O lendário escritor das Eras de Prata e Bronze dos quadrinhos, Roy Thomas, sentou com o AIPTC e conversou sobre sua contribuição aos quadrinhos dos X-Men, passando pela criação de Wolverine, a colaboração com o fantástico desenhista (e recentemente falecido) Neal Adams, o investimento na diversificação do time de mutantes e mais algumas coisas. O contexto da entrevista se dá pelo lançamento da revista X-Men Legends 01, na qual Thomas tem a oportunidade de retomar o roteiro dos mutantes situado no mesmo tempo cronológico ao qual produziu suas marcantes histórias originais.

Thomas nos anos 1970.

Trabalhando na Marvel nos meados de 1960, Thomas se tornou o braço direito de Stan Lee, que então, era não somente o principal escritor da Casa das Ideias, mas também seu editor-chefe. Quando as funções administrativas e burocráticas começaram a exigir que Lee abrisse mão da escrita de algumas revistas, coube a Thomas substituí-lo, iniciando aclamadas temporadas em revistas dos Vingadores, dos X-Men, Demolidor e muito mais.

Nos X-Men, Thomas teve duas passagens célebres: primeiro, em 1966, substituiu Lee no comando da revista, a partir do número 20 de The X-Men, ficando até a edição 43; e depois de se ausentar por por quase um ano; e regressou à revista no número 55, em 1968, quando criou sua mais célebre fase nos mutantes, ao lado de Neal Adams, criando uma das melhores fases que os X-Men já tiveram em todos os tempos, ainda que mais breve do que gostaríamos. Além disso, quando Stan Lee foi promovido a publisher da Marvel, em 1972, coube a Thomas também substituir o mestre no papel de editor-chefe, o que o levou à criação de Wolverine e numa mudança radical dos X-Men que resultou na diversificação do time com membros advindos de outros países (e etnias) e o lançamento de personagens icônicos como Tempestade, Noturno e Colossos.

Na entrevista, Thomas ressalta como queria, desde o início, aumentar a diversidade dos X-Men, até então, um grupo com cinco membros (Ciclope, Garota Marvel, Fera, Homem de Gelo e Anjo, mais o líder, Professor Charles Xavier), todos brancos e estadunidenses. Também lembra que não era fã do time de mutantes e que chegou ao grupo por uma missão dada por Stan Lee.

Stan Lee e Roy Thomas em um programa de TV nos anos 1970.

Entrando na Marvel no verão de 1965, Thomas começou como assistente de Lee, e como “treino” lhe foram dadas histórias avulsas de vários personagens para “preencher lacunas” (como cobrir férias do roteirista), o que o levou a assinar aventuras do Demolidor, Doutor Estranho e até Millie, a modelo. Seu primeiro título como escritor regular foram as aventuras de guerra em Sgt. Fury and His Howling Commandos, e The X-Men (como a revista era chamada, pois só passou ao hoje conhecido The Uncanny X-Men no fim dos anos 1970) foi apenas sua segunda revista fixa.

Thomas conta como incorporou algumas novidades aos X-Men, mas precisou enfrentar a resistência de Stan Lee, seu editor-chefe…

Eu gostava do nome Banshee e eu pensei que poderia dar um bom personagem, exceto que Stan não me deixou fazer de Banshee uma mulher. Stan dizia que não poderíamos ter cinco X-Men lutando contra uma mulher, o que não cairia bem aos X-Men. Ela deveria ser como aquela personagem que é a filha de Banshee, Siryn, o que é um nome terrível para a filha de um herói irlandês, mas deixa pra lá. Mas ela teria sido daquele jeito e seria bem poderosa, mas Stan não me deixou fazê-la.

Banshee nos quadrinhos…

Banshee foi introduzido em X-Men 28 como um mutante capaz de emitir poderosas ondas sonoras com seu grito, de tal modo que podia quebrar coisas, derrubar pessoas e até voar. Na língua inglesa, banshee é o nome de um pássaro bastante relacionado à Irlanda e tem um grito alto e agudo. Para nós é difícil entender, porém, os irlandeses eram um dos grupos étnicos que mais sofriam preconceitos na Nova York dos anos 1960, acusados de arruaceiros, beberrões e coisas do tipo. Ao lado de judeus e italianos, os irlandeses inundaram a ilha de Manhattan na onda migratória que ocorreu na virada do século XIX para XX. Daí que ter um personagem irlandês na Marvel se tornou algo importante. Ele não pôde ser uma mulher, como Thomas queria inicialmente, mas mais de uma década depois foi criada a personagem Siryn (nome normalmente traduzido como sereia em português – porque as sereias da mitologia grega também emitiam um forte e agudo grito que hipnotizavam os marinheiros, como aparece na Odisseia de Homero), uma adolescente que tinha basicamente os mesmos poderes do pai.

