É interessante como o mercado fonográfico se apresenta nos dias de hoje. Nos últimos dias, algumas das maiores manchetes de novos lançamentos – pelo menos de rock – dizem respeito a retrospectos de artistas do chamado rock clássico, ou seja, aquele que se produziu entre os anos 1960 e 1970.

Os Beach Boys em 1967, na época das gravações de “Smile”.

O HQRock já comentou o Box Set dos Rolling Stones e a edição de 40 anos do álbum Layla de Eric Clapton. Em 2010, houve o lançamento da Box Signature de John Lennon (com seus oito álbuns de estúdio).

Agora, é a vez dos Beach Boys. A gravadora norteamericana Capitol Records anunciou que vai lançar um álbum chamado The Smile Sessions, reunindo, pela primeira vez, as gravações para o inacabado disco Smile de 1967.

A história desse álbum é um ponto nodal na história da banda.

Capa do álbum “Smile”: o álbum que poderia ter sido e não foi…

Beach Boys eram os irmãos Wilson Brian no baixo e teclados, Carl na guitarra e Dennis na bateria – o primo Mike Love (vocais principais) e o amigo Al Jardini (guitarra). E todos cantavam! Cantavam bem, talvez os melhores vocais cristalinos de todo o rock. Beatles? Byrds? Crosby, Stills, Nash & Young? Não, ninguém fazia como eles. O patriarca Murrey Wilson era compositor em Hollywood e bancou a aventura dos filhos, tornando-se seu empresário.

Assinando com a Capitol, a banda teve sua estréia fonográfica em 1961 e, apesar de se tornarem populares na Califórnia e Costa Oeste, o reconhecimento nacional só veio em 1964, depois que o sucesso dos Beatles nos Estados Unidos trouxe o rock de volta às paradas. Era a chamada Invasão Britânica que rendeu a Reação Americana, da qual Beach Boys e The Byrds foram as principais bandas iniciais.

Os Beach Boys com seu visual “clássico”, em 1964: canções sobre praias, garotas, carros e surfe.

Entre 1964 e 1965, os Beach Boys viraram um fenômeno mundial, com uma lista extensa de hits em vários países, como Surfin’ in USA, I get around, California Girls, Do you wanna dance?, Barbara Ann etc. A pressão do sucesso fez com que o líder Brian Wilson deixasse de se apresentar com o grupo e passasse a trabalhar exclusivamente como compositor e produtor das gravações da banda. Nos palcos, foi substituído por Bruce Johnson e os Beach Boys tecnicamente viraram um sexteto.

Na virada de 1965 para 1966 o rock entrou em uma nova “onda”: o psicodelismo. Como resultado, o gênero começou a ficar mais “maduro” tratando de temas mais sérios nas letras e investindo na tecnologia das gravações, com efeitos sonoros e instrumentos exóticos. Os Beatles – o maiores rivais do grupo em termos de vendagem de discos – foram líderes nesse movimento, em obras como o álbum Rubber Soul.

A banda como sexteto em 1966: período de maior sucesso e maior qualidade artística.

Brian Wilson sentiu que o esquema “mulheres, surfe, praias e carros” dos Beach Boys começaria a perder espaço rapidamente (e estava certo), por isso, se dedicou a produzir uma obra que fosse mais inovadora, o que resultou no aclamado álbum Pet Sounds: a melodia implacável da banda encontrou temas mais sérios e rendeu clássicos absolutos da música, como God only knows e Wouldn’t it be nice?. Pouco depois, lançaram o seu maior sucesso, o single Good vibrations, uma impressionante canção dividida em partes diferentes e cheia de recursos sonoros inovadores como o theremin (instrumento que cria som a partir de energia estática) e baixo e pandeiros com sons saturados.

Capa de “Pet Sounds”, de 1966: ápice da carreira dos Beach Boys e um dos maiores álbuns de rock de todos os tempos.

Pouco depois de Pet Sounds e Good vibrations, os Beatles lançaram o álbum Revolver, considerado um dos mais inovadores de todos os tempos. Brian Wilson sentiu o golpe e se cercou de “armas” para produzir um álbum ainda melhor. Meio obcecado e abusando de drogas pesadas, o compositor se trancou no estúdio por meses a fio.

O nome do projeto era Smile e seria ainda mais ambicioso, definido por Brian e o letrista Van Dyke Parks como “uma sinfonia adolescente para Deus”. Entretanto, sua condição mental, devido aos abusos, não estava favorável e as gravações se tornaram muito estressantes.

Capa de “Smile” de 2004, a versão solo de Brian Wilson para o projeto.

Para piorar, antes que o projeto fosse concluído, os Beatles lançaram o álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, sua obra mais importante e um enorme fenômeno cultural, em junho de 1967. Brian Wilson achou que não conseguiria superar aquele disco e desistiu de tudo. O projeto nunca foi concluído: o compositor se afastou da banda e entrou em um período de grande depressão e ostracismo do qual nunca se recuperou totalmente. Os Beach Boys restantes seguiram em frente, liderados por Carl Wilson e Mike Love, continuaram produzindo, pegando “sobras” do projeto e lançando o álbum Smiley, Smile ainda naquele ano.

Os Beach Boys deixaram de fazer sucesso quase que imediatamente e passaram a produzir uma obra menos popular, embora ainda tivesse suas qualidades, em discos como Sunflower e Surf Up de 1969 e 1970, respectivamente. Composições antigas de Brian Wilson continuaram a ser usadas e o músico até participava ocasionalmente de gravações. Ele retornou à ativa totalmente em 1976, quando a banda lançou um disco de covers de relativo sucesso e fez uma grande turnê nacional, mas nunca mais voltou a ser o gênio criativo de dez anos antes.

Brian Wilson nos dias de hoje: apesar da saúde debilitada, o compositor continua apresentando seus velhos sucessos em turnês ocasionais.

Os Beach Boys conseguiram continuar fazendo shows com boa freqüência, embora não estivessem mais nas paradas de sucesso. Os anos 1980 foram de excessos e, embora tenham conseguido o seu último hit em 1989 com Kokomo da trilha sonora do filme Cocktail, Dennis Wilson morreu afogado em 1983 e Carl Wilson morreu de câncer em 1998. Mike Love continuou usando o nome da banda (mesmo sem os outros membros) e Brian Wilson abraçou uma carreira solo.

Em 2004, Wilson inclusive lançou a “sua” versão de Smile com músicos atuais, o que gerou bastante publicidade na mídia internacional e o levou a excursionar tocando os velhos sucessos.

Agora, a gravadora Capitol reunirá as gravações originais. Será um boa oportunidade para avaliar qual das duas versões é melhor: a inacabada dos anos 1960 ou a regravação finalizada nos anos 2000. O que você acha?