
O prelúdio à saga dos mutantes da Marvel Comics nos cinemas, X-Men – Primeira Classe, tinha uma difícil missão de recuperar a credibilidade da franquia, que começou de maneira impressionante em 2000, com X-Men – O Filme e continuou de maneira vigorosa e excelente em X-Men 2, mas desceu a ladeira nas produções seguintes, X-Men – O Confronto Final e X-Men Origens – Wolverine.

No entanto, o telespectador que for aos cinemas conferir as origens da equipe mutante adaptada pela 20th Century Fox não precisa se preocupar. X-Men – Primeira Classe não apenas cumpre as expectativas como as supera. Podemos dizer sem medo que é um dos melhores filmes de toda a franquia, recuperando o frescor das primeiras produções.
É um filme de outro estilo, decerto. Como se passa nos anos 1960 – mais precisamente em 1962 – é mais colorido em sua estética do que o visual sombrio e comedido de X-Men – O Filme ou X-Men 2, ao mesmo tempo em que vai mais alto em termos de poderes apresentados: enquanto nos primeiros, quase se pede desculpas por Tempestade ou Magneto flutuarem, neste temos dois personagens que voam sem cerimônia. Claro que na época dos primeiros, o público estava menos acostumado a ver os superpoderes dos super-heróis em ação nas telas (X-Men – O Filme foi o primeiro da nova safra desse tipo de adaptação), mas isso mudou depois da trilogia dos mutantes ser completada, da trilogia do Homem-Aranha, dos filmes de Hulk, Homem de Ferro e Thor, além dos concorrentes da DC Comics, com Superman e Batman. Agora, o público já pode ver um personagem voar nos cinemas sem achar que isso é um absurdo por completo.

Mas vamos ao filme. Primeira Classe já começa certo: o diretor Matthew Vaughn (de Kick-Ass, outra adaptação de um quadrinho da Marvel) recria quadro a quadro, inclusive com a mesma trilha sonora, a cena de abertura de X-Men – O Filme, que mostra o jovem Erik Lehnsherr sendo separado de sua família em um Campo de Concentração Nazista em plena II Guerra Mundial. Tendo sido uma das cenas mais fortes e plasticamente bonitas do cinema de super-heróis (com sua fotografia em preto e branco, a chuva, a lama e a tensão do pré-adolescente sendo agarrado por vários soldados enquanto usa seus poderes magnéticos para entortar um grande portão de ferro), se causa um grande efeito. Se o telespectador não assistiu à cena original é impactado por ela, se a viu, tem-se ainda mais força pela referência.
Mas, o novo filme mostra o que há depois: o jovem Erik é levado à presença de um médico nazista que vai lhe submeter às maiores barbaridades físicas e psicológicas. E o vemos, anos depois, usando seus poderes para caçar nazistas ao redor do globo. Então, brilha a figura de Michael Fassbender, que faz o Erik Lehnsherr adulto (por volta dos 24 anos), sem dúvidas o maior destaque do filme: a interpretação do ator é impressionante e seu papel é muito bem construído pelo roteiro.

Em paralelo se mostra a trajetória de Charles Xavier, uma “pobre criança rica” que, literalmente, encontra uma outra criança mutante em sua cozinha. A partir de então, ele decide abrigá-la e os dois crescem como irmãos adotivos. Mais tarde, os vemos na Inglaterra onde está se formando e a jovem lhe acompanha para todo o lado. A dinâmica da dupla então vai ser um dos fios condutores do filme. O jovem Charles Xavier também é representado com charme e confiabilidade pelo ótimo James McAvoy como alguém dotado de um enorme coração e cheio de ideais pacifistas, mas ao mesmo tempo, sem a capacidade de entender totalmente o dilema de sua meiairmã, Raven (Jennifer Lawrence), que sofre porque sua aparência real é aterradora: pele azul com escamas, olhos amarelos e cabelo vermelho. Ao contrário de Xavier, que é bonito, bem apessoado e tem poderes telepáticos que não podem ser vistos e podem ser escondidos muito facilmente, Raven precisa se esconder o tempo todo.
Desse modo, o dilema dela é o outro eixo do filme: a aceitação. Afinal, o que ela deve fazer? Aceitar sua aparência e viver a expô-la, fazendo os outros “normais” terem que aceitá-la, ou continuar a esconder-se? O dilema se intensifica quando encontra o jovem engenheiro Hank McCoy (Nicholas Hoult) que também é um mutante que esconde a aparência, no caso, seus enormes pés, similares aos de um símio, que lhe permite uma enorme agilidade.
O roteiro e a direção de Vaughn (centrada nos personagens mais do que na ação) constroem as duas tramas – por um lado, a possibilidade de Erik em dedicar seus esforços para manter a paz ou continuar sua jornada de vingança e o modo como Charles é fundamental nessa questão; e por outro, o dilema de Raven e Hank entre a aceitação ou não de seus “verdadeiros eus” – de uma maneira equilibrada e bem desenvolvida.

O longametragem sabe lidar com a construção das personagens – o maior triunfo do filme, ajudado por roteiro, direção e os atores (todos os protagonistas estão excelentes) – sem esquecer da ação que o telespectador jovem quer ver. E embora algumas críticas tenham afirmado que o filme tem menos ação de que seus predecessores, na verdade, há uma boa cota de cenas de ação e elas nunca são gratuitas: cumprem suas funções para a trama e não o contrário.