E Banshee não foi o único que Thomas trouxe para diversificar…

Eu não estava procurando fazer isso por raça ou nada em particular. Depois, se eu tivesse ficado na revista [X-Men, por mais tempo], provavelmente eu adicionaria um mutante negro ou dois e por aí vai. Mas naquela época, eu apenas pensei que os mutantes deviam ser um fenômeno mundial e seria apenas coincidência que todos esses X-Men – exceto talvez Magneto – fossem americanos brancos.

A menção a Magneto é importante, porque ficou definido que Magneto era um homem de origem polonesa – ou seja, um polaco – e judeu, que fora perseguido pelos nazistas na II Guerra Mundial, o que o levou à intolerância na disputa entre humanos e mutantes.

Eu apenas gostava da ideia de diversificar, porque nós temos uma grande audiência no mundo. Há um monte de gente nos Estados Unidos e ao redor do mundo que não são homens brancos ou mulheres brancas, então, deveríamos ter mais diversidade. Não estávamos feito loucos procurando por desculpas para fazer isso, mas se a oportunidade aparecesse, nós devíamos fazê-lo. Eu fiz Banshee [irlandês], Solaris [japonês] e Wolverine [canadense] e outras pessoas fizeram mais alguns, e eu meio que sou agradecido que tenhamos feito um pouco disso lá atrás, mesmo que tenha sido um começo lento.

Estreia de Solaris em X-Men 64, de 1970, na arte de Don Heck.

O japonês Solaris (Sunfire) foi outra adesão interessante de Thomas aos X-Men, tendo aparecido em X-Men 64, de 1970, numa das últimas histórias do grupo naquela fase. Porém, Thomas revela que queria ter introduzido o personagem muito antes disso, lá em 1965, quando assumiu o título.

Tão logo eu assumi [a revista], eu queria fazer um mutante japonês ou americano-japonês. E Stan realmente não queria que eu adicionasse ninguém porque ele estava preocupado com aquilo… Eu não sei, talvez, o artista não o desenhasse de uma forma simpática o suficiente ou algo assim. Ele estava preocupado em como eles apareceriam, você sabe, mais do que qualquer coisa. E eu nunca mais trouxe isso de novo para ele. Então, quando eu voltei aos X-Men [em 1968], eu disse: “agora, é a hora daquele personagem”. Mas aquele personagem [original], fosse chamado Solaris ou outra coisa, teria estado ali um par de anos antes.

É interessante que a fala mostra que, embora a Marvel estivesse investindo na diversificação de seus personagens – não somente nos X-Men, mas em outros títulos, também, com personagens como Pantera Negra e Falcão aparecendo – ainda havia grande preocupação de sua aceitação e do modo como seriam retratados. Vale lembrar que existia uma tradição das HQs de retratarem os orientais de modo caricato e vilanesco – ecos da II Guerra – e mesmo as histórias iniciais de Stan Lee trouxeram esse elemento, com vilões chineses nas aventuras do Homem de Ferro, por exemplo.

A seguir na entrevista, Roy Thomas é perguntado sobre seu retorno aos X-Men, em 1968, após pouco mais de um ano afastado e que coincidiu com a estupenda fase com o desenhista Neal Adams, que simplesmente revolucionou os quadrinhos de super-herói com sua arte arrebatadora, de referências fotográficas e design arrojado de enquadramento. Adams chamara a atenção na DC Comics, em revistas secundárias como Desafiador (Deadman), antes de ilustrar The Brave and the Bold (com histórias do Batman) e se tornar, em seguida, o principal artista do homem-morcego e capista oficial do Superman.

Interessado no Método Marvel de Stan Lee – que dava mais autonomia ao desenhista na criação das histórias – Adams também trabalhou na Marvel, ilustrando X-Men, Vingadores, Thor e Inumanos, quase todos ao lado de Thomas nos roteiros.

