixas do material: são 6 discos, sendo um EP (quatro faixas) e um Blu-ray.

Agora, aos comentários sobre cada um dos discos…

Disc One – New Mix of the original album:
1. Two Of Us
2. Dig A Pony
3. Across The Universe
4. I Me Mine
5. Dig It
6. Let It Be
7. Maggie Mae
8. I’ve Got A Feeling
9. One After 909
10. The Long And Winding Road
11. For You Blue
12. Get Back

O disco 1 encerra a série de remixes que os Beatles lançaram de seus álbuns da fase final, na qual utilizam um upgrade tecnológico que permite as novas mixagens realizadas pelo produtor Giles Martin, filho do lendário produtor George Martin, que trabalhou originalmente com a banda; auxiliado nessa versão refeita pelo engenheiro Paul Hicks, que também tem produzido remixes das carreiras solo dos ex-Beatles (John Lennon e George Harrison em particular, com lançamentos recentes).

Até agora, a dupla Martin e Hicks têm produzido um material excelente, dando mais corpo às gravações antigas, mantendo a caracterização geral das faixas, ao mesmo tempo em que abrem espaços para alguns pequenos novos sons permitidos pelo maior espectro sonoro da tecnologia digital. Um ponto importante neste caso é que o comunicado do Daily Beatles deixa claro que a referência é – claro – a versão original do álbum Let it Be, que apesar de ter sido gravada pelo produtor George Martin e o também lendário engenheiro de som Glynn Johns, o disco foi retrabalhado, remixado e reproduzido por Phil Spector, que mudou bastante o estilo das gravações usando truques sonoros (como aumento de reverb e eco), dando uma cara mais rock ao disco.

Os lançamentos anteriores de Giles Martin e Paul Hicks tomaram até agora apenas George Martin como referência, nos remixes de Sgt. Peppers, The White Album e Abbey Road; portanto, será interessante ver como a dupla trata o material mais pirotécnico, com timbres mais fortes e grave mais profundo utilizado por Phil Spector na versão de Let it Be que chegou às lojas em 1970.

Disc Two – Get Back – Apple sessions
1. Morning Camera (Speech) / Two Of Us (Take 4)
2. Maggie Mae / Fancy My Chances With You *
3. Can You Dig It?
4. I Don’t Know Why I’m Moaning (Speech)*
5. For You Blue (Take 4)
6. Let It Be / Please Please Me / Let It Be (Take 10)
7. I’ve Got A Feeling (Take 10)
8. Dig A Pony (Take 14)
9. Get Back (Take 19)
10. Like Making An Album? (Speech)
11. One After 909 (Take 3)
12. Don’t Let Me Down (First Rooftop Performance)
13. The Long And Winding Road (Take 19)
14. Wake Up Little Susie / I Me Mine (Take 11)

O disco 2 é chamado Apple Sessions, portanto, deve dizer respeito às sessões que os Beatles executaram entre os dias 21 e 31 de janeiro de 1969 nos estúdios da Apple, na rua Saville Row, no centro de Londres. É um material pouco diverso, que traz principalmente novas versões das mesmas faixas que chegaram à versão final do disco. Surpreendentemente, há uma única faixa retirada do Rooftop Concert, o show no telhado, que a banda deu de surpresa no teto do prédio da Apple na hora do almoço de 30 de janeiro. Nos comentários da internet, já há bastante reclamação a esse fato, da Apple não aproveitar a oportunidade para lançar um disco apenas com o show do telhado completo. Claro, há de se considerar que a versão original do álbum Let it Be, de 1970, que aparece remixada no disco 1, já traz 3 faixas do telhado (Dig a pony, I’ve got a feeling e One after 909), e com a versão de Don’t let me down que vem no disco 2, fica faltando apenas Get back (sem contar a repetição de algumas faixas, usadas para dar mais opções às câmeras que filmavam tudo). Mas de qualquer modo, é de se estranhar mesmo que a Apple não esteja lançando The Beatles: The Rooftop Concert como um disco.

É de se esperar, pelo menos, que as versões do disco 2 sejam interessantes e algo diferentes daquelas que chegaram ao álbum.

