Suas revistas podem não ser as mais vendidas; seus filmes não emplacam faz um tempão; mas o Superman permanece como um dos maiores ícones do século XX e aparentemente manterá a função no novo século. Os aspectos mitológicos, o senso de justiça, o ideal do homem perfeito… enfim, o homem de aço da DC Comics é tudo isso e muito mais. Entenda um pouco dessa história neste post sobre a trajetória do Superman nos quadrinhos, bem como em suas principais adaptações para outras mídias naquele típico estilo do HQRock… repleto de informações editoriais e cronológicas, com bastidores da criação das histórias e reflexões sobre a evolução da narrativa do personagem.

superman - dc retroactive cover 2011
Superman: o homem de aço.

Mais popular personagem das histórias em quadrinhos durante a maior parte do século XX, o Superman se tornou um ícone cultural de nossos tempos e a referência de bondade e heroísmo dentro da ficção. Seu papel como um farol para o bem da humanidade foi um conceito entendido e venerado por bastante tempo, contudo, em dias mais recentes, a visão de um herói “bonzinho”, que beira o ingênuo, terminou sendo depreciado em favor de outros menos perfeitos e de tonalidades mais “cinzas”. Mas isso não muda a importância do homem de aço como um elemento mitológico das sociedades contemporâneas e também como um produto cultural típico do capitalismo americano.

Originalmente, este post foi escrito na época do primeiro (!!!!) aniversário do HQRock – e portanto (acreditem!) antes do lançamento de Superman – O Homem de Aço e todo o desdobramento posterior. Todavia, desde então, o texto foi atualizado e está repleto de muitíssimas novidades. Pegue sua capa, vista uma cueca vermelha por cima da calça, rasgue sua camisa de botão para exibir a logomarca com o S estilizado, grite “para o alto e avante” e alce voo para curtir toda a história do último filho de Krypton nos quadrinhos (e além), com bastidores de sua criação e o desenvolvimento de sua lenda.

Uma Revolução

A criação do Superman é um dos fenômenos artísticos mais interessantes do século XX e seu impacto social foi enorme. Desde o começo! O homem de aço foi o primeiro super-herói criado e, portanto, deu origem ao gênero de super-heróis como um todo e definiu em essência o período áureo da criação das histórias em quadrinhos do tipo, chamada de Era de Ouro, que durou entre as décadas de 1930 e 1950. Antes dele, já existiam semideuses, aventureiros e até vigilantes mascarados, mas até 1938 não existiam super-heróis. O Superman foi o primeiro super-herói porque reuniu dois elementos fundamentais: um uniforme (e a identidade secreta, por conseguinte) e os superpoderes.

Aliás, superpoderes eram coisas bem raras na ficção até aquela época. Sem contar os semideuses, que tinham habilidades subrehumanas; no máximo, tínhamos aventureiros que estavam no limiar da capacidade humana, como o aventureiro Doc Savage, personagem da literatura pulp que foi uma grande influência para o Superman. Sabe qual era o apelido do herói? Homem de Bronze!

A primeira história de Conan publicada em uma revista pulp.

Falando em literatura pulp, este gênero à época renegado foi o grande antecessor do que chamamos hoje de cultura pop. Eram revistas – geralmente mensais – que traziam contos de vários autores e tinham o nome “pulp” porque eram publicados em papéis de baixa qualidade. Era a época da Grande Depressão nos EUA e tudo tinha que ser racionado. Contudo, os pulps terminaram se tornando em um entretenimento barato e interessante para a juventude e se tornaram um grande fenômeno.

Para se ter uma ideia da importância dos pulps, saiba que os primeiros “heróis” pop surgiram lá: Zorro, Conan, Tarzan, O Sombra, Doc Savage etc.

A geração de adolescentes que cresceu lendo as histórias pulps foi justamente aquela que criou as histórias em quadrinhos modernas. Particularmente, as de super-heróis. E nos anos 1930, começam a surgir os primeiros aventureiros dos quadrinhos, especialmente em tiras de jornais, que então era o principal veículo de publicação de quadrinhos, como Flash Gordon de Alex Reymond e o Fantasma de Lee Falk, publicados a partir de 1934 e 1936, respectivamente. Esses personagens já tinham elementos muito próximos dos quadrinhos como conhecemos hoje, com o primeiro sendo um aventureiro espacial que usava uma farda que servia como um uniforme e enfrentava inimigos fantasiosos; e o Fantasma, mais ainda, usava um uniforme típico de super-heróis, uma máscara e tinha identidade secreta (mas não super-poderes).

Revista que trouxe a primeira história do Zorro, em 1919.

Outros personagens nessa mesma linha também vinham se desenvolvendo: Zorro e Besouro Verde. O Zorro estabeleceu arquétipos bem típicos dos super-heróis, como uniforme, identidade secreta e até um esconderijo especial (em uma caverna!), criado por Johnston McCulley numa história seriada na revista pulp All-Story Weekly em 1919, que foi adaptada ao cinema com muito sucesso no filme A Marca do Zorro, com Douglas Fairbanks, em 1920. Depois disso, o personagem continuou a ser publicado em histórias ou contos. O Besouro Verde, por sua vez, também tem os elementos típicos de uniforme, identidade secreta, veículo possante, base secreta e até um side-kick, mas surgiu primeiro como um programa de rádio, em 1936, antes de ser adaptado a outras mídias.

Isso quer dizer que o ambiente cultural em que Jerry Siegel e Joe Shuster cresceram era repleto desses heróis precursores publicados em mídias que desapareceriam com o tempo (revistas pulp, tiras de jornal, programas de rádio), mas que forneceram o elemento básico que os alimentou a criar o mais icônico dos personagens do século XX.

É neste contexto que surge a criação máxima de Jerry Siegel e Joe Shuster.

Os Criadores

Quando o Superman foi publicado, os criadores Jerry Siegel e Joe Shuster tinham apenas 24 anos de idade, jovens artistas da cidade de Cleveland, no estado de Ohio, nos Estados Unidos. Na margem sul do Lago Erie, que faz fronteira com o Canadá, Cleveland era, então, uma das grandes metrópoles americanas, tendo uma população de 900 mil pessoas no Censo de 1930. Nos dias de hoje, a cidade não depende mais de sua forte indústria, é mais diversificada economicamente, e tem uma população menor, de cerca de 300 mil habitantes, pois agora compete com outras cidades menores em sua região metropolitana.

Jerry Siegel e Joe Shuster: os criadores do Superman.

Jerome Siegel nasceu em 17 de outubro de 1914, em Cleveland, filho de um imigrante judeu da Lituânia, chamado Mikhel Iankel Segalovich, que americanizou seu nome para Mitchell Siegel no novo país, quando chegou no ano de 1900, fugindo da perseguição do Império Russo. Nos EUA, Mitchell trabalhou como alfaiate e abriu sua própria loja. Jerry era o caçula de seis irmãos e a família se estabeleceu na vizinhança judia de Glenville, em 1928, e por lá, o rapaz estudou no Glenville High School, onde tornou-se escritor do jornal da escola: The Torch. Foi no jornalzinho que conheceu o futuro parceiro Joe Shuster.

Joseph Shuster também nasceu em 10 de julho de 1914 e vinha de uma família judia – seu pai (cujo nome original era Shusterowich) era de Roterdã, na Holanda e sua mãe da Ucrânia. Os pais de Shuster se estabeleceram em Toronto, no Canadá, e foi lá que Joe nasceu, uma cidade que ficava na margem norte do Lago Erie, a uma distância de apenas 300 km em linha reta de Cleveland, estando um pouco mais ao leste. Ainda criança, ele começou a desenhar como autodidata, coletando papel no lixo da vizinhança, já que sua família não tinha dinheiro para comprar papel, e bem pequeno trabalhou vendendo nas ruas o jornal Toronto Daily Star, jornal cujo nome adotaria para as primeiras aventuras do Superman, mas migrou com a família para Cleveland quando tinha 10 anos de idade.

Ambos eram garotos de origem judaica, de famílias pobres, tímidos e amantes da literatura de fantasia e ficção científica que nascia nas revistas pulp, e do encontro entre Siegel e Shuster nasceu de imediato uma grande amizade e uma parceria, com a colaboração em tirinhas publicadas no The Torch, bem como na ilustração de artigos. A dupla terminou o colégio em 1934, e como não conseguiram ingressar em uma universidade, tiveram que se estabelecer em empregos ordinários, mas continuaram a tentar produzir histórias em quadrinhos por conta própria. Por isso, os dois fundaram o fanzine Science-Fiction, já em 1932, produzido de maneira artesanal e distribuído via pagamento antecipado pelos correios, onde publicavam material de autoria deles e de alguns amigos, o que foi um empreendimento relativamente bem-sucedido.

Também é preciso mencionar que, em junho de 1932, o pai de Siegel foi assassinado dentro de sua loja, o que foi um grande baque para a família, que passou a depender financeiramente dos irmãos mais velhos de Jerry. Então, logo que saiu da escola, ele passou a criar uma série de tiras de jornal visando vendê-las e fazer uma carreira com isso.

Então, quase como de repente, surgiu o mercado de histórias em quadrinhos em revistas, ao qual a dupla mergulhou de cabeça. E se deu bem!

O Nascimento da DC Comics

A história do Superman está intrinsecamente ligada à de sua editora, a DC Comics, portanto, não podemos deixar de falar no surgimento da empresa e como isso tornou possível a publicação do homem de aço.

New Fun: primeira HQ da DC Comics.

Uma pequena revolução editorial iniciava discretamente nas bancas de jornais dos Estados Unidos no início da década de 1930, com o lançamento de revistas como Famous Funnies, em 1934, que eram as primeiras HQs como as conhecemos: publicações em revistas mensais feitas de papel jornal, com média de 64 a 100 páginas coloridas e trazendo atrações inéditas. Naqueles tempos, as tiras publicadas em jornais tinham mais prestígio e eram um mercado bastante competitivo, controlado por “sindicatos” que mantinham a produção e faziam a distribuição pelos jornais do país. Mas ao mesmo tempo que o mercado aquecido incentivou dezenas de escritores e desenhistas a produzirem seus materiais, a forte concorrência fazia com que muitas tentativas não fossem aprovadas e, de repente, os editores começaram a ficar cheios de material inédito não aproveitado e começaram a publicar esse material nessas revistas, que ficaram inicialmente conhecidas como funnies (ou seja, divertidas), mas logo, ganhariam a denominação definitiva de comics (que vem de “cômicas”, porque a maioria eram histórias de humor).

Ao longo dos anos de 1934 e 35, várias HQs desse tipo surgiram no mercado, quase todas de carreira curta, e trazendo a republicação de material dos jornais, e algum material inédito, até que o major Malcolm Wheeler-Nicholson viu nisso uma oportunidade e fundou uma editora chamada National Allied Publishing, que lançou a primeira revista em quadrinhos a trazer material totalmente inédito: New Fun: The Big Comics Magazine, estreando em fevereiro de 1935.

Pode não parecer a princípio, mas essa editora seria conhecida no futuro não tão longevo como DC Comics.

O Major Malcolm Wheeler-Nicholson, fundador da DC Comics.

Nascido Malcolm Strain em 1891, no Tennessee, era filho de um administrador de empresas e uma dona de casa, cuja dificuldades financeiras levaram a um divórcio turbulento. Sua mãe, Antoinette Wheeler terminou se mudando para Portland, no Oregon, e se tornou uma jornalista e intelectual que escrevia para uma revista pioneira do movimento feminista! Ela se casou com o professor Thomas J.B. Nicholson, um intelectual, que adotou as crianças, o que fez o jovem Malcolm adotar os nomes da mãe e do padrasto como sua nova assinatura.

Com boa educação, Wheeler-Nicholson ingressou no exército dos EUA e fez parte da renomada cavalaria, sendo o mais jovem Major até então, aos 27 anos de idade, e lutando na I Guerra Mundial, entre 1917 e 1918, primeiro no front asiático e, depois, na Europa. Sua formação intelectual, contudo, o levou a criticar algumas ações militares e, após o fim da guerra, uma carta aberta contra o Alto Comando, o major foi atingido por um tiro, que atingiu sua orelha, dentro de uma instalação militar, em 1922, que ele interpretou como uma tentativa de assassinato e o exército afirmou ter sido um tiro acidental. Wheeler-Nicholson foi levado à Corte Marcial por suas acusações, e embora inocentado, se viu obrigado a encerrar sua promissora carreira militar.

Porém, ele usou sua formação intelectual e suas próprias aventuras militares para se transformar em um escritor, publicando alguns livros que fizeram sucesso, bem como contos para revistas pulp, de tal modo que virou um daqueles autores que apareciam em destaque na capa das revistas como Adventure e Argosy para aumentar as vendas. Em 1925, ele criou uma empresa editorial para administrar os próprios negócios e como foi bem-sucedido, dez anos depois criou a National Allied Publishing para publicar quadrinhos.

Trazendo inicialmente 32 páginas de material, depois ampliada para 64 páginas, New Fun logo mudou de nome para More Fun Comics (para evitar uma disputa judicial com outra editora), e inicialmente, Wheeler-Nicholson terceirizou a redação à empresa Funnies Inc., de Lloyd Jacquet, que era um dos maiores editores de HQs daquele período, e o caráter inovador da New Fun de trazer apenas histórias inéditas possibilitou que a revista tivesse publicidade, publicando propagandas de diversos produtos, o que ajudava a financiar o empreendimento e diminuir a pressão do capital de giro, pois era caro e dispendioso investir no pagamento dos artistas, na editoração, diagramação e impressão do material antes mesmo do número sair nas bancas. As propagandas financiavam esse trabalho inicial. Mas de algum modo, a parceria não funcionou como deveria: depois de apenas quatro edições de New Fun, o major encerrou a parceria com Jacquet e ele mesmo assumiu a edição da revista, mudando ligeiramente o nome da HQ para More New Fun.

Capa de New Comics 01, de 1935, com arte de Vin Sullivan.

O empreendimento foi bem sucedido e Wheeler-Nicholson lançou uma segunda revista, chamada New Comics, em dezembro de 1935, revista que teria o título alterado para New Adventure Comics em seu 12º número, em janeiro de 1937, porque seu foco não eram tiras “cômicas”, mas histórias de aventura, dando início à tradição da empresa de batizar suas revistas pelo gênero de história que traziam. Por algum motivo, mais tarde, os editores acharam que o adjetivo “new” era redundante, então, a revista seria novamente rebatizada de Adventure Comics em seu 32º número em novembro de 1938. Reencontraremos essa revista em nosso caminho no futuro próximo…

Harry Donenfeld.

O mercado em quadrinhos parecia em franca expansão e Wheeler-Nicholson decidiu lançar uma terceira revista, focada nas já populares histórias de detetive, por isso, nasceu a ideia da revista Detective Comics. Porém, a dificuldade de firmar com material inédito em um mercado bastante competitivo pagou seu preço e ele estava com uma enorme dívida com a fornecedora de papel e, também, distribuidora dos produtos em banca, Independent News, que pertencia a escusa figura chamada, Harry Donenfeld, um nome de máxima importância na história do Superman, da DC Comics e dos quadrinhos em geral.

O escritor Gerard Jones diz no livro Os Homens do Amanhã algo que é reforçado por outros escritores posteriores: por trás da popularidade das revistas pulp e das HQs que borbulharam nos anos 1920 e 1930 nos EUA havia um motivo nada bonito: como o país vivia os tempos de Lei Seca, na qual o consumo de álcool foi criminalizado, se construiu uma enorme rede de contrabando de bebidas que criou a estrutura criminal mais tarde reaproveitada pelo tráfico de drogas. E a importação de papel, que vinha principalmente das frias florestas do Canadá se tornaram o principal veículo de contrabando de bebida, que vinha escondida em meio aos rolos e blocos de papel do país vizinho. E nomes como Harry Donenfeld enriqueceram nesse negócio que envolvia contrabandistas, gangsters, empresários sujos, policiais corruptos e lavagem de dinheiro.

Nascido na Romênia, fruto de uma família judia, em 1893, Harry Donenfeld emigrou com os pais para os Estados Unidos aos cinco anos de idade e se estabeleceram no Low East Side, em Nova York. Em meio a uma família numerosa (o terceiro de pelo menos quatro irmãos), o pequeno Harry se tornou a “ovelha negra” da família, saindo da escola e se envolvendo em gangues, mas quando a idade chegou, terminou trabalhando como vendedor em uma loja de roupas até se casar, em 1918, e o “dote” da moça lhes permitiu abrir sua própria loja, que foi bem por um tempo, mas foi afogada pela imensa crise econômica que varreu o país na virada da década (e atingiria seu ápice em 1929).

Com o fechamento da loja, em 1921, Harry foi trabalhar com os outros três irmãos, que eram sócios da Martin Press, uma companhia de impressão, na qual atuou como vendedor, o que o tornou o “rosto” da empresa e sua boa lábia e ousadia fez a empresa crescer bem rápido, assumindo a impressão das prestigiosas e de sucesso revistas Cosmopolitan e Good Housekeeping, do grupo Herst, o maior e mais importante da imprensa americana, já em 1923. Este sucesso fez Donenfeld expulsar os irmãos mais velhos do negócio e assumir ele mesmo o controle da empresa, mantendo apenas o caçula Irwing como sócio minoritário e chefe da impressão.

Jack Liebowitz e Harry Donenfeld: parceiros fieis.

Foi nessa época em que Donenfeld investiu na publicação de revistas pulp por meio de várias editoras com nomes diferentes, que duravam pouco tempo e mudavam de “sociedade” a cada par de anos como forma de escapar do fisco, e provavelmente fez fortuna fazendo contrabando de bebida e lavando dinheiro por meio de sua impressora. Em 1929, ele encontrou um contador confiável na figura de Jack S. Liebowitz, que o auxiliou a manter a saúde financeira do empreendimento inteiro e virou seu verdadeiro “braço direito”, e as revistas pulp cresceram em seu negócio, o que o levou a fundar a Independent News, em 1932, que fazia a distribuição das publicações para as bancas de jornais, o que colocou Donenfeld e Liebowitz no topo do negócio, responsáveis pela impressão, publicação e distribuição. Em 1934, ele foi acusado de obscenidade por causa do conteúdo erótico da maioria dessas revistinhas, e embora tenha escapado da cadeia, mudou o direcionamento para histórias “sérias” na linha de aventura.

Foi então que o major Malcolm Wheeler-Nicholson o procurou para fazer a impressão de sua revista More Fun Comics, em 1935, iniciando a parceria dos dois.

Capa da primeira edição de Detective Comics.

Donenfeld era um homem inteligente e afiado nos negócios, portanto, quando o major Malcolm Wheeler-Nicholson enforcou o próprio negócio em dívidas, o contrabandista apresentou uma solução “mágica”: abrir uma nova empresa em sociedade entre os dois para publicar a nova revista seria a forma do ex-militar quitar a dívida. Por isso, nasceu a empresa Detective Comics, Inc. justamente para editar a nova revista Detective Comics, que era uma sociedade entre Donenfeld, Wheeler-Nicholson e o ágil, afável e discreto contador do gangster, Jack S. Liebowitz, que comumente atuava como “laranja” de Donenfeld em seus negócios escusos, e a revista chegou às bancas com data de capa de março de 1937.

Fica óbvio que o nome DC Comics adveio das iniciais de Detective Comics, mas embora esta empresa com este nome só tenha surgido em 1937, como era um tipo de subsidiária da National Allied Publishing, os historiadores consideram que a DC foi fundada em 1935 por Wheeler-Nicholson, mas deu seu primeiro grande passo nos negócios com a entrada em campo de Donenfeld.

E mais: Donenfeld, claro, era uma raposa nos negócios, assim, Wheeler-Nicholson não conseguiu saldar suas dívidas e a National Allied Publishing teve que declarar falência ainda em 1937, e “coincidentemente”, terminou comprada em um leilão público por Donenfeld, que dessa forma, assumiu o controle das duas empresas e do parque editorial que envolvia More Fun Comics, Adventure Comics e Detective Comics.

O prédio no qual funcionava a DC Comics, no 9º andar (grafado), na Lexington Avenue, n.º 480.

Donenfeld e Liebowitz mudaram o endereço da National/DC para o n.º 480 da Lexington Avenue, em Manhattan, ocupando todo o 9º andar do Grand Central Palace, um sólido edifício de escritórios em estilo art decor, vizinho à Grand Central, a belíssima estação central de trens de Nova York. Lá, a dupla instalou também suas outras empresas, como a Independent News, e esse seria o quartel general da DC Comics por décadas.

E Donenfeld queria mais! Era chegada a hora de ter uma revista pautada em histórias de ação, a Action Comics!

Estava montado o cenário editorial para o surgimento do Superman.

Decola a Carreira de Siegel & Shuster

Quando o major Malcolm Wheeler-Nicholson assumiu ele próprio a editoria da revista More Fun Comics, ele delegou o trabalho diário na redação para o desenhista Vin Sullivan, a quem encarregou desesperadamente para encontrar novo material inédito para na revista.

Doutor Oculto (de laranja) por Siegel e Shuster.

E foi na More Fun Comics 06, de outubro de 1935, que saiu não a primeira, mas as duas primeiras HQs publicadas profissionalmente por Jerry Siegel (texto) e Joe Shuster (arte): Henri Duvall, uma aventura do tipo “capa e espada”, baseada nos Três Mosqueteiros de Alexandre Dumas, que teria vida curta; e a mais bem-sucedida Doutor Oculto (Doctor Occult), que trazia um detetive de casos sobrenaturais, cujas aventuras seriam publicadas mensalmente nesta revista pelos próximos sete anos!

Precursor de personagens como John Constantine, o Doutor Oculto é considerado pelos historiadores como o primeiro super-herói da DC Comics, porque embora não usasse um uniforme, mas a roupa padrão do imaginário do detetive da época, com terno, chapéu e sobretudo, o Doutor Oculto lidava com ameaças sobrenaturais e foi, também, o primeiro personagem da DC/National a se tornar recorrente nas publicações e ter longevidade.

Com outras editoras publicando material inédito ao mesmo tempo, como a Fox Features, Wheeler-Nicholson decidiu lançar a segunda revista, que batizou primeiro de New Comics e ganhou o nome de New Adventure Comics no número 12, de janeiro de 1937. E esse número trazia uma nova atração assinada por Siegel & Schuster: Federal Men, baseado nas aventuras dos agentes federais do então jovem FBI. E mais: numa aventura dentro da aventura, eles introduziram um policial do futuro cujo o nome era Jor-L, um nome que logo em breve seria reutilizado.

Slam Bradley por Siegel e Shuster.