Capa de X-Men por Don Heck (e retoques de John Romita) antes da entrada de Neal Adams.

Foi um encontro interessante, porque a revista X-Men vinha vendendo muito mal e, antevendo o cancelamento do título, Stan Lee trouxe Thomas de volta para o roteiro e, quando Adams apareceu em sua porta pedindo para desenhar uma revista de pouca expressão (o que lhe dava mais espaço para brilhar, como fora o caso de Deadman), pronto, Adams ingressou no mundo dos mutantes.

Da parte de Thomas, o regresso aos mutantes não foi uma coisa feliz, porque ele não gostava dos personagens e não os achava muito dignos.

Arte de Neal Adams.

Eu não era um grande fã dos X-Men. Eu estava bastante feliz por ter saído da revista [em 1967] e era muito mais feliz fazendo os Vingadores [que começara a escrever em 1966 e ficaria até 1972, numa das melhores fases da equipe]. Mas Stan me convidou para vir [aos X-Men], porque as vendas tinham meio que despencado. Eu disse que eu não estava fazendo um grande trabalho, em primeiro lugar, mas Stan disse para que eu fizesse, e então, eu fiz. Então, eu comecei e fiz uma edição [o número 55]. Eu não estava feliz, estava de volta, mas realmente não sabia o que queria fazer. Eu estava herdando uma história, acho que [o roteirista] Arnold Drake tinha feito o irmão de Scott Summers, mas ele não tinha sequer dito se ele era um mutante ou não. Então, eu precisava lidar com tudo aquilo, e assim, Neal [Adams] apareceu.

De fato, X-Men vinha sendo escrita por Arnold Drake com arte de Jim Steranko, Berry Windsor-Smith, Don Heck e outros, então, foi removido abruptamente da revista e Thomas assumiu na edição 55 (com arte de Heck), no meio de uma história em que um vilão chamado O Faraó Vivo sequestrava o irmão do Ciclope, Alex Summers. Pegando a história pelo meio, Thomas enrolou um pouco até que, no número 56, temos uma virada completa da trama com a introdução da arte inacreditável de Neal Adams.

[Neal] disse a Stan que queria fazer uma das revistas pouco vendidas ou algo assim, sabe? E terminou sendo X-Men, mas não foi como Neal saiu dizendo depois, de que seria canceladas em duas edições, porque Stan não teria como saber disso. Martin Goodman [o proprietário e publisher da Marvel naqueles tempos] cancelava revistas, não Stan [que era o editor-chefe, responsável pelo aspecto criativo da editora, não pelo elemento comercial, atribuição do publisher], mas era óbvio que estava numa transição, estava em declínio. E eu lembro que eu tinha gostado do trabalho de Neal. Eu tinha visto um par de histórias de guerra e, acho, que Deadman, por aquela época. Eu disse a ele: “se você quiser escrever, você pode escrever”. Mas eu terminei ficando para escrever.

A página de abertura no Egito.

Mas nós dois seguimos em frente. Ele chegou no meio dessa sequência egípcia [a trama levou o Faraó Vivo e os X-Men ao Egito] e eu sempre gostei do trabalho de Neal, mas eu lembro que ele veio um dia e começou a trabalhar na página de abertura. Ele estava trabalhando na redação e eu vi que ele tinha uma fotografia do tempo de Abu Simbel por ali, que era o que ele esyava desenhando na página de abertura, e ele estava desenhando a mão livre. Se parecia exatamente com a maldita fotografia. E ele não era dependente das fotografias, porque ele pegava as coisas e meio que as fazia ficarem como se fosse fotografias, mas ele esticava os músculos de algumas maneiras. Ele era anatomicamente audaz como Jack Kirby era, e tudo, mas fazia parecer mais real. E eu pensei, “meu deus, esse cara é ainda melhor do que eu pensei que ele era!” Ele está aí, como John Buscema, sabe? E as pessoas pensavam que era realmente muito bom, então, eu estava muito feliz por trabalhar nisso e dali em diante, nós meio que fizemos as tramas.

Thomas e Adams fizeram uma parceria explosiva nos X-Men e nos Vingadores.