Disc Three – Get Back – rehearsals and Apple jams
1. On The Day Shift Now (Speech)*/All Things Must Pass (Rehearsals)
2. Concentrate On The Sound *
3. Gimme Some Truth (Rehearsal) *
4. I Me Mine (Rehearsal) *
5. She Came In Through The Bathroom Window (Rehearsal) *
6. Polythene Pam (Rehearsal) *
7. Octopus’s Garden (Rehearsal) *
8. Oh! Darling (Jam)
9. Get Back (Take 8)
10. The Walk (Jam)
11. Without A Song (Jam – Billy Preston With John And Ringo)
12. Something (Rehearsal) *
13. Let It Be (Take 28)

* = Mono

O disco 3 se chama Apple Jams and Rehearsals, ou seja, improvisações e ensaios. Esse disco é quase inteiramente formado por faixas que não chegaram à versão final do disco, algumas delas gravadas pelos Beatles posteriormente (She came on throught the bathroom window, Pollythme Pam, Oh! Darling, Octopus’s garden e Something sairiam em Abbey Road), algumas são improvisos mesmo (como Without a song), brincadeiras (The walk) e duas delas são canções que seus membros lançaram em suas carreiras solo (Gimme some truth de Lennon e All things must pass de Harrison).

Embora este seja o disco que, provavelmente, traz o material mais interessante da coleção, talvez funcione como uma decepção aos fãs, porque são apenas 13 faixas dentre as dezenas de faixas que os Beatles registraram durante os ensaios. Há muito tempo os fãs anseiam ver uma boa versão de All things must pass (que dá título ao primeiro álbum solo “de verdade” de George Harrison, e que acabou de ser relançado em um box set especial), mas a anotação “ensaios” que aparece no set list dá a entender que sequer se trata de uma versão da faixa, e sim, a combinação de várias delas. Isso será bem decepcionante. Dentre as tipo 28 versões que os Beatles produziram de All things must pass naqueles ensaios, não há nenhuma boa o suficiente para ser lançada como uma faixa representativa num box set desse tipo?

Disso advém um parênteses: eu desejaria muito mais que Giles Martin se aproveitasse da tecnologia digital que temos nos dias de hoje e, usando o projeto Love (de 2006) como experiência, adulterasse as gravações originais e usasse a combinação e edição de vários takes distintos para produzir uma versão soberba de All things must pass com os Beatles. E daí que seria uma falsificação? É assim que álbuns são feitos: reunindo sons e instrumentos de tentativas diferentes da mesma canções, combinadas e mixadas para se chegar ao melhor resultado possível.

Outro ponto é que os fãs já reclamam que os títulos dão a entender que não há nenhuma faixa retiradas das sessões de Twickenham, o estúdio cinematográfico no oeste de Londres no qual os Beatles iniciaram o projeto e tocaram entre os dias 02 e 14 de janeiro de 1969. Uma questão que se apresenta é que nessas sessões eram ensaios mesmo cuja a gravação das canções se deu apenas pelo captador de som das câmeras de filmagem, ou seja, em mono (um único canal, quer dizer: todos os sons juntos, sem serem possíveis de serem separados como nas gravações multipistas profissionais). A gravação profissional, usando duas mesas de 8 canais, só começou a partir do dia 21 de janeiro nos estúdios da Apple.

Isso quer dizer que as gravações de Twickenham não teriam a qualidade profissional para um lançamento em disco. Mas com a tecnologia disponível e o fato de que o som dessas canções é efetivamente usado no filme Let it Be de 1970, não seria mesmo possível lançar algumas dessas faixas? É difícil de acreditar. Existe muito material na pirataria dessas sessões e elas têm uma gama ainda mais variada de faixas tocadas, afinal, os Beatles estavam testando suas canções para ver quais delas ficariam no disco/filme. Há coisas interessantissimas como Watching rainbows, uma canção de John Lennon que jamais foi usada em nenhum contexto. Ela não está no box.

Todavia, a descrição indica que algumas das faixas do disco 3 estão em Mono (um canal). Isso significa que Gimme some truth ou Something advêm das sessões de Twickenham, apesar do título do disco?

