Os leitores de língua inglesa que desejam conhecer ou saborear os grandes clássicos da literatura internacional têm um depositário certo: a coleção da Editora Penguin, dos Estados Unidos, que com seu icônico design de logo com cor laranja, títulos na cor branca e faixa preta embaixo são lugar certo para aquilo de melhor do que a humanidade produziu nas letras.

E eis que a célebre coleção ganha, pela primeira vez, a adesão das histórias em quadrinhos, trazendo nada menos do que três volumes dedicados aos personagens da Marvel Comics: Homem-Aranha, Pantera Negra e Capitão América.

O Pantera Negra: primeiro super-herói negro dos quadrinhos, criado por Kirby e Stan Lee.

A Penguin Classic traz publicação de obras como A Ilíada, A Odisseia, Dom Quixote, Moby Dick, As Aventuras de Huckleberry Flint… E agora o trio de personagens da Marvel.

A inclusão dos super-heróis coloridos no rol das obras mais importantes da humanidade não é pouca coisa e é uma ação completamente justa e cabível, defende Elda Rotor, vice-presidente e publisher da linha de clássicos da Penguin:

Para mim, a ideia do que é a Penguin Classic é: um engajamento responsável com o passado. Quer você esteja observando um trabalho pelas lentes da história e discutindo seu impacto e sua relevância agora.

Foi a própria Rotor quem se reuniu com o diretor de licenciamento da Marvel, Sven Larsen, para discutir outras pautas quando a ideia da Penguin publicar os quadrinhos da editora, algo surpreendente, já que a Penguin nunca publicou material ilustrado antes na coleção de clássicos.

Ela acrescenta:

Eu comecei imediatamente a ver como esses quadrinhos ficariam se você o colocasse entre nossas capas e dentro da listra preta de nossas edições. Não foi preciso muito pra me convencer (…) Já são parte da história das narrativas literárias norteamericanas. Já são considerados clássicos em suas comunidades.

O editor Ben Saunders também acrescentou:

Nós agora consideramos isso como a mais importante cultura popular dos últimos 100 anos. Então, é hora de começar a pensar nessas coisas não somente como algo que se coleciona de forma única, mas como arte.

Saunders é um professor de inglês na Universidade do Oregon e é um especialista na abordagem acadêmica sobre as HQs, e que discute o Capitão América em suas aulas há bastante tempo, analisando como ele mudou de uma peça de propaganda ideológica de guerra nos anos 1940 para um personagem que questionava as rápidas mudanças no mundo ao seu redor (quando revitalizado por Stan Lee e Jack Kirby na década de 1960) e como um questionador da ordem instituída e de seus valores deturpados nos dias de hoje (a partir de leituras de autores como Mark Gruenwald, Mark Millar ou Ed Brubaker).

Não há toa, o Capitão América é um dos escolhidos para compor a coleção de Clássicos Penguin da Marvel. A escolha das duas editoras foi de uma abordagem calcada nos aspectos mais importantes dos personagens e não em termos estritamente cronológicos, como é o mais comum nas coleções (encadernados) das HQs. Assim, o volume do sentinela da liberdade reúne três períodos de tempo: começa com as histórias de Joe Simon e Jack Kirby publicadas em Captain America Comics 01, de 1941, na qual o herói vai à Alemanha e dá um soco na cara de Adolf Hitler; segue a empreitada de 1953, na qual Stan Lee e John Romita tentam trazer o personagem de volta às bancas após quatro anos sem ser publicado, lhe dando uma nova roupagem mais de acordo com aqueles tempos, com Steve Rogers apelidado de “esmagador de comunas” e lutando contra espiões soviéticos no clima da Guerra Fria; e termina com um punhado de histórias dos anos 1960, com Stan Lee e Jack Kirby unindo forças para mostrar o Capitão como um homem “fora do tempo”, traumatizado pelos eventos da II Guerra e resgatado pelos Vingadores após ter passado décadas congelado no gelo, tendo que viver num mundo completamente diferente daquele que conhecia, mais as tramas de Lee e Jim Steranko, no qual o herói luta contra a organização terrorista HIDRA e o desenhista impõe um clima de art pop e psicodelismo à retratação.

O Caveira Vermelha versus Capitão América na arte de Jack Kirby.

O Capitão América é o volume mais diversificado dos três, pois os demais estão mais calcados em obras contínuas de artistas, ainda que não de maneira protocolar, novamente dando prioridade ao desenvolvimento dos personagens em vez de sequências contínuas de histórias.

O volume do Pantera Negra mostra a introdução do personagem como o rei da nação africana de Wakanda por Stan Lee e Jack Kirby nas histórias do Quarteto Fantástico nos anos 1960, e pula para a década de 1970 com as tramas escritas por Don McGregor e com arte de Rick Buckler e Billy Graham, com tons políticos e explorando as origens e o mundo no qual T’Challa habita.

O mais conciso em termos de storytelling dos três é o volume do Homem-Aranha, que traz enxertos da longa fase de Stan Lee e Steve Ditko com o personagem, passando por sua criação e pelo desenvolvimento de Peter Parker e seu mundo dramático pintado em cores mais realistas do que normalmente se admite.

Dessa forma, a Marvel, seus personagens e seus criadores são incluídos de forma estrelar no panteão da grande literatura mundial e irão dividir as prateleiras com o que de melhor a literatura mundial produziu, de Homero, Ovídio, Virgílio, Cervantes, Shakespeare e outros.