O Duende Verde numa pintura moderna de Alex Ross.

Esta é a segunda parte da trajetória do Homem-Aranha nos quadrinhos. Se você não leu a primeira parte, leia aqui.

Esta Parte 02 traz a fase clímax nos anos 1970, a crise na virada para os 1980, uma nova fase de sucesso e os graves problemas editoriais do fim daquela década.

Novos tempos, novo escritor, nova revista

Estamos em 1972. Stan Lee, o principal criador do Universo Marvel, escreveu as histórias do “cabeça de teia” por dez anos quase ininterruptos, mas agora, foi promovido a Publisher da Marvel Comics, o cargo mais alto da editora. Seu posto de Editor-Chefe é ocupado, então, por Roy Thomas, que vinha assumindo várias revistas no lugar do The Man. Com isso, Lee e Thomas treinam um substituto para assumir a revista The Amazing Spider-Man. O sortudo é um rapaz de apenas 19 anos: Gerry Conway. Na mesma época, ele escreveria, também, a outra revista de maior sucesso da editora: Fantastic Four, a casa do Quarteto Fantástico.

“Marvel Team Up”: uma nova revista para o Homem-Aranha ter encontros especiais.

Mas antes de falarmos das histórias de Conway, é preciso saber que – enquanto Stan Lee comandava sua última temporada à frente de Amazing Spider-Man (junto ao desenhista John Romita) – a Marvel decidiu ampliar o universo do “amigão da vizinhança”. Stan Lee providenciava para que o Homem-Aranha se tornasse o primeiro personagem da Marvel a possuir duas revistas mensais. Tal prática era comum na concorrente DC Comics, em que personagens como Batman e Superman tinham várias revistas mensais com focos distintos. Lee tentou transpor um pouco disso para a Marvel.

A inspiração direta foi a revista The Brave and the Bold, que mensalmente trazia uma aventura de Batman junto com algum convidado especial. Lee transferiu o mesmo conceito para o Aranha. Então, em março de 1972, chegava às bancas a revista Marvel Team-Up (algo como Equipe Marvel), que, apesar do título, trazia sempre o Homem-Aranha em parceria a convidados diversos do universo da editora, como Hulk, Quarteto Fantástico, X-Men, Vingadores etc. As equipes de criadores também eram sazonais, sendo cada arco de histórias (geralmente duas ou três edições) entregues a artistas diferentes, primeiramente “consagrados”, mas depois, passou a servir, também, como laboratório para novos artistas trabalharem com o aracnídeo ou com outros personagens.

Norman Osborn culpa Peter Parker pela situação de Harry: auge da parceria entre Gil Kane e John Romita.

As histórias, geralmente, se passavam à margem da cronologia do personagem, e traziam tanto personagens famosos quanto outros de pouca expressão. A estréia se deu em um encontro do Homem-Aranha com o Tocha Humana (que se tornaria um habitual frequentador), escrito por Archie Goodwin (roteirista que ganhava espaço na editora) e desenhada por Ross Andru, artista vindo da DC (das histórias da Mulher-Maravilha e do Superman) que teria longa passagem pelos títulos do Aranha num futuro breve.

Enquanto isso, em Amazing Spider-Man 111, de 1972,  se dava a estreia de Gerry Conway, com orientação direta de John Romita (inclusive nos roteiros), escrevendo verdadeiros clássicos, ao mostrar o Dr. Octopus e o (novo vilão) Cabeça de Martelo travando uma guerra de gangues. Depois de seis edições, Romita passou a fazer somente a arte-final para Gil Kane, que voltava ao título. O trio Conway, Kane e Romita produziu um dos melhores embates do Homem-Aranha contra o Hulk e em seguida, a mais bombástica história que o personagem tivera até ali.

A dramática cena da morte de Gwen Stacy, por Conway, Kane e Romita…

A Morte de Gwen Stacy

Conway, Kane e Romita criaram uma história em duas partes, publicadas em Amazing Spider-Man 121 e 122, em 1973, que abalou as estruturas cronológicas do personagem, mudou o mercado de quadrinhos, enfureceu e entristeceu os fãs, tudo na mesma medida.

… produziu um dos momentos mais marcantes dos quadrinhos.

Na história, Peter descobre que Harry Osborn está muito doente, devido a uma overdose de LSD. Seu pai, Norman Osborn, passa a culpar Parker pelo estado do filho, achando que é ele quem fornece as substâncias a Harry. O estresse dos negócios e a situação de Harry levam Norman a se lembrar que é o Duende Verde, saindo atrás de Peter e seqüestrando a namorada dele, Gwen Stacy.

No confronto em que tenta reaver a namorada, o Homem-Aranha vê o Duende simplesmente lançá-la de cima da Ponte do Brooklyn. O herói ainda alcança Gwen com sua teia, mas ela quebra o pescoço com a parada brusca. O aracnídeo (e os leitores) ficam em choque! Foi uma morte surpresa, sem anúncios prévios, como é comum. Por isso, o título só aparece na última página: A noite em que Gwen Stacy morreu. Na edição seguinte, o Homem-Aranha sai enfurecido atrás do Duende Verde, encontra um dos esconderijos do vilão e os dois têm uma batalha feroz. Mas no fim, o Norman Osborn termina morrendo vítima de sua própria armadilha: empalado por seu jato contra a parede.

O leitor já percebeu que essa cena foi adaptada de maneira até fiel no primeiro filme Homem-Aranha de Sam Raimi, embora sem a morte da garota (e com a troca por Mary Jane).

Segundo alguns historiadores, a ideia original da morte de Gwen Stacy foi de John Romita, que a sugeriu em uma reunião de pauta com Conway e Stan Lee para o planejamento da revista do Aranha para o ano de 1973. A princípio, Lee não gostou por uma questão de logística: já haviam matado o pai dela há pouco tempo. Porém, o Publisher foi convencido ao perceber que a morte de Gwen abriria o caminho para desenvolver um romance entre Peter e Mary Jane Watson, já que esta era uma personagem mais forte e interessante. Além disso, a relação entre Peter e Gwen estava estacionada e só tinha duas saídas: o término ou o casamento. Ninguém queria casar o Homem-Aranha e terminar o namoro já tinha sido feito antes.

O feroz conflito com o Duende Verde…

Nunca a namorada de um protagonista havia morrido em uma história em quadrinhos, muito menos de forma tão brutal. Não foram poucos os que pediram que a editora a trouxesse de volta. O impacto da história foi tão forte que esta edição é a mais citada como a passagem definitiva da Era de Prata dos quadrinhos para a Era Bronze. Na primeira, surgiram a nova geração dos heróis da DC (novas versões de Flash e Lanterna Verde, além das reformulações de Superman, Batman e Mulher-Maravilha) e apareceram, também, os heróis da Marvel. A Era de Bronze é marcada por uma seriedade maior das histórias, com conteúdo mais adulto. Duraria até mais ou menos os meados dos anos 1980.

