Existe um dito popular de que “brasileiro tem memória curta”. Isso parece ser verdade quando se pensa no rock produzido no Brasil.

Todos lembram (e curtem) a produção do gênero feita nos anos 1980, de modo que bandas “velhas” como Capital Inicial e Paralamas do Sucesso ainda lotam casas de show país à fora; que Legião Urbana ainda seja um dos maiores vendedores de discos do Brasil (mesmo extinto há mais de 14 anos); e que Titãs e Engenheiros do Hawaii toquem constantemente nas rádios com seus velhos sucessos e, ocasionalmente, ocupem espaço na mídia nacional com atualidades.

O que poucos lembram – ou sabem – é que a produção de rock no Brasil não começou com os discos de Blitz e Barão Vermelho lá por volta de 1982 e 1983.

Houve um tempo anterior, uma outra era de artistas interessantes e, hoje, desconhecidos de quem não seja um profundo conhecedor de música brasileira.

Essa produção dos anos 1970 é chamada de “rock bandido” por causa de uma frase de Rita Lee, que disse algo sobre o fato de que, naquele tempo, “roqueiro tinha cara de bandido”.

O Brasil produziu rock desde o fim dos anos 1950, na esteira do sucesso do gênero nos Estados Unidos, mas a produção da “primeira hora” é marcada por algo de pausterizado e/ou bizarro, como Celly Campello (“era um biquini de bolinha amarelinho tão pequenininho…”) ou a Jovem Guarda inteira.

Contudo, no fim dos anos 1960 e início da década seguinte se ergueu uma nova geração que já fazia rock ” de verdade”. Alguém que goste do gênero e esteja disposto a arriscar fora do “BRock 80” pode se supreender com algumas jóias perdidas.

O HQRock presta uma homenagem a esses “heróis do passado” de modo que alguém possa encontrá-los por aí em alguma esquina da vida…

MUTANTES:

Mutantes
O trio original dos Mutantes (com Rita Lee ao centro): psicodelia no Tropicalismo brasileiro.

Esta banda paulista não é para ouvidos tradicionais. Seu som é louco, anárquico; mistura o rock britânico de Beatles e Stones com bossa nova, tropicalismo, samba canção, música brega, sertanejo e qualquer outra coisa que lhes venha à cabeça. Tudo isso com letras bem humoradas, vocais afetados, efeitos sonoros e, algumas vezes, um som bem pesado.

Panis et circenses é sua faixa mais conhecida – regravada por Marisa Monte – mas é deles também a famosa Balada do louco gravada por Ney Matogrosso; só que este focou na “balada” enquanto o grupo enfatizou o “louco”.

Formado por Rita Lee [ela mesma!] (vocais), Arnaldo Baptista (vocais, baixo, teclados), Sérgio Dias (vocais, guitarras), Liminha [mais tarde produtor] (baixo) e Dinho Paes Leme (bateria), são os queridinhos das bandas brasileiras entre os indies internacionais e até ganhou um remake nos anos 2000 capitaneado pelos irmãos Dias Baptista e com Zélia Ducan nos vocais.

Antes disso, existiram entre 1967 e 1978. Rita Lee saiu em 1972 para fazer carreira solo (de muito sucesso). Sem ela, a banda nunca mais teve uma formação sólida, mas investiu pesado no rock progressivo, resultando em bons discos, como O A e o Z , Tudo Foi Feito pelo Sol e Ao Vivo.

O TERÇO:

O Terço: misturando MPB, sertanejo e rock progressivo num resultado impressionante.

Imagine uma banda que misture vocais a várias vozes como o MPB4, levadas bem brasileiras e o rock progressivo… Você tem O Terço! Originalmente um trio, o grupo se destacou nos festivais a partir de 1969 e lançou alguns discos, mas em 1974 ganhou a adesão de Flávio Venturini [ele mesmo!] nos vocais e teclados, gravou um disco sensasional, teve música “na novela” e vendeu 500 mil cópias.

O disco? As Criaturas da Noite! A novela? Não faço a mínima ideia! Mas a banda surpreende em faixas como Casa encantada, Mudança de tempo, Luz de velas, 1974 e, particularmente, por Eu não sei não: a mais perfeita combinação de Yes e Luís Gonzaga que alguém poderia inventar.