Neal nunca foi apenas o artista da revista. Ele nunca foi o único escrito, tampouco, mas ele estava no meio disso, sabe? Ele era o corroteirista, às vezes mais, às vezes menos, mas muito disso, e era um cara de personalidade muito forte, com pontos de vista muito fortes. E nós íamos almoçar, seja lá sobre os Vingadores [que os dois também produziram juntos] ou os X-Men, e sentávamos lá, pedíamos nossas pizzas ou burgers, e falávamos por um ou duas horas. E, sabe, eu diria coisas, ele diria coisas, e então, ele ia embora e desenhava a história. E quando chegava [a arte], nunca era exatamente uma surpresa, porque era o que era, porque soava como o que tínhamos conversado. Então, ele foi um dos mais monumentais talentos por aí, com Kirby e um punhado de outros, tanto quanto a influência dele no meio.

Belos exemplos da dinâmica arte e enquadramento de Adams nos X-Men: páginas de encher os olhos.

Essa fala é interessante, porque Thomas era um roteirista que trabalhava de maneira tradicional, com roteiros completos, e não no estilo Método Marvel de Stan Lee, mas ele aderiu a essa estratégia com Neal Adams, que era alguém cheio de ideias, mas não exatamente um roteirista. Assim, o trabalho de Thomas-Adams foi muito similar em metodologia àquele de Lee-Kirby: com a dupla discutindo o que seria a história em uma longa conversa; o desenhista desenhando a história sem um roteiro propriamente dito (baseado apenas na conversa); e o roteirista vindo ao fim colocando narração e diálogos.

A maravilhosa arte de Neal Adams na Guerra Kree-Skrull.

Esse método de trabalho renderia alguns problemas futuros entre Thomas e Adams, que discordaram publicamente sobre as contribuições de cada um no famoso arco A Guerra Kree-Skrull, a mais clássica das aventuras dos Vingadores, publicada em 1971, com roteiro de Thomas e arte de Adams (embora também com contribuições de outros desenhistas, como John Buscema e Sal Buscema).

Essa discussão pública azedou as relações entre Adams e Thomas nos últimos anos e Adams morreu sem realmente fazer as pazes, embora tenham tido dois encontros presenciais cordiais em eventos públicos – uma premiere de filme e uma convenção de quadrinhos – em anos recentes. Adams morreu vítima da sepse, um tipo de infecção generalizada, em 29 de abril deste ano, aos 81 anos.

Roy Thomas falou, então, de seu envolvimento na criação de Wolverine, que se deu um pouco depois, quando ele já ocupava o cargo de editor-chefe da Marvel no lugar de Stan Lee.

Bem, em 1974, um par de meses ou mais antes de eu deixar o cargo de editor-chefe, eu estava pensando numa maneira de incrementar as vendas. E, na verdade, aquele era o trabalho de Stan Lee [que era o publisher da Marvel], mas como editor-chefe, eu estava supostamente vindo com alguma boa ideia para uma direção para melhorar isso. Eu pensei no fato de que nós tínhamos um percentual expressivo, talvez 5%, 10%… um certo montante de nossos leitores era canadense. Eu estive no Canadá umas duas vezes e tinha alguns amigos de lá. E não havia até ali, tanto quanto eu soubesse, um personagem canadense defintivo nas histórias em quadrinhos americanas.

O Wolverine real.

Então, eu pensei que Wolverine era um bom nome, porque eu sabia dos wolverines [carcajus, no Brasil]. As duas coisas que eu sabia especialmente era que eles eram animais pequenos, basicamente, e eram realmente ferozes e conhecidos por atacar animais com dez vezes o seu tamanho. Quer dizer, eles caçavam um alce adulto ou algo assim. Então, eu chamei [o escritor] Len Wein, o que fazia um monte de sentido, porque a maioria dos personagens da Marvel estava em cidades nos EUA, principalmente em Nova York. E Len estava fazendo The Incredible Hulk, que estava sempre andando por aí pelo país e poderia estar em qualquer lugar, incluindo, fora do país. Eu trouxe Len e funcionou muito bem. Ele estava para fazer algum trabalho que levaria o Hulk para o Canadá, e terminou sendo aquela história do Wendigo [um mítico animal das lendas das estepes geladas do Canadá, algo como o Pé Grande]. Eu disse: “eu quero um personagem Wolverine que é baixinho e canadense”. Eu gostava do jeito que Len fazia o sotaque [nas histórias].

Esboço original de Wolverine por John Romita.