… termina com o vilão sendo vítima de sua própria armadilha…

Infelizmente, a edição seguinte, Amazing Spider-Man 123 foi a última que trouxe a dupla imbatível John Romita e Gil Kane nos desenhos, num embate do Homem-Aranha com Luke Cage, novo personagem da Marvel feito na onda do Blaxploitation , ou seja, da emergência da cultura negra nos Estados Unidos, a partir de filmes como Schaft, séries de TV e da música. Era uma forma de apresentar o novo herói para um público maior, técnica que se tornaria constante nas histórias do aracnídeo. Luke Cage fora criado pouco antes por Archie Goodwin e John Romita e foi o primeiro afrodescendente a ter uma revista própria nos quadrinhos.

… e morrendo empalado. Clássico dos quadrinhos por Conway, Kane e Romita.

A partir de então, John Romita se despedia das histórias do aracnídeo para se dedicar “somente” ao cargo de Diretor de Arte da Marvel, que ocupou até se aposentar no final dos anos 1980. Com isso, teve um papel de enorme importância no desenvolvimento da Marvel e na criação de inúmeros personagens e sagas. Um único exemplo: em 1974, o escritor Len Wein queria um novo opositor para o Hulk; Romita desenhou um baixinho de uniforme amarelo, que deveria ser o primeiro super-herói canadense (país em que as revistas Marvel faziam enorme sucesso), enquanto Wein o batizou de um nome impactante – Wolverine.

A capa de “Amazing Spider-Man 129” traz a primeira aparição do Justiceiro. O vilão Chacal também faz sua estreia.

Romita deixou de desenhar as histórias, entretanto, continuaria a fazer a maioria das capas de Amazing até o início dos anos 1980. Com a saída de Romita, Conway procurou um artista que mantivesse mais ou menos o mesmo padrão de traço dele e de Gil Kane e encontrou a figura em Ross Andru, que já havia sido testado em Marvel Team-Up e também desenhara os Defensores e o Quarteto Fantástico.

A parceria de Conway com Andru estreou em Amazing Spider-Man 125, numa trama onde o filho de J.J. Jameson, o astronauta John Jameson, transforma-se no Homem-Lobo. A dupla também amarrou as conseqüências da morte de Gwen e Norman: Peter e Mary Jane iam se aproximando lentamente; Harry se tornou amargurado e distante e deixou de falar com Peter. Logo, traria muitos problemas.

Enquanto isso, surgia o antiherói Justiceiro em Amazing Spider-Man 129, de fevereiro de 1974, juntamente com o vilão Chacal, que seria o mais importante dessa fase do Aranha. Era um homem misterioso, vestido em uma fantasia imitando o animal que lhe dava nome e tramando uma vingança contra o cabeça de teia por motivos ignorados. O Justiceiro, por sua vez, tivera seu visual criado por John Romita e voltaria a aparecer muitas vezes na revista, até ganhar suas próprias aventuras nos anos 1980. (E três filmes para o cinema, depois disso).

Um Harry Osborn paranóico e drogado se transforma no novo Duende Verde. Arte de Ross Andru.

As histórias de Conway e Andru continuariam mantendo a qualidade de suas predecessoras, com o quase casamento entre o Dr. Octopus e a Tia May e alguns tons de comédia, como o arco sobre o aranhamóvel, um carro maluco para o Homem-Aranha produzido com a ajuda do Tocha Humana. No quesito drama, surgiram novos vilões como o Tarântula em Amazing Spider-Man 135.

Contudo, a mais impactante história dessa fase foi àquela em que Harry Osborn se tornou o segundo Duende Verde. Fica revelado que foi Harry quem tirou o uniforme do corpo do pai para que a polícia não visse e, portanto, sabia que Peter era o Aranha. O trauma da morte do pai, juntamente com as drogas que estava tomando, fizeram com que enlouquecesse e assumisse a identidade criminosa do pai.

Harry investiu pesado contra Peter, explodindo o apartamento em que moravam e quase o matando junto a Mary Jane. Em seguida ao primeiro confronto dos dois ex-amigos, o novo Duende seqüestrou Mary Jane, Flash Thompson e May Parker, ameaçando matá-los com uma bomba. Porém, Harry não possuía os superpoderes do pai e nem a sua habilidade e astúcia, sendo facilmente derrotado pelo ex-amigo. No final da batalha, Harry é preso e acusa Peter publicamente de ser o Homem-Aranha. No entanto, nada acontece por conta do estado mental de Harry, que passa a ser tratado em uma clínica psiquiátrica.

A Primeira Saga do Clone

O clone de Gwen Stacy aparece entre Peter e Mary Jane. Ned Leeds à esquerda. Texto de Conway, arte de Andru. 

Na passagem de 1974 para 1975, Gerry Conway estava atolado em cartas de leitores que pediam a volta de Gwen Stacy. Mas ela estava morta e não ia mudar isso. (Ressuscitar dos mortos ainda não era uma prática comum nos quadrinhos, como é hoje). No entanto, o escritor teve uma ideia para satisfazer os leitores, pelo menos temporariamente: fazer um clone dela.

Inicia-se, assim, a primeira Saga do Clone. Na trama mostrada em Amazing Spider-Man 147 a 149, Peter encontra Gwen viva em seu apartamento, enquanto todos (Tia May, Anna Watson…)  ficam atordoados com o fato. Isso no exato momento em que Peter e Mary Jane resolvem assumir seu romance. (A história dizia que fazia dois anos que a moça tinha morrido). Em seguida, o repórter Ned Leeds (namorado de Betty Brant) descobre que trata-se de um clone da Gwen original e o Homem-Aranha descobre que o Chacal é o responsável. E o pior, que sabe de sua identidade secreta!

No confronto final, o Chacal se revela o professor Miles Warren (personagem de Lee e Ditko que aparecia na revista desde que Peter entrou na faculdade) e que também fez um clone de Peter Parker. O professor havia clonado Gwen Stacy porque era apaixonado por ela. Peter e Gwen tinham dado amostras de sangue numa das aulas de Warren e o cientista as usou. Totalmente paranóico após a morte da moça, Warren passou a culpar Peter pelo caso e a persegui-lo, terminando por descobrir que o rapaz era o Homem-Aranha.

O Chacal revela ser Miles Warren. Note o Tarânturla à esquerda. Texto de Conway e arte de Andru.

O vilão, então, coloca dois homens-aranha para brigar na arena de um estádio: um é o verdadeiro e o outro um clone. Mas ambos tem as mesmas memórias e não sabem quem é quem. Enquanto isso, o Chacal prendeu Ned Leeds em uma bomba. Mesmo sem um acordo, os dois Homem-Aranha tentam salvá-lo, mas na última hora, Miles Warren retoma a consciência, se arrepende e tenta salvar Leeds. A explosão ocorre: Leeds é salvo, mas a explosão vitima tanto o Chacal quanto um dos Peter Parker. O clone de Gwen Stacy vai embora sem dizer para onde, o Homem-Aranha joga seu igual falecido em uma chaminé industrial, Peter tenta construir seu relacionamento com Mary Jane e fica com um dilema: ele é o verdadeiro e o clone morreu? Ou ele é o clone e o original morreu? Esta história termina a primeira temporada de Gerry Conway com o Homem-Aranha.

