Figura lendária e anedótica na história do rock, Keith Moon, baterista do The Who, irá ganhar uma cinebiografia cujas filmagens ocorrerão no meio do ano, no verão do hemisfério norte, diz a Variety. Trazendo o emblemático título de The Real Me (“o verdadeiro eu”, em tradução literal), uma das canções do álbum Quadrophenia, de 1973, o filme conta com o apoio da banda, cujos remanescentes Roger Daltrey e Pete Townshend atuarão como produtores executivos.

O The Who em 1970: Townshend, Moon, Daltrey e Entwistle.

A direção caberá a Paul Whittington, diretor britânico mais conhecido por seu trabalho na TV, em episódios de The Crown, por exemplo, além de ter atuado em White House Farm. O roteiro será de Jeff Pope, indicado ao Oscar por Philomena. A produtora será a White Horse Pictures, que se notabilizou nos últimos anos em filmes e documentários de caráter musical, como George Harrison – Living in the Material World, documentário sobre o ex-membro dos Beatles, falecido em 2001, dirigido por Martin Scorsese; e Eight Days a Week – The Touring Years, sobre os anos de turnês dos Beatles, dirigido por Ron Howard. O produtor Nigel Sinclair é o responsável, ao lado de Oliver Veysey, Jeanne Elfant Festa e Bill Curbishley, este último também empresário do The Who.

Não há um ator escolhido ainda para interpretar o intenso protagonista, mas Roger Daltrey comunicou que a escolha dependerá bastante de um ator capaz de interpretar com os olhos, pois o baterista tinha “olhos extraordinários”. Também não há uma data de lançamento.

É sabido que Daltrey já tenta produzir um filme sobre Moon pelo menos desde o início dos anos 2000, mas neste cenário pós-sucesso de produções como Bohemian Rhapsody sobre a vida de Freddie Mercury e a banda Queen e de Rocketman sobre Elton John, os ventos estão realmente propícios para cinebiografias de roqueiros. Existem inúmeros outros projetos em andamento ou recentemente concluídos, desde David Bowie e John Lennon, passando por Ozzy Osbourne, Bob Dylan e Brian Epstein, o empresário dos Beatles.

Sem sombra de dúvidas, uma cinebiografia de Keith Moon tem muito material a explorar, inclusive, do ponto de vista gráfico, pois o músico tinha o hábito de esconder uma bomba no bumbo da bateria e explodi-lo ao final dos shows, como parte do ritual de destruição dos instrumentos que o The Who realizava ali entre 1965 e 1969, sendo a primeira banda que fez isso. Além disso, sua vida pessoal foi atribulada e ele era um cara famoso por pregar peças e render histórias hilárias.

Mick Jagger, o vocalista dos Rolling Stones, já contou em uma entrevista que, certa vez, no início dos anos 1970, Moon usou a escada de incêndio para invadir pela janela o quarto de hotel em que dormia fantasiado de Batman. Jagger ficou assustadíssimo e quis esfaquear o invasor, mas Moon conseguiu tirar a máscara há tempo.

Seu comportamento maníaco e senso de humor sem limites se refletiam em sua forma de tocar, enfatizando movimento rápidos da bateria, sempre cheia de viradas, usos dos tons-tons e muitos pratos. Seu estilo único contribuiu não somente para a sonoridade pesada do The Who (especialmente ao vivo), mas também para reposicionar a bateria dentro do espectro sonoro do rock na metade final dos anos 1960, com a percussão servindo de complemento ao maior peso e evidência das guitarras. Assim, Moon foi um pioneiro na bateria pesada e destrutiva, abrindo caminho para outros artífices do instrumento na época, como Ginger Baker (Cream), Mitch Mitchell (The Jimi Hendrix Experience) e John Bonham (Led Zeppelin).

Outros músicos que tocaram com Moon afirmavam que seu estilo alto, violento, rápido e frenético era dificílimo de acompanhar – Keith Richards, dos Rolling Stones, o chamou de “trem desgovernado” – mas ele encontrou uma química incrível com o guitarrista Pete Townshend, possibilitando o som cheio de fúria e cadência típico do The Who em sua fase áurea.

The Who em 1965: ícones dos anos 1960, com Moon à frente.

