Esta é a segunda parte da trajetória do Homem-Aranha nos quadrinhos. Se você não leu a primeira parte, leia aqui. A Parte 1 trata da primeira década de publicação do amigão da vizinhança, quando suas histórias eram comandadas por Stan Lee com uma ajuda mais do que fundamental dos artistas Steve Ditko, John Romita, Gil Kane e mais alguns outros.

Esta Parte 02 traz a fase clímax nos anos 1970 com a morte de Gwen Stacy e o confronto final com o Duende Verde, a temporada de Gerry Conway e Ross Andru, a expansão das revistas aracnídeas, a crise na virada para os anos 1980, uma nova fase de sucesso com Roger Stern, John Romita Jr., Tom DeFalco e Ron Frenz e os graves problemas editoriais do fim daquela década, que culminaram na confusa revelação da identidade do Duende Macabro, cobrindo em detalhes o período de 1972 até 1987.

O Duende Verde numa pintura moderna de Alex Ross.

Ah, e não custa lembrar: este post foi originalmente escrito em 2011, mas foi ampliado e atualizado em 2022.

Não leu a Parte 01? Veja aqui.

Novos Tempos, Nova Revista

Estamos em 1972. Stan Lee, o principal criador do Universo Marvel, escreveu as histórias do “cabeça de teia” por dez anos quase ininterruptos, mas agora, foi promovido a Publisher da Marvel Comics, o cargo mais alto da editora. Seu posto de Editor-Chefe é ocupado, então, por Roy Thomas, que vinha assumindo várias revistas no lugar do The Man. Com isso, Lee e Thomas se alternam na revista por um tempo, pautados no desenvolvimento de tramas por John Romita e Gil Kane, mas têm dificuldades em encontrar um substituto para assumir a revista The Amazing Spider-Man, o título de maior vendagem da editora. Mas antes de encontrá-lo, outros desenvolvimentos ocorriam.

O sortudo é um rapaz de apenas 19 anos: Gerry Conway. Na mesma época, ele escreveria, também, a outra revista de maior sucesso da editora: Fantastic Four, a casa do Quarteto Fantástico.

“Marvel Team Up”: uma nova revista para o Homem-Aranha ter encontros especiais. Arte de Gil Kane.

Enquanto Stan Lee comandava sua última temporada à frente de Amazing Spider-Man (junto ao desenhista John Romita) – a Marvel decidiu ampliar o universo do “amigão da vizinhança”. Stan Lee providenciava para que o Homem-Aranha se tornasse o primeiro personagem da Marvel a possuir duas revistas mensais. Tal prática era comum na concorrente DC Comics, em que personagens como Batman e Superman tinham várias revistas mensais com focos distintos. Lee tentou transpor um pouco disso para a Marvel.

Vale lembrar, a Marvel agora pertencia a um conglomerado empresarial que queria lucros altos e não queria desperdiçar a vendagem altíssima do escalador de paredes em uma única publicação mensal. Lembre também que Lee já havia tentado lançar uma segunda revista do Aranha – Spectacular Spider-Man, em formato magazine (formato maior e mais páginas, linguagem mais adulta) e trimestral, em 1968 – mas as vendagens não tinham correspondido à expectativa e foi cancelada após apenas dois números. Então, agora, era preciso fazer algo diferente…

Cartão de natal ao fim de Marvel Team-Up 01.

A inspiração direta foi a revista da Distinta Concorrente The Brave and the Bold, que mensalmente trazia uma aventura de Batman junto com algum convidado especial. Lee transferiu o mesmo conceito para o Aranha. Então, em março de 1972, chegava às bancas a revista Marvel Team-Up (algo como Equipe Marvel), que, apesar do título, trazia sempre o Homem-Aranha em parceria a convidados diversos do universo da editora, como Hulk, Quarteto Fantástico, X-Men, Vingadores etc. As equipes de criadores também eram sazonais, sendo cada arco de histórias (geralmente duas ou três edições) entregues a artistas diferentes, primeiramente “consagrados”, mas depois, passou a servir, também, como laboratório para novos artistas trabalharem com o aracnídeo ou com outros personagens.

A princípio a ideia de Lee e Roy Thomas era que a revista trouxesse a dupla Homem-Aranha e Tocha Humana sempre juntos, mas após quatro edições disso, sentiram que o formato já estava cansativo, e decidiram trazer um posto rotativo de participações especiais. A edição de estreia trazia o aracnídeo e Johnny Storm unindo forças contra o Homem-Areia, numa trama de Roy Thomas e arte de Ross Andru.

Ross Andru seria o principal desenhista do Homem-Aranha nos anos 1970.

Ross Andru muito em breve tomaria um papel protagonista no desenvolvimento do Homem-Aranha, mas vamos por partes… Nascido Rostislav Androuchkevitch, em Michigan, em 1927, Andru foi um dos maiores artistas da DC Comics durante a Era de Prata. Ele iniciou a carreira na ilustração em 1946, após sair de uma breve passagem pelo Exército, e entrou nos quadrinhos ainda na Era de Ouro, em 1947, nas tiras diárias de jornal do Tarzan, como desenhista fantasma (sem receber créditos), e pouco depois firmou uma parceria com o tinteiro (arte finalista) Mike Esposito, com quem estudara no ensino médio. A dupla começou a trabalhar em várias pequenas editoras, com histórias de faroeste e romance e ingressou na gigante DC Comics em 1953, na linha de histórias de guerra, um filão muito popular então.

Andru mergulhou fundo nos super-heróis em 1958, quando o editor Robert Kanigher pensou que a arte realística e com cenários bem feitos era o necessário para dar uma renovada na Mulher-Maravilha. Andru estreou em Wonder-Woman 98, já fazendo as artes e a capa, na edição que os historiadores marcam como a entrada da princesa amazona na Era de Prata, quando Kanigher modernizou a personagem e seu elenco de coadjuvantes. O artista permaneceu como o desenhista principal de Diana Prince por 11 anos, mas também ilustrou histórias de outros heróis da DC, como o primeiro Esquadrão Suicida, os Metal-Men e a revista The Brave and the Bold, que trazia o Batman interagindo com outros heróis da editora. Entre 1967 e 1970, Andru se tornou o principal desenhista do Flash, e assumiu a arte de várias histórias do Superman em Superman e Action Comics.

Aranha e Tocha Humana em MU 01 na arte de Ross Andru.

Mas numa época em que a rivalidade entre Marvel e DC era tão grande que desenhistas usavam pseudônimos para trabalhar anonimamente entre as duas grandes companhias, Andru foi um dos primeiros a fazer isso usando seu nome real. Como Mike Esposito fazia vários trabalhos na Marvel – incluindo o Homem-Aranha – o artista foi recomendado para substituir John Romita numa história aracnídea quando o artista regular machucou o punho em um pequeno acidente. Mas como Romita se recuperou mais rápido do que o esperado, a história de Andru não precisou sair em Amazing Spider-Man; e como Stan Lee gostou do resultado, a publicou de maneira avulsa em Marvel Super-Heroes 14, de 1968. Logo em seguida, Andru também desenhou duas edições de X-Men.

Quando se afastou da DC Comics, em fins de 1971, Andru assumiu vários trabalhos na Marvel, lançando os Defensores ao lado de Roy Thomas e desenhando Namor, o príncipe submarino, Kull, o conquistador, Doc Savage, Homem de Ferro, e Quarteto Fantástico. Então, foi o escolhido como o artista de Marvel Team Up, na qual desenhou as três primeiras edições, antes de passar a bola para o veterano aracnídeo Gil Kane.

Porém, Roy Thomas escreveu apenas a primeira edição e logo passou o bastão para Gerry Conway, outro dos que se tornariam um dos principais artífices do mundo aracnídeo.

Gerry Conway começou a escrever aos 16 anos!

Gerry Conway nasceu em 1952 e se tornou um ávido fã de quadrinhos, em especial, da Marvel Comics. Inclusive, ele teve uma carta publicada na edição 50 de Fantastic Four, em 1966, quando tinha apenas 13 anos. Mas se tornou um escritor prolífico e muito precoce, como alguns de seus companheiros do fandoom e que emergiram como escritores-desenhistas primordiais da Era de Bronze. Ele estreou nos quadrinhos já aos 16 anos de idade, em 1969, nas revistas de terror da DC Comics, em especial, House of the Secrets. Mas seu objetivo era escrever super-heróis da Marvel, por isso, entrou em contato com Roy Thomas e se submeteu a um “teste de roteiro” criado por Stan Lee, e foi aprovado.

Assim, enquanto ainda estava no ensino médio, Conway atuou como roteirista em uma sequência de revistas importantes da Marvel, começando com Ka-Zar em Astonishing Tales 03, de dezembro de 1970, e em seguida, entre os anos de 1971 e 1972, em Invencible Iron-Man 35-44; Incredible Hulk 146-147; Amazing Adventures (com histórias dos Inumanos e da Viúva Negra), Namor, the Submariner 41-49; Daredevil 72-98; cocriou personagens da linha de terror, como Homem-Coisa (Man-Thing) e o Lobisomen (Werewolf by the night); foi o responsável por lançar a revista The Thomb of Dracula, com a ousada proposta de apresentar aventuras do príncipe das trevas, em formato magazine, em preto e branco, para leitores adultos, e que seria um enorme sucesso nos anos 1970; e, por fim, chegou a alguns dos principais títulos da editora, como Captain America entre os números 149-152. Com isso, muito rapidamente, Conway se tornou um dos principais escritores da Marvel, ao lado de Stan Lee e Roy Thomas.

O Aranha com o Lobisomen (Werewolf by the Night) na edição 12 de MU. Arte de Ross Andru.

Não à toa, Conway foi o escolhido para tocar adiante o projeto experimental de Marvel Team-Up e os encontros do Homem-Aranha com outros personagens da Marvel. Por isso, após a primeira edição comandada por Thomas, Conway assumiu os roteiros da edição 02 até o número 12, já em 1973.

Marvel Team-Up era uma pegada diferente do que os leitores estavam acostumados em Amazing Spider-Man. A revista era pautada em uma fórmula que exigia sempre um novo parceiro de aventuras a cada edição e ainda desenvolver uma ameaça condizente. Por isso, era aventuras mais soltas, menos amarradas à cronologia e que muito raramente traziam os usuais coadjuvantes da vida pessoal de Peter Parker. Ainda que alguns escritores, como o próprio Gerry Conway – e futuramente outros como Chris Claremont e Bill Mantlo – investiram em algum senso mínimo de continuidade. Mas de algum modo, era praticamente possível ler MTU sem os conhecimentos dos eventos de Amazing Spider-Man.

Dessa forma, a edição 01, (publicada na época do Natal de 1971, mas com data de capa de março de 1972, e é esta a data que sempre usaremos como referência) trazia Homem-Aranha e Tocha Humana unindo forças contra o Homem-Areia, um vilão que, apesar de ter estreado nas aventuras aracnídeas (apareceu em duas Amazings e num anual), mas que se tornou um notável oponente do Quarteto Fantástico, aparecendo numa aventura solo de Johnny Storm em Strange Tales 115, e contra o grupo em Fantastic Four 36, 38, 41 a 43, 57, 61 e 94; tendo aparecido ainda em The Incredible Hulk 138 anteriormente. A aventura prossegue na edição 02 de MTU, quando Conway assumiu os roteiros, quando o Homem-Areia se reúne ao grupo de vilões que fundou nas aventuras do Quarteto, o Quarteto Terrível; e na edições 03 e 04 temos o retorno de Morbius, o vampiro vivo, que havia estreado em ASM 101 cerca de um ano antes, enquanto na edição 04 os X-Men se unem à aventura.

Team-Up terminou servindo como um tipo de vitrine para personagens mais obscuros e um veículo para lançar visibilidade sobre novos personagens, revistas etc. Por isso, Morbius apareceu para ganhar aventuras próprias na linha de revistas adultas em preto e branco da Marvel e dava-se satisfação sobre os X-Men, que tiveram sua revista cancelada em 1970, ao mesmo tempo em que anunciavam uma trama para o Fera, que ganharia aventuras solo em Amazing Adventures). Após três edições menos apelativas com Visão, Coisa e Thor; o número 08 trazia a Gata (que estreara há pouco tempo – e mais tarde assumiria o nome de Felina), passando em uma aventura contra Kang, o Conquistador, nas edições seguintes ao lado de Homem de Ferro e o Tocha Humana novamente; e assim, sucessivamente.

Os encontros de Marvel Team-Up, portanto, seguiam trazendo personagens consagrados da editora (mais raramente) e (principalmente) servindo de vitrine ou escada ou propaganda para personagens que estavam ganhando aventuras ou revistas novas. Em seus primeiros números (afora os já citados), reuniu os Inumanos, o Lobisomen, Capitão América, Namor, Motoqueiro Fantasma, Capitão Marvel, Pantera Negra, Doutor Estranho, Gavião Arqueiro… No campo dos vilões, quase sempre eram oriundos dos universos dos convidados (o Gárgula Cinzenta junto ao Capitão América, por exemplo), porém, mais raramente, surgiam inimigos novos, como foi o caso de Stregon, uma variante do Lagarto, mas derivativa de um dinossauro em vez de um réptil comum, que estreou na edição 20 ao lado do Pantera Negra.

No campo criativo, MTU era inicialmente uma revista bimestral, pois era uma experimentação, e seguiu com essa periodicidade até a 10ª edição, para se tornar mensal na passagem dos números 11 para 12, em julho e agosto de 1973. Conway escreveu os 12 primeiros números e após algumas edições em colaboração com Len Wein (falaremos mais dele à frente, guarde esse nome), este assumiu os roteiros na edição 13 em diante por algum tempo. Na arte, Ross Andru desenhou as edições 01 a 03; Gil Kane ficou da 04 a 07; Jim Mooney desenhou 8, 10 e 11; Andru voltou na 9, 12 e 15 (sua última); Kane retornou na 13, 14, 16 a 19; e Sal Buscema assumiu na 20 (também falaremos dele mais adiante).

A Chegada de Gerry Conway e a Entrada na Era de Bronze

Enquanto MTU iniciava sua longa carreira de publicação, Amazing Spider-Man entrava em uma fase totalmente nova. Permita-nos resgatar a história em que encerramos a Parte 01 deste DossiêStan Lee era o editor-chefe da Marvel Comics desde 1941 e foi promovido a publisher, um cargo equivalente a CEO e porta-voz da empresa. Com isso, The Man deixou de trabalhar cotidianamente na redação, que passou a ser liderada por Roy Thomas, o novo editor-chefe, a partir de setembro de 1972. Lee e Thomas discutiram bastante quem seria o nome ideal para conduzir a principal revista da editora, e Thomas não se sentia apto a isso, e tinha pouco tempo para escrever revistas por causa de seu cargo.

O jovem Gerry Conway em 1973, quando “matou” Gwen Stacy.

Olhando ao redor, a dupla pensou que Gerry Conway era o melhor nome para a tarefa, ainda mais porque, àquela altura, ele já estava escrevendo Marvel Team-Up. É preciso ressaltar que, apesar de naquele momento já ter escrito várias das principais revistas da Marvel, o escritor tinha apenas 19 anos de idade! Mas como escrevemos, MTU era um bicho diferente, e assumir ASM envolvia lidar com o universo doméstico e as peculiaridades (dramáticas) da vida de Peter Parker. Era uma grande responsabilidade para o garoto carregar e todo um plano foi armado para isso.

Em primeiro lugar, Stan Lee projetou uma série de diretrizes que davam um caminho inicial para Conway e, em segundo, o experiente desenhista John Romita ficou supervisionando diretamente seu trabalho, aconselhando e propondo tramas. Conway e os novos roteiristas que assumiam o comando na Marvel – incluindo Thomas – não eram adeptos do Método Marvel de Lee (que dava apenas vagas sinopses para seus desenhistas desenvolverem a trama de forma geral por meio dos desenhos para ele vir ao fim incluir os diálogos), mas houve uma mescla disso com um roteiro tradicional nas primeiras edições de Conway para o rapaz se apropriar da revista e dos personagens.

Na prática Amazing Spider-Man 111, de com data de capa de agosto de 1972 (portanto, a edição que comemorava os 10 anos de publicação do Homem-Aranha!), dava segmento à aventura contra o Gibão iniciada por Lee no número anterior (veja a Parte 01) e, agora, Conway e Romita adicionavam mais perigo, com Kraven, o caçador, se aproveitando da pobre alma e o manipulando contra o cabeça de teia, usando uma fórmula para torná-lo agressivo e irracional, tornando-o um oponente mais formidável.

O primeiro passo fora dado, mas o que fazer a seguir?

Recapitulação dos momentos com May, por Conway e Romita.

Então, Conway desenvolveu com Romita uma trama interessante: uma guerra de gangues entre dois vilões, relembrando a temática explorada por Steve Ditko no passado. Então, ASM 112 dá partida na trama, com Peter descobrindo que sua tia May desapareceu e saindo desesperado atrás dela, ao mesmo tempo em que relembra momentos marcantes da vida dos dois, uma oportunidade para Conway rememorar eventos do passado. Por fim, o Homem-Aranha é acusado de covardia pelo Clarim Diário, porque vem se dedicando pouco ao combate ao crime. O debate público sobre a covardia do herói leva Flash Thompson a questionar se Gwen Stacy ainda culpa o escalador de paredes pela morte de seu pai: ela responde que não, mas que não confia e tem sentimentos confusos sobre o herói.

No fim, investigando, Peter descobre boas pistas sobre o rapto de sua tia, e descobre que o Doutor Octopus está por trás do plano. O melhor vem a seguir: ASM 113 introduz o gangster Cabeça de Martelo, que quer tomar o controle do crime organizado, aproveitando que o Rei do Crime está impossibilitado – pelos eventos mostrados alguns meses antes na revista. A ferrenha luta entre as duas quadrilhas é um dos grandes momentos do Aranha e uma sequência maravilhosa de aventuras, com o texto jovem e esperto de Conway e a arte de Romita em seu absoluto apogeu. Simplesmente lindo!

Cabeça Martelo vs. Dr. Octopus: primeiro clássico de Gerry Conway.

Um grande confronto se realizou na edição 114 e a batalha inconclusa entre os dois criminosos termina em ASM 115, quando o Aranha encontra May na casa de Octopus, mas ela ameaça atirar uma arma no cabeça de teia se ele se aproximar. Aturdido, Peter recua e, enquanto a polícia chega para prender os bandidos, ele tira o uniforme e se junta a Joe Robertson, Ned Leeds e Gwen Stacy para “chegar” à casa e resgatar May, mas ela diz a Peter que ele já é crescido e pode se virar sozinho, e que ela continuará na casa de Otto, para cuidar de tudo. Ela não sabe, obviamente, que ele é um criminoso, mas é algo que abala bastante o herói.

Contudo, Conway estava àquela altura, escrevendo também Marvel Team-Up e algumas outras revistas, por isso, precisava de ajuda para seguir adiante por alguns meses. Daí, Stan Lee, Roy Thomas e John Romita tiveram uma ideia nunca feita antes: requentar uma história prévia.

Lembram que em 1968 Lee e Romita tinham tentado emplacar a revista trimestral Spectacular Spider-Man, em formato magazine e em preto e branco para um público mais adulto e que não lesse HQs tradicionais? Não deu certo – apesar do espetacular número 02 (já em cores!) – e o projeto ficou engavetado. A edição 02 trouxe o lendário confronto com o Duende Verde que teve boas implicações para a cronologia do herói, mas o número 01 foi pouco lido e era praticamente desconhecido do grande público: estava esquecido e não fora republicado. Então, Lee teve a ideia de usar os quadrinhos de Romita, colori-los e deixar Gerry Conway criar uma nova história a partir daquilo.

E foi feito. Amazing 116, de janeiro de 1973, traz uma adaptação das 19 primeiras páginas de Spectacular (magazine) 01, mas com muitas partes redesenhadas para adaptá-los à cronologia vigente, em especial, mudando roupas e cortes de cabelos, tirando George Stacy (que morrera na edição 90) e acrescentando uma cena de reconciliação entre Peter e Gwen sobre o ciúmes dele com Flash Thompson. O arco continuou nas edições 117 e 118, com o crédito de roteiro para Stan Lee e Gerry Conway, o que é justo.

Na trama, um candidato à prefeito, Richard Raleigh, assume um tom crítico e duro contra a criminalidade e sofre seguidas represálias, na edição 116 por um Monstro (um homem com superforça brutal, chamado de Smasher na versão original e nesta nova de Man-Monster) e, em seguida, nos números 117 e 118, por um criminoso mascarado chamado Disruptor, que é o líder de um sindicato do crime. No fim das contas, o Homem-Aranha termina descobrindo que Raleigh é o Disruptor, e que estava fazendo um jogo duplo para aumentar o seu poder, na política e no crime. Porém, como ninguém mais presenciou a revelação, e considerando que o Homem-Aranha era perseguido pela polícia como um assassino, Peter decide repetir a mesma estratégia que usara com Norman Osborn, protegendo a identidade do vilão: um monólogo final mostra o herói refletindo que preferia deixar a população acreditar nas boas intenções de Raleigh, pois “a história precisa de mitos e de mártires”. Por mais pervertido que ele fosse como pessoa, virou um símbolo de uma coisa boa e Peter decidiu preservar isso. É uma trama bem inteligente, com reviravoltas e pautada em uma série de debates políticos – tanto na primeira quanto na segunda versões – e funciona muito bem. Esse tom mais adulto e sério, falando de política, reforçava os elementos da Era de Bronze na qual Amazing vinha se desenvolvendo.

Contudo, o fato do reuso da história criou um problema cronológico à cronologia geralmente mais amarrada da Marvel – em contraposição à fluidez da Distinta Concorrente. A maior questão é que como a história foi originalmente publicada em 1968, a morte de Raleigh é referendada em Daredevil 42, de 1969, o que cria a dúvida de qual das histórias é válida para o cânone. Todavia, dos males o menor, e o resultado é uma ótima história.

Mas era só a entradinha para o que viria a seguir.

A Morte de Gwen Stacy

À esta altura, não é surpresa para ninguém que Gwen Stacy morreu, num dos momentos mais dramáticos da história dos quadrinhos e no momento máximo de drama do Homem-Aranha, num evento bombástico não somente à vida de Peter Parker, mais ao próprio mercado editorial e à mídia ao qual pertenciam.

Na verdade, a história dos bastidores editoriais que levaram à morte de Gwen Stacy são mais mundanas. Numa reunião no final do ano de 1972, o editor Roy Thomas se sentou com Conway e Romita para discutir os planos anuais do cabeça de teia. A questão é que até aquele ponto, a relação entre Peter Parker e Gwen Stacy tinha chegado ao limite: só havia a possibilidade de separação ou casamento, pois as histórias da Marvel desenvolviam os personagens de modo contínuo, ao contrário do status quo irremovível da DC Comics da época. Mas casar o Homem-Aranha era algo totalmente fora de questão e, nas histórias de 1971, a separação temporária do casal gerou muitas reclamações dos leitores, que tinham grande afeição pela personagem. Todavia, tanto Conway como Romita preferiam Mary Jane Watson, com sua personalidade mais expansiva, alegre, extrovertida e até certo ponto imprevisível. Uma personagem mais dinâmica de escrever e cativante de ler. Mas Gwen estava no caminho dela para chegar de fato em Peter.

Então, na reunião editorial Romita sugeriu que matassem Gwen. Conway e Thomas gostaram da ideia, pois era algo radical e inédito, bem típico da Marvel. Como era algo importante em relação ao Homem-Aranha, eles levaram o tema até Stan Lee, que à princípio foi contra, afinal, era uma repetição, tendo em vista que já tinham matado o pai dela. Mas o entusiasmo do trio o convenceu e pensou que podia confiar no tino de sua equipe. Autorização dada, morte decretada.

O trio Thomas, Conway e Romita preparou o cenário com cuidado, incluindo dois capítulos prévios, reunindo os elementos necessários à história que viriam em seguida. Assim, Amazing Spider-Man 119 e 120 trazem uma aventura em duas partes na qual Peter Parker é enviado pelo Clarim ao Canadá para cobrir a perseguição do exército ao Hulk, o que claro, era a desculpa perfeita para pôr o escalador de paredes contra o golias verde. Infelizmente, a edição 119 é o último número regular de Amazing desenhado por John Romita. O desenhista preferiu voltar ao esquema que funcionou muito bem dois anos antes, no qual Gil Kane fazia a arte com suas angulações ousadas e expressões fortes; e Romita fazia retoques decisivos, deixando sua marca. Talvez tenha sido excesso de humildade de Romita – o maior e mais clássico dos desenhistas aracnídeos – mas por outro lado, como escrevemos na Parte 01, a combinação Kane + Romita é simplesmente explosiva, rendendo alguns dos quadros mais bonitos e fortes de toda a história do personagem.

Norman Osborn culpa Peter Parker pela situação de Harry em ASM 119, por John Romita.

Além da beleza de um confronto físico entre o Aranha e o Hulk, a maior importância daquelas edições prévias era o contexto pessoal de Peter. Na edição 119, antes de ir ao Canadá, Peter presencia Harry Osborn passar mal na rua e vê Norman Osborn ter uma reação violenta à sua aproximação, culpando Peter pelo estado de Harry. Novamente, o uso de drogas por parte de Harry voltava à tona. Claro, ao ver o comportamento de Norman, Parker teme – acertadamente – que a personalidade do Duende Verde está voltando à tona.

Harry passa mal por causa do LSD, com Gwen e Mary Jane. Arte de Gil Kane e John Romita.

Peter fora ao Canadá também para encontrar o Dr. Jean Pierre Rimbaud, em Montreal, que tem uma informação importante para ele, mas ao encontrá-lo, na edição 120, o homem é baleado misteriosamente. Peter não sabe, mas era um tema que interessava ao Dr. Octopus e que será revelado no futuro. Também na edição, Peter fala com Gwen pelo telefone e ela pede que ele volte o mais breve possível, porque Harry teve uma recaída da overdose de drogas de meses atrás.

Chega então o grande momento: Amazing Spider-Man 121, de junho de 1973, com roteiro de Conway, arte de Kane e tinteiro (e arte complementar não-creditada) de Romita. A capa, no típico drama exagerado da Marvel mostra os rostos dos principais personagens coadjuvantes e o Homem-Aranha dizendo que um deles vai morrer. Qualquer leitor pensou que fosse um blefe, como muitas outras vezes. E não é dito quem. O fato é que a morte de Gwen Stacy não foi anunciada, foi um total surpresa ao leitor. Tanto que o título da história – The night Gwen Stacy die’s (A noite em que Gwen Stacy morreu) só aparece na última página da revista, deixando os leitores da época totalmente boquiabertos e sem saber o que pensar.

As belas angulações e expressões de Gil Kane envernizadas belamente pelo traço de Romita. Incrível!

Na trama, Peter volta do Canadá e vai correndo visitar Harry, que está no apartamento do pai e não naquele em que os dois dividem. Lá ele encontra Gwen e Mary Jane, que velam o amigo, que está muito mal e tendo alucinações. O médico diz aos jovens que Harry passou a usar uma droga mais poderosa agora: LSD! É a primeira vez que uma droga desse tipo é nominalmente citada em uma revista da Marvel. Na ocasião anterior em que Harry usou entorpecentes, eles eram chamados apenas de “pílulas”. Mas então, Norman Osborn chega e, repetindo o comportamento que tinha tido duas edições atrás, se mostra incrivelmente agressivo com Peter e o expulsa de sua casa, o que leva o rapaz tanto a achar que Norman pensa que ele passou as drogas ao amigo, quanto que o Duende Verde pode estar voltando.

E é o que acontece! Norman está sob grande pressão, pois seus negócios estão em ruína, também. Então, ele lembra que é o Duende e decide se vingar violentamente de Peter. E qual a melhor forma? Ele sequestra Gwen e a leva para o topo da Ponte do Brooklyn. (O diálogo identifica a Ponte George Washington, mas o desenho mostra a do Brooklyn e todas as referências futuras são a esta localização e não a outra). Com a jovem desacordada, Duende e Aranha têm uma batalha feroz nos céus – afinal, apesar do vilão saber a identidade de Peter nas ocasiões passadas, nunca fizera nada tão pessoal contra ele – até o ponto que, sem nenhum propósito, apenas maldade, Norman atinge Gwen com seu jato de morcego e ela cai da incrível altura da ponte.

A dramática cena da morte de Gwen Stacy, por Conway, Kane e Romita…

Desesperado, Peter tenta usar sua teia para frear a queda, mas com medo e desesperado, comete um erro fatal: o único fio de teia para a queda de modo tão brusco que o pescoço dela se quebra. E ela morre! Para não deixar dúvidas, Romita acrescentou a onomatopeia “snap”.

… produziu um dos momentos mais marcantes dos quadrinhos.

Em uma cena de partir o coração, Peter pega a amada pelos braços e tenta acordá-la, mas já sabendo que é impossível. Gwen está morta!

Até aquele ponto, nunca antes a namorada de um personagem importante dos quadrinhos tinha morrido. Ainda mais assim, de uma forma tão forte, tão a sangue-frio. Foi um gesto ousado e revolucionário da Marvel e pegou os leitores desprevenidos. E outro lembrete de que a Era de Bronze de fato trazia tramas mais sérias e adultas.

A emocionante cena entre Peter e Harry alucinando.

ASM 122 prossegue imediatamente, com o Duende Verde fugindo para mover outros planos e vemos um Peter simplesmente possesso em encontrar Norman Osborn e se vingar. Há até outra cena de partir o coração, quando em suas vestes civis, Peter simplesmente vai até o apartamento de Norman, mas só encontra Harry, que está alucinando e pede ajuda ao amigo. O herói hesita, mas o desejo de vingança é mais forte e ele vai embora, deixando o melhor amigo desamparado e desesperado. Um gesto que teria sérias consequências no futuro não tão distante.

Peter vai ao Clarim e pede ajuda de Joe Robertson sobre o paradeiro de Norman Osborn e consegue uma localização, encontrando o Duende, os dois têm outra batalha feroz no esconderijo do vilão. Mas não é uma luta justa: o Aranha está tão obcecado que surra o Duende de um jeito jamais visto. Na verdade, está prestes a matá-lo quando cai em si, que poderia se tornar um assassino!

O feroz conflito com o Duende Verde…

Mas Norman não está liquidado… Com a pausa, ele ativa o jatinho em forma de morcego – que fora amassado pelo herói – numa tentativa de empalá-lo. Contudo, o sentido de aranha alerta o herói que desvia no último instante.

O jato passa direto e atinge o Duende bem no peito, empalando e esmagando Norman, que morre dependurado na parede.

… e morrendo empalado. Clássico dos quadrinhos por Conway, Kane e Romita.

Sem dúvidas um final violento e também inesperado. Normalmente, as mortes de vilões eram retratadas de modo indireto… em meio a uma explosão, a uma queda de grandes altitudes no qual não vemos o desfecho da cena, esse tipo de coisa. A morte do Duende Verde mostrada de modo brutal e explícita foi algo muito adulto.

Nas outras ocasiões, Peter protegera a identidade de Norman, mas daquela vez, decidiu deixar o empresário ser descoberto pelas autoridades. Ao ouvir as sirenes chegando, deixa o Duende empalado no chão e vai embora. Contudo, sem o seu conhecimento, mas à vista do leitor, vemos que há uma terceira pessoa assistindo a tudo, o que dá início a outro arco que irá se desenvolver em breve.

O tocante momento entre Peter e MJ após a morte de Gwen, por Conway, Kane e Romita.

Mas a edição 122 ainda termina com uma nota melancólica: ao chegar em casa, Peter vê que Mary Jane está lá, esperando para consolá-lo pela morte de Gwen. Ele reage mal, descontando sua raiva e frustração na garota, reclamando do espírito sempre “alegre e para cima” dela e que ele não quer estragar o dia dela. MJ, não diz nada, apenas chora e vai até a porta, mas numa cena sem palavras, Kane e Romita mostram hesitando e fechando a porta, permanecendo para ajudar Peter. Lindo e tocante. Ainda mais sabendo o que viria depois.

Um parêntese: hoje em dia, esse arco de histórias é um clássico absoluto dos quadrinhos, mas na época, causou revolta dos fãs mais ardorosos, afinal, Gwen Stacy fora a namorada de Peter Parker por muito tempo. Daí em diante, centenas ou milhares de cartas começaram a chegar à Marvel reclamando da morte dela.

Amazing Spider-Man 123 continua quase do mesmo ponto: ainda por Conway, Kane e Romita, vemos a polícia recolhendo o corpo de Norman Osborn – e exibir explicitamente um cadáver também era algo totalmente incomum aos quadrinhos de super-heróis de então – e ficamos sabendo que o empresário foi achado em suas roupas civis e que os detetives perceberam que o corpo fora mexido e a cena do crime alterada, o que mostra que o segredo da identidade secreta do Duende Verde continua preservado. Mas quem fez isso? Nessa tocante edição, vemos os funerais tanto de Gwen quanto de Norman, e vemos que Harry aparece bem melhor, mas está furioso com Peter – e presumimos que foi por causa da cena da imploração, certo? Mais adiante…

Mas a trama prossegue: replicando um pouco o espírito de Marvel Team-Up, temos um embate do Homem-Aranha com Luke Cage, novo personagem da Marvel feito na onda do Blaxploitation , ou seja, da emergência da cultura negra nos Estados Unidos, a partir de filmes como Schaft, séries de TV e da música. Era uma forma de apresentar o novo herói para um público maior, técnica que se tornaria constante nas histórias do aracnídeo. Luke Cage fora criado pouco antes por Archie Goodwin e John Romita e foi o primeiro afrodescendente a ter uma revista própria nos quadrinhos, Luke Cage, the Power-Man. O Pantera Negra aparecia nas aventuras do Quarteto Fantástico e dos Vingadores (e no futuro breve teria aventuras solo); enquanto o Falcão até dividia o título da revista do Capitão América – então, chamada de Captain America & The Falcon, mas ele ainda dividia o título. Cage era o primeiro a ter uma revista solo com seu nome.

O motivo do encontro dos dois heróis era apenas um fiapo típico de MTU: J.J. Jameson está indignado e culpa o Homem-Aranha pelas mortes tanto de Gwen Stacy quanto de Norman Osborn (seu amigo) e decide contratar Luke Cage, que é um herói de aluguel, para caçar o Aranha. O cara durão do Harlem vai, mas depois percebe que Jameson é o canalha da história e devolve o dinheiro.

A Marvel já tinha o Lobisomen da Noite (Werenwolf by the night), mas por que não ter outro? ASM 124 e 125 trazem a estreia do Homem-Lobo, um monstro meio homem, meio lobo, que ataca J.J. Jameson, até que o Homem-Aranha percebe que o vilão é ninguém menos do que John Jameson, o filho de Jonah. Ao voltar de uma missão na lua – estamos em 1973, lembrem! – o astronauta John trouxe uma pedra lunar que passou a usar no pescoço, mas é uma peça mítica que o transforma em lobo na lua cheia, e ele não consegue arrancar o colar, que está pregado à sua pele. Infelizmente, o Aranha não sabia disso e ele arranca a pedra com pele e tudo – outra ação violenta da revista – e cura o rapaz, ao custo de um grande ferimento.

Começa a Era Ross Andru

Infelizmente, ASM 124 é o número de despedida da dupla Gil Kane e John Romita. O duo matador faz sua última história aracnídea juntos. Àquela altura, Kane já era um dos principais ilustradores da Marvel e um dos três capistas oficiais da editora, ao lado do próprio Romita e de John Buscema. A edição 125 traz a estreia de Ross Andru como o artista de Amazing, saindo da secundária MTU para o título principal.

Andru tinha uma arte que guardava alguma coisa do estilo de Romita – embora sem a leveza deste – e sabia também colocar o Aranha em poses estranhas e rastejantes, como uma aranha faria, mas principalmente, Andru era muito bom com a criação de cenários. Obsessivo com os detalhes do fundo, Andru criava cenários extremamente realistas, com o desenho de prédios e ruas. O artista morava em Nova York e fotografava a cidade para usar as imagens como referência, sendo capaz de manter uma incrível distribuição espacial em sua arte, fazendo os personagens se deslocarem por grandes cenários, como os telhados da cidade. O artista ficaria na arte de Amazing pelos próximos 5 anos de modo praticamente ininterrupto.

Exemplo dos detalhados cenários de Ross Andru.

A primeira edição ainda teve a arte final de John Romita para garantir uma “transição segura”, mas a partir de ASM 126, a tinteria fica com Jim Mooney. Entretanto, Romita continuaria a fazer as capas de Amazing por muitos anos à frente, embora nunca fazendo a arte interna.

A partir de então, John Romita se despedia das histórias do aracnídeo para se dedicar “somente” ao cargo de Diretor de Arte da Marvel, que ocupou até se aposentar no final dos anos 1980. Com isso, teve um papel de enorme importância no desenvolvimento da Marvel e na criação de inúmeros personagens e sagas. Um único exemplo: em 1974, o escritor Len Wein queria um novo opositor para o Hulk; Romita desenhou um baixinho de uniforme amarelo, que deveria ser o primeiro super-herói canadense (país em que as revistas Marvel faziam enorme sucesso), enquanto Wein o batizou de um nome impactante – Wolverine.

A edição 126 trazia o retorno do Canguru, agora, com os poderes incrementados pelo Dr. Jonathan Harrow, o mesmo cientista que criara o Cabeça de Martelo. Mas o Canguru termina morrendo ao se expor à radiação ao tentar roubar um artefato especial. Mais importante: o Aranha recebe uma proposta da Carter & Lombardo empresa do grupo Corona Motors para desenvolver um carro temático, um golpe de publicidade. Ele recusa, mas depois, quando percebe que Harry Osborn anda estranho desde a morte do pai, que nunca está em casa e que o aluguel do apartamento deles está dois meses atrasados, Peter percebe que precisa do dinheiro, e concorda, indo até o Tocha Humana, alguém que entende muito de automóveis, para ajudá-lo a criar o design do carro. É o início da pequena saga do Aranha-Móvel.

Um pequeno detalhe editorial: o Aranha-Móvel – que logo mais aparecerá – foi fruto de uma ação real de merchandising da Marvel com uma empresa de brinquedos e, por isso, o publisher Stan Lee obrigou o escritor Gerry Conway a incluir o veículo na revista. Conway de início recusou, com o argumento lógico de que um cara que se balança por teias não precisa de um carro, mas Lee era o chefe. A contragosto, o escritor criou a história. Essa foi apenas a primeira rusga de Conway com Lee.

Um Harry Osborn paranóico e drogado se transforma no novo Duende Verde. Arte de Ross Andru.

Por fim, de volta à edição 126, vemos Mary Jane indo até o apartamento dos rapazes, tentando convencer Harry a sair e ir a um cinema, como ele finge que não está em casa, a garota diz que o namoro dos dois acabou e vai embora furiosa. É mesmo o fim do estranho romance entre MJ e Harry, e o leitor já deve suspeitar o que vem pela frente. Mas antes disso, vemos Harry aliviado porque ela foi embora e segurando o uniforme do Duende Verde, finalmente revelando que ele era o homem que presenciou a morte de Norman.

O Início da Saga do Chacal

O Homem-Aranha investiga um assassinato pelo Abutre em ASM 127 e 128, apenas para descobrir nesta última edição que não se tratava do bom e velho Adrian Toomes, mas um impostor se passando pelo vilão alado, chamado Clifton Shallot, sendo portanto, o terceiro a usar a identidade do Abutre. A passagem de uma edição para a outra mostra o Abutre subindo aos céus e lançando o herói lá de cima, desculpa perfeita para Andru desenhar um de seus grandes painéis realistas da cidade de Nova York vista do alto.

As edições também mostram a tensão crescente entre Peter e Harry Osborn, embora o herói ainda não entenda o que está acontecendo com o seu amigo.

A edição 127 mostra outra vez após algumas poucas edições Peter Parker receber uma reprimenda do professor Miles Warren sobre o não comparecimento em suas aulas, o que é um risco à sua bolsa de estudos. A aparição de Warren não era gratuita, como o futuro logo mostraria. Os números 127 e 128 também mostram o Aranha e o Tocha Humana continuando a trabalhar no projeto do carro especial da Carter & Lombardo.

A capa de “Amazing Spider-Man 129” traz a primeira aparição do Justiceiro. O vilão Chacal também faz sua estreia. Arte de Gil Kane.

Então, temos as estreias do anti-herói Justiceiro em Amazing Spider-Man 129, de fevereiro de 1974, juntamente com o vilão Chacal, que seria o mais importante dessa fase do Aranha. Embora Ross Andru faça a arte interna dessa história, na verdade, o visual de ambos os personagens foram criados por John Romita, em seu papel como Diretor de Arte da Marvel, responsável prioritário por criar ou supervisionar o visual de personagens. Contudo, achando que a imagem de capa precisava de uma dinâmica de movimento, com o Aranha desviando dos tiros do Justiceiro, Romita designou Gil Kane para fazer a capa.

O misterioso Chacal na arte de Ross Andru.

Na trama de Conway e Andru, vemos o manipulador Chacal contratar o Justiceiro para matar o Homem-Aranha, porque afinal, o escalador era então tido como um criminoso, com responsabilidade nas mortes de George e Gwen Stacy e Norman Osborn. Vemos que o Justiceiro é um ex-marine (ou seja, fuzileiro naval) e que age movido por um código moral extremo: eliminar criminosos. Induzido pelos editoriais do Clarim e a laia do Chacal, Castle inicia uma caça ao Aranha, o que dá bastante trabalho ao herói; mas no fim das contas, o Justiceiro termina por perceber que está no lado errado desse jogo, e deixa o cabeça de teia seguir seu rumo. Os dois não terminam como aliados, mas nasce uma relação algo respeitosa de Castle em relação ao aracnídeo, embora este o considere um criminoso como qualquer outro.

Aranha versus Justiceiro por Ross Andru.

Mas a história deixa em mistério quem é o Chacal e qual a sua motivação numa vingança contra o Homem-Aranha. Assim, Conway resgata outra herança de Lee e Ditko, apresentando um vilão de identidade desconhecida que obriga aos leitores ter que especular quem ele é.

Quanto ao Justiceiro, voltaria a aparecer muitas vezes na revista, até ganhar suas próprias aventuras nos anos 1980. (E três filmes para o cinema e duas séries de TV, depois disso).

A edição 129 ainda traz alguns desenvolvimentos pessoais para Peter: ele lembra que o aluguel de seu apartamento com Harry Osborn está com dois meses de atraso e seu colega não fala mais com ele por motivos ignorados; e também recorda que o professor Warren está lhe cobrando mais presença nas aulas.

O Aranha-Móvel, por Conway e Andru.

Mas a trama do Chacal estava apenas começando e ele seria o principal oponente do Homem-Aranha por todo o restante da fase de Gerry Conway até o fim, em 1975, inicialmente mais como alguém à espreita, e depois, mais diretamente. Em ASM 30, o cabeça de teia estreia o seu Aranha-Móvel (e deixa o Tocha Humana aturdido pelo fato de não ter uma carteira de motorista e nunca ter dirigido um carro até aquela ocasião!!!). O carro é cheio de apetrechos especiais, como disparador de teias, o sinal luminoso do herói e até é capaz de escalar as paredes também!