Quando Malcolm Wheeler-Nicholson precisou se unir com Harry Donenfeld e Jack Liebowitz e Detective Comics 01 e chegou às bancas com data de capa de março de 1937, com histórias que, como o título entregava, estavam focadas na linha de policiais e detetives, a revista já trazia outras duas HQs de Siegel e Shuster: Slam Bradley, um detetive fortão, e aventureiro que combatia o crime organizado; e Spy (Espião), protagonizada pelo aventureiro Bart Reagan e sua auxiliar Sally Norris, cuja publicação também se estenderia por sete anos.

Jerry Siegel (em pé) e Joe Shuster: consolidados artistas da DC Comics antes mesmo de criarem o Superman.

Ou seja, Siegel e Schuster tinham cinco atrações publicadas nas três revistas do conglomerado National/Detective Comics Inc., o que fazia deles não somente uma dupla de artistas bem-sucedida, mas como provavelmente os principais criadores da jovem editora.

E sim, você notou certo: seria a revista Detective Comics que faria a National ficar mais conhecida como DC Comics e, também, seria nessa mesma revista, alguns anos à frente, que surgiria o Batman.

Mas calma, temos que chegar ao Superman primeiro…

Primeiras Tentativas de Criar o Superman

Os especialistas em quadrinhos Gerald Jones (que escreveu o livro Os Homens do Amanhã) e Brad Meltzer (que escreveu O Livro das Mentiras) destacam que o pai de Jerry Siegel foi assassinado em 1932 e não deve ser coincidência que ele tenha criado um homem à prova de balas que combate o crime logo depois.

A primeira versão do Superman: um vilão careca!

O primeiro esboço do Superman nasceu já em janeiro de 1933, quando Siegel e Shuster publicaram a terceira edição do fanzine Science Fiction, que haviam criado no ano anterior, e nele publicaram a história The Reign of Superman (O Reinado do Superman), na qual um cientista sem escrúpulos faz experimentos em um homem normal, um mendigo chamado Billy Dunn, que, como resultado, ele fica careca e passa a ter incríveis habilidades mentais: ler e controlar mentes e até prever eventos futuros. Adotando o nome de Superman, Dunn usa seu poder para tentar dominar o mundo até que seus poderes evanescem e ele volta a ser o ninguém que era antes. O tom pessimista da história talvez reflita o luto pela morte do pai, mas em entrevistas posteriores, Siegel relatou que, quando decidiu escrever histórias seriadas do personagem, percebeu que as pessoas gostavam muito mais de ler sobre sujeitos heroicos do que sobre vilões. O nicho das histórias centradas em vilões existia, e o melhor exemplo era o Dr. Fu Manchu, criação de Sax Rohmer, popularizada nas revistas pulp, mas que depois migrou para uma série de livros e foi adaptada como quadrinhos nas tiras de jornais, mas eram bem mais complicadas de se manter em produção. Por isso, Siegel mudou o conceito do Superman para o de um aventureiro com habilidades sobrehumanas que luta pelo bem.

É dito por alguns autores que a maior influência inicial de Siegel para criação do Superman foi o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que cunhou o conceito do überman, um ser humano superior e sem moral. Esse é o Superman de The Reign…, mas aparentemente, Siegel decidiu inverter o conceito. O escritor também usou como influência as histórias de Doc Savage (um aventureiro das revistas pulp, que é muito durão e é chamado de “o homem de bronze”), mas fundamentalmente, do romance Gladiador de Phillip Wyllie, que fora publicado em 1930, e que narra a história de um homem com grandes habilidades, muito similares ao do Superman em suas primeiras aventuras, com a força proporcional a de uma formiga e a capacidade de saltar tal qual a dos gafanhotos.

Siegel também disse em entrevistas que as primeiras propostas de tiras de jornal que ele e Shuster apresentaram aos editores dos sindicatos de distribuição foram rejeitadas e que um dos editores lhe disse que suas histórias não eram “fantásticas o suficiente”, e que se ele quisesse ter sucesso, precisaria criar algo diferente dos aventureiros que já pululavam em pulps e jornais. E foi o que ele fez.

O Superman de 1933 para a Consolidated, da qual só sobrou a capa.

Em maio de 1933, Siegel e Shuster apresentaram sua segunda versão do Superman: ele continuava a ser um cara que fora vítima de um cientista inescrupuloso que fez experimentos nele e se tornou mais do que humano, com superforça e uma pele impenetrável à prova de balas, mas agora, ele era um herói que decide combater o crime com as próprias mãos. Este Superman – nunca descobrimos o nome dele – não usava um uniforme e era mais um vigilante urbano na linha do Slam Bradley que publicariam depois. Na época, a dupla descobriu que os editores da Consolidated Book Publishers, sediada em Chicago, iam visitar Cleeveland em busca de parcerias comerciais e decidiram mostrar o material para eles. A Consolidated publicava com sucesso a HQ Detective Dan: Secret Operative, outra daquelas revistas em quadrinhos pioneiras que publicavam material inédito que começaram a brotar no período. Os editores inicialmente gostaram do material, mas um mês depois, comunicaram que não iriam publicá-lo, porque a revista deles estava com vendas em declínio.

Siegel refletiu sobre essa rejeição e disse a Shuster que achava que o motivo era por eles serem muito jovens e inexperientes, por isso, decidiu tentar a sorte com artistas mais conhecidos, excluindo o desenhista dos projetos futuros. Shuster ficou tão furioso que rasgou e queimou em sua lareira a HQ de teste que haviam produzido para o Superman, da qual apenas sobreviveu a capa. Mas o fato é que Siegel – como revelaram algumas cartas que vieram à tona durante o processo judicial da família Siegel contra a Warner Bros. em 2017 – estava insatisfeito com o “amadorismo” de seu colega Joe. E precisamos ser francos: Shuster tinha um estilo classudo de traço quando fazia figuras paradas, e é preciso mencionar que adicionava elementos estéticos interessantes de art décor em prédios e veículos como trens, porém, não era tão bom em movimento e tinha sérias dificuldades de dar singularidade às suas figuras humanas: ele até conseguia criar dois ou três tipos diferentes de personagens masculinos, por exemplo, mas todas as suas mulheres pareciam exatamente iguais, tanto no traço do rosto como nos penteados de cabelo.

A arte de Leo O’Malia na tira de Fu Manchu.

A dupla era amiga da escola, mas Siegel considerou, não sem razão, que talvez não tivesse futuro se ficasse limitado a um desenhista de tão poucos recursos. Siegel escreveu para vários desenhistas “do segundo escalão” da época, mas que já estavam com carreiras promissoras, propondo uma parceria. O primeiro que lhe respondeu foi Leo O’Mealia, que trabalhava na tira de jornal de Fu Manchu para o Bell Syndicate, e em julho de 1933, ele ilustrou uma sequência de tiras de jornal de uma nova versão do Superman, agora, um aventureiro vindo do futuro distante, que voltou no tempo imediatamente antes da Terra se autodestruir, mas que tinha superforça e invulnerabilidade por milhares de anos de evolução, se tornando um combatente do crime. A Bell recusou a tira.

A origem do Superman na belíssima arte de Russell Keaton feita para três dias da tira diária proposta em 1934.

Demorou mais um tempo até que Siegel conseguisse um novo parceiro, mas o encontrou em Russell Keaton, que havia acabado de se tornar o artista principal da tira de jornal de Buck Rogers, que era um grande sucesso desde que fora lançada em 1929, e trabalharia em breve também na tira Skyroads, sobre as aventuras de pilotos de aviões. Em junho de 1934, Keaton ilustrou um roteiro de Siegel com outra versão da origem do Superman: ele continuava sendo um homem evoluído do futuro distante que chega ao nosso presente, mas agora, ele chega aqui como uma criança de três anos de idade, é encontrado pelo casal Sam e Molly Kent e levado a um orfanato, onde causa problemas com sua superforça e pele impenetrável, enquanto os Kent retornam ao orfanato e o adota. Em novembro, Siegel enviou um novo roteiro dando prosseguimento às aventuras do Superman, numa trama sobre um jogador de futebol que é ameaçado por criminosos – uma trama que seria reutilizada no futuro próximo – e até mencionava um uniforme especial quando Clark Kent se tornasse o Superman, porém, aparentemente, Keaton não chegou a desenhar essa segunda parte. Ao apresentar a proposta da primeira parte ao National Newspaper Syndicate ao qual trabalhava, o Superman foi rejeitado de novo pelos editores, e o artista pediu para se afastar do projeto, pois precisava de tempo para dar conta do material em que já trabalhava.

Imagem promocional da dualidade Clark Kent e Superman criada por Joe Shuster para promover o material que criaram para as tiras de jornal.

Outras tentativas não foram frutíferas, então, Siegel voltou ao amigo Shuster para retomarem a parceria. Apesar de magoado, Shuster aceitou e eles voltaram a trabalhar juntos, dessa vez, criando, ali pelo início do ano de 1935, a versão do Superman que chegaria às páginas impressas, como uma tira de jornal sobre um alienígena que detém um corpo mais evoluído do que o nosso, com superforça, invulnerabilidade, velocidade e a capacidade de dar grandes saltos, e usando o seu típico uniforme azul com a capa vermelha e o símbolo do S no peito. Era uma história contendo 100 quadros, e como nas tiras diárias dos jornais era normal se publicar apenas três ou quatro quadros por dia, esse conjunto daria para mais ou menos um mês ou três semanas de publicações diárias.

Esboço de Lois Lane a partir de Joanne Carter, depois Joanne Siegel.

Investindo no Superman por saber que tinham um material muito bom em mãos, a dupla até contratou uma modelo profissional para servir de molde à amada do herói. Baseado em uma velha colega de colégio chamada Lois Amster, Jerry Siegel criou Lois Lane, inaugurando a tradição dos duplos “eles”. A modelo contratada chamava-se Joanne Kovacs, outra filha da comunidade judaica de Cleveland e que trabalhava profissionalmente como modelo, embora ainda estivesse no ensino médio. Mais tarde, ela adotaria o nome artístico de Joanne Carter e não apenas seu rosto, mas sua personalidade foram traduzidos ao papel por Joe Shuster e o encontro com a moça foi tão marcante que Siegel continuou pensando nela, em sua personalidade altiva e determinada e em sua inteligência para escrever as cenas de Lois Lane. A moça seguiu seu rumo e sua carreira, Siegel casaria com Bella Lifshitz em 1939 (com quem teria seu filho Michael), mas no futuro, Siegel se casaria com Joanne após se reencontrarem em 1948.

Em junho de 1935, Siegel e Shuster conseguiram vender Doutor Oculto e Henri Duvall para o major Malcolm Wheeler-Nicholson e sua National Allied Publishing, mas decidiram “guardar” o Superman para os jornais, que continuavam tentando emplacar. No mês de outubro, a dupla pediu a Wheeler-Nicholson que os ajudasse a divulgar o Superman entre os sindicatos das tiras, e o editor gostou do material e pediu para publicar o homem de aço em suas revistas, mas Siegel e Shuster recusaram: a essa altura, achavam que os negócios da National não estavam bem (e estavam certos) e os pagamentos atrasavam, então, pensaram que, pelo menos, deviam entregar sua “maior criação” a um editor mais confiável ou bem-sucedido. E continuaram produzindo outras HQs para ele.

Depois disso, com More Fun Comics, Adventure Comics e Detective Comics nas bancas e Siegel e Shuster publicando vários personagens diferentes, a direção da National migrou de Wheeler-Nicholson para Harry Donenfeld e Jack Liebowitz, e foi quando tudo mudou.

Jerry Siegel e Jack Liebowitz, em 1940.

No início do outono de 1937, Siegel e Shuster começaram a negociar a venda do Superman para a McClure Syndicate, cujo um dos editores era Max Gaines, alguém sobre a qual iremos falar mais adiante. Logo em seguida, em dezembro daquele ano, Siegel foi até Nova York conversar com Liebowitz, que lhe pediu mais material para o lançamento de uma nova revista que se chamaria Action Comics, no ano seguinte. O escritor enviou o material pelo correio, mas não o Superman.

Em janeiro de 1938, Siegel participou de uma ligação telefônica tripla – antecessora das audioconferências de hoje – com Liebowitz e Gaines, que lhe informou que a McClure havia recusado o Superman e sugeria que o escritor entregasse o material para a National publicar. Siegel relutou um pouco, pois realmente queria o homem de aço como uma tira de jornal, o seu maior sonho, porém, quantas vezes o personagem já havia sido recusado? Era uma oportunidade de finalmente fazer o herói ver a luz do dia. Ele concordou e Gaines repassou o material para Liebowitz, que ficou impressionado com a história e decidiu publicá-la.

Numa carta datada de 10 de janeiro, o editor Vincent “Vin” Sullivan pedia para Siegel e Shuster adaptarem aquelas várias semanas de tiras diárias que haviam produzido para o formato de uma revista em quadrinhos com 13 páginas. A dupla se dedicou por vários dias a recortar e colar os samplers da tira no formato mais estreito da HQ, que geralmente trazia nove quadros por página. A tira daria que tinham produzido tinha 100 quadros, o que alimentaria três ou quatro semanas de publicações diárias nos jornais e, adaptada ao formato de revista comics, daria, aproximadamente, para três histórias, que podiam ser publicadas por três edições em três meses.

Eles enviaram o material pronto em fevereiro, recebendo o pagamento padrão de 130 dólares, o que dava 10 dólares por página, 5 para cada um. O valor da história equivaleria a 2.800 dólares na cotação de 2023. Em março, a dupla assinou um contrato com a National/ DC Comics cedendo os direitos autorais (copyrights) à editora, o que era a prática comum do mercado da época.

A nova revista, que se chamaria Action Comics, como a maioria de seu tempo, trazia várias histórias de oito ou treze páginas cada, coletando um total de cerca de 64 páginas, com vários personagens diferentes, um formato que chamamos no Brasil de mix. Ela chegou às bancas no dia 18 de abril de 1938, com data de capa de junho e trazendo o Superman na capa, mas curiosamente, o editor decidiu pular o início da história, de modo que o material escolhido foi o da segunda semana, com a trama iniciando pelo meio!

Sucesso Imediato

A revista Action Comics 01 foi lançada com data de capa de junho de 1938 (historiadores dizem que a data real de publicação foi em 18 de abril). Refletindo a decisão de Siegel, Shuster e Sullivan, a história do Superman começa do meio, ou melhor, não tem começo. No primeiro quadro, o herói já está carregando uma criminosa nas mãos e precisa ir à casa do Governador para impedir que outra mulher, inocente, seja condenada à morte por um crime que não cometeu. O motivo dessa decisão editorial nunca ficou totalmente esclarecido.

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A icônica capa de “Action Comics 01”, de 1938, com o visual primeiro do Superman.

Para situar os leitores, Sullivan encomendou à dupla uma pequena introdução com a origem do personagem. Adaptando a origem que contaram em duas páginas na versão original da história (cujo início não foi publicado), em uma única página e poucos quadros, Siegel e Shuster explicam que o Superman nasceu em um distante planeta, que foi enviado em um foguete à Terra antes que aquele mundo explodisse; foi encontrado após o pouso de sua nave na Terra por um “motorista” aleatório e levado a um orfanato (não há aqui qualquer menção sobre ele ser adotado por pais adotivos) e que já manifestava habilidades sobrehumanas desde bebê. A página explica os seus poderes, mostrando que seres como insetos, formigas e gafanhotos são capazes de proezas sobrehumanas, como dar grandes saltos e levantar objetos mais pesados do que eles próprios, e que a raça ao qual o Superman advém representa o ápice da capacidade humana, moldada em milhões de anos de evolução, tendo corpos mais fortes e desenvolvidos do que os nossos.

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A curta origem na primeira história.

Rapidamente são apresentadas quais são suas habilidades, como a capacidade de saltar 200 metros por cima dos edifícios mais altos, correr mais rápido do que uma locomotiva (que naqueles tempos, corriam a 120 ou 150 km/h), podia “erguer pesos tremendos” (ou seja, tinha superforça – não especificada quanto) e que tinha “uma pele quase impenetrável e nada menos do que uma granada poderia perfurá-la”, quer dizer, era quase invulnerável, mas não totalmente.

Como se pode ver, essa primeira versão do Superman não era exatamente o personagem que conhecemos nos dias de hoje. Apesar de já ter seu uniforme azul e vermelho, com capa vermelha esvoaçante, símbolo com o “S” também vermelho sobre um escudo amarelo e a sunga vermelha sobre a calça azul, ainda que não usasse botas nessas primeiras aparições, mas um tipo de sapatilha amarrada por tiras (que eram um pesadelo de colorir, por isso seriam substituídas em breve – as botas de cano alto só aparecem mesmo na edição 05 de Action Comics); é notório que o herói não voava e nem era totalmente invulnerável.

A ideia de que o Superman voava e era totalmente invulnerável seria desenvolvida aos poucos nos anos seguintes, especialmente nas outras mídias em que foi sendo adaptado, como o seriado para rádio e os desenhos animados dos irmãos Fleischer. Falaremos deles adiante.

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O início da história de “Action Comics 01”, pelo meio.

A trama da história propriamente dita – posteriormente intitulada “Superman, o campeão dos oprimidos” – mostrava o Superman já de posse da verdadeira autora de um assassinato correndo até a casa do Governador do Estado, antes da meia-noite, quando uma inocente seria eletrocutada no lugar daquela, enfrentando a resistência da segurança e do próprio governador, até convencê-lo a parar a contagem. Então, somos introduzidos a Clark Kent, o alterego do herói, que é repórter do Daily Star (Estrela Diária) – mesmo nome do jornal da Toronto de Shuster – e fica feliz ao ver que a matéria sobre o ocorrido não menciona o Superman. O seu editor-chefe – que não é nominado nessa história, mas se chama George Taylor – designa o repórter para conseguir matérias sobre o misterioso vigilante, o que ele aceita de bom grado, afinal, quem melhor para tal tarefa?

Em seguida, usando as informações dadas a Kent, o Superman impede um marido abusador de surrar novamente a mulher e Clark vai tentar a sorte com sua companheira de redação, a jornalista Lois Lane, que faz sua estreia, e ela aceita sem muita convicção. Mas o casal é perturbado no restaurante por um grupo de valentões e Clark finge ser fraco e covarde, enquanto ela é sequestrada. Então, o Superman persegue os criminosos, agarra o carro com as próprias mãos, tira Lois de dentro e choca o veículo com violência contra uma grande rocha, criando uma variação da cena da capa. A intrépida repórter fica impressionada por seu salvador e, no dia seguinte, escorraça o pobre do Clark, por ser covarde.

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O primeiro encontro com Lois Lane.

Por fim, o editor dá uma nova missão a Kent: cobrir a guerra na pequena república sulamericana chamada San Monte, e o repórter vai a Washington-DC, onde percebe uma estranha aproximação de um senador com um lobista ligado à fabricação de munições. Quando usa seus poderes para subir ao edifício onde o lobista mora e espiona uma conversa reveladora sobre ganhos escusos com a guerra, o homem de aço sequestra o empresário e o leva para um “passeio” aterrorizador pelos telhados da cidade, passando por cima do Capitólio (onde fica o Congresso dos EUA) e a história termina com o herói saltando de lá até um prédio distante, mas não conseguindo alcançá-lo e caindo com o criminoso nos braços. É o fim de ambos?

Action Comics 01 foi um sucesso imediato e absoluto! Sua capa impactante, com o Superman erguendo um carro sobre a cabeça e chocando-o contra uma rocha, deixou os leitores da época pasmos. Mais de um milhão de exemplares foram vendidos, um número muito alto na época (e ainda hoje), o que obrigou à National a reimprimir a edição várias vezes.

Zatara, o mágico.

Também é importante mencionar que Action Comics era uma revista do tipo mix, portanto, tinha outras atrações. A história do Superman era a primeira, mas em seguida, vinham: Chuck Dawson, uma história do velho oeste, por Homer Fleming; Zatara, o mágico (uma imitação do Mandrake de Lee Falk), por Fred Guardineer; Stick Mitt-Stimson, uma trama policial focada em um bandido, por Russell Cole; uma adaptação de As Aventuras de Marco Polo (que seriam publicadas por 17 edições), por Sven Elven; Pep Morgan, uma trama sobre um boxeador que descobre um colega trapaceando nas partidas, de novo por Fred Guardineer; Scoop Scanion, as desventuras de um repórter, por Will Ely; e Tex Thomson, um garoto do texas que vive aventuras aleatórias pelo mundo, por Ken Fitch e Bernard Bailly.

Várias dessas aventuras continuariam a ser publicadas nos números seguintes da revista, juntamente a outras atrações ocasionais. Zatara teria a mais longeva participação, se mantendo no título por toda a Era de Ouro até o número 141, de 1950; mas Tex Thomson se manteria por 74 edições, Pep Morgan por 41, Chuck Dawson por 22, Marco Polo por 17 e Scoop Scanion por 13.

A trama do Superman de Action Comics 01, com seu início “pelo meio” e a sequência meio errante de eventos (a mulher inocente, o marido abusador, os bandidos do carro, o lobista da indústria de armas) deixam muito claro que a história foi criada para ser uma tira diária de jornal, com os eventos se sucedendo de modo meio fantástico como maneira de manter o leitor interessado. Elas podiam, também, ser facilmente adaptadas como tiras dominicais, pois nos jornais daquela época, aos domingos eram publicadas tiras com maior quantidade de quadros (tipo, metade da página do jornal) e em cores, o que é sugerido pela republicação dessa história um ano depois (falaremos disso adiante). A trama terminar com um “to be continued…” tão típico das histórias seriadas também era um recurso que se tornaria incomum nas HQs da Era de Ouro e no Superman, sobretudo, com a adoção (em breve) de histórias sempre fechadas em si mesmas.

A primeira página de Action Comics 02.

Action Comics 02 chegou às bancas com data de capa de julho de 1938 e não trazia o Superman na capa, mas uma ilustração remetendo à aventura de Scoop Scanion de um casal compartilhando um paraquedas. Como a revista era do tipo mix, os editores Gaines e Sullivan decidiram dar a oportunidade aos outros personagens publicados a ilustrarem as capas, de modo que o homem de aço só protagonizaria a portada de Action Comics de novo na edição 07.

A história do número 02 continuava de onde parou, com Superman caindo tranquilo no chão para sabermos que se trata apenas de uma “pegadinha” do herói para assustar ao lobista da indústria de munições. A trama é ainda mais labiríntica, embora dessa vez mais focada, com o Superman indo para San Monte e forçando o empresário a ir também, e lá, se disfarçando de soldado e colocando o lobista à força para lutar na guerra, com Lois Lane aparecendo também e sendo até acusada de traição. No fim, o lobista aprende sua lição e para de fabricar armas. Como se pode notar, apesar da flutuação de temas, as histórias dessas duas primeiras edições funcionavam como uma só e os quadros são numerados até 100, indicando que (incluindo o início da trama que não foi publicado) compunham mais ou menos um mês de publicação em uma tira diária.

Herói anti-guerra na história de Action Comics 02. Por Siegel e Shuster.