A história que soluciona a questão é a comemorativa Amazing Spider-Man 150, de novembro de 1975, especialmente escrita por Archie Goodwin e desenhada por Gil Kane. Na trama, o Homem-Aranha pede para o Dr. Curt Connors (o Lagarto) fazer exames que comprovem a verdade, mas quando Connors revela que um clone envelhece mais rápido e não tem as emoções bem desenvolvidas, mesmo sem ler o resultado, Peter pensa que um clone não poderia sentir o amor que sentia por Mary Jane e chega a conclusão: ele é o verdadeiro Homem-Aranha.

Homem-Aranha versus Superman

A clássica edição de “Superman vs. Spider-Man”, de 1976.

Len Wein foi um dos mais importantes escritores da história dos quadrinhos. Chamou a atenção primeiramente na DC Comics, trabalhando em histórias da Supergirl, Zatanna e, depois, com Superman, Liga da Justiça e criou o Monstro do Pântano em 1971. Terminou por ir para a Marvel, onde contribuiu com Hulk, criou Wolverine e os Novos X-Men (mais Tempestade, Colossus, Noturno e outros) e terminou por suceder Roy Thomas como Editor-Chefe da Marvel, em 1974. Ficou apenas um ano no cargo e o motivo de sua saída foi o mesmo de Thomas: o desgosto pelos aspectos burocráticos e a vontade de voltar a escrever, passando a função para Marv Wolfman.

Assim, em 1975, Len Wein assumiria as histórias do Homem-Aranha. Mas antes, o grande feito de sua época como Editor-Chefe foi o palenjamento do primeiro encontro entre os personagens das editoras Marvel e DC em uma mesma história, articulada durante anos de negociações pelos Publishers de ambas editoras e pelos editores-chefe, Wein e Carmine Infantino. Tudo acertado, ficou decidido que o primeiro encontro se daria entre o Homem-Aranha e o Superman, os dois mais populares de cada casa. A equipe criativa escolhida foi Gerry Conway e Ross Andru por um motivo simples: os dois artistas tinham trabalhado com cada um dos personagens em suas revistas principais. Ainda assim, dizem os historiadores, que Neal Adams deu pequenos retoques nas artes do Superman, enquanto John Romita o fez no Homem-Aranha. A interferência editorial fez a história demorar a ser lançada, só o fazendo em 1976. Mas ainda assim, a edição especial Superman vs. Spider-Man, fez grande sucesso e é um marco na história dos quadrinhos, numa trama que, além dos dois heróis, traz Mary Jane, Lois Lane, J.J. Jameson, Morgan Edge e os vilões Dr. Octopus e Lex Luthor. No futuro, outros encontros entre Marvel e DC ocorreriam.

Temática Social e Minorias em pauta

A capa de “Amazing Spider-Man 151” ainda é de John Romita, mas por dentro traz a estreia de Len Wein como escritor e Ross Andru continua nos desenhos.

Em Amazing Spider-Man 151, de 1975, iniciava-se a temporada de Len Wein à frente do Homem-Aranha, enquanto Ross Andru permanecia nos desenhos. Embora tenha se esforçado para manter o pique das excelentes histórias de Gerry Conway, Wein não acertou a mão. Afinal, depois do apogeu (a fase final de Stan Lee e as histórias de Conway), o único caminho restante é a queda, não é mesmo? Embora o sucesso de vendas permanecesse, de fato, há bem poucos elementos marcantes – inclusive em termos de cronologia – da fase de Wein na revista.

Len Wein reciclou algumas das ideias de Gerry Conway, como a rivalidade entre o Dr. octopus e o Cabeça de Martelo. A capa de “Amazing Spider-Man 157” é de John romita.

Entre estes,  a lenta volta de Harry Osborn como personagem coadjuvante (ele estava em tratamento psiquiátrico em uma clínica e não se lembrava de seu passado criminoso), o envolvimento dele com Lizz Allen (velha personagem de Lee e Ditko que havia sido esquecida), que culminaria em um casamento mais tarde; e o casamento de Betty Brant e Ned Leeds. Confrontos com o Rei do Crime e Dr. Octopus, participações especiais dos X-Men (Wolverine e Noturno, ambos criados pelo próprio Wein) e do Justiceiro também não foram “grandes momentos”. Alguns novos vilões surgiram, entre eles, Retalho, numa história com o Justiceiro, que se tornaria o principal inimigo deste no futuro e o oponente do filme Justiceiro – Zona de Guerra, de 2007.

A capa de “Peter Parker: The Spectacular Spider-Man 01”, de 1976, já mostra ao que veio: minorias e vida estudantil em pauta.

Enquanto isso, a Marvel – agora comandada por Marv Wolfman como Editor-Chefe – decidiu aproveitar a expansão de seu próprio mercado e dar uma terceira revista mensal para o amigão da vizinhança.  O nome da revista era Peter Parker: The Spectacular Spider-Man, lançada em dezembro de 1976, e trazendo histórias que tinham pouco peso cronológico e eram escritas pela dupla Gerry Conway (de volta) e Sal Buscema, desenhista que vinha de inúmeros trabalhos na Marvel, como os Vingadores. Assim, ao contrário de Marvel Team-Up, a nova revista se ligava diretamente a Amazing, embora as aventuras de uma nunca atravessassem para a outra – mas faziam referência entre si. Note-se, ainda, que a revista mantinha o mesmo título da tentativa frustrada de 1968, somente com o acréscimo do alterego.

Além disso, é curioso que Sal Buscema não possuía um estilo na linha de Romita, Kane ou Andru, pois seu traço estilizado de linhas quadradas era único, o que confere uma alternativa ao visual do Aranha. Em Spectacular, Conway e Buscema concentraram foco na vida estudantil de Peter e a convivência com minorias étnicas, com negros, latinos e asiáticos, dando espaço para personagens como o Tigre Branco (Hector Ayala, um latino criado por Roy Thomas e George Pérez nas revistas de kung fu da Marvel), Sha Shan (a namorada vietnamita de Flash Thompson), Glory Grant (a bela vizinha afrodescendente de Peter) e inimigos como Tarântula e Morbius.

A arte de Sal Buscema para o Homem-Aranha em um confronto com Morbius.

Com isso, apesar de Spectacular não ser a principal revista do Homem-Aranha, era um marco importante por seu conteúdo social. Além de expor a vida difícil das minorias sociais e o preconceito que sofriam, as tramas abordavam a vida estudantil e temas importantes como as verbas para a universidade e a política de cotas para as minorias. (Lembrem-se, foi a política de cotas que permitiu que o atual presidente Barack Obama estudasse em um universidade).

Depois das primeiras histórias, Sal Buscema continuou nos desenhos, mas os roteiros se alternaram com Archie Goodwin e Bill Mantlo nos números 8-9 e 10, respectivamente, enquanto a dupla Chris Claremont e Jim Mooney cuidou da edição 11. Bill Mantlo era um dos criadores mais populares da Marvel dos anos 1970 e 80, trabalhando com Hulk, Rom e muitos outros, além do próprio Homem-Aranha. Chris Claremont vinha de histórias menores como Miss Marvel e Punho de Ferro, mas na época já fazia fama nas histórias dos Novos X-Men. Por fim, Jim Mooney era velho conhecido: “discípulo” de John Romita (vide similaridade do traço de ambos) tinha trabalhado durante anos como assistente do mestre e como arte-finalista.