Vemos o Cabeça de Martelo regressar à Nova York e retomar seus planos de domínio no submundo. O gangster é abordado pelo Chacal, sugerindo uma aliança, mas o Martelo considera o vilão “apenas um maluco fantasiado” e não lhe dá bola. O Doutor Octopus também está à solta e desenvolvendo um plano. Por sua vez, enquanto o Cabeça de Martelo e o Aranha (e o Aranha-Móvel) disputam uma acirrada batalha, o Chacal deixa um envelope no carro para que o herói leia.

Mary Jane tenta beijar Peter na festa e ele recusa. Por Conway e Andru.

Só que Peter precisa aparecer na festa de Natal de Ned Leeds e meio que esquece do papel. Na festa, um desenvolvimento interessante acontece: Mary Jane tenta lhe roubar um beijo, mas ele recusa, dizendo que ainda não está pronto para isso. Depois que sai lê o envelope que revela quais os planos de Octopus com a tia May! Correndo desesperado até a cidade de Westchester, no estado de Nova York, onde está a propriedade rural de Octavius e chega há tempo de ver que ele está prestes a casar com May!

May quase se casou com o Dr. Octopus, em Amazing Spider-Man 131. Arte de Ross Andru.

Viramos à ASM 131 onde a disputa entre Octopus e o Cabeça de Martelo é retomada em sua glória. Enquanto o Homem-Aranha assiste aturdido sua tia May prestes a se casar com Otto Octavius e não sabe bem o que fazer, Cabeça de Martelo e seus homens chegam à cerimônia e estragam tudo em uma saraivada de tiros. Somente agora o leitor descobre qual o plano de Octavius para May: a idosa herdou de um parente distante falecido, uma ilha no Canadá que contém uma instalação nuclear que o vilão quer se apropriar.

O Cabeça de Martelo acaba com a festa! Por Conway e Andru.

Mesmo com a cerimônia interrompida, Octopus e May partem em um helicóptero e o Aranha é nocauteado e deixado para trás, embora consiga ir de carona escondido no helicóptero do Cabeça de Martelo. Ambas as naves terminam indo até a ilha, mas o ataque do gangster termina ativando a contagem de uma explosão. Peter consegue fugir em um avião carregando May (que desmaia ao ver o herói) e uma explosão nuclear devastadora destrói a ilha, presumivelmente, matando os dois vilões. (Claro, que não).

Mary Jane mostra que é mais do que aparenta.

Enquanto tudo isso acontece, Mary Jane ainda está na festa de Natal, esperando que Peter retorne, e Ned Leeds lhe diz que Gwen acabou de morrer e que ele precisa de um tempo. A jovem decide ir embora, achando que Peter não vai mais voltar, e Betty Brant tenta conversar com ela, e MJ tem uma interessante fala sobre como ela seria incapaz de amar Peter, ao mesmo tempo em que gosta demais dele para que o permitisse se envolver com ela. Betty fica confusa e pede que ela fale mais, mas MJ diz para deixar para outro dia.

É um desenvolvimento interessante para MJ como personagem, gradativamente deixando de ser a “cabeça de vento” que sempre foi retratada por Lee e Romita, para alguém mais profunda e problemática que se esconde sob essa máscara festiva.

Liz Allan reencontra Peter após anos, por Conway e Romita.

As edições 132 e 133 trouxeram o retorno do Magma (The Molten Man) após um longuíssimo tempo (ele aparecera em ASM 28 e 35), com o vilão ficando mais mortífero e radioativo, ferindo gravemente Ned Leeds. E mais, com a volta de Lizz Allan (curiosamente chamada de “Allen” na maior parte de suas histórias dos anos 1970, só anos mais os roteiristas perceberam que ela era chamada de Allan nos anos 1960 e decidiram mudar retroativamente), com a trama estabelecendo que ela é meia-irmã do vilão. A história é cheia de lembranças, já que Lizz – colega de classe de Peter na escola – deixara de ser uma personagem coadjuvante após a formatura do colégio (em ASM 28, embora tenha aparecido brevemente na edição 30). Eram nada menos do que 102 edições de intervalo!!! Dali para frente Lizz permaneceria como parte do elenco civil de Peter, ainda que de modo mais casual.

Ah, e não menos importante… a edição 132 foi desenhada por John Romita, cobrindo as férias de Ross Andru.

Revistas Especiais

A condução da Marvel sob a égide de Roy Thomas trouxe algumas mudanças. O editor percebeu, por exemplo, que as edições Anuais não vendiam mais como antes. Em parte isso se dava pelo fato de que essas revistas deixaram de trazer eventos bombásticos – como as primeiras do Aranha (veja lá na Parte 01) – e se tornaram histórias “menores”. Então, Thomas lançou um novo conceito em 1973: as revistas Giant-Size, que eram publicações maiores, com mais páginas e formato maior (magazine) destinadas, como antes, a grandes histórias. E mais: não seriam anuais, mas edições quadrimestrais, tentando retomar a grandiosidade do tempo em que a concorrente DC Comics usava esse recurso nas revistas Superman e Batman, enquanto Action Comics e Detective Comics traziam suas histórias mensais. Os Vingadores, por exemplo, ganharam uma revista Giant-Size Avengers, que teve 4 edições.

Em 1974, Thomas tentou criar uma revista chamada Giant-Size Super-Heroes Marvel, para trazer aventuras aleatórias dos personagens, mas ela terminou tendo um único número, com uma aventura escrita por Gerry Conway e desenhada por Gil Kane, trazendo uma luta do Homem-Aranha com Morbius e o Lobisomen Noturno (e fazendo uma ponte entre as linhas tradicional e de terror da editora), mas o resultado não foi satisfatório e não houve outras revistas.

Também no verão de 1974 chegou às bancas Giant-Size Spider-Man 01, uma revista destinada a copiar a fórmula de Marvel Team-Up, ressaltando encontros do herói com outros personagens. Mas como “diferencial” trouxe uma batalha do Homem-Aranha contra o Drácula, a estrela da revista The Thomb of Dracula, publicada em magazine e um grande sucesso entre o público adulto. A trama foi escrita por Len Wein (que cuidava de MTU) e desenhada por Ross Andru, com capa de John Romita. Uma curiosidade é que Thomas assinou uma nota na revista deixando claro que Drácula e outros personagens como Conan, Kull, Killkraven e outras propriedade licenciadas que a editora publicava na época, eram todas parte do Universo Marvel.

A segunda edição de Giant-Size Spider-Man saiu em outubro de 1974, seguindo o mesmo estilo, trazendo um team-up com Shang-Chi, o Mestre do Kung Fu, numa história de Len Wein e Ross Andru, com capa de Gil Kane e John Romita. A Giant-Size Spider-Man 03 saiu em janeiro de 1975, com um encontro com Doc Savage, o famoso personagem da literatura pulp pré-quadrinhos ao qual a Marvel tinha os direitos de adaptação às HQs na época, numa história de Gerry Conway e Ross Andru e capa de Gil Kane; enquanto a edição 04 saiu em abril de 1975, com um explosivo encontro com o Justiceiro, de novo por Conway, Andru e capa de Kane; e a edição 05, de julho de 1975, o colocava contra o Homem-Coisa, também por Conway e Andru.

O Segundo Duende Verde

De volta à revista mensal, um novo vilão estreia: o Tarântula em Amazing Spider-Man 135. Na trama, continuando com Conway e Andru, Peter se reúne com Mary Jane, Flash Thompson e Lizz Allan para um passeio de barco, mas a embarcação é sequestrada pelo Tarântula, um criminoso latino.

O momento em que Harry confirma que Peter é o Homem-Aranha.

Durante a luta, o herói termina na água e sem teia, então, vai correndo em casa para pegar mais fluído. Mas sem ele saber, Harry Osborn o flagra entrando e saindo, sendo o momento em que ficamos sabendo que o jovem sabe a identidade secreta do colega e somos lembrados que está planejando algo. De volta à luta com o Tarântula, o herói termina envenenado pelas lâminas das botas do vilão e fica meio desacordado, e quando desperta, vê que o Justiceiro está apontando uma arma para ele.

Passa à edição 136, onde de novo, o Justiceiro se convence que o Aranha é inocente e vai embora, marcando um encontro à meia noite em um museu. Peter salva sua identidade secreta fingindo ter caído na água, o que convence MJ e Lizz, mas Flash fica desconfiado. O herói volta para seu apartamento e enquanto toma um banho, Harry Osborn entra no seu quarto e confere se o uniforme de Homem-Aranha está lá, confirmando o segredo de seu “amigo”. Depois, o Justiceiro lhe conta a origem do Tarântula e os dois partem atrás do bandido, pegando-o. A edição termina com Harry no esconderijo em que seu pai morreu, cercado dos equipamentos do Duende Verde e jurando se vingar do homem que o matou: Peter Parker.

Mas vale à pena informar que, cerca de um ano após a publicação dessa história, o Justiceiro ganharia sua primeira aventura solo, em Marvel Preview 02, na qual Gerry Conway e o desenhista Tony DeZuniga, contam a origem de Frank Castle pela primeira vez.

Segue-se, então, as bombásticas edições 136 e 137, nas quais Conway e Andru trazem o retorno do Duende Verde. Quer dizer, do segundo Duende Verde! Amazing 136 começa com Peter e Mary Jane tendo um encontro diurno, fazendo vários passeios até decidirem ir para o apartamento dele para ouvirem o novo disco de Ella Fitzgerald. Ao chegarem ao apê que divide com Harry Osborn, MJ vira a chave na porta, e uma grande explosão vem de dentro da residência. O sentido de aranha habilita Peter para usar seu corpo como escudo para proteger MJ do impacto mais mortífero, mas ainda assim, ele fica bem machucada e inconsciente. As sirenes respondem rápido e Peter só tem tempo de pegar seu uniforme guardado e jogá-lo no teto do prédio vizinho, e seguir com as autoridades para o hospital.

Peter fica pensando em o que pode ter acontecido e olha para MJ pensando que Gwen Stacy também tinha morrido. Um ataque pessoal daquele só poderia vir do Duende Verde. Mas como? Ele tem suspeitas que não ousa nem cogitar. A memória dos eventos é uma boa oportunidade de Ross Andru recontar os eventos em um único quadro de página inteira refazendo os quadros de Kane e Romita.

Ainda assim, após se certificar que a garota está bem e falar com ela brevemente, o Homem-Aranha segue ao esconderijo em que Norman Osborn morreu e, embora esteja vazio e empoeirado, logo percebe que é um truque, e fica de tocaia por várias horas esperando o vilão voltar. Então, o Duende Verde cruza os ares e, embora o vilão diga que é o “verdadeiro”, Peter percebe imediatamente que é Harry Osborn. Os dois lutam, mas o Aranha não consegue imprimir força nos golpes, com medo de machucá-lo, e termina sendo nocauteado pelo gás do jato. O Duende tenta matá-lo com a energia nas luvas, mas elas esgotaram, o herói desperta e o vilão foge.

Harry Osborn estreia como o segundo Duende Verde. Arte de Ross Andru.

A batalha de Peter e Harry é um ótimo exemplo do talento de Andru para cenas dinâmicas e de movimento, ao mesmo tempo em que demonstram os personagens deslizando pelo cenário complexo que o artista gostava de realizar.

Com Harry louco e à solta e MJ no hospital, Peter decide ir ao Clarim Diário e pede uma semana de folga a Jameson, que recusa, então, o jovem se demite. É o fim do emprego estável do herói, que havia iniciado em ASM 99.

Passamos à edição 137, na qual vemos o Duende Verde roubar um artefato radioativo de um caminhão e Peter indo visitar Mary Jane no hospital, encontrando May, Jameson, Joe Robertson, Lizz Allan e Flash Thompson. Jameson tenta falar com ele sobre a demissão, mas Peter se recusa. O jovem ouve as notícias do roubo do Duende e vai à casa de Norman Osborn, onde reencontra o vilão. Após uma breve luta, Harry exibe um monitor que mostra May, MJ e Flash em recipientes de vidro: o artefato radiativo era uma bomba termonuclear e ele irá matar um dos três em apenas 6 minutos. O Homem-Aranha sai correndo desesperado, mas percebe que está sem fluído de teia e só terá tempo para uma única tentativa, indo atrás de May, salvando-a e jogando a bomba, que explode no rio Leste.

Harry revela à polícia que Peter é o Homem-Aranha, mas todos pensam que ele é louco.

De volta à mansão Osborn, o Aranha derrota o Duende e chama a polícia. Tirando seu uniforme e o de Harry, o entrega aos médicos, mas Harry diz aos policiais que Peter é o Homem-Aranha (que era procurado pelos assassinatos de George e Gwen Stacy e Norman Osborn). Os policiais ficam tensos, pois é uma acusação séria, e perguntam a Harry como ele sabe disso, no que o rapaz enlouquecido diz que ele é o Duende Verde. A pouca idade do rapaz convencem a polícia de que ele está delirando e Harry é levado para um hospital psiquiátrico.

ASM 138 é uma edição de transição, um respiro dos capítulos anteriores para seguir adiante. Na edição, Peter está desabrigado com seu apartamento destruído, o que somado ao não pagamento do aluguel – já citado antes – o leva a ser despejado imediatamente. Por sorte, Flash Thompson se oferece para abrigar Peter por um tempo em seu apartamento na distante Far Rockaway, fora de Manhattan e longe da zona de atuação do Homem-Aranha. É um retrocesso, mas ele pensa que isso seria temporário. Enquanto se ambienta, ele é atacado pelo Verme Mental.

A edição 139 também é outra de pausa, com Peter procurando por um lugar para morar com a ajuda de Lizz Allan e encontrando um novo apartamento em Chelsea, na rua Chelsea, 410, entre a 8ª avenida e a rua 112, cuja proprietária é a rabugenta Mamie Muggins, ao preço de US$ 110 ao mês – um valor muito baixo para a época. É um muquifo pequeno com sala, quarto, banheiro e cozinha, mas é o que ele pode pagar. Novamente, Ross Andru não perde a oportunidade de desenhar em detalhes realistas o apartamento e seus ambientes. É um movimento importante, pois Peter habitará este apartamento pelos próximos 13 anos de histórias publicadas do Homem-Aranha!

No quesito ação, como precisa pagar pelo apê, Peter vai ao Clarim em busca de reaver seu emprego, mas presencia um ataque do Urso (Grizzly), que quer matar J.J. Jameson. Apesar do oponente ordinário, o Homem-Aranha consegue ser subjugado tempo suficiente para o vilão escapar. Em busca de descobrir quem é o criminoso, Peter vai à Old Washington Plaza onde há um arquivo sobre os lutadores de luta livre, mas é atacado pelo Urso lá. Nocauteado, descobrimos que foi o Chacal quem contratou o vilão e que espera pegar o Homem-Aranha através de Peter. Na ASM 140, o Chacal implanta um bracelete em Peter e o deixa num beco. O rapaz é encontrado por Betty Brant e Ned Leeds e vão a um restaurante, onde ele descobre o que aconteceu: o Chacal usa um comunicador no bracelete para dizer que se ele remover, explodirá. Mas após realizar sua mudança para o novo apartamento, com a ajuda de Flash Thompson – e conhecer sua vizinha, a belíssima Gloria “Glory” Grant – o rapaz usa seus conhecimentos científicos para remover o implante e ir atrás do Urso, quando descobre que sua superforça vem da roupa, estraçalha o uniforme do vilão e o vence com facilidade.

Em seguida, ASM 141 e 142 mostram o herói perdendo o Aranha-Móvel, que cai no rio Hudson após uma perseguição pelo polícia, e trazem o retorno de Mysterio, mas após ser aturdido por uma série de ilusões e terminar machucando as mãos ao destroçar uma parede pensando ser seus inimigos, Peter é informado por Ned Leeds que Quentin Beck morreu um ano antes, logo após sua última prisão – que teria acontecido em ASM 67). Mesmo após a batalha, quando passamos à edição 142, Peter continua tendo alucinações, enxergando o Rei do Crime quando Mary Jane aparece para visitá-lo no novo apartamento. Após uma parada no Clarim – no qual Betty Brant e MJ têm uma outra conversa sobre os sentimentos de Peter e a ruiva lhe diz que as coisas estão mudando – Peter pensa que vê Gwen Stacy andando na rua. Por fim descobre um dispositivo causador de ilusões em sua roupa e, por meio dele, consegue rastrear Mysterio e vencê-lo em combate, apenas para descobrir que se trata de um impostor: Danny Berkhart, que foi colega de cela de Beck. Descobrimos também – mas não Peter – que foi Jameson quem financiou esse investida, e com a prisão de Berkhart, o editor foge às pressas para Paris. Mas no meio disso tudo, Ned e Betty dizem a MJ que irão se casar! É um importante desdobramento dos personagens, afinal, eles estão noivos desde os idos de ASM 36, de 10 anos antes! Ah, a edição 142 também trouxe Peter recebendo outra reprimenda do professor Warren, agora, por dormir na sala de aula e por suas notas oscilarem.

Por fim, é importante dizer, ASM 142, de março de 1975, é a primeira revista a trazer o crédito de Len Wein como editor-chefe da Marvel. Após pouco mais de dois anos à frente da editoria da Marvel – período no qual impulsionou o sucesso da empresa, trouxe vários novos personagens à publicação via licenciamentos, abriu novas vertentes editoriais além dos super-heróis (com linhas de terror, artes marciais, sagas especiais, feitiçaria, capa e espada, aventuras na selva etc.) – Thomas descobriu o que muitos escritores percebem quando ocupam esse tipo de cargo: que gostava mesmo era de escrever. Estressado pelas obrigações e conflitos do posto, pediu demissão e voltou a ser apenas um escritor do staff da Marvel, ainda que também tivesse o cargo “emérito” de editor assistente, o que na prática lhe dava muita liberdade para criar e gerir suas próprias revistas.

Len Wein nos anos 1970.

Len Wein nasceu no Bronx, em Nova York, em 1948, numa família judia, e se tornou um grande fã de quadrinhos na infância. Na adolescência fez uma grande amizade com Marv Wolfman, que se tornou uma voz ativa no fandoom (a comunidade de fãs organizados), e a dupla fez um teste para escreverem na DC Comics e foram aceitos. Duas histórias escritas por Wolfman e Wein foram publicadas em Tales of Teenage Titans (a revista dos Jovens Titãs) nos números 18 e 20, de 1969, quando Wein tinha somente 21 anos de idade (ainda que a última história tenha sido completamente reescrita e redesenhada por Neal Adams). Mas de qualquer modo, Wein começou a escrever como free lancer para a DC, especialmente na linha de terror (onde foi um dos criadores do Monstro do Pântano), mas em pouco tempo, já estava também assumindo histórias do Superman e uma temporada inteira na Liga da Justiça (edições 100 a 114, de 1972 e 1973); ao mesmo tempo em que também começou a escrever para a Marvel, primeiro com Warenwolf by the Night, e em seguida, Marvel Team-Up, com as histórias do Homem-Aranha a partir de 1973.

Considerado um escritor ágil e criativo, que elaborava roteiros muito visuais (pois começara a carreira como desenhista), Wein foi ganhando espaço na Marvel e assumindo revistas importantes como The Incredible Hulk (em 1974), Fantastic Four e Thor, ambas em 1975. Por sua confiança, o então editor chefe da Marvel, Roy Thomas, lhe confiou a missão de desenvolver um novo conceito para os X-Men, um time de heróis de terceira categoria na editora da época, que haviam sido cancelados por vendas baixas, mas a qual Thomas acreditava (com razão) que podiam fazer sucesso desde que melhor conduzidos. Thomas e Wein criaram a ideia de um grupo mais internacional e multiétnico e daí surgiram os chamados novos X-Men, com personagens como Tempestade, Colossus e Noturno, que Wein criou ao lado de Dave Crockum, e Wolverine, que Wein já tinha criado com John Romita para uma história do Hulk, lançados em Giant-Size X-Men 01, de 1975. Todo esse movimento tornou Wein o primeiro nome da lista para substituir Thomas no cargo de editor-chefe e ele aceitou, ficando um ano no posto.

A Primeira Saga do Clone

Na passagem de 1974 para 1975, Gerry Conway estava atolado em cartas de leitores que pediam a volta de Gwen Stacy. Mas ela estava morta e não ia mudar isso. (Ressuscitar dos mortos ainda não era uma prática comum nos quadrinhos, como é hoje). No entanto, o escritor teve uma ideia para satisfazer os leitores, pelo menos temporariamente: fazer um clone dela.

A trama começou a se desenvolver de modo gradual, no típico estilo da Era de Bronze, com pistas lançadas discretamente ao longo de várias edições até que os leitores percebam que “algo está acontecendo”. Afinal, o Aranha vira Gwen Stacy na rua na edição anterior, mas era apenas uma das ilusões de Mysterio, não? No começo de ASM 143, o herói pensa ter visto a garota de novo, mas pensa que é apenas o sentimento de culpa que carrega. A trama coloca Joe “Robbie” Robertson numa missão de levar 1 milhão de dólares do Clariim para ele, em Paris, e o editor de cidades pede a Peter para ir com ele. Peter pede permissão para se ausentar das aulas por alguns dias, e o professor Warren concede porque se impressionou com a melhora das notas dele nas últimas provas.

Mary Jane acompanha Peter ao aeroporto e os dois têm uma boa conversa. Quando chega a hora de embarcar, finalmente vemos o primeiro beijo entre os dois, selando o desenvolvimento da relação que vinham desenvolvendo nas últimas 20 edições da revista. Em Paris, descobrimos que Jameson foi sequestrado e Robbie é cercado pelos criminosos e nocauteado. Peter consegue agir sem que Joe o veja, mas é derrotado pelos vilões que fogem e precisa encarar o líder deles: Ciclone. Na ASM 144, o escalador tem um segundo round e consegue vencer o vilão e libertar Jameson e Roberton. Contudo, o mais importante vem nas últimas páginas, às quais faz referência a capa: primeiro, quando May Parker e Anna Watson saem para ver um filme, May passa mal ao ver uma garota; então, quando Peter volta de Paris, Anna está lhe esperando na entrada do prédio, dizendo que May está no hospital, mas que ele precisa ver quem está lá em cima esperando por ele. Ao subir as escadas vê Gwen Stacy diante dele!

O clone de Gwen Stacy aparece entre Peter e Mary Jane. Ned Leeds à esquerda. Texto de Conway, arte de Andru. 

Na edição 145, Peter deixa Gwen sozinha no local, convencido de que ela é uma impostora e vai ao hospital, visitar May. Depois, ele precisa confrontar o Escorpião, que saiu da cadeia, mas o vilão escapa, e de volta ao hospital, é esperado por Ned Leeds, Mary Jane e Gwen. Ned lhe conta que ela foi ao Clarim e checou suas impressões digitais (batem com a original) e verificou seu túmulo (intacto), dizendo que, de algum modo, existem duas Gwens! A garota, em desespero, sem saber o que fazer nem lembranças de sua morte, pede ajuda a Peter, que se vê embaraçado diante dos sentimentos que agora nutre por MJ.

Na ASM 146, vemos o Chacal está pronto para se vingar do Homem-Aranha após um longo período de planejamento e abordar o Escorpião para usá-lo como recurso. Orientado pelo Chacal, o Escorpião ataca May no hospital, o que leva Peter a supor que o Chacal sabe sua identidade secreta, mas ele consegue vencer o Escorpião.

O grande ataque do Chacal começa em Amazing Spider-Man 147, de agosto de 1975, quando Peter começa a cogitar que a “nova” Gwen Stacy pode ser um clone, e termina atacado pelo Tarântula, iniciando uma batalha esganiçada pelas ruas da cidade (outro incrível exemplo da habilidade espacial de Ross Andru) até pararem dentro de um ônibus, no qual Gwen está e é dirigido pelo Chacal. Derrotado, o Homem-Aranha acorda no topo da Ponte do Brooklyn e amarrado em grossas correntes, ladeado pelo Chacal, Tarântula e Gwen. Ali, o vilão principal explica seu plano: quer se vingar o escalador pela morte da verdadeira garota dois anos antes e fez o clone para isso. Esclarecido o plot, Chacal dá a ordem e Tarântula chuta o herói de cima da ponte para a mesma queda que condenou seu amor.

É interessante notar que essa história (e a anterior e as seguintes) afirmam várias vezes que Gwen Stacy (e Norman Osborn) morreram dois anos antes, o que equivalia ao tempo real de publicação das aventuras. Essa é uma estratégia curiosa, pois os quadrinhos normalmente correm num tempo muito mais “lento” do que o real, de modo que os personagens não envelhecessem. Essa informação seria ignorada no futuro, pois a cronologia estabelecida pela Marvel – de modo mais preciso alguns anos mais tarde quando o editor chefe fosse Jim Shooter – estabelecia que, nesta história, Gwen tinha morrido apenas alguns meses antes. Para ser mais exato: Gwen morreu no fim do Ano 3 do Homem-Aranha (e da Era Moderna da Marvel, iniciada com o surgimento do Quarteto Fantástico) e que essa trama do Chacal se passava pouco depois do início do Ano 4.

Em ASM 148, o Homem-Aranha consegue parar sua queda facilmente com sua teia, mas ainda está acorrentado e para no cais, onde é pego pela polícia.. Mas quando um oficial quer ganhar publicidade desmascarando o herói diante das câmeras dos repórters que chegam, o cabeça de teia usa a distração para fugir. Mas o trio Chacal, Tarânturla e Gwen também fugiu. De volta ao seu apartamento da rua Chelsea, Peter encontra MJ que lhe dá um ultimato entre ficar com ela ou com Gwen (o que convenhamos é um movimento estúpido, dada as circunstâncias), ele bate a porta na cara dela, mas depois se arrepende, mas ela já foi embora. Depois, Ned Leeds aparece e lhe explica que continuou sua investigação, chegando à mesma conclusão que Peter chegara: Gwen é um clone. Quem fez isso quer se vingar de Peter, do Homem-Aranha ou dos dois! Mas quem teria acesso às células de Gwen para criar um clone? E Peter lembra que certa vez um assistente do professor Warren coletou amostras de sangue deles para um experimento na Universidade. Eles saem em busca de Warren na UES (Universidade Empire State) e ele lhes informa que o assistente era Anthony Serba.

Ned e Peter vão cada um em busca de pistas de Serba, e como Homem-Aranha, ele encontra o apartamento do homem, apenas para encontrar o Tarântula lá dentro e iniciar uma nova luta. No fim, após derrotar o vilão latino, o Aranha é surpreendido pelo Chacal, que traz Ned Leeds desacordado como prisioneiro e revela sua identidade secreta: ele é o professor Miles Warren!

O Chacal revela ser Miles Warren. Note o Tarânturla à esquerda. Texto de Conway e arte de Andru.

Em ASM 149, o Chacal nocauteia o Aranha e o leva para seu laboratório. Lá ele explica como clonou Gwen e por que: Warren era apaixonado por ela. Mas Serba tentou impedir, por achar anti-ético, e Warren o matou, o que lhe levou a pensar que emergia ali uma nova personalidade, o Chacal. Mas não terminava aí: armando uma armadilha no Shea Stadium, o Chacal coloca o Homem-Aranha para correr contra uma bomba-relógio para salvar o cativo Ned Leeds, e revela que não foi somente Gwen quem foi clonado: mas o próprio Peter também. Então, os dois Homens-Aranhas precisam lutar um contra o outro para provar quem é quem. No fim, Gwen se volta contra Warren, recriminando-o por tentar assassinar um inocente, e Warren cai em si, tentando desfazer seu mal e salvar Leeds, mas a bomba explode mesmo assim, matando Warren e um dos Homens-Aranhas. Ned é salvo, mas esteve inconsciente o tempo inteiro.

Mais tarde, Peter e Gwen visitam o túmulo dela mesma, e a garota-clone decide ir embora, pois não é a mesma de “antes”. Quando Peter volta para casa, Mary Jane está lá e os dois se reconciliam, com ele dizendo que quer ficar com ela. A cena sugere a primeira noite dos dois juntos, embora de modo discreto.

Uma curiosidade é que a lápide de Gwen revela a idade de Peter: ela nasceu em 1954, o que daria a ambos mais ou menos 21 anos de idade na época, ainda que a data em si é acondicionada à ideia de cronologia móvel.

Amazing 149 é o fim da riquíssima temporada de Gerry Conway à frente da revista principal do Homem-Aranha e uma das mais criativas, memoráveis e clássicas fases do cabeça de teia. O escritor tinha apenas 22 anos!

Sua saída esteve justamente relacionada à Saga do Clone: a morte de Gwen Stacy causou tanta comoção que as cartas de revolta nunca pararam de chegar à Marvel. E pior: Stan Lee continuava a ser um palestrante de grande demanda e constantemente abordado com reclamações e pedidos que a garota voltasse dos mortos. E pior de novo: como parte de seu temperamento anti-conflito, Lee começou a dizer que “estava fora da cidade” quando decidiram matá-la, algo que Conway negou veementemente em entrevistas, afinal, na época, Lee era não apenas o publisher, mas também o CEO da Marvel e nenhuma decisão narrativa importante podia ser publicada sem sua autorização. De qualquer modo, Lee chegou determinado dia na redação e deu um ultimato para Conway: ele tinha que trazer Gwen de volta.

Cartoon de Gerry Conway.

Na discussão que se seguiu, o editor-chefe Roy Thomas (pupilo e braço direito de Stan) ficou do lado de Conway querendo preservar a qualidade da escrita, mas Lee não recuou. Como uma maneira de atender ao patrão e se manter minimamente coerente ao seu próprio trabalho, Conway criou a trama do clone. Mas isso o deixou bastante infeliz. Para piorar, a história não foi bem-recebida na época e Stan Lee quando a leu teria dito: “É, isso aqui não funcionou, não é mesmo?”.

Essa intervenção dura foi um dos motivos que levaram Thomas a se demitir do cargo de editor-chefe, além do fato dele querer voltar apenas a escrever. Como maneira de agradá-lo, Lee manteve Thomas em um cargo de editor, o que significava que ele poderia escrever suas revistas – como Thor ou Conan – sem interferência do próximo editor-chefe. Isso criou o antecedente dos super-editores que falaremos mais tarde.

Outro desdobramento disso tudo é que, certa vez, Stan Lee havia prometido a Gerry Conway que, se um dia Thomas deixasse o cargo, ele seria o novo editor-chefe. Mas quando chegou a hora, isso não ocorreu. Provavelmente, a direção da Cadence Inc. (empresa dona da Marvel) não aprovou que um menino de 22 anos assumisse o comando da maior editora de quadrinhos dos EUA. (Stan fora o editor-chefe aos 19 anos, mas os anos 1940 estavam muito distantes à esta altura). Assim, o mais experiente Len Wein foi designado para o cargo, enquanto Marv Wolfman se tornou o editor das revistas em preto e branco para o mercado magazine, como The Savage Sword of Conan e The Deadly Hands of Kung Fu.

Cansado da interferência de Lee em seu trabalho e magoado por ter sido preterido, Conway deixou a Marvel e se transferiu para a DC Comics, onde escreveria histórias do Superman, Batman, Mulher-Maravilha e da Liga da Justiça.

Mas sua última edição (ASM 149) deixou uma questão em aberto: se havia um clone de Peter também, como garantir que o que sobreviveu é o verdadeiro Parker e não o clone?

Capa da comemorativa ASM 150, por Gil Kane.

A história que soluciona a questão é a comemorativa Amazing Spider-Man 150, de novembro de 1975, especialmente escrita por Archie Goodwin (outro dos jovens escritores da Marvel da Era de Bronze) e desenhada por Gil Kane. Na trama, enquanto sofre um ataque de Spencer Smythe com robôs que copiam a aparência e as habilidades do Abutre, Homem-Areia e Rei do Crime, o Homem-Aranha pede para o Dr. Curt Connors (o Lagarto) fazer exames que comprovem a verdade, mas quando Connors revela que um clone envelhece mais rápido e não tem as emoções bem desenvolvidas, mesmo sem ler o resultado, Peter pensa que um clone não poderia sentir o amor que sentia por Mary Jane e chega a conclusão: ele é o verdadeiro Homem-Aranha.

Contudo, em uma decisão de roteiro interessante, Goodwin faz Peter ter tanta certeza que sequer abre os exames e os joga fora. Esse gesto teria grandes implicações na Saga do Clone dos Anos 1990 que discutiremos na Parte 3 desse Dossiê.

Arte de Gil Kane;

Encontros Marvel

Paralela a Amazing Spider-Man, Marvel Team-Up continuava a ser publicada, trazendo os encontros aracnídeos com outros personagens da editora. Já mostramos que Gerry Conway foi o principal escritor da revista até o número 12 e, Len Wein (após coassinar duas edições com Conway) assumiu MTU a partir do número 13, em 1974, trabalhando com os desenhistas Gil Kane (13, 14, 16 a 19, 23), Ross Andru (fazendo sua última edição de MTU, a 15, antes de assumir ASM), Sal Buscema (números 20 a 22) e Jim Mooney (24 a 28). Acabando de vir da DC Comics, Wein fez boas histórias de MTU e escreveu a revista até a edição 28, quando assumiu o cargo de editor-chefe da Marvel.

Arte de Gil Kane.

Mesmo escrevendo Amazing ao mesmo tempo, Conway regressou a MTU na edição 29, de 1975, e apresentou a mais importante dessas aventuras desta época: o encontro com o Falcão, em MTU 30, na qual a questão das condições de vida dos negros do Harlem, em Nova York, é abordada (com arte de Jim Mooney e capa de Gil Kane). Sal Buscema foi o principal desenhista com ele nessa fase, até a edição 37, quando Conway deixou a revista, praticamente ao mesmo tempo em que também encerrou sua temporada em Amazing e saiu da Marvel.

E vale à pena falar de Sal Buscema, que se tornaria um dos maiores desenhistas do Homem-Aranha de todos os tempos. Nascido Silvio Buscema, no Brooklyn, em Nova York, em 1936, filho de pais da Sicília, seu pai, trabalhando como barbeiro. Sal era o mais novo de quatro irmãos, e o mais velho era John Buscema, que se tornou um dos mais importantes desenhistas da Marvel Comics, em personagens como Vingadores, Thor, Quarteto Fantástico, e tendo um trabalho significativo no próprio Peter Parker durante a fase de John Romita no fim dos anos 1960 (veja lá na Parte 1 do Dossiê). Foi por meio dele que Sal Buscema chegou à Marvel.

Sal e John estudaram na Music & Art School, uma escola de artes e Sal começou trabalhando na propaganda a partir de 1955, enquanto fazia a tinta em pincel para os desenhos de seu irmão John de maneira anônima. Em 1956, Sal foi convocado pelo exército e serviu dentro das “forças de paz” como ilustrador, lotado na Virgínia, nos EUA. Quando saiu em 1958, passou a trabalhar como ilustrador de agências governamentais, em Washington, DC, chegando a realizar alguns trabalhos com quadrinhos ao longo dos anos 1960, até chegar à Marvel Comics, onde iniciou fazendo a tintaria em histórias da linha de faroeste, até que John Buscema – uma das maiores estrelas da editora naquele momento – exigiu que Sal fizesse o pincel em suas histórias do Surfista Prateado, que eram a “menina dos olhos” de Stan Lee, já que não gostava do trabalho de pincel de Joe Sinnott.

Assim, Sal estreou como tinteiro em Silver Surfer 04, de 1970, e não demorou nada, já estava desenhando (migrando para o lápis) as histórias dos Vingadores, onde trabalhou em histórias clássicas de Roy Thomas, como o surgimento do Esquadrão Sinistro e a Guerra Kree-Skrulls, entre 1970 e 1971; depois lançou a revista The Defenders (Os Defensores) com Steve Englehart, em 1972; e naquele mesmo ano, assumiu a revista do Capitão América, onde ficou por três anos e desenhou toda a super-clássica fase de Englehart, em histórias como Império Secreto. Em 1975, Buscema migrou para a revista The Incredible Hulk, na qual ficaria por 10 anos (!), trabalhando com roteiristas como Roger Stern e Bill Mantlo.

Como era um artista rápido, Sal Buscema era capaz de acumular mais de um título mensal, como era o caso de Marvel Team-Up, na qual, após desenhar as edições 20 a 22; assumiu oficialmente a arte da revista a partir da edição 32 e, com poucos intervalos, ficaria até o número 52, de 1977.

Começa a Era Len Wein

A capa de “Amazing Spider-Man 151” ainda é de John Romita, mas por dentro traz a estreia de Len Wein como escritor e Ross Andru continua nos desenhos.

Em Amazing Spider-Man 151, de 1975, iniciava-se a temporada de Len Wein à frente do Homem-Aranha, enquanto Ross Andru permanecia nos desenhos. A questão é que Gerry Conway partiu abruptamente da Marvel e foi trabalhar na DC, o que deixou o editor-chefe Len Wein com um grande problema nas mãos: a ausência de um escritor para o principal título da editora. Embora a Marvel fosse plena de grandes escritores na época – Roy Thomas, Steve Englehart, Gary Friedrich, Roger Mckensie, Chris Claremont, Tony Isabella etc. – o único do time que realmente tinha experiência com as aventuras peculiares de Peter Parker era o próprio Wein, que tinha conduzido Marvel Team-Up em 1974, e também escrevera alguns dos Giant-Size Spider-Man. Então, seja por senso de obrigação ou de oportunidade, mesmo acumulando o cargo de editor-chefe, Wein se pôs a escrever o Homem-Aranha, o que lhe fez desistir de sua nova empreitada, os X-Men, que deixou nas mãos de Chris Claremont.

Embora tenha se esforçado para manter o pique das excelentes histórias de Gerry Conway, e de fato tenha feito coisas interessantes, o fato é que Wein não alcançou os mesmos picos elevados de seu antecessor. Afinal, depois do apogeu (a fase final de Stan Lee e as histórias de Conway) do Homem-Aranha, o único caminho restante é a queda, não é mesmo? Embora o sucesso de vendas permanecesse, a fase de Wein na revista Amazing Spider-Man está um pouco aquém do que era “normal” até então. Mas havia bons momentos: apenas não podia ser melhor do que seus antecessores.

De início, Wein precisou amarrar as pontas soltas deixada pela Saga do Clone e armar uma nova ameaça que fizesse jus aos passados Duende Verde e Chacal. E, para isso, criou uma longa subtrama sobre um observador misterioso que aparece logo no início de Amazing 151: numa cena mais chocante do que o roteiro faz parecer, vemos Peter “desovando” o corpo de seu clone, levando-o até uma chaminé industrial para incinerá-lo e não deixar rastro. Mas seu sentido de aranha dispara e sabemos que há um expectador misterioso que acompanha tudo e moverá a trama pelos próximos muitos meses. Uma dose de mistério sempre foi bem-vinda às tramas aracnídeas.

Mas talvez o calo de Wein é que ele calçou demais os sapatos de Conway e, em certo sentido, se dedicou no início a redesenvolver as ideias que deram certo com o escritor anterior, o que dá um ar de “repetição” quando pensamos em longo prazo. A primeiras dessas pontas é Harry Osborn, que reaparece logo nessa primeira edição da nova fase, na qual Peter e Mary Jane reencontram o rapaz na universidade. A história deixa claro que Harry está curado da loucura que lhe acometeu meses antes e o levou a se tornar o segundo Duende Verde, inclusive, tal qual seu pai, tendo perdido totalmente as memórias desses eventos. Para não deixar dúvidas, Ross Andru dar um ar abobalhado e perdido ao melhor amigo de Peter. A edição ainda traz o ensaio de casamento de Betty Brant e Ned Leeds – nos EUA há essa festa prévia para os convidados mais íntimos antes da grande festa com o enlace propriamente dito – finalmente movendo a trama do casal.

A ameaça da vez é Shocker, o vilão secundário criado por John Romita que também fora usado por Conway para um propósito parecido. A batalha prossegue à ASM 152, que também apresenta um mendigo misterioso que tem alucinações persecutórias. Quem ele será?

A primeira grande história de Len Wein vem em ASM 153: enquanto Peter e Mary Jane estão num encontro, encontram Ned Leeds que está indo entrevistar um cientista e pede a Peter ir com ele; com ambos conhecendo um gênio da informática chamado Dr. Bradley Bolton, que foi um grande jogador de Futebol Americano na juventude, mas trocou a carreira esportiva pela ciência. O interessante da trama é que Bolton está envolvido em uma falcatrua, mas não é uma má pessoa, e que guarda rancor porque sua carreira no esporte terminou por causa dele não ter conseguido realizar uma jogada sensacional, correr 100 jardas e fazer o gol. A história, por meio da arte de Ross Andru, faz um incrível paralelo entre a cena do jogo no passado e a repetição dos movimentos no presente, com Bolton fugindo de tiros disparados por capangas uniformizados. Um dos feitos mais notáveis do desenhista na revista. Dessa vez ele cumpre a distância – justificando o incrível título “As mais longas 100 jardas” – ainda que morra ao final. É um momento tocante e muito bem feito, mostrando o real talento literário que Wein demonstrou em sua carreira (em particular na DC Comics, em Batman e Liga da Justiça).

Os capangas uniformizados dessa edição são a pista de outra ameaça misteriosa que se desenvolve ao longo dessas primeiras edições. Sim, são três: o observador da desova; o mendigo atormentado; e um bandido misterioso que mobiliza essa quadrilha uniformizada em várias ações. Outro elemento que demonstra a amarração complexa que Wein adota na revista.

E muitos críticos ainda afirmam que o melhor de Wein era no desenvolvimento humano dos personagens, e nesta edição temos uma amostra disso nas tensões da relação de Peter com Mary Jane. O próprio Peter se pergunta porque, após MJ ter lutado pelo coração dele quando surgiu o clone de Gwen, porque agora a garota se mostra meio fria e distante com ele? A resposta são seus sumiços constantes, mas ele não percebeu isso ainda. Mas ao questioná-la, em seu típico modus de evitar conflito, a ruiva realegra o ambiente e deixa tudo bem.

Arte de John Romita.

ASM 154 e 155 trazem Wein acompanhado pelo desenhista Sal Buscema, que àquela altura era o desenhista oficial de MTU. O motivo de Andru não ter participado iremos falar mais abaixo. Na primeira temos o retorno do Homem-Areia, pela primeira vez, usando sua armadura de combate na revista Amazing (só tendo aparecido em outras da Marvel, como Quarteto Fantástico, Hulk e Marvel Team-Up). Na edição seguinte, outro operador de computadores é misteriosamente assassinado, de novo por aqueles homens uniformizados. A edição também traz a primeira aparição em uma revista aracnídea do Promotor Público Blake Towers (que surgira nas histórias do Demolidor e seria um importante personagem coadjuvante da Marvel).