E vale à pena mencionar que, quando Clark Kent envia suas notícias para os EUA nesta aventura, ele as direciona ao Evening News de Cleveland, Ohio, dando a localização real de onde Siegel e Shuster viviam, e não sendo mais o Estrela Diária do número anterior, ainda que este jornal voltasse nos números seguintes. A cidade de Metrópolis ainda não havia sido criada e as aventuras do Superman se passavam em uma “grande cidade”, embora às vezes, como neste caso, Cleveland fosse nomeada diretamente.

A partir de Action Comics 03, Siegel e Shuster já pareciam produzir aventuras para o estilo de uma revista mensal mesmo, com histórias autocontidas, embora mantendo a característica da época de tramas cheias de reviravoltas e surpresas, no qual muitos eventos se sucedem rapidamente. Nesta edição, o Superman também dá a lição em um empresário, dessa vez, o dono de uma mina com problemas de segurança, com o herói se disfarçando (de novo) de mineiro para levar o “patrão” para fazer uma festa com ricaços dentro da mina e usar suas habilidades para forjar um acidente e deixar todos soterrados lá dentro, o que faz com que, quando finalmente saem, o empresário muda de coração e passa a investir na segurança de seus trabalhadores.

Além da caracterização muito típica de “herói da classe trabalhadora” que marca essas primeiras aventuras do homem de aço por Siegel e Shuster, outra curiosidade é que nessa edição 03 o herói basicamente age a história inteira sem seu uniforme, estando fantasiado de mineiro.

Cena de Action Comics 10.

As aventuras prosseguiram na mesma linha: Action Comics 04 trouxe o Superman de novo trabalhando disfarçado, assumindo a identidade de um jogador de futebol americano para impedir criminosos de manipular os jogos; e a edição 05 mostra pela primeira vez a rivalidade jornalística entre Lois Lane e Clark Kent, um tema que seria muito usado nas décadas seguintes, embora aqui tenha um motivo por trás, quando uma terrível enchente ocorre no interior pelo rompimento de uma represa e o editor (George Taylor) nega o trabalho para Lois por não ser “coisa de mulher” e ela repassa uma demanda falsa de notícia para tirar Clark do caminho e ir ao local, o que ocasiona em nosso herói ser demitido pelo raivoso editor. Para garantir seu emprego, Clark vai correndo até o local, salva um monte de vidas, inclusive, a de Lois, cujo carro é atingido pelas águas e ela morreria afogada não fosse o herói e derruba partes de uma montanha (seu maior feito de força até então) para interromper a torrente.

O primeiro beijo do Superman e Lois… é fora de quadro!

Satisfeita por ter sido salva por seu herói, Lois rouba um beijo do Superman e se declara apaixonada por ele pela primeira vez, mas o homem de aço se esquiva depois, e vai embora, com Clark telefonando ao jornal, ditando sua reportagem e ganhando o emprego de volta. Talvez para evitar problemas com os pais dos jovens leitores, por incrível que pareça, a cena do beijo é descrita pelo texto, mas não aparece nas imagens! Foi “fora do quadro”.

Outro detalhe importante do número 05 é que é a primeira vez que vemos um office boy circulando pela redação do jornal retratado como um menininho loiro, de uns 8 anos de idade, com uma gravata borboleta. Anônimo, esse menino continuaria a aparecer pelas histórias e anos seguintes. Muitos anos à frente, esse garoto será chamado de Jimmy Olsen.

A edição 06 traz um empresário inescrupuloso se aproveitando do mistério em torno do Superman para ganhar dinheiro às suas custas, com propaganda e produtos. De novo, Lois e Clark disputam por quem irá pegar a reportagem e, dessa vez, Lois finge voltar a “estar de boas” com o colega, o convida para jantar, mas dopa a bebida de Clark, que “desmaia” ela vai atrás do “Superman” e seu empresário e desmascara a fraude, o que faz com que ela seja jogada pela janela do edifício, no que é salva pelo herói – que fingiu o desmaio, pois era imune ao veneno – que leva a dupla de bandidos à cadeia.

A segunda capa do Superman.

Superman está de volta à capa em Action Comics 07, de dezembro de 1938, que inaugura a tradição da história de ter um primeiro quadro bombástico de ação, quase sempre desassociado do restante da aventura, precursora das splash pages do futuro. As tramas persistiram com a pegada “pé no chão” e auxílio aos oprimidos, com o herói usando seus poderes para ajudar um circo com dificuldades financeiras; a edição 08 com o Superman auxiliando que casas populares de melhor qualidade sejam construídas para os desassistidos da Flórida; o número 09 sendo o primeiro a trazer uma chamada na capa anunciando que há uma aventura do herói (mesmo ele não aparecendo na ilustração da frente) e a história em que Lois confessa a Clark que está apaixonada pelo homem de aço e ele rir quando sozinho; e a edição 10, já de março de 1939, com uma bombástica capa do herói confrontando um avião (uma cena usada na segunda história publicada do herói) e a história na qual vai ao interior combater maus tratos em uma prisão.

A capa da edição 12 dá destaque a Zatara, mas traz um selo anunciando a presença do Superman.

Na edição 11 ele age para punir dois empresários gananciosos e Action Comics 12, de maio de 1939, edição comemorativa de um ano de publicações do herói, inaugura um selo que aparece na capa da edição – com uma ilustração de Zatara – traz uma imagem do homem de aço rompendo correntes com seu peito, uma maneira de sinalizar que o Superman estava naquela revista, mesmo não aparecendo na ilustração principal da capa. A história mostra o herói em uma ação meio ensandecida para pressionar o prefeito da cidade a adotar políticas mais firmes de controle do trânsito. Uma curiosidade é que essa aventura se encerrava com um quadro de propaganda anunciando a estreia do Batman naquele mesmo mês em Detective Comics!

Em junho de 1939, a National publicou uma revista especial de 96 páginas para celebrar a New York’s World Fair, a Feira Mundial de Nova York, numa publicação usada para mostrar às pessoas o que a editora tinha de melhor, reunindo material diverso, desde as HQs de humor até aventuras de Superman, Zatara e Sandman, um vigilante mascarado que era publicado em Adventure Comics. O Batman, recém-estreado, não participou da festa. A história do Superman mostra o herói e Lois em meio à tentativa de um crime em meio ao evento da vida real. O interessante é a cena em que um bandido dispara uma arma contra a jornalista e vemos o Superman vendo a ação, correndo em supervelocidade e conseguindo pegar a bala com a mão antes dela atingir sua colega.

Era a primeira menção ao Superman ser mais rápido do que uma bala. Que é muito mais veloz do que um trem, não é mesmo?

Ampliando a DC Comics

O lançamento de Action Comics foi um estouro e a transloucada administração de Harry Donenfeld e Jack Liebowitz (muito mais ousada e temerária do que a de Malcolm Wheeler-Nicholson) aparentemente deu ótimos resultados. Ou pelo menos, a lavagem de dinheiro de contrabando possibilitava saúde financeira à empresa… Mas o fato é que se iniciou um movimento de ampliação da National.

Max Gaines, um dos maiores editores da Era de Ouro dos Quadrinhos.

Nascido em 1894 em Nova York, em uma família judia, Max Gaines se tornou um homem corpulento e agressivo, algo que levou para os negócios. Após uma série de trabalhos distintos no comércio, Gaines virou sua carreira ao trabalhar na Eastern Colors, uma companhia de impressão, concorrente daquela da Martin Press de Donenfeld. A empresa imprimia tiras de jornal dominicais e Gaines teve a ideia de montar uma revista de formato tabloide a partir disso, mas a Eastern não arriscou a venda do produto, embora Gaines tenha conseguido produzir Funnies on Parade como um número promocional distribuindo de graça de uma empresa de produtos saudáveis, em 1933.

O sucesso da empreitada (que chegou a ter tiragens de 250 mil cópias!) o levou a repetir a ideia com várias outras empresas e uma parceria com a Dell Publishing que lançou a seminal Famous Funnies, em 1934, que é considerada a primeira comics de verdade. Por causa disso, Gaines foi contratado como gerente da McClure Syndicate Newspaper, uma das principais empresas produtoras e distribuidoras de tiras de jornal dos EUA, e manteve a parceria com a Dell na produção de outras HQs.

Harry Donenfeld foi muito esperto em trazer Gaines, em 1938, para compor o quadro da National e de sua subsidiária Detective Comics Inc. como editor, mas Gaines era proativo (e raivoso) demais para se submeter a um chefe, então, decidiram criar uma terceira empresa, a All-American Comics, como uma sociedade entre Gaines e Jack Liebowitz como “laranja” de Donenfeld. Na prática, assim como a Detective Comics Inc., a All-American era uma subsidiária da National, ainda que, ao contrário das outras duas, funcionava em outro endereço físico, como uma forma do editor ter autonomia.

Gaines seria extremamente bem-sucedido em sua empreitada e iniciou a publicação da revista All-American Comics 01, em abril de 1939, que logo seria seguida por outras revistas, como All-Star Comics e Flash Comics. Reencontraremos a All-American muito em breve…

Superman Chega aos Jornais: As Tiras Diárias e Dominicais

Como já dissemos, a grande ambição inicial de Jerry Siegel e Joe Shuster eram as tiras de jornais, ainda consideradas uma mídia de maior prestígio do que as HQs de revistas. O desafio de contar uma história em poucos quadros diários, fazendo os leitores se interessarem e manterem a leitura dia após dia era algo que atraía grandes artistas. E, de fato, não apenas o parque gráfico arrojado dos grandes jornais permitia impressões melhores do que as revistas, tinham o benefício de não serem coloridas, o que tornava o processo ligeiramente mais fácil. Além disso, o prestígio das tiras atraía artistas de grande calibre plástico, como Alex Raymond ou Hal Foster, que produziam desenhos de altíssima qualidade com suas tiras de Flash Gordon e Tarzan, respectivamente.

Dentro do mesmo plano de expansão que resultou na criação da All-American Comics, Donenfeld e Liebowitz arranjaram para que o Superman ganhasse uma tira diária nos jornais, aproveitando ainda dos contatos de Gaines, que tinha sido diretor da McClure Syndicate Newspaper. Não deve ser coincidência que foi justamente nessa companhia onde o homem de aço encontrou guarida. Aquela mesma que havia rejeitado o personagem apenas um ano antes…

No final do ano de 1938, Siegel e Shuster criaram toda uma nova história para publicarem nos jornais, evitando qualquer republicação do material que tinha saído em Action Comics. Também neste momento, com o aumento da demanda por histórias – sem esquecer que a dupla ainda produzia outras HQs para a DC além do Superman – Siegel e Shuster se viram obrigados a aderir a uma prática que era muito comum na época, mas hoje seria considerada anti-ética: os estúdios, que consistia na terceirização de outros artistas para auxiliar na finalização do material, ainda que apenas a dupla criadora recebesse os créditos. A empreitada é chamada de Siegel & Shuster Studios e, às vezes, também de Shuster Shop (já que envolvia essencialmente outros desenhistas, pois Siegel concentrava pelo menos a maior parte da escrita), mas são denominações informais, já que por motivos óbvios a prática nunca foi formalizada como uma empresa ou algo do tipo. Era mais como um tipo de trabalho terceirizado mesmo.

Embora Siegel estivesse à frente dos roteiros das tiras de jornal, Shuster se responsabilizou mais por ações de supervisão e acabamento, com a maior arte entregue aos jovens artistas Paul Cassidy e Wayne Boring, dois nomes que permaneceriam ligados ao homem de aço por bastante tempo.

Um jovem Paul Cassidy: o primeiro dos desenhistas fantasmas do Superman.

Nascido Paul Henry Cassidy, em 1910 (portanto, apenas quatro anos mais velho do Siegel e Shuster), ele cresceu no Estado de Illinois e cursou a University of Wisconsin-Madison, graduando-se em 1934, com diploma em artes aplicadas e um mestrado em educação artística, o que lhe levou a trabalhar como professor de arte na Milwaukee Vocational School, em sua cidade-natal. Os historiadores costumam afirmar que Cassidy foi o primeiro dos “desenhistas fantasmas” de Joe Shuster no Superman, o que implicaria seu pioneirismo e importância.

É possível que ele tenha começado a trabalhar com o Superman no momento em que a DC Comics decidiu lançar a nova revista Superman e a tira de jornal, quando o volume de trabalho aumentou ao ponto de Shuster ser incapaz de dar conta da arte sozinho. É provável que Cassidy tenha trabalhado nos primeiros números de Superman também, mas sua ocupação principal de início foi a tira de jornal diária, cuja produção obrigou ao artista se mudar para a Cleveland de Siegel e Shuster, em fins de 1938. Ele trabalharia intensamente no Siegel & Shuster Studios por quatro anos.

Wayne Boring: um dos maiores artistas da história do Superman.

Já Wayne Boring nasceu no Estado do Minnesota, em 1905, portanto, sendo 11 anos mais velho do que Siegel e Shuster. Ele estudou no Minnesota School of Arts e no Chicago Art Institute, portanto, tendo uma formação profissional em desenho, ao contrário do autodidata Shuster. Boring trabalhou com vários tipos de ilustração anteriormente e os historiadores afirmam que ele começou a trabalhar no Siegel & Shuster Studios ainda nas tiras de Doutor Oculto e Slam Bradley, provavelmente, fazendo a cobertura de nanquim sobre o desenho a lápis de Shuster. Se isso for verdade, Boring poderia estar envolvido na produção do Superman desde o começo ou pelo menos depois daquela primeira história publicada em Action Comics 01 e 02 e Superman 01, provavelmente, apenas no nanquim, o que manteria a primazia de Cassidy como o primeiro “desenhista fantasma”, mas ao tempo do lançamento da tira de jornal diária, Boring já tinha uma participação artística bem maior, embora em colaboração com Cassidy.

Em breve, Cassidy e Boring começariam a assumir a arte principal nas revistas, também, como veremos em breve.

Os dois primeiros dias da tira diária de quadrinhos nos jornais do Superman. A maior qualidade e definição do traço indicam que Shuster já era “auxiliado” por Paul Cassidy e/ou Wayne Boring.

A tira de jornal estreou no dia 06 de janeiro de 1939 em dezenas de jornais espalhados pelos Estados Unidos e seriam um grande sucesso. A primeira história retratada era um conto detalhado da origem do homem de aço, mostrando seu nascimento no (agora nomeado) planeta Krypton e trazendo o nome de seus pais biológicos, Jor-L e Lora. Prosseguindo o que já havia sido estabelecido em Action Comics 01, os habitantes do planeta já possuía as super-habilidades herdadas por Clark Kent e embora vejamos o motorista que recolheu o bebê da nave espacial, novamente fica implícito que o jovem cresceu em um orfanato, com a trama avançando rapidamente para o Superman em ação.

Coleção com as tiras de jornal de 1939 a 1942: textos de Siegel, arte de Wayne Boring.

Além de primeiro batizarem os pais e o planeta do Superman, essas histórias nas tiras também batizaram o editor do Daily Star como George Taylor, algo que não havia ainda sido mencionado nas revistas.

As tiras foram muito bem recebidas pelo público e auxiliaram a popularizar ainda mais a figura do Superman, tanto que, em novembro de 1939, estreariam as tiras dominicais do herói, com mais quadros e coloridas!

Uma tira dominical do Superman, de maio de 1940.

A equipe de Siegel, Shuster, Cassidy e Boring logo precisou ser ampliada, pois produzir quadrinhos diariamente demandava muito trabalho. Portanto, em 1940, se adicionaram Leo Nowak para fazer o desenho e Dennis Neville para cobri-lo com nanquim, e em 1941, Ed Dobrokta e John Sikela para o desenho e Paul Lauretta especificamente para trabalhar em cenários, com Jack Burnley colaborando de vez em quando na arte, especialmente, nas tiras dominicais.

Embora pouco lembradas e hoje bastante difíceis de se acessar – pois a DC republicou como livros apenas uma fração muito pequena delas – as tiras de jornal foram um veículo bastante popular naqueles primeiros anos e fizeram bastante sucesso. Em seu apogeu, em 1942, as tiras do Superman tinham circulação diária em 300 jornais pelos EUA, além de 90 na tira dominical, e uma audiência diária de 20 milhões de leitores!

A Revista Superman

A publicação das tiras de jornal não foram a única expansão do material do Superman em seu início. Justificando a necessidade de Jerry Siegel e Joe Shuster abrirem um estúdio para auxiliá-los no cumprimento dos prazos, a DC Comics decidiu criar uma nova revista exclusiva do homem de aço e trazendo seu nome no título.

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Capa de “Superman 01”, de 1939.

Com uma bela capa (extraída do quadro de abertura de Action Comics 07), a revista Superman 01, chegou às bancas com data de capa do verão de 1939, e provavelmente, a empreitada foi pensada como uma ação promocional para reforçar o lançamento das tiras de jornal do personagem. Um único personagem ter seu próprio nome em uma revista era uma prática inédita no mercado de então, tanto que o primeiro número daquela revista nem tem o “número 01”, estampado, como se fosse uma edição especial única. O imenso sucesso de vendagem da revista, com certeza, incentivou Donenfeld e Liebowitz a transformá-la em uma revista de periodicidade fixa, criando um regime trimestral, com um número para cada estação do ano.

Com 64 páginas exclusivas do herói, Superman 01 trouxe praticamente apenas republicações do material das quatro primeiras edições de Action Comics. É preciso lembrar que, naqueles tempos, a prática de republicação não era comum, então, quem não comprasse um número, perdia a oportunidade de lê-lo. Trazer esse material de volta era uma maneira de garantir uma “entrada segura” dos novos leitores atraídos pela publicidade em torno do personagem. E deu muito certo.

Primeira página de Superman 01.

Historicamente, o grande atrativo de Superman 01 é trazer o início da história apresentada em Action Comics 01, que dava mais detalhes da origem do herói. O início da história não trazia o nascimento do herói nem mostrava seus pais biológicos como fizera a tira de jornal, começava com o foguete disparando de um Krypton em pedaços, mas daí para frente havia mais detalhes: o “motorista aleatório” que encontra o bebê na nave está acompanhado da esposa e deixam a criança num orfanato, onde ele impressiona a todos com suas habilidades, mas se arrependem do gesto e eles voltam à instituição querendo adotá-lo, o que o orfanato faz de bom grado, aliviados por se livrarem daquele problema. O homem não é nomeado, mas a mãe adotiva ganha o nome de Mary. Mary Kent. Não seria esse o nome pelo qual ela seria mais conhecida no futuro, mas era um começo.

Mas a história mostra explicitamente que foi de seus pais que Clark Kent herdou o seu forte senso moral e que se tornou o Superman após eles morrerem e ele ficar órfão. O texto repete a descrição de seus poderes (saltos, força, velocidade e pele quase impenetrável), os desenhos detalham cada uma dessas situações e descobrimos, em seguida, que Clark Kent se tornou repórter do Estrela Diária exatamente antes dos eventos de Action Comics 01: ele pede pelo emprego e é rejeitado, mas quando criminosos invadem uma prisão para causar um linchamento, o Superman intervém, Clark consegue o “furo” para o jornal e é contratado. Daí, munido das informações que colheu com o criminoso que salvou, o homem de aço parte em busca de inocentar a mulher prestes a ser executada, indo capturar a verdadeira criminosa em um night club, antes de levá-la à casa do governador.

Shuster e Siegel trabalhando nos quadrinhos do Superman.

Outra atração interessante de Superman 01 era uma história em prosa do herói, apresentada em duas páginas, na qual vemos que o homem de aço é perseguido pela polícia, que desconfia de suas ações, e traz a primeira menção a uma “visão telescópica”, quando ele varre as ruas da cidade em busca de um criminoso em fuga.

Mais Heróis para a DC Comics (e além)

Embora alguns historiadores insistam que o Doutor Oculto de Jerry Siegel e Joe Shuster tenha sido o primeiro herói da DC Comics, inclusive, por ser o primeiro dos personagens a se tornar recorrente nas revistas mensais, ele estava no mesmo nível dos aventureiros que permeavam os quadrinhos da época. O Superman seria o primeiro super-herói de verdade, inclusive, pela presença dos superpoderes, além do uniforme e identidade secreta.

E com o sucesso avassalador do Superman em Action Comics, não tardou nada para que Herry Donenfeld, Jack Liebowitz, Max Gaines e Vin Sullivan estimulassem seus artistas a criarem novos personagens diretamente inspirados no homem de aço. Vários deles atenderam a esse chamado.

O primeiro a ser publicado foi o Crimson Avenger, criado por Jim Chambers, que estreou em Detective Comics 20, de outubro de 1938, e foi o primeiro vigilante urbano da DC Comics. Possuindo um parceiro juvenil (side-kick) chamado Wings, ele não tinha superpoderes, mas usava um uniforme, com um terno, um casaco (que servia visualmente quase como uma capa), um chapéu e uma máscara, o que o deixava como uma mistura elaborada dos visuais de Zorro, Besouro Verde e O Sombra, heróis das revistas pulp ou do rádio.

A primeira imagem do Batman, na capa de “Detective Comics 27”, de 1939.

Em seguida veio nosso querido Batman, criado por Bob Kane e Bill Finger, que estreou em Detective Comics 27, de maio de 1939. Usando um uniforme no mesmo padrão do Superman (com botas, capa e calção sobre a calça), usando uma máscara, um carro possante e tendo uma identidade secreta, o homem-morcego claramente não tinha superpoderes, mas nada tira dele o selo de super-herói. Em suas primeiras histórias, o Superman era um sujeito durão, mas o Batman agia com impiedade, e suas histórias eram muito mais violentas e sombrias do que as mais solares do homem do amanhã.

O terceiro a ser publicado seria o Sandman (Wesley Dodds), que também não tinha superpoderes e estava mais no street level tal qual o homem morcego. Criado por Gardner Fox e Bert Christman, ele estreou em Adventure Comics 40, de julho de 1939, e usava um terno com capa e chapéu e escondia sua identidade por trás de uma máscara de gás típica da I Guerra Mundial, e usava uma arma de gás para nocautear os bandidos.

A mesma Adventure Comics trouxe, em seu número 48, de abril de 1940, o Hourman, criado por Ken Fitch e Bernard Baily, que usava capuz, capa e uniforme e tinha superpoderes: ao tomar um produto químico especial, ele ganhava superforça e supervelocidade por uma hora, antes de voltar ao normal. Daí, seu nome.

