Mais uma vez o cavaleiro das trevas mais famoso do mundo retorna à tela grande. Tão pouco tempo depois de sua encarnação anterior, e não muito depois da anterior àquela… E muito rebuliço está sendo grande pelo filme. E o que achamos? Veja aqui a resenha do HQRock sobre The Batman SEM SPOILERS!!! Pode vir tranquilo se não assistiu.

Batman (no Brasil, o título oficial do filme é sem o “The”) é um bicho diferente. Um filme de super-heróis muito distinto dos que estão rondado o cinema (e a TV e o streaming) por aí, em particular da Marvel concorrente da DC Comics, casa do cruzado embuçado. Mantendo sua tradição cinematográfica, o longa do cavaleiro das trevas paga mais tributos à trilogia que o diretor Christopher Nolan liderou entre 2005 e 2012 do que a participação do personagem em Batman vs Superman ou Liga da Justiça (qualquer uma das versões).

Assim, não tem como falar do longa do diretor Matt Reeves sem comentar – ainda que brevemente – suas encarnações anteriores (e um pouco do caminho que seguiu até ser o que é). Nolan baseou seu Batman na realidade, como se ele existisse; enquanto Zack Snyder pegou uma versão mais fantasiosa do homem-morcego, mais parecido com a maioria dos quadrinhos, diga-se a verdade, com Bruce Wayne saindo de sua condição de “homem comum bem treinado” para interagir com Superman, Mulher-Maravilha e Flash. Reeves preferiu devolver o herói ao primeiro caminho.

E isso é bom. E ruim, também.

Explicamos por partes.

Batman é um filme ótimo! Carregado em uma trama de detetive, com boa dose de mistério, um tom de suspense, e uma ambientação o mais realista possível. Tanto quanto a do universo de Nolan e talvez até ainda mais pé no chão do que a Trilogia Cavaleiro das Trevas. (Claro, temos um filme contra três apenas, então, essa é uma impressão provisória). A história é boa e passeia por pontos importantes do homem-morcego e seu universo particular, envolvendo o espectador.

A fotografia é excelente, e embora o filme se passe quase inteiramente à noite, se faz um lindo trabalho de iluminação, exibindo uma Gotham City em tons creme, pardo, preto e azul escuro. O filme faz ótimo uso de suas locações para dar um ar de “cidade de verdade” à fictícia metrópole do Universo DC e se beneficia de muitas cenas gravadas em locação, na qual cidades de arquitetura neoclássica e gótica com alguns pequenos toques de art déco e modernismo, tais quais Liverpool, Londres e Glasgow abrilhantem os cenários e fundos de cena. Já que falamos de Gotham, não custa acrescentar que o filme faz um dos raros recursos de CGI ao fundir os prédios e construções dessas cidades com o skyline de Manhattan e sua ilha cercada de pontes, o que dá um ar de realidade interessante para o lar do Batman e ainda toma parte de sua própria trama nesse desenho urbano específico.

Mas é tudo muito bonito visualmente! E Reeves optou por filmar várias cenas na alvorada ou no crepúsculo (sem piada inclusa), o que traz um pouco de luz e belos quadros de iluminação ao filme. Nas cenas abertas, vemos os belos edifícios de pedra, suas gárgulas e luz amarela, e numa bela cena na qual Batman usa sua moto no subúrbio, bosques, gramados, estradas de terra e pontes medievais de pedra (oferecidas por Glasgow), que trazem um ar invernal de beleza para Gotham.

O elenco está muito bom e carrega o filme com competência e interesse. Robert Pattinson entrega o que já tinha prometido desde o primeiro teaser, com um Batman agressivo, sorrateiro e brutal. (As cenas de luta são totalmente pé no chão para enfatizar esse aspecto, com golpes duros e doloridos). Seu Bruce Wayne é um pouco menos interessante, mas não podemos deixar de mencionar que se mostra um sujeito muito perturbado e muito atormentado. (E seu visual sem nariz o faz ficar idêntico ao Bruce Wayne do desenhista Frank Quitelly). Nesta altura de sua jornada na trama – o “ano dois” no combate ao crime de Gotham City – não existe ainda a figura do playboy que encanta a high society com sua frivolidade, o que torna o personagem menos dúbio. Isso não é um problema, apenas uma escolha criativa.

