O tempo passa, o tempo voa… Parece que foi ontem quando o HQRock fez um post celebrando os 70 anos do ex-membro dos Beatles, Paul McCartney. E olha, cá estamos nós, 10 anos depois e comemorando os 80 anos de um dos maiores compositores da história da música.

James Paul McCartney nasceu em Liverpool, na Inglaterra, em 18 de junho de 1942, numa família da classe trabalhadora. Seu pai, James, era um músico amador e tocava em uma bandinha de Jazz, e isso influenciou o jovem a se envolver com a música desde cedo, tendo aulas de piano e ganhando um clarinete do pai aos 14 anos. Mas já influenciado pelo emergente rock and roll, voltou à loja e o trocou por um violão.

A família McCartney vivia com dificuldades, pois o pai vivia de vender algodão e a Inglaterra viveu uma crise econômica muito grave no pós-guerra. Sua mãe, Mary, também trabalhava, como enfermeira, mas terminou morrendo vítima de câncer quando o jovem Paul tinha apenas 15 anos. A morte da mãe gerou o refúgio do jovem na música e no violão, de modo que ele desenvolveu suas habilidades e começou até a compor algumas canções, a primeira dela I’ve lost my little girl, parcialmente baseada na morte da mãe, e que o músico gravaria num disco ao vivo e acústico na década de 1990.

O curioso é que, diferente de seus futuros colegas nos Beatles, McCartney não se envolveu em nenhuma experiência musical coletiva (uma banda) antes daquele grupo. Até que um dia, ele assistiu a um show que mudou sua vida…

John Lennon à frente dos Quarrymen em 1956.

Antes um parênteses: morando em Liverpool há apenas algumas centenas de metros de McCartney, existia John Lennon, dois anos mais velho. Encantado pelo rock and roll e vindo de uma família problemática (seus pais se separaram, o pai foi embora, a mãe se envolveu com outros homens, a tia o pegou para criá-lo e o afastou da mãe…), Lennon conseguiu convencer a tia a lhe comprar um violão e sua mãe o ajudou a aprender a tocá-lo, pois ela tocava banjo.

Para passar o tempo no verão de 1956, Lennon reuniu os amigos de escola e fundou uma bandinha de garagem: The Quarrymen, que tirava sarro do nome do colégio, The Quarry Bank High School. “Quarry bank” significava algo como “leito de rochas”, em referência às margens pedregosas do rio Mersey que cortava Liverpool; mas “quarrymen” significava “pedreiro”. O grupinho tocava Skiffle, que era uma versão rústica do blues rural dos EUA, e podia ser tocado com instrumentos improvisados. Lennon e outro colega tocavam violão, mas os demais membros usavam instrumentos manufaturados, como baixo com cabo de vassoura, lata de chá e cordas de piano; tábuas metálicas de lavar roupa servindo como percussão; bateria com tambores de água ou leite e coisas assim.

Mas os meninos eram empenhados e faziam um bom som, então, os Quarrymen começaram a tocar constantemente em bailes, festas e quermesses. E no verão seguinte, em junho de 1957, tocaram numa festa na Igreja de São Pedro e foram assistidos por uma grande plateia da vizinhança e o jovem Paul McCartney.

Lennon e McCartney tinham um amigo em comum, Ivan Vaughn, e este convidou Paul para conferir o grupo naquele dia. Uma banda de adolescentes tocando rock, blues e skiffle era realmente uma novidade e uma atração e tanto, e Paul foi e ficou impressionado, especialmente, com o líder da banda. No intervalo entre os dois shows do dia, Vaughn apresentou Lennon e McCartney e, apesar da diferença de idade (o que era muito naquela fase da adolescência), eles conversaram e tocaram juntos. Lennon se impressionou com a habilidade de McCartney e pelo fato dele saber todas as letras.

Lennon diria mais tarde que ficou num dilema, entre continuar sendo o líder e o homem mais forte da banda, ou trazer Paul e tornar a banda mais forte. E, claro, optou pela segunda. Duas semanas depois daquele show, McCartney encontrou Vaughn na rua e este lhe disse que Lennon o queria na banda. McCartney tinha uma viagem de férias nos dias seguintes, mas depois, se reuniu à banda e a dupla Lennon e McCartney passou a dividir o palco e os vocais das canções, com ambos tocando violão.