O terceiro Duende Verde (Bart Hamilton) na arte de Ross Andru.

Uma personagem com alguma relevância que apareceu nessa período foi a capitã Jean DeWolff, do Departamento de Polícia de Nova York e que vem aliviar um pouco a relação tensa que o escalador de paredes tem com a polícia. Entre a oficial e o Homem-Aranha nasce uma amizade que teria efeitos benéficos para o vigilante. Ela surgira nas mãos de Bill Mantlo e Sal Buscema em Marvel Team-Up 48, de 1976, mas foi mais frequente entre 1977 e 1978, principalmente naquela revista, embora também tenha aparecido em Amazing e Spectacular.

Enquanto isso, em Amazing Spider-Man,  o maior destaque da passagem de Lein Wein pela revista foi o arco das edições 176 a 180, de 1978, onde há a única aparição do terceiro Duende Verde, o psiquiatra Bart Hamilton, que tratou de Harry Osborn, descobriu todos os segredos e resolveu usá-los em seu benefício, morrendo em combate.

Declínio

Apesar do sucesso, o final dos anos 1970 não foi muito generoso para o Homem-Aranha. Embora tenha continuado a vender bem, o escalador de paredes perdeu destaque dentro da própria Marvel para outras revistas, dentre as quais, os X-Men de Chris Claremont e John Byrne – que não coincidentemente, também produziram uma série de histórias para Marvel Team-Up.

O clima de insatisfação deve ter contribuído para a saída de Len Wein da revista Amazing Spider-Man, em 1978, que resultou, também, em sua saída da própria Marvel. Wein voltou à DC, onde foi escrever o Batman e terminaria tendo destaque como editor. O então ex-Editor-Chefe da Marvel, Marv Wolfman, assumiu os roteiros de Amazing a partir da edição 182, em julho de 1978. Ross Andru continuava como desenhista. O primeiro destaque do novo escritor foi a edição 185, que mostrava Peter Parker finalmente se formando na faculdade. Num caso típico do personagem, o rapaz falta à própria graduação por causa das ações do Homem-Aranha.

A criação da Gata Negra foi a principal contribuição de Marv Wolfman ao Homem-Aranha. Aqui, a capa de “Amazing Spider-Man 194”, de 1978, por Keith Polland.

Wolfman é outro dos grandes roteiristas das histórias em quadrinhos, mas assim como Wein, não conseguiu acertar a mão no Homem-Aranha. Começara a carreira na Marvel, inclusive criando o personagem Blade, o caçador de vampiros (que décadas depois se transformaria em uma série de cinema de sucesso), contudo, seu grande desempenho se daria mesmo na DC nos anos 1980, fazendo um sucesso estrondoso com os Novos Titãs, escrevendo a Crise nas Infinitas Terras e histórias do Batman.

Em 1979, Ross Andru encerrava sua longa temporada em Amazing, onde contabilizou mais de 60 edições. Foi substituído por Keith Pollard. Refltindo as mudanças de desenhistas, Wolfman criava um “novo universo” para Peter Parker, fotografando para o Globo Diário e entrando na Pós-Graduação da Universidade Empire State, onde conheceu e, depois, namoraria a inócua Debby Whitman. Wolfman tentava dar novos “ares” ao cabeça de teia: o envolveu com novos amigos; pediu Mary Jane em casamento (Amazing Spider-Man 182) e ela recusou. Também criou um tipo de “triângulo amoroso” entre Peter, MJ e Betty Brant, que vale lembrar, era casada com Ned Leeds.

Somente alguns destaques ocorreram na época, o primeiro deles, a criação da Gata-Negra. Tratava-se de uma imitação da Mulher-Gato do Batman e mesmo a relação amor-ódio entre o homem-morcego e sua inimiga felina foi “traduzido”. Não foi à toa que, quando publicadas pela primeira vez no Brasil, a personagem Black-Cat foi traduzida por “Mulher-Gato”, o que só foi corrigido anos depois. Porém, de qualquer forma, seria uma personagem muito importante na década seguinte.

Wolfman a criara para a revista da Mulher-Aranha (versão feminina do aracnídeo que estreara em 1977), com o visual por Dave Crockum (famoso cocriador dos Novos X-Men), mas como não a usou naquele título, fez sua primeira aparição foi em Amazing Spider-Man 194, de 1979. A Gata-Negra era Felícia Hardy, filha do criminoso chamado O Gato. Imitando o pai, torna-se uma ladra também, o que a leva a um confronto com o Homem-Aranha. Mas aos poucos os dois vão se apaixonando. Mas a “casa” da personagem seria a revista Spectacular Spider-Man num futuro próximo, pelas mãos do escritor Bill Mantlo.

Outro destaque da fase de Wolfman foi a edição 196 em que Peter é comunicado da morte de sua Tia May e fica desolado, até descobrir tratar-se de uma farsa armada por Mysterio que queria obter um tesouro que estava escondido na casa dos Parkers, o que também serviu para explicar os motivos do assassinato do Tio Ben, na história comemorativa de Amazing Spider-Man 200, de janeiro de 1980. O Homem-Aranha reencontra, pela primeira vez, o homem que matou seu tio e o bandido morre de um ataque do coração.

Capa de “Marvel Team Up 100” por Frank Miller.

Durante duas edições, os desenhos de Spectacular foram entregues ao novato Frank Miller, os números 28 e 29, de maio e junho de 1979. Escritos por Bill Mantlo, traziam o traço ágil de Miller e uma luta ao lado do Demolidor e confronta pela primeira vez o vilão Carniça. Em seguida, os editores da Marvel transportaram o novato para a revista Deredevil (Demolidor), onde o garoto revolucionaria as histórias em quadrinhos. Com a fama, Miller voltaria a desenhar edições especiais do Homem-Aranha, como a Amazing Spider-Man Annual # 14 e 15, de 1980 e 81, respectivamente, e a comemorativa Marvel Team-Up 100, também de 1980.

Mas pouca coisa acontecia de interessante. Os velhos grandes vilões ainda apareciam, mas sem grande impacto. Entre os novos, Mosca e Enxame não orgulhariam nenhum leitor. A morte do Tarântula também não foi nenhum grande evento. Sem dúvida, as histórias de Spectacular eram ainda melhores do que as de Amazing.

Um mérito das histórias na época era que desenhistas como Keith Pollard procuravam estilos menos convencionais para retratar os personagens, muitas vezes saindo dos padrões de Romita, com traços mais escuros e cheios de rabiscos, procurando imitar ligeiramente o que Frank Miller fazia no Demolidor. Eram modos diferentes que foram abandonados em pouco tempo, pois não agradaram à posterioridade.

A Gata Negra trouxe uma outra dinâmica para o Aranha. Por Wolfman e Pollard.

