Com o perdão do atraso, esta resenha deveria ter saído antes, mas não foi possível. Mas algumas coisas na vida demoram, como esperar mais de 25 anos para ver esta popular história de amor musical se transformar em um filme. E o que achamos? Veja aqui a resenha do HQRock.

Numa era de franquias cinematográficas, Eduardo e Mônica consolida o UCLU (Universo Cinematográfico da Legião Urbana) ao adaptar a singela canção que Renato Russo escreveu baseado em casais de verdade e lançou com a Legião Urbana no álbum Dois, de 1986. O filme é o terceiro de uma leva que começou com Somos Tão Jovens, que foi uma cinebiografia do compositor (focada em sua juventude em Brasília até a formação da banda); e seguiu com Faroeste Caboclo, que adaptou a canção homônima. Há até um esforço consciente de direcionar essas ações como dentro de um mesmo universo, numa discreta cena no novo filme.

Como longametragem, Eduardo e Mônica funciona muito bem, trazendo uma típica história de amor e com a acertada decisão de não fazer uma típica comédia romântica brasileira, mas com uma abordagem mais realista, dramática, ainda que focada na força do grande amor. Mais ainda do que Faroeste Caboclo, mira numa bela fotografia a exibir Brasília, especialmente nas cenas noturnas. É interessante que apesar da história ser focada no casal-título, a cidade aparece se não como um personagem, mas um cenário forte, quase sempre vazia, sem pessoas, como a contrapor a frieza urbana de bela arquitetura à vida romântica e artística de Mônica, com suas boates inferninhos e galerias de arte.

Outra vantagem de Eduardo e Mônica contra Faroeste Caboclo é no material de origem. Esta era uma canção estilo poema épico, com uma saga desafortunada de um retirante que abraça uma carreira criminal, recheada de situações pouco críveis e uma narrativa confusa. Assim, Faroeste Caboclo, o filme, (também dirigido por René Sampaio) precisou investir num trabalho maior de roteiro para resolver as lacunas e incongruências da narrativa da letra. Assim, foi uma “adaptação“, optando por uma versão mais realista e sem o caráter “pão e circo” que marcava seu fim. Com isso, versos famosos foram cortados da história ou simplesmente modificados para fazer a trama cinematográfica funcionar.

Por sua vez, Eduardo e Mônica pode ser mais fiel, pois é uma história mais simples, pautada nas contradições do amor, na linda improbabilidade de duas pessoas tão diferentes se apaixonarem e viverem uma intensa história de amor. É uma narrativa um pouco mais linear e sem grandes contradições ou incongruências que não as inexplicáveis da vida. O trabalho de roteiro aqui foi mais simples, mas tinha ainda o desafio de fazer funcionar (e convencer) o telespectador dessa história de amor, mesmo que improvável.

E neste ponto, o roteiro trabalhou bem, afinal, é fácil entender por que Eduardo fica fascinado pela Mônica, pois “ela fazia medicina e fala alemão e ele ainda nas aulinhas de inglês”. Sem falar que “ela gostava do Bandeira, e de Bauhaus, e de Van Gogh, de Mutantes e Caetano e de Rimbaud”, enquanto o Eduardo “gostava de novela e jogava futebol de botão com seu avô”. Mas fica bem mais difícil compreender como uma moça como Mônica poderia se interessar por Eduardo, quando “ela falava coisas sobre o Planalto Central, e também magia e meditação” e ele “ainda ‘tava no esquema “escola-cinema-clube-televisão”, mesmo que houvesse algo prazeroso em “Mônica explicava pro Eduardo coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar”. Afinal, “ela se formou no mesmo mês que ele passou no vestibular”. Não são coisas fáceis a vencer para viver um grande amor, não é?

