Superman-II-The-Richard-Donner-Cut
"Superman II: The Richard Donner's Cut": uma versão melhor do velho clássico do homem de aço, lançado originalmente em 1980.

No embalo do lançamento de Superman – O Retorno, em 2006, a Warner e a DC Comics decidiram lançar um Box Set em DVD com todos os filmes do homem de aço. No pacote de luxo, com 14 discos, foi incluído um item que deixou os fãs extremamente empolgados: a versão de diretor do segundo filme da franquia, chamado agora de Superman II: The Richard Donner’s Cut.

Com a ampliação do mercado de home-video nos anos 1990, surgiu a tendência de lançar versões diferenciadas de filmes famosos. Chamadas de “versão do diretor” (director’s cut) estes novos filmes consistiam em versões estendidas, com montagens diferenciadas, finais alternativos etc. Eram a “visão original do diretor na época em que fez o filme” e que não se concretizaram no final por motivos diversos, geralmente de ordem comercial e/ou de interferência do estúdio. São exemplares os casos de Blade Runner, de Ridley Scott, cuja revelação de um detalhe no final, muda o sentido de todo o filme; e Apocalipse Now – Redux que acrescenta quase uma hora a mais ao já quilométrico filme de guerra e loucura de Francis Ford Copolla.

Christopher Reeve
As duas personas de Christopher Reeve: Clark Kent e Superman, nos filmes dos anos 1970 e 80.

O caso de Superman II, entretanto, é ímpar. Primeiro, porque o original não é dirigido por Richard Donner, e sim, por Richard Lester. Como assim? Richard Donner não terminou o filme e foi substituído. Vamos explicar…

A produção dos primeiros filmes de Superman foi uma longa e complicada odisséia. A Warner comprou a DC Comics em 1969 e, desde então, negociava adaptar o homem de aço ao cinema em uma superprodução. Mas queriam fazer um filme sério e não uma matinê descartável. Para isso, contrataram uma equipe que pudesse fazê-lo. Uma equipe inusitada.

Para o roteiro, chamaram o ítaloamericano Mario Puzzo, autor do livro O Poderoso Chefão, e também roteirista de suas adaptações ao cinema. Puzzo entregou um roteiro épico e longo que deu a ideia ao estúdio de filmar não um, mas dois filmes, e lançá-los separadamente num intervalo de dois anos.

Jor-El e os prisioneiros kryptonianos liderados por Zod: trama do vilão e sua relação com o pai do Superman tem mais sentido na nova versão.

A busca de respeitabilidade continuou com a escolha do diretor Richard Donner (de A Profecia) e o convite a atores famosos e reconhecidos para os papéis coadjuvantes, como Marlon Brandon (Jor-El), Glen Ford (Jonathan Kent), Gene Hackman (Lex Luthor) e Terence Stamp (General Zod).

A produção começou em 1975, mas as fimagens demoraram um ano para iniciar, pois havia a dificuldade em criar uma tecnologia que pudesse fazer um homem voar nas telas de modo convincente. As gravações não foram tranquilas, com muitos conflitos criativos entre os produtores Alexander Salkind, seu filho Ilya e o diretor Donner. Além disso, gravar as cenas de Superman I e II ao mesmo tempo era confuso e trabalhoso.

Como resultado, Donner e o elenco ainda estavam filmando há apenas poucas semanas da estreia e tinham estourado o orçamento. Assim, em determinado ponto, decidiu-se por abandonar as filmagens de Superman II e concentrar-se apenas no primeiro.

Foi feito e Superman – O Filme lançado em 1978 (ano em que o herói fez 30 anos de vida), sendo um sucesso estrondoso de bilheteria e até ganhou um Oscar especial no ano seguinte por causa de seus efeitos especiais inovadores (Não existia a categoria de Melhores Efeitos Visuais, que seria criada depois disso). Mas os produtores decidiram demitir Donner da produção e colocaram o britânico Richard Lester como diretor da continuação.

Lester vinha das comédias, tinha feito os filmes dos Beatles (A Hard Day’s Night e Help!) e nos anos 1970 havia dirigido uma famosa série de filmes sobre os Três Mosqueteiros. Em Superman, aproveitou parte das gravações já realizadas por Donner, mas refez cenas em todos os três atos. Além disso, teve dois problemas sérios: Gene Hackman se negou a gravar com o novo diretor, de modo que todas as aparições de Lex Luthor no filme são “cenas de arquivo”. Pior foi Marlon Brandon, que proibiu o uso de suas imagens.

O General Zod de Terence Stamp: após o filme, o ator continuou ligado ao universo do Superman e na série de TV "Smallville" faz a voz de Jor-El, o pai biológico do homem de aço.

Com isso, o filme perdeu parte de seu espírito.

E assistir Superman II – The Richard Donner’s Cut mostra como a perda foi enorme. Para montar o que teria sido o filme original – e não o pastelão finalizado por Lester – foi necessário não somente resgatar e recuperar as imagens originais, mas também usar filmagens de testes de cena e até de elenco para poder preencher os espaços.

Por isso, em termos técnicos, o novo Superman II não pode ser assistido sem contexto. Algumas cenas são desiguais, inclusive em aspectos visuais, como cenários (as de teste, por exemplo) e alguns dos efeitos visuais também não são exuberantes, particularmente nas cenas “novas”. Mas sabendo que trata-se de um filme inacabado recuperado, pode-se apreciar a força da história.