Em 1980, Wolfman deixou a Marvel para ir para a DC e seu cargo no Homem-Aranha foi ocupado pelo lendário Dennis O’Neil. O escritor fez fama no fim dos anos 1960 quando ajudou a trazer maior seriedade aos personagens daquela editora, o que o levou a temporadas muito apreciadas nas revistas de Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Liga da Justiça e Lanterna Verde. Nesta última, em histórias cheias de conteúdo social. Desgastado com a DC, O’Neil se mudou para a Marvel, onde assumiu a editoria de personagens como o Demolidor (foi ele quem contratou Frank Miller para o título) e, em seguida, escreveu as histórias do Homem-Aranha entre 1980 e 1981.

Entretanto, assim como Wein e Wolfman, O’Neil não conseguiu fazer sua escrita funcionar no Homem-Aranha. Das três citadas, sua temporada em Amazing Spider-Man, entre as edições 207 e 221, foi a menos expressiva e não deixou nenhuma marca. Aliás, deixou uma: o início do trabalho do desenhista John Romita Junior, o “filho do mestre”. Jr. tinha iniciado sua carreira na Marvel há pouco tempo e feito sucesso na revista do Homem de Ferro, onde ilustrou a mais famosa das histórias do “vingador dourado”, aquela em que Tony Stark sucumbe ao alcoolismo, escrita por David Michelinie e Bob Layton.

Paralela à temporada de O’Neil, a revista Spectacular Spider-Man mudou de comando, saindo Bill Mantlo (após três anos) e entrando Roger Stern. Este já tinha assumido a revista do Hulk (onde aproveitou o sucesso da série de TV) e estava no comando do Capitão América (ao lado de John Byrne) e dos Vingadores (com John Buscema), onde produziria uma das mais célebres fases da equipe.

Stern seria um dos principais escritores dos quadrinhos dos anos 1980 e 90 e estava em seu auge. Assim, de maneira estranha e inédita, sua temporada em Spectacular Spider-Man, entre os números 44 e 61, de 1980 a 1982, chamou mais a atenção dos críticos do que as “principais” de O’Neil em Amazing. Logo, nada mais justo que o novo Editor-Chefe da Marvel, Jim Shooter (que sucedera Marv Wolfman em 1978), propor que Stern assumisse Amazing.  O’Neil continuou na editoria do Demolidor e se transferiu para os roteiros da revista do Homem de Ferro, onde produziu uma ótima fase, entre 1982 e 1986.

Uma nova fase áurea

Roger Stern produziu histórias marcantes, como o confronto com o Fanático. Arte de John Romita Jr.

A partir de Amazing Spider-Man 224, Roger Stern e John Romita Jr. começaram uma prolífica fase em que as vendas não somente aumentaram, como a qualidade das histórias deu saltos, após anos de “moral baixa”. Um dos grandes méritos da dupla foi investir no “novo universo” do aracnídeo que vinha se formando nos últimos anos, deixando um pouco de lado velhos coadjuvantes (Harry Osborn, MJ, Flash Thompson) e desenvolvendo os mais recentes ou inserindo novos, como a capitã Jean DeWolff, o repórter Jacob Conover, o fotógrafo Lance Bannon e sua polêmica namorada Amy Powers (que mantinham um relacionamento “aberto” e ela se encantava com Peter Parker), o sargento Lou Snider e pequenos personagens meiocriminosos, como o fashion designer Roderick Kingsley e o executivo George Vandergill.

Peter Parker voltava a fotografar para o Clarim Diário e sua relação com Robbie Robertson era restaurada aos tempos de Stan Lee, quando ficava subtendido que o Editor de Cidades desconfiava que ele era o Homem-Aranha, ou mesmo sabia de tudo. Quem terminou retornando às histórias foi Mary Jane Watson que, depois de flagrar Peter aos beijos com Amy Powers, vai se reintroduzindo lentamente em sua vida, apenas como amiga.

A fase de Roger Stern é muito lembrada por antigos leitores como um dos pontos mais altos das histórias do Homem-Aranha e ficou marcada a importância de edições como o arco de histórias contra o Fanático (o superpoderoso inimigo dos X-Men) e a singela história secundária em que o escalador de paredes encontra seu maior fã: um menino de 11 anos doente de câncer.

O Duende Macabro: um novo pior inimigo para o Homem-Aranha. Por Stern e Romita Jr.

Entretanto, o fato mais importante do período foi a criação do novo vilão que iria brindar a carreira do Aranha: o Duende Macabro, que aparece em Amazing Spider-Man 238, em maio de 1983. Jim Shooter encomendara a Stern que criasse uma nova história do Duende Verde, achando que isso aumentaria as vendas. Mas como o escritor não queria criar uma quarta versão do vilão, fez um novo: alguém que se apossou dos equipamentos e dos poderes de Norman Osborn e criou uma nova identidade, uma nova ameaça. O resultado deu muito certo e marcou uma geração de leitores, um clássico.

A trama: um bandido comum encontra um velho esconderijo do Duende Verde e contacta o seu chefe (de identidade desconhecida para o leitor). Esse homem misterioso mata seu subordinado e passa a se utilizar dos equipamentos do Duende, só que os modificando, dando-lhes aspecto mais moderno e um novo nome: Hobglobin ou Duende Macabro. Em seguida, o vilão passa a vasculhar todos os esconderijos do velho vilão, em busca de mais armas e acaba entrando em choque com o Homem-Aranha. O criminoso não se dá bem na investida e se pergunta: como o Duende original conseguiu lutar tantas vezes com Aranha? Como resposta, encontra um diário escrito pelo próprio pulso de Norman Osborn, onde ele conta como ganhou seus superpoderes em uma experiência com anotações de Mendell Stromm. Após testar a experiência em uma cobaia, que morre, o Duende Macabro ingere a fórmula. Assim, seus confrontos com o Aranha se tornam mais equilibrados.

Os primeiros arcos do Duende Macabro, por Stern e Romita Jr. marcaram os leitores da época.

Esses eventos correspondem aos dois primeiros arcos do vilão, mas o mais celebrado foi o terceiro, publicado entre Amazing Spider-Man 249 e 251.  Através dos diários de Norman Osborn, o Duende Macabro descobre as falcatruas de diversos grandes empresários e os chantagea. Entre os chantageados, estão J. Jonah Jameson (por ter financiado a experiência que resultou na criação do Escorpião), Roderick Kigsley e Harry Osborn.

Este, por seu pai ter sido o Duende Verde. Na época, Harry havia esquecido tudo relacionado ao Duende Verde por causa do tratamento psiquiátrico, então, foi somente aí que descobriu o passado negro de seu pai e pior, que ele tinha matado Gwen Stacy. Mas, claro, a tentativa de chantagem foi atrapalhada pelo Homem-Aranha, numa selvagem batalha que culmina na explosão do carro-tanque do Duende Macabro no fundo do rio Hudson.

Paralelamente, a Amazing, a revista Spectacular voltou a ser escrita por Bill Mantlo, que investiu na relação entre o cabeça de teia e a Gata Negra e passaria mais três anos à frente da revista.

Capa de “Amazing Spider-Man 252” traz o novo uniforme do Aranha, por Tom DeFalco e Ron Frenz.