Ross Andru regressa para ASM 156, edição que finalmente traz o casamento de Betty Brant e Ned Leeds – exatos 10 anos depois de ficarem noivos na edição 34!!!! – e para não perder o costume, uma ameaça irrompe durante a cerimônia, obrigando o padrinho Peter Parker a sair de fininho para impedir que o Miragem roube os convidados. Quem pega o buquê da noiva é May (!) e, depois da festa, a velhinha volta para seu apartamento e encontra o mendigo que vem aparecendo em todas as edições perseguido ou alucinando por um “fantasma”, e finalmente, descobrimos que se trata do Doutor Octopus, que era julgado morto depois da explosão nuclear da ilha que tentou abocanhar pelo casamento interrompido com a tia de Peter. Ele pede sua ajuda e a velhinha está disposta a ajudar seu ex-noivo.

Len Wein reciclou algumas das ideias de Gerry Conway, como a rivalidade entre o Dr. octopus e o Cabeça de Martelo. A capa de “Amazing Spider-Man 157” é de John romita.

Daí, Wein e Andru retomam a rivalidade entre Octopus e Cabeça de Martelo (elaborada por Conway em duas ocasiões), através das edições 157, 158 e 159. Descobrimos que o tal fantasma é o Cabeça de Martelo, que realmente está apavorando Octavius (e May), mas um artefato especial de Otto faz o gangster voltar ao normal (ele não era realmente um fantasma, mas estava preso entre duas dimensões por causa da explosão nuclear). No final, ambos os vilões parecem morrer em um acidente de helicóptero.

Ross Andru desenha sua primeira capa de ASM.

Vale marcar que ASM 158 traz a primeira capa desenhada por Ross Andru! Apesar de desenhar a revista já há praticamente 3 anos, somente agora Andru rompeu a hegemonia de Romita e Kane nas capas aracnídeas. Isso chegava a ser irônico, tendo em vista as belas capas da Mulher-Maravilha que Andru criou na DC. E, por enquanto, esta capa foi apenas um ato isolado, mas dentro de algum tempo, ele assumiria o posto de capista também.

Arte de Gil Kane.

Na edição 159, de agosto de 1976, ainda vemos uma outra figura misteriosa – sim, isso mesmo – resgata o Aranha-Móvel do fundo do rio Hudson para propósitos malignos. Mas voltaremos a isso daqui há pouco.

Arte de Gil Kane.

Ao mesmo tempo, chegava às bancas Amazing Spider-Man Annual 10, no verão de 1976, com texto de Bill Mantlo e arte de Gil Kane, trazendo a estreia do vilão Human-Fly (ou Mosca, no Brasil), que teve alguma importância nos anos seguintes. Curiosamente, o visual do vilão remetia bastante ao do Jaqueta Amarela (Hank Pym, que já fora o Homem-Formiga) dos Vingadores, e também, por sua vez, a outro personagem chamado Human-Fly, um super-herói criado por Joe Simon e Jack Kirby nos anos 1950, que era o desenvolvimento de outro, chamado Silver Spider (que não chegou a ser publicado).

Mas o mais importante é atentar ao nome de Bill Mantlo, que aparece aqui pela primeira vez, e será um escritor que terá uma longa e profícua ligação com o Homem-Aranha como veremos daqui há pouco.

Homem-Aranha versus Superman

A clássica edição de “Superman vs. Spider-Man”, de 1976.

Como editor-chefe da Marvel Comics, Len Wein ainda teve outro grande trunfo: o primeiro encontro entre o Homem-Aranha e o Superman! O primeiro crossover entre Marvel e DC Comics! Tudo começou quando o agente literário David Obst, que queria investir na produção de cinema e TV, abordou tanto o publisher da Marvel, Stan Lee, e o diretor editorial da DC, Carmine Infantino, com uma ideia maluca: um crossover entre as duas editoras no cinema. Isso era impossível na época, e havia um filme do Superman em produção (seria lançado em 1978). Mas a semente brotou: por que não fazer um encontro nos quadrinhos mesmo? Em fins de 1975, Lee e Infantino tiveram uma breve conversa e decidiram colocar o plano em marcha. Lee não estava mais no dia a dia da redação, então, Len Wein era o seu representante imediato. E isso era uma grande vantagem, em vista que Wein havia realizado um sólido trabalho na DC antes de ir para Marvel, e portanto, conhecia bem Infantino, Julius Schwartz e todos os nomes importantes da Distinta Concorrente. Não houve muito debate sobre quem deveriam ser os protagonistas do encontro Marvel-DC: o amigão da vizinhança e o homem do amanhã.

Quem poderia escrever esse encontro tão bombástico? Ficou decidido que a equipe criativa seria Gerry Conway e Ross Andru por um motivo simples: os dois artistas eram os únicos que tinham realmente trabalhado com cada um dos personagens em suas revistas principais. E eram mesmo praticamente os únicos que haviam feito isso até então. (Ironicamente, talvez a única outra pessoa que havia trabalhado verdadeiramente com os dois personagens fosse Len Wein, mas como ocupava o cargo de editor-chefe da Marvel, era impossível para ele assumir a produção, tanto por motivos artísticos quanto burocráticos).

Vale lembrar que Gerry Conway havia rompido com a Marvel não muito tempo atrás e estava escrevendo Superman, Batman, Mulher-Maravilha e muito mais na DC. Como era um projeto cheio de melindres e com todos pisando em ovos para não ofender egos inflados ou brios das companhias, no fim das contas, Conway teve liberdade praticamente total de escrever a trama, ao ponto dele considerar que fora ele próprio o editor da revista – ainda que os créditos tenham ido, claro, para Lee e Infantino. As “únicas” recomendações eram: não deixar um vencedor destacado, equilibrar ao máximo possível a participação dos dois heróis, trazer as namoradas (Mary Jane Watson e Lois Lane), os chefes (J.J. Jameson e Morgan Edge) e os dois vilões principais (Conway escolheu o Doutor Octopus e Lex Luthor).

Como não havia precedentes para um encontro entre heróis de editoras diferentes, cada qual habitando um “universo” próprio, Conway decidiu pelo caminho mais simples: ignorar isso e simplesmente colocar os dois lado a lado, sem explicações, e apenas seguir a fantasia dos fãs. A trama é relativamente simples, com os dois vilões se encontrando na prisão, armando um plano mirabolante e obrigando aos dois heróis trabalharem juntos, depois de um primeiro momento de rusgas e confronto, claro. Sem dúvidas, havia um desequilíbrio básico, pois o nível de poder do homem de aço é muito maior do que o do escalador de paredes, mas como Conway os conhecia bem, usou isso a favor da história: numa cena lendária, fez o Superman dar um “soco” e parar a uma polegada de distância do aracnídeo, deixando a pressão do ar lançar o amigão da vizinhança centenas de metros longe, enquanto o cabeça de teia revida com um grande golpe que lança o homem de aço no ar (e machuca os dedos de Peter).

Andru usou toda a sua habilidade e os dois meses de “folga” de Amazing Spider-Man (por isso, Sal Buscema desenhou os números 154 e 155) para ilustrar a revista de 60 páginas com painéis grandes e detalhados, enaltecendo cada um dos heróis e dando uma identidade visual própria às duas cidades, Nova York e Metrópolis. Contudo, muita coisa estava em jogo, e cada editora queria ver a mais fiel e exata reprodução de seus personagens para o coletivo popular, sabendo que a revista seria um grande sucesso. Assim, a DC Comics designou Neal Adams (o principal capista) para retocar as artes do Superman e deixá-lo mais heroico do que Andru fizera; enquanto a Marvel designou John Romita (o principal capista) para redesenhar o rosto do Homem-Aranha, de Peter Parker e dos outros personagens ao seu estilo.

Essa interferência editorial fez a história demorar a ser lançada, só chegando às bancas em julho de 1976. Mas ainda assim, a edição especial Superman vs. the Amazing Spider-Man: The Battle of the Century, fez um grande sucesso e é um marco na história dos quadrinhos. No futuro não muito distante, outros encontros entre Marvel e DC ocorreriam.

E foi um lembrete aos fãs (e a Stan Lee) da capacidade incrível de Gerry Conway. Guarde isso!

Arte de Gil Kane.

Amarrando Algumas Pontas

Enquanto Marvel e DC reuniam forças, a temporada de Len Wein em Amazing Spider-Man prosseguia de vento em popa. Lembram que alguém resgatou o Aranha-Móvel ao fim da edição 159? Era o motivo para a comemorativa edição 160 chegasse às bancas com o simpático buggy usado como uma arma contra o cabeça de teia por um dos mais antigos vilões do personagem: o Consertador, o velhinho inventor que aparecera em Amazing Spider-Man 02, de 13 anos antes! O leitor deve lembrar – lá na Parte 1 – que o final daquela história mostrava o inventor como um alien que foge em um disco voador, um fato que chateou demais o desenhista Steve Ditko na época, que queria uma abordagem mais realística para o mundo de Peter Parker. Talvez Wein soubesse disso e, assim, sem cerimônia, faz o Consertador dizer logo que o lance dos ETs foi apenas um embuste para enganar o herói. (Esse pequeno detalhe ganharia mais importância alguns anos mais tarde, como veremos abaixo).

Infelizmente, o Aranha-Móvel é totalmente destruído e um zangado (frustrado?) escalador deixou o veículo em pedaços pendurado por teias na sede da Corona Motors de Carter & Lombardo; e uma história comemorativa décadas depois mostraria que o buggy terminaria como uma peça de museu no Instituto Smithsonian.

Ficamos sabendo também que o mesmo mandante misterioso por trás dos homens uniformizados e armados daquelas edições anteriores estava por trás do ataque.

Mas uma coisa extremamente importante aparece em Amazing 160: J.J. Jameson recebeu um envelope de fotos que o deixam completamente aturdido. Mas o quê? O conteúdo é revelado em ASM 161: são fotos do Homem-Aranha desovando o corpo do clone nove edições antes. No olho de quem vê e não sabe de nada – como era o caso de Jameson – era algo muito estranho: o Aranha com Peter Parker (o clone estava sem máscara) morto no chão e, depois, jogado na chaminé. O que isso significava? Jameson começa a achar que o escalador de paredes matou Parker e o substituiu!

A segunda capa de Ross Andru para Amazing.

Mas a atração real da edição 161 é Peter testemunhando a ação de um snipper (atirador de elite) e seguindo uma investigação ao lado de Joe “Robbie” Robertson para descobrir quem é e suspeitar do Justiceiro. Mas é um inimigo dele. De qualquer modo, no espírito de Marvel Team-Up, o herói se encontra, luta e faz as pazes com o Noturno dos X-Men, um dos personagens criados por Len Wein na nova versão dos heróis. Wolverine e Colossus (outras duas criações suas) também aparecem brevemente. A trama prossegue à edição 162, na qual o snipper é revelado como o Retalho, um criminoso que teve o rosto desfigurado pelo Justiceiro no passado. É a estreia do vilão que será o principal antagonista de Frank Castle nos quadrinhos e que aparece no filme Justiceiro – Zona de Guerra, de 2007, o terceiro do anti-herói.

A edição 162 também traz Jameson conhecendo uma cientista que pode lhe ajudar a pegar o Homem-Aranha: Marla Madison, a mulher que estaria destinada a domar o coração do ranzinza editor no futuro próximo.

Capa de Dave Crockum.

A trama do misterioso criminoso com um bando de homens uniformizados e bem armados, apontados desde 10 edições anteriores finalmente se resolve em ASM 163, de dezembro de 1976: é ninguém menos do que Wilson Fisk, o Rei do Crime, de volta à revista após uma longuíssima ausência. (Sem contar o robô da edição 150). O Homem-Aranha o tinha visto pela última vez ficando catatônico após perceber que seu próprio filho, Richard Fisk, que julgava morto, era o rival Planejador, que tentou acabar com sua organização. Mas os fãs da Marvel tinha encontrado com o Rei outra vez depois disso: uma sensacional história do Capitão América (desenhada por John Romita!), entre Captain America 145 e 148 havia mostrado Fisk atuando em Las Vegas e entrando em choque contra a HIDRA e o Caveira Vermelha apenas para descobrir que seu próprio filho, sim, Richard de novo, era o novo líder da HIDRA, mancomunado com um nazista como o Caveira… outra decepção. Richard terminara aquela aventura (de 1971) quase morto e assim permanecia até então.

O plano de Fisk era sugar a energia vital do Homem-Aranha e transferir para seu filho e revivê-lo, o que realmente acontece. Na ASM 164, um enfraquecido Aranha é jogado na rua, mas ele procura a ajuda do Dr. Curt Connors que consegue criar um procedimento que devolva a energia de Peter. O herói volta a confrontar o Rei nas docas e o chefão termina sumindo na água, pretensamente afogado. Mas Vanessa Fisk deixa o Aranha ir embora, porque ele devolveu a vida ao seu filho.

Mas algo importante também acontece no meio disso tudo: primeiro, antes, na edição 162, Peter fica ciumento após ver MJ conversando alegremente com Flash Thompson, e por isso, na edição 163, ele decide fazer as pazes e leva flores ao apartamento dela, mas ela não está. Desolado, ele volta para casa, e quando entra na sua sala, vê que não apenas MJ está lá, mas também Flash Thompson, Glory Grant, Joe Robertson e seu filho Randy, Harry Osborn e Lizz Allan… todos promoveram uma festa surpresa para mobiliar o apê da rua Chelsea. O melhor de tudo é que os editores levaram a empreitada muito a sério e, assim, os elementos da mobília, como uma estátua de um índio Apache, um peixe espada gigante na parede, uma mesa feita de carretel, o sofá com manta colorida e os cartazes na parede… todos esses elementos continuariam aparecendo nas histórias do Aranha pela década seguinte, mesmo com as diversas mudanças de desenhistas. Muito legal! Ah, e ainda: ao subir no telhado para dar uma respirada, Peter flagra Harry e Liz se beijando em segredo!

Outra coisa que é importante destacar é que esse período a partir de por volta do número 155 de Amazing marca o momento em que as capas da revista deixam de ser exclusividade de John Romita ou Gil Kane. Outros artistas começam a aparecer com frequência na arte de capa, como o próprio Ross Andru, acompanhado de Dave Crockum (artista que virou sensação com o sucesso dos X-Men ao lado de Chris Claremont), Al Migrom e outros. Pelo menos Migrom teria uma vinculação mais estreita com o aracnídeo como veremos adiante.

Os motivos da diversificação não eram apenas artísticos: Kane emergia como um dos principais capistas da Marvel, trabalhando em diversas revistas, o que lhe deixava menos tempo para o Aranha. E Romita estava muito ocupado como diretor de arte da Marvel e estava assumindo um novo projeto relacionado a Peter Parker que iremos falar mais à frente.

Temática Social e Minorias em Pauta

A capa de “Peter Parker: The Spectacular Spider-Man 01”, de 1976, já mostra ao que veio: minorias e vida estudantil em pauta.

O sucesso da aventura conjunta do escalador de paredes com o homem de aço chamou a atenção e lançou os holofotes novamente em Gerry Conway, lembram? Pois bem, vez por outra, Stan Lee ainda interferia na redação da Marvel, especialmente com os grandes personagens. Lee começou a abordar Conway para que ele voltasse à Marvel e, mais especificamente, ao Homem-Aranha. Mas àquela altura, Conway não queria “tirar” Len Wein de Amazing Spider-Man, então, foi a oportunidade de Lee para comissionar uma nova revista mensal do aracnídeo. O publisher estava convicto de que havia espaço para um terceiro título mensal do cabeça de teia, especialmente, porque Marvel Team-Up não tinha apelo para uma boa parte do público, alienado pelos encontros especiais com outros personagens que não davam espaço para o desenvolvimento maior de tramas e de personagens coadjuvantes.

Então, Lee, Conway e Wein conceberam o conceito de Peter Parker: The Spectacular Spider-Man, uma revista que seria mais focada na vida estudantil do herói, com mais espaço aos personagens coadjuvantes e, em especial, às minorias étnicas. SSM 01 tem data de capa de dezembro de 1976, e trazendo histórias que tinham pouco peso cronológico e eram escritas pela dupla Gerry Conway e Sal Buscema, que foi promovido da Marvel Team-Up para esta nova revista. Note-se, ainda, que a nova revista mantinha o mesmo título da tentativa frustrada de 1968, somente com o acréscimo do alterego do personagem.

As primeiras três edições de SSM trouxeram uma história na qual Peter Parker, Mary Jane, Flash Thompson e Glory Grant se veem envolvidos numa trama na qual está em risco a vida de um embaixador chamado Edward Lansky, que leva ao confronto com o Tarântula na primeira edição, o auxílio de Kraven, o caçador na segunda, para enfim, na terceira, descobrirmos que o próprio Lansky é a mente por trás da trama criminosa, sendo o vilão Mestre das Luzes. O foco da aventura é a Universidade Empire State (UES) e há alguns desenvolvimentos dos coadjuvantes, com Peter ainda ciumento entre Flash e MJ e Glory Grant estreando como secretária de J.J. Jameson no Clarim Diário, já que Betty Brant ainda estava viajando em sua lua de mel. Também aparece Sha Shan, a garota vietnamita salva pelo Aranha, que é mostrada desenvolvendo um relacionamento com Flash.

Capa de Al Migrom.

Contudo, Conway não conseguiu desenvolver seu plano de uma revista “estudantil”, pois saiu novamente da Marvel após a edição 03, tanto que essa revista ganhou o crédito de Jim Shooter como coautor, porque esse escritor precisou terminar o roteiro. O fato é que, no verão de 1975, Len Wein deixou a editoria-chefe da Marvel Comics (mas continuou escrevendo Amazing, como veremos logo mais) e o cargo passou para Marv Wolfman, outro escritor da editora que teria vínculos estreitos com Peter Parker. Mas Wolfman ficou apenas um ano no cargo e o entregou, no verão de 1976. Daí, Stan Lee achou que o melhor nome para comandar a redação era o seu garoto prodígio: Gerry Conway. Mas Conway não tinha vocação para o cargo e não tinha as habilidades emocionais para lidar com os egos enormes dos escritores e dos super-editores e o fruto desse período de instabilidade que a Marvel vivenciou naqueles anos: três editores chefes em apenas quatro anos. O resultado disso é que os editores associados (que cuidavam de um número menor de revistas) tinham muito poder e não respeitavam a autoridade do editor chefe.

Sal Buscema fez sua primeira capa para o Homem-Aranha na edição 03 de SSM.

Então, num evento traumático, Conway ficou apenas um mês no cargo de editor-chefe e se demitiu da Marvel – dessa vez por um longuíssimo intervalo, voltando à DC onde continuou seu trabalho em Batman, Mulher-Maravilha e Liga da Justiça. Ou seja, a Marvel acumulou cinco editores chefes em apenas quatro anos! A quem coube substituir Conway foi Archie Goodwin, um escritor até certo ponto “secundário” na Marvel, até então, envolvido em revistas menores da editora – como The Invencible Iron-Man – mas que tinha escrito a especial Amazing Spider-Man 150. Goodwin ficaria dois anos no cargo – o que era muito naqueles tempos instáveis – e, seja por responsabilidade ou oportunidade, assumiu ele mesmo Spectacular a partir da edição 04, de março de 1977.

Bela capa de Dave Crockum para SSM 05.

Como escritor, Goodwin manteve a pegada do antecessor, focando nos coadjuvantes, mas com a escolha acertada de dar menos ênfase à turma de Amazing (MJ, May, Jameson etc.) e dando mais destaque a Glory Grant e Sha Shan, o que era um importante avanço na diversidade das revistas. No campo heroico, o autor investiu na subtrama do crime organizado, com o aparecimento do chefão do crime Morgan, que quer se aproveitar da lacuna deixada pelo desaparecimento do Rei do Crime e do Cabeça de Martelo, enquanto se mobilizam oponentes mais fantásticos, como o bom e velho Abutre e o novo Hitman, em SSM 04 e 05, que foram realmente duas boas histórias.

Ainda assim, acumular o cargo de editor chefe parece que teve um preço, porque a edição 06 basicamente era uma republicação de Marvel Team-Up 03, com uma desculpa esdrúxula para “recontar” o confronto do Aranha e Tocha Humana contra Morbius (o que trouxe Conway e Andru de volta à revista, pois eles fizeram aquela publicação original), servindo de gancho para SSM 07 e 08, onde vemos o retorno do vampiro vivo num confronto por Goodwin e Buscema, na qual Glory Grant é a donzela em perigo da vez. A despeito do embuste do número 06, a aventura em duas partes é uma boa história do Aranha contra Morbius, talvez o melhor dos confrontos clássicos entre eles.

A arte de Sal Buscema para o Homem-Aranha em um confronto com Morbius.

Outro aspecto importante dessas edições é que Sal Buscema não possuía um estilo de desenho na linha de realista de Romita, Kane ou Andru, pois seu traço estilizado de linhas quadradas era único, o que confere uma alternativa ao visual do Aranha. Buscema imprimia muita expressividade em seu traço e sabia compor grandiosos quadros de fúria, dando ênfase a golpes poderosos, o que caia muito bem em personagens como o Hulk, mas serviam também ao amigão da vizinhança, quando precisava dar um soco forte em alguém como Morbius.

Apesar de Spectacular não ser a principal revista do Homem-Aranha, era um marco importante por seu conteúdo social. Além de expor a vida difícil das minorias sociais e o preconceito que sofriam, as tramas abordavam a vida estudantil e temas importantes como as verbas para a universidade e a política de cotas para as minorias. (Lembrem-se, foi a política de cotas que permitiu que o atual presidente Barack Obama estudasse em um universidade).

Marvel Team-Up Acerta o Passo

Em seus primeiros anos, Marvel Team-Up consistiu em uma revista menor da Marvel e um tipo de exploração algo oportunista do Homem-Aranha, usando-o como “escada” para chamar à atenção de outras propriedades da Marvel. Sem dúvidas, esta última questão continuaria a ser – em essência – a razão de ser de MTU, mas em contrapartida, a partir do momento em que o escritor Bill Mantlo assumiu a revista, ela ganhou ares de maior qualidade e a possibilidade de, efetivamente, funcionar como um título mensal de um personagem, contando uma história minimamente coerente.

Mantlo nasceu em 1951, no Brooklyn, em Nova York, e estudou em uma escola de artes, na qual se especializou em pintura e fotografia, o que lhe levou a trabalhar na Marvel como colorista a partir de meados de 1974. Porém, ele demonstrou ao então editor Marv Wolfman que era capaz de escrever. Naquele tempo, as revistas da Marvel estavam sofrendo muitos atrasos e Wolfman (como editor das revistas da linha magazine – em preto e branco – entre 1974 e 75) instituiu uma política de tolerância zero para atrasos, o que consistia em escrever edições “tampa buraco” com quaisquer artistas disponíveis para não perder o prazo. Era necessário escritores e desenhistas rápidos, capazes de criar uma história imediatamente, e Mantlo tinha essa habilidade, o que lhe levou, ao longo do ano de 1975, a aparecer em várias revistas da Marvel nessa condição.

Um desses trabalhos foi com os Filhos do Tigre, uma atração da revista magazine The Deadly Hands of Kung Fu, na linha de histórias de artes marciais que a Marvel mantinha na época (como Shang-Chi e Punho de Ferro). Isso o levou a assumir histórias mais fixas naquela revista, o que levou à criação do Tigre Branco (Hector Ayala), o primeiro super-herói hispânico da Marvel, em The Deadly Hands of Kung Fu 19. Ter sido bem sucedido em manejar uma série de personagens diferentes em ocasiões longes do ideal terminaram por mostrar que Mantlo era o nome certo para assumir uma revista episódica como Marvel Team-Up, e foi o que Wolfman fez assim que assumiu a editoria chefe da Marvel, aproveitando a primeira saída de Gerry Conway da Marvel, o levou a deixar a escrita de MTU.

Por isso, Mantlo estreia como escritor de MTU a partir da edição 38, de outubro de 1975. O grande diferencial que Mantlo imprimiu à revista foi criar tramas mais amarradas que se espalhavam de uma edição para a seguinte, mantendo um fio condutor calcado no cabeça de teia, mas criando circunstâncias nas quais o levava a encontrar diferentes personagens a cada número, como o espírito da revista exigia. Ainda assim, o escritor foi mais esperto e usou o recurso de acumular os personagens, criando encontros mais numerosos, ainda que cada edição trouxesse apenas um único convidado na chamada da capa.

Ótimo exemplo disso acontece a partir da edição 41, de 1976, que traz a Feiticeira Escarlate numa trama de viagem no tempo – até a época das bruxas de Salem em 1692 – e que ia adicionando outros heróis nos números seguintes, como o Visão (esposa de Wanda Maximoff) até a edição 44, para lançar o Homem-Aranha em outros períodos de tempo, colocando-o com o Killkraven (número 45) e Deathlok (46), no passado e futuro, e dois personagens que, a rigor, não pertenciam à cronologia oficial da Marvel. Mas e daí? Todas essas edições foram desenhadas por Sal Buscema – que (como já vimos) começara sua temporada na revista na edição 32.

Bela capa de John Romita traz a estreia de Jean DeWolff.

Mantlo também achava que MTU precisava de sua própria ambientação e personagens, para não embaralhar a amarrada cronologia de Amazing Spider-Man, então, criou um tipo de âncora para MTU: a capitã de polícia Jean DeWolff, que estreou na edição 48, numa aventura com o Homem de Ferro contra o vilão The Wraith, que seguiu pelos números seguintes. DeWolff era uma forma de explorar as relações do amigão da vizinhança com a polícia, um tema caro ao herói, mas que não vinha sendo bem desenvolvido desde a morte do também capitão George Stacy já 7 anos antes.

Jean DeWolff: policial durona.

Além disso, era outra personagem feminina forte no cânone do herói, uma mulher que fez seu nome na corporação. Na sua segunda aparição, inclusive, ela ressalta como precisa se provar o tempo todo para sair da sombra do pai, que foi Comissário de Polícia. Em sua estreia, De Wolff inclusive aparece na capa. Ela foi criada por Mantlo, e a história foi desenhada por Buscema, mas como a capa foi feita por John Romita, um notório designer de mulheres na Marvel, é possível que o veterano artista-mor do Aranha tenha criado o visual da policial.

Pelas edições seguintes, DeWolff seria a principal coadjuvante de MTU e uma boa adesão ao cânone do herói.

Curiosamente, a temporada de Mantlo foi – temporariamente – interrompida no momento em que Marv Wolfman deixou a editoria chefe da Marvel e essa foi assumida por Gerry Conway, que terminou escrevendo a edição 52, de dezembro de 1976, na qual o convidado é o Capitão América e a revista rompe com a lógica corrente, trazendo de volta Mary Jane, tia May e J.J. Jameson. Vem então, Marvel Team-Up Annual 01 na qual o cabeça de teia interage com os novos X-Men, que já eram um dos maiores sucessos da Marvel.

As Tiras de Jornal de Stan Lee e John Romita

Enquanto tudo isso acontecia, a dupla clássica Stan Lee e John Romita retornariam ao Homem-Aranha, mas não da forma que os leitores esperariam. Desde sempre, um dos sonhos de Lee era escrever uma tira diária de quadrinhos em jornal, pois esta mídia (por incrível que pareça) era mais prestigiosa do que as HQs de revista mensal. Mas em 1976 ele conseguiu e negociou os direitos com Register and Tribune Syndicate, uma das maiores produtoras de tiras dos EUA.

Escrita por Lee e com desenhos de Romita, a tira estreou em 03 de janeiro de 1977 e foi publicada em centenas de jornais nos EUA e em outros países do mundo, e trazia o velho esquema de três quadros publicados diariamente contando uma história que se estendia por 8 ou 12 semanas, formando um arco. Muito em breve, ela ganhou uma versão dominical, na qual os quadros são coloridos e preenchem uma página inteira de jornal. A tira mostrava Peter Parker e seu elenco de coadjuvantes em histórias inéditas e desconectadas com a cronologia padrão das revistas.

O mais impressionante, é que numa era em que as tiras de ação estavam totalmente em declínio, a tira do Homem-Aranha continuou sendo um sucesso e permaneceu sendo publicada por 40 anos! Isso mesmo: 40 anos! A tira só seria encerrada em 2019, após a morte de Stan Lee, tendo sua última publicação ocorrido no dia 23 de março. Embora algumas das tramas das tiras tenham sido reunidas em livros-revistas, em particular à primeiríssima fase (várias vezes) e os cinco primeiros anos (em outra coleção), a maior parte desse material permanece inédito fora dos jornais.

A tirinha do Homem-Aranha nos jornais, por Lee e Romita.

John Romita emprestou seu belíssimo traço à tira por quatro anos, até 1981, quando foi brevemente substituído por Larry Lieber, o irmão de Stan Lee, que já havia ilustrado Peter Parker nos anos 1960. Mas Lieber não conseguiu manter o ritmo diário da tira e passou o cargo de desenhista para Fred Kida, que ficou até 1986. A arte passou brevemente por Dan Berry, mas foi assumida por Larry Lieber, dessa vez, preparado para a rotina, e Lieber ficou nada menos do que 32 anos à frente da arte, até 2018. O artista Alex Saviuk assumiu a versão dominical em 2009, mas quando Lieber se aposentou, ficou com a arte diária também até o fim, em 2019.

Stan Lee manteve o crédito de autor da tira até o fim, mas é sabido que após os primeiros tempos, logo, ele passou a usar uma série de escritores fantasmas para a tarefa. A partir de 2000, seu parceiro e pupilo Roy Thomas conduziu os roteiros sob o crédito de Lee, mas com a morte deste em 2018, a King Syndicates, que comprara a tira em 1987, não quis continuar e a série foi interrompida.

O Terceiro Duende Verde e o Fim do Mistério

Em Amazing Spider-Man, Len Wein começa a amarrar as últimas pontas soltas da grande trama de pano de fundo que criou para sua fase. Após revelar que era o Rei do Crime o grande responsável pelo grupo criminoso que vinha agitando o submundo desde o início da temporada – lá em ASM 151 – sobrava o grande mistério: quem era o observador misterioso que fotografou o Homem-Aranha se livrando do corpo do clone de si mesmo (e desmascarado exibindo o rosto de Peter Parker) naquela mesma edição? Como vimos, a misteriosa testemunha enviara cópias das fotografias para J.J. Jameson (ASM 159). E é daí que a trama irá desenrolar…

Em Amazing Spider-Man 165, de fevereiro de 1977, Wein e Ross Andru dão prosseguimento à trama das edições anteriores: o acidente de Curt Connors ocasiona, claro, no retorno do Lagarto, ao mesmo tempo em que o vilão Stregon, o homem-dinossauro, retorna com um plano de dominação mundial pelos répteis. O curioso é que Stregon era um vilão que estreou em MTU 20, de 1974 (no encontro com o Pantera Negra), sendo o primeiro vilão surgido nessa revista que migrava para a principal Amazing. Sua origem era similar à do Lagarto, mas em vez de um réptil tradicional, ele virou um tipo de dinossauro humanoide. Mais inteligente e articulado do que o Lagarto, Stregon era um vilão ainda mais perigoso, embora nunca tenha alçado à fama de seu “irmão” mais velho.

Além disso, ASM 165 também mostrou uma conversa franca entre Peter Parker, Mary Jane e Flash Thompson, meio que resolvendo o mal entendido que levou nosso herói a ter ciúmes do velho amigo. Mas o papo deixou claro que o namoro Peter-MJ estava em risco por causa dos desaparecimentos inexplicáveis do cabeça de teia. Vemos ainda Jameson e a Dra. Marla Madison desenvolvendo um novo Esmaga-Aranha.

ASM 166 traz a continuação da batalha Aranha-Lagarto-Stregon, com este vilão alçando seu plano-mor: uma arma especial que faz as ossadas dos Dinossauros do Museu de História Natural de Nova York primeiro ganharem vida, e depois, com uma nova dose, ganham músculos e pele e voltam à vida totalmente. Esse tipo de recurso tão fantasioso – típico de desenhos animados infantis – era demais para a suspensão de descrença de qualquer leitor e é de chamar a atenção que Wein tenha recorrido a isso. Com certa facilidade, além do espanto, o escalador de paredes vence o vilão e fica parecendo que Stregon morreu ao sentir os efeitos devastadores do frio para um ser de sangue frio – uma questão de atualização científica, pois hoje sabemos que os dinossauros são animais de sangue quente – e cair em um rio congelado. A luta faz Peter perder a festinha de Natal no apartamento de Flash Thompson e Harry Osborn, onde esse anuncia seu futuro casamento com Lizz Allen.

Harry e Liz anunciam seu casamento, por Wein e Andru.

Vem então a edição 167, na qual após dois números de testes, Jameson e Marla põem o novo Esmaga-Aranha em ação, mas apesar de algum trabalho, o cabeça de teia consegue simplesmente tampar a câmera remota do robô e deixá-lo desnorteado e sem ação. Mas a grande ameaça da vez é mesmo Fogo Fátuo (Will O’The Wisp, no original), um homem que se transforma em luz e é mais uma das criações do Dr. Jonah Harrow, o mesmo cientista maligno que criou o Cabeça de Martelo e ampliou os poderes do Canguru.

Mas Len Wein era muito bom em desenvolver os personagens e, finalmente, lançou seu olhar para May Parker: nesta edição, a velhinha aparece indo a um protesto pelos direitos dos idosos, se engajando na luta política – um envolvimento que logo seria visto nas outras revistas do herói. O protesto é interrompido pelo ataque do Fogo Fátuo e Peter se distrai ao ver de longe sua tia discutindo agressivamente com um policial.

Harry, Flash e Liz conhecem o Dr. Barton Hamilton, por Wein e Andru.

Vemos ainda Flash, Harry e Liz comemorando a vida e encontrando por acaso o seu médico: o Dr. Barton Hamilton, psiquiatra responsável por seu tratamento pós-drogas (e Duende Verde), alguém que vai ter bastante importância no restante da fase de Len Wein.

Por fim, em busca de saber porque Jameson se deu ao trabalho de criar um novo Esmaga-Aranha (sabendo que ele não se associou mais a Spencer Smythe porque este virou um criminoso), o escalador de paredes intercepta Joe “Robbie” Robertson quando este sai de sua casa, perguntando se notou algo de estranho no comportamento de seu patrão. Robbie diz que apenas sabe que ele recebeu umas fotos misteriosas e reveladoras. Quando o Aranha está para sair, Joe lhe dá uma reprimenda, para que não o procure mais em casa e que respeite sua vida pessoal, algo que o amigão da vizinhança concorda e pede desculpas por ter se excedido em não respeitar seu espaço.

Passamos a ASM 168, na qual o cabeça de teia sofre um ataque duplo do Esmaga-Aranha e do Fogo Fátuo, mas enquanto lida facilmente com o primeiro, a luta com o segundo é interrompida porque o vilão sente uma dor muito forte. Indo atrás de seu “criador” o vilão percebe que está cada vez menos humano e que foi usado para ser descartado, então, embora ataque novamente o Aranha, vê que não quer ser um assassino e perder o resto de humanidade que lhe resta e termina se voltando contra Harrow, o que resulta na morte do Fogo Fátuo.

Boa capa de Ed Hanningan.

Entre os dois ataques, o Homem-Aranha aproveita para ir secretamente à noite no Clarim Diário e “rouba” o envelope das fotos de Jameson. Em casa, decide usar suas habilidades fotográficas para criar uma estratégia que lhe livre da gravíssima acusação que as imagens lhe propõem, e ainda leva um susto quando Mary Jane aparece para uma visita e fica com medo de que ela veja as fotos. Após ela sair, Peter faz uma série de trabalhos nas fotografias e as devolve à gaveta do escritório de Jameson. Ah, e vale registrar: a capa da edição foi de Ed Hannigan, que se tornaria um conceituado ilustrador na década seguinte.

Jameson vs. Parker. Arte de John Romita.

Em ASM 169 temos o grande confronto entre Peter Parker e J.J. Jameson! Tendo destruído seu Esmaga-Aranha, o editor ranzinza muda a tática para seu plano B: vai ao apartamento da rua Chelsea confrontar seu jovem fotógrafo. Jameson pensa que o Homem-Aranha matou Parker e o substituiu e, após exibir as fotos, tenta “tirar a máscara” de Peter acusando-o de impostor, mas nosso herói estava preparado e mostra as fotos “originais” que tem (coisas ordinárias, como ele na praia ao lado de Mary Jane), convencendo o editor de que aquelas imagens são montagens e que fica intrigado porque alguém tentaria incriminá-lo. Convencido, Jameson vai embora e Peter não pode fazer nada mais do que gargalhar de tudo aquilo. Mas ele sabe que há uma implicação séria: quem tirou essas fotos?

Barton Hamilton e as suspeitas máscaras étnicas de seu consultório.

Além de vermos novamente Liz levar Harry ao Dr. Hamilton para sua consulta habitual (e vemos uma interessante composição de máscaras étnicas na parede – uma ideia que o filme Homem-Aranha de Sam Raimi, em 2002, utilizou discretamente de modo igual), a grande ameaça da edição é o Homem-Aranha ver um grupo criminoso abrir caminho numa escavação rumo a uma estação do metrô e ao abordá-los descobrir o Dr. Faustus, um tradicional vilão do Capitão América (curiosamente, também um psiquiatra).

Arte de Ross Andru.

Na edição seguinte, vemos um singelo momento de Mary Jane acompanhando Liz na escolha do vestido de noiva e a amiga brinca que a ruiva ficaria simplesmente sensacional no vestido. MJ brinca com a ideia e pensa no que Peter faria se a visse experimentando a roupa. Teria a ruiva intenções de casar? Enquanto isso, o escalador de paredes prossegue sua batalha contra o Dr. Faustus, mas ele usa um gás de hipnose que leva o herói a pensar que é seu aliado. No fim, consegue se libertar e prender todo o grupo.

Mas um evento singular acontece na edição 170: numa cena paralela, vemos o nefasto ladrão que matou Ben Parker (lá atrás em Amazing Fantasy 15, de 1962, quinze anos antes!) alugando a velha casa branca de madeira de Forest Hills, no Queens, em que Peter Parker cresceu. O ladrão sem nome fica feliz e que agora terá acesso à fortuna que sempre sonhou! O que isso significa?

Talvez Len Wein apenas quisesse comemorar os 15 anos do Homem-Aranha, ou provavelmente, dava partida a mais uma de suas tramas misteriosas que se arrastavam por várias e várias edições, mas o fato é que este plot não teria continuidade e esse assunto só voltaria a aparecer na revista 30 edições depois! Guarde essa informação para logo mais…

Bonita capa de Nova 12 por John Buscema.

ASM 171 trouxe um evento editorial raro naqueles tempos: a edição trazia a sequência direta de uma aventura publicada em outra revista. Provavelmente, esta era a primeira vez que isso acontecia na revista principal do Homem-Aranha. Essa estratégia de continuações migrando de uma revista para a outra era um cacoete criado ainda na época em que Stan Lee escrevia quase todas as revistas da Marvel, fazendo uma aventura dos Vingadores desembocar numa do Quarteto Fantástico ou numa dos X-Men e vice-versa. Mas mesmo Lee sempre pensou que o Homem-Aranha ocupava um espaço à parte do Universo Marvel, funcionando melhor sem tanta interação e com tramas mais realistas. (Esse era o motivo do herói nunca ter ingressado nos Vingadores, por exemplo, embora tenha interagido com o grupo umas duas vezes até então). Contudo, parecia que o estratagema de MTU de vincular o amigão da vizinhança com outros heróis Marvel não era o suficiente quando uma revista importante da editora andava com vendas baixas: decidiram apelar e fazer com que uma história literalmente continuasse de uma para outra, como uma forma de obrigar aos milhões de leitores de Amazing Spider-Man a comprar (mesmo que apenas por um mês) outra revista menos afortunada.

Arte de Ross Andru.

A da vez era a revista do Nova, um herói juvenil que muito espelhava o próprio Peter Parker, mas tinha poderes cósmicos e fez bastante sucesso quando de sua estreia cerca de um ano antes. Assim, a trama iniciada em Nova 12 (escrita por Marv Wolfman e desenhada pelo já aracno-artista Sal Buscema e com uma capa de seu irmão mais velho, John Buscema) continuava diretamente em Amazing 171 sem grandes consequências ao universo do herói.

Ao mesmo tempo, Amazing Spider-Man Annual 11 chegava às bancas em agosto de 1977, celebrando os 15 anos de publicação do amigão da vizinhança e relembrando – tal qual o anual do ano anterior – que os tempos áureos de revistas especiais bombásticas tinham ficado para trás há muito tempo. Ainda assim, essa edição trouxe duas histórias espirituosas que a ampliação do universo aracnídeo (agora com três revistas mensais) permitia: na primeira, a tia May participa de mais um protesto pelos direitos dos idosos, e novamente se excede e discute com um policial, só que dessa vez vai presa. Peter precisa pagar a fiança e fica completamente sem dinheiro. Desesperado, aceita atuar em um filme como figurante para ganhar uns trocados. Mas um dos atores decide sabotar as filmagens, o que leva à intervenção do Homem-Aranha e, já que a temática do longa são aranhas assassinas gigantes, aceita o convite de atuar no filme, desde que seja pago em dinheiro.

A segunda história também tem um caráter mundano: Peter e Mary Jane decidem ter um encontro saudosista no Grão de Café, o bistrô que a turma de faculdade se encontrava nos velhos tempos em que Gwen Stacy estava viva. Mas o local é assaltado e o Aranha precisa atuar. O mais interessante desta aventura é que foi a estreia aracnídea de John Romita Jr. na arte. O filho do mestre – que também teria uma longuíssima carreira relacionada a Peter Parker e sua vida – desenhava o herói em sua primeiríssima vez.

Arte de Ross Andru.

A edição 172 traz a estreia de um novo vilão: Rocket Racer, um tipo bem anos 1970, com roupa tecnológica e skate motorizado que, tal qual o Aranha-Móvel (usava a mesma tecnologia?) é capaz de escalar paredes. Visualmente e tematicamente era um ótimo oponente para o Homem-Aranha, mas sua participação é breve e ele é derrotado logo, pois a ameaça principal é o retorno do Magma. E, claro, isso tem implicações para sua meia-irmã, Liz Allan. Liz é presa ao tentar assaltar um hospital, levando medicamentos especiais e sabemos que são para tentar salvar seu irmão, que está cada vez mais radioativo e derretendo tudo o que toca.

Num tópico mais humorístico, vemos os funcionários do Clarim Diário, Peter, Robbie e Glory Grant tirando um pouco de sarro ao verem Jameson de coração mole para Marla Madison.

Amazing 173 mostra o Aranha indo ao confronto com o Magma no hospital e terminando por levar um tiro de raspão no braço; enquanto Harry e MJ pagam a fiança de Liz, que está bastante envergonhada e abalada. Peter se recupera rapidamente do ferimento e o Magma sequestra uma indústria farmacêutica para ter acesso a uma cura à sua condição, o que leva à reação da polícia. Liz corre ao local e consegue adentrar o prédio que pega fogo por causa dos poderes descontrolados do vilão. O herói luta para salvar a vida de Liz e o edifício termina explodindo, levando Magma aparentemente à morte. (Ele voltaria mais tarde em Spectacular Spider-Man 63).

Abalada por tudo o que aconteceu, Liz rejeita Harry e vai embora, deixando o frágil rapaz inconsolável.