Keith Moon nasceu no norte de Londres em 23 de agosto de 1946, e foi criado em Wembley, onde foi mal na escola ao mesmo tempo em que se interessou desde cedo pela música. Ele chegou a tocar clarim na banda de cadetes aos 12 anos, mas trocou o instrumento pela bateria e passou a ter aulas na escola e em um estúdio musical. Aos 14 anos ingressou em um curso técnico e começou a trabalhar como reparador de rádio, o que lhe deu dinheiro suficiente para comprar seu primeiro kit de bateria e a ter aulas com o célebre baterista de jazz, Carlo Little, que acompanhava Screammin’ Lord Sutch, antes de começar a tocar com suas primeiras bandas, em 1962, como the Escorts e The Beachcombers, enquanto trabalhava no departamento de vendas de um empreiteira.

Mas querendo se tornar profissional na música, ele fez um teste para ingressar no The Who (que tinha Roger Daltrey nos vocais, Pete Townshend na guitarra e John Entwistle no baixo), substituindo o baterista original Doug Sandom, quando tocou uma canção com a banda durante um show. Em uma entrevista posterior, Moon disse que tinha bebido para “tomar coragem” (de tocar diante de uma plateia sem ter ensaiado antes) e terminou por tocar violentamente, quebrando o pedal do bumbo e rasgando duas peles! No fim, achou que seria obviamente dispensado, mas foi convidado para o show seguinte e permaneceu.

Seu estilo de bateria mudou a sonoridade do The Who, pois redirecionou o grupo de um estilo mais Doo-woop com pitadas de R&B para um som mais pesado, alto e barulhento. Inclusive, (influenciado pelo jazz) Moon foi o primeiro dos bateristas britânicos a usar ostensivamente o bumbo duplo, algo que depois seria adotado por Ginger Baker e John Bonham. A banda estreou com sucesso nas gravações, emplacando uma sequência de compactos em 1965, como I can’t explain e My generation, que chegaram alto às paradas, rendendo os álbuns My Generation (1965), A Quick One (1966) e Sell Out (1967), que consolidaram o The Who como uma das principais bandas britânicas da época, embora não tenham conseguido emplacar nos Estados Unidos, a despeito de insistentes turnês, especialmente entre 1967 e 1968.

A capa do álbum Tommy, de 1969.

Quando a banda encarava a perspectiva de um período de decadência e estagnação na carreira, Pete Townshend compôs a ópera-rock Tommy (1969), que se transformou num fenômeno de aclamação entre público e crítica, inclusive, nos EUA, coroada numa apresentação no Festival de Woodstock e outra, no ano seguinte, no Festival da Ilha de Wight, canalizadas através do álbum ao vivo Live at Leeds (1970), que expressou como nenhum outro a potência e fúria do grupo em concerto.

No The Who, Townshend era o compositor principal, mas os outros membros contribuíam com canções esporadicamente, inclusive, Moon, que coassina instrumentais como In the city e The ox ou sozinho como I need you, Cowbels and strange, Girl’s eye e Tommy’s holiday camp. O baterista também ambicionava assumir os vocais principais, o que fez em Barbara Ann e Bucker T, mas realizou principalmente backing vocals em falseto em canções como I can’t explain, A quick one (while he’s away) e Pictures of Lilly.

The Who ao vivo em 1969.

Em termos de relações, todo o quarteto era dado a emoções volúveis, o que fez do clima interno quase sempre tenso e explosivo. Nenhum dos outros membros se tornou particularmente amigo um do outro ao longo de toda a existência da banda, mas Moon criou relações um pouco mais próximas e sólidas, primeiro com Entwistle e depois com Townshend. Inclusive, após uma briga no palco em maio de 1966, levou Moon e Entwistle deixarem o the Who, embora terminaram retornando alguns dias depois.

No campo pessoal, Keith Moon começou a namorar Kim Kerrigan após ela ver um show da banda em 1965 e ela terminou grávida, o que levou ao casamento em 1966, e o nascimento da filha Amanda. Porém, as bebedeiras levaram Moon a se tornar ciumento e até violento em algumas ocasiões, o que levou a um relacionamento abusivo e infeliz. O sucesso do the Who, particularmente após 1969, incrementou o estilo de vida do músico, que passou a colecionar carros (e eventualmente destruí-los).