Depois daquilo, John Romita foi convidado para fazer o design do personagem. E acho que nem Len nem eu tivemos muita participação nisso. John tinha dito que não sabia o que um wolverine era: ele pensou que era uma fêmea de lobo, então, pelo menos aquela conotação de lobo que eu tive estava funcionando para ele. John olhou [uma imagem de um carcaju que Thomas mostrou para ele] e viu as garras.

Então, Len e eu meio que aceitamos aquilo [o visual de Wolverine por Romita] e eu passei para Len e nunca mais pensei sobre isso de novo. Sabe, eu meio que vagamente aprovei a história quando ela chegou, mas fora isso, era só mais outro personagem. Então, agora tínhamos nosso personagem canadense e fizemos um par de anúncios na revista, destacando o fato de que tínhamos o primeiro super-herói canadense nos Estados Unidos. [Wolverine estreou em The Incredible Hulk 180, de 1974, com roteiro de Wein, arte de Herb Trimpe e capa de John Romita]. Ademais, eu deixei para Len, que fez um bom trabalho. E então, claro, levou alguns anos até Len decidir colocá-lo nos X-Men, logo depois que eu deixei meu cargo de editor-chefe. Eu tinha sugerido trazer os X-Men de volta com um novo time internacional e ele [Wein] usou meus três personagens [os estrangeiros: Banshee, Solaris e Wolverine] em Giant-Size X-Men, meus três personagens estrangeiros junto a alguns novos que ele e Dave Cockrum fizeram.

A capa de The Incredible Hulk 181 traz Wolverine na capa depois do personagem aparecer no fim da edição anterior.

É importante dizer que, em meados de 1974, Roy Thomas deixou o cargo de editor-chefe da Marvel, cansado dos aspectos burocráticos da tarefa e querendo se dedicar apenas a escrever, e coube ironicamente a Len Wein substituí-lo. Mas antes de sair, Thomas criou a ideia de fazer os X-Men um time de mutantes internacionais, para desenvolver as ideias que teve ainda nos anos 1960, e encarregou Wein de fazê-lo. Mesmo imbuído no novo cargo, Wein manteve o trabalho nos novos X-Men, ao lado de Dave Crockum, que tinha uma grande habilidade de criar visuais por causa de sua passagem na Legião dos Super-Heróis da DC Comics, um time que vivia mudando de personagens.

Os X-Men havia tido sua revista cancelada em 1970 e, desde então, apenas apareciam como personagens coadjuvantes em outras revistas da Marvel, ao lado do Homem-Aranha, Hulk e Capitão América, enquanto o Fera chegou a ter aventuras solo publicadas e ingressou nos Vingadores em 1974.

Capa de Giant-Size X-Men 01, por Gil Kane.

Como Thomas, adiantou Wein e Crockum mantiveram os três personagens estrangeiros de Thomas – Banshee (irlandês), Solaris (japonês) e Wolverine (canadense) – e criaram outros novos: Tempestade (queniana), Colossos (russo), Noturno (alemão) e Pássaro Trovejante (indígena norteamericano); mantendo apenas o líder Ciclope da formação antiga dos X-Men. O novo time estreou na revista especial Giant-Size X-Men 01, de 1975, e em seguida, retomou suas histórias na revista X-Men, que manteve a numeração antiga. Mas após ter estabelecido a nova equipe, Wein achou o fardo pesado demais – ele também passou a escrever Amazing Spider-Man, a revista principal do Homem-Aranha – e deixou o título dos X-Men para seu assistente, o roteirista iniciante Chris Claremont, que continuou trabalhando com Crockum até este sair e ser substituído por John Byrne em 1977.

As capas de Uncanny X-Men 94 e 95 não trazem Wolverine.

Thomas reconhece que, com todo respeito ao monumental trabalho de Len Wein em criar esses novos personagens, coube mesmo a Claremont transformá-los no fenômeno cultural que seriam dali em diante.

A polêmica edição 137, que teve que ser reescrita.

Então, claro, foi realmente a chegada de Chris Claremont e o trabalho com Dave Cockrum e depois com John Byrne naqueles primeiros anos que realmente começou a fazer os X-Men se tornarem uma revista que as pessoas olhavam e passaram a prestar atenção.

Capa de Wolverine 23 por John Byrne.