Jeffrey Wright demonstra muito potencial com o tenente James Gordon, embora seu personagem não tenha exatamente um arco dramático para se desenvolver. Quem cumpre esse papel são outros, como a Selina Kyle de Zoe Kravitz e até o Oswald Copplepott (Pinguim para os íntimos) de Colin Farrell, irreconhecível embaixo de uma maquiagem para deixá-lo mais gordo, feio, com cicatrizes e um nariz grande, e absolutamente ótimo. Paul Dano, mais conhecido por seus papeis de nerd, se sai muito bem e assustador com seu Charada. Como Gordon, outro que aponta grande potencial, mas não tem muito o que desenvolver na trama deste primeiro filme, é o Alfred Pennyworth de Andy Serkis, que não é exatamente o mordomo que estamos acostumados. Até o Carmine Falcone de John Turturro exala o charme canalha dos vilões italianos da máfia, embora também tenha pouco tempo de tela.

A história é interessante e tem o louvor de trazer a típica história de detetive ao universo do Batman cinematográfico realmente pela primeira vez. Para aqueles que não leem quadrinhos, é importante frisar: nas HQs, Bruce Wayne não é apenas um lutador do mais alto nível, mas um gênio que é conhecido como “o maior detetive do mundo”. Suas histórias em sua mídia original volta e meia exploram esse elemento, trazendo influências do cinema noir e da literatura policial americana (ambas presentes no filme, diga-se de passagem). [E para aqueles que querem conhecer, fica a dica das belíssimas histórias de Greg Rucka e Ed Brubaker no início dos anos 2000, além de outras mais badaladas, como O Longo Dia das Bruxas e Silêncio, ambas escritas por Jeph Loeb com arte de Tim Sale na primeira e Jim Lee na segunda. Veja no post do HQRock sobre as Melhores Histórias do Batman].

O Batman do cinema sempre mostrou Bruce Wayne investigando uma coisinha ou outra – no Batman de Tim Burton, em O Cavaleiro das Trevas de Nolan – mas nunca numa história de detetive de verdade. Isso é uma responsabilidade porque uma investigação desse tipo consome tempo de roteiro e de tela e, portanto, baixa o tom do filme a aspectos mais humanos, mais intelectuais e reflexivos, e tira da ação (ainda mais da ação fantasiosa dos filmes de Snyder – voltaremos a esse tema).

Batman assume isso e o resultado é bom: temos um serial killer à solta que deixa pistas enigmáticas para trás e causa total pânico, não somente por causa da natureza do crime, mas especialmente, pelas vítimas escolhidas e por um trabalho de divulgação online, usando as redes e a deep internet para viralizar, num elemento que dialoga bastante bem com os dias atuais. O homem-morcego não tem alguém para pegar e socar… ele precisa usar suas outras habilidades para investigar o que está acontecendo, descobrir quem está envolvido, quem será a próxima vítima e como impedir o crime, ainda que esteja sempre um passo (ou dois) atrás do genial assassino.

Nessa pegada, o filme traz uma boa dose de crítica social, ao diferenciar a dura realidade das classes sociais e o modo diferenciado como precisam lidar com o sofrimento, algo que toca diretamente o protagonista, claro, afinal, Bruce Wayne é um milionário órfão em um crime terrível. Também a crítica à cultura de ódio que ronda aqueles que promovem a violência nas redes.

A escolha do vilão, do método e da ambientação casam muito bem e é legar ver esse Batman pé no chão se virando contra o crime organizado, bandidos de ruas, pequenos traficantes, clubes sujos, mafiosos, policiais e políticos corrutos e uma ladra de bom coração, que vai lhe ensinar que o mundo não é preto e branco como Bruce Wayne pensava.