Moon também fez vários trabalhos ocasionais com outros músicos, como tocar cantar backing vocals em All you need is love dos Beatles e se apresentar com John Lennon em um show em dezembro de 1969 (que terminou lançado no disco Some Time in New York City, em 1972). Mas a mais célebre dessas ocasiões foi em 1967, com a carreira solo do ex-guitarrista dos Yardbirds, Jeff Beck, gravando a explosiva Beck’s bolero (um pastiche roqueiro do Bolero de Ravel), numa banda improvisada com Beck e Jimmy Page nas guitarras, John Paul Jones no baixo, Nick Hopkins no piano e Moon na bateria. Ele também tocou tímpano (uma percussão orquestral) em outra faixa, Old man river, e ambas terminaram no álbum Truth do The Jeff Beck Group. Dizem que na ocasião dessas gravações, Moon brincou com a ideia deles formarem um supergrupo e que “iriam decolar como um zeppelin de chumbo” (lead zeppelin), expressão que cativou Page, que a usou para batizar sua futura banda, o Led Zeppelin.

Depois de Tommy, o the Who se transformou em uma sensação internacional e viveu turnês ainda mais loucas e intensas, o que casou muito bem com a personalidade lunática de Keith Moon, que achava que excursionar era sua razão de viver. Ele adorava explodir banheiras e vasos sanitários dos hotéis e jogar TVs e móveis pelas janelas.

Mas esse estilo de vida o levou ao abuso de substâncias psicoativas (especialmente anfetaminas) e de álcool. No início dos anos 1970, em resposta ao stardoom internacional, o The Who começou a diminuir a frequência de shows e gravações, o que teve um impacto severo em Moon, que achava a vida fora das excursões tediosas, e começou a exagerar mais ainda em festas e drogas.

O abuso começou a ter consequências. Em janeiro de 1970, Keith Moon ficou muito bêbado e arrumou confusão no Red Lion Pub, em Hatfield, e uns caras começaram a depenar seu Bentley (um típico e caro carro inglês), Moon se apressou em entrar no veículo e dar partida, mas na sua condição, terminou por atropelar sem querer seu próprio amigo e segurança, Neil Boland, que morreu no acidente. O baterista foi inocentado do crime, mas viveu o resto de seus dias atormentado por essa lembrança.

Após o hiato do The Who de 1972, tudo ainda ficou pior: na turnê para divulgar o álbum Quadrophenia (1973) ocorreu o infame show no Cow Palace, em Daly City, na Califórnia. Turbinado por uma mistura de tranquilizantes e conhaque, Moon desmaiou durante a execução de We won’t get fooled again. Levado aos bastidores, a equipe da banda lhe deu um banho e lhe injetou cortisona, o que o despertou. Após um “intervalo” de 30 minutos, Moon retornou ao palco e o concerto continuou até que o baterista desmaiou de novo durante Magic bus. Dessa vez, a banda decidiu continuar sem ele e tocou algumas músicas sem bateria. Mas como isso era inviável para uma banda como o the Who, Pete Townshend simplesmente perguntou se havia algum bom baterista na plateia, e Scot Halpin se apresentou e tocou o restante do show com eles.

O comportamento fora de controle de Moon motivou Kim Kerrigan se separar e levar a filha Amanda consigo, em 1973, resultando em um divórcio dois anos depois.

Moon ao lado do ex-Beatles, Ringo Starr, um de seus melhores amigos.

A diminuição do ritmo da banda e o fim do casamento de Moon o levou a se mudar para Los Angeles e as coisas saíram ainda mais do controle, pois a cidade era naqueles tempos a “meca do rock” e o epicentro da indústria musical mundial, lotada de músicos boêmios dispostos a queimar a vida em festas sem fim. Em LA, Moon passou a viver com Annette Walter-Lex, que fez um grande esforço (infrutífero) para que o baterista abdicasse do hábito de tomar champagne e conhaque com anfetaminas no café da manhã!

O novo hiato na banda motivou Moon a gravar seu único álbum solo, The Two Sides of the Moon (1975), que contou com um celeiro de celebridades convidadas, mas ele só toca bateria em três faixas, dedicando-se aos vocais. A bateria foi assumida por nomes como Ringo Starr e Jim Keltner. O disco foi um fiasco total e massacrado pela crítica.

Na turnê para divulgar The Who By Numbers (1975), novos incidentes aconteceram e Townshend começou a considerar a possibilidade de demitir Moon da banda, mas não o fizeram por medo de que seu comportamento piorasse ainda mais. Em um show no Boston Garden, em março de 1976, Moon desmaiou após duas canções e o concerto foi reagendado. Frustrado com o ocorrido, o baterista terminou destruindo totalmente seu quarto de hotel e cortou os pulsos, terminando por desmaiar. Ele foi salvo pelo empresário da banda, Bill Curbishley, que o levou a um hospital, onde os médicos lhe informaram que Moon teria sangrado até a morte caso não fosse atendido. Apesar de tudo, a banda conseguiu finalizar a turnê em 21 de outubro de 1976, no Maple Leaf Garden, em Toronto, no que foi a última apresentação pública de Moon.