O site pergunta a Thomas sobre as notórias garras de adamantium de Wolverine, pois fora o escritor quem criou o metal fictício inquebrável, em uma história dos Vingadores, mas Thomas esclarece que as garras de Logan foram realmente trabalho de Romita e Wein. Quando criou o visual de Wolverine, Romita adicionou as chamativas garras retráveis saindo das luvas e Wein teve a ideia e fazê-las de adamantium em vez de aço ou outro metal.

Herb Trimpe não criou Wolverine, mas foi o primeiro a desenhá-lo.

[As garras de adamantium] foram totalmente uma ideia de Len [Wein]. Acho que ele menciona o adamantium bem no início daquela primeira história, não é? [The Incredible Hulk 180, de 1970]. As garras foram uma contribuição de Romita.

Thomas explica que a Marvel já tinha um metal resistente chamado Vibranium, mas ele não gostava daquela palavra, então, decidiu criar outro metal, se baseando numa palavra que aparece na tradução da tragédia grega Prometeus Acorrentado de Ésquilo, feita por Richmond Lattimore, na qual é usado o termo “adamantine”, que vem de “adamant”, que é algo muito duro. Daí, ele chegou a adamantium como o nome para o metal com o qual o vilão Ultron constrói seu segundo corpo metálico em sua segunda história contra os Vingadores.

Porém, Roy Thomas ainda teve um último envolvimento com os X-Men muitos anos depois: ele coescreveu um roteiro para um filme de cinema que nunca foi realizado. O fato é que, no início dos anos 1980, a Marvel tinha conseguido se aproximar de Hollywood e muitas de suas criações circulavam nos estúdios como possibilidades de adaptação. Hulk e Homem-Aranha haviam ganho séries de TV com grande repercussão; Capitão América e Doutor Estranho tiveram adaptações menos felizes, mas os estúdios já estavam namorando com os personagens após o megassucesso do Superman da DC Comics nas telonas.

Conan: grande sucesso nos anos 1970, com textos de Roy Thomas.

Aqui entra um parênteses importante: grande fã da literatura pulp – as revistas de contos de fantasia, crime e terror que tiveram o seu auge na era anterior ao surgimento dos super-heróis nos quadrinhos – Thomas foi o responsável por criar a adaptação em HQ de um dos maiores heróis dos pulps: Conan, o bárbaro, criado por Robert E. Howard, em 1934. Assim, Thomas e o desenhista Berry Windsor-Smith lançaram a revista Conan, the barbarian, pela Marvel em 1970, e o personagem foi um enorme sucesso. Alguns anos mais tarde, a Marvel investiu em revistas do tipo magazine, com tamanho maior, páginas em preto e branco e voltadas ao público adulto; o que rendeu The Savage Sword of Conan, que foi um verdadeiro fenômeno literário, da qual Thomas foi um dos principais criadores, ao lado de desenhistas célebres, como John Buscema e Ernie Chan.

Então, em 1980, a Orion Pictures contratou Thomas para escrever um roteiro para cinema adaptando Conan, e o escritor chamou Gerry Conway – que já tinha alguma experiência com TV – para produzir o texto com ele. Após passar pelo “filtro” de Hollywood e ser modificado, mutilado e adaptado, o roteiro chegou à telona com Conan, the Barbarian, em 1982, estrelado por Arnold Schwartznegger e foi um grande sucesso e virou uma obra cult.

Isso abriu as portas de Hollywood e a dupla Thomas e Conway recebeu outro convite da Orion para adaptar outra HQ: os X-Men e, entre 1983 e 84, escreveram o roteiro de um filme que nunca foi realizado.

[O filme] era uma história original [não uma adaptação de histórias clássicas]. As histórias de Chris [Claremont, na HQ dos X-Men] eram aquelas que nós olhamos, aqueles primeiros anos com seu material com Dave Crockum e depois John Byrne. Era o que tinha disponível na época. Eu li aqueles dois ou três anos de histórias, mais ou menos. Gerry provavelmente era mais familiar daquele material do que eu era.

Era uma história original, então, esse filme provavelmente nunca iria ser feito, mas eles tinham os direitos dos X-Men, queriam fazê-lo. Então, Gerry e eu fizemos uma sinopse que era bem próxima do que queríamos fazer. Uma trama totalmente diferente foi usada.