Flávio Venturini saiu em 1977 (e formou o 14Bis depois disso), mas banda ainda lançou material até 1982. Mas, integrantes novos e velhos costumam se reunir ocasionalmente até hoje.

O PESO:

O Peso
O Peso: do Ceará para o Rio de Janeiro em imagem publicada na "Revista História do Rock Brasileiro", edição especial da Bizz de 2006.

As duas primeiras enfatizaram o rock progressivo. Esta o hard rock! É incrível uma banda boa e pesada como O Peso em plena metade dos anos 1970 no Brasil. Originária do Ceará e liderada pelo vocalista Luís Carlos Porto, a banda gravou um único álbum – Em Busca do Tempo Perdido de 1974 – mas ganhou festivais, apareceu na TV e tocou no primeiro Hollywood Rock Festival de 1975, no Rio de Janeiro.

A vida de “sexo, drogas e rock and roll” destruiu a banda, mas seu único álbum é um registro que vale a pena ser conhecido. Sem medo de errar: um disco excelente! Um clássico!

A BOLHA:

Surgido ainda nos tempos da Jovem Guarda com o nome The Bubbles, o grupo mudou de nome, formação e sonoridade e se tornou uma banda pesada e progressiva. Seu trabalho mais conhecido é a épica Um passo pra frente com mais de oito minutos de peso e viagem.

CASA DAS MÁQUINAS:

Banda que gravou discos tanto de hard rock quanto de progressivo, com canções interessantes e um som muito pesado. As letras não fazem muito sentido (tudo bem, eram os anos 1970: “se você lembrar deles é porque não os viveu”), mas sua sonoridade é um exercício exuberante.

VÍMANA:

Vimana
Vimana: o tempo os tornou lendas. (Da esq.para dir.: Lobão, Ritchie e Lulu Santos).

A mais lendária banda dos anos 1970 não chegou a lançar um álbum, apenas um compacto e participações especiais em discos de Fagner e outros. Entretanto, é possível encontrar um álbum completo, gravado em 16 canais (o mais avançado recurso da época!), disponivel por aí, vagando pela internet. Também há uma apresentação ao vivo, com qualidade, no primeiro Hollywood Rock, de 1975.

É um som progressivo forte, com muito teor instrumental.

Por que lendária? Está na sua formação: Ritchie [Menina veneno, vocês lembram?] nos vocais e flautas; Lulu Santos [ele mesmo!] nas guitarras; Luiz Paulo Simas nos teclados; Fernando Gama no baixo; e Lobão [ele mesmo!] na bateria; e até Patrick Moraz [da banda britânica Yes!] fez participações nos teclados.

MADE IN BRAZIL:

De carreira de mais de 20 anos, dezenas de formações diferentes e nenhum sucesso, o Made in Brazil seguiu em frente tornando-se uma lenda por seu esforço. Som pesado num rock de arena à lá Rolling Stones.

Ah, e ainda tem estes aqui, que talvez vocês já conheçam…

RITA LEE:

Rita Lee: roqueira nos anos 1970!

A autointitulada “rainha do rock brasileiro” é lembrada hoje por suas baladas e perucas vermelhas. Mas quando ainda era uma menina, Rita Lee surpreendeu o Brasil ao sair dos Mutantes e se lançar na carreira solo acompanhada pela banda Tuti-Frutti.

Lançou dois álbuns fantásticos nessa fase e canções antológicas como Esse tal de roque enrol, Agora só falta você, Fruto proibido e a mais famosa Ovelha negra.

No fim dos anos 1970, Rita Lee adocicou, mas deixou uma herança roqueira considerável.

RAUL SEIXAS:

“Toca Raul!” é um bordão que se ouve quase em todo show de rock no Brasil – e às vezes no mundo! (Explico: em 2010 Paul McCartney resolveu fazer um show ao vivo com transmissão instantânea pelo YouTube. Resultado? Alguém da platéia gritou “Toca Raul!” e o mundo todo ouviu!).

Não à toa. Raul Seixas foi o primeiro “roqueiro de verdade” a fazer sucesso de massa no Brasil, lá nos idos de 1973.

Sua obra é memorável, especialmente seus discos iniciais, cheios de sucessos que até hoje tocam nas rádios, festas e shows atendendo pedidos. Nos anos 1980, o álcool derrubou o roqueiro baiano, mas sua herança musical ainda é forte.