Nisso, o filme acerta bastante na construção dos personagens, mostrando as origens e ambiências de um e de outro e como a casual rota de colisão dos dois, por improvável que se mostre à princípio, vai se construindo. Uma Mônica Queiroz perdida, vivendo entre dois mundos conflitantes – a vida artística e de vanguarda cultivada pelo pai e a preocupação mais fria, formal e pragmática de uma carreira na Medicina mantida pela mãe -, tentando uma vida quase dupla entre fazer happenings em galerias e boates e iniciar a sua residência médica; enquanto um Eduardo Souza vem de um lar simplório e dramático, com o pai que foi embora, a mãe falecida e a criação pelo avô militar e, prestes a fazer o vestibular para Engenharia Civil, está simplesmente levando as coisas, acomodado em sua vidinha de subúrbio (e vila militar) e uma expectativa mais pragmática do futuro, sem grandes ambições.

Assim, já sabíamos – pela canção – que Mônica é artística (“tinha tinta no cabelo”) e descolada (“de moto”), enquanto Eduardo era convencional (“festa estranha e gente esquisita”), não era um bebedor contumaz (“”eu não tô legal, não aguento mais birita'”), nem boêmio (“é quase duas e eu vou me ferrar”) e ainda guardava uma atitude bem juvenil/adolescente andando de bicicleta (“camelo”) por aí (eram os anos 1980, ok? – a juventude de classe média só usava bikes para lazer) e quando “decidiram se encontrar, o Eduardo sugeriu uma lanchonete, mas a Mônica queria ver o filme do Godard”).

Assim, cabe ao filme construir o meio termo (“se encontraram então no parque da cidade”) que vai unir essas personalidades tão diferentes que “mesmo com tudo diferente, veio meio de repente uma vontade de se ver, e os dois se encontravam todo dia e saudade crescia como tinha de ser”). Isso era um desafio à produção, pois a canção diz que “Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia, teatro, artesanato, e foram viajar” (e, permitam-me repetir) “a Mônica explicava pro Eduardo coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar”). Vejam, são coisas bem artísticas e místicas. Dessa forma, a personalidade dela aparece como dominante, fazendo o rapaz se adequar à sua vida e visão de mundo, mas ainda sem responder porque ela se interessou num rapaz de 16 anos pré-vestibulando.

Então, o roteiro de Gabriel Bortolini e Jéssica Candal investe em mostrar um Eduardo cheio de potencial, alguém de bom coração, que não finge ser quem não é e que vai se construindo como alguém que pode dar suporte emocional à mais volátil Mônica. Estabilidade. Um pé no chão. Ele também traz um ar de realidade no sentido de que vive a vida ordinária (sim, o cotidiano sem graça da estranha – e por vezes asséptica – capital do país), sendo mais do povo, mais comum. Por isso, enquanto ela guarda a arrogância e a postura artística esnobe típica daqueles que se veem como vanguarda (o que se reflete na música punk e no som industrial típicos da época), ele adora a breguíssima Total eclipse of the heart de Bonnie Tyler. E mostra para Mônica (e seus amigos, por tabela) que não há mal nenhum nisso, e ao contrário, é um toque de humanidade, simplicidade e empatia.

E se por um lado, nenhum deles se encaixa no mundo do outro – e as tentativas não se mostram frutíferas no filme (ele indo para o acampamento na Chapada, ela na ceia de natal tradicional) – encontram em si a paz e o sentimento que buscavam. A investida também serve para demolir estereótipos, exibindo os conflitos internos e familiares que rondam o casal individualmente, cada qual em sua realidade: Mônica e sua relação tensa com a mãe e Eduardo no abismo geracional (e um tanto de visão de mundo) com o avô conservador.

E o roteiro faz isso mostrando o romance como uma coisa real e não um paraíso na terra, afinal, “os dois comemoraram juntos e também brigaram juntos muitas vezes depois”, e não temos uma historinha de mocinho conhece a mocinha, sem também se render ao gancho hollywoodiano (e algo acontece para separá-los) pura e simples. Com mais humanidade e realismo, o roteiro mostra que a vida a dois é difícil mesmo no início, no fogo da paixão, e que as diferenças celebradas na letra têm o seu preço, sim, e que se o casal quiser fazer a coisa funcionar tem que trabalhar nisso para poder chegar na parte do “e todo mundo diz que ele completa a ela e vice-versa, que nem feijão com arroz”.

