Mais um livro bombástico para causar algum furor no mundo dos quadrinhos. O escritor Chaz Gower acabou de publicar de modo independente Ditko & Romita vs Lee: The Origins of the Amazing Spider-Man, obra dedicada a investigar a criação do escalador de paredes mais amado das HQs (e das telas!) contrapondo a versão oficial do escritor (e editor) Stan Lee como o criador de Peter Parker em favor de seus colaboradores, os desenhistas Steve Ditko, primeiro, e John Romita, depois.

A história “oficial” é que Stan Lee criou o Homem-Aranha ao lado do desenhista Steve Ditko, com o personagem estreando na revista Amazing Fantasy 15, de agosto de 1962, e ganhando sua revista própria, Amazing Spider-Man, a partir de março de 1963. Lee e Ditko criaram as 38 primeiras edições da publicação até meados de 1966, quando Ditko deixou a Marvel e foi substituído por John Romita, que vivenciou uma fase ainda mais popular do cabeça de teia e, com alguns pequenos intervalos, permaneceu como desenhista até o número 124, de 1973. Lee escreveu as primeiras 100 edições da revista e retornou brevemente nos números 106 a 110, passando o bastão para escritores mais jovens. A revista continua a ser publicada mensalmente até os dias de hoje.

Stan Lee ganha sua marca na Calçada da Fama, em 2017.

A obra vem na esteira de outras que visam esclarecer o papel de Lee na criação dos personagens que lhe fizeram famoso, diminuindo seu espaço e reconhecendo mais o crédito de seus colaboradores, como os citados e outros, como Jack Kirby, Gene Colan e seu irmão, Larry Lieber. Hábil comunicador e carismático, desde os anos 1960, Lee soube capitanear sua fama sobre os personagens dramáticos e icônicos que criou e galgou uma popularidade ímpar entre criadores da “nona arte”, mais ainda quando, já no século XXI, seus personagens causaram sensação no cinema de massa pelo mundo e, como um tipo de cortesia, lhe foi dado o papel de aparecer em rápidas participações especiais engraçadinhas (cameos) em quase todos eles. O escritor e editor, contudo, faleceu em 2018, e desde então, se lançou um olhar mais crítico sobre seu papel na criação (e desenvolvimento) daqueles personagens, com obras polêmicas, como o duro e realista Exselcior (Traduzido como Invencível: A Ascensão e Queda de Stan Lee) de Abraham Riesman, fazendo contraponto à biografia oficial (e festiva) escrita pelo ex-editor assistente da Marvel, Danny Fingeroth, A Espetacular Vida de Stan Lee.

O próprio Gower já havia lançado, em 2024, o mais abrangente Stan Lee Lied: Your Handy Guide to Every Lie in The Origins of Marvel Comics. A tradução não deixa dúvida do conteúdo: “Stan Lee mentiu: o seu guia de mão para cada mentira em As Origens da Marvel Comics”. O livro se dedicava a contrastar as declarações de Lee no famoso livro As Origens da Marvel Comics, de 1974, na qual o próprio ex-editor narra em primeira pessoa a criação desses super-heróis colocando, sempre, a si mesmo no papel de protagonista. Essa narrativa jamais se sustentou e o passar dos anos, com mais informação circulando na medida em que os personagens Marvel se tornavam mais populares, começou a ser aliviada, ao ponto da própria editora colocar uma pequena (mas simbolicamente importante) mudança na capa do livro: as primeiras edições mostravam as mãos (pretensamente de Lee) sobre uma máquina de escrever da qual saltavam os heróis Marvel, mas as versões mais atuais, adicionaram à mesma imagem as mãos de desenhistas desenhando tais personagens, como um lembrete de que Lee não fez nada sozinho.

O novo Ditko & Romita vs Lee promete repetir o livro anterior de Gower, mas agora, focado exclusivamente no mundo do Homem-Aranha, ainda o mais popular dos personagens aos quais Lee esteve envolvido na criação, prometendo dar mais crédito às participações de Ditko e Romita e usar declarações dos próprios artistas e de outras “testemunhas” que estiveram presentes naqueles tempos áureos.

O HQRock tem sua própria versão de como Lee, Ditko, Romita (e Jack Kirby!) estiveram envolvidos na criação do Homem-Aranha, em nosso fantástico Dossiê Especial com a Trajetória do Homem-Aranha nos Quadrinhos, em 3 Partes. Não viu ainda? Corre lá!

(Se já viu, corre lá de novo, pois o Dossiê foi inteiramente atualizado no ano passado e está ainda mais incrível e detalhado!)