Junto aos pioneiros Doutor Oculto e Zatara, a união de Superman, Crimson Avenger, Batman, Sandman e Hourman dava ao conglomerado National/DC/All-American um cast realmente vencedor de heróis de sucesso. E isso iria aumentar mais ainda em breve…

Wonder-Man: o primeiro plágio a gente nunca esquece…

E o impacto do Superman na cultura foi tão forte e tão rápido que não foi apenas a DC Comics quem correu atrás de criar novas derivações do tema super-heróis. Outras editoras fizeram o mesmo, com doses variáveis de sucesso. A Fox Feature Syndicate lançou a revista Wonder Comics 01, em maio de 1939, trazendo o personagem Wonder-Man (Homem-Maravilha), criado pela futura lenda dos quadrinhos Will Eisner, e que era uma imitação exata do Superman, tanto no visual quanto em seus poderes. A resposta de Harry Donenfeld – que virou um ávido protetor de sua “propriedade” – foi rápida e certeira: um processo judicial por plágio contra a Fox, no que resultou que aquela revista seria a primeira e única aparição do Wonder-Man.

Não seria a última vez que um herói seria processado por semelhanças ao homem de aço.

O segundo visual do Besouro Azul já em sua própria revista.

Mas o editor Vincent Fox não desistiu, e a Fox lançou a revista Mystery Men Comics 01, em agosto de 1939, que trazia entre suas atrações o Besouro Azul (Blue Beetle), criado por Charles Wojtkoski, outra daquelas imitações descaradas do Besouro Verde (Green Hornet), inclusive, com o mesmo visual: terno, chapéu e uma máscara que cobria todo rosto. Dan Garret era um policial que passa a combater o crime com as próprias mãos e foi um personagem bastante popular na época, tanto que na virada para 1940, ele estreou (tal qual o Superman) uma revista com seu próprio nome: Blue Beetle. E quando isso aconteceu, o personagem era mais ainda associado ao mundo dos super-heróis, usando um uniforme com capuz, máscara dominó, luvas e botas, em um estilo parecido até demais com o Fantasma de Lee Falk.

Essa revista teria textos e arte realizados pela futura lenda dos quadrinhos Jack Kirby, que também desenhou uma tira de jornal do Besouro Azul, lançada em janeiro de 1940, um ano após a estreia daquela do Superman.

Tocha Humana e Namor na capa de uma revista.

Já o editor Martin Goodman, que também vinha das revistas pulp, viu o mercado nascer e decidiu investir nele também, criando a editora Timely Comics, que mais tarde ficaria conhecida como Marvel Comics. A sua primeira HQ se chamava justamente Marvel Comics 01, de outubro de 1939, que trazia não um, mas três super-heróis em sua estreia: o Tocha Humana, de Carl Burgos, um androide capaz de inflamar o próprio corpo, voar e disparar bolas de fogo; Namor, o Príncipe Submarino, de Bill Everett, um mestiço de humano com atlante (habitantes que viviam escondidos debaixo do mar), que era superforte, podia voar (por ter asas nos tornozelos) e respirar debaixo d’água; e o Anjo, que não tinha superpoderes, mas usava um uniforme com capa para combater o crime. Tal qual a empreitada da Fox, a Timely/Marvel foi muito bem-sucedida e fez bastante sucesso.

A capa de “Whiz Comics 02”, de 1939, pela Fawcett. Plágio do Superman?

Por fim, a editora Fawcett Comics lançou a revista Whiz Comics 02, em fevereiro de 1940, com a estreia do Capitão Marvel, o herói mais tarde conhecido também como Shazam! Criado pelo desenhista C.C. Beck e o escritor Bill Parker, o “mortal mais poderoso da Terra” era um menino de uns 10 anos de idade, Billy Batson, que quando gritava a palavra mágica Shazam se transformava num poderoso herói, basicamente com os mesmos poderes do Superman. E o Capitão Marvel fez tanto sucesso, mas tanto sucesso, que se tornou o maior rival do homem de aço no gosto dos leitores ao longo de toda a Era de Ouro dos Quadrinhos.

Como se pode notar, nos poucos meses entre o lançamento de Action Comics 01 e o início do ano de 1940, emergiu todo um novo mercado de HQs de super-heróis graças ao sucesso e à influência do Superman. E isso ainda ia aumentar ainda mais!

O Primeiro Super-Vilão

Todo esse primeiro ciclo do Superman mostra, de um modo geral, histórias muito realistas, na qual o homem de aço é praticamente o único elemento fantasioso nas narrativas. Mas isso logo começou a mudar, com o surgimento de vilões que também realizavam feitos incríveis.

Action Comics 13, de junho de 1939, traz de novo o herói estrelando a capa, e o Superman enfrentando o seu primeiro supervilão: o Ultra-Humanita, um típico cientista louco. Careca (com apenas um pouquinho de cabelo na parte de trás), preso a uma cadeira de rodas e usando uma bata branca, ele arma um plano para matar o herói, mas subestima sua força e resistência, pois uma serra circular apenas se espedaça em vários pedaços ao tentar cortar a cabeça do homem de aço. No fim, o Ultra-Humanita tenta escapar em um avião e o Superman de novo alça os céus para derrubar a aeronave, que cai em pedaços. Mas o herói não encontra o corpo do vilão nos destroços. Ele morreu?

O Ultra-Humanita é o primeiro supervilão do Superman. Por Siegel e Shuster.

Um vilão careca? Não, não era Lex Luthor.

Em Action Comics 14 tinha-se pela primeira vez uma espécie de sequência direta de uma aventura anterior. Se não por um gancho de continuidade (como aquele entre os números 01 e 02 – estilo que não voltaria a se repetir tão cedo), pelo menos tematicamente: a história traz já o retorno do Ultra-Humanita da edição anterior, embora, agora, chamado apenas de Ultra, o que o tornou o primeiro vilão “recorrente” da carreira do homem de aço. A história também traz a primeira vez que vemos Clark em sua residência (que será revelada como um apartamento na edição seguinte) e há um anúncio sobre Superman 01 estar nas bancas.

O Ultra-Humanita jura vingança. E o apartamento de Clark. Action Comics 14.

Action Comics 15 trazia o Superman de novo na capa, ilustrado por Fred Guardineer, uma rara ocasião naqueles tempos em que Joe Shuster tinha exclusividade no traço do herói (embora com o auxílio de seus ajudantes). Talvez tenha sido uma decisão de última hora. Na trama, o homem de aço precisa levantar a quantia de dinheiro de 2 milhões de dólares para ajudar uma instituição que cuida de jovens vulneráveis, e por isso, embarca em uma “caçada ao tesouro”, de um velho navio espanhol dos tempos coloniais. Com parte de sua trama no fundo do mar, descobrimos que o Superman pode ficar horas sem respirar debaixo d’água, e também, pela primeira vez temos a menção à superaudição, com o herói ouvindo facilmente o que os bandidos estão tramando em uma parte afastada do navio onde ele estava. Nosso rapaz estava ficando cada vez mais poderoso, não é mesmo?

Também há um anúncio das aventuras de Sandman em Adventure Comics e do Batman em Detective Comics.

Na edição 16 o selo anunciando as aventuras do Superman em meio aos demais personagens vira um círculo no lado esquerdo da capa e há anúncios da revista especial da New York’s World Fair.

Capa de Superman 02, por Joe Shuster.

Veio então Superman 02, com data de capa do outono de 1939. Agora assumidamente uma revista trimestral, o título próprio do homem de aço, pela primeira vez, trazia material totalmente inédito em três grandes aventuras e um conto. A primeira história retoma o estilo das primeiras Action Comics, com o Superman ajudando um boxeador que perdeu o título de campeão dos pesos-pesados porque foi drogado por um criminoso. O homem de aço se disfarça do lutador e volta ao ringue vencendo várias vitórias que o colocam de novo em rota para desafiar o vencedor fraudulento, e cede o lugar ao verdadeiro esportista para a luta final, que é vencida.

Superman em guerra com a Boravia.

Na segunda aventura, o Superman vai intervir na guerra no fictício país de Borávia, o que é uma ótima oportunidade para grandes cenas de ação, muito bonitas por sinal, contra aviões, tanques e dirigíveis, que mostram o crescente nível de poder e determinação do homem do amanhã. Curiosamente, numa cena, um avião lança uma bomba sobre o herói e ele perde a consciência pela explosão, mostrando que ele ainda tem seus limites. Mas ao encurralar os líderes militares em uma sala de conferência, esse herói por vezes incisivo, começa a derrubar os pilares tal qual fez Sansão no Templo ameaçando desabar o prédio em cima deles, o que gera um acordo de paz.

Telegrama para Metrópolis: primeira aparição explícita da cidade.

Essa história ainda traz outro elemento bastante importante nessa história é que Clark Kent envia um telegrama para seu jornal, nomeando em suas revistas pela primeira vez o editor George Taylor (que até então só tinha sido nominalmente citado nas tiras de jornal) e, mais importante ainda, definitivamente batizando a cidade em que vivia com o nome de Metrópolis, no Estado de Nova York. Nascia não apenas uma das mais importantes cidades ficcionais da cultura pop, mas também se dava início à longeva tradição da DC Comics de situar seus heróis nesse tipo de lugar.

A terceira história mostrava o herói descobrindo uma trama para sabotar edifícios em construção e causar a morte de operários e há uma interessante cena na qual o Superman tenta salvar o bandido que cai lá de cima: pulando atrás dele, o homem de aço só consegue alcançar o calcanhar do homem já bem perto do solo, então, ele o lança de volta aos ares, pousa violentamente na calçada, e salta para pegar o bandido nos braços e amortecer o impacto. Ele consegue uma confissão, mas ainda assim o homem morre de ataque cardíaco. Como na primeira Superman, este número 02 também traz uma aventura em prosa, novamente mostrando uma ação mais íntima do herói com a polícia e a primeira menção à sua visão de raio-X que lhe permite enxergar através dos prédios em soma à visão telescópica que o faz de novo localizar um criminoso em fuga.

Na mensal Action Comics 17, de outubro de 1939, o herói está de novo na capa (com os intervalos diminuindo claramente) numa trama em que o homem de aço empurra um grande navio no mar e descobre que o criminoso que está chantageando a empresa é o Ultra, que usa seu gênio científico para telefonar às suas vítimas sem usar as linhas telefônicas tradicionais – que naqueles tempos ainda eram direcionadas manualmente por uma operadora (a telefonista!) aos remetentes (sim, você tirava o telefone do gancho, o chamado ia para uma central telefônica, você informava o número de destino e a telefonista direcionava a chamada manualmente).

Quando o herói finalmente tenta pôr as mãos no vilão, o Ultra também usa um tipo de solvente especial disparado por uma arma que cria um tipo de barreira protetora da qual o homem de aço precisa de duas tentativas para quebrar. E quando o Superman vai pegar no Ultra, descobre que ele é apenas uma projeção de imagem (como um holograma!). O bandido escapa outra vez.

Página de Action Comics 18.

Na edição 18, temos a história de um repórter inescrupuloso que chantageia as pessoas, mas é a primeira vez que a visão de raio-X aparece em uma história desenhada, depois de mostrada na prosa de meses antes.

Na edição 19, com o herói de novo estrelando a capa, uma terrível doença chamada Peste Púrpura (numa menção, claro, à real Peste Negra) ataca Metrópolis e ela parece estar de algum modo relacionada à ação do Ultra, de novo, que novamente é descoberto pelo herói quando ele persegue criminosos e vê o carro deles se tornar invisível. Somente Ultra poderia fazer algo tão incrível! O vilão consegue derrubar o herói com uma arma elétrica e usa um artefato como um capacete para hipnotizá-lo e deixá-lo sob seu comando numa missão de lançar frascos contendo os germes da doença por toda a cidade.

A morte do Ultra-Humanita em Action Comics 19. Por Siegel e Shuster.

Mas o Superman estava apenas fingindo estar sob jugo, derruba o avião (matando seu piloto) e com o impacto no solo e o fogo matando os agentes da doença. Enquanto um cientista amigo do herói descobre um antídoto à Peste Púrpura, o Ultra tenta usar uma robusta arma especial contra o homem de aço, mas ele é mais rápido e faz o vilão ser atingido pelo próprio raio, levando-o à morte!

Em seguida, chegou às bancas Superman 03, com data do inverno de 1939, mas como um “número menor” com apenas duas histórias de menor impacto e importância. A primeira na qual o homem do amanhã ajuda uma criança que fugiu de um orfanato por maus tratos, tentando levar o abusador administrador à justiça (mas ele morre vítima de suas ações, em um incêndio); e a segunda na qual há de novo a rivalidade jornalista entre Clark e Lois e o Superman de novo precisa ser mais rápido do que uma bala para impedi-la de ser atingida.

O Ultra-Humanita se transforma… em uma mulher! Action Comics 20, por Siegel e Shuster.

Action Comics 20, de janeiro de 1940, traz o Superman na capa pelo segundo número seguido, na verdade, inaugurando o momento a partir do qual todas as capas da publicação passariam a estampar o homem de aço e apenas chamadas escritas sobre os demais personagens publicados na revista. A trama mostra o herói perseguindo uma ardilosa criminosa que se passa pela atriz Dolores Winters e promove um grande roubo, foge em um submarino e se esconde uma base secreta dentro de uma caverna subaquática, apenas para descobrir que a mulher é… o Ultra! Isso mesmo! Ele diz que seus lacaios conseguiram revivê-lo por um pequeno período de tempo e transferiram sua mente para o corpo daquela mulher!

Ela foge nadando e o herói não consegue localizá-la, mas o vilão transformado em vilã retorna já na edição 21, no qual ameaça Metrópolis com uma bomba nuclear e realiza uma grande chantagem, mas no fim, o Superman garante que o explosivo detone na base de Dolores/Ultra e ele/a morre, dessa vez definitivamente. Seria a última aparição do primeiro supervilão enfrentado pelo homem de aço na Era de Ouro.

A Chegada de Whitney Ellsworth

Em março de 1940, a National/DC passou por uma importantíssima mudança editorial: em vista do sucesso da editora, o editor Vin Sullivan recebeu uma substancial proposta de assumir o comando da Columbia Comics, uma nova empreitada no mercado e aceitou. Para substituí-lo, Jack Liebowitz trouxe de volta Whitney Ellsworth, um homem que seria o grande responsável pelo comando editorial da DC nas décadas seguintes.

Whitney Ellsworth no início dos anos 1940.

Nascido em 1908 no Brooklyn, em Nova York, Ellsworth escrevia para revistas pulp e tiras de jornal e trabalhou rapidamente na DC no ano de 1937, como assistente de edição, antes de se mudar para a Califórnia, onde morou por dois anos, vivendo de seus textos. Mas com a saída de Sullivan, Ellsworth aceitou a proposta e assumiu o cargo de editor executivo da National, sendo o responsável pelo dia a dia da redação.

Harry Donenfeld tinha uma missão especial para ele: supervisionar os roteiros e submetê-los a aprovação prévia. A popularidade imensa que os quadrinhos tinham alcançado chamou a atenção das autoridades, que começavam a reclamar da violência daquelas histórias. Donenfeld quase tinha sido preso na sua época de revistas pulp e não queria repetir a situação. Então, Ellsworth estabeleceu algumas regras na National, atingindo todas as revistas, para diminuírem a violência. E quanto ao Superman em específico, ficou estabelecido que ele não podia, jamais, em nenhuma situação, matar um oponente, e nem sequer deixá-lo morrer, para ser um real “salvador da humanidade”. E sua cruzada social, punindo ricos em favor dos pobres, como era típico nas primeiras histórias de Jerry Siegel, tinha que ser amenizada para não criar problemas políticos.

Superman nas Ondas do Rádio

Em menos de dois anos, o Superman transformou a National/DC em uma das maiores editoras de quadrinhos dos EUA, e Harry Donenfeld era um homem afiado nos negócios. Então, ele negociou a primeira adaptação do homem de aço para uma outra mídia que não os quadrinhos: um programa de rádio!

Naqueles tempos, novelas e séries de rádio eram muito populares. Gravados ao vivo cheios de efeitos sonoros para dar ambiência, e tendo apenas áudio, é claro, esses programas traziam muitas séries de aventuras em vários gêneros e os heróis típicos da cultura pop também estiveram em evidência por ali, inclusive, com o Besouro Verde tendo sido criado nos programas de rádio.

Patrocinado pela Kellogs, a série chamada inicialmente apenas Superman – e rebatizado de The Adventures of Superman, dois anos depois – foi criada por Robert Maxwell Joffe e tinha como principal escritor George Putnam Ludlam, auxiliado por outros nomes, como George Lowther e Jack Johnstone, trazia Jackson Beck como narrador e tinha Bud Collyer como Clark Kent/Superman e Joan Alexander como Lois Lane, além de outros nomes flutuantes no elenco. Era exibido às 17h30 (para pegar as crianças depois da saída da escola) e cada episódio tinha 15 minutos de duração, exibidos três vezes por semana.

Harry Donenfeld, Bud Collyer e Joan Alexander no programa de rádio: fenômeno de audiência.

O programa estreou em 12 de fevereiro de 1940, produzido inicialmente pela WOR de Nova York, antes de se mudar para a Mutual Broadcasting, em 1942 (e ainda para a ABC, em 1949), sendo transmitida de início em 11 estações de rádio pelo país, número que em um ano cresceu para 63 estações e um sucesso nacional absoluto. Os episódios seguiam mais ou menos o fluxo seriado das tiras de jornal e os dois primeiros episódios trouxeram a origem do Superman, enquanto as ameaças criminosas começam no terceiro. Depois de um bloco de 19 episódios (no fim de março), o programa adotou o modelo de “ganchos” nos quais uma série de 6 episódios sempre terminavam deixando um suspense para o seguinte, embora esses arcos narrativos puderam variar, entre 12, 15 e até 20 episódios conectados.

Após dois anos e meio de sucesso, o programa foi comprado pela Mutual, que fez um reboot, mantendo a equipe e o elenco, mas recomeçando a história do zero, de novo, com a origem do Superman, a partir de agosto de 1942, agora com 5 episódios semanais e arcos de histórias contínuos que podiam durar entre 5 e 25 capítulos. O programa continuou sendo exibido pelo restante da década, foi novamente renovado a partir de 1949 (com temáticas mais “adultas”) e encerrou sua longeva carreira em março de 1951, com um total de nada menos 2.088 episódios produzidos!

Criado totalmente à parte das HQs e fora das dependências da DC, o show de rádio criou alguns dos elementos importantes da mitologia do homem de aço, incluindo, o nome do editor do Planeta Diário Perry White, o office-boy Jimmy Olsen e até a Kryptonita. O primeiro encontro entre Superman e Batman também ocorreu no rádio, em 1945, anos antes de acontecer nos quadrinhos.

Outra coisa marcante foi a abertura do programa, que se consolidou no imaginário do público e terminaria usada ou adaptada em outras produções (da TV, por exemplo) futuras:

Lá no céu! Veja! É um pássaro! É um avião! É o Superman!

Sim, é o Superman, um estranho visitante do planeta Krypton, que veio à Terra com poderes e habilidades muito além daquelas dos pobres mortais. Superman, que pode saltar sobre edifícios altos em um único impulso, correr na velocidade de uma bala até seu alvo e entortar o aço com as próprias mãos, e que, disfarçado de Clark Kent, um pacato repórter de um grande jornal metropolitano, luta uma batalha sem fim pela Verdade e pela Justiça.

Era apenas o início de um império multimídias.

Surge Lex Luthor

A primeira revista assinada pelo novo editor Whitney Ellsworth foi a Action Comics 21, de fevereiro de 1940, aquela edição que traz a última aparição do Ultra. E, coincidência ou não, foi justamente o arco de histórias seguintes que apresentou o próximo grande vilão do Superman, aquele destinado a ser seu maior oponente, um personagem tão forte que transcendeu os quadrinhos para se tornar um dos maiores vilões da cultura pop: Lex Luthor.

Luthor, ruivo e de vermelho, em sua primeira aparição em Action Comics 23.

Curiosamente, por qualquer motivo que seja, o vilão jamais teve seu primeiro nome (Lex) revelado durante toda a Era de Ouro, sendo sempre chamado apenas de Luthor. E ele não era o maligno empresário careca que nos acostumamos a ver, mas em sua primeira versão era o típico cientista louco dos anos 1940, criando ardis cada vez mais fantásticos a cada vez (tal qual o Ultra, é verdade), porém, tinha um visual mais ordinário: usando batas ou ternos e possuindo cabelos ruivos.

A edição 22 da revista trouxe uma trama sobre a guerra na Europa, com Clark Kent e Lois Lane indo representar o Estrela Diária para coletar matérias, e a trama geral prossegue em Action Comics 23, de abril de 1940, quando o Superman descobre que Luthor está manipulando os países para que eles saíam em guerra.

Bem mais eficaz e audacioso do que o Ultra, já nessa primeira aventura Luthor realmente impressiona o homem do amanhã: sua base é em um gigantesco dirigível oculto sobre as nuvens, ele consegue pôr duas nações em guerra e cria uma arma de raios capaz de ferir o homem de aço. Luthor deixa claro que é um “super-gênio”, mas Superman consegue estragar seus planos e faz o tal dirigível despencar dos céus, pretensamente matando o vilão.

A edição ainda traz Lois sendo sequestrada pela quarta vez e é a primeira vez que o jornal no qual ela e Clark trabalham é chamado de Daily Planet (Planeta Diário) em vez de Estrela Diária. O nome “Planeta Diário” fora usado pouco tempo antes logo no segundo episódio do programa de rádio do Superman, porque os produtores não queriam usar “Estrela Diária”, afinal, era o mesmo nome do Toronto Daily Star da vida real e, numa mídia com maior difusão como o rádio, temiam ser processados, preferindo criar um nome fictício similar. Querendo vincular as duas versões do personagem o máximo possível, Ellsworth demandou que os quadrinhos adotassem também o novo nome do jornal.

Capa de Superman 04. E não: esse careca não é Lex Luthor!

E claro que Luthor não morreu, não é mesmo? Logo em seguida, chegou às bancas Superman 04, com data de capa da primavera de 1940, com o vilão estrelando não uma, mas outras duas histórias! Na primeira, Luthor cria uma arma capaz de gerar terremotos, uma trama que seria mais tarde adaptada no seriado para o cinema Superman versus the Atom-Man (veremos mais à frente) e, sob certos aspectos, também em Superman – O Filme, de 1978 (também falaremos disso bem mais adiante). A segunda história, Luthor encontra um continente perdido no Oceano Pacífico e usa monstros pré-históricos contra o homem de aço. A demanda de trabalho com as várias publicações do homem do amanhã e o prestígio do vilão fizeram com que a primeira dessas histórias tenha tido a arte principal feita por Paul Cassidy, que já era um “artista fantasma” de Joe Shuster nas tiras de jornal, enquanto Shuster mesmo desenhou apenas o segundo confronto da publicação.

Repetindo a estratégia usada com o Ultra anteriormente, Luthor foi usado de modo contínuo por um tempo, pois já está de volta em Superman 05, com data de capa do verão de 1940, quando usa um incenso com um narcótico que domina a mente de vários magnatas e temos uma aventura na qual o Superman demonstra sua supervelocidade quando o vilão manda seus capangas metralharem os milionários dentro de uma sala e o último filho de Krypton desarma e nocauteia os bandidos antes que eles possam atirar. No fim, Luthor tenta escapar em um avião e o Superman (como fizera outras vezes, inclusive contra o Ultra) salta e se lança contra o avião, fazendo a aeronave cair para a morte do vilão. Será?