Além disso, apesar de existir uma ameaça de amplitude global – o ex-nazista Sebastian Shaw (Kevin Bacon) manipula as grande potências mundiais, Estados Unidos e União Soviética (são tempos de Guerra Fria), para que declarem guerra e iniciem uma confrontação termo-nuclear (numa referência óbvia e bem sacada aos melhores vilões de James Bond) – o longametragem consegue expor o problema e solucioná-lo de modo satisfatório, sem aquela “pressa” que marca a maioria desses tipos de filme, mas ainda assim, guarda o verdadeiro clímax para a relação entre Charles e Erik. É a relação entre eles (e mais Raven, é verdade) que importa, então, é este o ponto alto do filme, numa cena dramática que constrói de modo competente o tapete do futuro no qual vemos o Professor X e Magneto como amigos-inimigos, duas pessoas que se gostam e se respeitam profundamente, mas partilham ideais opostos e metodologias distintas que os põem em confrontação direta.
Além disso, é importante ressaltar que o ambiente dos anos 1960 e o contexto de Guerra Fria fazem muito bem ao filme, que se beneficia inclusive da estética da época, o que o torna bem mais colorido e exagerado (no bom sentido) do que a trilogia original dos X-Men, com seu tom sério, sóbrio e sombrio. Desse modo, parece mesmo um filme da Era de Prata dos Quadrinhos (o período do fim dos anos 1950 ao início dos 1970), como afirmou em entrevistas o cineasta Bryan Singer, diretor dos dois primeiros X-Men‘s e produtor e roteirista deste Primeira Classe (ele não dirigiu por causa de problemas contratuais com outro estúdio, a Warner, sendo, assim, o “padrinho” da produção).

Mas o seu substituto, Matthew Vaughn, não fez feio.
Por fim, é importante ressaltar mais três coisas. Primeiro, que os fãs dos X-Men nos cinemas vão se deliciar com as dezenas de referências e citações que aparecem ao longo da película que, para quem não conhece as referências não atrapalha nada, pois passam até despercebidas, mas para quem as conhecem, mostram vislumbres de futuros personagens e situações.
Em segundo lugar, o desempenho de Michael Fassbender. Inclusive, é interessante notar que o ator até se parece com Christian Bale, o que logo nos leva a pensar que ele seria um ótimo candidato a ser o próximo Batman das telas, já que sabemos que o homem-morcego terá o último capítulo de sua trilogia no ano que vem e que uma nova deve começar com uma nova equipe e elenco. “Fassbender para Batman!“.

Em terceiro lugar, é interessante notar como a Marvel está criando um estilo próprio dos telespectadores se relacionarem aos filmes. Na sessão em que assisti, o público permaneceu em sua grande maioria sentado nas cadeiras até o fim dos créditos, esperando para ver se não aparecia a tradicional cena pós-créditos que a editora criou como parte fundamental e divertida de seus filmes, sempre fazendo ganchos futuros ou relacionando-os aos outros filmes. Embora mais fortes nos filmes de sua própria produtora, o Marvel Studios, as cenas pós-créditos também estiveram presentes nas produções “terceirizadas”, como a própria franquia dos X-Men na Fox. Elas estão em X-Men – O Confronto Final e em X-Men Origens – Wolverine.
Mas apesar de ser interessante ver o público ficar até o final – o que é muito raro normalmente – não se preocupe, Primeira Classe não tem cenas pós-créditos.
Por fim, X-Men – Primeira Classe pode ser considerada uma das melhores adaptações de histórias em quadrinhos já realizadas. Um filme conciso e redondo, que se sustenta até sem seus companheiros de franquia, e que está em um nível próximo aos filmes do Batman dirigidos por Christopher Nolan. Uma grata surpresa, já que poucos filmes despertaram tanta desconfiança e receio dos fãs quanto este, pois havia o temor de ser um Crepúsculo com mutantes. No caso, nada pode ser mais diferente do que isso.


O filme é muito bom, mas esta longe de ser uma das melhores adaptações de quadrinhos para o cinemas. Parece que o nosso comentarista, com todo o respeito, nunca leu uma revista do x-men para saber que a composição da primeira classe não é a que vimos no filme. Mas mesmo assim o filme me agradou, considerando os outros 3 filmes da franquia, também adaptações não muito boas. Esse foi o melhor dos filmes dos mutantes, sem duvida, mas ainda uma adaptação com bastante falhas.
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Olá, Jamm, obrigado por seu comentário. Mas queria apenas corrigir algo. Sim, já li um quadrinho dos X-Men na vida. Aliás, o suficiente para ter toda a coleção da Editora Abril sobre os mutantes. Apenas a cronologia dos filmes é diferente da dos quadrinhos, aliás, desde o início, pois em “X-Men – O Filme” vemos a entrada de Wolverine para uma equipe que já tem Ciclope e Tempestade, por exemplo. Mas enfim, a resenha é sobre o filme e o contexto dos filmes. Há outro post sobre a comparação entre os quadrinhos e o filme. E em breve, publicaremos toda a trajetória dos X-Men nos quadrinhos.
Um grande abraço e volte sempre!
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Cala a boca, é um excelente filme!@
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