Se você está chegando agora e não entende a polêmica em torno de Lee e suas criações, ou não sabe tanto sobre o tema, aqui vai um resumo: Stan Lee começou a trabalhar na Marvel Comics em 1939 quando ele tinha apenas 17 anos de idade como um tipo de “faz-tudo”, mas ele gostava de escrever, e logo, logo, começou a fazer textos, redigir histórias e criar super-heróis, e quando o editor-chefe Joe Simon foi demitido, em 1941, o publisher Martin Goodman colocou Lee naquele cargo, mesmo tendo apenas 19 anos. Ainda assim, exceto o curto período em que serviu no Exército durante a II Guerra Mundial, Lee permaneceu como editor-chefe da Marvel por 30 anos, até 1972! Na maior parte do tempo, Lee comandou uma empresa pequena e sem expressão, que viveu uma grande crise nos anos 1950, mas tudo mudou a partir de 1961, com o lançamento do Quarteto Fantástico, que se tornou um fenômeno de vendas e foi a porta de entrada para uma série de novos personagens, como Hulk, Thor, Homem-Formiga, Homem-Aranha, Homem de Ferro, Doutor Estranho, Vingadores, X-Men, Demolidor, Pantera Negra, Surfista Prateado… O Universo Marvel!

Até os anos 1960, o grande referencial de super-heróis nos quadrinhos era a DC Comics com seus Superman, Batman, Mulher-Maravilha etc., porém, os novos personagens de Stan Lee eram dramáticos, humanos, cheios de conflitos internos, lutando contra inimigos que tinham motivações plausíveis e suas próprias histórias de dor, habitando um mundo conectado ao real, com implicações políticas e econômicas. O Universo Marvel causou sensação e foi abraçado pelos intelectuais, com discussões nas universidades americanas e na imprensa séria. E com sua lábia, sorriso e carisma, Stan Lee foi o grande porta-voz desse movimento, se tornando uma figura fácil nos jornais e na TV, dando ciclos de palestras por todo o país.

E qual é o grande porém? A questão é que Lee era algo egocêntrico ou autocentrado e, ainda que não deixasse de mencionar (e a palavra mencionar é importante nesse contexto) seus colaboradores, Lee sempre se colocava num papel central na criação e no desenvolvimento desses personagens, mesmo que sob uma capa de (falsa?) modéstia. E na medida em que ele foi se tornando mais famoso – e já desde os anos 1960 – isso começou a incomodar seus parceiros e colaboradores, que sabiam que apenas parte da história estava sendo contada. Nomes como Jack Kirby e Steve Ditko famosamente reclamaram de não receber os créditos devidos por suas cocriações (e isso tinha implicações comerciais, nos pagamentos de royalties, nos contratos etc.) e outros colaboradores, como John Romita ou Gene Colan foram mais discretos ou não reclamaram. Um terceiro grupo é formado por artistas que trabalharam apenas eventualmente com Lee, como Wally Wood, Joe Orlando ou Neal Adams, que o fizeram justamente porque não concordavam com sua “ética” de trabalho e caíram fora.

… o Stan Lee superstar de 1968.

E o que houve? O fato é que, no começo dos anos 1960, vindo de uma crise devastadora na década anterior, a Marvel era uma empresa pequena, com um pequenino corpo de funcionários e delegando sua criação a artistas terceirizados, os chamados free-lancers, pessoas que estabeleciam uma relação de trabalho por entrega: a editora lhe demanda 10 páginas, você entrega e é pago pelas 10 páginas. Pronto. Numa editora tradicional, são contratados escritores e desenhistas para desenvolver as HQs, supervisionados por um editor-chefe, que tem o papel de induzir temas ou premissas, de sugerir personagens, de dar o tom ou a tônica das histórias, de supervisionar o trabalho (e solicitar revisões quando necessário), aprovar tudo e encaminhar para a publicação. Mas numa empresa semifalida como era a Marvel de então, eram necessárias adaptações: como Lee era editor-chefe, mas também um escritor, o dono da Marvel, Martin Goodman fez uma proposta de Lee escrever as histórias fora do expediente. Assim, no horário comercial ele era o editor e, à noite e nos fins de semana, escrevia as HQs para que desenhistas fizessem sua arte.

O grande diferencial de Lee e o motivo de toda a polêmica é que, mesmo para uma empresa pequena, publicando 16 revistas bimestrais em 1961, o volume de material a ser produzido é grande demais para uma única pessoa dar conta de tudo. E para manter o seu pagamento duplo como editor e escritor intacto, Lee foi muito esperto e criou o que ele batizou de Método Marvel: em vez de escrever um roteiro completo, descrevendo as cenas e os diálogos (como normalmente se faz), Lee criava apenas uma premissa básica, geralmente, algo entre dois parágrafos ou duas páginas datilografadas com o que a história seria, e passava isso ao desenhista. Desse modo, artistas competentes e muito hábeis em narrativa visual, como Jack Kirby, Steve Ditko, Don Heck e outros, criavam a história a partir de desenhos e quadros, muitas vezes, adicionando detalhes narrativos, viradas de trama e, obviamente, os personagens envolvidos, passando de volta para Lee, que somente então, escrevia os diálogos e os quadros de narração (chamados de recordatórios nas HQs). Como também era o editor, vez por outra, Lee demandava correções aos desenhistas, que tinham que refazer parte da história ou da arte.