Essa trama foi desenhada por Joe Shuster, mas as outras três aventuras da revista foram ilustradas por Paul Cassidy, que se tornaria o artista “oficial” de Superman naqueles tempos. Há uma história que mostra que o herói tem memória fotográfica e, na aventura contra Luthor, revela duas coisas: que é capaz de rearranjar os traços de sua face – o que explica porque, desde Action Comics 03, o herói se disfarça com tanta facilidade (inclusive, de Clark Kent?) e que seu uniforme é indestrutível, feito de um material especial que ele mesmo criou. Como assim? Isso nunca foi explicado…

Naquele ponto, o estúdio de Siegel e Shuster estava bastante ocupado com Action Comics, Superman e as tiras diária e dominical, mas até então, Action era o domínio primário da dupla, mas a situação mudou rapidamente: os novos artistas como Paul Cassidy e Wayne Boring eram inegavelmente mais habilidosos do que Shuster, com artes mais bonitas e dinâmicas, ao mesmo tempo em que Shuster não tinha a velocidade necessária para dar conta de tanta demanda. Sua visão também começava a ser prejudicada pelo esforço contínuo. Resultado: os auxiliares migraram também para Action

Wayne Boring faz a capa de Action Comics 25.

A edição 25, de julho de 1940, trouxe pela primeira vez, Wayne Boring fazendo a capa, ao passo que a arte principal dentro da revista coube a Paul Cassidy. Shuster supervisionava o material, refazia o rosto do Superman e Lois e fazia parte do nanquim. Siegel permanecia como o roteirista. Contudo, por muito anos à frente ainda, todas as histórias eram assinadas por Siegel e Shuster, sem créditos aos “auxiliares”. Ah, e uma curiosidade do número 25: foi a primeira vez que Lois tenta descobrir a identidade secreta do Superman, um tema que se tornará recorrente no futuro.

Além de Boring e Cassidy, outros artistas trabalhavam no estúdio da dupla. A edição 26, por exemplo, trouxe a arte de Paul Lauretta, numa trama que mostra que o Superman tem memória fotográfica (mostrada ao mesmo em Superman 06). Após uma série de aventuras mostrando Lois com a habilidade de invadir imóveis alheios para suas reportagens, a edição 27 revela que ela usa uma chave-mestra para isso, e vemos pela primeira vez o seu apartamento, que no número 29 ganha um endereço completo: n.º 58, Parkview Apartments.

O sucesso das aventuras do homem de aço era tanto que Superman 06 inaugurou uma nova periodicidade, deixando de ser trimestral para se tornar bimestral, com data de capa dos meses de setembro e outubro de 1940, formato que manteria por muito anos à frente. Ou seja, a cada dois meses, um novo número de Superman chegava às bancas, complementando as histórias de Action Comics. Aquele número 06 trouxe todas as histórias com a arte de Cassidy, e foi a ocasião que introduziu o sargento Casey, um aliado do Superman na polícia e um personagem coadjuvante bastante presente em suas aventuras na Era de Ouro.

O sargento Casey, seria um personagem bastante frequente na Era de Ouro.

Até então, é preciso lembrar, o Superman continuava apenas dando grandes saltos no ar, mas a primeira história de Superman 06 mostrava claramente o último filho de Krypton correndo no ar. Aparentemente, isso foi apenas um deslize de Cassidy, e nas outras três histórias o herói continua saltando, numa delas, inclusive, usando a capa para direcionar seu movimento no ar. Na terceira história da revista é a primeira vez que Superman revela a alguém que é Clark Kent, mas o sujeito morre no fim. Na quarta história aparece pela primeira vez a visão microscópica, outro poder do herói.

Uma curiosidade daquela edição é que uma propaganda traz anúncios das revistas Action Comics, Adventure Comics, Detective Comics, More Fun Comics (todas da National/DC) e All-American Comics, Flash Comics e All-Star Comics (da All-American), “revelando” ao público que as duas editoras, na verdade, faziam parte do mesmo conglomerado.

Action Comics 30, de novembro, traz a estreia de outro artista do estúdio de Siegel e Shuster, Jack Burnley, e a aparição de um raro vilão memorável na figura de Zolar, que usa a tecnologia para criar um inverno em pleno verão de Metrópolis, a partir do material radioativo rádium, pelo qual ele próprio termina sendo vítima. Essa edição foi a última a trazer o editor George Taylor, pois Superman 07, de novembro-dezembro, mudava o nome do editor do Planeta Diário para Perry White, adotando (de novo) o nome usado pelo programa de rádio. Em seguida, White aparece em Action Comics 33, de fevereiro de 1941.

A Krypto Ray Gun, brinquedo do Superman.

Outra articulação entre o homem de aço nos quadrinhos e seus desdobramentos em outros mercados se deu no número anterior, Action Comics 32 no qual a história mostra o homem de aço usando pela primeira vez a Krypto Ray Gun (Arma de Raios Krypto), que na verdade é um tipo de pistola que projeta imagens, tal qual um projetor de cinema portátil. Numa demonstração de articulação da DC, a revista traz também um anúncio do objeto, que já era vendido como um brinquedo para as crianças. Esta revista também foi a primeira a trazer Murray Boltinoff como o editor assistente de Whitney Ellsworth.

O Panteão de Super-Heróis da DC Comics

O sucesso cada vez maior do Superman levou à revista Action Comics a estampar uma chamada no topo da capa, informando que aquela era a revista mais vendida dentre todas. Era verdade, pelo menos naquele momento, e toda aquela popularidade fez os editores de todas as editoras a continuarem a investir em novos super-heróis que pululavam em dúzias e dúzias de revistas, a maioria delas de curta duração.

O Capitão América de Joe Simon e Jack Kirby foi um dos maiores sucessos da Era de Ouro.

Personagens que já apresentamos, como Besouro Azul e, especialmente, o Capitão Marvel se tornavam cada vez mais populares, e alguns outros novos surgiram para fazer concorrência séria contra eles, especialmente, o Capitão América, que estrearia em uma revista com seu próprio nome em março de 1941, com Captain America Comics 01, da Timely Comics (a futura Marvel), que não podemos esquecer, já fazia sucesso com Tocha Humana e Namor, o Príncipe Submarino. O sentinela da liberdade foi um sucesso ainda maior do que seus antecessores e se tornou um personagem do primeiro time de vendas, ao lado do Superman, Capitão Marvel e Batman.

No campo específico da National/DC Comics, Crimson Avenger e Batman (ambos em Detective Comics), Sandman e Hourman (em Adventure Comics) continuavam a fazer sucesso e ganhariam companhia. O personagem Tex Thomson, publicado como um aventureiro ordinário desde Action Comics 01, nessa época foi “promovido” a super-herói e se tornou o Mister America, passando a usar uniforme e máscara, e depois, mudaria o nome de novo para Americommando.

E veio muito mais!

O Espectro na capa de More Fun Comics 55, edição que trouxe também a estreia do Doutor Destino.

O próprio Jerry Siegel encontrou algum tempo além de toda aquela produção do Superman e criou um novo super-herói, The Spectre (Espectro, no Brasil), com arte de Bernard Baily (que já fazia a tira de Tex Thomson), que estreou em More Fun Comics 52, de fevereiro de 1940, sobre um tipo de espírito que, literalmente, atua como a mão vingativa de Deus.

Pouco depois, estreou o Doctor Fate (Doutor Destino, no Brasil – e não confundir com o homônimo da Marvel) em More Fun Comics 55, de maio de 1940, por Gardner Fox e Howard Sherman, sobre um homem que incorpora uma entidade a partir de um capacete místico e tem poderes mágicos.

Em abril de 1941, Adventure Comics 61 trouxe a estreia do Starman, criado por Gardner Fox e Jack Burnley (que também desenhava o Superman), sobre um cientista que criou um cetro (parecido com uma tocha) que lhe permitia voar e disparar rajadas de energia.

Aquaman e Arqueiro Verde estrearam na mesma edição, cuja capa estampou o Doutor Destino.

Passou um tempo e, depois de consolidar essas novas criações, Whitney Ellsworth contratou o escritor Mort Weisinger para trabalhar como editor assistente na National/ DC, ao lado do já citado Boltinoff, mas com uma missão primeira: criar novos heróis. O primeiro deles veio com Johnny Quick, um supervelocista, que estreou em More Fun Comics 71, de setembro de 1941, mas logo, entregou duas criações bastante célebres que estrearam na mesma More Fun Comics 73, dois meses depois, com Aquaman, ao lado do artista Paul Norris, sobre Arthur Cury, um herói aquático capaz de se comunicar com os peixes (e era uma imitação nada disfarçada do Namor da Marvel), e ao lado do artista George Papp, Green Arrow (Arqueiro Verde, no Brasil), sobre Oliver Queen, um milionário que decide usar seus recursos para combater o crime usando flechas especiais (com explosivos, dispositivos sônicos, que davam choque e até tinham uma luva de boxe na ponta para “socar” oponentes), e tinha um parceiro mirim chamado Speed (Ricardito, no Brasil), e era uma imitação um pouco mais disfarçada do Batman. E naquele mesmo mês, outro personagem de Weisinger estreava na própria Action Comics, número 42, com o Vigilante, que era um herói do velho oeste localizado nas primeiras décadas do século XX. Não era um super-herói clássico, mas guardava vários elementos.

E Weisinger em si será um personagem da qual falaremos bastante em breve. Aguarde…

Flash Comics 01 traz a estreia do Flash.

Tendo lançado sua editora há pouco tempo, o sócio de Harry Donenfeld e Jack Liebowitz, o editor Max Gaines da All-American Comics foi um dos que estimulou seus artistas a investirem nos super-heróis e isso rendeu frutos. Em janeiro de 1940 chegou às bancas a revista Flash Comics 01, que trazia a estreia de um personagem chamado The Flash, que tinha o poder de supervelocidade, criado pelo escritor Gardner Fox e o artista Harry Lampert, com a história de um estudante que descobre uma fórmula de “água pesada” que lhe dá esses poderes. E a mesma revista trouxe ainda a estreia de outro célebre personagem: Hawkman (chamado no Brasil de Gavião Negro), sobre Carter Hall, um arqueólogo que descobre um mineral que neutraliza a gravidade e com eles faz asas com as quais pode voar, também criado por Gardner Fox, com o artista Dennis Neville.

O Flash faria tanto sucesso que algum tempo também ganhou uma revista solo, All-Flash, de periodicidade trimestral, a partir do verão de 1941.

Capa de “All-American 16”, com arte de Sheldon Moldoff, traz a primeira aparição do Lanterna Verde da Era de Ouro.

Depois, veio Green Lantern (Lanterna Verde no Brasil), criado por Bill Finger (um dos criadores do Batman) e Martin Nodell, que estreou em All-American Comics 16, de julho de 1940. Em seguida veio The Atom (por muito tempo chamado de Electron no Brasil, mas há algum trocado para Átomo, mesmo), criado por Bill O’Connor e Ben Fliton, em All-American Comics 19, de outubro de 1940.

Com uma vasta gama de personagens publicados ao mesmo tempo, o editor Sheldon Mayer, o principal assistente de Gaines, teve a ideia de reuni-los em um supergrupo, nascendo a Sociedade da Justiça da América, cuja história foi escrita por Gardner Fox, e estreou em All-Star Comics 03, no inverno de 1940, com um batalhão de mais de uma dúzia de desenhistas, reunindo Gavião Negro, Flash, Lanterna Verde, Sandman e Átomo em uma mesma aventura. Uma curiosidade que o leitor pode ter notado é que a primeira equipe de super-heróis dos quadrinhos juntava heróis de “duas” companhias “diferentes”, a DC Comics e a All-American, mas que era possível porque ambas, na verdade, eram uma só.

Mas o fluxo ainda não tinha acabado… All-American Comics 25, de abril de 1941, trouxe a estreia do Doctor Mid-Nite (Doutor Meia-Noite), um cirurgião que é cego, mas consegue enxergar no escuro, e usa óculos especiais para sempre “ver” nas trevas, criado por Charles Reizeinstein e Stanley J. Aschmeier.

E adiantando um pouco no tempo, All-Star Comics 08, quando a revista já era bimestral, com data de capa de dezembro de 1941 e janeiro de 1942, trouxe a estreia da Mulher-Maravilha, criada pelo psicólogo William Moulton Marston e o artista Harry G. Peter, que imediatamente ganhou suas aventuras solo em outra revista mix, Sensation Comics. Desde o início, Diana Prince foi concebida como uma “versão feminina” do Superman, dotada de superforça e velocidade, repelindo balas com seus braceletes e voando em um avião invisível.

E mais: como é possível observar na capa de All-Star Comics 08, naquela edição, Starman e Doutor Meia-Noite se uniam à Sociedade da Justiça.

Max Gaines, Harry Donenfeld e Jack Liebowitz brindam em trajes de gala. Estariam celebrando o sucesso da DC e da All-American?

Apesar de existirem outras editoras em um mercado extremamente concorrido como o dos quadrinhos daqueles tempos, como a Marvel (então, Timely), Fawcett Comics, Fox etc., o combinado National-DC-All-American compunha a maior e mais poderoso do mercado. A parceria entre Harry Donenfeld, Jack Liebowitz e Max Gaines rendeu mesmo frutos.

O Superman surgiu quase sozinho, mas em um punhado de anos, ganhou a companhia de todo um rol de super-amigos.

A Chegada de Mort Weisinger

Também é importante destacar a chegada de um nome que se tornará fundamental à história editorial do Superman: Mort Weisinger. Nascido em 25 de abril de 1915, sendo um ano mais novo do que Siegel e Shuster, no bairro de Washington Heights na cidade de Nova York, ele também vinha de uma família judia cujos pais imigraram fugindo da perseguição do Império Austro-Húngaro, e cresceu no bairro do Bronx, onde estudou na mesma escola que Bob Kane e Bill Finger, os criadores do Batman. E todos eles fizeram parte daquela geração de jovens que cresceu fanática por histórias de ficção científica e criaram um fandoom (comunidade de fãs) bastante ativa, criando fanzines e organizando encontros e convenções.

Um jovem Mort Weisinger, já era um fenômeno como editor.

Numa dessas convenções, Weisinger conheceu Julius Schwartz, outro nome de quem falaremos bastante mais adiante, e os dois, juntos a outros amigos, fundaram o primeiro fanzine de ficção científica, The Time Traveller, em 1932 (um ano antes daquele de Siegel e Shuster), uma experiência que os colocou em contato não apenas com os fãs, mas também com escritores consagrados. Por causa disso, Weisinger e Schwartz fundaram a Solar Sales Service, em 1934, uma empresa de agenciamento de escritores, que fazia o trabalho de negociação com os editores das revistas pulp e representou desde escritores jovens, como Edmond Hamilton e Ottis Binder (dois futuros escritores do Superman) e nomes consagrados da época, como Alfred Bester, H.P. Lovecraft e Ray Bradbury, o que foi um grande sucesso, e levou Weisinger a ser convidado a assumir a editoria da Standard Magazine, que publicava 40 revistas mensais, em 1940.

Isso levou ao convite para que Weisinger ingressasse no crescente corpo editorial da National/ DC, em março de 1941, tanto para atuar como assistente de Murray Boltinoff como para criar novos personagens, como já vimos. Cerca de um ano depois, em 1942, Weisinger seria convocado pelo exército para atuar na II Guerra Mundial, mas devido ao seu porte gordinho, não foi enviado ao combate, e atuou como escritor de programas de rádio do esforço de guerra, o que obviamente o afastou do trabalho na DC. Mas ele voltaria após ser dispensado do serviço militar em 1946.

O Voo do Superman

Quando criaram o Superman, Jerry Siegel e Joe Shuster estabeleceram que o herói era superforte e podia dar grandes saltos por cima dos edifícios. Em 1938, aquilo já parecia ser poder o suficiente e mais do que aquilo poderia soar exagero demais até para os leitores ávidos por aventuras. Mas em poucos anos isso mudou totalmente.

Quando estrearam em outubro de 1939 pela Marvel Comics (ainda chamada naqueles tempos de Timely), tanto o Tocha Humana quanto Namor voavam pelos céus, embora este último com o auxílio de pequenas asas em seus tornozelos. Portanto, já havia heróis voadores um ano e meio depois da estreia do homem de aço. Em janeiro de 1940 chegou o Gavião Negro (Hawkman), embora voasse com ajuda de asas como as de uma águia, e o Capitão Marvel, que estreou em fevereiro de 1940, logo também alçou os céus.

Siegel e Shuster em um evento na época do lançamento do desenho animado do Superman.

Embora várias publicações diga o contrário, na verdade, o Superman também não voava na série de rádio, com a abertura do programa explicitamente dizendo que ele saltava longas distâncias. Também é comumente dito que o último filho de Krypton voou pela primeira vez nos desenhos animados do Fleisher Studios (que iremos já comentar), mas isso também não é verdade: o homem de aço começou a voar nas histórias da primavera de 1941, antes do lançamento dos programas no verão. É possível que Jerry Siegel tenha visto previamente que o herói iria voar na animação – o estúdio simplesmente chegou à conclusão que era mais fácil animar o herói fazendo voos do que saltos – e tenha (sob demanda de Whitney Ellsworth, com certeza) adotado aquela prática também aos quadrinhos, mas isso é apenas especulação que ainda carece de provas.

Outra hipótese bastante provável é que o Superman passar a voar em vez de dar saltos tenha sido uma decisão editorial articulada entre Ellsworth e Siegel, pois com outros super-heróis já voando por aí, fazia mais sentido que o Superman, o primeiro – e pretensamente o mais poderoso deles todos – também o fizesse.

O fato é que não houve um grande anúncio nem sequer uma grande ocasião, mas o Superman passou a ser mostrado voando gradativamente nas histórias publicadas em 1941, sem grande alarde sobre isso, e de repente, parecia que o homem de aço tinha voado desde sempre, ignorando os saltos do começo.

A guerra começa a aparecer nas capas, nessa ilustração de Joe Shuster.
O Superman e os aviões na edição 35. Arte de Wayne Boring.

Por exemplo, é possível perceber que o Superman parece mesmo voar em Action Comics 35, de abril de 1941, com texto de Siegel e arte de Wayne Boring, e trazendo o que parece ter sido a última capa realmente desenhada por Joe Shuster. Na trama, o último filho de Krypton pega um avião com as mãos e o faz pousar, movimento que a arte sugere ser feita contra a gravidade e não seguindo o impulso e a queda de um salto, embora em determinado momento da cena, o herói parece simplesmente cair junto ao piloto do avião inimigo. Depois, ele ainda dá um impulso para que o avião ganhe altitude e não caia.

Capa de World Best Comics 01, que mudaria de nome para World Finest Comics.

O Superman estava fazendo tanto sucesso que Ellsworth lançou uma terceira revista para publicar periodicamente as aventuras do herói: World Best Comics 01 chegou às bancas com data de capa do mesmo abril de 1941, trazendo aventuras do homem de aço, do Batman, Zatara e Red, White and Blue em explosivas 96 páginas.

A tira Red, White and Blue era outra criação de Jerry Siegel (com arte de William Smith), mostrando as aventuras de três jovens militares – Red Dugan dos fuzileiros navais, Whitney Smith do exército e Blooey Blue da aeronáutica – cada qual representando uma das três forças armadas, uma HQ de bases patrióticas que casava com o clima de guerra daqueles tempos.

Apesar da capa de World Best Comics ilustrando Superman ao lado de Batman e Robin, na verdade, suas histórias eram completamente independentes e apesar dos personagens hoje serem vistos comumente lado a lado, não era ainda assim nas HQs da época e demoraria mais de uma década para que ambos se encontrassem em uma mesma aventura.

Superman carrega o avião com uma mão, por Siegel e Boring.

Na história do Superman daquela estreia, Siegel e Boring mostram de novo o herói interagindo com um avião, e dessa vez, ele parece carregar a aeronave com apenas uma única mão (!) – um grande incremento de força para ele – e parece mesmo voar e conduzir o veículo nos céus.

A revista World Best Comics mudou de nome logo na segunda edição, adotando o título World Finest Comics, que continuaria publicando aventuras do homem de aço pelos próximos quarenta anos! Nesses tempos iniciais, a periodicidade era trimestral e a revista tinha um formato maior do que as demais da DC Comics, pois reunia os principais personagens da editora como um tipo de cartão de visitas. Ainda assim, poucas dessas aventuras foram realmente marcantes para a história editorial do homem de aço. Nessa fase, os roteiros eram sempre de Jerry Siegel e a arte de Paul Cassidy ou John Sikela.

Nas edições seguintes de Action Comics, a arte oscilou entre os artistas do estúdio de Siegel e Shuster – com Fred Ray assumindo as capas, com Wayne Boring (edições 36 e 37), o novato Leo Nowak (nas edições 38, 39, 42) e John Sikela (edições 40 e 41), e o destaque da edição 36, na qual Clark Kent é acusado de ser um “quinta coluna”, ou seja, um espião nazista (a primeira vez que os nazistas aparecem verdadeiramente como vilões numa história do Superman), e do número 42, de novembro de 1941, com outro ataque de Luthor, agora sequestrando um grupo de homens brilhantes e levando-os para uma cidade flutuante nos ares nos quais constroem uma sociedade idílica, ao ponto de quando o Superman chega lá, eles nem querem mais voltar. Luthor leva Clark Kent e Lois Lane para lá também, não por serem “brilhantes”, mas porque o vilão quer se vingar deles pelas ocasiões anteriores, mas no fim, o homem de aço atrapalha os planos dele. A edição 44 traz uma capa de Fred Ray na qual os nazistas aparecem pela primeira vez de modo explícito, ainda que numa imagem desassociada da aventura interna.

Outro destaque é a bela cena de afogamento de Lois Lane na edição 33, com a belíssima arte de Jack Burnley, que normalmente fazia apenas as capas das revistas, mas nesta ocasião emprestou seu talento também à história interna. Enquanto Boring, Nowak e Sikela estavam “presos” à formula meio caricatural de Joe Shuster, Burnley não tinha essa limitação e entrega figuras com mais movimento e beleza.

Boa capa de Fred Ray.

Na revista Superman, o número 08, de janeiro e fevereiro de 1941, trazia histórias com a arte de Paul Cassidy e Wayne Boring, com o primeiro assumindo a integridade do número 09, na qual há a impressionante história na qual ao combater um criminoso chamado Joe Gatson, o homem de aço usa sua supervelocidade para sair do caminho de uma bala e a deixa propositadamente atingir ao vilão, que morre. O herói ser diretamente responsável pela morte do oponente, situações que apareciam com alguma frequência no segundo ciclo de histórias de Siegel (após o primeiro ciclo de “lição moral” numa cruzada social a favor do oprimidos) seriam cada vez mais raras, por causa da insistência de Ellsworth em um herói mais pacífico.