Thomas conta que a ideia deles era mostrar um confronto dos X-Men contra Magneto, mas o estúdio mudou a trama para um vilão de poderes mágicos e impôs a participação de uma personagem japonesa [provavelmente mirando no mercado daquele país], que não era Solaris. O roteiro foi feito, mas os escritores não sabiam que a Orion estava com problemas financeiros e o estúdio terminou por falir sem nunca realizar o filme. Os direitos de adaptação dos X-Men reverteram para a Marvel que, uma década depois, os vendeu à 20th Century Fox, que faria o aclamado desenho animado dos mutantes na década de 1990 e, mais tarde, a franquia dos cinemas que todos conhecem.

Por fim, Thomas fala da história de X-Men Legends que está lançando com a Marvel: trata-se de uma história que se passa durante os eventos de The Incredible Hulk 180 e 181, em meio ao primeiro encontro do Hulk com Wolverine, aproveitando para explicar algo que sempre intrigou os leitores: a mudança da máscara de Logan entre essa aparição e seu ingresso aos X-Men pouco tempo depois. A revista é desenhada por Dave Watcher, com editoria de Mark Basso, e a capa é de Dan Jurgens.

Os esboços originais de John Romita para o visual de Wolverine…

Do ponto de vista editorial, Thomas explica que a mudança da Marvel foi meramente uma decisão estética tomada por Gil Kane, artista que desenhou o Homem-Aranha e o Capitão Marvel e era, então, um dos principais capistas da Marvel, e ao criar a capa para estreia dos novos X-Men em Giant-Size X-Men (cuja arte interna era de Crockum), decidiu modificar a máscara de Wolverine para algo que considerou mais adequado. Len Wein – não apenas o roteirista, mas também o editor-chefe da Marvel naqueles tempos – aprovou a mudança e Crockum, que já tinha iniciado a arte da história, também gostou, refazendo a máscara de Wolverine em toda a edição para ficar igual ao que Kane criara.

Compare os visuais de John Romita e Gil Kane para Wolverine.

As pessoas sempre relembram o fato de que Gil Kane desenhou “errada” a máscara na capa de Giant-Size X-Men, mas eu acho que, na época em que ele fez isso, eles ainda estavam trabalhando na história interna. Dave Cockrum mudou a máscara porque ele gostou do que Gil tinha feito. Ele a mudou de sua versão anterior para essa outra versão e não era algo como uma coisa importante. O personagem provavelmente seria tão popular de um jeito ou de outro.

Wolverine aparece em Giant-Size X-Men já com uma nova máscara. Texto de Wein e arte de Cockrum.

Por fim, o site pergunta a Thomas o que ele ainda gostaria de escrever nos dias de hoje nos quadrinhos, e ele responde algo que já tinha dito em outras oportunidades:

O que eu realmente gostaria de mais fazer, mais do que qualquer outra coisa, seria alguém me dar os Invasores, o meu próprio cantinho da II Guerra Mundial, e me deixar ir e escrever, você sabe, 4 mil edições daquilo ou mais. Mas, sabe, eu provavelmente encontraria um jeito de colocar Wolverine naquilo também.

Os Invasores ganham suas próprias aventuras. Arte de John Romita.

Os Invasores foi uma criação retroativa de Roy Thomas durante sua passagem nos Vingadores, criando a ideia de que o Capitão América, Namor, o príncipe submarino e o Tocha Humana original tinham atuado juntos na II Guerra Mundial contra os Nazistas. O trio de personagens eram os mais populares da Marvel nos anos 1940, mas tinham histórias separadas, embora aparecessem unidos em algumas capas (mas apenas nas capas) sugerindo o conceito aos leitores. Após o fim da guerra duas histórias de 1946 mostraram realmente um grupo com esses heróis, chamados Esquadrão Vitorioso, mas eles não apareceram mais depois disso.

Thomas pegou essa ideia e a desenvolveu numa história em que os Vingadores viajam no tempo, em Avengers 70, de 1970, ao lado do desenhista Sal Buscema. A ideia dos Invasores se tornou popular entre os leitores, então, em 1976, Thomas conseguiu lançar histórias do time, ao lado do desenhista Frank Robbins, primeiro em Giant-Size Invaders, e depois, na revista mensal The Invaders, que durou 41 edições.

O grupo faz parte do cânone oficial da Marvel, mas normalmente, só aparece em flashbacks, pois existiu durante a guerra.