Na edição 174, Harry está tão mal que Peter e Flash levam o amigo em urgência à clínica do Dr. Barton Hamilton, que promete cuidar dele. Este é um momento importante, pois é quando Peter e Hamilton se encontram pessoalmente pela primeira vez. Mal podia imaginar o rapaz o que viria pela frente…

Ross Andru mostra que dominava a arte das capas aracnídeas.

Em paralelo, a Frente de Libertação das Pessoas (FLP) contrata o Hitman (o vilão matador de aluguel que estreara em Spectacular Spider-Man 05, sendo o primeiro inimigo que migrou daquela revista à principal) para matar J.J. Jameson, o que obriga ao escalador de paredes mais uma vez ir ao salvamento de seu algoz.

Outra grande capa de Ross Andru.

A trama continua no número seguinte, no qual Robbie e Glory consolam Marla pelo sequestro do namorado e o Justiceiro aparece para ajudar o Aranha, explicando que o matador é Bart Kenyon, um ex-soldado que Frank Castle conheceu na Guerra do Vietnã e que salvou sua vida, deixando-lhe em débito ao dizer que um dia cobraria uma vida dele. Vale lembrar que àquela altura – como já escrevemos lá em cima – a origem do Justiceiro já tinha sido contada e sabíamos bem mais sobre ele.

O Hitman leva Jameson para o topo da Estátua da Liberdade – outra oportunidade para os desenhos detalhistas de cenários de Ross Andru – para executá-lo na frente dos líderes da FLP e Aranha e Justiceiro vão lá para impedir. No fim, todos terminam caindo, mas o Aranha salva Jameson e o Justiceiro fica entre salvar o herói e o cativo ou o próprio Hitman que se segura com dificuldades. Mas Castle diz que lhe devia uma vida, não especificando que vida era essa e salva Jameson, o que o honrado Hitman aceita e se solta, morrendo na queda. Uma ótima história de honra e dilema de Len Wein. E o fim de um vilão com visual bacana.

Mas tinha mais: no consultório, Harry está muito agitado e desesperado por causa da rejeição de Liz e o Dr. Hamilton se esforça para acalmá-lo, mas Harry é provocado e termina por agredi-lo. Nos típicos quadros bem feitos de Andru, a luminária é derrubada e a sala fica às escuras, então, após uma luta breve, apenas um dos homens se levanta nas sombras e proclama que o Duende Verde está de volta!

É apenas o início do arco final da temporada de Len Wein, trazendo o retorno do Duende Verde, que começa em Amazing Spider-Man 176, de janeiro de 1978. Peter vai visitar May, mas ela está indo para outro protesto dos Gray Panthers (Panteras Cinzas – uma referência aos Panteras Negras [o grupo de ativistas do movimento negro dos anos 1960 e 70] e aos cabelos grisalhos dos idosos). A velhinha encrenqueira entra em discussão com um policial de novo (mas era uma forma de criticar a repressão violenta da polícia dos EUA aos protestos pacíficos daquela época), só que dessa vez, May fica tão nervosa que sofre um infarto.

Dinâmica cena da janela por Ross Andru.

Sem nada que seus poderes possam fazer, Peter chama uma ambulância e leva a tia ao hospital, onde encontra Mary Jane. Mas ele fica sabendo que Harry está sumido e vai ao consultório do Dr. Hamilton, encontrando o local parcialmente destruído pela luta corporal da edição anterior. Ele decide, então, procurar no apartamento que o amigo divide com Flash, mas ao mesmo tempo, Flash encontra o Duende Verde em sua sala e é jogado pelo janela!

Arte de Ross Andru.

ASM 177 mostra o Homem-Aranha salvando Flash de sua queda mortal e os dois chegando à conclusão de que Harry se tornou o Duende Verde de novo. Enquanto isso, o vilão retorna ao seu esconderijo e vemos que mantém um refém encapuzado e zomba dele. Peter volta ao hospital e fica com May e MJ, mas depois que ele sai, sua tia sofre outro infarto. Mas Peter não tem como saber: ele foi ao World Trade Center, onde o Duende Verde está organizando uma reunião de chefes do crime organizado – retomando uma ação que Norman Osborn realizou nas velhas histórias de Steve Ditko em 1965 – e tem uma proposta: formar uma única superorganização criminosa e, como moeda de troca, oferece a identidade secreta do Homem-Aranha! O interessante é que um dos chefões criminosos é o Cabelo de Prata, que aqueles que leram atentamente a Parte 1 vão lembrar que terminou por morrer ao regredir a idade até o nível celular nas histórias de John Romita dez anos antes. Contudo, o chefão tinha reaparecido vivo em uma revista do Demolidor (Daredevil 123, de 1975, por Tony Isabella e Bob Brown), então, associado à HIDRA. Nas antigas histórias do Aranha, ele era o líder da Maggia, a versão Marvel da Máfia.

Na edição 178, o escalador de paredes decide interromper a reunião e causa uma grande confusão, o que resulta num breve confronto e os vilões fugindo. No hospital, MJ recebe a informação de que May precisa se submeter a uma cirurgia de emergência ou morrerá, mas dada sua idade avançada e situação de saúde frágil, só poderá ser realizada com a autorização de um parente. E Peter é o único. Ela tenta falar com o namorado várias vezes e não consegue (lembrem: nos anos 1970 não havia telefones celulares e o único modo de MJ se comunicar com Peter era por meio de um telefone fixo). Ela tenta no apartamento e no Clarim, mas Peter não está. Numa parada breve em seu apartamento, Peter ouve o telefone tocando e quase vai embora ignorando-o, mas termina por voltar e atender, recebendo um “carão” raivoso de MJ, que explica rapidamente a situação.

Arte de Ross Andru.

Peter sai correndo – ou seja, balançando nas teias – em direção ao hospital, mas é atacado no meio do caminho pelo Duende Verde, que realmente conhece sua identidade secreta.

Duende Verde, Homem-Aranha e Cabelo de Prata em queda na arte de Ross Andru.

Passamos à edição 179, na qual um grupo de criminosos interrompe a batalha para matar tanto o herói como o vilão, mas é a deixa para Peter conseguir se desvencilhar e correr ao hospital, onde assina a autorização, mas sofre uma grande reprimenda de MJ por ter demorado tanto. O Duende volta ao seu QG e novamente zomba de seu refém e decide atacar de volta o Cabelo de Prata quando ele vai assistir a um filme no Radio City Hall, de Nova York (novamente, desenhado em detalhes por Ross Andru). Enquanto espera a recuperação de May, Peter ouve no rádio (não tinha internet nos anos 1970) sobre o ataque e vai para lá. Ao interferir na luta, o Aranha termina causando uma queda fatal dele mesmo, do Duende e do Cabelo de Prata dos dezenas de metros da casa de espetáculos.

O refém é revelado como sendo Harry Osborn.

A edição termina com o refém do vilão conseguindo se soltar e tirar o capuz, onde vemos que ele é Harry Osborn, revelando aos leitores que ele não é o Duende Verde. Então, quem?

Dois Duendes na capa de Amazing Spider-Man 180, de 1978, por Ross Andru.

Amazing 180, de junho de 1978, encerra o arco, com o Aranha se salvando da queda facilmente com sua teia (claro), o Duende recuperando o controle de seu jato (claro) e o Cabelo de Prata morrendo (outra vez) da queda gigantesca. Mas ele não morreu (de novo).

O Aranha vence o Duende Verde… e ele não é Harry, mas Hamilton. Por Wein e Andru.

Mas o Duende captura o Aranha e o leva à fábrica isolada na qual ele desovou o corpo do clone (em ASM 151, 29 meses antes!) e temos a batalha entre os dois. Contudo, apesar do plano inteligente, esse Duende não tem a superforça do original e não é páreo para uma luta mano a mano com o Homem-Aranha, que o vence com certa facilidade e ao tirar sua máscara se surpreende ao ver que ele é o Dr. Barton Hamilton e não Harry como ele pensava até então.

Harry decide usar o uniforme do Duende Verde.

Barton revela que usou hipnose para descobrir todos os segredos de Harry e o manipulou para que capturasse as fotografias incriminatórias. Mas Harry pegou o uniforme e os equipamentos do Duende no CG de Barton e correu ao local para confrontá-lo e temos uma batalha dos dois Duendes.

Hamilton prepara uma bomba para matá-lo, mas Harry consegue isolá-lo com uma rajada, com Hamilton caindo e a explosão mata o psiquiatra.

Hamilton encontra seu destino.

Resolvido tudo, o cabeça de teia deixa Harry nos braços de Liz. Mesmo que o uso do Duende Verde tenha sido até certo ponto uma imposição comercial – afinal, por mais chocante que tenha sido ASM 122, foi um erro estratégico, a longo prazo, matar Norman Osborn e privar o Homem-Aranha de seu principal inimigo – pelo menos Wein entendeu a jogada e, em vez de colocar Harry novamente sob a máscara do vilão, inovou em alguma medida colocando seu psiquiatra como o novo vilão, e fazendo-o usar o conhecimento da identidade secreta do herói como uma moeda de troca para controlar o submundo do crime, algo que faz todo o sentido e ainda se conecta com as origens do vilão original. Todavia, (e veremos mais sobre isso no futuro não tão distante) ter usado o recurso de um novo Duende Verde por duas vezes (num intervalo de quatro anos) meio que esgotou a estratégia, o que tornava o problema central – a ausência de Osborn – ainda mais latente.

Ademais, é importante salientar que a trama deixou um pequeno buraco cronológico que não foi bem preenchido pelos escritores posteriores: Harry ficou com as memórias dos ocorridos? As tramas posteriores pareciam indicar que Harry lembrava de ter sido o Duende, mas não que seu pai fora o original (o que é realmente bizarro); enquanto outros escritores preferiram a saída mais fácil: Harry não lembrava de nada, nem da incursão de Hamilton. O imbróglio nunca seria resolvido.

É o fim da fase de Len Wein com o Homem-Aranha após mais de dois anos. No fim, foi um bom momento, ainda que inferior aos seus antecessores (os imbatíveis Stan Lee e Gerry Conway) e que tenha recorrido a algumas repetições da etapa anterior, pelo menos Wein entregou uma temporada interessante, cheia de pontos altos e com alguns bons desenvolvimentos dos personagens, como May, MJ, Liz e Harry, de ter introduzido Glory Grant e Marla Madison e ter devolvido a dignidade do Rei do Crime (algo que seria muito útil às histórias futuras do Demolidor).

Wein sairia da Marvel e voltaria à DC Comics, onde assumiu histórias do Batman e da Mulher-Maravilha e, ao longo dos anos seguintes, também teria bastante destaque como editor.

Como ocorreu ao fim da temporada de Gerry Conway, o final da fase de Len Wein recebeu um tipo de epílogo realizado por outro autor como transição à etapa seguinte. Dessa vez, ASM 181 trouxe uma espécie de recapitulação de toda a carreira do Homem-Aranha, que naquele ponto, somava 16 anos de publicação, servindo como um tipo de marco inicial a novos leitores. A trama simples e tocante foi criada por Bill Mantlo (com um tipo de “assessoria” creditada a Wein e ao editor-chefe Archie Goodwin) e com desenhos de Sal Buscema, que naquele ponto já eram dois veteranos das revistas secundárias do amigão da vizinhança. A história mostra Peter indo ao túmulo do tio Ben e relembrando sua vida até que se esconde e vê a tia May também chegando ao túmulo para prestar sua homenagem.

Chris Claremont e John Byrne Sacodem MTU

Essa capa de Al Migrom traz a estreia de John Byrne nos desenhos.

Após ter saído dos roteiros de Marvel Team-Up para dar lugar ao breve retorno de Gerry Conway, na virada de 1976 para 1977, Bill Mantlo regressa na edição 53 – com Archie Goodwin como novo editor chefe – colocando o herói contra o Hulk e trazendo um novo desenhista: John Byrne. Nascido na Inglaterra, criado no Canadá e naturalizado americano, Byrne começou a carreira como desenhista e chamou a atenção em títulos menores da Marvel, como Punho de Ferro e Os Campeões. Mas seu belíssimo traço de estilo clássico – tributário de Romita – sua grande capacidade de criar cenas de ação e o talento como escritor também o levaria muito logo a se tornar não apenas uma das grandes estrelas da Marvel, mas de toda a indústria dos quadrinhos.

John Byrne desenha os X-Men pela primeira vez ao lado do Homem-Aranha.

Quando iniciou em MTU, Byrne estava muito próximo de alçar o estrelato quando substituísse Dave Crockum na revista Uncanny X-Men, ao lado do escritor Chris Claremont e criar a melhor e mais famosa das fases dos mutantes, incluindo histórias como A Saga da Fênix Negra e Dias de Um Futuro Esquecido. Mas MTU veio antes. Inclusive, Byrne retratou os X-Men pela primeira vez na cena de abertura de MTU 53, conectando à história do Annual. As edições seguintes trouxeram Adam Warlock e Demolidor.

O Homem-Aranha de Byrne traz de volta muito da beleza e do equilíbrio de Romita, não tendo as angulações exóticas de Kane ou a movimentação excêntrica de Andru, mas ao mesmo tempo, o desenhista (e futuro escritor e estrela-sensação dos quadrinhos) sabia como criar belos quadros, dinâmicas cenas de ação e, ao mesmo tempo, imprimir bastante humanidade aos personagens.

Capa de Dave Crockum para história desenhada por John Byrne.

Mantlo se despediu de MTU na edição 56 – e o motivo mostraremos daqui há pouco – e Chris Claremont assumiu os roteiros na edição seguinte, ao lado de Sal Buscema, que regressara outra vez à revista. De início, Claremont e Buscema fizeram uma linha mais genérica de MTU e, então, Buscema saiu da revista – e o motivo é que, como já vimos, o desenhista migrou para Spectacular Spider-Man. Com a anuência de Goodwin, Claremont convidou John Byrne de volta, repetindo a dobradinha que fizeram nas histórias do Punho de Ferro, a partir da edição 59, de julho de 1977.

A partir daí, Claremont e Byrne resgataram o “espírito” das histórias de Mantlo e Buscema, dando um fio condutor à revista e trabalhando uma ambientação própria, inclusive, dando espaço para a capitã Jean DeWolff, que retorna na edição 60. A dupla investiu na dupla Vespa e Jaqueta Amarela primeiro, depois, veio a (então) Miss Marvel (futura Capitã Marvel, Carol Danvers) contra o Super-Skrull, neste caso, trabalhando esta personagem com a qual Claremont tinha bastante envolvimento como escritor.

Daí, MTU cumpriu sua função primordial em seguida: nas edições 63 e 64, Claremont e Byrne usaram a revista como um trampolim para encerrar o arco de histórias que deixaram inacabado com o cancelamento de Iron Fist no número 15, a revista do Punho de Ferro. Até que não era um estratagema tão mal e rendeu uma boa história que dava um fim à trama geral que pensaram para o personagem Danny Rand, que foi uma boa trama da dupla, embora não tenha conseguido grandes vendas na época. O encontro com o Aranha colocou a oportunidade de uma grande cena de luta entre os heróis, que demonstram as belas habilidades de Bryne.

A estreia do Capitão Britânia nos EUA trouxe uma capa de John Romita, que também criara o visual do personagem.

A dupla também teve uma oportunidade interessante ao trazer o Capitão Britânia na edição 65, naquela que foi a estreia do personagem no mercado dos Estados Unidos. O herói foi criado na Marvel UK, a divisão britânica da editora, e era escrita pelo próprio Claremont. A trama prosseguiu ao número 66, que trouxe a primeira capa desenhada por Byrne, o que era um avanço importante para aquele que se tornaria um dos maiores desenhistas de todos os tempos.

A primeira capa de John Byrne no universo do Homem-Aranha.

Claremont e Byrne produziram um último épico na edição 69, na qual colocaram o ex-X-Men Destrutor contra seu tradicional inimigo, o Monolito Vivo, adicionando o Thor no número 70, e encerrando a melhor fase de MTU. É uma aventura bastante lembrada pelos antigos fãs, pois trouxe uma trama que resultou em uma grande batalha, com o vilão ficando gigante e o Aranha e Thor precisando usar suas habilidades afiadas para vencê-lo.

Bryne executou nessa edição sua habilidade de criar grandes painéis de ação e eventos grandiosos que se tornariam uma marca de sua carreira posterior, mas que aqui nesse momento inicial já estavam bem desenvolvidas.

Após essa temporada bombástica de Claremont e Byrne, muito raramente MTU teria destaque ou relevância.

O Homem-Aranha de Bill Mantlo

O roteirista Bill Mantlo tinha dado os primeiros impulsos de qualidade verdadeira a MTU em suas duas passagens pela revista, por isso, tinha se qualificado como um bom escritor para o Homem-Aranha. E o cargo de Spectacular Spider-Man estava desocupado. Lembre-se: a revista fora criada como veículo para Gerry Conway contar histórias mais pautadas nos coadjuvantes ao redor de Peter Parker, com atenção à vida estudantil e à diversidade social – dando ênfase a Glory Grant e Sha Shan, por exemplo. Mas Conway largou a Marvel após passar um mês como editor-chefe e foi embora. O novo editor-chefe Archie Goodwin tomou a revista para si por um tempo, mas logo percebeu que era um fardo pesado demais comandar a maior editora de quadrinhos dos EUA e escrever histórias de seu principal personagem ao mesmo tempo. Então, ele precisava de um substituto.

Mas escrever as aventuras esporádicas e pontuais de MTU era uma coisa e assumir o mundo “verdadeiro” de Peter Parker (ainda que em sua revista secundária), era outra, e Mantlo precisava de um tempo para se preparar para a empreitada. Assim, Goodwin tomou uma medida de emergência para ganhar uns meses. Pegou uma história em duas partes que Mantlo escrevera para MTU e a deslocou para Spectacular. Em seguida, pegou a primeira história que o substituto daquele naquela revista, Chris Claremont, criou para MTU e também a colocou em Spectacular, deixando tempo para que Mantlo começasse a escrever suas histórias de verdade no passo seguinte.

É por causa desse arranjo que o início da temporada de Bill Mantlo em Spectacular é um pouco errante, mas logo depois, o escritor transformou a revista em outra coisa e a fizesse ser merecedora do título de uma revista “de verdade” do Homem-Aranha e não apenas um apêndice complementar ou mesmo uma trapaça oportunista como MTU.

Capa de George Perez.

Dessa forma, enquanto Sal Buscema continua na arte, Mantlo aparece em Peter Parker: The Spectacular Spider-Man 09, de agosto de 1977, (com a história criada para a outra revista) trazendo uma aventura conjunta com o Tigre Branco, o herói latino criado pelo próprio Mantlo. Com uma capa de George Perez (um artista latino que ganhara grande destaque na revista dos Vingadores, na época), a edição continuava as aventuras de Hector Ayala do ponto em que pararam em The Deadly Hands of Kung Fu 19, numa trama em que a Universidade Empire State (UES) está pegando fogo porque está prestes a encerrar as aulas noturnas, o que prejudicará essencialmente alunos hispânicos e afrodescendentes. Peter e Hector assistem e participam pacificamente da manifestação, enquanto os estudantes reivindicam que a UES venda os Manuscritos de Erskine (cadernos de Abraham Erskine, o cientista que criou o Soro do Super-Soldado que deu origem ao Capitão América) como maneira de arrecadar fundos e manter as aulas. Um professor hispânico, Ramon Vasquez, toma parte dessa reinvindicação.

Como o próprio Mantlo tinha feito faculdade – de fotografia e arte – o ambiente universitário (com sua riqueza cultural e política) lhe era bem familiar, o que permitiu ao escritor efetivamente conseguir dar este tempero às histórias de Peter Parker (a revista), algo que nunca fora realmente possível Amazing e seus escritores não-universitários.

Porém, subitamente, o Tigre Branco tenta roubar os manuscritos, ao mesmo tempo em que uma gangue chamada Mão Negra também o faz, o que gera uma grande confusão e a intervenção do Homem-Aranha. Tendo se encontrado anteriormente com o herói latino, o escalador de paredes estranha a situação e vai atrás do detetive Nathaniel Alexander Byrd, mais conhecido como Blackbyrd, que é um aliado do Tigre Branco, em busca de informações.

Em SSP 10, o aracnídeo e o felino se enfrentam, mas logo percebem que é tudo um mal entendido em continuam atrás de respostas, ao mesmo tempo em que Blackbyrd encontra a Gangue da Mão Negra e lhes dá uma surra, levando-os à prisão. De volta à UES, a dupla de heróis descobre que o professor Vasquez tinha se passado pelo Tigre Branco para roubar os Manuscritos, e conseguem pegá-lo facilmente. No fim, o Reitor Dwyer se reúne com os estudantes e diz que a universidade não irá vender os manuscritos, por causa de seu valor histórico, mas irá trabalhar ao lado dos alunos para encontrar uma maneira de manter as aulas noturnas. Uma trama relativamente simples para tratar de temas importantes e deixar uma marca política mais forte nas tramas aracnídeas.

A edição 11 é a “tampa-buraco” de Chris Claremont e Jim Mooney, num típico estilo MTU, com o Aranha confrontando a Medusa dos Inumanos por um mal entendido, que se resolve na mesma edição.

Capa de Al Migrom.

A fase de Bill Mantlo em Spectacular, portanto, começa efetivamente na edição 12, continuando com Sal Buscema. Agora, fazendo jus ao escritor espetacular – piada inclusa – que Mantlo era, com uma trama mais complexa: Peter Parker e Flash Thompson jogam tênis e conversam sobre suas questões pessoais. Mostrando que Mantlo trabalhava em sintonia com a editoria da Marvel, a conversa faz referências a questões pessoais mostradas em Amazing, como os problemas entre Harry e Liz após o confronto com o Magma (ASM 172 e 173). Flash se queixa de que está apaixonado por Sha Shan, mas ela está casada com outro homem (como ele descobriu na edição 08). Então, os dois veem uma propaganda da Legião da Luz, uma nova seita que está se tornando bastante popular, tendo dois líderes, o Irmão Poder e a Irmã Sol, e Flash reconhece que Sol é Sha Shan.

Capa de Sal Buscema.

A dupla se apresenta como seres carregados de poder e que incitam o ódio nas pessoas, o que vale uma intervenção do Homem-Aranha, mal sucedida. Peter vai à UES e conversa com um de seus professores, o sociólogo prof. Hutton, que lhe explica as origens da seita e seus riscos. O cabeça de teia volta outra vez a confrontar a dupla e termina atirado por uma janela e caindo no beco. Lá, enquanto se recupera é atacado por outra pessoa, e passamos à edição 13, já em janeiro de 1978, onde descobrimos que o atacante é Razorback (Javali, no Brasil), mas ele é um herói vindo do sul que pensava que era um tipo de ritual dois heróis brigarem quando se encontravam pela primeira vez, numa piada ao estilo Marvel de fazer as coisas. Aranha, Javali e Flash se unem para investigar a Legião da Luz, mas terminam pegues e amarrados a uma bomba pelo líder real da seita: o Monge do Ódio, um vilão que aparecera nas antigas histórias do Quarteto Fantástico e era nada menos do que um clone de Adolf Hitler.

Capa de Sal Buscema.

Em Spectacular 14, o trio consegue se libertar, mas o Monge do Ódio já conseguiu organizar um evento da Legião da Luz no Shea Stadium para afetar 50 mil pessoas com seu controle de mente, o que deixa o Javali preocupado, pois sua irmã Bobbi-Sue vai comparecer ao evento. O trio segue para lá, mas os poderes mentais do Monge fazem o Aranha e o Javali se confrontarem até que Flash consegue ajudá-los e desmascarar o Monge, que se revela não o clone, mas um impostor: o Man-Beast (ou Homem-Fera), um vilãozinho terciário da Marvel que tinha enfrentado o Hulk pouco tempo antes.

Na edição 15, o Homem-Fera consegue derrotar os heróis e usa uma aparelho amplificador do ódio para dominar a plateia do estádio. Com o caos instalado, a Irmã Sol – ou seja, Sha Shan – resolve ajudar aos heróis, o que leva à confrontação com o Irmão Poder, que é seu marido. Isso resulta na libertação dos heróis e o escalador de paredes luta contra o Homem-Fera/ Monge do Ódio enquanto Bobbi-Sue consegue destruir o amplificador, o que gera uma reação em cadeia de destruição. Com o Homem-Fera caindo dentro do aparelho, uma grande explosão ocorre, que resulta na sua morte e também na do Irmão Poder.

No fim, Flash sai com uma ferida Sha Shan nos braços, mas Bobbi-Sue decide ficar com a Legião da Luz, acreditando que o grupo tem potencial de fazer o bem sem a influência do Monge. Como se vê, o tema dessa história era a proliferação de seitas que se tornaram muito comuns nos EUA a partir do fim dos anos 1960 (escaldos do movimento hippie), cujas histórias, muito comumente, terminavam em tragédias. Essa seria uma marca de Mantlo: pegar temas cotidianos e embalá-los em tramas fantasiosas, mas carregadas de conteúdo.

Por algum motivo – talvez férias – Spectacular 16 representou uma pequena pausa, com uma edição que manteve Buscema na arte, mas trouxe roteiro de Elliot S. Maggin (um dos principais escritores do Superman na DC Comics). Curiosamente, Maggin tinha o mesmo estilo engajado e questionador de Mantlo e entregou uma história interessante na qual o Homem-Aranha ajuda um policial chamado Joey Macone a prender um grupo de bandidos. O feito leva ao oficial ser condecorado e acompanhado por uma reportagem do Clarim Diário, da qual Peter Parker é o encarregado de fotografar. Mas Peter percebe que, apesar dos louros, a carreira Macone tem um alto custo pessoal, resultando em crise de seu casamento. Uma situação na qual Parker se reconhece e desenvolve bastante empatia. Mais tarde, o Besouro (lembram dele?) rouba uma pasta valiosa de heroína e novamente os caminhos do cabeça de teia e do policial se cruzam, com novamente Macone recebendo reconhecimento, e Peter percebendo que o casamento dele irá terminar, apesar de tudo.

Mostrando a ação mais assertiva de Archie Goodwin na editoria, a história traz referências à trama de ASM 176 a 180, que eram publicadas em paralelo.

Capa de John Buscema e John Romita.

Mantlo retorna em Spectacular 17, mas dessa vez, encarregado de cumprir uma função geralmente dada a MTU: servir de ponto final a uma trama que ficou inacabada em outra revista. No caso, The Champions, a revista dos Campeões (um grupo incomum de heróis, formado por Viúva Negra, Hércules, Motoqueiro Fantasma, Estrela Negra, Anjo e Homem de Gelo), que fora cancelada por vendas baixas coincidentemente no mesmo número 17. Mas era o próprio Mantlo quem escrevia a revista, o que dá alguma dignidade a esse fim. Na trama, (numa jogadinha algo esperta de Mantlo) Peter é enviado pelo Clarim para cobrir o fim do grupo que atuava na Costa Oeste, em Los Angeles, e ao chegar lá, se envolve nas maquinações do vilão Rampage, que dominou a mente do Homem de Gelo. Assim, o Homem-Aranha se une ao Anjo, enquanto vemos questões práticas sendo decididas, como por exemplo, o que será feito do prédio usado pelos heróis como QG?

A aventura conclui na edição 18, que traz alguns adendos pessoais: vemos em paralelo Flash Thompson se acertando com Sha Shan, enquanto Hector Ayala encontra uma namorada em Holly Gillis, o que é um movimento de Mantlo para colocar o Tigre Branco definitivamente como um coadjuvante na revista. Foi um movimento acertado, pois lhe permitiu explorar algumas questões sobre atos heroicos e seu custo, tal qual veremos em breve. Por fim, o escritor também encontra uma saída esperta para um problema que acompanha as aventuras na qual Peter age como repórter: ir a LA e ter o Homem-Aranha lá coincidentemente seria estranho, então, a batalha com Rampage termina por destruir a câmera dele, impossibilitando as fotos. Isso gera um desconforto em relação a J.J. Jameson, pois Parker chega de mãos abanando, mas preserva sua identidade secreta.

Capa de Ernie Chan.

Na edição 19, Mantlo traz de volta aquele que foi a primeira ameaça da revista, o Mestre das Luzes, tal qual da outra vez, empregando outros bandidos para fazer seu trabalho sujo: ele contrata os Executores para sequestrar o Grão de Café, o bistrô frequentado há anos por Peter e seus amigos universitários. Coincidentemente, na hora estão lá Flash com Sha Shan e Hector com Holly, e ele não pode virar o Tigre Branco sem expor sua identidade secreta. Mas o cabeça de teia fica sabendo do ocorrido, vai ao local e vence facilmente (como não?) os Executores. Enquanto vemos Peter preocupado com a conta do hospital no qual May está internada (desde ASM 178), o Aranha vai embora e Hector é entrevistado pela TV e fala bem do heroísmo do Homem-Aranha. O Mestre das Luzes vê a reportagem, e lembrando da presença de Hector na outra ocasião, deduz erroneamente que ele é o escalador de paredes.

Belíssima capa de Ernie Chan.

Portanto, em Spectacular 20, de julho de 1978, o Mestre das Luzes vai à UES e sequestra Hector para expô-lo ao vivo na TV. Peter e Holly Gillis testemunham o fato, mas Peter a leva para se consolar na casa de Sha Shan, ali perto. Lá, Holly entrega a Peter o amuleto de tigre de Hector e ele reconhece na hora o que aquilo significa. Quando o Mestre das Luzes faz o seu “show”, o Homem-Aranha aparece para frustrar os planos do vilão e devolve o amuleto a Hector, contudo, no afã de ajudar, Hector termina se transformando no Tigre Branco na frente das câmeras ao vivo, revelando a todos sua identidade secreta, o que deixa Holly espantada, assustada e raivosa, pois encara o segredo como uma traição.

O Mestre das Luzes, por sua vez, está convertido quase que à condição de um ser de luz corpórea, e suga a energia da própria cidade para se manter estável e poderoso, mas ele exagera e causa um blackout em Nova York. Sem o suprimento de energia, sua forma se esvai e o vilão morre.

As consequências da revelação do Tigre Branco seriam exploradas nos arcos seguintes, criando um paralelo de oposição interessante com Peter-Aranha.

A Chegada de Jim Shooter

Jim Shooter nos anos 1980: de menino prodígio à tirano odiado?

O leitor já deve ter notado que as mudanças editoriais da Marvel sempre impactavam o Homem-Aranha de um jeito ou de outro. E essa marca continuou. Em janeiro de 1976, quando Marv Wolfman era o editor-chefe, ele incorporou o serviço de editores assistentes que já mencionamos antes, e um desses caras que chegou para auxiliar o desenvolvimento da redação e da administração das revistas foi o jovem e genial Jim Shooter.

Shooter tinha a mais sensacional das histórias dos jovens escritores que tomaram conta do mercado de quadrinhos na virada da Era de Prata para a Era de Bronze: sua primeira história como roteirista foi publicada quando tinha apenas 13 anos de idade!!!! Nascido em 1951 em Pittisburgh, na Pensilvânia, de uma família de imigrantes poloneses, como toda a sua geração, aprendeu a ler através dos comics, mas terminou largando o hábito aos 8 anos de idade, por achar as histórias da DC Comics muito infantis. Mas aos 12 precisou fazer uma pequena cirurgia e, no hospital, entrou em contato com as revistas da Marvel Comics, cuja nova fase tinha começado apenas dois anos antes, em 1961. Impressionado com a qualidade e maturidade das histórias de Stan Lee, Jack Kirby, Steve Ditko e companhia, Shooter voltou aos títulos da DC e percebeu que permaneciam exatamente do mesmo jeito que as deixara.

Em sua mente fértil e infantil, Shooter decidiu aprender a escrever HQs no estilo Marvel e tentar vendê-las à DC, pois a editora “precisava de ajuda”. Foi o que fez, pois sua família atravessava dificuldades financeiras – seu pai era metalúrgico e a mãe dona de casa – e achou que podia ganhar dinheiro escrevendo quadrinhos. Após um ano estudando as HQs da Marvel e da DC, Shooter escreveu um roteiro para a Legião dos Super-Heróis – um grupo juvenil vindo do futuro que adicionava também o Superboy, a versão adolescente do Superman – e mandou pelo correio para os escritórios da DC em Manhattan. O implacável editor Mort Weisinger gostou da trama e telefonou ao jovem em janeiro de 1966, dizendo-lhe que ia publicar sua história e ainda lhe encomendou histórias do Superman e da Supergirl. Weisinger gostou tanto do material que lhe ofereceu uma vaga de escritor fixo da equipe da revista da Legião e o convidou a ir a Nova York passar dois dias na redação da DC para discutirem planos editoriais e um contrato.

Shooter, o escritor prodígio.

Em junho, após o fim das aulas escolares, Shooter (e sua mãe) foram à DC e só então Weisinger percebeu que seu escritor sensação era um menino de 14 anos de idade! Isso não lhe atrapalhou nada: o menino se transformou em um dos principais roteiristas da DC, trabalhando em Action Comics, Superman e Adventure Comics (com histórias do Superboy e da Supergil). Além de criar a mais famosa e apreciada fase da Legião, Shooter também criou o importante vilão do homem de aço, Parasita (Action Comics 340, em 1967) e promoveu a lendária primeira corrida entre o Superman e o Flash (Superman 199, de 1967). Mas o escritor desistiu da carreira nos quadrinhos após entrar na Universidade de Nova York e terminou tendo que voltar a Pittisburgh por causa de dificuldades financeiras. Ele retornaria a escrever para a DC no início dos anos 1970 até receber uma ligação do editor-chefe Marv Wolfman para ir trabalhar como editor assistente na Marvel.

Após exatos dois anos de trabalho na redação da Casa das Ideias, Wolfman já tinha deixado o posto, Archie Goodwin tinha assumido e, por fim, cedendo à pressão, também largou o cargo. E coube ao ex-menino prodígio assumir a função, agora como um veterano de 27 anos de idade, em janeiro de 1978. Após anos de instabilidade editorial – na qual houve cinco editores chefe em seis anos! – Shooter vinha com a missão de pôr ordem na casa e consertar as coisas. E ele fez isso, implantando uma organicidade editorial para acabar com atrasos e dar agilidade às histórias e tramas (e aumentar as vendas). Ele ficaria nove anos no cargo.

Stan Lee (publisher) e Jim Shooter (editor-chefe) em 1978.

No campo do Homem-Aranha, Shooter investiu pesadamente para dar continuidade a algo que Goodwin tinha iniciado, que era interligar pelo menos de modo ligeiro as três revistas aracnídeas. E mais do que qualquer outro de seus antecessores imediatos, Shooter teve muita liberdade em sua gestão, pois o publisher Stan Lee tinha se mudado para a Califórnia, de modo a estar mais próximo das adaptações dos personagens da Marvel para outras mídias como a TV que começavam a deslanchar na época.

Falaremos mais de Shooter adiante na história… E não pelos bons motivos…

A Chegada de Marv Wolfman

Para ocupar o lugar de Len Wein em Amazing Spider-Man, veio o então ex-Editor-Chefe da Marvel, Marv Wolfman, a partir da edição 182. Talvez mais ainda do que Conway ou Wein, Wolfman se tornaria um dos maiores escritores de quadrinhos de todos os tempos, o cara que criou (ao lado do desenhista George Perez) a versão dos anos 1980 dos Novos Titãs, a lendária Crise nas Infinitas Terras e escreveu notórias histórias do Batman. Tudo isso na DC, você deve notar. O trabalho de Wolfman na Marvel é menos lembrado nos dias de hoje, mas ele também produziu muita coisa boa.

O leitor deve lembrar que Marv Wolfman era um amigo de infância de Len Wein e os dois eram bastante ativos no fandoom dos anos 1960, produzindo fanzines. Wolfman nasceu em 1946, no Brooklyn, em Nova York, filho de um oficial da polícia, e viveu sua juventude no Queens, não tão longe da residência fictícia de Peter Parker. Foi nos fanzines de Wolfman, por exemplo, que o escritor Stephen King teve alguns de seus primeiros textos publicados. Como já vimos, Wolfman e Wein iniciaram a carreira nas HQs juntos, na DC Comics, trabalharam na linha de super-heróis e terror, e migraram para a Marvel no início dos anos 1970.

Marv Wolfman nos anos 1970.

Na Marvel, Wolfman terminou ocupando uma posição editorial, ficando responsável pela linha de magazines (revistas em preto e branco, com formato maior do que o tradicional), entre 1974 e 75, ao mesmo tempo em que seu amigo Wein era o editor-chefe; mas quando este deixou o cargo, Stan Lee comissionou Wolfman para substituí-lo, e ficou mais ou menos um ano no cargo, pedindo a Lee para sair na primavera de 1976 e poder se dedicar exclusivamente à escrita. Ele continuou como editor assistente, mas escreveu uma série de revistas de destaque, em especial The Tomb of Dracula, seu trabalho marvelesco mais lembrado, a revista do príncipe das trevas que foi o título de terror mais apreciado da história dos quadrinhos. Além de criar Blade, o caçador de vampiros (em Tomb of Dracula), escreveu histórias de Warewolf by the Night e do Demolidor.

Ao mesmo tempo em que assumia Amazing Spider-Man, no verão de 1978, Wolfman estava em seu apogeu na Marvel: criou a revista solo da Mulher-Aranha (personagem que já tinha aparecido de forma esporádica em revistas secundárias e terminou sendo uma personagem de sucesso por um breve período); criou o Nova, herói juvenil que fez muito sucesso em seu lançamento; e assumiu a revista do Quarteto Fantástico ao lado do desenhista John Byrne.

A temporada de Marv Wolfman em Amazing teve vários elementos de destaque, embora, é preciso dizer, não foi gloriosa como as anteriores – inclusive nas vendas, como indica o contexto. Mas o escritor fez um esforço consciente de sacudir as coisas, mudar o posicionamento dos coadjuvantes e a relação de Peter Parker com eles e trazer situações totalmente novas ao herói, o que visto em retrospecto foi um sopro de inovação na época. Como veremos agora baixo, cada uma das edições iniciais de Wolfman com o aracnídeo trazia uma “bomba” para sua vida pessoal e um passo de mudança em relação ao seu status quo.

Tudo começa em Amazing Spider-Man 182, de julho de 1978, ainda com arte de Ross Andru, trazendo o retorno de Rocket Racer, que rouba os planos de construção de um edifício. O Homem-Aranha intercepta o vilão com seu skate turbinado, mas o ladrão consegue escapar pelos túneis do metrô. Mas Rocket Racer decide chantagear seu empregador: o empreiteiro Jackson Wheele. Enquanto isso, Peter Parker vai visitar May no hospital (onde a velhinha está desde que sofreu um ataque cardíaco grave, em ASM 176), e lá é interpelado por Mary Jane Watson, que reclama que ele está sempre ausente. Mas os dois se acertam e saem para um encontro.

Desesperado pela chantagem que pode destruir sua carreira, Jackson Wheele contempla o suicídio, mas ironicamente, termina sendo interrompido pelo Rocket Racer, exigindo mais dinheiro, o que lhe desperta um desejo imenso de vingança. Ainda há outra batalha do skatista com o escalador de paredes, mas o ladrão escapa. Peter decide ir à casa de Mary Jane e, quando ela abre a porta, lhe mostra uma caixinha com um anel dentro e lhe pede em casamento, para o espanto da ruiva!

Amazing 183 começa com Peter indo para aula na UES e pensando que sua graduação está chegando, enquanto vemos Jackson Wheele indo até o Consertador e encomendando uma arma que possa matar o Rocket Racer. Parker vai ao hospital e seu sentido de aranha dispara forte, mas não entende por que – o motivo: a mãe de Robert Farrel (o Rocket Racer) está no mesmo leito que May. Ressabiado pelo ataque do Escorpião a sua tia (lá atrás em ASM 146 em outra temporada da velhinha nos cuidados médicos), ele se veste de Homem-Aranha e aparece na janela, o que leva a uma reação imediata do Rocker e uma luta que corre pelos prédios da cidade.

A dupla termina interrompida por Wheele armado da Big Wheel, um aparelho de roda única, também capaz de escalar paredes e cheios de armas, mas Aranha e Rocket são mais experientes e o veículo termina caindo no rio, levando o empresário a se afogar e morrer. Racer escapa outra vez e quando Peter retorna ao hospital, é informado que a visão do Homem-Aranha levou May a ter outro ataque e ela teve que ser transferida para a UTI, o que o deixa com um terrível sentimento de culpa e arrependimento. Pouco depois, vai conversar com MJ e a garota rejeita seu pedido de casamento, dizendo que é um espírito livre e não quer se amarrar a ninguém, no seu típico humor (fingido) sempre para cima. Mas a mensagem de MJ é clara: o relacionamento dos dois está encerrado!

Um cabisbaixo Peter volta para seu apartamento na rua Chelsea e percebe que tem alguém lhe esperando… Mas calma, ASM 184 revela que é apenas Betty Brant, de volta a Nova York após alguns meses em Paris. Mas ela traz uma novidade explosiva: seu marido Ned Leeds está obcecado pelo trabalho, lhe deixando sozinha o tempo todo, portanto, decidiu largá-lo e quer retomar seu namoro com Peter (!), o que deixa o rapaz aturdido. O leitor deve lembrar – confira lá na Parte 1 do Dossiê – que o casal se conheceu logo que o cabeça de teia começou a fotografar para o Clarim Diário, e começaram a namorar lá atrás em ASM 07 (de 1963), mas a relação turbulenta – pelo mistério causado por sua carreira de combate ao crime mais o ciúmes (não totalmente injustificado) pela mesma Liz Allan (agora namorando Harry Osborn) – não durou muito e se encerrou por volta de ASM 17, prosseguindo um tempinho de idas e vindas até que Betty se engajou no romance com Leeds (por volta de ASM 30), ficou noiva (ASM 46) e se casou (ASM 156).

Ah, mas isso é só o começo… Vemos J.J. Jameson e a namorada Marla Madison indo visitar o filho dele no hospital, John Jameson (que está em uma suspensão criogênica desde a última vez que se transformou no Homem-Lobo e lutou contra o Aranha, em MTU 37); enquanto Peter vai à UES e conhece Phillip Chang, com quem irá trabalhar no próximo semestre. Mas o rapaz está extremamente irritado e sai. De noite, Peter sai com Betty para que os dois conversem e vão a Chinatown. Vemos a gangue dos Lordes do Dragão assaltarem uma loja em troca de proteção e, então, Peter e Betty chegam ao Lotus Restaurante, onde coincidentemente Phillip Chang trabalha. Mais calmo, ele e Peter têm a oportunidade de conversarem.

Mas é uma revista do Homem-Aranha: enquanto estão lá, os Lordes do Dragão e seu líder, o Dragão Branco, irrompem e atacam Chang, sequestrando-o, ainda que Peter consiga lançar um rastreador-aranha no vilão. O escalador de paredes segue o sinal até a base do grupo, mas termina vencido facilmente pelas habilidades marciais do Dragão Branco, sendo amarrado em corretes e suspenso sobre um caldeirão fervente de óleo.