Stan Lee e John Romita, seu grande parceiro no Homem-Aranha, em foto do fim dos anos 1970.

Enquanto poupava tempo e favorecia a cooperação de artistas talentosos, o Método Marvel implicava – num sentido lógico e ético – que o desenhista era, realmente, cocriador da história. Ele não se limitava a transformar em desenho as descrições verbais do roteiro (como é comum em HQs), mas ao contrário, lhe cabia efetivamente criar a história a partir de uma mera premissa muito breve. Ou seja, neste caso, o desenhista é também corroteirista da história. Mas ao mesmo tempo em que a Marvel inovou em dar crédito aos artistas – ao passo que as demais editoras, inclusive, a DC, omitiam os créditos, deixando as HQs anônimas -, também acontecia que Lee dava a si mesmo o crédito solo de “roteirista” e ao parceiro de “desenhista”. Dessa forma, isso implicava que Lee havia criado a história. E os personagens. E cabia ao artista, no máximo, a criação visual. Somadas as declarações autocentradas de Lee, isso foi criando a impressão, especialmente à imprensa e ao grande público, de que Lee era o principal criador dessas HQs, ou mesmo, o único criador, deixando o desenhista em um segundo plano.

E para piorar, com o passar do tempo, a Marvel foi fazendo mais sucesso e rapidamente deixou de ser uma empresa pequena, e ao mesmo tempo em que o Método Marvel continuava a ser usado, Lee ia ficando cada vez mais ocupado nas atividades da redação (como editor-chefe de uma empresa em ebulição) e em suas atividades de “divulgação”, que incluíam entrevistas à imprensa, palestras em universidades e negociações de direitos de adaptação à TV ou desenhos animados ou brinquedos. Por causa disso, colaboradores ativos e criativos como Jack Kirby, Steve Ditko, John Romita, Gene Colan e outros começaram a se acostumar a não precisar mais de premissas, mas desenvolver eles mesmos as histórias a partir do zero, com Lee apenas supervisionando (como editor) e criando diálogos e narração às tramas que eram, efetivamente, criadas pelos desenhistas, fazendo com que Lee fosse um “parceiro menor” no processo.

Ditko, Lieber, Rico, Heck e Colan (com o advogado Marc Toberoff em cores).

Esse arranjo coloca a criação de Lee versus colaboradores num patamar que vai de 40×60 ou mesmo 30×70, mesmo que Lee levasse a maior parte dos créditos ou os créditos totais. Ele foi chamado de gênio! Ele ganhou uma fortuna! Ele virou uma celebridade! Mas o mesmo não aconteceu com Kirby, Ditko, Romita, Colan, os irmãos John e Sal Buscema, Don Rico, Don Heck e o irmão e colaborador frequente de Lee, Larry Lieber.

Ainda nos anos 1960, essa tensão criativa levou a rupturas ruidosas de Lee com Ditko (em 1966) e Kirby (em 1970), mas em anos mais recentes, isso virou processos judiciais bilionários desses cocriadores (ou seus herdeiros) lutando na Justiça por mais reconhecimento e pelos dividendos devidos, ainda mais quando aqueles personagens e histórias se transformam em franquias bilionárias do cinema, da TV, dos games etc.

Ninguém duvida da criatividade e inventividade de Stan Lee. Ele foi um grande editor e um hábil comunicador que soube capitalizar em cima da qualidade das HQs e de sua promoção ao grande público. Mas era necessário dividir seus créditos com aqueles outros artistas que, mais do que “apenas” desenhar os personagens, efetivamente, criaram personagens, tramas, histórias, conceitos e visuais que tornaram o Universo Marvel num dos produtos mais quentes da cultura pop de fins do século XX e dos dias de hoje.

Lee morreu famoso, rico e aclamado aos 95 anos de idade em 2018 após alguns anos de saúde debilitada.

Alguns de seus “colaboradores”, como Kirby, Ditko, Heck e outros, tiveram dificuldades financeiras no fim da vida e morreram, todos sem exceção, longe dos holofotes, da glória ou do reconhecimento.

Ditko & Romita vs Lee: The Origins of the Amazing Spider-Man, de Chaz Gower, tem 430 páginas, é publicado de modo independente e já está disponível à venda pela Amazon em língua inglesa. Não há previsão de sua publicação em português.