Aliás, essa é uma lição que o protagonista aprende ao longo do filme não somente de Selina Kyle – ótima em sua representação ágil, sensual, sem ser vulgar – , mas também do próprio Charada. Neste ponto, o roteiro de Batman tem a coragem de demolir (ou pelo menos desestruturar) algumas verdades do mundo de Bruce Wayne e naquilo que ele acredita, de um modo que, não podemos deixar de mencionar, dialoga com o que é feito em Coringa, embora aqui, sem alucinações, mas também, sem verdades absolutas.

Um elemento curioso sobre o tema do filme é que há menos mistério do que parece, porque acompanhamos o desenrolar dos fatos por uma ótica que inclui o herói e o vilão, então, embora alguns mistérios precisem ser revelados, podemos estar um passo atrás do Charada, mas estamos bem mais adiantados do que o Batman.

O cavaleiro das trevas traz um visual que funciona como um mix das armaduras táticas usadas por Michael Keaton ou Christian Bale com o uniforme mais flexível de Ben Affleck, e isso funciona bem no sentido de que as cenas de ação se beneficiam da mobilidade do protagonista e sua capacidade de se abaixar e virar de lado. Matt Reeves se esforça para dar um ar de “presença”, mistério e medo. Sua presença nunca é desperdiçada, assim como o efeito que causa nos outros. O som de suas botas e o couro rangendo ao movimento criam uma antecipação que tornam o cavaleiro das trevas um monstro temido por todos, e isso é muito legal de ver num filme.

Seus equipamentos também estão lá, em particular, o gancho para escaladas que ele usa para bem mais coisas do que isso.

Mas não poderíamos deixar de falar do Batmóvel, um item tão importante ao universo do morcego quanto Gotham City. Este carro é uma máquina feroz, que ruge e grita quando aparece e funciona como uma criatura da noite, ainda que mantenha uma ambientação mais “mundana” de um carro turbinado, sem ser um veículo fantasioso como nos filmes de Burton, ou um tanque de guerra como em Nolan ou um misto dos dois como em Snyder. (E Chicago foi quem proveu as autoestradas para fazer jus a uma metrópole iaque). E sua cena, na entrada do terceiro ato, causa um impacto, com uma perseguição na chuva que remete aos filmes antigos dos anos 1970 e 80.

Falando nisso, Matt Reeves realmente se utiliza da Hollywood suja dos anos 1970 como uma influência visível em seu filme, com ecos de Taxi Driver, Perseguição Implacável e Operação França. Com isso, temos um filme adulto, forte, com cenas impactantes, bom grau de violência e ambientação soturna e sombria.

Contudo, como foi dito no início do texto, há alguns “poréns” na abordagem de Reeves, seja por mérito ou por contexto. A trama é interessante, mas as 3 horas de duração têm o seu custo e o filme parece um pouco longo demais. De maneira complementar, Batman traz uma boa sorte de personagens interessantes e tramas que se cruzam que também incham um pouco o produto final. Batman e Mulher-Gato se saem maravilhosamente bem na empreitada, mas outros personagens não se desenvolvem tanto quanto poderiam na competição por tempo e espaço – o que inclui em particular a subtrama das eleições municipais.

Outra questão é que, como “bicho diferente” que é, Batman pode causar estranheza ao público em geral, por não ter a natureza épica, fantasiosa, grandiosa e explosiva dos filmes de super-herói, em especial aqueles da Marvel. Aqueles que esperam um terceiro ato que “exploda tudo” como é comum nesse tipo de filme podem ficar decepcionados, pois não há um “levante” de ação e grandiosidade no fim. Isso não ruim, é bom frisar, e mantém a identidade do longa, mas pode causar estranheza ao público médio.

Ademais, sem entrar em spoilers, o filme toma uma decisão arriscada no terceiro ato que tem o potencial de jogar um balde de água fria na parte final, e sinceramente, o filme perde algo com isso e faz a “ação final” ficar meio despropositada dentro do contexto do filme.

Porém, entre erros e acertos, Batman é um ótimo filme e traz uma versão interessante do cavaleiro das trevas e uma guinada em relação a sua representação mais recente, mas fazer um Batman mais humano, falho, realista, sombrio e assustador é sempre bom e o clima de detetive contra serial killer cai como uma luva ao personagem.