Infelizmente para os leitores, a fase áurea de Stern e Romita Jr. teve um fim abrupto, causado por discordâncias editoriais. Na época, o Editor-Chefe Jim Shooter estava escrevendo a saga Guerras Secretas, com desenhos de Mike Zeck. A maxisserie em 12 capítulos publicada entre 1983  e 1984, reunia todos os principais personagens da Marvel em uma grande batalha, reunidos por uma entidade poderosíssima chamada Beyonder.

O problema é que, na história, o Homem-Aranha teve seu uniforme destruído e o substituiu por outro mais especial que o vestia apenas com o comando mental, constituindo, ainda, um modelo diferente, quase todo preto, inspirado no uniforme da 2ª Mulher-Aranha. O uniforme negro, como ficou conhecido, foi tudo o que o Aranha herdou da saga.

O encaixe cronológico de Guerras Secretas com seus títulos seria em Amazing Spider-Man 252, de modo que o escalador de paredes necessitava aparecer com o uniforme negro nesta edição. O problema é que Roger Stern discordava da medida e não tinha sido consultado. O resultado: pediu demissão. John Romita Jr. também saiu, indo desenhar os X-Men. Assim, Shooter encarregou o editor assistente responsável pelas histórias do Homem-Aranha, Tom DeFalco, de arranjar às pressas um substituto.

A temporada de Al Migron em “Spectacular” investiu mais no humor e não agradou.

DeFalco trabalhava na editoria da Marvel há alguns anos, mas também desempenhava funções criativas, tendo produzido a revista de Cristal, popular personagem da época (e que mais tarde entraria nos X-Men), dos Vingadores, além de ser o responsável pelo rentável segmento de franquias, em que a Marvel criava histórias e personagens para companhias de brinquedos, como a Hasbro. Desse modo, havia sido o criador de muito do universo de Transformers e G.I. Joe. Em vista da urgência, o próprio DeFalco terminou por assumir Amazing, enquanto Denny Fingeroth o substituiu temporariamente na editoria do Aranha. Para os desenhos, foi chamado Ron Frenz, um artista que vinha fazendo alguns trabalhos para a Marvel e havia desenhado a famosa história do menino com câncer.

Coincidência ou não, no mesmo período, Bill Mantlo saiu de Spectacular e foi substituído pelo arte-finalista Al Migron, que assumiu os roteiros e os desenhos. Sua temporada investiu no humor escancarado, mas isso desagradou os editores.

A Luta contra o Submundo

O Rei do Crime e o Rosa conversam: submundo de volta às histórias. Por DeFalco e Frenz.

A nova dupla criativa de Amazing Spider-Man, Tom DeFalco e Ron Frenz, assumiu a revista no número 252, de 1984, e colocou o Homem-Aranha em uma fase totalmente nova. O herói usava, agora, o uniforme negro; Mary Jane Watson estava sempre por perto; e o cabeça de teia encontrava cada vez mais com inimigos advindos do submundo. Além das histórias empolgantes, cheias de mistério e reviravoltas, a fase da dupla acertou em recolocar o crime organizado de frente para o Homem-Aranha, uma caracterização que combina com o herói, e rendeu uma série de personagens novos, como o chefão conhecido como O Rosa e o mercenário chamado Puma. Isso também permitiu que o Rei do Crime voltasse a frequentar a revista, mesmo que de maneira secundária – já que agora, ele era o principal vilão do Demolidor.

Mary Jane revela a Peter que sabe que ele é o Homem-Aranha: mudanças fortes por DeFalco e Frenz.

DeFalco e Frenz também deram prosseguimento ao mistério do Duende Macabro, mas dando-lhe novo suporte: entre Amazing Spider-Man 256 e 257, o Rosa decide matar o Homem-Aranha e contrata o Puma. Em meio a várias lutas, que envolveram também a Gata Negra, surge uma situação que obriga Mary Jane a dizer que sabe que Peter é o Homem-Aranha. O rapaz fica em choque. Enquanto isso, o Duende Macabro aparece para o Rosa e propõe uma sociedade que resulte na morte do escalador de paredes e na derrubada do Rei do Crime.

A construção do império do Rosa e do Duende Macabro de um lado; e o aprofundamento psíquico de Mary Jane Watson foram dois dos pontos centrais da fase de DeFalco e Frenz. Pela primeira vez, a ruiva teve seu passado detalhado, inclusive com explicações para seu comportamento futil nas histórias de Lee e Romita dos anos 1960. Desse modo, nasce uma amizade e uma cumplicidade entre ela e Peter que não existia antes, porque agora, ela sabe de tudo. Mas isso não se converte em uma relação amorosa, já que o herói continua envolvido com Felícia Hardy.

Outros personagens secundários também foram desenvolvidos  em situações novas, com destaque para um caso extraconjungal de Betty Brant (casada com Ned Leeds) e Flash Thompson (que ainda namorava Sha Shan).

Além disso, com o suporte da quadrilha do Rosa, o Duende Macabro sequestra Harry Osborn em busca de mais diários de seu pai. O Homem-Aranha intervém e todos se salvam, inclusive, com o nascimento do bebê de Harry e Liz Allen, que é batizado de Norman Osborn II. E ficamos sabendo que, de algum modo, o vilão mascarado conhece MJ em sua vida civil. Mais mistério.

Em outras tramas, DeFalco e Frenz colocaram o Homem-Aranha contra oponentes bem inusitados, como o Beyonder (no arco Guerras Secretas II), o Senhor do Fogo (um poderosíssimo ex-arauto de Galactus) e até Mefisto, o diabo do Universo Marvel.

Contexto mais violento

Capa de “Amazing Spider-Man 258”: o uniforme é um parasita alienígena!

A mudança do uniforme do Homem-Aranha de vermelho e azul para preto é apontado pelos historiadores dos quadrinhos como mais um indício do fim da Era de Bronze e o início da Era Sombria, em que as histórias passam a ter tramas ainda mais adultas, sombrias e violentas do que antes. (Outros marcos são a morte da Fênix nos X-Men, em 1981, as histórias de Frank Miller no Demolidor, no mesmo ano; além de obras como Cavaleiro das Trevas, do próprio Miller e Watchmen de Alan Moore, ambas na DC).

Porém, no ambiente dos quadrinhos, o uniforme significava algo mais. Com ajuda do Quarteto Fantástico, o aracnídeo descobre que o uniforme negro era, na verdade, um ser vivo, um simbionte alienígena que viva como parasita, sugando-lhe as energia vital e se livra dele. Ainda assim, o Aranha continuou usando uma cópia em tecido do modelo negro.

Ao mesmo tempo, a revista Marvel Team-Up teve seu último número publicado em fevereiro de 1985, depois de 156 números em 13 anos. Foi substituída por Web of Spider-Man, que saiu em março daquele ano, tendo como mote a possibilidade de vários artistas diferentes poderem “brincar” com o Aranha – como na anterior, só que sem a obrigação de ter um personagem convidado. A nova empreitada, tal como foi concebida, duraria 30 números.