Na interpretação da arte de Leo Nowak para Superman 10, ele pode estar tanto saltando quanto voando.

Então, Superman 10, de maio e junho, traz histórias desenhadas por Nowak, Cassidy e Boring, dentre as quais outro confronto com Luthor, mas a história com a arte de Nowak parece mostrar o homem de aço voando em vez de pulando, o que alguns historiadores sinalizam como a primeira vez que ele faz isso, mas esta revista saiu depois da Action Comics 35 já citada.

Outro elemento muito importante dessa mesma história é que é a primeira vez que Lex Luthor aparece careca, assumindo seu visual definitivo. O fato é que Leo Nowak começou seu trabalho no estúdio de Siegel e Shuster via tiras de jornal e numa história daquela mídia envolvendo Luthor publicada no início de 1941, o desenhista (pouco familiarizado com o material) se equivocou e desenhou Luthor careca em vez de com seus cabelos ruivos. Ao olhar rapidamente e sem atenção as aparições anteriores do vilão, Nowak pensou que o homem careca na capa de Superman 04 era o vilão, ainda mais porque a história trazia um capanga de Luthor que era fortão e sem cabelos, usando uma bata branca. Mas ao lerem o material, Siegel e Shuster gostaram do resultado, pois Luthor parecia mais ameaçador.

Lex Luthor aparece careca em Superman 10, por Siegel e Nowak.

Portanto, decidiram incorporar o novo visual às revistas, e Superman 10, também ilustrada por Nowak, traz Luthor sem cabelos. Não há nenhuma menção à mudança de visual e não seriam mais feitas referências ao fato dele ter cabelos nas primeiras aparições. Era como se Luthor tivesse sido sempre calvo.

A segunda imagem do Superman rompendo correntes dava seguimento a uma tradição.

Um pequeno detalhe importante é que a partir desse momento, as revistas da “seção” DC Comics da National, ou seja, Action Comics, Superman, Detective Comics e Batman, começaram a ostentar um selo redondo escrito “A DC Publication”, uma indicação que aquela revista pertencia à DC Comics. Em menos de um ano, a inscrição no selo seria alterada para “A DC/Superman Publication”, como forma de vincular sem dúvidas que a DC publicava o homem de aço, ainda que em termos oficiais a editora continuasse a usar o nome National Alied Publications.

O Superman aliado das forças armadas. Arte de Fred Ray.

Nowak assumiu a arte principal em Superman 11 e o número 12, de setembro e outubro, já traz Luthor de novo.

Superman contra os nazistas, na arte de Fred Ray.

Contudo, se havia dúvidas sobre o voo do Superman até então, Action Comics 45, de fevereiro de 1942, acaba com isso definitivamente: o homem de aço voa até a África para ajudar o zoológico de Metrópolis a obter novos animais, simplesmente caçando-os ao lado de um caçador sem escrúpulos que é punido por ele.

Neste ponto, vale à pena também falar um pouco da revista Action Comics como um todo. Naquela altura, além da história do Superman, sempre a primeira, a publicação continuava com várias outras atrações: Pep Morgan por George Papp; Tree Aces, por Gardner Fox e Chad Grothkoff; Congo Bill, por Frank B. Long e Fred Ray (sim, ele mesmo, o capista); Zatara, por Gardner Fox e Joseph Sulman; Tex Thomson, por Ken Fitch e Bernard Baily; e Black Pirate, por Sheldon Moldoff. Como se vê, algumas dessas atrações acompanhavam o homem de aço desde o início.

E fazendo jus ao voo do Superman, em novembro de 1941, o personagem estreou como um balão inflável gigante na famosa Macy’s Day Parade, o famoso desfile de Ação de Graças patrocinado pela loja Macy. A partir de então, o homem de aço seria uma presença obrigatória nesse evento anual.

O Desenho Animado do Fleischer Studios

Em 1941, o Superman estava em pleno apogeu de sua popularidade: as revistas Action Comics e Superman beiravam o milhão de cópias vendidas e o programa de rádio era um estrondoso sucesso. Numa época em que não existia ainda a televisão, o cinema era o passo seguinte e a Paramount Pictures estava atenta a esse movimento: os executivos procuraram Harry Donenfeld, interessados em adaptar o homem de aço às telonas, e como seria muito difícil reproduzir os poderes e feitos do herói em uma produção live action com a tecnologia que existia então, pensaram que a melhor forma de fazer isso seria por meio dos desenhos animados.

A animação dos estúdios Fleisher é boa até para os padrões de hoje; o texto nem tanto.

Naquele tempo, os desenhos animados eram exibidos nos cinemas como curtametragens nas sessões das matinês (geralmente nas manhãs dos fins de semana) juntamente a outras produções juvenis, que incluíam os seriados com atores para o cinema. Quando Donenfeld fez o arranjo com a Paramount, o estúdio procurou a produtora que era, simplesmente, a melhor do mercado para levar o homem de aço às telas: o Fleischer Studios, responsável pelo sucesso de Popeye e Betty Boop.

Fundado em 1929 pelos irmãos Max e Dave Fleischer, o estúdio de notabilizou pela excelência absoluta de sua animação, desenvolvendo a técnica chamada rotoscope, na qual filmavam pessoas em movimento e transferiam as formas e movimentos para desenhos no papel, criando uma animação mais realística e de grande apelo visual.

Curiosamente, quando foram procurados pela Paramount, os irmãos Fleischer se encontravam atolados em trabalho e não estavam dispostos a assumir a nova empreitada, por isso, como uma forma de negar sem fechar uma porta, cobraram um valor exorbitante por episódio, achando que o estúdio de cinema não iria aceitar: 100 mil dólares por capítulo, quatro vezes mais o valor padrão. Porém, a Paramount se dispôs a negociar, e no fim, o Fleischer Studios aceitou realizar o projeto ao custo de 50 mil dólares por episódio, o que valeria 800 mil dólares na cotação de 2023.

O estúdio se pôs a trabalhar, mas enfrentou grandes dificuldades em transpor os poderes do Superman por meio da técnica de rotoscope, e quando assistiram às primeiras provas dos saltos do homem de aço, acharam que o resultado não ficou bom, Por isso, pediram autorização à National/DC para simplificar a coisa e fazer o Superman voar em vez de saltar, pois isso era mais fácil de animar. A DC aceitou e, daí para frente, o homem de aço se tornou um herói que voava definitivamente.

O Fleischer Studios produziu 9 episódios, cada qual com 10 minutos de duração, e a estreia se deu com o episódio chamado apenas Superman (rebatizado de The Mad Cientist nos relançamentos) em setembro de 1941, com um grande sucesso. Tanto que foi indicado ao Oscar de Melhor Curtametragem de Animação, ainda que tenha perdido a estatueta para Land a Paw, um desenho de Walt Disney com o Pluto. O segundo episódio foi lançado em novembro e, a partir do terceiro, em janeiro de 1942, os lançamentos seguiram o ritmo mais ou menos mensal. Os papeis de Superman e Lois Lane eram interpretados pelos mesmos Bud Collyer e Joan Alexander que os faziam no programa de rádio – que foi uma grande sacada do estúdio – e a sala dos roteiristas era liderada por Seymour Kneitel e Isadore Sparber.

Após essa primeira fornada, Max e Dave Fleischer decidiram não mais trabalhar juntos, pois as relações entre eles já estavam tensas há bastante tempo. Poderia ter sido o fim prematuro do programa, mas Seymour Kneitel, que era genro de um deles, assumiu a produção e fundou o Famous Studios, que deu prosseguimento ao desenho animado e lançou mais 8 episódios, totalizando um conjunto de 17, que chegaram aos cinemas até julho de 1943. Depois disso, a produção foi encerrada por causa de seu alto custo.

A primeira parte dos episódios (do Fleischer Studios) eram mais focados em ficção científica e aventuras que guardavam semelhança aos quadrinhos do herói, enquanto a segunda parte (Famous Studios) era mais focada na ambientação da II Guerra Mundial. Além de sua qualidade e do voo do Superman, outro legado do programa foi o estonteante visual do prédio do Planeta Diário, com seu estilo art decó e o globo dourado no topo, que foi baseado em um prédio real: a sede da Paramount, na Broadway, em Nova York, edifício que existe até hoje e sedia também o Hard Rock Café.

O desenho marcou toda uma geração, foi a primeira oportunidade de ver o Superman em movimento e a qualidade de sua animação é tão alta que funciona ainda nos dias de hoje.

O Primeiro Livro

A DC Comics não foi tímida em publicizar o Superman em várias mídias: em 1942, o personagem ganhou sua primeira adaptação literária com o livro The Adventures of Superman, escrito por George Lowther, um dos roteiristas do programa de rádio e cujo romance servia como uma espécie de spin-off. O livro foi um grande sucesso, mas só ganharia outras duas edições, em 1979 (na esteira do sucesso de Superman – O Filme) e em 1995 (na esteira do sucesso de A Morte do Superman).

Lançado em capa dura e com uma bela capa com uma ilustração de Joe Shuster, o livro de Lowther teve o mérito de se basear mais nas HQs do que o próprio programa de rádio e trouxe algumas adesões importantes à mitologia do homem de aço, especialmente por trazer uma origem detalhada do herói. Para a linguagem em prosa, Lowther achou que o nome do pai biológico do Superman funcionava melhor como Jor-El do que a grafia Jor-L que era usada até então. Daí, o nome de nascimento do herói deixa de ser Kal-L para o definitivo Kal-El. A mãe biológica do Superman também foi mudada de Lora como aparecia nas HQs (um nome exótico, afeito à ficção científica) para o mais tradicional Lara, que se tornará definitivo também. E não demoraria muito (como veremos a seguir) para os quadrinhos incorporarem essas mudanças.

O livro, ao contrário do que fora mostrado nas cenas de flashback das HQs, Kal-El desenvolve seus poderes lentamente na Terra, em vez de já chegar aqui fazendo proezas. E pela primeira vez, temos uma ambientação rural para o crescimento do herói, pois seus pais adotivos são descritos como fazendeiros, mesmo que a cidade ao qual vivam não ganhe um nome. No livro, os pais adotivos são chamados de Sarah e Eben Kent, nomes fortemente vinculados às comunidades rurais do sul dos EUA, e alcunhas diferentes daquelas adotadas nas HQs, cujos nomes John e Mary seriam adotados em algum tempo. Mas outras mídias continuariam a usar Sarah e Eben. Mas um elemento de Lowther sobreviveu ao tempo neste quesito: ele informa que Clark era o sobrenome de solteira de Sarah, e por isso, ela batizou o filho de Clark.

Guerra e Vilões

Voando alto no rádio e nos cinemas e estampando três revistas – a mensal Action Comics e as bimestrais Superman e World Finest – o homem de aço viveu o apogeu de sua popularidade nos primeiros anos da década de 1940, enquanto o Siegel & Shuster Studios mantinha a produção a todo vapor. Mas agora, os roteiros de Jerry Siegel precisavam ser discutidos com o corpo editorial da National/ DC Comics, especialmente com Whitney Ellsworth e seus assistentes, Murray Boltinoff e Mort Weisinger, antes deste sair para a guerra.

O staff da DC Comics no início dos anos 1940: Murray Boltinoff, Paul Sampliner (diretor da Independent News, a distribuidora), Harry Donenfeld, Jack Liebowitz (em pé), Max Gaines (também em pé) e Whitney Ellsworth.

Um caso bem famoso dessa intervenção editorial se deu ali em algum momento do ano de 1942, quando Jerry Siegel escreveu um roteiro, desenhado por Paul Cassidy, no qual introduzia o Mineral-K, um pedaço de Krypton que se mostrava mortal para o Superman, mas a história foi recusada por Ellsworth, porque nela o herói revelava sua identidade secreta para Lois Lane. O editor argumentou que não estava disposto a mudar de modo tão radical o status quo da revista. Siegel seguiu adiante, afinal, a produção não podia parar e esse tipo de recusa, naquele momento, era algo comum.

Mas essa história teve dois desdobramentos interessantes. O primeiro foi apenas uma coincidência: essa foi a última história desenhada por Cassidy para o Siegel & Shuster Studios. O artista tinha se mudado para Cleveland, em 1938, para trabalhar freneticamente na tira de jornal, porém, no fim das contas, o dinheiro que recebia não era o suficiente para se manter na nova cidade, portanto, retornou à Milwakee, em 1940, e continuou trabalhando via correio para o estúdio, embora num ritmo menor – o que quer dizer que Wayne Boring assumiu a liderança da arte da tira ali por volta daquele ano. Depois de 1942, Cassidy trabalhou na arte da World Book Enciclopedia e foi diretor de arte da Craftchild Books (uma linha de livros infantis), terminando mais tarde assumindo a direção do departamento de artes da Milwakee Area Technical College.

Recriação (por artistas contemporâneos) de uma página da história do Mineral-K que introduziu o conceito da kryptonita.

O segundo desdobramento é que, três anos depois da rejeição daquela história, de algum modo, a HQ ou o roteiro foram parar nas mãos da equipe do programa de rádio do herói, porque o mesmo conceito foi adaptado como a Kryptonita, a maior fraqueza do homem de aço.

Enquanto Siegel preferia escrever histórias que serviam de modo mais ou menos independentes uma das outras, com apenas um pequeno fio de continuidade, e um elenco de apoio enxuto, Ellsworth começou a demandar que o Superman tivesse inimigos mais facilmente identificáveis, que gerassem ameaças mais dignas de seu alto nível de poder do que os costumeiros gangsters e vigaristas que eram o seu cotidiano desde o início. A figura do “cientista louco” como uma ameaça de maior peso foi cumprida inicialmente pelo Ultra-Humanita e logo substituído por Lex Luthor, mas até o ponto em que estamos, o (agora) careca criminoso era uma exceção à regra dos oponentes voláteis e inéditos. Mas isso logo iria mudar.

Superman versus Luthor na capa de Fred Ray.

Action Comics 47, de março de 1942, por Siegel e o artista John Sikela, trouxe uma história representante desse novo tipo: Luthor regressava outra vez em busca de um artefato místico chamado powerstone (pedra do poder), que conferiria grandes habilidades a quem se apossasse dela. O cientista ganha poderes elétricos que desafiam o Superman no aspecto físico, não somente no intelectual que Luthor demanda, e o herói precisa criar uma artimanha para enganar o vilão e esconder o artefato místico em um local que ele não pudesse encontrar.

Mas novos vilões iam chegando. World Finest Comics 06, de janeiro-fevereiro de 1942, trouxe a estreia de Metallo, um vilão de corpo robótico que seria um dos poucos de então que se tornaria recorrente.

Capa de Fred Ray.

Na Action Comics 49 estreou o The Puzzle, um homem muito inteligente e que gostava de criar jogos complexos que desafiavam o homem de aço e reapareceria algumas vezes.

O Galhofeiro usa uma pistola d’água contra o Superman em sua estreia. Arte de Fred Ray.

E mais importante ainda, na edição 51, de agosto de 1942, surgia o Prankster (Galhofeiro, no Brasil), um novo tipo de oponente: um sujeito que literalmente usava a galhofa para cometer crimes, criando “pegadinhas” mortais que desafiavam as pessoas e o próprio herói, mas não era algo nada próximo de um assassino cruel, por exemplo. Era algo mais posicionado dentro do direcionamento menos violento que Donenfeld e Ellsworth queriam imprimir às revistas. Em sua estreia, o Galhofeiro até escapa das mãos do Superman no final, conseguindo fugir, um elemento que era extremamente raro em suas aventuras até então. (Era mais comum o vilão ser preso, morrer ou se tinha que voltar, pelo menos ser “dado como morto” no fim. Mas escapar, era muito, muito raro).

O Arqueiro: primeiro vilão uniformizado do Superman.

Outro vilão – mas agora um ainda muito raro caso de supervilão uniformizado – surgiu numa das histórias de Superman 13, de novembro-dezembro de 1941, com o Arqueiro, que usava arco e flecha.

A II Guerra Mundial continua a se desenvolver como um tema cada vez mais presente (tanto nas histórias quanto nas capas), e é um marco Superman 15, de janeiro-fevereiro de 1942, na qual a segunda história traz a ameaça do país fictício Napkan (clara alusão ao Japão) e na terceira história vemos o conflito entre outros dois países fictícios: a Oxnalia (posando para Alemanha) e Numark (posando para a França), e é a primeira vez que a expressão “up, up and away” (“para o alto e avante” no Brasil) aparece nos quadrinhos. Este será o lema de quando o Superman precisa alçar voo. Enquanto a primeira história trazia pela primeira vez o nome de Jimmy Olsen para o rapazinho office boy que circulava na redação do (primeiro Estrela Diária e depois) Planeta Diário desde Action Comics 05 – e nem precisa dizer, será um personagem coadjuvante muito importante no futuro – a quarta história representava um “furo” dentro do ambiente agora mais controlado da redação da DC, com uma história do Superman contra o Evolution King, no qual, ao final, o herói engana o vilão para que ele tome uma de suas pílulas evolucionais e termine por envelhecer rapidamente até morrer.

Enquanto a arte é dividida entre Leo Nowak e John Sikela em Superman 16, a edição 17, de julho-agosto de 1942, traz Joe Shuster desenhando a primeira história, na qual Lois Lane tenta provar que Clark Kent é o Superman, e o herói usa sua supervelocidade para parecer fazer com que “os dois” estejam no mesmo lugar ao mesmo tempo. Era um movimento esperto de Siegel, afinal, a noção de que o homem de aço tinha uma identidade secreta era bastante recente para Lois, mas este artifício – dela tentar provar que os dois são um só – é um elemento que apareceu esta única vez ao longo de todos os anos 1940. Mas será um tema recorrente no futuro. Aguarde.

A base do Superman aparece pela primeira vez.

Outras coisas importantes acontecem naquela revista, com a terceira história trazendo a primeira aparição do Santuário Secreto do Superman, a primeira base de operações do herói, retratada como no topo de uma montanha próxima de Metrópolis. Esse conceito iria evoluir nas décadas seguintes para a Fortaleza da Solidão (que fica no Ártico), mas isso é tema para mais tarde. Em seu Santuário, o homem de aço guarda também uma “sala de troféus” com itens relacionados às suas aventuras.

E na quarta história há o retorno de Luthor, novamente de posse da powerstone, na arte de Sikela.

Em uma ocasião única, Action Comics 52 lista na capa todas as suas atrações: Mr. America, Vigilante, Superman, Zatara e Congo Bill. Arte de Fred Ray.

Mesmo com a interferência editorial, contudo, Siegel ainda conseguia entregar grandes histórias, como a de Action Comics 52, de setembro de 1942, chamada O Imperador da América, na qual um sujeito usa um dispositivo capaz de influenciar a mente das pessoas e deixá-las mais “dóceis” e aproveita a situação para gradativamente ganhar mais poder político e, por fim, se declarar Imperador dos Estados Unidos, praticamente sem oposição. O herói, por seus poderes alienígenas, é imune ao processo e se ergue, sob o disfarce do repórter Clark Kent, como uma voz dissonante solitária, o que lhe rende a perseguição e a acusação de crime contra a nação.

Superman voa para salvar o avião em Action Comics 52, por Siegel e Sikela.

A trama traz ainda mais uma daquelas cenas iniciais do Superman em voo, ilustrada por Sikela, na qual quando vão para Washington-DC, o avião de Lois e Clark sofre os efeitos de uma tempestade e o Superman vai ao lado de fora e voa para soerguer a aeronave e colocá-la de volta no prumo, retornando para dentro sem que ninguém perceba.

No fim, claro, Clark descobre o plano maligno e destrói a tal máquina de dominação, e podemos pensar que essa história remetia àquela primeiríssima versão do Superman como um homem que dominava a mente dos outros, e também, parecia um exercício de Siegel em tentar imaginar como uma nação inteira se submetia a um líder louco e maligno, como podia ver na ascensão do nazismo na Alemanha de então, além do fascismo em vários outros países. E, infelizmente, é algo tão atual nos dias de hoje.

Outra boa história vem na edição 55 na qual vemos a história de um famoso cartunista que decide morar em uma casa isolada nas montanhas como forma de inspiração, e termina acompanhando o início do namoro de um jovem casal vizinho, transformando isso num quadrinho de sucesso. Mas depois, com o casamento da dupla, o artista começa a querer manipular a vida deles em prol de sua HQ e o Superman termina intervindo, numa trama que os historiadores dizem ter se inspirado em Al Capp, da tira L’il Abner, traduzida no Brasil como Ferdinando.

Superman 18 traz outra história do herói contra os nazistas, com arte de Sikela, e outro confronto com Luthor, com arte de Nowak, na qual o vilão se estabelece em uma base na órbita da Terra, em meio a um asteroide artificial. O tema dos quadrinhos de Action Comics 55 retorna em Superman 19, de novembro-dezembro de 1942, na qual na primeira primeira história, Siegel e o artista Ed Dobrokta mostram quatro personagens de funny papers ganharem a vida, em versões mal-disfarçadas de sucesso da época, como Dick Tracy, Príncipe Valente, Cavaleiro Solitário e Flash Gordon). E num cruzamento interessante com os desenhos animados que tinham acabado de estrear na época, Siegel e Shuster mostram a história na qual Lois e Clark vão assistir ao programa no cinema. Numa “quebra da quarta parede” e numa alusão às futuras “histórias imaginárias”, Clark distrai Lois durante a apresentação dos créditos iniciais, que mostram que Clark Kent é o Superman, e quando ela percebe isso, fica muito chateada.

As revistas com data de janeiro de 1943 – Action Comics 56 e Superman 20 – foram as primeiras a trazer o nome de Jack Schiff como o novo editor assistente, no lugar de Mort Weisinger, que tinha sido convocado pelo exército. Schiff auxiliaria Ellsworth no dia a dia da redação, tratando especificamente das revistas do Superman e do Batman durante alguns anos.

Superman 20 traz a curiosa história em que, como uma forma de provocação (por causa da concorrência entre eles pelas matérias), Lois Lane cria uma notícia falsa de que Clark Kent é o Superman, mas por um descuido dela, a matéria termina publicada o que gera bastante confusão com o tímido repórter, que precisa provar sua “inocência”. No meio disso, os vilões Luthor e Puzzle fazem rápidas participações especiais, assim como Bruce Wayne e Dick Grayson, as identidades civis de Batman e Robin! É a primeira vez que esses três personagens compartilham uma história, ainda que sem nenhum grande desdobramento.

A pequena Suzie, filha de Lucy, e sobrinha de Lois.