Mônica precisa dosar o preço da liberdade (não ter um relacionamento fixo) e Eduardo sair de seu lugar cômodo e encarar algo desconhecido. Ambos precisam ceder. E aprender e crescer. Como todo mundo. Ainda que em jornadas diferentes para cada um deles, dados os backgrounds específicos e a posição em que estão em suas vidas estudantis e profissionais.

O filme também acerta em manter a trama no contexto do lançamento da canção, ali por volta de 1986 (embora a canção tenha sido composta em 1982, após Renato Russo sair da banda punk Aborto Elétrico e passar um tempo se apresentando apenas com voz e violão – ou uma craviola – sob o nome Trovador Solitário, e antes de fundar a Legião Urbana, em 1983). A ambientação original impede a armadilha de adicionar elementos outros (como a tecnologia) que poderia embaralhar ainda mais a trama. Assim, coisas como o evento que era uma ligação telefônica [de telefone fixo!] (ainda mais se fosse interurbana ou com fichas em um orelhão) contribuem para criar as situações de erros e acertos de uma história de amor.

O filme Eduardo e Mônica termina, nesse sentido, mostrando que em outros tempos o amor era possível mesmo sob contextos políticos conflitantes, com a menina filha do comunista exilado que se apaixona pelo neto de militar; algo que parece tão difícil nos tempos polarizados de hoje. Mas também não deixa de fazer crítica social com algumas arbitrariedades que resultam da perseguição política.

Na relação entre o par, vale à pena chamar a atenção ao trabalho do elenco. Como esperado, Alice Braga entrega uma Mônica carismática e fascinante, com uma personalidade forte e temperamento inconstante que enchem a personagem de profundidade e atitude, ainda que tenha suas fragilidades; enquanto Gabriel Leone assume um Eduardo mais intrépido, tímido e leal, que conquista por sua bondade, mas também é ajudado pela caracterização, com espinhas e aparelhos que o deixam mesmo com a aparência de um adolescente, ainda que isso seria inútil sem sua postura corporal que torna tudo crível.

A química do casal em cena é muito boa e passa veridicidade às cenas de romance.

O restante do elenco também está muito bom, em especial, Victor Lamoglia como o amigo Inácio e Otávio Augusto como o avô Bira.

A trilha sonora também está muito boa, bem representada pelos anos 1980, ainda que Legião Urbana apareça até menos do que o esperado.

Com isso, em sua segunda aventura legionária, René Sampaio cumpre sua missão com louvor, entregando um filme ainda melhor do que Faroeste Caboclo, trazendo uma história romântica tão ao gosto do brasileiro noveleiro, mas com sensibilidade e força, criando uma peça que combina com a canção que lhe deu origem e funciona mesmo como filme. Se Eduardo e Mônica, a canção, embalou corações e mentes brasileiras ao longo de décadas, como uma das mais queridas cançõezinhas de amor do repertório autoral recente pós-BRock, o filme homônimo pode divertir e emocionar ao transpor essa traminha, tão banal e corriqueira como são as grandes paixões de verdade (cotidianas que se viram à rotina), à tela grande.

Talvez ao apostar numa linguagem universal – a do amor – e sem inocência apostar em uma atriz de reconhecida carreira internacional (no caso, Alice Braga), Eduardo e Mônica tenha até espaço para algum circuito mais amplo do cinema e possa levar um pouco da poesia, da música e do amor criados no Brasil para o mundo.

Para além do filme, a equipe da Legião Urbana Produções e o cineasta René Sampaio já anunciaram os planos de outro longa baseado em uma canção de Renato Russo, o que dará continuidade ao UCLU. Não foi dito que música, mas o repertório da Legião Urbana está repleto de candidatas, com suas narrativas e personagens, desde óbvias como Pais e filhos ou O mundo anda tão complicado até outras mais obscuras, como Andréa Dória, Maurício, Leila, Clarisse, Dado Viciado, O descobrimento do Brasil, Dezesseis e até Perfeição, que é a cara do Brasil de hoje.