Um dos destaques de Web nesses primeiros tempos foi a história escrita por David Michelinie em que o simbionte alienígena escapa do QG do Quarteto Fantástico e volta a perseguir o Homem-Aranha até ser destruído pelo barulho dos sinos da catedral de Nova York, pois era sensível a ataques sonoros. Essa história seria adaptada em Homem-Aranha 3 de Sam Raimi.

“Spectacular Spider-Man 107” traz a chamada: uma nova fase mais violenta. começa a saga “A morte de Jean DeWolff” por Peter David e Rick Buckler.

Já em Spectacular, o fim das histórias cômicas de Al Migron deram lugar a outro marco da Era Sombria: o arco de histórias A morte de Jean DeWolff, publicada nos números 107 a 110, escrita por Peter David e desenhada por Rick Buckler. Peter David era um total novato: trabalhava no Departamento de Marketing da Marvel, mas conseguiu convencer o novo editor assistente das revistas do Homem-Aranha, Jim Owsley, de que poderia escrever uma grande aventura do cabeça de teia, teve sua chance e não decepcionou. Além de ser uma das melhores e mais lembradas histórias do escalador de paredes, fez um grande sucesso, o que garantiu a David a vaga de escritor da revista. Logo, se consagraria como um dos melhores autores da casa.

Mas, a trama: DeWolff é encontrada morta em casa, destroçada por uma potente arma de fogo. Depois, outros crimes com as mesmas características começam a ocorrer e se descobre que o assassino é um serial killer que se autoproclama O Devorador de Pecados. Enquanto isso, Peter Parker conhece o advogado Matt Murdock, porém, como o advogado cego também é o Demolidor, logo descobre através de sua superaudição que o jovem é também o Homem-Aranha.

O Devorador de Pecados no expressivo traço de Rick Buckler.

Investigando a morte de Jean DeWolff por conta própria, o Aranha descobre que a capitã era apaixonada por ele. Ensandecido, parte atrás de descobrir a identidade do assassino e se alia ao responsável pela investigação, o tenente Stanley Carter. Matt Murdock, após quase se tornar mais uma das vítimas do assassino serial também se envolve no caso, como Demolidor. O Aranha entra em confronto com o Devorador de Pecados nas ruas de Nova York, mas leva uma surra (ele é superforte) e um transeunte que assistia à luta é baleado e morre. Agindo juntos, o Aranha e o Demolidor descobrem que o Devorador de Pecados, na verdade, é Stanley Carter. Esta aventura marca o momento em que Murdock e Parker revelam suas identidades secretas e se tornam grandes amigos.

Em seguida, as histórias de Spectacular de Peter David e Rick Buckler (temporariamente substituído por Mike Zeck) mostravam a Gata Negra reatando seu relacionamento com o Homem-Aranha e mudando seu uniforme, bem como um confronto com Dentes de Sabre (vilão que seria “promovido” a arquiinimigo de Wolverine) e o surgimento do misterioso mercenário conhecido apenas como O Estrangeiro. Inclusive, a Gata Negra se envolve com este criminoso e deixa o Aranha na mão.

Turbulências Editoriais

Flash Thompson é preso como sendo o Duende Macabro, mas era uma farsa do verdadeiro vilão. Capa de “Amazing Spider-Man 276” por Tom Morgan.

Ao iniciar o ano de 1986, as revistas do Homem-Aranha são abaladas por conflitos criativos e editoriais que resultaram em pelo menos uma grave consequência: a não resolução a contento do mistério da identidade do Duende Macabro, o principal fio condutor das aventuras nos últimos dois anos. Tom DeFalco estava disposto a resolver o mistério, mas tinha um problema: Roger Stern, o criador do personagem, tinha elaborado uma solução ao qual DeFalco não concordava. Desse modo, o escritor decidiu criar a sua própria versão e fazê-la em grande estilo. Por isso, criou uma grande trama para lançar pistas falsas a aprofundar o mistério antes de revelá-lo.

O Homem-Aranha tira a máscara do Duende Macabro e ele é… Flash Thompson? Farsa do vilão por DeFalco e Frenz.

Em Amazing Spider-Man 275 inicia-se uma história em que o Duende Macabro – financiado pelo Rosa – adquire novas armas e encontra uma ideia incrível para se livrar da perseguição da polícia e do cabeça de teia: deixar Flash Thompson numa cena de crime, desmaiado, vestindo com o  seu uniforme. O ex-soldado foi escolhido, simplesmente, porque falou mal do Macabro na TV, já que o vilão havia sequestrado (aparentemente aleatoriamente) Sha Shan em uma luta com o Aranha. Porém, momentos antes, houvera uma briga entre Thompson e Ned Leeds, porque o repórter do Clarim descobriu que o jovem estava de caso com sua esposa. Ao mesmo tempo, é mostrada uma cena do Duende Macabro (sem máscara, nas sombras) conversando com Roderick Kingsley na sede da companhia deste. E do outro lado da cidade, Richard Fisk (lembram dele? O filho do Rei do Crime), aparece para conversar com seu pai. Também fica claro que o capitão de polícia Thomas Keating (que substituiu Jean DeWolff) tem envolvimento na farsa, ajudando a incriminar Thompson.

Helloween entra em disputa com o Duende Macabro.

E para complicar ainda mais as coisas, o vilão Halloween (que já tinha lutado contra o Homem-Aranha algum tempo antes) deseja trabalhar para o Rei do Crime e, como maneira de impressioná-lo, decide libertar Flash Thompson da cadeia. Tudo que o vilão consegue é deixar o verdadeiro Duende Macabro furioso e os dois se tornam inimigos.

DeFalco montou o cenário da revelação, mas sua solução para o mistério não agradou a editoria da Marvel, que decidiu não publicá-la. Em um dos casos mais conturbados da história da editora, não se sabe ao certo “quem fez o quê”, mas o fato é que DeFalco foi removido dos títulos do Homem-Aranha, indo trabalhar em Thor (e levando Frenz consigo). Com isso, mais uma vez, um editor assistente assumiu a principal revista do escalador de paredes enquanto se procurava por um substituto: Jim Owsley. Este decidiu continuar os planos de DeFalco para uma guerra de gangues em Nova York que culminaria com o fim do mistério do Duende Macabro. Sem um desenhista fixo (Frenz fez o primeiro capítulo, Alan Kupperberg assumiu o restante, mas o novato Erik Larsen também desenhou um dos números), o arco Guerra de Gangues foi publicado entre as edições 284 e 288, mas como era uma trama originalmente de Defalco, este recebeu os créditos como corroteirista, junto a Owsley.

Em Guerra de Gangues, Owsley lança outro forte suspeito à identidade do Duende Macabro, o fotógrafo Lance Bannon, mas seja lá o que o escritor estivesse pensando, o Editor-Chefe da Marvel, Jim Shooter interferiu no material e afastou Owsley da revista logo após o arco.

Os protagonistas da Guerra de Gangues: Rosa, Halloween, Duende Macabro e Cabeça de Martelo. Conflitos editoriais. Arte de Ron Frenz.