Passamos para a histórica Amazing Spider-Man 185, de outubro de 1978, edição comemorativa por sua alta numeração e, por isso, um número duplo, com duas histórias inteiras. Na primeira, continuamos de onde paramos: o Dragão Branco coloca um impasse para Phil Chang – ou ele se junta à gangue ou o Homem-Aranha morrerá. O jovem se recusa e o vilão joga o cabeça de teia dentro do óleo flamejante! Mas o herói não morre ao contrário do que pensam todos: no interior do caldeirão, Peter percebe que a temperatura é muito mais alta na superfície, e que no fundo do enorme caldeirão ainda não está tão quente. Por causa das chamas lá em cima, ele cria uma cobertura total de seu corpo com teia e salta para fora, cruzando o fogo. Sua teia entra em chamas, mas não seu corpo. Mesmo cego, usa o sentido de aranha para pular no Rio Leste e apagar as chamas, então, volta ao covil do grupo, que fugiu.

Phil conta ao herói sua história: na adolescência se envolveu com as violentas gangues de Hong Kong, onde nasceu, mas esse caminho levou seus pais a morrerem numa explosão. Decidido a mudar de vida, veio aos Estados Unidos em busca do restaurante do tio e para estudar, até que os Lordes do Dragão descobriram quem era e passaram a chantageá-lo sob a ameaça de entregá-lo aos seus antigos inimigos. O Homem-Aranha liberta o rapaz e continua procurando a gangue até encontrá-los, vencê-los e prendê-los.

Última capa de Ross Andru.

A segunda história traz um momento histórico no cânone do herói: sua cerimônia de graduação na UES. Os amigos de Peter estão superanimados e Joe “Robbie” Robertson chega até a providenciar uma televisão para exibir o circuito fechado que cobre a festa para que May Parker possa ver tudo pela TV no hospital. Ela diz ao editor do Clarim que aquele é o dia mais feliz de toda a sua vida! Na cerimônia, Peter percebe que seu nome não está na lista e estranha, mas assiste tudo – um discurso de Jameson (!) – e, no fim, seu nome não é chamado. Claro que a “sorte do Parker” iria agir até nessa hora: o jovem percebe que não pôde se formar porque está devendo um crédito de Ginástica!!!! A boa notícia é que ele pode cumprir o crédito e receber seu diploma no verão, sem ter que esperar outro ano inteiro.

A graduação na UES era uma das histórias mais pedidas pelos fãs do personagem em muito tempo. Mas a Marvel foi cuidadosa, afinal, como Peter ingressou na faculdade em ASM 30 (de 1965), seu fim representava a passagem de quatro anos na cronologia do herói. Esse intervalo de tempo de 13 anos parecia ser o suficiente, então, Stan Lee e Jim Shooter autorizaram o gesto. Mas Peter não se desligaria da UES: além de cumprir o crédito faltante, as histórias seguintes mostrariam que ele emendou uma pós-graduação aos seus estudos.

Ross Andru encerra sua longa passagem no Homem-Aranha.

A edição 185 também era o fim de outro importantíssimo capítulo do Homem-Aranha: o fim da longuíssima temporada de Ross Andru como desenhista de Amazing Spider-Man. Foram 5 anos e 60 edições (!) quase consecutivas, fazendo do filho de imigrantes russos e herói da Era de Prata da DC Comics o artista que por mais tempo tinha trabalhado com o personagem de maneira direta, ultrapassando até John Romita. Seu recorde só seria quebrado na década seguinte.

Andru regressou à DC Comics, onde se tornou o editor da revista da Mulher-Maravilha e criou belíssimas capas.

Mas a temporada de Marv Wolfman prosseguia, embora ele passasse alguns meses sem um desenhista fixo. Ironicamente, o primeiro deles seria justamente o que (mais tarde) se fixaria no título: Keith Pollard, que estreia na edição 186, de novembro de 1978, que – após o pedido (e negação) de Mary Jane, o retorno (e investida) de Betty Brant e a formatura – apresentava outra mudança de status quo ao mundo aracnídeo: Jameson fica possesso ao ter que noticiar que o Promotor Público Blake Tower (personagem que surgira nas histórias do Demolidor) havia retirado todas as queixas criminais contra o Homem-Aranha, fazendo o amigão da vizinhança deixar de ser um “criminoso procurado”.

Embora sempre visto pelas autoridades como uma ameaça, o Homem-Aranha era formalmente acusado de envolvimento nas mortes de George Stacy, Gwen Stacy e Norman Osborn, e procurado pela polícia desde então. Mas, após verificar cuidadosamente os inquéritos, Tower não vê indícios concretos que sustentasse as acusações e o inocenta de todas.

Novas habilidades para o Camaleão.

Enquanto isso, somos apresentados aquele que será o principal vilão do primeiro ciclo das histórias de Wolfman, um homem misterioso, sempre visto nas sombras. Ele contrata o Camaleão para que destrua a recém limpa imagem do cabeça de teia. A primeira ação do Camaleão – que agora não usa as velhas máscaras de borracha para seus disfarces, mas uma tecnologia avançada que projeta hologramas em seu corpo ou rosto, controladas por um aparelho em seu cinto – é se disfarçar de um homem tentando cometer suicídio pulando de uma ponte. O Aranha o salva, mas qualquer ação do vilão fica inviável porque a polícia aparece. E os tiras avisam que o promotor Tower quer vê-lo.

Peter vai ao hospital e recebe más notícias: com o tempo em que May está internada, a conta do hospital – lembre, não existe saúde pública nos EUA (Viva o SUS!) – está ficando muito alta e se ele não a pagar, sua tia será enviada para um asilo de idosos. De volta ao apartamento, Peter reencontra Betty, que pede desculpas por ter fugido na ocasião de Chinatown e reforça que tem sentimentos por ele e quer ficar com ele, mas Peter tenta se desvencilhar, pois não quer entrar em um triangulo amoroso com uma mulher casada. Com a hora da reunião com Tower chegando, ele põe Betty para correr e vai à Promotoria, onde é oficialmente comunicado da retirada das queixas e uma coletiva de imprensa é marcada para mais tarde no Central Park.

Blake Tower anuncia a retirada de todas as queixas contra o Homem-Aranha.

Na coletiva há um clima festivo e uma multidão apareceu para congratular o amigão da vizinhança, mas o Camaleão tenta estragar a festa, assumindo a aparência de uma velhinha e fazendo parecer que o herói atacou uma senhora idosa inocente; mas o escalador consegue desabilitar seu equipamento e mostrar a todos o embuste. Tudo termina bem e o Homem-Aranha é carregado pelos ombros da multidão, um momento de reconhecimento que Peter jamais experimentara na vida. Há até alguém sugerindo que o Aranha devia promover uma luta beneficente contra o campeão de luta livre Leon Spinks, uma piada com a revista Superman vs Muhammad Ali, que fora publicada na época.

O povo de Nova York celebra a inocência do Homem-Aranha.

O vilão misterioso por trás das ações do Camaleão fica furioso e jura vingança.

MTU Segue Ladeira Abaixo

Após o fim da temporada incrível de Chris Claremont e John Byrne, na edição 70, de junho de 1978, Marvel Team-Up perdeu definitivamente o rumo. Nas edições seguintes, um time rotativo de artistas cuidou da revista, inclusive, Bill Mantlo no número 72 (encerrando o arco de histórias do Homem de Ferro e do Wraith começado lá na edição 48), e Claremont de volta no 78.

Mas houve um último número de destaque em MTU 79, de fevereiro de 1979, com Claremont e Byrne reunidos uma última vez para contar a célebre história na qual Mary Jane Watson é dominada pelo espírito de Red Sonja, a guerreira antiga baseada nas histórias de Conan, o bárbaro (11 mil anos atrás).

MJ possuída por Red Sonja beija Peter Parker na arte de John Byrne.

Essa história do Aranha com MJ-Sonja marcou bastante os leitores da época, não somente pela belíssima arte de Byrne e pela inusitada e criativa maneira com a qual Claremont reuniu o amigão da vizinhança e uma heroína da Antiguidade.

Peter e Cissy Ironwood na arte de Mike Vosburg.

Em seguida, Claremont permaneceu alguns meses nos roteiros, mas com vários desenhistas diferentes, e tentando continuar com a ideia de uma ambientação própria. Nas edições 80 e 81, com arte de Mike Vosburg, temos o Doutor Estranho dominado por uma entidade que o transforma em um tipo de lobisomen, que só é derrotado com a ajuda de Satana (personagem vampira da linha de terror da Marvel), que termina se sacrificando para tal. Mas o mais importante é que Claremont introduziu um novo interesse amoroso para Peter Parker – tentando dar um ar mais humano à revista – na figura de Priscilla “Cissy” Ironwood. Ela apareceu algumas outras vezes, com as edições 82 e 83 numa trama envolvendo Viúva Negra, Nick Fury, a Condessa Valentina Allegra de Fontaine e a SHIELD.

Contudo, depois da edição 87, de novembro de 1979, a revista perdeu a capacidade de manter uma equipe criativa fixa e a qualidade despencou. A relação com Cissy Ironwood terminou em Marvel Team-Up Annual 02, de 1979, com roteiro de Chris Claremont e arte de Sal Buscema e Alan Kupperberg, quando o pai da moça morre em meio a uma aventura conjunta com o Hulk.

A Vingança de Smythe

De volta a Amazing Spider-Man e à temporada de Marv Wolfman, vamos entregar logo: o vilão misterioso que apareceu em ASM 186 era o Dr. Spencer Smythe, que continua a mover seu plano de vingança na edição 187, de dezembro de 1978, que teve arte de Jim Starlin (que também escreveu o roteiro ao lado de Wolfman).

Capa de Keith Pollard para história de Jim Starlin.

Na trama, Peter pede um aumento a J.J. Jameson, que lhe diz que lhe dará um aumento se ele conseguir cobrir o isolamento da cidade de Indian Point. Parker corre para lá e descobre que a SHIELD impede qualquer pessoa de entrar no local, mas como Homem-Aranha ele espia a cidade vazia até ser parado pelo Capitão América, o que leva a um confronto, já que o sentinela da liberdade avisa que ele tem que sair dali, que está pondo sua vida em risco. Mas o escalador de paredes insiste e consegue chegar a uma estação geral de energia, que está de posse de seu velho inimigo, Electro. O Capitão confronta o vilão, mas como não é familiarizado com os poderes de Max Dillon, não se dá bem. O Aranha interfere de novo e descobre o problema: Electro sequestrou Barry Starr, filho do astro do cinema Robert Starr; só que o rapaz foi mordido por um rato e está contaminado pela peste bubônica, o que é o motivo da cidade estar em quarentena. O cabeça de teia se dá melhor contra o vilão, que quando descobre tudo, fica desesperado e tenta sobrecarregar a estação para eliminar a doença de seu corpo e causa uma grande explosão. A SHIELD, então, aplica um antídoto à peste em Barry, Capitão e Aranha.

Arte de Dave Crockum.

O desenhista Keith Pollard volta em ASM 188, onde ainda não revelado ao público (e também responsável pela ameaça da edição anterior), Smythe arranja o sequestro de John Jameson, ainda em sua suspensão criogênica, enquanto Peter e Betty visitam May no hospital. Buscando reconquistar o coração do homem que um dia a amou, Betty arranja um passeio de barco noturno por Nova York, levando também Flash Thompson, Sha Shan, Harry Osborn e Liz Allan. Peter fica bastante desconfortável com Betty, pois não quer ceder aos impulsos provocados por ela em vista que é casada; e fica ainda pior quando o quase-casal se encontra com Mary Jane e seu novo namorado, Brad Davis. Mas o barco é sequestrado pelo Retalho, o criminoso de rosto desfigurado (que surgiu em ASM 162 e seria o arqui-inimigo do Justiceiro) e sequestra Harry e Lizz. Peter consegue fixar um rastreador-aranha, mas o Retalho fica com medo de ser interceptado e larga os reféns, mas ainda assim, o Homem-Aranha o localiza e o prende.

Mas a sorte de Parker ataca de novo: ele esqueceu sua câmera no barco e a perdeu.

Capa e história de John Byrne.

Mantendo a instabilidade de desenhistas na revista, Amazing 189 traz o fantástico John Byrne na arte, numa história na qual Peter vai ao hospital e um médico grosseiro lhe diz que, como não pode pagar pelo tratamento da tia, ela será enviada para um asilo de idosos. Enquanto isso, Smythe (ainda não-revelado ao público) confabula com John Jameson sua vingança, com o astronauta totalmente coberto por ataduras, como uma múmia. J.J. Jameson está desolado pelo desaparecimento do filho e é confortado por Marla Madison, sua namorada. O editor visita o promotor Blake Tower e pede mais empenho na busca, e como não fica satisfeito, oferece uma recompensa por informações.

Betty avança o sinal em Peter por Wolfman e Byrne.

Betty vai mais uma vez ao apartamento de Peter na rua Chelsea, e o pressiona mais uma vez. Dessa vez, ela avança e lhe rouba um beijo. Peter tenta resistir, mas termina por ceder. Em paralelo, John Jameson (ainda como uma múmia) ataca o Clarim Diário em busca de seu pai, e quando o Homem-Aranha intervém, as ataduras se rompem e revelam que John ainda é o Homem-Lobo.

Capa de Keith Pollard.

ASM 190 mantém John Byrne na arte e é finalmente revelado que o vilão misterioso que está manipulando os eventos nas últimas edições é o Dr. Spencer Smythe, que está em sua mansão em Westchester, no interior do estado de Nova York, e está bastante debilitado: ele está morrendo depois de anos de exposição a isótopos radioativos. Enquanto o Homem-Aranha e o Homem-Lobo lutam na cidade, somos apresentados ao Globo Diário, o jornal que é o maior concorrente do Clarim no Universo Marvel (e que já aparecera em diversas revistas da editora), bem como seu proprietário, K. J. Clayton e o editor Barney Bushkin. A dupla vê as fotos de Peter no Clarim e fica impressionada, com Clayton mandando Bushkin contratar Parker.

A luta Aranha-Lobo leva até uma vendedora de carros, no qual Jameson consegue pegar a arma de um segurança desmaiado, mas não tem coragem de atirar no próprio filho. Então, o Homem-Lobo os conduz à Ponte do Brooklyn com a intensão de jogar o editor lá de cima, o que faz, mas o Homem-Aranha o salva. Falando com o filho – e com o Lobo vendo o pai em perigo real – a consciência John volta à tona e ele reverte à sua forma normal. Assistindo a tudo de modo remoto, Smythe ativa uma bomba escondida no estômago do astronauta. Sentindo muita dor, John termina caindo da ponte, mas o escalador consegue pegá-lo antes de atingir à água. Como a dor continua, John pede que diga ao pai que o ama e se joga no ar, mas antes cair no rio, John desaparece em um facho de luz. Jameson, claro, não aceita a situação e acusa o Aranha de matar o filho dele! (O astronauta não morrera, mas fora transportado para um microuniverso, como seria revelado dois anos depois em The Savage She-Hulk 13, a revista da Mulher-Hulk).

Somente na ASM 191, de abril de 1979, é que a revista volta a ter um desenhista fixo, com Keith Pollard, após ele próprio, Jim Starlim e John Byrne se alternarem por cinco edições. Pollard tinha 29 anos e vinha dos títulos de artes marciais e trabalhara antes com Wolfman quando este era editor daquela linha. Nascido em Detroit, Pollard foi o primeiro afroamericano a desenhar o Homem-Aranha de forma contínua, e enquanto comanda a arte de Amazing, também trabalhou regularmente no Quarteto Fantástico e no Thor.

Keith Pollard nos anos 1970.

Wolfman continua sua trama: o povo de Nova York está atemorizado com os editorais do Clarim que acusam o Homem-Aranha de ter matado John Jameson e o herói fica assustado e irritado com isso. Para incrível felicidade de Smythe, ele simplesmente vê Jameson e Marla à sua porta: o editor quer um novo Esmaga-Aranha, e para o cientista é a realização de um sonho: cumprirá sua vingança e ainda ganhará uma fortuna para criar uma nova arma.

O Homem-Aranha vai até o escritório de Blake Tower reclamar da difamação de Jameson, mas o promotor não pode ajudá-lo: o herói teria que processar o editor por perjúrio e revelar sua identidade secreta. Na despedida, Tower entrega uma carta ao herói e pede que ele não use a Promotoria Pública como caixa do correio. O escalador agradece por tudo e vai para casa, onde começa a produzir uma nova teia, porque sua fórmula não está resistindo à poluição do ar da cidade e se degenerando mais rápido do que o normal.

Ao mesmo tempo, Jonah e Marla voltam à casa de Smythe, que lhes apresenta o novo Esmaga-Aranha: uma versão mais moderna, realmente parecendo um aracnídeo. Mas depois que Marla sai, Smythe prende uma bomba no pulso do editor. Em casa, Peter abre a carta que trouxe da Promotoria e é da Claredge Advertsing, que iria fabricar brinquedos do Homem-Aranha. A empresa diz que acredita na inocência do herói, mas ele é controverso demais para seguir na produção. A notícia deixa o jovem muito triste, pois contava com esse dinheiro extra para pagar a altíssima conta do hospital da tia May. Isso o leva a pensar que deverá continuar a dar as aulas de meio-período que começara a lecionar em Peter Parker: The Spectacular Spider-Man 32, nas histórias de Bill Mantlo.

Meio desesperado, Peter vai ao Clarim pedir outro aumento a Jameson, mas ele não está lá e Robbie lhe encomenda um trabalho e reclama que ele não está apresentando muitas fotos ultimamente. Depois, o Homem-Aranha vai atrás do sumido editor e termina no laboratório de Smythe em Westchester, onde ele é amarrado à mesma bomba em forma de algema na qual Jonah está preso.

Em ASM 192, de abril de 1979, Smythe explica que está morrendo por anos de exposição a isótopos radioativos que usou para construir seus Esmaga-Aranhas e culpa Jameson por ter lhe corrompido e o feito mudar de um cientista íntegro em um criminoso. A bomba ao qual o editor e o Homem-Aranha estão presos detonará em 24 horas. O escalador decide fugir de Westchester e procurar uma solução e desarmar a bomba. Enquanto isso, Robbie tenta localizar Peter para lhe oferecer um trabalho.

O Aranha leva Jonah à casa do Dr. Curt Connors para que ele os ajude e a polícia o vê entrando pela janela e vai até lá e, em seguida, encaminham o esquadrão anti-bombas para tentar desarmá-la, mas não conseguem. Como Blake Tower sugeriu que Jonah e o herói sigam para um lugar seguro e não ferir ninguém com a explosão, o Homem-Aranha decide sair em busca de uma solução. Em paralelo, uma delegação egípcia está na cidade para uma exposição sobre o Rei Tut (e este é o trabalho que Robbie queria que Peter fizesse), e é atacada pelo Mosca, que surpreende a todos ao roubar simplesmente um ingresso da exposição.

Ao mesmo tempo, Betty Brant organiza uma festa surpresa para celebrar a graduação de Peter e convida todos os seus amigos. Decidida a que tudo fique bem, Betty liga até para Mary Jane, mas a ruiva não percebe porque saiu de casa segundos antes, indo justamente para um encontro que marcara com Peter. Enquanto cruzam pela cidade, Jameson e o herói são vistos e atacados pelo Mosca. Sem conseguir lutar direito com o editor pendurado em seu braço, o escalador se dá mal e a dupla cai de um prédio. Usando toda a sua habilidade, o Homem-Aranha consegue frear a queda e usa o próprio corpo para amortecer o impacto no chão, ficando inconsciente. Ao ver seu rival desmaiado, Jameson contempla a oportunidade de finalmente desmascará-lo.

Mas a cena corta e vemos MJ zangada, ainda esperando por Peter. Claro, o rapaz não aparece e ela diz que Peter perdeu sua última chance com ela. Então, o Homem-Aranha acorda de volta na casa de Connors: Jameson o levou até lá. Tendo ficado desacordado, o herói contempla a possibilidade do editor ter tirado sua máscara. Mas não pode se preocupar com isso agora: de novo Connors não consegue desabilitar o explosivo. Faltando apenas algumas horas para a explosão, o escalador de paredes toma uma medida última e desesperada: retornar ao laboratório de Smythe em Westchester.

Ao chegarem lá, o cientista jaz morto, e Jonah se ajoelha e implora à “ameaça mascarada” que o salve, que não o deixe morrer. Ao analisar o laboratório, o Aranha tem uma ideia: usar a câmara criogênica que contivera John Jameson para congelar os circuitos da bomba. Com isso, consegue parar a contagem, tirar o artefato e fazê-lo explodir num lugar ermo. À salvo, Jameson volta ao seu “normal” e culpa o herói por tudo o que aconteceu e o acusa de armar tudo e te ter matado o seu filho.

A Saga do Carniça

O Carniça confronta a Maggia. Arte de Jim Mooney.

Cumprido o primeiro ciclo em Peter Parker: The Spectacular Spider-Man, entre os números 09 e 20, o escritor Bill Mantlo deu início ao seu momento mais importante na revista dali em diante, apresentando a Saga do vilão Carniça, que servia como um tipo de epílogo das temporadas de Conway e Wein em Amazing, mas ao mesmo tempo, uma oportunidade de movimentar a revista secundário do amigão da vizinhança com um mérito totalmente próprio. Isso sem falar do desenrolar da subtrama do Tigre Branco, que era um contraponto interessante ao Homem-Aranha, já que o herói latino abdica de sua identidade secreta e precisa lidar com as consequências, algo ao qual Peter Parker não precisara (ainda) enfrentar.

Autorretrato de Jim Mooney em Spectacular Spider-Man.

Do ponto de vista artístico, é bom anotar que depois de trabalhar solidamente com Sal Buscema, esse ciclo de apogeu de Spectacular sob o comando de Mantlo não se deu ao luxo (infelizmente) de ter um artista tão fixo. É bem verdade que o veterano Jim Mooney – que trabalhava com o personagem desde os anos 1960, seja fazendo o pincel para John Romita ou desenhando mesmo as histórias (e, como o leitor deve ter notado até aqui), com passagens por MTU e a própria SSM antes – trabalhou na maioria dessas histórias, mas ainda assim, revezando com uma boa sorte de outros ilustradores como veremos.

Capa de Keith Pollard.

Como era típico dos anos 1970, a trama geral que movimenta essa fase avança devagar, com pistas e adesões que vão se somando. Começa em Peter Parker: the Spectacular Spider-Man 21, de agosto de 1978, com roteiro de Mantlo e arte de Mooney. Na trama, enquanto o Escorpião decide se vingar de J.J. Jameson por lhe “transformar em um monstro”, vemos uma conversa séria entre Peter e Mary Jane após ela ter recusado o pedido de casamento dele (em ASM 182) e vão visitar May, que ainda está no hospital. Em paralelo, vemos Hector Ayala usufruindo da fama que veio com a revelação ao público de que ele é o Tigre Branco, o que faz com que sua namorada Holly Gillis decida encerrar o relacionamento deles.

Resgatando um pouco do velho estilo de MTU, SSM 22 – agora por Mantlo e o desenhista Mike Zeck (que teria um bom futuro com o cabeça de teia, como veremos) – vemos o Homem-Aranha interferindo numa guerra do Cavaleiro da Lua contra a Maggia, organização criminosa que cumprirá a função secundária de amarrar as tramas neste ciclo da temporada de Mantlo. No típico estilo Marvel, os dois herói lutam entre si antes de unirem forças contra o inimigo comum e terminam tendo que lidar com o braço forte do Ciclone. E mostrando que o editor-chefe Jim Shooter levava à sério a política de interligar tematicamente as várias revistas do Aranha (como tinha iniciado Archie Goodwin), vemos Peter saindo com Betty Brant, em consequência aos eventos de ASM 183.

Capa de Dave Corckum.

SSM 23 – de novo com arte de Mooney – mostra o Ciclone conseguindo fugir, mas um dos capangas presos deixa uma pista de uma reunião na Grant’s Tomb. A edição tem um interesse adicional porque Aranha e Lua conversam e criam uma verdadeira hierarquia do crime organizado do Universo Marvel, com HIDRA no topo, seguindo suas dissidências IMA e Império Secreto, e o fato do submundo “mais pé no chão” (os gangsters) estar enfraquecido, com o Rei do Crime aparentemente morto (desde ASM 164) e o Cabelo de Prata seriamente ferido no hospital (desde ASM 179). A dupla vence o Ciclone, mas o misterioso líder da Maggia se esconde e foge.

SSM 24 é uma edição “de respiro” da trama geral – e traz desenho de Frank Springer (inclusive na capa) – e mostra Peter Parker sendo levado à força por Harry Osborn, Liz Allan, Flash Thompson, Holly Gillis e Betty Brant para uma boate de Disco Music. O evento causa ciúmes em Mary Jane, porque Betty vai estar lá – em consequências aos eventos de ASM 183 – e há mais referências cruzadas ao fato das acusações contra o Homem-Aranha terem sido retiradas (ASM 186) e que Peter não irá conseguir se formar com sua turma (ASM 185). Em meio a isso tudo, a atração da festa é o Hypno-Hustler, um músico que usa um equipamento especial para hipnotizar a plateia e os roubar. Mas o escalador de paredes percebe o plano e consegue prendê-los. Que tal essa crítica à comercialidade da Disco Music, roubando o dinheiro do público por meio de charlatões? É por isso que Mantlo era demais!

O Carniça se apresenta a uma aliança com a Maggia. Por Mantlo e Mooney.

A trama geral é retomada em Spectacular 25 – de novo com Mooney – na qual presenciamos uma reunião da Maggia e descobrimos que seu líder é o misterioso Masked Marauder e somos apresentados ao grande vilão desse ciclo: o Carniça. Com uma aparência que remete ao Duende Verde, mas esquálido, com a pele amarela, parecendo um cadáver, armado de um tipo de pó mortífero e com a capacidade de atravessar as paredes e flutuar como se fosse um fantasma, o novo vilão dá uma surra nos capangas da Maggia, mas não consegue firmar uma parceria como queria. Em paralelo, vemos o Tigre Branco impedindo um grupo de ladrões de roubar um carro, apenas para ter o desgosto de saber que o proprietário é um traficante da região e que não pode fazer nada sem provas.

A Maggia continua a mover seu plano e promove um ataque ao Citicorp Center – um prédio novo em Nova York, então – e o Homem-Aranha luta contra eles e sua arma secreta: o Birdroide, um tipo de robô misto de míssil e ave, mas que, em seguida, demonstra a incrível habilidade de se transformar em outro robô humanoide, o Tri-Man. Levando a melhor temporariamente, o escalador de paredes é atacado pelo Masked Marauder, que dispara uma rajada nos olhos do herói, que fica cego em consequência.

Seguimos para SSM 26 (continuando com Mooney), onde a Maggia foge deixando o cabeça de teia totalmente cego para trás e sem conseguir voltar para casa. Enquanto isso, Betty Brant e Mary Jane se encontram no apartamento da rua Chelsea e brigam por seu ciúmes pelo nosso herói. Também no campo pessoal, vemos uma conversa entre Flash, Sha Shan e Holly sobre Hector e o que aconteceu com ele. No fim das contas, o Demolidor encontra o Aranha vagando e, sendo ele próprio cego, percebe que o escalador de paredes está sem poder enxergar.

Esta capa de Dave Crockum embala o primeiro trabalho importante de Frank Miller, no interior da revista.

Chegamos então à histórica Spectacular 27, de fevereiro de 1979, importante não exatamente por causa de sua trama, mas de um discreto feito artístico: é o primeiro trabalho importante do desenhista (e futuro escritor) Frank Miller, o homem que produziria clássicos como A Saga de Elektra, A Queda de Murdock (ambos com o Demolidor), O Cavaleiro das Trevas e Ano Um (ambos com o Batman, na DC Comics), e peças mais autorais, como Sin City e Os 300 de Esparta. Então, Miller era um esquálido artista em busca de algum lugar ao sol e, após um pequeno número de trabalhos secundários, conseguiu sua primeira grande oportunidade aqui, ao desenhar essa revista do Homem-Aranha.

O portfólio soturno e expressivo de Miller como desenhista convenceu o editor-chefe Jim Shooter e a editora de SSM, Jo Duffy, a dar uma oportunidade (por dois números!). O fato dessa primeira chance ser justamente com a participação do homem sem medo é uma coincidência quase cósmica, mas sem dúvidas, o resultado dessas duas edições foi crucial para que Miller fosse transferido para “dar vida” ao Demolidor em sua própria revista logo em seguida, trabalhando ao lado do escritor Roger McKensie. Daredevil estava prestes a ser cancelada por vendas baixas, então, Shooter pensou que não faria mal arriscar uma última estratégia: entregar a Miller também os roteiros. Miller transformou Daredevil em um dos melhores dos produtos e de maior sucesso da Marvel, um marco histórico nos quadrinhos e uma peça que constantemente aparece no Top10 das melhores HQs de todos os tempos.

Além dos roteiros radicais e inteligentes, uma marca de Miller nessa primeira fase de sua carreira era sua arte de grande dinâmica movimentacional e influência do cinema e algo disso já é visível neste pequeno trabalho com o Homem-Aranha. Na edição 27, o Demolidor leva o Homem-Aranha ao oftamologista Dr. Orlock, que analisa o olho do herói e diz que a cegueira não é permanente. Enquanto isso, MJ e Betty ainda estão na rua Chelsea e após a animosidade inicial, num ato de maturidade, as garotas decidem continuar a serem amigas e ver no que vai dar. Como Peter não aparece, elas vão embora, justo em tempo do Carniça aparecer no apartamento e escrever “Os mortos andam, Parker” na parede. A sra. Muggins (a proprietária do prédio) vai fazer uma faxina no apê e fica horrorizada com a mensagem e chama a polícia!

Saindo do consultório, Demolidor e Homem-Aranha são atacados pela Maggia e o Birdroide.

Capa de Keith Pollard.

Miller prossegue na arte em SSM 28, em que os heróis se dividem, com o escalador de paredes confrontando o Birdroide (e usando seu sentido de aranha para compensar a falta de visão) e o homem sem medo atrás do Masked Marauder e os heróis vencem. E isso era apenas a abertura para o que vem a seguir: já enxergando um pouco, Peter volta ao apartamento e vê a polícia, que encara a mensagem na parede como uma ameaça. O teor da frase – que remete a morte, vingança e, claro, o conhecimento de sua identidade secreta – deixam Parker alarmado de que Harry Osborn pode ter se tornado o Duende Verde de novo. Mas ele volta à Universidade Empire State (UES) e Hector Ayala o abriga em sua casa, enquanto a polícia mantém o local fechado para investigação. Mas o Carniça aparece na UES, ataca Peter e, quando Hector interfere, é nocauteado antes que possa se transformar no Tigre Branco. Holly Gillis implora que não os mate.

O Darter, auxiliar do Carniça.

Passamos a SSM 29 e Jim Mooney regressa para desenhar as três próximas edições, que encerram o arco. O Carniça e Peter lutam e o jovem é arremessado pela janela e cai em cima de um monte de arbustos. Hector consegue se transformar no Tigre Branco e afugentar o vilão, levando Peter para o hospital universitário, mas o herói se recusa a ficar lá e volta às aulas. Depois, Peter, Hector e Flash conversam sobre o Carniça e o que isso significa (Flash também teme que ele seja Harry), e o professor Randy Vale aparece e oferece a Parker a vaga de professor assistente para o próximo semestre.

Homem-Aranha e Tigre Branco contra o Carniça e Darter.

Mas Vale é um capanga do Carniça, o Darter, que ataca Hector quando ele se torna o Tigre Branco para vigiar Peter e lhe garantir segurança. Com Hector ocupado, o Carniça ataca Peter, que se veste de Homem-Aranha e as duas lutas se encontram no ginásio da universidade. O vilão cadavérico então finalmente revela o motivo de sua vingança: as mortes de Gwen Stacy e Miles Warren!

Capa de Keith Pollard.

Na edição 30, as batalhas continuam, mas o Carniça consegue vencer o Tigre Branco e o Homem-Aranha, levando seu alvo consigo até um laboratório. Lá, ele revela a Peter que é um clone degenerado de Miles Warren e que foi salvo por Randy Vale em troca de fornecer a esse os poderes de Aranha do herói. O Carniça usa o DNA de Peter para criar um tipo de ameba-aranha gigante e deixa o herói à mercê do monstro.

Capa de Keith Pollard.

Então, Spectacular 31, de junho de 1979, encerra o arco, com a batalha final entre o Aranha e o Carniça. Randy Vale aparece e percebe que o Carniça quer apenas matar Peter e nunca vai lhe cumprir o que prometeu, então, se volta contra o vilão e termina sendo devorado pela ameba-aranha. Em consequência à acirrada batalha, o laboratório pega fogo, o que leva tanto o monstro quanto o Carniça à morte. Peter fica com sentimentos confusos, pois apesar do vilão ser outro clone, diferentemente dos outros, ele não era exatamente um ser humano ou mesmo uma coisa viva.

O arco do Carniça foi a primeira derivação da Saga do Clone de Gerry Conway (então, com 4 anos de idade) e foi uma adesão interessante ao cânone do herói por trazer uma situação inusitada, mistério e um novo e poderoso vilão que, ainda que guardasse bastante semelhança visual ao Duende Verde, não era exatamente uma “nova versão” do arqui-inimigo aracnídeo, mas algo novo e assustador. Foi realmente uma boa história e o ponto alto dessa temporada de Bill Mantlo à frente de Spectacular.

A Volta do Assassino de Ben Parker

Fechado o segundo ciclo de Marv Wolfman em Amazing Spider-Man (com a trama de Smythe), chegamos ao seu terceiro arco de histórias e o principal em sua temporada na revista: a volta do assassino de Ben Parker. O leitor deve lembrar que já há algum tempo antes – em ASM 170 – o escritor Len Wein tinha apresentado uma curiosa cena na qual víamos o assassino (curiosamente, o personagem nunca é nominado nas histórias, sendo chamado apenas de buglar, ou seja, ladrão) alugando a mesma casa que fora de May e Ben Parker. Mas Wein não retomou o tema nas dez edições seguintes que concluíram sua fase na revista.

Wolfman era um notório amigo e talvez os dois tenham conversado sobre isso, mas o fato é que este escritor deu prosseguimento ao plot que virou o auge sua fase e um grande momento pessoal de Peter Parker.

Começa em Amazing Spider-Man 193, de junho de 1979, continuando com os desenhos de Keith Pollard. O Homem-Aranha está temeroso de que J.J. Jameson tenha tirado sua máscara quando esteve desacordado e preso ao editor por meio daquela bomba, então, vai até o Clarim espionar suas conversas e ver se descobre algo. Do lado de fora, escuta uma discussão de Jameson com Joe “Robbie” Robertson sobre uma reportagem acerca da morte de seu filho John (três números antes), que trouxesse uma acusação formal de que a “ameaça mascarada” seria o responsável, mas Robbie (que é o editor de cidades) se nega, pois não há fatos que comprovem isso. Furioso, Jameson o mandar sair da sala e ir embora.

O teor da conversa não dá a sensação de que ele sabe de sua identidade secreta, então, Peter decide vestir suas roupas civis e entrar na redação. A discussão entre Jonah e Robbie continua e Glory Grant interrompe para dizer que Parker está lá para conversar, Jameson manda Robertson falar com ele: é quando Peter descobre que foi demitido do Clarim, porque não cumpriu a missão que J.J. deu para ele (fotografar a delegação egípcia – que ele não pôde porque estava amarrado ao editor). Peter fica chocado e implora que Robbie interceda por ele, mas Robbie não pode, porque já tinha colocado o próprio emprego em risco ao insistir e tentar arrumar outra missão ao jovem, que simplesmente desapareceu e não deu notícias. Robbie também estava chateado com a ausência de Peter na redação e a falta de fotos. Num misto de tristeza e raiva, o fotógrafo deixa o Clarim.

Sem mais o que fazer, ele veste seu uniforme vai até o Metropolitan Museum vigiar a exposição egípcia, já que o Mosca havia atacado a delegação. Mas ele não sabe que o vilão está em suas roupas civis na fila de entrada, junto ao público. Após algum tempo, o criminoso se revela e rouba um artefato valioso, e o Homem-Aranha não consegue impedir porque é atrapalhado pelos seguranças do museu, que atiram nele (influenciados pelos editorais do Clarim).

Em seu apartamento, Peter liga para Mary Jane, que está furiosa com ele (porque não apareceu no encontro que marcaram) e desliga em sua cara. Mas as emoções estavam apenas começando: Betty Brant aparece querendo prosseguir com seu romance, mas não muito tempo depois, seu marido Ned Leeds também entra pela porta. Obviamente, há uma grande discussão e um nervoso Leeds chega a dar um soco em Peter, que manda todos dois irem embora de sua casa!

Furioso com a demissão do Clarim, o fora de MJ e a confusão Betty-Ned, Peter veste seu uniforme e sai atrás do Mosca, mas é frustrado outra vez: chega há tempo apenas de ver o criminoso ser preso pela polícia sem a sua ajuda. E sem saber: o editor do Globo Diário, Barney Bushkin, mais uma vez ligou para sua casa em busca de lhe oferecer um emprego e, como não estava, não pôde atender.

O ladrão está de volta.

No dia seguinte, vemos May Parker chegando ao Reswell Nursing Home, o asilo de idosos no qual passará a ter seus cuidados médicos, já que Peter não podia continuar bancando a internação no hospital. Lá, ela está sob a responsabilidade do Dr. Reinhardt, que lhe apresenta o lugar e suas comodidades. Depois, quando o médico volta à sua sala, vemos que o ladrão/assassino de Ben Parker está lá e dia que Reinhardt terá que matar May.

Em meio ao arco envolvendo o assassino/ladrão e o Dr. Reinhardt que apenas se inicia, Wolfman também introduziu uma grande adesão ao cânone do Homem-Aranha: a Gata Negra, personagem que será uma coadjuvante de destaque pela década seguinte. Wolfman a criara para a revista da Mulher-Aranha (versão feminina do aracnídeo que estreara em 1977), com o visual por Dave Crockum (famoso cocriador dos Novos X-Men e que vinha fazendo várias capas do Aranha ultimamente – especialmente em Spectacular). A ideia era de ser uma oponente de Jessica Drew, mas como terminou por não usá-la naquele título, decidiu reaproveitá-la como rival do Homem-Aranha, mas com um elemento ainda nunca usado com esse herói: uma atração física entre os dois.

Sem dúvidas, a relação inimigos-amantes que Wolfman desenvolveu para a gata e a aranha remetia diretamente à mesma relação existente entre Mulher-Gato e Batman na Distinta Concorrente. Wolfman se defende da acusação de plágio afirmando que, na época em que criou a Gata Negra, ou seja, no fim dos anos 1970, não havia uma relação tão bem construída entre a gata e o morcego, tal qual estamos acostumados nos dias de hoje, e que embora as histórias antigas – especialmente dos anos 1940 e 50 – explorassem isso, as aventuras do morcego nos anos 1970 tendiam mais a mostrar a Mulher-Gato como uma assassina impiedosa, e não a anti-heroína que nos acostumamos pós-Crise nas Infinitas Terras. Desse modo, o argumento de Wolfman é que os escritores da DC Comics dos anos 1980 terminaram por se inspirar na relação entre o Homem-Aranha e a Gata Negra para construir o bromance entre Batman e Mulher-Gato. Faz algum sentido, inclusive, porque o próprio Wolfman seria um desses escritores.

Mas de qualquer modo, é um tema espinhoso na rivalidade de fãs Marvel-DC. Não foi à toa que, quando essas histórias aracnídeas foram publicadas pela primeira vez no Brasil, no começo dos anos 1980 pela Editora Abril, a personagem Black Cat foi traduzida como “Mulher-Gato”, o que só foi corrigido algum tempo depois, adotando o Gata Negra mais tradicional.

Pois bem, Amazing Spider-Man 194, nos apresenta logo de cara à Gata Negra, onde vemos sua grande habilidade ao roubar uma série de documentos de um alto edifício de Nova York. Em seguida, a ladra se reúne com os capangas Boris Korpse e Bruno Grainger para montar uma quadrilha especial. Na manhã seguinte, vemos Peter visitando May na Restwell Nursing Home, e apesar de tudo parece Ok, só consegue chorar quando vai embora, triste pelo destino imerecido de sua tia. Outra vez, vemos o ladrão/assassino ameaçando o Dr. Reinhardt de que tem que dar um fim em May. E seu sobrinho!

A Gata Negra por Wolfman e Pollard.

No Clarim Diário, Ned Leeds se encontra com Betty Brant e briga com ela, enquanto Robbie mostra a capa do Globo Diário com uma bela fotografia de Peter Parker sobre uma ação do Homem-Aranha ao lado do Quarteto Fantástico. O evento ocorreu em Fantastic Four 207, publicada no mês anterior, que era escrita por Wolfman com desenhos de John Byrne. Curiosamente, o escritor escolheu aquela edição da “primeira família” para mostrar a cena na qual Peter é contratado por Barney Bushkin e começa a trabalhar para o Globo, em vez de fazê-lo dentro de Amazing. Robbie quer mostrar a Jonah que demitir o rapaz foi um erro, mas o irritado e cada vez menos racional editor se recusa a reconhecer seu equívoco.

É só depois dessa cena que vemos Peter chegando ao Globo Diário e sendo recebido com gratulações por Barney Bushkin, elogiando a qualidade de seu material e as magníficas fotos da edição anterior. O gesto deixa Peter desconcertado, já que nunca teve esse tipo de reconhecimento no Clarim.

À noite, enquanto faz sua ronda, o Homem-Aranha a Gata Negra agilmente se movimentando pelos telhados da cidade e a acha incrivelmente bonita, ficando interessado. Ele decide segui-la sem ser visto, torcendo para que ela seja uma nova heroína, mas então, a ladra pare em um telhado e inicia a negociação de uma compra de armas. Triste, mas cumpridor de seu dever, o aracnídeo interrompe a negociação e inicia um confronto com a garota, ficando surpreso com sua agilidade e, mais ainda, com o que parecem poderes causadores de má sorte, afinal, gatos pretos dão azar, não é mesmo? Esses dois fatores levam ao escalador perder a luta e a Gata Negra (também mais do que interessada nele). No fim, os dois fazem meio que uma trégua e a Gata lhe diz que “tem um crush” por ele há anos e até tem um colecionador de fotos dele, e levanta delicadamente a parte de baixo de sua máscara e lhe rouba um beijo e vai embora.

A Gata Negra trouxe uma outra dinâmica para o Aranha. Por Wolfman e Pollard.

Na manhã seguinte, Peter sai de casa e vê que Ned Leeds está do lado de fora, nervosamente esperando para conversar com ele, mas zangado com toda essa história, Peter o deixa falando sozinho e vai para UES, em busca de prosseguir com as aulas de sua pós-graduação. Lá, ele encontra Flash Thompson e Harry Osborn, que vêm lhe questionar por que ele faltou à festa surpresa que Betty Brant organizou para comemorar a obtenção de seu diploma. Mas os nervos de Peter estão tão à flor da pele que ele explode e sai. Em seguida, ele vai ao Globo e pesquisa nos arquivos sobre a Gata Negra e suas ações recentes. Então, ele conhece a repórter April Maye, que demonstra algum interesse pelo rapaz (algo que ele não nota) e lhe convida para almoçar, enervado e frustrado com todas as coisas que estavam acontecendo, Peter recusa o convite de um modo um tanto rude, o que faz a repórter jurar que ele vai se arrepender dessa esnobada.