Action Comics 57 traz o primeiro retorno do Galhofeiro e a edição 59 traz a primeira aparição de Suzie Tompkins, uma criança de uns 10 anos de idade que é sobrinha de Lois e filha de sua irmã, Lucy (ex-Lane) Tompkins. Na trama, Clark adormece enquanto lê uma história para a menina e sonha um conto de Cinderella com o Superman. A personagem Suzie seria usada dali em diante com alguém que colocava o herói em situações complicadas e difíceis, num aceno às histórias mais triviais e menos perigosas que a DC começava a demandar cada vez mais.

A edição 60 trazia a primeira vez que Lois Lane é retratada como a Superwoman, embora seja apenas outro sonho de Clark. A repórter ganhar superpoderes seria um recurso muito usado no futuro, mas isso é assunto para mais tarde.

Icônica arte de Jack Burnley para Superman 21.

Enquanto Superman 21 (que reunia artes de Dobrokta, Nowak, Sikela e Shuster) trazia o vilão Sir Gauntlet e uma história que – fato incomum – dava indícios de clara continuidade com menções diretas a outros vilões, como Metallo, Puzzle, Galhofeiro e Ultra; Superman 22 trazia o desenhista Pete Riss (mais Sikela e Shuster), e Dobrokta ilustra a terceira investida do Galhofeiro, numa trama típica do amansamento imposto pela DC, na qual o vilão causa uma grande confusão quando patenteia o alfabeto!

O Fim da Era Siegel

Entre 1938 e 1943, Jerry Siegel foi realmente o grande líder da produção em torno do Superman nos quadrinhos. Ainda que após 1940 ele tenha passado a ter que responder à supervisão de Whitney Ellsworth e seus assistentes, Murray Boltinoff, Mort Weisinger e Jack Schiff, mesmo sem total liberdade e tendo que se submeter a diretrizes e demandas de histórias específicas, o fato é que Siegel era o grande cérebro por trás de tudo.

Siegel e Shuster com um boneco do Superman.

Ainda que o Siegel & Shuster Studios possa ter empregado alguns escritores fantasmas de vez em quando – não há muita certeza sobre isso e as histórias, via de regra, são sempre creditadas a Siegel – sem dúvidas, o jovem de Cleveland era o autor pelo menos da maioria das histórias do Superman publicadas naqueles primeiros cinco anos. Então, tudo mudou…

A II Guerra Mundial ampliava seu escopo, com os nazistas alemães avançando sobre a Europa e os conflitos transbordando para o norte da África e a Ásia, enquanto os Estados Unidos atuavam em duas frentes distintas, contra eles no velho continente e contra os japoneses no Oceano Pacífico. Isso fazia a demanda de força de trabalho militar aumentar. E muito! Um programa agressivo de alistamento percorreu o ano de 1943, e como resultado, Jerry Siegel foi convocado ao exército.

Aliás, não apenas ele… vários outros artistas da indústria de quadrinhos terminaram convocados às forças armadas: Mort Weisinger já tinha ido, Leo Nowak e John Sikela também foram convocados no mesmo 1943, e em seguida, outros nomes da indústria dos quadrinhos, como Stan Lee, Jack Kirby e Joe Simon foram apenas alguns dos que terminaram nas garras do alistamento, seja voluntário ou compulsório.

Jerry Siegel em seu uniforme militar.

Siegel foi recrutado no dia 28 de junho de 1943, como na maioria das vezes, por meio de uma carta que chegou via correios. Ele se apresentou para o serviço compulsório e foi alocado no Forte George G. Meade no estado de Maryland para treinamento, na seção de técnico de aeronaves, porém, uma vez alocado, ele terminou trabalhando como escritor, contribuindo para a revista militar Star and Stripes. Somente seis meses após o fim da guerra, Siegel seria dispensado, em janeiro de 1946.

A rotina militar deixava muito pouco tempo para trabalhar em outra coisa, mas ainda assim, Siegel conseguiu enviar um roteiro ou outro para a DC Comics publicar, e isso somado aos textos que deixou prontos, garantiram que naqueles três anos de ausência, ele continuasse com histórias sendo publicadas nas revistas.

Action Comics 61, de junho de 1943, com arte de Ed Bobrotka, é normalmente creditada como a última na sequência ininterrupta de histórias do Superman publicadas naquela revista desde o número 01 assinadas por Siegel. A edição seguinte é normalmente creditada ao escritor Don Cameron, seu principal substituto.

Em Superman, a última edição com as quatro histórias publicadas initerruptamente por Siegel, normalmente é atribuída ao número 22, de maio-junho de 1943, com aquela história do Galhofeiro patenteando o alfabeto.

Contudo, roteiros de Siegel (sejam novos ou de gaveta) continuaram a ser publicados nos três anos seguintes, ainda que alternados com outros escritores. Em Action Comics, o criador do Superman é creditado pelas edições 69 (um intervalo de oito números), a sequência de 72 a 77 e 81 a 83, os números 87, 97, 98, 101, 104, com o último sendo a edição 105, de fevereiro de 1947.

Em Superman, Siegel é creditado com pelo menos uma história nas edições 23, 24, 25 e 26, e daí para frente, aparecendo nos números 28, 30, 37, 40, 41, 43, 45, 46 e o último sendo a edição 48, de setembro-outubro de 1947.

Mesmo sendo gradativamente afastado das revistas, Siegel ainda deixaria sua marca no personagem até o fim. Por exemplo, Superman 30, de outubro de 1944, trouxe a estreia do vilão Mr. Mxyztplki, com arte de Ira Yarbrough, sobre um mago da 5ª Dimensão que tem poderes absurdos de alteração da realidade e gosta (tal qual o Galhofeiro) de pregar peças no homem de aço. Ele só é derrotado quando é convencido a falar seu próprio nome de trás para frente, retrocedendo a sua dimensão. Embora dentro da nova direção de histórias mais amenas, o baixinho de chapéu coco teria uma presença duradoura na mitologia do herói. Não passa despercebida, ainda, a menção na história quando o Superman diz que achava que era única pessoa que podia voar.

As outras histórias da revista, contudo, eram assinadas por Bill Finger e Don Cameron, e este produziu o conto no qual Jimmy Olsen arma um plano para Clark Kent se passar pelo Superman, e quando Lois Lane flagra o repórter vestindo o uniforme do herói, pensa que é apenas parte do plano.

O vilãozinho na tira de jornal.

Naquela época, as tiras de jornal caminhavam bem próximas das revistas, não poucas vezes simplesmente adaptando histórias das revistas ao formato de quatro quadros diários e esse foi o caso com a estreia de Mr. Mxyzptlki, que quase ao mesmo tempo apareceu por lá. Com o afastamento de Siegel para o exército, coube ao próprio editor Whitney Ellsworth escrever a tira, com a arte de Wayne Boring. Boring passou a se dedicar quase integralmente à tira diária para mantê-la em produção, já que outros assistentes também tinham ido para a guerra, e teve como auxiliar Stan Kaye fazendo o nanquim. Nos roteiros, além de Ellsworth, colaboravam Jack Schiff e o novato Alvin Schwartz, que começou em 1944.

O principal substituto de Siegel nas revistas foi o escritor Don Cameron. Nascido Douglas Cough Cameron, em Detroit, em 1905, Cameron começou a carreira como repórter, antes de migrar para a escrita de contos em revistas pulp e romances baratos, terminando nos quadrinhos, a partir de 1942, escrevendo histórias do Batman. Na DC, ele escreveu histórias de diversos personagens, como Congo Bill e Zatara, e estreou no Superman em Action Comics 62, de julho de 1943, numa história na qual Lois Lane é sequestrada por nazistas.

Uma criança diz explicitamente que o Superman voa, em Action Comics 65.

Action Comics 65, por Cameron e Dobrotka, teve a curiosidade de trazer provavelmente a primeira vez que há uma menção por escrito de que o Superman voa. Naquele ponto já fazia pelo menos dois anos que o homem de aço voava pelos céus em vez de saltar, porém, existia certo pudor sobre tal tema, talvez justamente pelo fato de ser uma adesão posterior. A menção realizada na batalha contra Mr. Mxyzptlki saiu um ano depois disso.

A pequena Suzie aparece na capa

Também é de Cameron a história de Action Comics 68 na qual a pequena Suzie Tompkins reaparece, e ao vê-la ser mal tratada por Lois Lane (que não tem paciência para a fértil imaginação da garota), o Superman decide ensinar à repórter uma lição e cria uma situação na qual ele realiza as “mentiras” da menina – ter pescado uma baleia na baía de Metrópolis e ter visto um barco voando – diante de Lois, para que ela caia em si e perceba que tratou mal a sobrinha.

Quem precisa do Superman salvando o planeta de ameaças terríveis ou combatendo o sanguinário crime de uma grande cidade quando você pode tê-lo apenas usando seus superpoderes formidáveis para pregar peças na garota amada, não é mesmo?

Que ameaça terrível é o Mestre dos Brinquedos, não é?

Foi Cameron, ao lado do desenhista Ira Yardbrough, quem criou o vilão Toyman (Mestre dos Brinquedos ou Mestre dos Bonecos, no Brasil) em Action Comics 64, outro daqueles oponentes na linha do Galhofeiro, no qual a ameaça nunca é grande demais, e que, como seu nome diz, usa brinquedos para cometer crimes ou criar situações embaraçosas.

Em Superman, Cameron começa na edição 23, de julho-agosto de 1943, na primeira história em que o homem de aço age explicitamente em meio à II Guerra Mundial. Ele também introduziu outro vilão recorrente, o gangster J. Wilbur Wolfingham, em Superman 26, de janeiro-fevereiro de 1944, alguém que apareceria algumas vezes.

Bill Finger, um dos criadores do Batman, foi também um grande escritor do Superman.

Mas Cameron não foi o único e outros escritores também contribuíram na ausência de Siegel, dentre eles, Bill Finger, um dos criadores do Batman e do Lanterna Verde. Nascido em Denver, no Colorado, em 1914, Milton “Bill” Finger era filho de um alfaiate judeu que emigrou aos Estados Unidos fugindo da perseguição no Império Austro-Húngaro, mas cresceu no bairro do Bronx, em Nova York, onde estudou no DeWitt Clinton High School, a mesma escola de Bob Kane (com quem criou o Batman), Will Eisner e Mort Weisinger! Enquanto trabalhava como vendedor de sapatos, Finger reencontrou Kane em uma festa, que o convidou para ajudá-lo a escrever as histórias em quadrinhos que já estava produzindo para a DC Comics, e quando Jack Liebowitz solicitou aos seus artistas que criassem novos super-heróis para acompanhar o sucesso do Superman, Kane e Finger apresentaram o Batman, que foi lançado em Detective Comics 27, de 1939, como já vimos.

Embora não fosse creditado (pois as HQs levavam apenas a assinatura de Kane, que era o dono do “estúdio” que produzia o Batman), Finger foi o principal escritor do homem-morcego em seus primeiros anos e criou muito de seu universo, vilões e coadjuvantes, bem como trabalhou com outros personagens, criando a primeira versão do Lanterna Verde (Alan Scott) para a All-American Comics, que foi um dos poucos heróis que teve uma revista com seu próprio nome nos anos 1940, escreveu histórias da Sociedade da Justiça e também trabalhou em outras editoras, inclusive, na Marvel Comics, onde era um dos principais roteiristas do Capitão América em meados da década de 1940.

Deste ponto em que estamos (entre 1943 e 1944) em diante por bastante tempo, Finger também se tornou um dos principais roteiristas da franquia do Superman, enquanto continuava a liderar a produção do Batman ao lado de Kane.

Na arte da franquia do homem de aço, os mesmos artistas de antes continuaram a trabalhar, alguns ainda por meio do estúdio de Joe Shuster e outros contratados diretamente pela DC. Com uma visão deficitária, Shuster foi dispensado do serviço militar e continuou trabalhando no Superman pelos três anos em que Siegel esteve no exército. Sem a liderança do amigo escritor, contudo, Shuster virou, basicamente, um empregado da National, desenhando as histórias que eram repassadas para ele pelos editores e sem nenhum poder de decisão.

A Estreia do Superboy

No início de 1946, a National/ DC Comics promoveu uma grande mudança nos quadrinhos do Superman com o lançamento do Superboy, uma versão juvenil do homem de aço. Não temos certeza se o editor Whitney Ellsworth tinha ciência da enorme dor de cabeça que estava criando. Mas visou o lucro e estava certo: logo o menino de aço seria um imenso sucesso.

Mas vamos por partes… Ainda bem no início da produção de aventuras do Superman, em novembro de 1938, Jerry Siegel conversou com Jack Liebowitz e apresentou uma proposta de criar uma história com o Superboy, mostrando as aventuras de Clark Kent adolescente, antes de se tornar um adulto. Naquele ponto, a origem do homem de aço era suficientemente vaga para que isso fosse possível, mas Liebowitz recusou a proposta, porque naqueles tempos não era comum haver aventura de personagens adolescentes. Nem os parceiros mirins haviam sido inventados ainda. Heróis eram adultos e ponto final.

O tempo passou e dois anos depois, em dezembro de 1940, com o Superman fazendo um sucesso absurdo, Siegel fez a proposta de novo, agora, com um roteiro finalizado de uma história apresentando o Superboy, e dessa vez, foi Whitney Ellsworth quem recusou, com argumentos parecidos. Naquele ponto já existiam parceiros mirins como o Robin, porém, eles eram exatamente isso: coadjuvantes do herói principal, que era um adulto.

Assim como o Superboy, o Capitão Marvel Jr. também foi um grande sucesso.

Porém, exatamente um ano depois, a concorrente Fawcett Comics lançou a revista Whiz Comics 25, em dezembro de 1941, numa aventura em que para salvar o jovem deficiente Freddy Freeman da morte certa após uma batalha com o vilão Capitão Nazi, o Capitão Marvel (Shazam) cede uma fração de seu poder ao rapaz, que se transforma no Capitão Marvel Junior. Enquanto Billy Batson se transformava no herói gritando a palavra mágica “shazam”, Freddy gritava Captain Marvel e se transformava em uma versão do outro, num uniforme azul, mas mantendo a aparência de um adolescente, enquanto Billy virava um herói adulto.

Criado pelo roteirista Ed Herron e o desenhista Mac Raboy a partir do design inicial de C.C. Beck, o Capitão Marvel Jr. foi um grande sucesso e começou a ter suas próprias aventuras publicadas em Master Comics 23, de fevereiro de 1942, e até ganhou uma revista própria, Captain Marvel Jr. a partir de novembro daquele mesmo ano.

Todo esse sucesso de um herói com poderes muito similares ao Superman e com aparência adolescente deve ter soado o alerta na redação da National/ DC. Em algum momento daquele ano de 1942, a editora até produziu uma versão de teste de uma revista chamada Superboy, sem que nada fosse publicado, o que era uma estratégia dos negócios de então de garantir o copyright do título. Contudo, por motivos ignorados, nada foi feito até Jerry Siegel ser convocado pelo exército em junho de 1943.

Não há qualquer menção à estreia do Superboy na capa de More Fun Comics 101.

Algum tempo depois, Ellsworth finalmente demandou uma história do Superboy aos seus artistas, usando a maior parte do roteiro que Siegel deixara em 1940, que foi complementado por Don Cameron, enquanto o próprio Joe Shuster cuidou da arte. A história saiu em More Fun Comics 101, de janeiro-fevereiro de 1945, e mostrava uma origem mais detalhada do homem de aço, desde o planeta Krypton, inclusive trazendo os pais biológicos do herói, Jor-el (escrito com a letra “e” pela primeira vez, embora minúscula) e Lara, sendo a primeira vez que esses pais apareciam em uma revista em quadrinhos, afinal, eles tinham sido mostrados na tira de jornal, no programa de rádio e no livro, mas nunca tinha aparecido em qualquer uma das revistas da DC.

Abertura da história do Superboy.

Também era a primeira vez que os habitantes de Krypton eram chamados de kryptonianos, em vez de supermen ou raça de supermen. Aliás, nesta história – em contradição ao que apareceu nas tiras de jornal – os kryptonianos não têm superpoderes, mas são humanos comuns, e o bebê Kal-el só ganha suas habilidades especiais na Terra, com a explicação de que a gravidade de Krypton era muito maior do que a nossa, por isso, seu corpo era mais forte, denso e capaz de voar. Era uma mudança importante na origem do herói.

O pequeno Clark tem a ideia de virar o Superboy, por (Siegel?) Cameron e Shuster.

O resto da história segue mais ou menos como já visto em Action Comics 01 ou Superman 01, com o casal dos Kent – eles ainda não são batizados por nomes próprios nas HQ – que o batizam de Clark Kent, e daí, vem uma parte nova: com Clark percebendo, no momento em que está na escola com uns 10 anos, que precisa usar seus poderes para o bem, e para proteger sua identidade, cria o uniforme e a identidade de Superboy.

A edição 103 menciona o Superboy na capa.

Não esqueça, More Fun Comics era a mais antiga revista da DC Comics e, àquela altura, era a casa do Arqueiro Verde e seu parceiro Speedy (Ricardito), mas também tinha uma popular atração na dupla Dover & Clover, uma tira humorística. Ou seja, a publicação misturava histórias de aventura e humor.

Superboy aparece de verdade na capa pela primeira vez, na edição 104.

As edições seguintes, sempre escritas por Don Cameron e desenhadas por Joe Shuster, mostravam Clark nessa idade de uns 10 anos de idade rodeado por amigos da escola e ações quase sempre pueris, sem grande perigo ou consequência, apesar de seus vastos poderes. Curiosamente, o Superboy só é mencionado na capa de More Fun Comics 103 (após duas edições) e só aparece mesmo na capa no número 104, dividindo um anúncio da venda de bônus de guerra com Dover & Clover, e ganhando uma ilustração solo na edição 105.

Um dos grandes feitos do Superboy: jogar bila.

Essas aventuras foram publicadas somente até More Fun Comics 107, de janeiro-fevereiro de 1946, quando o Superboy e os outros super-heróis da revista – Arqueiro Verde, Aquaman e Johnny Quick – foram removidos do título e transferidos para Adventure Comics, começando no número 103, de abril de 1946, ao passo que More Fun Comics se tornou, dali em diante, realmente uma revista de humor, e os heróis, mais logicamente, se agruparam em Adventure Comics, ainda que isso tenha custado o cancelamento de Sandman, Starman e Mike Gibbs.

Siegel & Shuster versus DC Comics

No início do ano de 1945, enquanto servia o exército em sua base no Havaí, Jerry Siegel recebeu uma carta de seu amigo Joe Shuster, lhe comunicando que a National havia publicado uma história do Superboy (em More Fun Comics 101) baseada no roteiro que ele escrevera e fora recusado. Siegel ficou furioso com isso, afinal, como o roteiro fora recusado, a DC não o comprou, e portanto, a dupla não fora paga pelos royalties do personagem que haviam criador.

Ademais, crescia a insatisfação de Siegel com a editora, pois apesar de escrever o maior sucesso de seu tempo, eles não recebiam royalties pela adaptação do Superman para as outras mídias, como o rádio, os livros e os desenhos animados. Então, quando recebeu a dispensa do exército no início do ano de 1946, Siegel se estabeleceu com sua família em Nova York e se uniu com Shuster para processarem a DC Comics pelos direitos autorais do Superboy.

O fim do sonho para Shuster e Siegel.

O caso foi à Justiça e causou algum ruído, especialmente, porque, no fim das contas, Siegel e Shuster contestaram também os direitos do Superman em si, que tinham vendido em 1938 por apenas 130 dólares, o equivalente a 2,9 mil dólares em 2023. O caso se arrastou por alguns meses no tribunal, mas naquele tempo, a prática comum era os artistas venderem os direitos em troca da publicação. A defesa da editora argumentou que a dupla tinha sido bem paga pelo trabalho nas HQs, revelando que no ano de 1942 eles faturaram 63 mil dólares (algo como 1,2 milhões de dólares em 2023), e o tribunal revelou que a dupla ganhou da editora 400 mil dólares (7,7 milhões hoje) pelos trabalhos realizados entre 1937 e 1947.

No fim das contas, Siegel e Shuster terminaram realizando um acordo extrajudicial na qual cediam os direitos do Superman e do Superboy à DC Comics por 29 mil dólares, pouco mais de 1 milhão dos dias atuais, e garantiam que não iriam contestar esses direitos no futuro.

Não foi algo vantajoso para a dupla, principalmente porque, em represália pelo processo judicial, a DC se aproveitou do vencimento do contrato de 10 anos que haviam firmado em 1937 e dispensaram o trabalho da dupla. Siegel e Shuster ficaram desempregados.

Ao mesmo tempo, apesar do sucesso geral do Superman, o mercado de quadrinhos tinha entrado em crise logo após o fim da guerra em 1945, especialmente os super-heróis, cujas vendagens despencaram e várias daquelas criações que atulharam as bancas de revistas começaram a paulatinamente desaparecer de vista. Em outras palavras, não foi fácil para a dupla conseguir trabalho, ainda mais porque várias outras editoras receavam contratá-los e ter problemas judiciais no futuro. Seus nomes não eram mais bem-vindos.

Siegel e Shuster conseguiram um trabalho na Magazine Enterprises, liderada por Vin Sullivan (o mesmo que os contratou para a National) e publicaram a revista Funnyman, em janeiro de 1948, sobre um aventureiro em histórias cômicas, mas a HQ não emplacou e durou apenas seis edições, ainda que a dupla tenha emplacado uma tira de jornal do personagem pela Bell Syndicate, que começou em outubro de 1948 e durou um pouco mais, porém, encerrou a publicação em 1949.

Foi o último trabalho de Siegel e Shuster juntos e, dali em diante, eles seguiram seus caminhos separados. A carreira de Shuster seria bem mais obscura, mas Siegel reencontraria os caminhos do Superman no futuro… Aguarde!

Superman versus Ku Klux Klan

Um episódio de grande importância social e histórica envolvendo o Superman ocorreu em 1946, quando o programa de rádio do herói foi usado para denunciar a organização terrorista Ku Klux Klan.

O pesquisador de folclore, William Stetson Kennedy era um sujeito nascido em 1916 em Jacksonville, na Flórida, e que, ao ser dispensado pelo exército na II Guerra Mundial por ter problemas graves nas costas, decidiu canalizar seu patriotismo para a denúncia de grupos supremacistas e racistas que se espalhavam pelos Estados Unidos na década de 1940. Ele se infiltrou em vários desses grupos, inclusive, na temida Ku Klux Klan, que desde a década anterior vinha enforcando e queimando negros no sul dos EUA, em especial no estado da Geórgia. Em 1944, inspirado pelo livro Under Cover, de John Roy Carlson, que denunciou os nazistas americanos, Stetson Kennedy começou a escrever um livro sobre a KKK, a partir de sua própria experiência, tendo se infiltrado na organização, para denunciar seus crimes. O livro Southern Exposure seria publicado em 1946 e causou um grande impacto revelando os rituais e códigos secretos da Klan e seus atos terroristas de natureza racista e supremacista, bem como o apoio de lideranças políticas e figuras influentes. Mas houve outro produto do trabalho de Kennedy que também teve grande impacto na cultura pop…

Kennedy procurou os produtores de The Adventures of Superman, o popular programa de rádio do herói, para produzir uma histórias baseada em seu livro, e os produtores aceitaram! Entre junho e julho de 1946, foi exibido o arco de histórias The Clan of the Fiery Cross, em 16 capítulos, que mostrava o Superman agindo para desmantelar uma organização terrorista racista chamada Cruz de Fogo (para não ter problemas legais, afinal, àquela altura – por incrível que pareça aos dias de hoje – a KKK ainda era uma organização legal), mas expondo rituais e códigos reais da Klan.