E este é o grande trunfo do novo Superman II: sua história – o roteiro original – é muito mais forte do que o oficial lançado em 1980. Em parte porque, originalmente, a mola propulsora do filme seria a relação entre o Superman e seu pai biológico Jor-El (Marlon Brandon), retomando pontas deixadas no primeiro capítulo e, particularmente acrescentando algo à trama do General Zod, que é condenado por Jor-El e tenta se vingar do filho deste.

Na nova versão, a relação entre o Superman e Jor-El é o eixo do filme: Marlon Brandon brilha como o pai do homem de aço.

No oficial, o Superman abdica de seus poderes pelo amor de Lois Lane, mas os retoma após sua mãe biológica, Lara-El alertá-lo que ele vai perder para sempre o contato com eles. No novo, a mensagem é mais forte: Jor-El doa sua energia vital ao filho, de modo que possa recuperar seus poderes. Também, não há o incômodo do Superman entrar de uniforme na câmara e sair usando roupas normais que se pode ver no filme de Lester.

O modo como Lois Lane tenta provar que Clark Kent é o Superman também é muito mais forte na nova versão. No filme de Lester, Lois pula nas águas das Cataratas do Niágara e comprova as suspeitas quando Clark tropeça em um tapete (Superman tropeçando?) e não queima a mão no fogo; na nova, Lois se joga da janela do prédio do Planeta Diário – e Clark dá um jeito de salvá-la sem exibir seus poderes. Mas, ainda assim, a reporter não desiste e, em outra cena, decobre tudo ao disparar um revólver contra ele! Isso mesmo! Um tiro! Mas, como ela é a mocinha, informa que a bala era de festim e o Superman se revelou à toa! ahahahah… Boa sacada!

Lois Lane se joga da janela para provar que Clark Kent é o Superman.

A batalha entre o Superman e os três kryptorianos também é mais intensa na versão nova, porque Donner não usou nenhum dos excessivos momentos cômicos adicionados ao roteiro por Lester, o que tira qualquer apelo dramático à batalha do homem de aço com oponentes tão fortes quanto ele.

Além disso, o desfecho do filme – que, obviamente, não vou revelar aqui – faz um gancho interessante (mesmo que desnecessário) com o primeiro filme, totalmente ausente na versão oficial.

Falando nisso, na nova versão há uma ligação direta entre o fim do primeiro filme e o início do segundo. No primeiro episódio, Lex Luthor lança mísseis nucleares para devastar os Estados Unidos e o Superman coleta um deles e o lança ao espaço sideral. Na versão de Donner de Superman II, este míssel, ao explodir, libera o General Zod e seus dois comparsas da prisão da Zona Fantasma na qual são presos numa das primeiras cenas de Superman – O Filme. Na versão lançada em 1980, de Lester, o novo diretor optou por uma redundância. Ignorou o rumo ao espaço do míssel e, no início de Superman II, criou uma cena de um grupo terrorista em Paris que quer explodir uma bomba nuclear na Torre Eiffel. O homem de aço coleta a bomba, que explode no espaço e liberta os kryptonianos aprisionados. Por que outra bomba? Não seria muito mais lógico, como Donner fez, usar a mesma? Seria só uma forma do novo diretor diferenciar seu trabalho do anterior?

Christopher Reeve: para muitos, o Superman definitivo.

Além disso, as interpretações dos atores são todas – sem excessão – melhores na versão “nova” de Donner. Por causa do roteiro, Christopher Reeve (considerados por muitos como o Superman definitivo) está ótimo, explorando nuances do homem de aço ausentes nas outras adaptações ao cinema. Marlon Brandon, como sempre, brilha na tela e adiciona ao filme um talento excepcional. A Lois Lane de Margot Kidder está mais determinada e o General Zod de Terence Stamp está mais maligno.

Enfim, é irônico pensar que o filme do diretor demitido é melhor do que o finalizado, mas é este o caso. A versão de Richard Donner para Superman II é mais forte, tem um roteiro melhor e é menos cômica. Um filme que vale a pena ser assistido e funciona como uma continuação melhor de Superman – O Filme.

Também dá uma idéia da força que a franquia poderia ter tido no cinema nos anos seguintes se seguisse a mesma linha, o que não aconteceu. Os Salkinds mantiveram Richard Lester na direção de Superman III, filme simplesmente odiado pelo público, que afundou o homem de aço em um pastelão cômico de mau gosto. E Superman IV – Em Busca da Paz poderia ter sido um bom filme se o roteiro escrito tivesse sido filmado. Mas não aconteceu: para reduzir gastos, a trama foi simplificada e o filme é ruim de doer, o que exterminou a franquia original. Como Superman – O Retorno (um ótimo filme, mas que não tem ação) não emplacou, coube a Warner reiniciar a série de filmes do homem de aço, cujo novo primeiro capítulo será lançado em 2012. (Veja outros posts do HQRock sobre o assunto, como o do dia 24/02).

Infelizmente, a nova versão de Superman II não foi lançada no Brasil, sendo excluída do Box Set de DVDs lançado pela Warner no país, que contêm, apenas, as versões tradicionais dos episódios I, II, III, IV, uma versão estendida do primeiro, mais Superman – O Retorno como um tipo de bônus. Fica a espera de que, algum dia, (quem sabe no embalo do fim de Smallville ou no do lançamento do novo filme em 2012?) a distribuidora decida lançar no país a versão superior de um clássico das adaptações de quadrinhos ao cinema.