Mais tarde, descobrimos que o plano da Gata Negra é libertar da prisão o antigo gatuno Walter Hardy, e o Homem-Aranha descobre tudo e vai lá impedir. Vemos que o herói não quer brigar e até diz (meio de brincadeira) que achava que depois do beijo pensava que eles eram amigos. A ladra confirma que tem mesmo um colecionador de fotos do herói e até manda um beijinho no ar, mas além da dificuldade em enfrentar os capangas Boris e Bruno, o azar causado pela ladra interfere e ele termina soterrado em baixo de uma parede de pedra.

A edição 195, de agosto de 1979, começa com a Gata Negra fugindo e levando o libertado Walter Hardy, que está acamado e à beira da morte. Depois de conseguir se soltar, e com o braço esquerdo muito machucado, Peter vai para casa e na manhã seguinte, reencontra Flash e Harry e vai pedir desculpas pelo seu destempero no dia anterior. Então, Betty chega pedindo que ele assuma seu amor, ao mesmo tempo em que Ned aparece exigindo que ele se afaste da mulher dele! Furioso com aquela situação e querendo uma solução definitiva para o problema, Peter decide mentir: ele diz que usou Betty para esquecer os sentimentos por Mary Jane, que lhe deu o fora. Betty fica tão aturdida pela “revelação” que dá um tapa forte em Peter e vai embora. Flash e Harry não sabem o que pensar.

Vemos novamente o ladrão/assassino pressionando o Dr. Reinhardt para que arranque a verdade de May para que ele descubra o que está procurando na casa dela. Reinhardt concorda em colaborar.

Então, vemos a Gata Negra chegar à casa de Walter Hardy e descobrimos o que o Homem-Aranha já tinha deduzido: a ladra é Felicia Hardy, filha do ladrão histórico que era conhecido como O Gato. A garota explica para o pai sua origem: sua mãe sempre lhe escondeu a verdade, mas quando descobriu que o pai era o lendário ladrão, ela treinou arduamente para desenvolver suas habilidades e honrar sua herança até poder soltá-lo. Após um momento de confraternização emotiva, Felicia deixa o pai e a mãe terem seu último momento e sai, então, o escalador de paredes se apresenta e os dois lutam novamente. Agora, é uma batalha física e moral: Felicia tenta explicar que tudo o que queria era que seu pai morresse em casa, na companhia da família. A luta termina numa ponte e a Gata cai e o herói a segura no último segundo, mas seu braço está machucado e ele não consegue segurá-la. A jovem cai no rio para a “morte”. E não retorna à superfície.

Peter recebe a mensagem da morte de May, por Wolfman e Pollard.

Triste, o cabeça de teia volta à casa dos Hardy para dar a notícia, mas quando chega, vê que Walter morreu e sua esposa chora em seu leito. Não querendo dar mais essa outra má notícia, vai embora. Quando chega em casa, Peter vê que recebeu um telegrama (lembre-se, estamos nos anos 1970) e ele traz uma notícia desesperadora: sua tia May morreu!

Na edição 196, Peter corre à Restwell Nursing Home acreditando que tudo não passa de um mal entendido, mas o Dr. Reinhardt lhe confirma que é verdade e lhe mostra May sendo velada em um caixão! Peter fica sem chão, desolado. No Clarim, Jonah escreve uma reportagem difamatória sobre o Homem-Aranha e Robbie tenta impedi-lo. O editor chefe cada vez mais raivoso e irracional se recusa, então, Robertson diz que não irá mais tolerar tais difamações (pois defende um jornalismo responsável) e se demite. Jameson não o pede para ficar e apenas arrola mais um monte de insultos.

Em paralelo, vemos um vilão misterioso contratando os capangas Boris Korpse e Bruno Grainger para encontrarem o Homem-Aranha, já que se deram bem contra ele. Na UES, Flash Thompson, Sha Shan e Harry Osborn vêm conversar com Peter – ainda em busca de esclarecimentos do evento do outro dia – mas ele lhes comunica da morte de sua tia May e recebe condolências. Sem condições de trabalhar, ele pede à sua supervisora nas aulas, Debra Whitman, que lhe dispense das aulas do dia. É a primeira aparição da moça que teria alguma importância dali em diante e já a vemos como é: muito tímida e contida, mas bastante interessada em Parker.

Debra Whitman tem sua estreia em ASM 196.

Ele volta ao Restwell Nursing Home, agora ao lado de Anna Watson, para prestarem suas homenagens a May, mas Peter fica intrigado porque seu sentido de aranha dispara para Reinhardt. Triste e cabisbaixo, Peter vai até o cais para refletir sobre a vida e termina encontrando Robbie Robertson, que também está lá pensando na vida. O simpático editor faz um discurso motivacional ao jovem, contando que seu primeiro filho morreu quando criança e que a dor é terrível, mas precisamos seguir em frente, porque é isso o que fazemos. Peter fica realmente iluminado pela conversa e dá um abraço caloroso no editor.

Emotivo, decide cruzar a ponte e ir até sua velha casa em Forest Hills, no Queens. E ao chegar lá, vê que o imóvel foi virado de cabeça para baixo, com toda a mobília e todas as coisas reviradas, como se alguém estivesse procurando algo. Então, Peter tem uma epifania: ele lembra de onde conhecia o nome “Dr. Reinhardt” e percebe que algo está muito errado! A informação não é dada diretamente ao leitor ainda, então, cabia aos bons conhecedores das histórias do personagem – e vamos entregar logo: Dr. Reinhardt foi uma identidade falsa usada por Mystério lá atrás em ASM 24, de 1965.

Nervoso, Peter veste seu uniforme e parte rumo a Restwell, mas não consegue chegar lá: Bruno e Boris o interceptam na cidade e após uma luta o derrotam. O herói é levado até uma mansão num subúrbio e vê quem é o empregador deles: Wilson Fisk, o Rei do Crime! O chefão estava dado como morto desde ASM 164.

Em Amazing 197, Wolfman e Pollard mostram um dos pontos mais altos de sua temporada, trazendo o mais encaniçado confronto já realizado entre o Homem-Aranha e o Rei do Crime. Se as lutas dos dois (desenhadas por Romita ou Andru) já tinham sido fortes, a deste capítulo foi brutal de um modo que raramente uma história aracnídea apresentou. Antes ou depois. No começo, Fisk conta ao herói como sobreviveu: após aparentemente se afogar, ele encontrou um cano de escoamento de água e conseguiu se safar por muito pouco, mas terminou com amnésia, vagando sem memória pelas ruas da cidade até ser reconhecido por um de seus rivais, que o atropelou com um carro. Sua grande massa corpórea salvou sua vida, mas ainda ficou gravemente ferido e foi enviado a um hospital, onde terminou curado. Fisk havia recuperado suas lembranças há pouco mais de um dia e correu para se reunir com sua esposa, Vanessa, mas ela lhe deu um ultimato: se não abandonasse a carreira criminosa em 24 horas, ela iria largá-lo. Então, o Rei decidiu dar fim ao seu império criminoso e gastou boa parte do tempo nisso, mas reservou algumas horas para um último ato: se vingar do aracnídeo.

Segue-se então, uma batalha acirrada entre os dois, com a massa muscular de Fisk sendo mais do que suficiente para aplicar grandes golpes no Aranha, que se esforça muito, mesmo com sua superforça. No fim, isso é uma vantagem e o herói vence, saindo atrás de uma porta ou janela de saída da enorme mansão em que está confinado.

Corta para a Restwell Nursing Home, onde finalmente o ladrão/assassino de Ben Parker revela ao Dr. Reinhardt o que estava procurando na casa de May: uma mala cheia de dinheiro deixada na casa por um mafioso dos tempos da Lei Seca com o qual dividiu a cela na prisão. O velho bandido morreu e o ladrão procurou encontrar o “tesouro”: foi por isso que assaltou a casa de Forest Hills e terminou por matar Ben Parker. Também vemos Robbie juntando suas coisas e deixando o Clarim.

De volta à casa de Fisk, como o Homem-Aranha não encontrou uma saída, o Rei teve tempo de se recuperar e a luta reinicia. Entre golpes poderosos, os dois terminam caindo no porão e o herói termina mais uma vez soterrado. O Rei pega sua bengala, que é armada com rajadas de energia, e vai matar o escalador de paredes quando o relógio dá 12 horas e Vanessa Fisk entra pela porta: o tempo acabou! O Rei pede um último segundo para matar o aracnídeo, mas a esposa diz que lhe deu um ultimato e ele aceite ou não. Concordando com ela, Fisk baixa a arma e vai embora com ela deixando o herói derrotado e desfalecido no chão. Caramba, que história!

De uma maneira mais mundana do que Stan Lee ou Len Wein, Marv Wolfman tentou dar um fim digno à carreira do Rei, mas claro que não conseguiu. O vilão reapareceria como se nunca houvesse deixado de ser o chefão do crime – e mais terrível, maligno, frio e eficiente do que nunca – em Daredevil 170, de maio de 1981, já na aclamada fase de Frank Miller com o Demolidor. Esse gesto de devolver Fisk à cabeça do submundo, obviamente teria bastante implicação às histórias aracnídeas, também, especialmente nos anos 1980, como veremos adiante.

Ainda assim, cada vez mais Wilson Fisk faria jus à sua representação original e seria muito mais um homem de bastidores, e nunca mais teria um confronto mano a mano desse nível com o Homem-Aranha.

Mas a trama geral de Wolfman prosseguia: ASM 198 mostrava a polícia chegando à mansão de Fisk e encontrando o Homem-Aranha desmaiado e muito ferido no chão. Em vista que ele tinha sido inocentado de suas acusações e visto muito mais como um herói pela cidade (a despeito dos editais difamatórios do Clarim), a polícia o leva urgentemente a um hospital. Lá, um oficial tenta desmascarar o herói, mas é impedido por um médico, que lhe lembra que a 4º Emenda da Constituição garante a liberdade de expressão e que, por isso, o herói tinha o direito de permanecer mascarado.

Quando o escalador desperta, seu braço antes machucado, agora estava quebrado, e o médico lhe aconselha a ficar internado, mas o herói se recusa e vai embora correndo para o Restwell Nursing Home, onde o Dr. Reinhardt se revela como o Mystério para o ladrão/assassino e o nocauteia. Quando o Homem-Aranha chega, os dois inimigos se debelam, mas o herói percebe que Mystério está usando novos truques, através não apenas de ilusões, mas de holografia, o que o deixa mais poderoso, resultando (também por estar muito ferido) no cabeça de teia sendo derrotado.

Ao mesmo tempo, Jameson está aparentemente completamente louco no Clarim, e é confrontado por Marla Madison, sem sucesso. Então, é realizada uma reunião com os shareholders (principais acionistas) do Clarim e, em vista do comportamento irracional do editor, ele é afastado do jornal. A notícia é demais para Jonah, que sofre um colapso nervoso e cai no chão.

O Aranha retorna à sua velha casa em ASM 199.

ASM 199 traz ocasionalmente Sal Buscema na arte e Mystério diz ao assassino/ladrão que não precisa mais dele, deixando-o amarrado. O velho bandido, contudo, logo começa a usar um espelho quebrado para se libertar das cordas, enquanto o Homem-Aranha acorda amarrado por grossas correntes no fundo de uma piscina que está sendo cheia. Ele tenta se soltar e não consegue, e começa a se afogar até perceber um ralo e usa sua teia para abri-lo e esvaziar a piscina, finalmente notando que não havia correntes nem piscina: era tudo apenas uma ilusão.

Homem-Aranha versus Mysterio com arte de Sal Buscema e texto em russo.

Sem saber quais são os planos de Mystério – e sem saber do envolvimento do ladrão/assassino sem nome – Peter volta para casa em frangalhos e dorme um dia inteiro. Quando acorda está totalmente renovado, sem os ferimentos e até com seu braço curado. Então, há batidas na porta e Flash Thompson, Sha Shan, Harry Osborn e Liz Allan estão lá para lhe prestar condolências pela morte de May. Após Peter conseguir discretamente (e heroicamente) esconder o seu uniforme que jazia à vista de qualquer um na sala, o grupo finalmente tem uma conversa franca sobre o que vinha acontecendo com Betty Brant, que está morando junto com Lizz, agora. Peter revela que mentiu sobre seus sentimentos para que Betty se magoasse e deixasse de procurá-lo, assim, se reconectando com Ned. Apesar de uma estratégia dura, os amigos concordam que ele fez o correto, desfazendo a impressão de que ele tinha sido um canalha. Os amigos o convidam para sair, mas em vista do luto, ele pede para ficar sozinho e processar tudo o que aconteceu.

Mas assim que eles saem, Peter veste seu uniforme e vai até a casa de Forest Hills em busca de mais pistas, mas não encontra nada até que Mystério aparece e os dois lutam, o vilão consegue alguma vantagem com suas ilusões, mas está prestes a ser derrotado quando consegue fugir e volta para Restwell, lá o confronto continua até que o vilão atinge o aracnídeo com uma dose altíssima de tranquilizante, o suficiente para matar qualquer um.

Chegamos então à super especial Amazing Spider-Man 200, de janeiro de 1980, celebrando duas centenas de edições aracnídeas (e 17 anos e meio de publicações do personagem), que em vista de sua temática (o retorno do anônimo ladrão/assassino de Ben Parker e os eventos de Amazing Fantasy 15, de 1962, que deu origem às aventuras do herói) ganha uma série de créditos especiais: o roteiro é assinado por Marv Wolfman e Stan Lee; e embora a arte retorne para Keith Pollard; a capa é de John Romita após uma longa ausência nas ilustrações de frente da revista.

Na trama, Mystério fugiu e o Homem-Aranha percebe que os tranquilizantes não o mataram, mas eliminaram completamente os seus poderes! Sem nenhuma habilidade especial, só lhe resta voltar às roupas civis e regressar ao apartamento, onde começa a investigar quem alugou a casa de Forest Hills, Com a ajuda de Anna Watson, Peter descobre aturdido que foi o ladrão/assassino. Em busca de mais informações, vai ao Globo Diário para olhar os arquivos e descobre que há algumas referências na sala de vídeo, mas ele não tem acesso. Arriscando sua vida, pois não tem mais seus poderes, ele passa pelo lado de fora e entra na sala, onde encontra algumas pistas importantes.

Então, ouve uma agitação pelo lado de fora e ver que um dos guardas está perseguindo um homem – lembrando, assim, da fatídica cena de Amazing Fantasy 15 na qual, após ser enganado por um promotor, o Homem-Aranha (então, uma atração misteriosa na TV) presencia a mesma coisa e, como vingança, decide deixar o ladrão escapar, o mesmo ladrão que, apenas dias mais tarde, mataria o seu tio Ben. Agora, mesmo sem poderes, Peter dá um jeito de derrubar o fugitivo, permitindo que o segurança o pegue e fica ainda mais surpreso ao perceber que é o mesmo guarda daquela outra vez!

Peter retorna ao seu apartamento e tem uma surpresa terrível ao chegar lá: o ladrão lhe espera com uma arma apontada para ele. Mesmo sem poderes, o herói não se entrega e tem uma luta brutal com seu algoz, conseguindo até desarmá-lo em determinado momento, mas o homem consegue atingir a cabeça dele com o cabo da arma e Peter desmaia. Quando acorda, percebe que está no mesmo galpão no qual o Homem-Aranha agiu pela primeira vez e prendeu o ladrão. O bandido conta a Peter o que está atrás: uma grande quantia em dinheiro que o gangster Dutch Malone havia escondido na casa de Forest Hills na qual morou nos anos 1930 até ser preso por evasão fiscal por Elliot Ness. O ladrão espanca Peter em busca de respostas, mas Peter não sabe nada sobre isso e pergunta se ele matou May, mas o ladrão diz que a velha era um interesse de Mystério, não dele, e não fez nada contra ela. Então, o ladrão diz que precisa resolver uma última coisa e sai, deixando Peter amarrado.

Mas ele consegue se soltar após um tempo e, mesmo sem poderes, veste seu uniforme de Homem-Aranha para ir atrás do ladrão, que voltou a Restwell. Lá os dois se confrontam, e o ladrão acerta um tiro no escalador de paredes, que cai no chão. De volta ao armazém, o ladrão volta carregando May Parker, que está viva! Ele pensa que ameaçando a velhinha irá fazer o jovem dizer onde está o dinheiro, mas se surpreende que Peter não está mais lá. O Homem-Aranha aparece e se segue outra luta brutal dos dois. O ladrão tenta fugir, mas o herói usa o sinalizador de seu cinto para assustá-lo e mostrar que está atrás dele, porém, quando o ladrão é encurralado num canto, ele sofre um ataque cardíaco e morre. Não era o que Peter queria, mas não há nada a fazer. O herói acalma May e lhe diz que está ali para salvar a ela e seu sobrinho.

No hospital de novo, May diz a Peter que não vê mais o Homem-Aranha como uma ameaça e explica que , quando compraram a casa (quando jovens) e foram reformá-la, ela e Ben encontraram uma grande mala cheia de dinheiro dentro de uma parede, mas as cédulas tinham sido destruídas pelo mofo e pela umidade, então, jogaram tudo fora. Quando sozinho, Peter percebe que os efeitos do tranquilizante passaram e que seus poderes estão de volta.

Terminava uma das grandes histórias do Homem-Aranha.

O Fim da Temporada de Marv Wolfman

A saída de Marv Wolfman de Amazing Spider-Man não foi “tranquila” assim como a de seus antecessores e o escritor deixou o título e a Marvel no meio de um arco de histórias. Primeiro, em meio ao arco do ladrão/assassino de Ben Parker e da falsa morte de May, saiu o The Amazing Spider-Man Annual 13, com roteiro de Wolfman e desenho de John Byrne, mostrando um confronto com o Doutor Octopus e, pela primeira vez, criando uma história interligada nesse tipo de revista especial, com a trama continuando em Peter Parker: The Spectacular Spider-Man Annual 01, de Bill Mantlo.

Capa de John Romita.

Na revista principal, a saga continua em Amazing 201, de fevereiro de 1980, com Wolfman e Pollard criando novas subtramas. Enquanto o Justiceiro persegue a gangue do mafioso Lorenzo Jacobi, Peter visita a tia May no hospital e conversa com Joe “Robbie” Robertson, que lhe conta sobre o colapso nervoso de Jonah. Depois, Joe e Marla vão visitar Jameson no hospital e ele está muito nervoso e incoerente. Vemos Jonah ter uma consulta com seu psiquiatra e revelando o que aconteceu quando esteve com o Homem-Aranha desacordado: pensou em tirar sua máscara, mas um policial apareceu e ficou com medo, então, correu para a casa do Dr. Curt Connors.

A cena de Peter, Mary Jane e April Maye, por Wolfman e Pollard.

No Globo Diário, Peter é designado para cobrir o caso de Jacobi, e sua presença desperta a desconfiança do Justiceiro, que paga uma visita ao apartamento do rapaz e, ao encontrar um rastreador-aranha, Frank Castle começa a achar mesmo que Parker é um infiltrado da máfia. Peter vai ao tribunal de Jacobi ao lado da repórter April Maye, que ainda guarda grande rancor do rapaz. No meio do caminho, Peter vê Mary Jane passando na rua, e ele para o veículo para que conversem um pouco, o que deixa Maye muito irritada (talvez, um pouco ciumenta?). Quando Maye critica o profissionalismo de Peter, ela termina batendo boca com MJ, e Peter volta para o táxi, que em seguida segue viagem com o “climão” entre os dois jornalistas.

No tribunal, os homens de Jacobi atacam e Peter salva a vida de Maye, saindo como Homem-Aranha atrás dos bandidos e se unindo ao Justiceiro na perseguição, mas os criminosos terminam conseguindo escapar. Quando vai ao Globo deixar as fotos, Peter tem outra discussão com Maye, e o a rivalidade dos dois é discutida entre Bushkin e o proprietário K.J. Clayton. Ao mesmo tempo, Peter chega em casa e o Justiceiro espera por ele!

Passamos a ASM 202, na qual o Justiceiro quer matar Peter, mas ele consegue convencer Frank Castle de que ele tem um pacto com o Homem-Aranha por causa das fotos. Outra vez no Globo, Bushkin tenta convencer Peter que ele e Maye formam uma “dupla dinâmica” e que trabalhem juntos, ele promete tentar e, num acordo com a repórter, a “dupla” firma o acorde trabalharem nas mesmas matérias, mas de forma separada. Enquanto Maye se infiltra em uma quadrilha de traficantes de drogas em busca de sua reportagem, Peter dá uma visitinha ao Clarim Diário, onde vê que Robbie foi contratado pela mesa diretora como o novo editor-chefe, e em vez da pessoa calma e serena de sempre, está tão nervoso como Jonah. E falando nele: o ex-editor aparece de súbito na redação e ataca as pessoas, para depois fugir e bater com a cabeça em uma parede, no beco abaixo, caindo inconsciente. Alguém não revelado o observa.

O Justiceiro inicia outra ofensiva contra a quadrilha de Jacobi e o chefão do crime reconhece Maye quando a vê disfarçada de criminosa, mas a garota é salva pelo Homem-Aranha, que também impede o Justiceiro de matar o chefão, contudo, o capanga que vem ao resgate de Jacobi termina, sem querer, atropelando-o com o carro e matando-o. O herói, então, corre com Maye para o hospital.

Como se vê, Wolfman estava preparando algumas novas subtramas, como fica claro no caso de Jameson, então, aparece ASM 203, que guarda pouca conectividade com a edição anterior, embora fosse de Wolfman e Pollard. Na trama, o Homem-Aranha percebe que a estrela-sensação da música (e heroína mutante) Cristal está sendo seguida por uma estranha bola de luz. (Vale lembrar, os poderes da garota são de transformar som em luz, o que lhe permite criar rajadas luminosas). Há o clássico confronto-mal-entendido entre os heróis e quando Peter chega é casa é surpreendido por Harry Osborn e Flash Thompson, pois tinham combinado de ir ver um filme juntos (que ele esqueceu). A sessão (de Star Wars – O Império Contra-Ataca) termina interrompida por um ataque de Cristal que está numa luta contra o Mestre das Luzes, aquele vilão que aparecera em Spectacular Spider-Man.

O vilão continua com um laboratório escondido na UES e usa seus poderes de luz (e sua falta de corporalidade) para tomar o corpo de Cristal, o que leva a uma luta com o Homem-Aranha, que perde e o vilão foge. No dia seguinte, Peter leva as fotos ao Globo, visita May e termina tendo o terceiro round, de novo no laboratório da UES e consegue reverter o processo, fazendo o Mestre das Luzes desaparecer e Cristal voltar ao normal.

Capa de John Romita Jr., o filho do mestre.

Aparentemente, essa edição – para fazer propaganda da nova personagem da Marvel (e que teria caído como uma luva em Marvel Team-Up) teria sido uma imposição do editor-chefe Jim Shooter para que Marv Wolfman escrevesse. Reforça essa impressão o fato de Amazing Spider-Man 204, de maio de 1980, continua exatamente de onde ASM 202 parou: o Homem-Aranha impede uma perseguição policial na Times Square e vemos que a Gata Negra está batendo fotos dele, reforçando ao leitor o fato de que ela é mesmo uma admiradora do herói. Mas ela é uma ladra e vai ao Solomon R. Guggenheim Museum em busca de roubar a estátua Golden Lovers (a versão Marvel – e dourada – de O Beijo dos Amantes de Rodin), e o escalador consegue impedi-la, entregando a peça de volta para a polícia.

Peter passa no Clarim Diário para outra visita e Glory Grant lhe diz que Robbie está louco e irracional tal qual Jonah estava antes dele. No Globo, de novo Bushkin tem uma conversa com Peter sobre ele trabalhar ao lado de April Maye. Depois de dar uma passada no Guggenheim Museum para conferir a estátua, Peter é abordado por Flash Thompson e Sha Shan, que armaram um encontro às cegas para ele! Peter vai e conhece Dawn Starr, e os dois se dão muito bem, ele gosta dela, mas no fim, descobre que ela será aluna dele no semestre seguinte e acha que isso não seria ético da parte dele, e não dão prosseguimento. Quando passa em frente ao Guggenheim na volta, seu sentido de aranha dispara e reencontra a Gata Negra roubando de novo a Golden Lovers. O cabeça de teia se dá mal dessa vez: os poderes de azar de Felicia Hardy fazem um enorme lustre cair em cima do herói e ela escapa com a estátua. Voltamos ao beco – indício mais forte de que estamos na sequência direta daquela outra edição – e vemos quem estava observando Jameson: o Dr. Jonas Harrow (o cientista louco responsável pela criação do Cabeça de Martelo e do Fogo Fátuo e de ter ampliado os poderes do Canguru).

Depois, a Gata Negra invade o leilão em que será vendido o Rajah Ruby, avaliado em US$ 4 milhões; e como se trata de um leilão, ela oferece 2 centavos e rouba a joia. Em casa, Felicia diz que conseguiu 2 de seus 4 objetivos. E termina a temporada de Wolfman.

O escritor deixou a Marvel abruptamente, provavelmente, por causa de conflitos com o editor-chefe Jim Shooter. Talvez, a edição 203 tenha sido a gota d’água das relações. Mas o fato é que Wolfman deixou suas tramas inacabadas, tanto a ação da Gata Negra, quanto o plano de Jonas Harrow e deixou a Marvel; indo para a DC Comics onde lançaria a revista dos Novos Titãs que, surpreendemente, se tornou o maior sucesso de vendas da editora nos anos 1980, produziria a megassaga Crise nas Infinitas Terras e escreveria histórias do Batman.

Amazing ganharia duas edições “tapa buraco” para fechar o plot geral de Wolfman e dar início à nova fase. A necessidade de duas edições para esse encerramento deve ser a explicação para o fato de Dennis O’Neil assumir como editor em ASM 205, mas não como escritor até o número 207.

Dawn Starr seduz Peter: os dois são adultos.

Dessa forma, ASM 205 mantém o desenhista Keith Pollard e o roteiro é assumido ocasionalmente por David Michellinie – então, escritor do Homem de Ferro e dos Vingadores e alguém com um bom futuro relacionado ao Homem-Aranha (mas isso fica para depois) – encarregado de fechar a trama da Gata Negra. Peter chega na UES e conversa com Steve Hopkins, que está acompanhado de Dawn Starr. A garota investe em cima do herói, lhe abraçando e beijando, e como Peter gosta dela, começa a considerar namorá-la, apesar do conflito ético embutido. Porém, mais tarde, ele vê alguém mexendo nos arquivos e descobre que Dawn o usou apenas para ter acesso aos exames futuros e tirar boas notas, o que o deixa triste e desapontado.

Ao mesmo tempo, a Gata Negra continua sua empreitada de roubo de artefatos raros: captura uma gravação de Caruso do Hendricks Museum; e depois, seduz o marchand Lazio Bellflower, que é um dos maiores colecionadores de arte erótica do mundo, e acabou de comprar o raro e antigo pergaminho conhecido como A Epístola de Helena, que seria a única carta conhecida de Helena de Tróia para o príncipe Páris. O Homem-Aranha consegue encontrá-la e segue-se novo conflito, onde de novo o herói se dá mal, mas Peter consegue colocar um rastreador na ladra e, depois, vai encontrá-la em seu apartamento.

Lá, Felicia lhe explica que roubou 4 dos mais raros e fortes símbolos do amor para presenteá-lo e mostrá-lo como ela o ama. O cabeça de teia vê o apartamento todo decorado com fotografias suas e percebe que a moça está mesmo desequilibrada mental e emocionalmente por causa da morte do pai e que vê nele um substituto. O Aranha, então, faz o jogo dela e aproveita para encaminhá-la a alguma ajuda profissional.

Na edição 206, de julho de 1980, a dupla imbatível Roger Stern e John Byrne – que trabalhavam numa clássica fase de histórias do Capitão América – fecham o arco do Dr. Jonas Harrow, mostrando que o vilão usou uma máquina de controle dos sentimentos para desequilibrar Jameson mentalmente, e depois, fez o mesmo com Robbie, e usa a arma contra todo o Clarim Diário, até que é preso pelo Homem-Aranha.

Fechadas as principais pontas, após duas edições apenas como editor, Dennis O’Neil podia agora assumir a principal revista do Homem-Aranha.

O Fim da Era Bill Mantlo em Spectacular

Após a Saga do Carniça, Bill Mantlo prosseguiu para o ciclo final de sua longa temporada em Peter Parker: The Spectacular Spider-Man. Em agosto de 1979, veio a edição 32, ainda com Jim Mooney na arte (e uma capa de Bob Layton) na qual somos introduzidos a outra variação do Lagarto, após Stregon: o Iguana. Apesar do visual interessante, é apenas uma variação. A revista é mais importante por outro motivo: é a estreia de um novo elenco de coadjuvantes que o escritor decide dotar o mundo universitário de Peter Parker e poder dar mais dinâmicas às tramas e torná-las menos dependentes dos personagens que já povoavam Amazing Spider-Man, como Mary Jane, Betty, Flash e etc.

O elenco de apoio da UES: Chang, Kane, Hopkins, Sloan, Whitman e Connors, aqui tirado de um painel em SSM 42, com arte de Mike Zack.

Agora, Spectacular focava num time de professores e alunos da pós-graduação na UES que exibiam ainda mais do cotidiano escolar do protagonista, com o elenco de coadjuvantes formado por professor Morris Sloan e Marcy Kane e os outros professores assistentes (colegas de Peter na pós-graduação), Debra Whitman, Steve Hopkins (outro personagem afroamericano), Phillip Chang (asiático) e o bom e velho Dr. Curt Connors. A edição 32 também tem a importância de estabelecer que Peter assume o cargo de professor assistente, supervisionado por Sloan e Kane, algo que daqui irá se ramificar em Amazing. Mas enquanto aquela revista ainda focará mais no elenco tradicional de Parker, Spectacular dará ênfase a este novo elenco.

Na edição 33, a aventura continua e vemos que, em consequência dos eventos de Amazing, Peter agora trabalha no Globo Diário e não mais no Clarim. SSM 34 traz finalmente o confronto entre Iguana e Lagarto, encerrando o pequeno arco. A edição 35 é um número de “férias” (dos criadores) e Tony Isabella e Lee Elias trazem o Verme Mental de volta.

Em SSM 36, de novembro de 1979, Mantlo regressa (ainda com Mooney) e traz de volta um dos vilões de seus tempos nos Campeões: o Enxame, que aterroriza UES também no número seguinte. Ao mesmo tempo sai Peter Parker: The Spectacular Spider-Man Annual 01, a primeira revista anual especial da revista secundária, com roteiro de Mantlo e arte de Rich Buckler, embora ironicamente, seja uma história que é sequência de The Amazing Spider-Man Annual 13, numa batalha contra o Dr. Octopus.

Spectacular 38, de junho de 1980, traz Morbius de volta, novamente por Mantlo e Sal Buscema, numa edição que introduz também os colegas de classe Phillip Chang e Steve Hopkins, que vão a uma festa promovida por Chip Martin, que se transforma no Schizoid-Man e ataca a todos, obrigando o Homem-Aranha a confrontá-lo em SSM 39, que traz a estreia de John Romita Jr. na revista. Àquela altura, após ter desenhado aquela história secundária de Amazing Annual 12, o Romitinha já tinha ganho brilho próprio na revista do Homem de Ferro, onde – ao lado de David Michelline e Bob Layton nos roteiros – produziu a mais clássica das fases de Tony Stark, incluindo a histórica O Demônio na Garrafa, na qual o vingador dourado precisa lidar com seu maior inimigo: o alcoolismo.

Infelizmente, apesar da beleza do traço de Romita Jr. – que mantinha algo da beleza do pai, mas tinha uma personalidade própria, estranhamente adequada aos anos 1980 – sua aparição na revista simbolizava um momento de instabilidade e antecipação do final da temporada de Bill Mantlo. Dessa forma, Frank Springer foi o desenhista da edição 40, que traz o Homem-Aranha se transformando num novo Lagarto (numa trama na qual Curt Connors cria uma cura definitiva para si – que serve ao herói também); a edição 41 foi um tapa-buraco com o escritor Tom DeFalco e o desenhista Jim Mooney trazendo de volta o velho vilão de Steve Ditko, Meteoro, numa aventura ao lado do Gigante (ex-Golias Negro) – parecendo, portanto, um refugo de MTU (e provavelmente era mesmo); para SSM 42, de maio de 1980, trazer Mantlo e Mike Zeck colocando o amigão da vizinhança contra o Quarteto Terrível, agora com Mago, Derretedor, Homem-Areia e Electro, numa edição que ainda traz Debra Whitman, um novo interesse amoroso de Peter (que tinha aparecido em ASM 196).

Após 30 edições não consecutivas chegava ao fim a profícua temporada de Bill Mantlo à frente de Spectacular, na qual o hábil escritor transformou a revista secundária do Homem-Aranha em um produto de mérito e identidade própria, ainda que “dependente” de Amazing. De qualquer modo, Mantlo conseguiu garantir sua autonomia, explorar novos personagens e dar uma ênfase jamais vista à vida universitária de Peter Parker, carregando as histórias de temas da época, críticas embutidas e discussões políticas, expressas em temas como cotas para estudantes, aulas noturnas, religião, o mercado das boates e muito mais. Espetacular é uma boa palavra.

Mas ainda voltaremos a falar de Bill Mantlo…

Mudança de Rumo

O leitor super-atento deve ter percebido que as fases de Marv Wolfman e Bill Mantlo terminaram exatamente ao mesmo tempo em maio de 1980. E claro isso não é uma coincidência! É nítido ver – não sabemos se isso foi ou não coincidência – como ambos os autores desenvolveram seus principais arcos na virada de 1979 para 1980 (o assassino de Ben Parker e o Carniça) e, em seguida, deram os primeiros passos em um novo arco que ficou inconcluso pelo meio do caminho.

Amazing Spider-Man era tradicionalmente o maior título da Marvel e o Homem-Aranha seu principal personagem e produto. Mas o fim da década de 1970 não foi boa para o amigão da vizinhança. Ainda que tenha gerado boas histórias, as temporadas de Wein e Wolfman em Amazing e de Mantlo em Spectacular não foram bem sucedidas em manter o público interessado nelas. As revistas aracnídeas baixavam suas vendas e perdiam espaço para outros títulos da editora, como os X-Men de Chris Claremont e John Byrne. Isso acendeu o sinal de alerta.

Jim Shooter.

Cabia a Jim Shooter, o editor-chefe da Marvel, a responsabilidade de garantir que seu principal personagem recuperasse seu espaço de mercado e não corresse o risco de gradualmente se tornar menos importante, então, mudanças drásticas foram feitas, como veremos em detalhes a seguir: Shooter moveu Wolfman de Amazing (que irritado, saiu da editora e foi para a Distinta Concorrente) e Mantlo de Spectacular (este de um modo mais delicado, colocando-o em outra revista estrelar, do Incrível Hulk) de uma tacada só e os substituiu por Dennis O’Neil (o lendário escritor que reformulou a DC Comics na passagem da década de 1960 para 70) e Roger Stern (que vinha de uma aclamada passagem pelo Hulk e iniciava uma explosiva temporada no Capitão América e outra mais ainda nos Vingadores), respectivamente.

Em Busca do Brilho Perdido

Capa de “Marvel Team Up 100” por Frank Miller.

Com a fama e glória conquistada nas revistas do Demolidor, Frank Miller voltaria a desenhar edições especiais do Homem-Aranha, como a Amazing Spider-Man Annual # 14 e 15, de 1980 e 81, respectivamente, e a comemorativa Marvel Team-Up 100, também de 1980.

Dennis O’Neil, um dos maiores escritores de quadrinhos de todos os tempos.

A Temporada de Dennis O’Neil

Jim Shooter estava disposto a sacudir as coisas, então, fez um lance arriscado e trouxe para a Marvel o lendário Dennis O’Neil, escritor que fez fama no fim dos anos 1960 quando ajudou a trazer maior seriedade aos personagens da DC Comics, o que o levou a temporadas muito apreciadas nas revistas de Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Liga da Justiça e Lanterna Verde. Nesta última, em histórias cheias de conteúdo social. Desgastado com a DC, em 1980, O’Neil aceitou o convite Shooter e assumiu a editoria de personagens como o Demolidor (onde pouco depois deslocou o desenhista Frank Miller para assumir os roteiros do título) e escrever Amazing Spider-Man.

Todavia, enquanto Wein e Wolfman não conseguiram manter as vendas altas como no passado, O’Neil se deu ainda pior e não conseguiu fazer sua escrita funcionar no Homem-Aranha. Das três citadas, sua temporada em Amazing Spider-Man, entre as edições 207 e 221, foi a menos expressiva. Vendo em retrospecto, parece até que o escritor não se sentia à vontade na revista e ainda adotou uma estranha abordagem de contar capítulos mais ou menos autocontidos, no qual uma trama de fundo muito mundana – com Peter Parker desinteressadamente envolvido com Debra Whitman e sofrendo as agruras de um vizinho que cantava alto e desafinado (isso mesmo!) – se movia em passos lentos e discretos enquanto o Homem-Aranha se envolvia em uma série de aventuras (quase sempre) desinteressantes.

O’Neil assumiu primeiro a editoria de Amazing Spider-Man, mas não queria finalizar o arco inacabado de Marv Wolfman, então, designou David Michellinie e Roger Stern para isso, assim, apenas após dois números de “amarração de pontas”, O’Neil assumiu o roteiro da revista, na edição 207, de agosto de 1980. Contudo, assim como seu antecessor, ele não contou com um desenhista fixo de imediato, havendo uma pequena dança das cadeiras nos primeiros números.

Amazing 207 traz arte do veterano Jim Mooney, e mostra a bizarra história na qual Mesmero, o vilão hipnotizador dos X-Men, tenta se regenerar e criar um espetáculo na Broadway, que é bombardeado pelos críticos, aos quais decide matar, enquanto Peter tem dois encontros com Debra, ambos os quais deixa a menina sozinha para virar o Homem-Aranha; e J.J. Jameson volta ao Clarim Diário depois de seus problemas de saúde. Na edição 208 O’Neil divide o plot com Jim Shooter e Mark Gruenwald (outro importante editor assistente) e John Romita Jr., o filho do mestre, assume a arte numa aventura em que o escalador de paredes enfrenta um novo vilão chamado Fusão, fruto da união atômica de um cientista e seu irmão; ao mesmo tempo em que Peter conhece o novo fotógrafo chefe do Globo Diário, Lance Bannon (que seria um longevo personagem coadjuvante dali em diante) e o gerente de publicações Rupert Dockery, que ele não sabia ainda, mas era um vilão advindo das histórias da Mulher-Aranha.

Na edição 209, a arte é de Alan Weiss (e a capa também) e temos uma história mais interessante, em que Kraven, o caçador, reconhece que está obcecado pelo Homem-Aranha e que essa rivalidade doentia o levou a trilhar o caminho da desonra, mas é manipulado pela esposa Calipso, que vai armando uma situação para que os dois inimigos lutem, enquanto Kraven vai aos EUA levar um carregamento de animais para um zoológico. Em paralelo, Debra pede a Peter ajuda com seu tio marinheiro, que está tendo problema com bandidos – algo que ele nega – e Dockery tenta convencer Peter a produzir uma fake news sobre o relacionamento entre professores e alunas na UES, e ele, claro, nega.

A trama com Kraven foi boa, mas o primeiro ponto alto da temporada de O’Neil foi The Amazing Spider-Man Annual 14, publicado no verão de 1980, que trouxe uma bombástica aventura na qual o Homem-Aranha ajuda o Doutor Estranho num confronto contra o Doutor Destino aliado a Dormammu; com o bônus da arte fantástica de Frank Miller, que ainda antes de assumir os roteiros de Daredevil já ganhava destaque com seu belo traço.

É somente a partir de Amazing 210, de novembro de 1980, que a fase ganha seu artista fixo: ninguém menos do que John Romita Jr. Após algumas histórias salteadas do herói e algumas capas, Romita Jr. chegava ao mesmo título que glorificou seu pai – e iria glorificar a ele mesmo, pois o Romitinha também se transformaria num dos mais importantes ilustradores do aracnídeo em todos os tempos. E é importante frisar que, a despeito do nepotismo – afinal, seu pai era o Diretor de Arte da Marvel – Romita Jr. era um artista de mérito totalmente embasado. Ainda que o desenhista só encontraria seu estilo definitivo cerca de uma década depois, naquele momento, já possuía um traço bonito e bom para as cenas aracnídeas; e vinha de uma aclamada fase no Homem de Ferro.

Amazing 210 introduzia outra personagem importante daqueles tempos: a Madame Teia, uma idosa mantida viva por um intricado aparelho em formato de teia e que, além de cega, podia ver o futuro. Na trama, é Debra Whitman quem chama a atenção de Peter à vidente, enquanto o quase-casal passeia por Chinetown. Então, Rupert Dockery contrata um grupo de encapuzados para sequestrar o proprietário do Globo, K. J. Clayton, no momento em que descobrimos que se trata “dela” (no inglês, o pronome é indefinido, portanto, até ali ninguém havia visto Clayton e presumido que era um homem): uma jovem estonteante que deixa todos de queixo caído. Os bandidos atacam a conferência e, apesar do Homem-Aranha intervir, conseguem fugir com a moça.

Debra leva Peter para ver a Madame Teia, na arte de John Romita Jr.

O herói pede auxílio à Madame Teia, que tem uma visão que possibilita o escalador de paredes encontrar os bandidos e descobrir que a jovem bonita é, na verdade, Bellinda Bell, uma modelo, e que a verdadeira K.J. Clayton é uma senhora de idade que vive isolada na cobertura no topo do prédio do Globo. É lá onde Dockery está prestes a matá-la, mas o Homem-Aranha salva o dia e prende o criminoso. Mas em consequência, Clayton decide encerrar a publicação do Globo, algo que Peter descobre em casa, lendo o New York Times e percebendo que está desempregado. Em seguida, recebe um telefonema e é a Madame Teia, dizendo que sua identidade está segura, e prometendo-lhe que uma oferta de trabalho está chegando. Ambos não sabem que exatamente na hora, Jameson está ligando para lá querendo contratar Parker de volta, mas só dá ocupado.

Na edição 211, Peter decide cumprir a promessa que fizera a si mesmo para ajudar o tio marinheiro de Debra e vai ao cais, onde descobre que vive um conflito com sua tripulação sobre uma arriscada missão científica que foi contratado para realizar. Durante o dia, ao visitar May no Restwell Nursing Home, descobre que a tia é a nova responsável pela recreação dos idosos e lhe dá, sem querer, uma lição: se não desse o máximo de si, não estaria sendo honesta. Então, o Homem-Aranha volta ao cais e se oferece para seguir ao mar com o sr. Whitman mesmo que a tripulação não fosse. O movimento convence a tripulação que segue viagem, mas a experimentação irrita Namor, o príncipe submarino, e leva a um confronto em alto mar até que uma solução científica é descoberta para que não cause mal à Atlântida, reino do irritadiço anti-herói aquático.