A trama: o Rei do Crime desaparece, deixando um sucessor na figura do Arranjador. Uma guerra de quadrilhas eclode para tomar seu lugar. O Homem-Aranha e o Demolidor tentam conter a loucura e o Justiceiro também se envolve. O capitão da polícia Thomas Keating, que odeia o Aranha, passa a atrapalhar. Entre os vilões envolvidos, estavam Cabeça de Martelo, Cabelo de Prata e o Rosa (chefes de quadrilhas), além de mercenários como o Duende Macabro e Halloween. Novos criminosos surgem, outros mudam de aliados e no meio da confusão, o acordo entre o Duende Macabro e o Rosa é rompido. Além disso, os leitores descobrem que o Rosa é na verdade Richard Fisk (filho do Rei do Crime). E o Demolidor – querendo ajudar a volta do Rei do Crime à cidade para acabar com a guerra – engana o Homem-Aranha duas vezes, tentando afastá-lo do conflito, o que abala a amizade dos dois por um tempo.

A cena-chave de Betty Brant: o Duende Macabro tira a máscara enquanto surra Flash Thompson. Arte de Paul Kupperberg.

E em meio a tudo isso, é revelado que o capitão Keating obtém informações sobre o mundo do crime com Roderick Kingsley. Os leitores são bombardeados por informações que levam pistas da identidade do Duende Macabro tanto para Ned Leeds quanto para Lance Bannon. Em uma cena importante, Bannon vê Betty Brant abrigando o ainda fugitivo da polícia Flash Thompson em sua casa. Corta e vemos Betty voltando e encontrando o Duende Macabro espancando Flash já desacordado. Ele tira a máscara, Betty o vê e desmaia. Por fim, a guerra de gangues termina com a volta do Rei do Crime à Nova York, em Amazing Spider-Man 288.

A edição que traria a revelação seria a seguinte, Amazing Spider-Man 289, mas com o afastamento de Owsley, o escritor de Spectacular, Peter David, foi convidado para escrever esse número.

Ned Leeds é morto em “Spider-Man & Wolverine” de Jim Owsley e Mark D. Bright.

Antes, um parêntese importantíssimo: a Marvel lançava revista Spider-Man and Wolverine, de fevereiro de 1987, escrita por Jim Owsley e desenhada por Mark D. Bright (que fazia a revista do Homem de Ferro). Era a primeira aventura focada nesses dois heróis juntos e fazia parte de uma série de especiais comemorando os 25 anos da Marvel. Na trama, terminada a guerra de gangues, Peter Parker e Ned Leeds vão à Alemanha Ocidental investigar um caso de espionagem. Lá, o Homem-Aranha se envolve com agentes duplos, uma conspiração confusa e luta ao lado (e contra) Wolverine. Por fim, de volta ao hotel, Parker encontra Ned Leeds morto, amarrado e amordaçado, provavelmente pelos espiões, terminando a história do repórter que havia sido criado por Lee e Ditko em 1964.

A revelação da identidade secreta do Duende Macabro, por David, Kupperberg e Morgan. Decepção aos fãs e aos editores.

A sequência dessa história seria a bombástica Amazing Spider-Man 289, edição especial com 40 páginas, que trazia a chamada da capa anunciando o fim do mistério do Duende Macabro. Mas, em vez de escrita por Owsley, Peter David assumiu o posto, com desenhos de Alan Kupperberg e Tom Morgan. Na trama, o criminoso Jason Macendale (o Halloween) contrata o misterioso Estrangeiro para assassinar o Duende Macabro. De posse de informações que afirmam que Macabro é na verdade o repórter do Clarim Ned Leeds, os homens do Estrangeiro o matam na Alemanha. Sem saber de nada, Peter Parker tenta consolar a viúva Betty Brant no enterro de Leeds, enquanto a moça passa a agir como se estivesse louca. O cabeça de teia vai ao encontro do Rei do Crime, que lhe revela que Ned Leeds era o Duende Macabro e que o Halloween agora era o novo Duende Macabro.

O fato é que Peter David não tinha nenhuma proximidade com o Duende Macabro e, sem nenhum conhecimento dos planos de Roger Stern e talvez sabendo apenas alguma coisa dos planos de Tom DeFalco, também criou sua própria versão. Para ele, lendo as histórias, a única pessoa que fazia ser sentido ser o Duende era Ned Leeds, por causa das pistas. Entretanto, apesar de todas as discordâncias, Stern, DeFalco e Owsley concordavam em um único ponto: Ned Leeds NÃO ERA o Duende Macabro e todas as pistas eram falsas, para aumentar o mistério. Foi por isso que Owsley matou o personagem em Spider-Man & Wolverine. O plano de DeFalco era colocar Roderick Kingsley como O Rosa e Richard Fisk como o Duende Macabro. Ninguém sabe ao certo o que Owsley pretendia, mas ele revelou – em Guerra de Gangues – que Fisk era o Rosa, o que tornou inviável a ideia de DeFalco.

A solução de Peter David só trouxe problemas: em primeiro lugar, o Duende Macabro, o principal vilão das histórias do Homem-Aranha nos últimos quatro anos, havia sido revelado como um homem morto, portanto, estava inutilizado. Além disso, havia outra questão: não existia nenhum motivo para Ned Leeds, um personagem criado 23 anos antes, para ter virado um “supervilão” de uma hora para outra. E sem conhecer a fundo as histórias do Duende Macabro, David ainda deixou uma série de furos, como o fato do vilão ser morto de maneira rápida e fácil, o que contradiz seus superpoderes. Enfim, foi a maior decepção que os leitores do Homem-Aranha receberam em décadas.

Coube a Jim Owsley a amarga missão de explicar a revelação do Duende Macabro por Peter David. Acima, Richard Fisk por Steve Gerber.

Para consertar um pouco o estrago, o Editor-Chefe da Marvel, Jim Shooter, deu a Jim Owsley a ingrata missão de criar uma história que ligasse as lacunas faltantes. Owsley publicou uma história (desenhada por Steve Gerber) em Web of Spider-Man 29 e 30 que mostra as origens de Richard Fisk como o Rosa e Ned Leeds como o Duende Macabro, ao mesmo tempo em que Jason Macendale (o novo Duende) destroça a organização do Rosa e ficamos sabendo que Roderick Kingsley fornecia armas ao Duende e que Leeds era o informante de Keating durante a Guerra de Gangues. Os dois quase são mortos pelos homens do Rosa, numa tentativa de “queima de arquivo”, mas escapam. Além disso, os leitores são informados, através da confissão de Richard Fisk a um padre, como Ned Leeds teria se corrompido pelo poder que a identidade lhe dava. No final, o jovem Fisk desiste da identidade do Rosa e passa a trabalhar para o seu pai.

O mal estar nos títulos do Homem-Aranha estava instituído. Owsley continuou como editor assistente e passou a infernizar a vida de Peter David (talvez por discordar do que ele fez), constantemente reclamando da qualidade de seu trabalho. Enquanto isso, nenhum dos dois ficou em Amazing Spider-Man. Para assumir o principal título do escalador de paredes foi convocado o veterano escritor David Michelinie, que daria início a uma fase totalmente nova do Homem-Aranha, repleta de mudanças (editoriais, criativas e pessoais).

Não perca a Parte 03, desta saga.