Muito em breve, descobriram que ambos compunham e decidiram começar a trabalhar juntos em obras originais, tendo a ideia de assinarem todas as canções que fizessem com o nome da dupla, independente se trabalhassem juntos ou não, um acordo que se manteve pelos próximos 15 anos! As primeiras composições da dupla Lennon & McCartney eram rústicas e clichês, mas os dois foram aprendendo e se refinando.

Os Quarrymen foram perdendo e ganhando membros com o passar do tempo e, em fevereiro de 1958, McCartney propôs que o grupo aceitasse um menino da mesma escola dele, George Harrison, que era bom em fazer solos, algo que nem McCartney nem Lennon eram particularmente brilhantes. Após um teste, Harrison ingressou na banda e o conjunto ganhou sua linha de frente definitiva. A banda usou outros nomes – como Johnny and the Moondogs – mas subiu um degrau rumo à profissionalização em 1959, quando finalmente completaram a migração para uma banda totalmente elétrica, armada de microfones e amplificadores. Com o ingresso do baixista Stuart Sutcliffe, colega de Lennon na Faculdade de Belas Artes de Liverpool, o grupo adotou o nome The Beatles.

Os Beatles como quinteto em Hamburgo, ainda antes da entrada do baterista Ringo Starr.

No verão de 1960, os Beatles conseguiram uma temporada se apresentando em Hamburgo na Alemanha, no que foi a etapa final dos anos formativos do grupo, que aprendeu as manhas de fazer um show, de criar arranjos, de improvisar etc. Em 1961, Sutcliffe deixou o grupo para estudar pintura em Hamburgo, e então, Paul McCartney migrou da guitarra para o baixo e os Beatles passaram a ser um quarteto. Em outubro daquele ano, conseguiram um novo empresário na figura de Brian Epstein (dono de uma cadeia de lojas de discos), que começou a negociar melhores contratos e a perseguir a gravação de um disco.

A banda no Star Club, em Hamburgo, em 1962.

Os Beatles foram rejeitados pela Decca Records no ano novo de 1962, mas após algum tempo, conseguiram um contrato com o selo Parlophone da gravadora EMI, sob a tutela do produtor George Martin. A banda escolheu a canção Love me do como seu primeiro compacto e retrabalharam o arranjo para adicionar a gaita tocada por Lennon, obrigando McCartney a ser o vocalista principal da faixa. Martin aprovou e Love me do foi lançada como single em outubro de 1962 e, surpreendentemente, chegou ao 17º lugar das paradas.

Naqueles tempos, existia muito preconceito com os habitantes do norte da Inglaterra e um conjunto de rock vindo dali fazendo sucesso em Londres era algo inusitado. O segundo compacto, Please please me, foi lançado em janeiro de 1963 e, dessa vez, chegou ao 1º lugar das paradas, dando início a uma longuíssima sequência ininterrupta de sucessos.

Lennon & McCartney revolucionaram a música na década de 1960, com a qualidade de suas composições, o espírito jovem, o gosto em inovar, a experimentação e o esmero nas gravações.

John e Paul trabalharam juntos em uma série de canções de grande sucesso, como All my loving, She loves you e I want to hold your hand. Porém, McCartney é o compositor de algumas das mais famosas e apreciadas canções populares de todos os tempos, como Yesterday, Hey Jude, Let it be, Penny Lane, além de dividir crédito com Lennon em outros grandes sucessos, Ainda assim, aquele que se dispor a investigar a obra da banda encontrará os melhores trabalhos do compositor em canções menos populares, como Blackbird, Helter skelter, The long and winding road, Your never give me your money, For no one etc.

Os Beatles produziam uma sonoridade mais comercial em seus primeiros álbuns, e começaram a flertar com a vanguarda em Rubber Soul (1965), que trouxe canções como Drive my car, You won’t seen me e Michelle (de McCartney) e Nowhere man, Nowergian wood e In my life (de Lennon), além do single com um Duplo Lado A, com We can work it out/ Day tripper. No álbum seguinte, a banda mergulhou ainda mais fundo na experimentação e rendeu o espetacular Revolver (1966), continuamente aclamado como o melhor álbum da história, com faixas como Eleanor Rigby, For no one, Here there and everywhere

Capa de Sgt. Peppers, um dos discos mais importantes da história.