Uma extravagância ocorre na edição 212, quando a trama continua em alto mar e um dos marinheiros é afetado pelo gerador experimental que submergem no mar, após cair acidentalmente na água. O incidente transforma o rapaz no Homem-Hídrico, a versão aquática do Homem-Areia. Quando em casa, Peter atende ao telefone e Jameson o contrata de volta como freelancer no Clarim Diário.

Quebrando o estilo que construíra até ali, O’Neil cria uma trama em três partes a partir de ASM 213, quando uma figura misteriosa liberta o Mago da prisão da Ilha Ryker e Peter tem um dia de encontro com Debra, com os dois passando um dia agradável e ela até beijando ele. À noite, quando vão se despedir, Debra o convida a ir ao apartamento dela, mas Peter nega, porque não se sente pronto para um relacionamento após o fora de Mary Jane e a confusão com Betty Brant. Mas ao mesmo tempo, ele conhece uma nova vizinha que é gatíssima e fica muito interessado. Depois, o Mago desenvolve uma aranha robótica gigante (que lembra bastante o último Esmaga-Aranha de Smythe) que é capaz de rastrear o Homem-Aranha (algo que aquele também fazia), o que é capaz de fazer o Mago atacar meio às cegas o apartamento da rua Chelsea.

Continua na ASM 214, na qual o Aranha combate o Mago e resgata os moradores de um incêndio que se inicia no telhado até o vilão fugir. Por causa do seguro, os moradores são realocados para um hotel de luxo na 5ª Avenida e lá Peter continua a paquera com a nova vizinha, quando veem uma notícia sobre outra fuga da Ilha Ryker, na qual o Mago liberta o Homem-Areia e o Derretedor. Então, Namor aparece e ataca a vizinha bonita, o que leva o Homem-Aranha a confrontar o rei atlante, já que ele não sabe ainda que a moça é Llyra, uma oponente do príncipe submarino. Em meio à confusão, Llyra se reúne aos demais e temos a formação de uma nova versão do Quarteto Terrível, já que ela era a figura misteriosa que libertara o Mago.

A passagem para ASM 215 se dá com os dois heróis derrotados e os vilões indo embora. Namor regressa à Atlântida em busca de se recuperar e Peter, à beira de um colapso, vai ao apartamento de Debra em busca de ajuda. Lá, ele desmaia e ela cuida dele, mas quando acorda, o rapaz apressa-se em ir embora, preocupado com a vizinha bonita. Somente ao voltar ao hotel e chegar ao quarto da moça, descobre que ela é Llyra e uma nova batalha tem início com o Quarteto Terrível e Namor, que retorna. O’Neil usou o bizarro recurso de que um dos artefatos do Mago levou o sentido-aranha “migrar” para Namor (o quê?) e derrotado o grupo, a dupla de herói recorre ao Quarteto Fantástico para reverter o problema.

Dennis O’Neil fez Peter tratar Debra Whitman com algum grau de crueldade. Arte de John Romita Jr.

Todo o episódio deixou Peter com dor na consciência em relação ao modo como tratou (desde sempre, né?) Debra, então, em ASM 216, ele vai à casa dela para pedir desculpas, mas a moça está acompanhada de um novo namorado: Biff Rifkin. Constrangido, Peter decide ir a um hospital, pois ainda está muito machucado, e lá fica sabendo de um plano de um assassinato em meio à maratona que ocorrerá na cidade, e consegue prender os criminosos com a ajuda premonitória da Madame Teia. May Parker e Nathan Lubensky estão entre os expectadores da corrida, personagem este que apareceu em Spectacular como se verá adiante.

Na ASM 217, o Homem-Aranha sofre outro ataque do Homem-Hídrico e, enquanto Peter tem um esbarrão desagradável com Debra e Biff, terminamos vendo uma grande briga entre aquele vilão e seu “irmão espiritual” Homem-Areia, quando este se engraça por Sadie Fricket, a namorada daquele. Mas no fim, os dois criminosos se unem contra o Homem-Aranha e quando ambos caem um sobre o outro no rio, terminam sem querer se fundindo em uma única criatura de lama (Mud-Thing) gigante, que sai pela cidade.

Na ASM 218, a criatura de lama vai atrás de Sadie, mas a moça convence a polícia de que o monstro não lhe fará mal. Em outra bizarrice de O’Neil, a justiça reconhece a Mud-Thing como uma nova entidade, isenta dos crimes do Homem-Areia e do Homem-Hídrico, o que leva Sadie a negociar um espetáculo na Broadway (de novo?), mas a garota percebe que o promotor só quer explorá-la por dinheiro. A criatura se sente traída e sai em fúria e é derrotada pelo Homem-Aranha.

O fluxo regular da temporada de O’Neil se encerra na edição 219, de agosto de 1981, na qual a arte é de Luke McDonnell (e uma capa de Frank Miller) e vemos Peter decidido a investigar como tantas fugas são possíveis na Ilha Ryker, então, ele pega um barco clandestino e se infiltra na ilha-prisão para tirar umas fotos e termina presenciando mesmo uma fuga do Gárgula Cinzento (vilão do Capitão América e do Homem de Ferro) e do Dr. Jonas Harrow (lembra dele?) ao lado de uma figura nas sombras. Peter é hábil para bater algumas fotos, mas termina descoberto pelos guardas e preso.

As autoridades não acreditam em sua história e apreendem sua câmera, com o diretor pensando em destruí-la (por medo do dano à sua reputação), mas o aparelho terminando por ser roubado por um funcionário e vendido para pagar uma dívida de jogo, enquanto Peter vai à audiência preliminar e (apesar de defendido por Matt Murdock – secretamente o Demolidor) é condenado a pagar uma fiança de 50 mil dólares enquanto aguarda julgamento. Desesperado por não ter esse dinheiro, Peter liga para Jameson, que lhe diz que não irá pagar, porque ele fez toda a ação sem pedir autorização ao Clarim.

Peter termina sendo solto e descobre que May reuniu o dinheiro junto a seus amigos do asilo, mas o Gárgula Cinzento e Jonas Harrow fogem em uma segunda tentativa, com o Homem-Aranha descobrindo que o detento Armand DuBroth sendo o responsável pelas fugas, e conseguindo prender os dois fujões. Ele ainda localiza a câmera e, com as fotos, consegue provar sua inocência.

Essa história rendeu um pequeno-grande erro de cronologia, pois desde o primeiro encontro entre o Demolidor e o Homem-Aranha, Murdock percebeu que o aracnídeo tinha um batimento cardíaco singular. E o homem sem medo é capaz de reconhecer as pessoas apenas por seu batimento cardíaco – já que é cego e tem todos os outros sentidos ampliados. Mas nesse encontro, Murdock não percebe nada; e quando os dois heróis se reencontrarem novamente em suas identidades civis, alguns anos depois, Murdock imediatamente irá reconhecer que Peter é o Homem-Aranha.

Um indício de que as coisas não estavam bem no campo editorial veio com Amazing 220, de setembro de 1981, uma numeração redonda, mas que termina assinada por Michael Fleisher no roteiro e arte de Bob McLeod, embora O’Neil ainda seja creditado como editor. Na trama, o Homem-Aranha se envolve com o Cavaleiro da Lua contra uma conspiração de várias quadrilhas criminosas do país. A revista teve uma história secundária, na qual vemos May e seus amigos do asilo envoltos em uma festa (animada por uma banda punk, porque é o que podem pagar) que sofre um roubo, mas é resolvida com a ajuda dos músicos.

Roger Stern em Spectacular

Como já dissemos, em 1980, Jim Shooter interviu nas revistas aracnídeas, preocupado pelas vendas baixas e demitiu Marv Wolfman de Amazing Spider-Man e Bill Mantlo de Peter Parker: The Spectacular Spider-Man. O editor-chefe também mudou a política editorial e fez com que um único editor cuidasse de toda a linha do amigão da vizinhança (que além das citadas, incluía, não esqueça, Marvel Team-Up e os anuais especiais); editoria esta que caiu nas mãos de Dennis O’Neil, que acumulou também a escrita de Amazing.

Em paralelo à temporada de O’Neil em Amazing, tivemos Roger Stern no comando de Spectacular. Nascido em 1950, em Noblesville, em Indiana, Stern mudou-se para Nova York e como alguns de seus colegas da Era de Bronze dos quadrinhos, também veio do fandoom, ou seja, da comunidade organizada de fãs. Ele e o escritor/desenhista Bob Layton fundaram o lendário fanzine CPL (Contemporary Pictorial Literature), que revelou nomes como John Byrne. No início dos anos 1970, tanto a Marvel como a DC Comics passaram a publicar fanzines e o CPL foi publicado pela Charlton Comics, o que abriu as portas para que Stern terminasse trabalhando na redação da Marvel como editor assistente.

Daí, ele realizou alguns trabalhos esporádicos como escritor, criando uma aventura em três partes dos Guardiões da Galáxia (em Marvel Presents 10 a 12, de 1977), o que lhe valeu o convite de Len Wein para coescrever um anual do Thor que traria o grupo de heróis. Em 1978, Stern substituiu Wein na revista The Incredible Hulk, ao mesmo tempo em que o golias verde ganhou uma série na TV e a HQ explodiu com um grande sucesso (mérito também aos textos ágeis de Stern), além da revista do Doutor Estranho, bastante aclamada pela crítica. Jim Shooter ficou tão impressionado com a qualidade do trabalho de Stern que, em 1980, lhe ofereceu um contrato de exclusividade com a Marvel, o que o tornou hábil a deixar o trabalho de editor e se dedicar somente ao roteiro. A revista que lhe foi comissionada de imediato foi Peter Parker: The Spectacular Spider-Man; mas praticamente ao mesmo tempo assumiu também a revista do Capitão América ao lado de John Byrne.

O início da temporada de Roger Stern em SSM, com capa de John Byrne para a estreia de Roderick Kingsley.

A temporada de Stern em Spectacular começa na edição 43, e tal qual seu editor O’Neil em Amazing, demorou para conseguir um desenhista fixo. No começo, boa parte da arte ficou com Marie Severin, uma das primeiras desenhistas mulheres de destaque nos quadrinhos, que já trabalhara com Hulk e Namor, mas ela estava ocupada realizando outros trabalhos, o que fazia com que alternasse edições constantemente com outros artistas. Do ponto de vista criativo, Stern investiu em histórias mais realistas, deu ênfase aos problemas comuns de Peter Parker (afinal, era seu nome quem vinha primeiro na revista) e procurou privilegiar vilões incomuns, fugindo dos inimigos clássicos e tradicionais do herói.

Mas a temporada de Stern em Spectacular também teve outro adendo artístico de alto nível: capas incríveis de Frank Miller, que apesar de não ter desenhado nenhuma dessas histórias, criou ilustrações interessantes rompendo com o estilo clássico do Homem-Aranha e trazendo um traço mais estilizado e não realista. A maior parte das capas foram de sua autoria nessa fase.

A primeira edição de Roger Stern, Spectacular 43, de junho de 1980, com arte de Mike Zeck e capa de John Byrne, terminou se tornando importante porque introduziu o personagem Roderick Kingsley, um magnata da moda envolvido com negócios escusos e que teria um grande futuro no universo do Homem-Aranha, como veremos a seguir. Na trama, o Homem-Aranha precisa – algo a contragosto dado o caráter de Kingsley – de protegê-lo do ataque da misteriosa e vingativa Belladonna que, inicialmente, procura prejudicar os negócios do estilista, mas depois, também começa a arriscar as vidas de quem cruza o seu caminho.

Capa de Alan Weiss.

Por motivos que nunca ficaram inteiramente claros, é Marv Wolfman quem assina a edição 44, com arte de Steve Leialoha, na qual uma série de mafiosos começa a ser assassinado por um matador que se revela como sendo Malloch Toomes, sobrinho de Adrian Toomes, o Abutre. A trama prossegue à edição 45, de novo com Stern e arte de Marie Severin e capa de Alan Weiss.

Incrível capa de Frank Miller.

SSM 46, com arte de Mike Zeck e capa de Frank Miller, trouxe outro momento importante porque, enquanto o Aranha luta contra o Cobra – um vilão clássico do Demolidor e do Capitão América – cruza o caminho pela primeira vez com o tenente Kris Keating, líder de um esquadrão especial da SWAT especializado em ações super-humanas e que nutria um ódio particular pelos super-heróis. O policial, que também teria um grande futuro nas HQs aracnídeas, fora criado por Gerry Conway em uma história dos Defensores, em The Defenders 44, de 1977.

A trama com Belladonna e Kingsley é retomada em Spectacular 47, com arte de Severin, que traz uma série de eventos importantes. Na trama, a intervenção do Homem-Aranha leva a vilã a contratar o antigo ladrão conhecido como O Gato (das histórias dos anos 1960), que agora, se apossou do uniforme e dos equipamentos do Gatuno; e a trama contra Kingsley avança. O novo Gatuno termina matando um homem na ação, o que lhe torna um assassino, algo que o deixa realmente abalado; e usando suas discretas habilidades de detetive, o cabeça de teia termina por descobrir a identidade de Belladonna: a modelo Norma Ravenna, que tivera a carreira destruída pela falta de ética de Kingsley em usar produtos adulterados.

Capa de Frank Miller.

A edição ainda introduz outros dois personagem longevos: o detetive Lou Snider, que mantém uma relação de confiança/desconfiança com o Aranha; e o velhinho preso a uma cadeira de rodas Nathan Lubensky, que também vive na Restwell Nursing Home da qual May Parker é interna. O arco com Kingsley conclui em SSM 48, no qual o empresário pensa dar um tiro no Homem-Aranha, mas nosso herói o enganou com um boneco, e Belladonna e o Gatuno são presos. Kingsley escapa impune.

A edição 49, agora com arte de Jim Mooney, traz outro vilão não-usual do herói: o Smuggler, advindo das histórias dos Vingadores e que já fora chamado de Poderoso e no futuro atenderia por nomes como Golias e Atlas (um dos membros dos Thunderbolts). A história traz um esforço de ligação com Amazing, citando eventos recentes como o encontro com a Madame Teia e o fim do Globo Diário, o que mostrava que Dennis O’Neil estava disposto a manter a ilusão conectada criada por seus antecessores. Outro ponto importante desta edição é que traz a primeira menção ao fato de Nathan Lubensky e May Parker estarem noivos, uma revelação que deixa Peter desconsertado e enciumado, antes de perceber que é algo ótimo para sua tia idosa.

Breve retorno de Keith Pollard para essa capa de SSM 49.

Outro elemento importante da edição 49 – e que mostra o quanto Roger Stern vinha sendo bem sucedido – é que ela dá início a uma pequena série de três partes de uma história secundária do Tigre Branco. Hector Ayala não dava às caras desde que Bill Mantlo revelara sua identidade secreta ao público em meio ao arco do Carniça, mais de um ano antes, e aqui, conhecemos as consequências: numa trama de Stern com arte de Dennis Cowan, somos informados por Blackbyrd que toda a família de Hector fora morta por uma quadrilha criminosa em represália às ações heroicas do Tigre Branco, mostrando a desastrosa continuação do ato impulsivo de Hector e a importância de manter a identidade em segredo.

Capa de Frank Miller para arte interna de John Romita Jr.

Vem então Peter Parker: The Spectacular Spider-Man 50, de janeiro de 1981, edição celebrativa de cinquenta meses de publicação. Na falta de um desenhista fixo, foi escolhido o próprio John Romita Jr. para fazer a arte da edição, criando a curiosa e inédita situação em que o mesmo artista ilustrou Amazing e Spectacular no mesmo mês. Na trama comemorativa, enquanto Peter leva Debra Whitman para visitar May e Nathan no Restwell Nursing Home, são todos atacados por uma horda alienígena. Estranhamente, os ETs estão interessados na fortuna do gangster Dutch Malone que teria sido escondida na casa que seria de May e Ben Parker anos depois. Peter chega a ser levado pela “nave espacial” e a polícia não acredita no relato de May, Debra e Nathan; mas o Homem-Aranha é hábil o suficiente para descobrir que tudo não passa de uma armação de Mysterio – dando prosseguimento, portanto, ao arco clímax de Wolfman que se encerrara na Amazing 200, mas tinha deixado esta ponta solta, pois Mysterio escapara sabendo do tesouro (que fora destruído por traças).

A arte dinâmica e expressiva de Frank Miller nesta capa, que traz Debra Whitman como figurante.

A história avança em SSM 51, com a volta de Marie Severin à arte, revelando que os aliens são os mesmos que seriam liderados pelo Consertador lá atrás em Amazing Spider-Man 02, de 1963. A aparição posterior do Consertador nas histórias de Len Wein já haviam revelado que os ETs eram uma farsa e a novidade é que Quentin Beck, o Mysterio, é revelado como sendo um dos capangas que interpretaram os extraterrenos naquela oportunidade, sendo sua primeira incursão no crime e sua primeira interação com o Homem-Aranha, antes de se esconder atrás do domo de vidro. Há uma cena interessante na história, na qual após vencer o vilão o Homem-Aranha informa Debra que Peter Parker está preso numa cela nos fundos do prédio, e a garota corre para lá, mas o tempo é suficiente para o herói trocar de roupa e forjar o cativeiro, de modo que sua identidade secreta é perfeitamente preservada.

Um herói metralhado é um endurecimento da Era de Bronze na arte de Frank Miller.

As edições 50 e 51 também trazem as histórias secundárias do Tigre Branco de Stern e Cowan, nas quais ficamos sabendo que a família de Hector foi morta pelo gangster Gideon Mace, e com a última parte terminando com o herói latino sendo alvejado pelos bandidos. Então, o arco de Hector migra para a história principal (e a capa) de SSM 52, na qual o Tigre Branco consegue sobreviver ao atentado, mas vai parar gravemente ferido no hospital, cabendo ao Homem-Aranha e Blackbyrd darem cabo de Mace e sua quadrilha.

No fim, Hector decide desistir de ser o Tigre Branco e entrega o seu amuleto mágico para Blackbyrd, indo embora de Nova York ao lado da namorada Holly Gillis. É um fim relativamente digno ao Tigre Branco, que desapareceria das páginas da Marvel Comics e, praticamente, não regressaria de novo até a longínqua Daredevil (vol. 2) 38, de 2002, na qual morreria.

SSM 54 dá a Miller a oportunidade de explorar os elementos japoneses que tanto gostava.

Spectacular 53 é uma “edição de férias” e traz a breve volta de Bill Mantlo ao roteiro, com arte de Jim Mooney, na qual temos o retorno do Consertador e seu capanga forte, Toy, que na verdade, é apenas um robô humanoide. SSM 54 traz Stern de volta, com arte de Severin, e retoma o arco do Smuggler, agora, ameaçado de morte pela Maggia e o Cabelo de Prata, numa trama que traz o tenente Kris Keating querendo prender o herói e o detetive Lou Snider o ajudando.

O Homem-Aranha entre o detetive Lou Snider e o tenente Kris Keating: visões conflitantes na polícia. Arte de Marie Severin para SSM 54.

A edição 55 tem Luke McDonnell na arte e traz mais outro vilão incomum ao aracnídeo: Nitro, um homem capaz de explodir a si mesmo. Tendo que lutar contra um poder tão forte e estranho, Peter precisa mesmo usar o cérebro para vencê-lo, fazendo-o se mesclar contra a sua vontade com um gás paralisante que lhe faz muito mal. Mas o destaque da edição são as consequências domésticas da vida de Peter Parker em continuidade aos eventos de Amazing, como o incêndio no prédio da rua Chelsea e as despesas que vieram, culminando no atraso do aluguel e Peter pensando em pedir aumento tanto para J.J. Jameson no Clarim quanto para o professor Sloan; além da frustração com a postura fria de Debra, que estava saindo com outro cara.

As duas edições anteriores mostravam também outro elemento mundano na vida de Parker: ele observava seus colegas professores assistentes na UES intrigados com o fato de Marcy Keane estar usando uma série de adereços relativamente exóticos na cabeça, como turbantes e véus; então, SSM 56, com arte do editor-chefe Jim Shooter em pessoa, revela o mistério: a moça na verdade usava uma peruca loira e seus cabelos eram, na verdade, curtos e morenos; o que a leva ser alvo de bullying de Steve Hopkins e outros. Mas não de Peter, que dá apoio à moça, o que não passa desapercebido por Debra.

Peter consola Marcy Kane quando é revelado que ela é morena e usa uma peruca loira.

Até então, a relação entre Peter e Marcy fora bastante tensa, mas o fato de Peter ir atrás dela e consolá-la e tentar entender sua história, desarma a garota e começa a mudar as coisas.

Outra grandiosa capa de Frank Miller contra o Halloween.

Ademais, a edição 56 foi algo importante e curiosa porque trouxe o primeiro confronto do Aranha com o Jack O’Lantern (Halloween, no Brasil), porque Roger Stern queria que esse vilão, criado por Steve Ditko, aparecesse na revista. Afinal, como desperdiçar colocar, em pleno 1981 (quase 20 anos depois da criação do amigão da vizinhança) o herói contra um vilão criado por seu cocriador? Na época, Ditko voltara à Marvel para desenhar a revista do Homem-Máquina (um personagem criado por Jack Kirby), escrita por Tom DeFalco. Halloween seria um oponente importante na década de 1980 e tinha um visual assustador, ainda que remetesse de modo quase subliminar ao Duende Verde.

Na trama, o vilão vai parar no hospital depois de seu confronto com o Homem-Máquina, mas ninguém consegue retirar sua armadura para tratá-lo, o que lhe dá tempo de se recuperar e tomar o hospital em sequestro, algo que atinge Nathan Lubensky, que está lá, e leva Peter a receber um “carão” de May por não estar lá para protegê-lo como ela pedira. Também é uma oportunidade para o tenente Keating rivalizar mais ainda com o cabeça de teia. A edição 57, em seguida, traz o retorno do Fogo Fátuo que se envolve em uma conspiração da maléfica Corporação Brand e seu capanga supervilanesco Killer Shrike.

Mais Mudanças Editoriais

Em meados de 1981, como já escrevemos, o sinal de alerta vermelho acendeu e disparou em relação às vendas baixas do Homem-Aranha, que vinha num processo de declínio de sucesso desde por volta de 1976. Foi a má performance nas vendas que levou o editor-chefe Jim Shooter a demitir Marv Wolfman de Amazing Spider-Man e colocar Dennis O’Neil como editor das três revistas aracnídeas e roteirista de Amazing. Mas passado pouco mais de um ano os resultados esperados não chegaram.

E cabeças precisaram rolar.

Histórica foto do casamento de Roger Stern traz a partir da esquerda: Tom DeFalco, Jim Shooter (em cima de um caixote, fazendo piada com sua estatura), Roger Stern, John Byrne e Mark Gruenwald, alguns com suas esposas. A nova cara da Marvel nos anos 1980.

Shooter decidiu demitir O’Neil das revistas do Aranha – ele continuou como editor do Demolidor, onde ia muito bem, supervisionando o trabalho magistral de Frank Miller – mas decidiu, também, mudar a estratégia editorial e promover toda uma nova fase redacional ao amigão da vizinhança.

Acontece que quando Stan Lee era o editor-chefe da Marvel, ele comandava todas as revistas da editora e era o roteirista em metade delas. Isso criou uma cultura de acumular as funções de editor e roteirista pelo menos entre os grandes nomes da casa, o que era uma tática “inovadora” da Marvel e não usada em quase nenhuma outra editora de quadrinhos. Quando Roy Thomas assumiu a editoria-chefe, ele descentralizou a redação e fortaleceu a figura do editor-escritor-sensação. Daí, quando Len Wein se tornara o editor-chefe, em 1974, passou-se ao fato de que o escritor de Amazing Spider-Man também era o editor do Homem-Aranha, o que prosseguiu com Wolfman e O’Neil.

Shooter achou que não estava dando certo e decidiu mudar o jogo: a partir das revistas com data de setembro de 1981, os títulos aracnídeos passaram a contar com um editor autônomo pela primeira vez desde sempre (ou pelo menos desde os tempos em que Thomas era o editor-chefe e Conway ou Wein eram os roteiristas), sem amarras para criticar, fiscalizar ou controlar quem quer que fosse o escritor de Amazing, Spectacular ou Team-Up. E o homem era Tom DeFalco, nascido em 1950 (portanto, com 31 anos de idade), criado no mesmo Queens de Peter Parker, e que iniciara a carreira em HQs infantis da Archie Comics, em revistas como Archie, Scooby-Doo e Jossie e as Gatinhas, antes de uma curta temporada na DC Comics, e chegou à Marvel pela linha editorial.

Inicialmente, Shooter designou DeFalco para linha de licenciamento, o que o levou a criar a personagem Cristal (Dazzler), em 1981, que foi pensada como um ambicioso projeto que uniria HQs, um filme para o cinema e um disco, mas da qual apenas a primeira vingou. Em seguida, DeFalco desenvolveria a versão moderna dos Comandos em Ação (G.I. Joe) para a Hasbro e que gerou uma revista em quadrinhos em 1982 (que se tornou uma das mais vendidas da Marvel) e o desenho animado anos depois; e também fez parte da equipe que desenvolveu a história e os personagens de Transformers, também para a Hasbro.

Assumindo a editoria do Homem-Aranha, DeFalco teve bastante dificuldades em encontrar um escritor para Amazing Spider-Man, então, aproveitou um roteiro deixado por Dennis O’Neil e o publicou com arte de Alan Kupperberg em Amazing 221, de outubro de 1981, a edição de estreia com seu nome nos créditos de editor, e no qual o Homem-Aranha luta contra um vilão chamado Ramrod. No número 222, DeFalco trouxe Bill Mantlo para escrever com arte de Bob Hall uma batalha contra o Corisco (Speed Demon, ex-membro do Esquadrão Sinistro – a versão Marvel e maligna da Liga da Justiça, sendo ele a versão vilanesca do Flash).

Mais bem realizada, Amazing 223 trazia outro roteiro inacabado de O’Neil, finalizado por J.M. DeMatteis e com arte de John Romita Jr. numa história mais interessante, na qual enquanto enfrenta o Fantasma Vermelho (um vilão do Quarteto Fantástico), Peter Parker precisa ajudar um jovem nerd que sofre de bullying pelos colegas da universidade.

Em paralelo, DeFalco tentou criar um ambiente interessante para que Roger Stern prosseguisse com seu bom trabalho em Spectacular. Por incrível que isso possa parecer aos dias de hoje, nenhum dos desenhistas da Marvel parecia querer desenhar o Homem-Aranha. Ou pelo menos, não em seu título secundário.

Um dos primeiros trabalhos de Tom DeFalco como editor foi organizar o terceiro anual de Spectacular. Stern declinou de escrevê-lo, pois estava muito difícil conseguir cumprir os prazos produzindo duas revistas mensais (Spectacular e Doctor Strange), então, DeFalco produziu um volume como nos velhos tempos, cheio de material extra e algum atrativo diferenciado ao público.

Chegando às bancas no verão de 1981, Peter Parker: the Spectacular Spider-Man Annual 03 trouxe como história principal uma aventura escrita por David Kraft e desenhada por Alan Weiss para encerrar definitivamente o arco de John Jameson e o Homem-Lobo. A escolha era relativamente óbvia, pois enquanto Weiss era um grande ilustrador e tinha feito ótimas capas ocasionalmente, Kraft tinha escrito as aventuras solo do Homem-Lobo publicadas em Marvel Premier 45, 46, 47, de 1978, e também a reaparição do trágico vilão em The Savage She-Hulk 13 e 14, poucos meses antes. Na trama, após voltar de uma outra dimensão, o Homem-Lobo entra em choque de novo com o Homem-Aranha e J.J. Jameson, mas dessa vez, o herói consegue levá-lo ao Dr. Curt Connors, que usa o mesmo composto que usara em si mesmo para a cura do Lagarto (e que fora usada naquela ocasião em que o próprio cabeça de teia também virou uma versão do Lagarto), curando o ex-astronauta.

Mas Annual 03 também teve uma série de histórias ou galerias extras, como uma sequência mostrando o álbum de família de May Parker (com cenas dela e Ben jovens e o pequeno Peter), por Stern e Severin; uma planta dos escritórios da UES, por Stern, Rick Parker e Bob Budiansky; um pequeno conto mostrando o cotidiano dos docentes da UES com Peter e seus colegas, por Stern e Severin de novo; e um pequeno fichário de alguns vilões recentes, com texto de Marv Wolfman e arte de Keith Pollard (e provavelmente, simplesmente tirado de algum arquivo da redação).

De volta à publicação mensal, Spectacular 58, de setembro de 1981, traz Stern ao lado de seu ex-parceiro em Captain America, John Byrne, numa aventura de tom cômico, no qual o Homem-Aranha precisa enfrentar o The Ringer, um vilão que surgira nas aventuras dos Defensores (Defenders 51). Após a experiência anterior, o Ringer quer apenas cometer seus crimes em paz, se se meter com super-tipos, mas ao visitar o laboratório do Consertador – que fora preso pelo nosso herói alguns números antes – em busca da encomenda que não lhe foi entregue, termina encontrando outro criminoso que também queria sua encomenda, mas este tem a ideia de sequestrar o Ringer e o obrigar a colocá-lo contra o Homem-Aranha. No fim da história, sabemos que o outro bandido é o Besouro, agora, usando uma nova e resplandecente armadura. Há duas coisinhas pessoais interessantes também, com Peter usando suas habilidades docentes para encantar um aluno que queria estudar informática, numa aula de química; e Peter e Debra se reunindo no apartamento da rua Chelsea para uma conversa franca sobre seus sentimentos, onde nosso herói ouve poucas e boas sobre o modo insensível como tratou a garota.

Mas que bela ilustração de Frank Miller para SSM 60, não?

Spectacular 59, por Stern, layouts de Jim Shooter e arte de Jim Mooney, continua o arco e, enquanto trabalhando em um estúdio de TV, o Gibão (lembram dele?) aproveita uma oportunidade para se vingar do Homem-Aranha e as coisas complicam quando o Besouro aparece e migra à SSM 60, de novembro de 1981, que foi o último número regular de Roger Stern na revista, com arte de Ed Hanningan, na qual ao ver a intervenção do Besouro, o Gibão se arrepende de ter querido vingança e decide ajudar o aracnídeo, e mesmo com algum atrapalho, após o vilão ser preso, é o Gibão quem é aclamado como herói, o que deixa Peter chateado e enciumado. No campo pessoal, há uma cena na qual Peter fica mordido ao ver Debra na UES ao lado de seu namorado, Biff Rifkin. Como era outra numeração redonda, celebrando cinco anos de publicação, a revista teve uma história secundária, escrita por Stern e desenhada por Greg LaRocque, na qual é recontada a origem do Homem-Aranha.

Bela capa de Ed Hanningan para SSM 61.

Em Spectacular 61, de dezembro de 1981, Stern se une a Bill Mantlo no corroteiro e arte de Hanningan para uma aventura na qual a Rocha Lunar (uma vilão que Stern desenvolvera nas suas aventuras do Hulk) querendo roubar um produto no laboratório de Curt Connors na UES. A ação fere Marcy Kane e Peter a leva ao hospital, o que somado ao apoio que o jovem lhe deu no lance da descoberta de seu cabelo natural, encerra as hostilidades entre Marcy e Peter e os dois fazem às pazes, dando uma cara de fim mesmo à temporada de Stern na revista.

Neste ponto é importante anotar: o motivo de John Byrne ter desenhado a edição 58 era que a intenção de Tom DeFalco era de que o artista-sensação assumisse a arte fixa de Spectacular, o que deixava Stern bastante feliz em prosseguir com a parceria iniciada em Captain America. Mas naquele momento Byrne escrevia e desenhava a revista do Quarteto Fantástico e, embora fosse um artista rápido o suficiente para assumir ambos os títulos, a obrigação (então, temporária) de ter que fazer a tinta ao próprio lápis em Fantastic Four adiou os planos até que encontrasse alguém que pudesse fazer a tarefa.

Mas quando isso aconteceu, Roger Stern já havia se desligado de Spectacular, e Byrne foi fazer outras coisas. Uma pena, porque – apesar do que tenha vindo em seguida foi simplesmente sensacional – é de se sonhar o que a dupla explosiva Stern-Byrne poderia fazer no Homem-Aranha!

Uma Nova Fase Áurea: Roger Stern e John Romita Jr. em Amazing

Contudo, o destino tinha reservado outro tipo de grandeza para Roger Stern no Homem-Aranha: assumir Amazing Spider-Man.

Um passo atrás: a mudança editorial de Jim Shooter para dotar todas as três revistas do Homem-Aranha de um único editor independente, que não escrevesse as histórias, com a chegada de Tom DeFalco, estreando nas revistas com data de setembro de 1981. Com isso, claro, Dennis O’Neil – que era o editor anteriormente e escrevia Amazing – deixou ambos os postos.

Mas por incrível que possa aparecer, ninguém queria assumir os roteiros de Amazing Spider-Man. Afinal, era uma grande responsabilidade, um cargo de grande pressão e cujas vendas caíam. Para completar Len Wein, Marv Wolfman e Dennis O’Neil – três monstros sagrados dos quadrinhos – tiveram sérios problemas na condução da tarefa. Quem iria se arriscar?

Tom DeFalco viveu alguns meses difíceis, produzindo histórias a partir de roteiros inacabados de Dennis O’Neil com postulantes temporários, como Michael Fleisher, Bill Mantlo e J.M. DeMatteis; mas a solução estava embaixo de seu nariz. Quando considerou a questão, DeFalco percebeu que embora não estivesse necessariamente com vendas maiores, naquele momento, Peter Parker era uma revista mais quente do que Amazing, com os excelentes roteiros de Roger Stern e as belas capas de Frank Miller. Spectacular era mais ousada, ambiciosa e divertida e captava muito melhor o espírito do Homem-Aranha do que aquela que devia ser a revista principal do personagem (nas mãos de O’Neil). E a crítica concordava e dizia que era o que de melhor saíra sobre o amigão da vizinhança desde os longínquos tempos de Gerry Conway.

Roger Stern migrou de Spectacular para Amazing.

Então, DeFalco ofereceu o posto de roteirista de Amazing para Stern, que aceitou, desde que pudesse continuar no mesmo espírito de Spectacular. E era exatamente isso o que o editor queria. E com um bônus: Stern poderia trabalhar com o maravilhoso John Romita Jr., que prosseguia como artista fixo do título. Podia ser melhor?

Roger Stern produziu histórias marcantes, como o confronto com o Fanático. Arte de John Romita Jr.

A partir de Amazing Spider-Man 224, de janeiro de 1982, Roger Stern e John Romita Jr. começaram uma prolífica fase em que as vendas não somente aumentaram, como a qualidade das histórias deu saltos, após anos de “moral baixa”. Um dos grandes méritos da dupla foi investir no “novo universo” do aracnídeo que vinha se formando nos últimos anos, deixando um pouco de lado velhos coadjuvantes (Harry Osborn, MJ, Flash Thompson) e desenvolvendo os mais recentes ou inserindo novos, como a capitã Jean DeWolff, o repórter Jacob Conover, o fotógrafo Lance Bannon e sua polêmica namorada Amy Powell (que mantinham um relacionamento “aberto” e ela se encantava com Peter Parker), o sargento Lou Snider e pequenos personagens meiocriminosos, como o fashion designer Roderick Kingsley e o executivo George Vandergill.

Um fato curioso é que, em Amazing, Stern se voltou ao elenco tradicional de Peter Parker – talvez algo mandatório na redação, como um tipo de separação de mundos entre a revista principal e a secundária Spectacular – e deu ênfase a Harry Osborn e Liz Allan e até trouxe de volta Mary Jane Watson. Porém, outro aspecto curioso é que Stern não deu muito espaço para romance propriamente dito em sua temporada, mesmo com o imbróglio com Debra Whitman se resolvendo em Spectacular (como veremos em breve). Assim, enquanto em Peter Parker nosso herói se via com o fim do relacionamento com Debra e o engate com a Gata Negra; em Amazing víamos um herói solteiro, apenas em meio a uma pequena tensão entre Amy Powell e MJ como veremos a seguir.

Como Peter Parker estava no Clarim Diário, sua relação com Joe “Robbie” Robertson era restaurada aos tempos de Stan Lee, quando ficava subtendido que o Editor de Cidades desconfiava que ele era o Homem-Aranha, ou mesmo sabia de tudo.

A fase de Roger Stern é muito lembrada por antigos leitores como um dos pontos mais altos das histórias do Homem-Aranha em todas as épocas e ficou marcada a importância de edições lendárias!

Começa com Amazing 224, de janeiro de 1982, na qual Stern traz de volta seu vilão favorito, o Abutre, numa trama na qual Adrian Toomes faz amizade no hospital com Nathan Lubensky e termina fugindo da custódia e voltando aos seus crimes, mas também aparece no Restwell Nursing Home para jogar baralho com Nathan e é reconhecido por Peter, nota, ataca o rapaz e termina num confronto, embora o vilão escape. No Clarim, Peter precisa aguentar um discurso de J. Jonah Jameson lhe dizendo para ser um fotógrafo bom como Lance Bannon; e na edição 225 o herói luta contra o Follkiller (um vilão dos Defensores – Mantlo e Stern gostavam de usar vilões dos Defensores…), que vai parar no Mitchel State Hospital, a mesma instituição em que a Gata Negra está internada, como descobrimos na edição 226, na qual o Homem-Aranha é parado na rua pela capitã Jean DeWolff que lhe informa que Felicia Hardy fugiu do hospital.

Jean DeWolff avisa ao Aranha da fuga da Gata Negra, na bela arte de John Romita Jr.

A história mostra que Felicia fingiu estar louca para tornar sua fuga mais fácil, rouba uma pintura cara de um líder da Maggia, mas decide desistir de sua carreira de crimes para ficar com o Homem-Aranha. Marcando uma conversa no local de seu primeiro encontro, ela tenta convencê-lo, mas ele fica relutante. Ela marca um encontro numa festa à fantasia e quando o cabeça de teia conta isso a DeWolff, ela lhe diz que é um encontro de criminosos. O escalador vai à festa e ele e a Gata Negra lutam contra os bandidos da Maggia, que são presos por DeWolff e seus homens.

No fim, o Homem-Aranha e a Gata Negra se beijam. Isso anima o herói a – no início de ASM 227 – pedir para DeWolff que seja dada uma anistia a Felicia por seus crimes pretéritos. A capitã não parece muito convencida de início, pois não confia na (ex?)ladra. E os sentimentos de dúvida crescem no escalador quando a Gata tenta roubar uma estátua de ouro com rubi (querendo garantir financeiramente seu futuro com o Aranha), mas o herói tenta impedir, com os dois indo a uma luta. Mas o dono da estátua – outro criminoso – e seus capangas disparam as armas e o Homem-Aranha é atingido na perna, o que lhe coloca em uma desvantagem contra Felicia.

A Gata Negra aparentemente comete suicídio, por Stern e Romita Jr.

No fim, ele a amarra com teia, mas ela prefere se afogar no píer a ser pega. Peter procura por seu corpo e não encontra. Ao sair da água, é encontrado por DeWolff, que lhe traz os papeis da anistia dos crimes da Gata que conseguira com o Promotor Blake Tower.

Frustrado, o herói joga os papeis na água, lamentando a tragédia de tudo aquilo.

Após uma “edição de férias” escrita por Jan Strnad e desenhada por Rick Leonardi, em ASM 228; vem uma das mais famosas histórias de Stern e Romita Jr. e um clássico absoluto do Homem-Aranha: Nada pode parar o Fanático, no qual nosso herói precisa se lançar contra o vilão dos X-Men que é tão forte quanto o Hulk e não pode ser parado de jeito nenhum. Na primeira parte, em ASM 229, de junho de 1982, o parceiro de crimes Black Tom Cassady convence Cain Marko a usarem a Madame Teia para previr o futuro e derrotarem os X-Men, então, Marko vai atrás da vidente. Madame Teia comunica Peter pelo telefone da ameaça iminente quando o rapaz está no Clarim, conversando com Betty Brant e Glory Grant, e o Homem-Aranha tenta enfrentar o Fanático sem sucesso.

Achando que o nível de poder do vilão é elevado demais para dar conta sozinho, o escalador procura ajuda do Quarteto Fantástico, dos Vingadores e do Doutor Estranho, mas nenhum deles estão na cidade, então, vai à casa da Madame Teia para tentar impedir o Fanático de levá-la. Mas após Marko tirá-la do aparato que lhe mantém viva, ela quase morre e ele vai embora. Depois de deixar a amiga em uma ambulância, o Aranha e a polícia montam uma barricada para enfrentar o vilão irrefreável.

Em ASM 230, o Homem-Aranha tenta de todas as maneiras enfrentar o Fanático, mas sem sucesso, pois nada consegue parar sua marcha. A luta leva à demolição de dois edifícios e o vilão sai facilmente dos escombros, o herói lança dois caminhões que colidem e explodem com Marko, mas ele nem pisca. No fim, Peter consegue fazer o Fanático cair em um poço de concreto de outra construção e o vilão finalmente fica preso. Enquanto isso, no Clarim, conhecemos Amy Powell a namorada de Lance Bannon e descobrimos que os dois têm um relacionamento aberto, mas estão meio estremecidos. E Peter conseguiu tirar as fotos da luta e as vende por um bom dinheiro para Robertson.

ASM 231 começa com Peter costurando um novo uniforme para si, já que a roupa fora destruída na luta contra o Fanático, e nosso herói (pelas mãos de John Romita Jr.) decide trazer de volta as teias embaixo do braço que seu uniforme tinha originalmente e que haviam sido abandonados desde os tempos em que Gil Kane começara a desenhar o personagem. Ademais, temos uma interessante trama em que Marla Madison e Jonah Jameson conversam sobre a desventura dela com a Corporação Brand (que Stern contara em Spectacular 57), e Ned Leeds aparece dizendo que tem contatos no submundo que podem revelar o podre da empresa. Então, Ned e Marla saem atrás de conversar com o tal contato, o que deixa Betty Brant preocupada, e o leva a telefonar para a UES em busca de Peter – o que rende um cameo de Debra Whitman (informando a Betty e aos leitores de Amazing que Peter não é mais um professor assistente, como visto em Spectacular 68 [mais adiante]) – para que os ajude, mas ele a diz que não precisa se preocupar. Mas é o suficiente para o herói ir lá dar uma conferida e flagrar os amigos em risco, porque o vilão Cobra (que acabou de fugir da cadeia) também ir atrás do mesmo informante e ter reconhecido Leeds como repórter. O Homem-Aranha tem uma luta com Cobra e consegue vencê-lo, mas antes que possa entregá-lo à polícia é atacado por Mr. Hyde, que está atrás do velho parceiro de crime.