A banda entrou em outro hiato e Moon degradou a vida ainda mais, inclusive, ganhando peso, o que lhe dava uma aparência mais velha do que realmente tinha. O the Who promoveu um show privado, apenas para convidados, no Gaumont State Cinema, para compor o documentário The Kids are Alright, em 15 de dezembro de 1977, e essa foi a última apresentação dele com a banda. Townshend ficou insatisfeito com a performance do baterista e lhe disse que precisava “melhorar”. Apesar disso, as performances daquele dia de Baba O’Rilley e Won’t get fooled again ficaram bastante famosas, servindo como videoclipes de ambas.

Moon nas gravações de Who are you: ganho de peso e aparência decadente.

Em seguida, o the Who entrou em estúdio e gravou o álbum Who Are You? (1978), mas Townshend disse que não faria uma turnê caso Moon não deixasse de beber, e aparentemente, até ameaçou demiti-lo – embora esta parte ele negue.

Mais ou menos ao mesmo tempo, o assistente pessoal de Moon, Dougal Butler escreveu uma carta para o empresário Bill Curbishley dizendo que eles dois morreriam se permanecessem morando em Los Angeles, por causa dos abusos de drogas e bebidas. Num arranjo com Curbishley, Butler e Walter-Lex, (talvez também motivado pelo ultimado de Townshend) Moon foi convencido a retornar a Londres e iniciar um tratamento contra o alcoolismo.

Na cidade, Moon alugou um flat na Curzon Place, no elegante bairro de Mayfair, que pertencia ao cantor americano Harry Nilsson (parte da “gangue” de Moon em LA, ao lado de John Lennon, Ringo Starr e David Bowie). O apartamento tinha má fama porque a cantora Mama Cass Eliot (do The Mamas and the Papas) morrera no local três anos antes.

Dali em diante, Moon começou a abusar dos remédios contra o alcoolismo e sua saúde piorou mais ainda. Seu último trabalho profissional foi regravar algumas passagens de bateria para o filme The Kids are Alright em setembro daquele ano, mas ele teve muita dificuldade em simplesmente tocar qualquer coisa.

No dia 06 de setembro de 1978, houve a estreia do filme The Buddy Holly Story, sobre o roqueiro dos anos 1950 amado pelos ingleses, e que tinha Paul McCartney entre os produtores. Keith Moon e Annette Walter-Lex compareceram à festa e depois voltaram ao seu flat. Eles tiveram uma discussão boba, cotidiana de casal, e ele tomou alguns comprimidos de clomethiazole antes de dormir.

No dia seguinte, como tinham dormido já na alta madrugada, Walter-Lex só foi acordar Moon no meio da tarde e o encontrou morto. A autópsia revelou que o baterista tinha digerido no estômago 6 comprimidos de clomethiazole, o que já era suficiente para matá-lo, contudo, havia outros 26 comprimidos de clomethiazole no estômago ainda sem serem digeridos.

Apesar do choque da morte, e como uma maneira (“burra e irracional”, como disse depois em uma entrevista) de lidar com a ausência de Moon, Townshend decidiu manter o The Who em ação e embarcou em uma turnê em 1979 para promover tanto o álbum Who Are You? quanto o filme The Kids are Alright, trazendo o baterista Kenny Jones (do The Small Faces e do The Faces) para substituí-lo. O estilo de Jones era mais limpo e reto, o que era uma modificação tremenda do estilo da banda e talvez a busca inconsciente de mais estabilidade.

A nova formação lançou dois álbuns – Faces Dance (1981) e It’s Hard (1982) – e o grupo encerrou as atividades oficialmente após uma turnê de despedida em 1984. Porém, a banda realizou vários retornos depois disso, usando Jones no Live Aid (1985), Simon Phillips na turnê comemorativa de 20 anos de Tommy (1990) e Zak Starkey (filho de Ringo Starr) a partir de 1996. O baixista John Entwistle também morreu em 2002, vítima de um ataque cardíaco, mas de novo, a banda prosseguiu suas atividades. A despeito das consecutivas turnês, o grupo só lançou um novo álbum de material inédito com Endless Wire (2006) e Who (2019).