E no ano seguinte, atingiram um pico de criatividade com o álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (1967), que foi precedido do single Penny Lane/ Strawberry fields forever. E de maneira incrível, os Beatles mantiveram um crescendo de qualidade a cada disco seguinte, com White Album (1968) e Abbey Road (1969), culminando com o fim da banda, motivado por diferenças pessoais e musicais entre seus membros.

McCartney lançou seu primeiro álbum solo, chamado McCartney, em 1970, onde toca todos os instrumentos, mas não foi bem recebido pela crítica, em vista de seu clima caseira e canções abordando a vida em família com a esposa Linda Eastman e seus filhos. Demorou um tempo para a crítica aceitar aquela nova faceta de McCartney e o disco seguinte Ram (1971), rendeu similar recepção. Mas querendo voltar a fazer shows em uma escala pequena, McCartney decidiu montar uma nova banda, nascendo o Wings, em 1971, formado por ele mesmo nos vocais, baixo, piano; a esposa Linda McCartney nos teclados e vocais; o guitarrista Danny Laine (da banda Moody Blues); e mais uma série de outros músicos rotativos como guitarristas e bateristas.

Paul McCartney ao vivo no Rockshow: melhor momento nos palcos.

Os primeiros trabalhos do Wings – Wild Life (1971) e Red Rose Speedway (1973) – também não foram aclamados, mas a coisa virou com Band on the Run (1973), que rendeu o público e a crítica e foi um grande sucesso. A banda continuou a lançar trabalhos irregulares, mas viveu uma fase de bastante popularidade, com uma grande turnê mundial em 1976, mas sem nunca conseguir uma formação que durasse mais de um disco.

No fim das contas, após um ponto bem baixo com Back to the Egg (1979), McCartney pensou em uma pausa e gravou outro álbum solo, McCartney II (1980), mas no fim das contas, o Wings nunca mais se reuniu.

A morte de John Lennon, assassinado por um fã com distúrbios mentais, em dezembro de 1980, foi um golpe duro para McCartney, que passou a maior parte dos anos 1980 como um músico mais recluso, abandonando as turnês e fazendo apenas alguns shows especiais, ainda que tenha lançado vários discos, como Tug of War (1981) e Pipes of Peace (1982). Mas aquela foi uma década difícil para o músico em termos criativos. Ele voltou a acertar a mão em Flowers on the Dirt (1989), fazendo parceria com Elvis Costelo, e tendo uma recepção calorosa do disco, o que lhe motivou a retomar às grandes turnês.

Isso lhe valeu uma década de 1990 cheia de turnês, alguns sucessos, e bastante popularidade, e alguns discos marcantes, como Off the Ground (1993) e Flaming Pie (1998), este último gravado pouco antes da morte de Linda McCartney, vítima de um câncer.

Dali em diante, McCartney passou a ser muito mais amparado em seu repertório e trajetória do que realmente dos trabalhos que continuou lançando, ainda que ganhasse elogios vez por outra em álbuns como Driving Rain (2001), Chaos and Creation in the Backyard (2005), Memory Almost Full (2007) e New (2013).

Seu status de celebridade e o legado de ser um dos maiores compositores da história da música têm, garantido que seus trabalhos mais recentes tenham sido mais elogiados do que a média e recebidos com mais aclamação e sucesso, com Egypt Station (2018) e McCartney III (2020). Este último fez tanto sucesso que ganhou uma tipo de “sequência” com McCartney III Imagined na qual as faixas são regravadas ou remixadas por outros nomes da música.

Na verdade, não importa o que McCartney produza daqui para frente: seu legado é imortal e será difícil que outro músico iguale uma obra que produziu a metade da parceria Lennon & McCartney e seus clássicos memoráveis, e que, ainda que sua carreira solo seja (muito) menor do que a obra do conjunto, também tenha rendido alguns clássicos e sucessos que foram o suficiente para mantê-lo com uma carreira ativa e relevante à indústria musical e sua história.