E passamos a ASM 232, onde há uma batalha acirrada contra Hyde, enquanto Cobra permanece amarrado. O monstruoso vilão quer vingança do ex-parceiro por o ter deixado na prisão. Tal qual o Fanático, o Homem-Aranha tem dificuldades em vencer a força bruta de Hyde, e precisa se preocupar com Ned Leeds e Lance Bannon, que estão acompanhando o confronto. A ação leva até Bannon a cair de um prédio e ser salvo pelo escalador de paredes, mas quando o fotógrafo reclama que ele não salvou sua câmera também, tem a boca calada por teia. Quando Hyde escapa, Peter volta à UES e vemos a tocante cena dele limpando sua mesa; e mais tocante ainda, quando numa raríssima aparição desse elenco em Amazing daquela época, Marcy Kane o convida para ir ao laboratório para ver um experimento, e Peter a dispensa dizendo estar com pressa e ocupado, e vemos todo o restante – Steve Hopkins, Phillip Chang, Debra Whitman etc. – esperando em vão por uma festinha surpresa de despedida. Tal qual na edição anterior, Debra lança pensamentos sobre suas suspeitas de que Peter é o Homem-Aranha, acompanhando o desenrolar das edições de Spectacular.

O cabeça de teia reencontra os vilões mais tarde e, após derrubar Hyde de um edifício, o monstruoso é derrotado e quando o Cobra escapa e se vê entre a polícia e o herói, resolve se entregar para não levar outra surra (embora não saiba que o Aranha está tão machucado que talvez nem pudesse vencê-lo).

O primeiro encontro entre Peter e Amy Powell, por Stern e Romita Jr.

O informante que mobilizou essa trama, Nose Norton, continua a figurar em ASM 233, quando sabemos que sua cabeça está à prêmio pela Corporação Brand, e Jameson oferece um bônus a quem encontrar o informante. Todos saem correndo, inclusive, Peter, que está precisando de dinheiro, e na pressa, termina esbarrando em Amy Powell, a namorada de Lance Bannon, que gosta do rapaz e decide usar Peter como uma isca para atrair a atenção do namorado. O Homem-Aranha vasculha acidade em busca de Norton e descobre seu paradeiro, ao mesmo tempo em que o repórter Ben Urich. A dupla Urich e Parker encontra Norton, mas o Tarântula foi contratado para matá-lo, e mesmo derrotado pelo herói, uma dupla de atiradores ainda atinge o homem, mas que sobrevive e é encaminhado ao hospital.

A trama prossegue em ASM 234, na qual vemos Peter e Betty conversando e ela se queixa (como nos velhos tempos) de que Ned nunca está presente. O rapaz pergunta se eles ainda estão tendo problemas – o que é uma maneira floreada de dizer, tendo em vista o que aconteceu não tanto tempo antes, não é? – e Betty desabafa que, não como antes, mas que acha que se não trabalhasse para Robertson, ela nunca veria o marido. Sem dúvidas é um diálogo importante, tendo em vista o que acontecerá um pouco mais tarde com o casal.

Peter e Amy se esbarram de novo.

Ao sair, Peter novamente esbarra com Amy Powell no Clarim e ela joga todo o seu charme, dizendo que admira o trabalho dele há anos, mas o fotógrafo não lhe dá bola – algo que mais tarde ele reflete estar relacionado aos seus namoros mal sucedidos recentes (desde MJ até a aparente morte da Gata Negra) – e, em seguida, Peter se infiltra em uma seleção da Corporação Brand para investigar, enquanto vê a volta do Fogo Fátuo (Jack O’Wisp) querendo vingança contra a empresa, e o Tarântula, por sua vez, cansado de ser derrotado, se submete a um experimento para ganhar mais poderes, e termina transformado em uma aranha humanoide.

O que leva a uma batalha mais acirrada entre o trio na edição 235, e prossegue ao número 236, na qual a mutação do Tarântula prossegue até ele virar um monstro gigante, que termina morto pela polícia, e o Homem-Aranha consegue convencer o Fogo Fátuo a não matar James Melvin – o líder da Brand – e o entrega à polícia.

Mais tarde, Peter e Robbie veem as notícias no Clarim, na qual a Corporação Brand encerra as atividades em meio às denúncias de corrupção, o que Peter vê como uma pequena vitória, ainda que Robertson o lembre que a Roxxon Oil (a empresa-mãe) permaneça ativa e bem.

A trama da Roxxon prossegue ligeiramente em Amazing Spider-Man Annual 16, também por Stern e Romita Jr. (com o super-bônus do pai dele fazendo a tintaria), lançado no verão de 1982, na qual vemos a introdução de uma nova super-heroína: a Capitã Marvel. Hoje em dia, associamos este nome a Carol Danvers, mas nos anos 1980, ela usava o codinome Miss Marvel, e o Capitão Marvel (Mar-Vell, o guerreiro Kree que adotou a Terra como lar, criado por Stan Lee e Gene Colan, reformulado por Roy Thomas e Gil Kane, e cujo apogeu se deu nas mãos do escritor e desenhista Jim Starlin). Na verdade, na época, o Capitão Marvel havia morrido numa épica história, dois anos antes, e a Marvel Comics decidiu lançar um novo personagem com o nome para não perder o direito de usá-lo – já que havia uma disputa legal contra o espólio da Fawcett Comics e sua nova controladora, a DC Comics, envolvendo o herói que hoje em dia conhecemos como Shazam, mas que surgira com o nome de Capitão Marvel. (A Marvel ganhou a disputa).

Todavia, apesar desse background editorial, a nova Capitã Marvel não tinha nada a ver em termos de poderes, personalidade ou trama com o velho detentor do título. Na Annual 16, somos introduzidos por meio de Peter, que vai se encontrar com Harry e Liz na Central Station (o casal morava em New Jersey) e, enquanto espera, seu sentido de aranha dispara em direção a uma bela mulher afromamericana. Com tempo de sobra, Peter decide segui-la e a vê sendo atacada por um bando de assaltantes, mas ela consegue vencê-los com as mãos nuas. O Homem-Aranha intervém, mas ela demonstra poderes que estão descontrolados e ela, sem querer, o atinge com uma rajada de luz. Assustada, veste seu belo uniforme e sai voando em busca de ajuda.

Abre-se um longo flashback em que vemos as origens de Monica Rambeau, uma guarda costeira de Nova Orleans, que ganhou fantásticos poderes relacionados à luz. Nesses termos é uma história de Monica ocupando a revista anual especial do Homem-Aranha, mas vale à pena. No fim, ela procura o (Quarteto Fantástico, que está fora da cidade, à exceção do) Coisa, que a encaminha aos Vingadores. A Capitã chega lá usando a linha telefônica como modo de transporte, mas sem controlar bem seus novos poderes, sem querer ativa o sistema de defesa da Mansão dos Vingadores, o que faz o cabeça de teia atacá-la quando chega lá, mas o caso é esclarecido pelo Homem de Ferro e os dois ajudam Monica, que tem o convite de integrar os Vingadores como membro em treinamento, enquanto Peter volta e ainda se encontra há tempo com Harry e Liz.

Na Amazing mensal, a edição 237 traz Stern ao lado do desenhista convidado Bob Hall (dando uma folga para Romita Jr. ter mais tempo para a edição seguinte) numa trama secundária, na qual vemos Peter ser alvo de um trombadinha no metrô (detido com facilidade, claro), menções ao confronto entre o Doutor Octopus e o Coruja (lá em Spectacular – veja logo mais nas próximas seções) e uma batalha contra o Stilt-Man, um velho vilão do Demolidor que já enfrentara também o Thor.

A Segunda Temporada de Bill Mantlo em Spectacular

Já que Roger Stern foi “promovido” de Spectacular para Amazing, o editor Tom DeFalco precisou encontrar um novo nome para conduzir a revista secundária de Peter Parker. DeFalco foi no que era certo e convidou Bill Mantlo para retornar à revista que conduzira de modo tão bem sucedido do número 09 ao 42, de 1977 a 1980. Nesse novo momento, o roteirista conduzia paralelamente The Incredible Hulk e as revistas de dois produtos licenciados pela Marvel que faziam sucesso com um público específico, Os Micronautas e Rom, o cavaleiro espacial. Pegar Spectacular de novo fez Mantlo assinar concomitantemente quatro revistas mensais.

Mantlo parece que se sentiu bastante à vontade e passou outros três anos à frente de Peter Parker, correndo sua temporada exatamente paralela com a de Stern em Amazing e com ambas dialogando sempre que possível. O roteirista trouxe de volta aquilo que transformara na marca da revista: o foco na vida universitária do herói, adotando a trama de Debra Whitman (que ficou meio ausente em Amazing) e dando continuidade ao arco da Gata Negra, que vira a protagonista da revista ao lado do titular.

O maior ponto negativo dessa temporada foi a ausência de um artista fixo. Por incrível que pareça – de novo – nenhum desenhista queria pegar a revista, daí que ao longo dos três anos de sua fase, Mantlo teve oito desenhistas diferentes se alternando no título, embora Ed Hannigan tenha feito um bom número de edições e Al Migrom (que também vinha da ala editorial da Marvel) tenha desenhado o “recorde” de cinco edições seguidas. Além deles dois, tiveram passagens pela revista nomes como Luke McDonnel, Rick Leonardi, Bob Hall, Ron Frenz, Greg LaRocque e Dave Simons.

Mantlo reinicia em Peter Parker: the Spectacular Spider-Man 61, de dezembro de 1981, aquela já mencionada edição com a Rocha Lunar, com arte de Ed Hannigan e o roteiro dividido com Roger Stern; assumindo o texto sozinho a partir do número 62.

O primeiro grande destaque dessa fase foi a introdução da dupla de anti-heróis Manto & Adaga (Cloak & Dagger) em Spectacular 64, de março de 1982, dois vigilantes violentos que matavam seus inimigos e que tinham como principal alvo o tráfico de drogas. Tal qual Stern, Mantlo manteve as aventuras de Peter Parker bem “pé no chão”, mas com uma característica ainda menos fantasiosa do que o colega. Assim, o problema das drogas – que era endêmico nos EUA da década de 1980 – foi o grande tópico de fundo das histórias, analisando suas consequências à violência nas ruas de Nova York e à juventude perdida.

Em seguida, vem o importante arco que se inicia em SSM 67, no qual enquanto o Homem-Aranha luta contra o Bumerangue, Peter Parker sente em si toda a pressão de sua vida heroica, com cobranças no Clarim Diário, a frustração da relação inconclusa com Debra Whitman e as tensões causadas por seus atrasos constantes às aulas que precisa ministrar na UES.

Peter e Biff se estranham em SSM 68.

Tudo isso faz Peter explodir quando confrontado por Biff Rifkin, o namorado de Debra, na edição 68, o que o leva a perder o controle e esmurrar o rival.

O episódio é a gota d’água e o professor Sloan sugere que Peter abandone a docência para se dedicar apenas às aulas de sua pós-graduação. O herói pensa um pouco e acaba aceitando, encerrando a carreira docente que havia iniciado lá atrás na edição 32. Ao mesmo tempo, o esgotamento de Peter não passa desapercebido por Debra, que suspeita que há algo mais e, após ver o Homem-Aranha no campus começa a suspeitar que Peter é o cabeça de teia.

Na edição 69 temos o retorno de Manto & Adaga em sua cruzada contra o tráfico de drogas, que descobrimos, é liderado por ninguém menos do que o Rei do Crime, usando a quadrilha do Cabelo de Prata como operadores. O velho mafioso está na cama de um hospital desde sua última interação com o escalador de paredes e a dupla de vigilantes vai tentar matá-lo. Mas o Rei usa a oportunidade para financiar a transformação do Cabelo de Prata em um ciborgue, uma ameaça maior, mas que é derrotada. Vemos também que Debra, enquanto suspeita de Peter, está cada vez mais nervosa e desequilibrada.

Mantendo a pegada crítica pautada na realidade, Mantlo escreveu a edição 71 que não traz nenhum super-vilão, mas apenas um conto sobre o problema das armas de fogo. Spectacular 73 dá início a um longo arco envolvendo uma disputa do Doutor Octopus contra o Coruja (um gangster inimigo do Demolidor) pelo controle do submundo. Esta edição também mostra o psiquiatra de Debra, Dr. Bailey Kuklin indo ao encontro de Peter e lhe explicando que a garota está obcecada por ele, que pensa que ele é o Homem-Aranha e até sugere que Peter se fantasie do herói para lhe dar um choque de realidade e fazê-la se curar. Peter, claro, não aceita.

SSM 74 continua a trama e enquanto os dois vilões prosseguem sua disputa – em busca de roubar um artefato especial pertencente ao Rei do Crime – temos a volta da Gata Negra (que aparentemente tinha morrido em Amazing Spider-Man 227), viva da silva (quantas vidas ela já gastou?), que retornava disposta a mostrar seu valor ao Homem-Aranha.

Peter revela sua identidade para Debra e ela não acredita. Arte de Bob Hall.

Enquanto isso, ao ver como Debra está fora de si, Peter termina por fazer o que o médico dela o recomendara e revela para a garota que é o Homem-Aranha! Mas Debra não acredita e acha que o rapaz queria lhe dar um choque de realidade mesmo. Ao perceber o “fundo do poço” em que chegou, a garota decide reconstruir sua vida: revela para Peter que ela é casada e que fugira de seu marido, que era um homem abusador, e desde então, vivia com esses problemas psíquicos.

A despedida com Debra.

Então, ela decide abandonar Peter, abandonar a UES e voltar à sua cidade para confrontar o marido e se divorciar. A despedida é amigável e há uma promessa de retorno, mas isso não acontecerá e a edição põe fim definitivo à turbulenta relação Peter-Debra que se desenrolara nos últimos três anos. Tendo a relação escrita a muitas mãos (Marv Wolfman, Dennis O’Neil, Roger Stern, Bill Mantlo) e incontáveis desenhistas, fora o mais estranho namoro de Peter até então, ficando como uma garota que – a julgar pelas ações – Peter não gostava muito. E O’Neil chegou a retratar a relação como cruel, algo que precisou ser amenizado pelos roteiristas subsequentes. A garota praticamente não apareceria depois disso e até seria pouco mencionada.

Vem então a comemorativa Spectacular 75, de fevereiro de 1983, uma edição com o dobro do tamanho normal e uma batalha explosiva do Homem-Aranha contra o Doutor Octopus e o Coruja, com a ajuda da Gata Negra. Porém, a ex-ladra não tem, os poderes do namorado e leva uma surra de Octopus, ficando à beira da morte, o que provoca uma reação violenta do herói, que arranca alguns dos braços mecânicos do vilão (que sente muita dor porque tem uma conexão neural com eles).

Na edição 76, tanto Octopus quanto a Gata Negra estão no hospital e a capitã Jean DeWolff consegue junto ao Promotor Blake Tower uma anistia aos crimes de Felicia Hardy, considerando que ela teria feito isso por causa de seus problemas mentais tratados na clínica. A trama deixa claro que Blake e DeWolff fizeram isso muito mais pela confiança no Homem-Aranha do que pela fé verdadeira em Felicia.

Octopus se recupera e a batalha prossegue pelos números 77 e 78, este último no qual Peter consegue ganhar uma bolada de dinheiro por essas fotos no Clarim Diário e usa a grana para auxiliar May Parker na ideia de reaver sua antiga casa em Forest Hills e transformá-la em breve em uma pensão para idosos autogestada pelos próprios idosos, saindo do ambiente frio e clínico da Restwell Nursing Home. O episódio da quase morte da Gata Negra também mostra para Peter que ele gosta muito dela e que ela é uma pessoa mais “adequada” para ele do que a fugidia Debra Whitman. Em vista desses passos novos na vida, Peter decide largar a pós-graduação na UES e se dedicar apenas à carreira como vigilante e às fotos do Clarim.

Bela capa de Al Migrom para SSM 79.

Embora ambicione algum dia voltar a estudar, Peter toma uma decisão drástica, encerrando a carreira universitária que havia iniciado ainda em 1965 nas histórias de Stan Lee e Steve Ditko; e que havia concluído a graduação nas histórias de Marv Wolfman e Ross Andru em 1978, passando, desde então, à pós-graduação. A inexistência de uma vida universitária era uma mudança de conceito também à própria Peter Parker, que nasceu com essa finalidade editorial de explorar esse lado da vida do herói, passando dali em diante, a uma função um pouco mais indefinida, como um tipo de complemento a Amazing Spider-Man e cujo o principal ponto de diferenciação passa a ser a presença da Gata Negra como namorada e side-kick.

Homem-Aranha arranca os braços metálicos do Dr. Octopus.

A batalha final com Octopus se dá em Spectacular 79, de junho de 1983, na qual o vilão tenta finalizar o serviço invadindo o hospital para matar a Gata Negra, e um Homem-Aranha cheio de fúria o confronta. Lutando com toda a sanha possível, o escalador consegue tirar Octavius do prédio e o confronto prossegue pelas ruas da cidade, inclusive, com a capitã Jean DeWolff ajudando o herói ao bater com o seu carro contra um dos braços mecânicos do vilão e o desequilibrar. A dupla indo parar em um prédio em construção que irá ruir em meio à batalha dos dois, e dessa vez, Peter arranca todos os braços mecânicos de Octavius, que fica bastante machucado física e mentalmente desse confronto. O Aranha faz um discurso raivoso contra seu velho inimigo, dizendo que ele nunca será capaz de vencê-lo.

Em consequência a essa derrota, as histórias futuras mostrariam que Otto Octavius desenvolveu uma espécie de fobia em relação ao Homem-Aranha, o que o vai fazer ficar afastado das revistas aracnídeas por um longo período de tempo. Essa história também dá a entender que Jean DeWolff tem uma queda pelo herói, idealizando uma vida romântica com o Homem-Aranha e tendo ciúmes da Gata Negra.

A capitã Jean DeWolff demonstra que tem uma quedinha pelo Homem-Aranha.

O arco de Octopus também trouxe uma subtrama que mostrava o Justiceiro preso na Ilha Ryker – a mesma prisão em que confinou tantos criminosos – para a qual o vigilante matador foi enviado após ser preso pelo Demolidor em Daredevil 184 (de Frank Miller). Frank Castle ameaça e força o Bumerangue – preso pelo Aranha há pouco tempo – para auxiliá-lo na fuga da cadeia.

SSM 81 traz a terceira aparição de Manto e Adaga, de novo em sua cruzada contra as drogas, mas agora, com essa aventura servindo como um trampolim para uma minissérie estrelada pela dupla, publicada em quatro edições na virada de 1983 para 1984, pelas mãos de seus criadores, Mantlo e Hannigan.

A Chegada do Duende Macabro

O fato mais importante da gloriosa temporada de Roger Stern e John Romita Jr. foi a criação do novo vilão que iria brindar a carreira do Aranha: o Duende Macabro, que aparece em Amazing Spider-Man 238, em maio de 1983. O editor-chefe Jim Shooter encomendara a Stern que criasse uma nova história do Duende Verde, achando que isso aumentaria as vendas. Mas como o escritor não queria criar uma quarta versão do vilão (ainda mais quando as duas “cópias” anteriores não tiveram nada da força do original), criou a ideia de fazer um novo Duende, uma adaptação e uma modernização do personagem, e transformar tais elementos em parte da história: alguém que se apossa dos equipamentos e dos poderes de Norman Osborn e cria uma nova identidade, uma nova ameaça. O resultado deu muito certo e marcou uma geração de leitores, um clássico e o principal inimigo do Homem-Aranha na década de 1980, fio condutor de uma linha de histórias simplesmente sensacionais.

Tudo começa abruptamente em Amazing Spider-Man 238, com data de capa de março de 1983 (o que significa que foi publicada quatro meses antes), e além de Stern e Romita Jr., trouxe de novo a participação especial de John Romita Sr. no pincel, para abrilhantar a arte do filho. Com uma capa estonteante na qual o misterioso novo vilão rasga o uniforme do herói ao meio.

A trama: Peter presencia o momento em que a tia May assina a papelada para transformar sua velha casa em um pensionato, e depois, cabe ao Homem-Aranha impedir a fuga de uma quadrilha que roubou um banco, mas um dos bandidos consegue escapar pelos esgotos. O homem – que saberemos chamar-se Georgie Hill, termina encontrando um velho esconderijo do Duende Verde e contacta o seu chefe (de identidade desconhecida para o leitor). Mais tarde, quando Peter está indo de carona com Joe Robertson para a casa de May, ambos são comunicados de um incêndio no mesmo local em que a perseguição de mais cedo terminou: uma fábrica da Osborn, o que não parece uma coincidência. Quando chegam lá, Lance Bannon já está lá, tirando fotos, mas Peter desce ao porão onde o fogo começou e, embora o local esteja vazio, reconhece os ganchos nas paredes usados para guardar os jatinhos em formato de morcego do Duende Verde.

O Duende Macabro: um novo pior inimigo para o Homem-Aranha. Por Stern e Romita Jr.

Então, o homem misterioso mata Hill e sabemos que, junto ao equipamento, ele encontrou também uma série de diários escritos de próprio punho por Norman Osborn. No fim, o vemos modificando os equipamentos, dando-lhes aspecto mais moderno e um novo nome: Hobglobin ou Duende Macabro.

Em ASM 239, finalmente o Duende Macabro entra em ação: invadindo, roubando e incendiando uma série de esconderijos secretos do Duende Verde, algo que preocupa Harry Osborn e o CEO da Osborn, Donald Merken. Peter também fica preocupado ao ver as notícias, com medo que o falecido Norman Osborn tenha deixado escrito sua identidade secreta em algum lugar. Em paralelo, o Aranha visita a Gata Negra no hospital – onde ela está em coma fruto da batalha com Octopus e Coruja -, mas a capitã Jean DeWolff lhe garante que o local está bem guarnecido e que ele pode descansar. Ainda assim, ele faz uma visita à Madame Teia, que também está internada (desde a batalha com o Fanático) e ela garante que não lembra dele.

Também acompanhamos a novela Lance Bannon x Amy Powell: a deslumbrante garota faz uma sessão de fotos sensuais com o namorado fotógrafo, mas ao “esquentar” mais as coisas, ele se chateia, no que a jovem nota uma série de fotos do Homem-Aranha encostadas, fazendo uma piada sobre como Peter Parker é melhor em tirar fotos do herói e que também é tão bonito que ela o trocaria por ele. Mas Powell está disposta mesmo a isso e telefona para Peter, convidando-o para sair, mas o rapaz recusa, ao perceber que já é noite (dormiu o dia inteiro) e precisa ir atrás de quem está realizando os arrombamentos nas instalações da Osborn.

O Homem-Aranha vai a um dos esconderijos do Duende Verde que conhece – aquele em que Norman Osborn morreu (em ASM 122) – e vê que ele já foi roubado e limpo (sem incêndio, dessa vez), e com sua teia, voa para o único outro esconderijo que ainda conhece: a antiga edificação do Village Theatre, que apareceu lá atrás (em ASM 96, de 1971), e tem sorte: o Duende Macabro está lá e os dois se encontram pela primeira vez. Uma batalha feroz transcorre pelo Greenwish Village, porém, o Aranha leva a melhor, ainda que o Macabro consiga fugir.

Ao fim da história vemos o misterioso vilão voando em seu jatinho, bastante machucado, e pensando em como Osborn poderia ter lutado contra o herói tantas vezes. Ele devia ter poderes e um segredo, e o Macabro está disposto a encontrar!

A trama do novo vilão recebe uma pequena pausa com ASM 240 trazendo novamente o Abutre: Adrian Toomes estava afastado da cidade, roubando discretamente e vivendo uma vida mais tranquila até saber que seu antigo empregador, Gregory Bestman, retornou aos negócios, e decide voltar a Nova York para ter sua vingança, atacando uma feira de negócios na qual o empresário estará. Após sair de casa – e perder Amy Powell batendo em sua porta, tentando falar com ele – Peter vê na TV (na pensão de May) o ataque e corre para lá, invadindo o local a despeito da oposição do tenente Kris Keating. Mas o velho vilão leva a melhor e foge com seu alvo como refém, o que leva a ASM 241, na qual Keating repreende o escalador de paredes pela falha, mas ele promete ser bem sucedido e sai em busca do vilão com um walkie-talkie do policial, encontrando Toomes e seu prisioneiro em uma floresta em Staten Island, gravando a conversa comprometedora dos dois (trazendo a origem do vilão) e o derrota.

No fim, Peter ainda consegue ótimas fotos que vão para a primeira página no Clarim, e ao ser abordado por Amy Powell, querendo sair e tomar um café, apesar de achar que não quer embarcar em outro romance (afinal, há a Gata Negra), aceita e os dois saem às vistas de Lance Bannon, que não gosta e resolver tomar uma atitude.

Então, em ASM 242, enquanto o Homem-Aranha precisa lidar com um androide remoto controlado pelo Pensador Louco (inimigo do Quarteto Fantástico), vemos um grande desenrolar da novela Bannon-Powell. Lance leva Peter para um bar onde fala sobre Amy: os dois têm um relacionamento aberto, mas ela pediu para engatarem um namoro sério, mas ele não tem coragem para isso. Peter lhe diz que precisa resolver as coisas e liga para a moça, que termina marcando um jantar com o rapaz. Chateado, Peter diz isso a Lance, pedindo que ele vá também e resolva as coisas. Na hora de sair, Peter atende à porta (pensando ser Lance para irem juntos), mas é Amy, que resolveu mudar os planos e fazer um piquenique no apê dele, mas logo o cobre de beijos, apesar de alguma resistência. Batem na porta de novo, mas novamente, não é Bannon, e sim, Mary Jane Watson, que usou sua velha chave para entrar e, ao ver Peter todo sujo de batom, pergunta se veio na hora errada.

A trama pessoal novamente é a mais importante em ASM 243, de agosto de 1983, na qual depois que MJ flagra Peter e Amy, Lance Bannon também aparece, e a louraça sai correndo, e Peter incentiva ao namorado ir atrás dela. (Mais tarde, os dois se acertam e decidem levar o namoro sério adiante). Peter e MJ conversam, ela quer devolver suas chaves, mas diz que vai ficar um tempo em Nova York. Em seguida, há uma longa sequência na qual Peter reflete sobre seus estudos e termina decidindo por abandonar a faculdade. É um momento de ruptura definitiva na vida de Peter, pois ele era um estudante desde o início de suas aventuras, mais de 20 anos antes!

O Duende Macabro retorna em ASM 244, quando contrata um bandido chamado Lefty (Esquerda) Donovan para roubar certos produtos químicos da fábrica da Osborn, ao mesmo tempo em que Harry e Liz levam MJ para sair e tentam convencê-la a dar uma chance para Peter, algo que ela recusa e sai chateada. Na Amazing 245 ficamos sabendo do plano do vilão: usar os produtos químicos para recriar o composto que deu superpoderes a Norman Osborn, mas como sabe pelos diários que o Duende Verde ficou louco, decide testar o procedimento em Donovan. E não apenas isso: num processo de hipnose faz Donovan pensar que ele mesmo é o Duende e, imbuído de seus novos poderes, ataca o Homem-Aranha, que pensa estar lutando contra o verdadeiro Macabro, até que o herói tira sua máscara – e ele sabe que Donovan estava preso no dia em que ele encontrou o Duende pela primeira vez – e percebe que é um embuste.

Mais ou menos ao mesmo tempo chegava às bancas Amazing Spider-Man Annual 17, no verão de 1983, trazendo uma boa história assinada por Roger Stern e Bill Mantlo e com arte de Ed Hannigan, na qual Peter vai a uma festa de reunião de ex-alunos da Midtown High School (que ele terminou lá atrás, em ASM 28, de 1965, mas que em termos de cronologia seria, mais ou menos, 6 anos antes) e termina se envolvendo em uma trama que envolve provas contra o Rei do Crime.

A edição 246 traz a divertida aventura na qual, através do Vigia (a entidade alienígena que é capaz de ver as múltiplas realidades), vemos os sonhos de Peter, MJ, Jameson e Gata Negra; e ASM 247 traz o Homem-Aranha procurando informações sobre o Duende Macabro com Nose Norton (que, como todo mundo, pensa que o vilão morreu) e um jantar de Peter com tia May e Anna Watson, no qual as duas velhinhas alcoviteiras tentam reuni-lo com Mary Jane; ficando a ação para o Massa (Thunderball), membro da Gangue da Demolição, cuja ação se estende ao número seguinte, numa batalha esganiçada bem ao estilo de Stern e Romita Jr. do herói contra um oponente não-usual e muito poderoso.

Um história secundária que se tornou uma favorita dos fãs.

Mas o grande atrativo de Amazing Spider-Man 248, de janeiro de 1984, não foi sua história principal, mas uma história secundária chamada O garoto que colecionava o Homem-Aranha. Escrita por Roger Stern e desenhada por Ron Frenz, a história singela foi imediatamente aclamada como uma das mais bonitas já contadas sobre o amigão da vizinhança. Na trama simples e tocante, Peter descobre pelo jornal que uma criança hospitalizada chamada Tim Harrison é o seu maior fã, e então, vai visitá-lo para bater um papo. Os dois conversam sobre o fardo de ser um herói e o cabeça de teia narra alguma de suas aventuras. No fim, o jovem pede para saber a identidade secreta dele, e após uma breve hesitação, Peter tira a máscara e pede que Tim guarde aquilo em segredo absoluto, o que o garoto se compromete sem pestanejar.

A história é narrada por meio de uma coluna de jornal escrita pelo repórter Jacob Connover – personagem que fora criado por Marv Wolfman e Bob Brown para uma história do Demolidor em Daredevil 131, de 1975 – por meio de uma narrativa tocante. No fim, ficamos sabendo que Tim está em um hospital que trata de câncer infantil e que só tem algumas semanas de vida. Um presente aos fãs, a historinha é presença obrigatória em qualquer lista das melhores histórias aracnídeas, inclusive, no ranking do HQRock (não viu? Clique aqui!).

É importante anotar que, no mesmo mês, Peter Parker: the Spectacular Spider-Man 85, por Bill Mantlo e Roger Stern, com arte de Al Migrom, trouxe o primeiro confronto entre o Homem-Aranha e o Duende Macabro com seus novos poderes (super-força e resistência), deixando-o igual no mano a mano com o herói. Isso porque Amazing Spider-Man 249 traz o início do terceiro arco de histórias do Duende Macabro por Stern e Romita Jr. De todas as aparições do vilão, esta seria a mais espetacular! E trouxe de brinde uma capa por John Byrne.

Arte de John Byrne.

Na trama de Revelações, Peter vai à festinha de inauguração da nova casa de Harry e Liz Osborn, em Nova Jersey, o que seria a oportunidade de conhecer algumas novas garotas. Mas no fim, Mary Jane também é convidada e os dois tem um bom papo como amigos, mostrando que há um carinho especial entre os dois. Contudo, a festa termina estragada quando Harry recebe um pacote dos correios com informações que provam que seu pai, Norman Osborn, foi o Duende Verde. A história mostra que Harry havia esquecido completamente essa informação, então, é tomado de um grande choque. A trama dá a entender que Harry também esqueceu que foi ou pensou ser o Duende, ecos do final não resolvido do passado.

Um momento de carinho e amizade entre Peter e MJ, por Stern e Romita Jr.

Harry se isola para pensar sobre a descoberta – vinda por meio de cópias dos diários de Osborn – e Peter vai conversar com ele. Harry lhe conta tudo, Peter finge surpresa e se compromete a acompanhar o amigo na demanda do chantageador: ir a um encontro em um local público, o clube de ricaços Country Club, em Nova York (uma instituição que aparecia nas velhas histórias de Lee e Ditko). A dupla vai ao local na data marcada e, para surpresa de ambos, descobrem que vários outros “figurões” também estão sendo chantageados, incluindo J. Jonah Jameson (por ter financiado a experiência que resultou na criação do Escorpião), Roderick Kingsley e George Vandergill e outros não nomeados. O Rei do Crime também está presente, mas é apenas uma coincidência, e ele não está na lista. Os “convidados” entram numa sala de conferências e Peter não é aceito, por não estar na lista, mas troca de roupa e fica vigiando pelos dutos de ventilação. Os chantageados ficam sentados, olhando um para os outros e cada um pensando que o outro é o responsável ou que Harry é o responsável, porque descobrimos que todos tinham conexões com Norman Osborn (as informações comprometedoras vêm dos diários dele, não é?).

Então, as cortinas abrem e o chantageador é revelado como o Duende Macabro, que exige parte das fortunas deles como garantia para a não exposição das provas, e uma grande confusão tem início, o que leva à intervenção do Homem-Aranha. Ele e o Duende saem em batalha pelas dependências do clube e o Rei observa atentamente o evento. Com seus poderes, Macabro está em vantagem, ainda mais porque (usado as informações dos diários de Osborn) é capaz de recriar a bomba de gás que anula o sentido de aranha do herói – como o Duende Verde tinha feito em ASM 39, de 1966 – e, sem esse auxílio para se desviar das bombas e rajadas do vilão, o escalador de paredes termina derrotado, desmaiado no chão. Quando o vilão dispara uma rajada mortal, ela é impedida por uma bandeja, lançada por Wilson Fisk.

Os primeiros arcos do Duende Macabro, por Stern e Romita Jr. marcaram os leitores da época.

O Duende, claro, sabe quem ele é e se dá por satisfeito, indo embora. Na comemorativa Amazing Spider-Man 250, de março de 1984, o Aranha desperta e Fisk lhe informa que lhe ajudou colocando o rastreador-aranha que deixara cair no Duende Macabro e vai embora.

O herói foge e volta com as roupas civis de Peter Parker para reencontrar Harry, e depois, vai atrás dos chantageados para conseguir pistas sobre o Duende, mas nem Kingsley nem Vandergill estão dispostos a falar. Jameson está escrevendo um editorial na qual confessa que criou o Escorpião – algo que aparentemente o Homem-Aranha não sabia até então – mas o herói tenta demovê-lo de divulgar, já que irá pegar o chantageador.

Aranha versus Macabro por Stern e Romita Jr.

Sem seu sentido de aranha, Peter resgata o velho codificador de sinal que usava no início de sua carreira – pois demorou algum tempo para ele descobrir que podia sintonizar o sinal do rastreador com seu sentido especial – e consegue localizar o esconderijo do Duende, e os dois têm uma grande batalha, na qual o Macabro termina acidentalmente incendiando os diários de Osborn. A edição termina com uma grande explosão.

ASM 251 (com trama de Roger Stern, roteiro de Tom DeFalco e arte de Ron Frenz) mostra que ambos sobreviveram, ainda que feridos, e o Duende escapa em seu furgão blindado. O Aranha vai atrás dele numa frenética perseguição pela baixa Manhattan até que o caminhão cai no Rio Hudson e a batalha prossegue lá dentro, com o veículo afundando e a água entrando. Outra explosão termina destroçando o veículo e o herói procura pelo corpo de seu inimigo, mas não o acha, vendo apenas sua máscara rasgada flutuando na água escura. Em seguida, o cabeça de teia corre ao Clarim, onde descobre que Jameson publicou seu mea-culpa na primeira página do jornal e se demitiu do cargo de editor-chefe, repassando-o para Joe Robertson e ficando apenas como publisher. No dia seguinte, Peter se encontra com Harry e lhe conta o destino do Duende Macabro e o fim da chantagem, mas algo grandioso desperta seu sentido de aranha e ele corre para a fonte no Central Park.

Infelizmente, a edição 251 é o fim da fase de Roger Stern à frente do Homem-Aranha, encerrando uma das melhores fases que o personagem teve e um momento que devolveu a grandeza, a importância e a qualidade do personagem após o período vacilante da passagem da década de 1970 para 80.

O Fim da Segunda Temporada de Bill Mantlo

Mais ou menos ao mesmo tempo da seção anterior, Spectacular 83 traz o bombástico julgamento do Justiceiro, ao qual Peter Parker acompanha como fotógrafo e ver o vigilante tão desequilibrado o deixa pesaroso, pensando que esse pode ser o seu fim também, mas o principal é o início do arco final de histórias de Mantlo, focado na busca de um poder pela Gata Negra e no passo adiante de sua relação com o Homem-Aranha. Aqui, o Aranha quer que ela deixe de agir como um vigilante uniformizada quando descobre que ela não possui os poderes de azar que pensava.

Num polêmico retcon, Bill Mantlo estabelece nessa aventura que todas aquelas situações de azar que dificultaram a vida do Homem-Aranha contra a Gata Negra em suas primeiras aparições eram, na verdade, embustes fabricados por Felicia Hardy em antecipação às batalhas, enfraquecendo pisos ou paredes, por exemplo. Isso deixa Peter chocado e, ao perceber que Felicia não tem nenhum poder, acha que ela não deve mais combater ao crime ao seu lado. A edição 83 também traz uma menção ao encontro do Homem-Aranha com Esquerda Donovan, o homem manipulado pelo Duende Macabro.

A edição 84 é mais uma daquelas bem pé no chão, com o Homem-Aranha lidando com criminosos comuns e um sequestro de uma criança; e o número 85 traz a bombástica história na qual o Duende Macabro migra (pela primeira e única vez) de Amazing para Spectacular e tem um confronto com o Homem-Aranha e a Gata Negra. Por causa disso, a edição é coescrita entre Mantlo e Roger Stern e tem a arte de Al Migrom.

É uma ocasião importante, porque Amazing 244 havia mostrado que o vilão usara Donovan para testar o procedimento que podia lhe conferir super-poderes (os mesmos do Duende Verde), mas SSM 85 é onde vemos o misterioso vilão testar o procedimento em si. E não somente isso, é a primeira vez em que o Macabro luta contra o Homem-Aranha já tendo os seus poderes. Em Amazing isso ficou “fora de quadro”. Na trama de Peter Parker, o herói e Felicia discutem sobre ela deixar a vida uniformizada, até que o Duende os encontra e os combate. Mas a desarticulação entre os dois heróis termina atrapalhando e o novo empoderado Macabro vence facilmente a luta, indo embora.

É uma experiência humilhante para a dupla de heróis e convence Felicia de que ela precisa de poderes para si mesma. A edição ainda traz um encontro de amigos entre Peter, Flash Thompson, Harry Osborn e Lizz Allan, em que este casal revela que estão grávidos! No evento, Peter reencontra Mary Jane Watson e, obviamente, os dois conversam sobre ele ter pedido ela em casamento. Mas dessa vez, MJ até diz um “quem sabe um dia…”, deixando alguma esperança em Peter, mas ao mesmo tempo, fazendo-o perceber que já está envolvido com Felicia.

Após uma edição cômica em SSM 86, a edição 87 traz Peter considerando que a Gata Negra é a primeira mulher que lhe ama como Homem-Aranha e, decidido a investir na relação de ambos, Peter a leva ao seu apartamento e revela sua identidade secreta para ela. Mas a revelação tem o efeito contrário do esperado: Felicia se choca que Peter seja um pobretão (ela imaginava o Aranha cheio da grana) e fica desapontada com o caráter comum da vida dele. As edições seguintes mostrarão Felicia evitando ver o namorado sem máscara.

A edição 88 mostra a dupla enfrentando o Mr. Hyde e, de novo, a Gata Negra se dá mal, ficando bastante machucada e sendo a gota d’água para que vá em busca de um poder para si. Peter Parker: the Spectacular Spider-Man 89, de abril de 1984, traz o fim da segunda temporada de Bill Mantlo, com a Gata Negra indo atrás dos Vingadores e do Quarteto Fantástico em busca de alguém que lhe confira super-poderes, mas ninguém aceita, em vista do altíssimo risco, até que ela encontra um misterioso cientista que topa a empreitada e a submete a um procedimento bem-sucedido. No fim, o cientista se revela como sendo o Rei do Crime que lhe diz que, um dia, lhe cobrará um favor em troca disso, apenas. Felicia apenas pede que não seja nada contra o Homem-Aranha e Fisk concorda.

A edição 89 termina com a mesma cena mostrada em Amazing Spider-Man 251, na qual o Homem-Aranha vê uma enorme estrutura metálica se materializar no Central Park e ao chegar perto, desaparecer dentro dela, sendo o gancho para Guerra Secreta.

Bill Mantlo até voltaria a escrever duas edições avulsas de Spectacular (os números 104 e 120), mas findava aqui a contribuição real daquele que fora o maior criador da revista secundária do amigão da vizinhança. O escritor produziu a famosa minissérie Vision and Scarlet Witch, em 1982 e 83; lançaria a revista Cloak & Dagger, com as aventuras sombrias e violentas de Manto e Adaga, que teria 11 edições entre 1984 e 85; depois, migraria do Hulk para a revista da Tropa Alfa, onde ficaria de 1985 até 1989. Mas depois que saiu de Spectacular, Mantlo ingressou na faculdade de Direito e, após se formar, a profissão de roteirista de quadrinhos virou apenas um hobby. Infelizmente, em 1992, Mantlo foi atropelado e sofreu uma grave lesão cerebral, o que o deixou com uma mente de uma criança, desde então.

Imposições Editoriais: o uniforme negro

Arte para a Guerras Secretas original, de 1984.

Infelizmente para os leitores, tanto a fase áurea de Stern e Romita Jr. quanto a temporada de Mantlo tiveram um fim abrupto, causado por discordâncias editoriais. Na época, o Editor-Chefe Jim Shooter estava escrevendo a saga Guerras Secretas, com desenhos de Mike Zeck. A maxisserie em 12 capítulos publicada entre 1983 e 1984, reunia todos os principais personagens da Marvel em uma grande batalha, reunidos por uma entidade poderosíssima chamada Beyonder que colocava heróis e vilões para lutarem entre si em um planeta distante sem nenhum propósito claro, apenas a promessa de ter “seus sonhos realizados”.

O propósito maior da maxissérie era bem mundano: uma linha de bonecos que as revistas serviriam para promover. A trama era apenas um fiapo de história e uma desculpa para quebra-paus homéricos entre alguns dos mais famosos heróis e vilões da editora, ainda que Shooter (justiça seja feita, ele era um bom escritor) tenha criado novas e interessantes relações pessoais entre os personagens antigos; criado novos – como a segunda Mulher-Aranha (com um uniforme preto chamativo) e a vilã Titânia – e, perto do fim, criado uma virada interessante com um “golpe” genialmente aplicado pelo Doutor Destino no Beyonder. Para muitos que trabalharam na Marvel nos anos 1980, Guerras Secretas foi um ponto de virada. Virada para o pior, pois a longa trama de Shooter impactava diretamente todas as revistas da editora e obrigava aos escritores a terem que ajustar seus roteiros e planejamentos às vontades do editor-chefe escritor.

No caso do Homem-Aranha, a edição 08 da maxissérie mostrava que o herói teve seu uniforme destruído em uma das batalhas e o substituiu por outro mais especial que o vestia apenas com o comando mental, constituindo, ainda, um modelo diferente, quase todo preto, inspirado no uniforme da 2ª Mulher-Aranha. O uniforme negro, como ficou conhecido, foi tudo o que o Aranha herdou da saga.

A criação do uniforme negro teve uma história curiosa: em 1982, Jim Shooter promoveu um concurso de ideias entre os leitores da Marvel, para que escrevessem ideias de plots para as revistas e Randy Schueller escreveu a proposta de um novo uniforme para o Homem-Aranha, no estilo stealth, preto e que ampliasse seus poderes, desenvolvendo uma trama que não seria utilizada. Mas Shooter pagou 220 dólares ao rapaz e, dois anos depois, decidiu usar a ideia. Mike Zeck criou o design e, claro, depois criou uma variação para a nova Mulher-Aranha.

Capa de “Amazing Spider-Man 252” traz o novo uniforme do Aranha, por Tom DeFalco e Ron Frenz.

O encaixe cronológi