A coluna “Disco Clássico” (não necessariamente óbvio) se dá ao trabalho de desenterrar álbuns (sabe, aquele conjunto de canções reunidas em um meio físico, como LP de vinil, fita K7 ou mesmo CD que anda tão fora de moda?) na perspectiva de apresentar trabalhos interessantes que possam ser ouvidos nos dias de hoje não importe por qual meio, mesmo como canções dispersas na opção aleatória dos MP3 Players.

Cover
"The Low Spark of High Heeled Boys", de 1971: sonoridade maravilhosa.

Disco de Hoje: THE LOW SPARK OF HIGH HEELED BOYS

Artista: Traffic – banda britânica.

Quando: 1971.

Os anos 1970 são cheios de surpresas maravilhosas. Embora parte do ímpeto da década anterior tenha se perdido, aqueles anos somaram algo do espírito anterior a elementos fundamentais, como artistas atingido o áuge da maturidade e melhor tecnologia para registrar as gravações sonoras.

Uma dessas jóias escondidas é o Traffic, uma banda britânica de algo que poderíamos chamar de rock psicodélico ou rock progressivo de influências folk e jazz. Embora estivessem na ativa já há alguns anos, seu álbum de 1971 foi seu melhor momento: uma sonoridade maravilhosa, cheia de detalhes tocados por instrumentistas do mais alto calibre e uma grande, grande voz!

Steve Winwood
Steve Winwood: o menino prodígio do rock britânico dos anos 1960.

O Traffic havia surgido em 1967, em pleno auge do rock psicodélico. O cantor e tecladista Steve Winwood só tinha 17 anos (!) e já era uma estrela há tempos. Houvera estreado dois anos antes na banda de r&b The Spencer Davis Group e já fazia sucesso. Porém, naquele ano, esta banda estourou de vez nas paradas com o megahit Gimme some lovin’ e a grande exposição, aparentemente, trouxe problemas.

De concreto, Winwood abandonou aquele grupo e formou o Traffic com outros colegas: David Mason na guitarra, Chris Wood no sax e flauta e Jim Capaldi na bateria. A banda trabalhou rápido e já no Verão do Amor lançou seu primeiro hit: Paper sun, seguido de vários outros. No entanto, como muita coisa boa dos anos 1960, a trajetória inicial do Traffic foi meteórica. Enquanto Feelin’ alright explodia nas rádios, em 1968, o grupo já se desfazia, aparentemente pela briga de egos.

Winwood não perdeu tempo. Uniu forças ao guitarrista Eric Clapton e fundaram o Blind Faith, banda que lançou um único álbum, em 1969, e fez um sucesso enorme.

O cantor e tecladista – no auge de seus 19 anos e já tendo passado por três bandas de sucesso internacional – decidiu lançar-se em carreira solo. Mas não deu certo. Ao reunir os ex-colegas de Traffic, Wood e Capaldi, resultou que a banda voltou à ativa e lançou um novo disco em 1970 que, não somente foi sucesso, mas o maior sucesso do grupo até então.

A demanda de shows exigiu uma ampliação do line-up da banda e o trio original reuniu músicos tarimbados para acompanhá-los, o que resultou em um registro ao vivo muito apreciado. Testada e aprovada no palco, a nova formação correu ao estúdio e registrou seu álbum de 1971: The Low Spark of High Heeled Boys.

Traffic 1971
A banda que gravou o álbum: Wood, Grech, Gordon, Baah, Capaldi e Winwood.

A banda era: Steve Winwood (vocais, teclados, piano, guitarra); Chris Wood (flauta, saxofone, gaita, teclados); Jim Capaldi (teclados, percussão, vocais); e os “novatos” Ric Grech (ex-Blind Faith, baixo); Jim Gordon (ex-Derek and the Dominos, bateria); Rebop Kwaku Baah (percussão). A produção coube ao próprio Winwood.

O grande destaque do disco é a faixa-título, com 11 minutos e meio de duração (e puro deleite). Um riff básico tocado ao piano e baixo; um saxofone distorcido para soar como uma guitarra; e uma bateria maravilhosa (uma aula) de Jim Gordon, cheia de viradas espetaculares, que conferem à canção uma expressão única. A melodia é muito bonita, o que com certeza a ajudou a ser um hit radiofônico na época, embora não tenha sido lançada em compacto.

Outras faixas que merecem atenção são a bela Many miles to freedom e Rock & roll stew, este o compacto do disco.

Curiosamente, o álbum não entrou nas paradas britânicas, mas nos Estados Unidos, chegou ao 7º lugar e vendeu mais de um milhão de cópias.

A atmosfera de jazz rock permeia todo o álbum, trazendo canções não pesadas, mas fortes, com arranjos muito interessantes de piano, sax e bateria, mas nunca de modo cansativo – como é comum em discos taxados de “progressivos”. Aqui, a música nunca é excessiva. Mesmo a faixa-título, com o seu tamanho, passa o tempo despercebido ante o interesse da melodia e do arranjo.

Uma boa pedida para o fim de tarde.

Depois:

Este foi o único álbum de estúdio do Traffic com esta formação. Depois, várias mudanças ocorreram seguidamente e o grupo se separou em 1975.

Winwood e Clapton
Winwood e Clapton: retomada com sucesso de uma velha parceria.

Jim Gordon, considerado um dos maiores bateristas de todos os tempos, foi preso em 1981 por matar a própria mãe.

Chris Wood morreu vítima de complicações pelo alcoolismo em 1983.

Jim Capaldi se lançou em carreira solo nos anos 1970 e casou com uma brasileira. Por isso, conheceu o trabalho da banda carioca Los Hermanos e gravou uma versão em inglês do hit Anna Júlia, em 2001, que contou, inclusive, com a participação do ex-beatle George Harrison na guitarra. Capaldi morreu em 2005, aos 60 anos.

Steve Winwood também fez carreira solo desde então, alçando grande sucesso nos anos 1980. Recentemente, ele retomou a parceria com Eric Clapton e os dois promovem uma turnê anual nos EUA e Inglaterra que resultou em um CD/DVD fantástico.