Disc Four – Get Back LP – 1969 Glyn Johns mix
1. One After 909
2. Medley: I’m Ready (Aka Rocker) / Save The Last Dance For Me / Don’t Let Me Down
3. Don’t Let Me Down
4. Dig A Pony
5. I’ve Got A Feeling
6. Get Back
7. For You Blue
8. Teddy Boy
9. Two Of Us
10. Maggie Mae
11. Dig It
12. Let It Be
13. The Long And Winding Road
14. Get Back (Reprise)

O disco 4 se chama Get Back LP – 1969 Glyn Johns Mix e é uma das coisas muito esperadas pelos fãs: a versão do disco produzida pelo lendário engenheiro e produtor Glyn Johns (que gravou Rollling Stones, The Who e Led Zeppelin) e que foi rejeitada pelos Beatles, por ficarem insatisfeitos com o material. As imagens divulgadas mostram que o disco terá a capa que a banda produziu para a ocasião e não foi usada, numa fotografia reprisando a pose usada no álbum Please please Me, o primeiro deles, de 1963. São 14 faixas, mais ou menos as mesmas da versão final, mais algumas adições e supressões. As novidades são Don’t let me down (que saiu fora porque foi lançada em compacto antes); um medley que combina uma faixa instrumental e um cover; Teddy boy, que Paul McCartney resguardou para seu álbum solo; e uma reprise de Get back, com uma tirada de brincadeira da banda.

A grande dúvida que paira é saber quais das versões de Glyn Johns o lançamento privilegia, afinal, o produtor criou 4 versões, a última delas no início de 1970 e todas foram rejeitadas pelo grupo. Provavelmente, será a última, de dezembro de 1969. Johns preferia versões mais cruas das faixas em vez daquelas mais polidas das versões finais, mas não sabemos se essa característica foi preservada nas sucessivas versões.

De qualquer modo, apesar da repetição das faixas, o disco 4 tem o potencial de apresentar uma faceta ligeiramente diferente dos Beatles, mais do que qualquer outro dos discos do box.

Disc Five – Let It Be EP
1. Across The Universe (Unreleased Glyn Johns1970 Mix)
2. I Me Mine (Unreleased Glyn Johns1970 Mix)
3. Don’t Let Me Down (New Mix Of Original Single Version)
4. Let It Be (New Mix Of Original Single Version)

Este disco já está gerando indignação dos fãs por ser apenas um EP (compacto duplo) de quatro faixas, trazendo dois pares de discos que serviriam como bônus ao disco 1 (as novas mixagens de Don’t let me down e Let it be, ambas de suas versões lançadas em compacto) e do disco 4 (duas faixas mixadas em 1970 por Glyn Johns que não estavam no Get Back de 1969: Across the universe e I me mine).

De fato, com tanto material à disposição de Giles Martin e Paul Hicks, será curioso ouvir a justificação de queimar um CD com apenas 4 canções dentro de um box set.

Disc Six – Blu-ray (Several formats of the same songs, including Dolby Atmos 48 kHz/24 bit – DTS HD Master Audio 5.1 and PCM)
1. Two Of Us
2. Dig A Pony
3. Across The Universe
4. I Me Mine
5. Dig It
6. Let It Be
7. Maggie Mae
8. I’ve Got A Feeling
9. One After 909
10. The Long And Winding Road
11. For You Blue
12. Get Back

O disco 5 é um Blu-ray com várias versões gourmet dos áudios dos discos.

E o que mais?

Sem dúvidas, há muito material que poderia ser lançado nesse box set. Versões matadoras de All thing must pass, por exemplo; ou canções que não chegaram a ser finalizadas, mas já eram suficientemente interessantes no estágio em que foram deixadas, como a citada Watching rainbows, ou Window window de Harrison, ou Every night de Paul McCartney.

Também é sabido que Glyn Johns mixou um segundo disco só com os melhores covers tocados pelos Beatles nas sessões e o material era tão bom aos seus olhos que ele fez campanha para que o álbum Get Back fosse duplo e trouxesse esses covers no disco 2. Os Beatles não quiseram e os covers sequer fazem parte das mixagens oficiais que o produtor produziu. Mas existem. Algumas delas são vistas no filme Let it Be de 1970 e saíram outras no The Beatles Anthology III, coleção de sobras de estúdio que a banda lançou em 1996.

E como perder a oportunidade de lançar um EP de 5 faixas com o show do telhado? Esse era um EP que os fãs gostariam de ver e ouvir.