É normalmente dito nos livros – especialmente aqueles sob a chancela da DC Comics – que o programa escandalizou a sociedade americana e que teria até diminuído o recrutamento de novos membros à organização, mas o autor Brian Cronin, que analisa uma série de “lendas urbanas” em seu livro Was Superman a Spy? (e também em sua maravilhosa coluna no site Comic Book Resources), pondera que, a despeito da enorme importância cultural e histórica de usar um popular programa como o do Superman para denunciar as atrocidades de uma organização como a Klan, não existem provas ou estudos sobre o real impacto do programa e sua exposição na sociedade americana da época; além do fato que, qualquer efeito precisaria ser compartilhado com o próprio livro de Kennedy.

Mas foi realmente importante que o programa de rádio do Superman tenha se colocado contra a Ku Klux Klan em plenos anos 1940 e feito o homem de aço lutar por essa causa tão importante, contra o preconceito, o racismo e a xenofobia. O episódio seria retomado décadas mais tarde, quando a DC Comics comissionou o escritor Gene Luen Yang para escrever uma minissérie em quadrinhos chamada Superman Smashes the Klan, com arte de Gurihiru, publicada entre 2019 e 2020, em três capítulos.

Reestruturação Editorial na DC Comics

Max Gaines foi bastante bem sucedido como editor de super-heróis através do “braço” da DC Comics, a All-American Publications, mas não era essa a sua maior ambição. Observando um leve declínio na venda das revista ao longo do ano de 1944, Gaines pensou que aquela moda iria passar (ele estava certo!) e decidiu investir em outra empreitada. Um acordo foi feito e no fim do ano de 1944, Jack Liebowitz comprou a parte de Gaines na editora (usando um “empréstimo” de Harry Donenfeld). Com isso, Liebowitz se tornou o único sócio “oficial” da All-American, embora na prática fosse um empregado de Donenfeld.

William Moulton Marston (sentado), Harry G. Peter (os criadores da Mulher-Maravilha) no escritório com Sheldon Meyer (em pé) e Max Gaines (sentado).

As coisas se mantiveram assim por um tempo, mas com o real declínio das vendas de super-heróis, Donenfeld achou que era mais rentável e prático fundir as duas companhias, o que ocorreu em setembro de 1946, quando a DC Comics fagocitou a All-American, se tornando uma empresa só, agora com o nome oficial de National Comics Publications.

Por sua vez, Max Gaines pegou seu dinheiro e abriu sua própria companhia, fundando a EC Comics, abreviação de Educational Comics, uma editora voltada para crianças e jovens numa pegada mais educacional mesmo, focada em história, ciência e em ilustrações da Bíblia. Perceba a ironia do título, pois a letra “E” é a que vem depois da “D”. Gaines se manteve no mesmo endereço da “velha” empresa, mas terminou por morrer em um acidente de barco em agosto de 1947, aos 52 anos de idade. Coube a seu filho, William Gaines, de apenas 25 anos de idade assumir a EC, e o garoto mudou totalmente o direcionamento da editora, investimento em histórias de terror e crime e criando um legado de algumas das mais radicais e violentas HQs já publicadas.

Julius Schwartz começou a trabalhar na DC Comics. Mas ainda não no Superman.

Na National, com DC e All-American agora como uma empresa só, houve uma reorganização editorial. Na extinta editora, Gaines tinha como braço direito Sheldon Meyer desde o início, mas a ampliação da linha de revistas levou à contratação de Julius Schwartz, um dos nomes mais importantes na história do Superman em todos tempos. Já encontramos Schwartz antes: ele fora amigo e sócio de Mort Weisinger, e é quase certo que foi este quem o indicou para trabalhar com Meyer e Gaines. Após a fusão das companhias, a Meyer foi dado um cargo de gerência e ele não ficou feliz com isso, pois preferia estar mais ligado à parte artística, então, ele se demitira em 1949 para voltar à se dedicar à escrita.

O Staff da DC Comics em 1948: ao centro Harry e Irwin Donenfeld, Paul Sampliner (da Indepent News) e Jack Liebowitz, cercados por editores e artistas.

Dessa forma, a organização interna da DC Comics a partir de 1948 tinha a seguinte divisão: Mort Weisinger cuidava da editoria das revistas Action Comics e Superman (ou seja, responsável pelo homem de aço); Jack Schiff estava com Detective Comics, Batman e World’s Finest (com as revistas do Batman); Julius Schwartz herdou a editoria das publicações advindas da All-American, com All-American Comics, All-Star Comics, Flash Comics, Green Lantern e Comics Cavalgade; Robert Kanigher, com Sensation Comics e Wonder-Woman (ou seja, as revistas da Mulher-Maravilha); Larry Nadle cuidava da linha de revistas de humor (com 5 publicações); Bernie Breslauer, as revistas de animais falantes e de outro tipo; e ainda sobrava um punhado de revistas que eram cuidadas de modo coletivo por Weisinger, Breslauer e Murray Boltinoff (que, por sua vez era o braço direito de Ellsworth na redação), um conjunto que incluía Adventure Comics, Boys Commandos e outras de faroeste. Whitney Ellsworth era o líder da redação e a palavra final em termos criativos, embora submetido às ordens de Donenfeld e Liebowitz, que cuidavam essencialmente da parte comercial, com estratégias de venda e divulgação, além de licenciamentos.

Ademais, é importante ressaltar que, naquele ponto, o filho de Harry Donenfeld, Irwin Donenfeld, passara a atuar como um dos sócios da National/DC, tendo apenas 22 anos de idade e recém-graduado na universidade.

Mort Weisinger se tornou o editor do Superman.

No que nos interessa aqui de modo mais direto, Mort Weisinger se tornou o editor das revistas do Superman, após regressar das forças armadas no início de 1946, tomando o lugar de Jack Shiff, que foi designado às revistas do Batman. Ainda mais com o afastamento de Jerry Siegel, Weisinger se tornou, dali em diante, a principal voz diante da produção das HQs do homem de aço, o responsável por comprar roteiros e contratar desenhistas, realizar propostas de histórias, direcionamentos editoriais etc.

O Superman no Fim dos Anos 1940

Enquanto as últimas histórias de Jerry Siegel eram publicadas, ao mesmo tempo em que o processo judicial contra a DC Comics corria na justiça e acontecia a fusão da National com a All-American, alguns pequenos desenvolvimentos do homem de aço ocorriam. A lacuna de Siegel era preenchida por Don Cameron e Bill Finger, mas também outros escritores foram trazidos à redação, como Alvin Schwartz, Joseph Samachson, William Woofolk, Edmond Hamilton e até o editor executivo Whitney Ellsworth assumiu algumas histórias, enquanto o lugar de Joe Shuster era ocupado especialmente por seus antigos “assistentes” (desenhistas fantasmas), como Wayne Boring, John Sikela, Ed Dobrokta, Win Mortimer, mas alguns novos iam chegando, também, como Sam Citron, Al Plastino e Curt Swan.

A renovação, contudo, não foi bem-sucedida em criar novos elementos memoráveis do Superman, pelo menos no curto prazo. A maior parte das novidades, como veremos, terminaram sendo o desenvolvimento de ideias plantadas por Siegel anteriormente.

Alvin Schwartz estreia como escritor das revistas do homem de aço em Action Comics 78, de novembro de 1944, e àquela altura, ele já era o principal escritor da tira diária de jornais do Superman há mais de um ano, substituindo Siegel; enquanto o vilão J. Wilbur Wolfingham retorna pela primeira vez na edição 79, e Mr. Mxyztplki também regressa pela primeira vez na edição 80, de janeiro de 1945. Neste ponto, os textos de Siegel ainda estavam saindo e é dele o roteiro da edição 83, que tem a arte de Joe Shuster, na qual é introduzida a dupla de “mágicos” Hopus & Pocus, que pensam que têm reais poderes mágicos quando o Superman intervém secretamente. Esses atrapalhados personagens apareceriam algumas vezes depois.

Mas a ausência de Siegel é sentida e novos autores precisam ser contratados: Joseph Greene escreve pela primeira vez na edição 84 e Joseph Samachson no número 92, de janeiro de 1946.

Ao mesmo tempo, uma história de Bill Finger em Superman 35, de julho-agosto de 1945, traz uma cidade chamada Smallville, mas esta ainda não era a “terra natal” de Clark Kent. Superman 40 trouxe o “incrível” encontro da sobrinha Suzie Tompkins com Mr. Mxyztplki, numa história de Don Cameron.

O mercado de quadrinhos começava a retrair cada vez mais forte no cenário pós-guerra e a diminuição das vendas traz consequências. A revista Superman reduz seu tamanho de 64 para 52 páginas, passando de 4 histórias para somente 3, a partir da edição 41, de julho-agosto de 1946.

Além de amenizar as histórias, outras estratégias começam a ser tomadas, como trazer histórias natalinas no período de fim de ano, como em Action Comics 93, por Cameron, e a trazer celebridades da vida real para ilustrar as capas ao lado do herói ou mesmo a aparecerem como “personagens” nas histórias. E não foram poucas: o apresentador Ralph Edwards, em Action Comics 127, de dezembro de 1948; a atriz Ann Blyth, em Action Comics 130, de março de 1949; e o cantor Perry Como, em Superman 67, de novembro-dezembro de 1950, foram apenas alguns dos casos.

A despeito disso, algumas novidades aparecem, como finalmente a aparição de Lucy (Lane) Tompkins, a irmã de Lois e mãe de Suzie, após ter sido apenas mencionada todas as outras vezes, em Action Comics 98, de julho de 1946, numa história de Jerry Siegel e Ira Yarbrough, e para celebrar a alta numeração, a edição 100 trouxe uma história de Alvin Schwartz e Yarbrough, na qual um detetive da Scotland Yard vem especialmente da Inglaterra para descobrir a identidade secreta do Superman (tomando o papel que normalmente seria dado a Lois no futuro em breve), e até deduz que é Clark Kent, mas o herói usa seus poderes para convencê-lo do contrário.

Outro feito notável foi em Action Comics 101, de outubro de 1946, noutra história de Siegel com arte Win Mortimer, na qual o Superman presencia o teste de uma bomba atômica. Mortimer era um artista de carreira, nascido em 1919, em Ontario, Canadá, e tinha começado a desenhar o Batman na DC Comics, e a edição 101 foi seu primeiro trabalho nas revistas do homem de aço. Essa história havia sido adiada por um ano, pois o FBI pedira à DC Comics que não a publicasse, para não revelar “segredos” sobre os testes atômicos tão cedo, como fiz Brian Cronic em seu livro, Was Superman a Spy?.

Provavelmente, a última história do Superman realizada pela dupla Siegel e Shuster saiu em Superman 43, de novembro-dezembro de 1946.

A infame capa de Action Comics 105 (por Wayne Boring) traz a última história de Jerry Siegel nessa revista na Era de Ouro.

Siegel assina uma história de Action Comics pela última vez (em vários anos, pelo menos) na edição 105, de fevereiro de 1947, em outra daquelas histórias de teor natalino.

Enquanto vemos Lois Lane vestida como Superwoman pela primeira vez na capa de Superman 45 (numa história de Alvin Schwartz e John Sikela) – o que é uma situação falsa, com o homem de aço atuando para fazer parecer que a amada tem poderes -, a intrépida repórter começa a ter meio que aventuras solo, nas quais ela é a protagonista e o homem de aço apenas um coadjuvante, ocupando uma das histórias de Superman, geralmente escritas pelo próprio editor executivo Whitney Ellsworth, como uma forma de aproximar o público feminino que era crescente nas HQs, em especial com o crescimento do setor de revistas de romance.

Siegel assina as três histórias de Superman 46, de maio-junho de 1947, incluindo uma chamada That old class Superboy, na qual o oponente é Mr. Mxyztplki e pela primeira vez há uma trama do homem de aço fazendo uma referência ao seu passado como Superboy, cujas aventuras eram publicadas em Adventure Comics.

Superman 48 traz as últimas aventuras da Era de Ouro escritas por Jerry Siegel. Fim de uma era.

O criador do personagem assina de novo as três histórias de Superman 48, de setembro-outubro de 1947, a última a trazer Siegel nesta etapa de sua vida, incluindo uma trama contra Luthor, na qual pela primeira vez o homem de aço usa seus poderes para viajar no tempo – uma habilidade que os editores (Mort Weisinger, no caso) exploraria bastante logo, logo. Até ali, as histórias do Superman mantinham o crédito “by Jerry Siegel & Joe Shuster” desde o começo de suas aventuras, porém, essa edição foi a última vez que tal crédito apareceu nas revistas da DC Comics. O processo judicial da dupla criadora fez a empresa cancelar esses créditos, e dali em diante, as histórias do Superman simplesmente não traziam crédito nenhum, com os criadores permanecendo anônimos. E Siegel e Shuster banidos da editora.

Uma pequena amostra de que o universo do homem de aço começava a passar por mudanças significativas se dá a sentir a partir dessa época, o que é representado de modo simbólico no fato do sargento Casey, o aliado do Superman na polícia de Metrópolis, aparecer pela última vez em Action Comics 118, de abril de 1948.

Edmond Hamilton.

Mais ou menos ao mesmo tempo, Superman 50, de janeiro-fevereiro, trouxe a estreia de Edmond Hamilton (com arte de Win Mortimer, publicando nessa revista pela primeira vez), que se tornará um dos maiores escritores do Superman em todos os tempos… Nascido em 21 de outubro de 1904 em Youngstown, Ohio, ele cresceu na Pensilvânia e ingressou no Westminster College com apenas 14 anos, embora não tenha terminado a faculdade, talvez por não se ajustar ao ambiente, por causa de sua pouca idade. Ele começou a escrever contos de ficção científica e passou a ser publicado pela revista Weird Tales, em 1926, a mesma que publicava autores como H.P. Lovecratf e Robert E. Howard. Hamilton se tornou um dos mais populares escritores dos anos 1930 e 40, e criou o popular personagem Captain Future, em 1940. A partir de 1942, ele começou a escrever esporadicamente para a DC Comics, especialmente para o Batman, mas depois chegou ao Superman, a quem se tornou bastante vinculado.

Action Comics 119 trouxe um evento importante do ponto de vista editorial: é a primeira edição na qual a editoria é assinada por Mort Weisinger, que já estava envolvido com o personagem desde sete anos antes, porém, até ali, como um editor assistente (de Murray Boltinoff primeiro e Jack Schiff, depois), mas a partir dali, era o “chefe” das revistas do homem de aço. Também marca a chegada de Edmond Hamilton pela primeira vez nesta revista.

Curt Swan.

Outra estreia acontece em Superman 51, de março-abril, com o desenhista Curt Swan, que se tornará um dos mais importantes artistas do personagem em todos os tempos. Nascido em 17 de fevereiro de 1920, em Minneapolis, Swan serviu a Guarda Nacional e terminou indo para a II Guerra, em 1940, atuando na Europa, antes de regressar aos EUA e começar a trabalhar com quadrinhos, em histórias de guerra na revista Boys Commandos da DC Comics. Ele trabalhou na HQ de Tommy Tomorrow na mesma Action Comics antes de saltar ao Superman. Mas aqui ele estava apenas começando…

Al Plastino desenha o Superman em um evento.

Nessa época, outra estreia importante no universo do Superman se deu com a chegada do desenhista Al Plastino, que estreou em Action Comics 120, numa história de Alvin Schwartz. Nascido em Manhattan, em 1921, Plastino cresceu no Bronx e desenvolveu suas habilidades artísticas desde cedo, indo estudar na prestigiada School of Industrial Arts, de Nova York, atuando no mercado gráfico comercial antes de ingressar na área dos quadrinhos na Dynamic Publications, e tendo uma passagem pela Marvel/ Timely, fazendo o nanquim em histórias do Capitão América até ser convocado pelo exército, em 1943, onde terminou trabalhando com design e na produção de posteres. Quando foi dispensado, voltou a trabalhar com desenho gráfico antes de conseguir seu emprego na DC Comics para desenhar o Superman.

Superman 53, de julho-agosto de 1948, foi uma edição especial comemorativa dos 10 anos de publicação do homem de aço, e por isso, Mort Weisinger decidiu recontar a origem do herói aos novos leitores, numa história de Bill Finger com arte de Wayne Boring, que a partir daquele momento, deixava as tiras diárias de jornal do Superman para se tornar o principal artista do homem de aço em suas revistas. (Seu lugar na tira foi ocupado por Win Mortimer). Foi nessa aventura que os pais terráqueos de Clark Kent foram oficialmente batizados de John e Mary Kent, a despeito dos nomes diferentes usados nas outras mídias. Também é mostrado que foi ideia de John que Clark usasse seus poderes para ser um campeão da justiça e, reforçando o que fora mostrado na edição 01, que ele se tornou o Superman após a morte deles. Também é a primeira vez que se mostra que Clark cresceu em Smallville, com Finger reaproveitando o nome que criara para outra aventura genérica.

Wayne Boring definiu o estilo de desenho do Superman a partir do fim dos anos 1940.

Até aquele momento, o Superman era ilustrado mais ou menos de duas formas distintas, pois enquanto os artistas copiavam o estilo mais caricatural de Joe Shuster, as capas ainda eram feitas principalmente por Jack Burnley, que tinha um traço mais refinado e detalhado. Mas com Shuster agora distante para nunca mais voltar, Mort Weisinger designou que Wayne Boring criasse o template definitivo do homem de aço, sobre o qual todos os outros artistas tinham que copiar o estilo. O homem de aço de Boring tinha um rosto maduro, mas sem as “dobrinhas” laterais sempre usadas por Shuster, e Boring também o fazia ter um peitoral bem destacado, com uma compleição meio quadrada, que passou a ser o design oficial do herói.

A partir daí, cada vez mais o próprio Boring começou a fazer as capas de Action Comics e Superman, com Al Plastino e John Sikela também as fazendo ocasionalmente. Sob a liderança de Weisinger, Boring e Plastino se tornaram os principais artistas do Superman na virada da década de 1940 para 50, enquanto o time de Sikela, Dobrotka e o novato Swan assumiam apenas as histórias consideradas “secundárias”, o que incluía o Superboy. O trabalho intenso nas revistas impossibilitava que Boring continuasse a trabalhar nas tiras de jornal diárias e dominicais, então, este trabalho passou para Win Mortimer a partir de 1949, e ele continuaria nos jornais até 1956. O roteiro das tiras foi responsabilidade exclusiva de Alvin Schwartz entre os anos de 1947 e 1951, quase sempre, adaptando histórias das revistas para a exposição seriada diária dos jornais.

Action Comics 121, com arte de Plastino, traz uma história do Superman contra o deus grego Atlas, antes de descobrir ser um farsante, e a edição 125 traz a curiosa história na qual um capanga de Luthor vê o Superman se transformar em Clark Kent e o herói precisa, de novo, usar sua supervelocidade para mostrar ao vilão que são duas pessoas diferentes. Luthor regressa de novo no número 131, e a edição 132, de maio de 1949, traz uma história de Bill Finger que explora a família Kent, mostrando outros parentes “adotivos” do herói.

O típico Superman quadrado de Wayne Boring.

Superman 58, de maio-junho, traz história de Edmond Hamilton e Wayne Boring na qual a base do herói é chamada pela primeira vez de Fortaleza da Solidão, e também se localiza no Ártico, em vez do QG nas montanhas próximas a Metrópolis como fora até ali. A edição 59, escrita por William Woofolk, com arte de Boring, traz uma interessante trama na qual Lois usa um colar místico das antigas Amazonas e incorpora o espírito de uma, indo até a Selva Amazônica para se tornar rainha delas, mas a intervenção do Superman resolve tudo. É nesta aventura que o herói usa pela primeira vez sua visão de calor, que é apresentada como o uso superconcentrado da visão de raio-X.

Superman (quadrado) entre belas mulheres, por Wayne Boring.

É de Plastino a arte da história de Superman 61, de novembro de 1949, escrita por Bill Finger, na qual, pela primeira vez, o homem de aço conhece sua origem kryptoniana. Afinal, desde o início de aventuras do personagem, 11 anos antes, o leitor sabia que o homem do amanhã de outro planeta, mas como Clark chegou aqui ainda criança, não tinha como saber disso, portanto, era presumível que não sabia qual a origem exata de seus poderes. Nesta aventura, ao ser enfraquecido por uma misteriosa rocha radioativa (sim, a kryptonita!), o Superman usa sua supervelocidade para viajar no tempo e voltar ao ponto onde possa descobrir a origem do mineral, e o herói termina em Krypton, sob a forma de um fantasma (pois não pertence àquele tempo) e presencia os eventos de sua origem, com a destruição do planeta e sua chegada à Terra.

Após tantos e tantos anos, o Superman descobre suas origens kryptonianas, por Finger e Plastino.

Somente nesta ocasião, ele descobre que seu nome é Kal-El, que seus pais biológicos eram Jor-El e Lara, e que nasceu em Krypton e ele foi enviado à Terra em uma nave especial antes do planeta explodir matando todos os seus habitantes. Também é nessa história que a kryptonita é usada nos quadrinhos pela primeira vez (depois de ter sido criada, mas não usada, por Siegel, e aproveitada no programa de rádio). Curiosamente, nesta ocasião, ela é pintada de vermelho, mas nas seguintes, assumiria sua cor mais célebre em verde. A trama de Finger mostra que a alta concentração da kryptonita no núcleo do planeta é o que o faz explodir.

Como se vê, a segunda metade da década de 1940 até que trouxe alguns avanços ao universo criativo do Superman. Sem seus criadores, o personagem teve suas origens redefinidas e até consolidou um pequeno núcleo de vilões rotativos – Luthor, Galhofeiro, Mestre dos Brinquedos e Mr. Mxyztplki – enquanto prosseguia enfrentando ameaças genéricas que não reapareciam. O grande “porém” estava no fato das aventuras estarem em uma descendente de amansamento para não afugentar os pais dos jovens leitores, e os críticos, pelas violentas HQs da EC Comics que dominavam o mercado de então.

O Sucesso de Superboy

Infelizmente, ao longo das décadas de 1940 e 50, os números de vendagens de HQs não eram públicos, por isso, não se sabe com certeza absoluta o quanto essas revistas vendiam, mas o consenso entre historiadores é que as aventuras de super-heróis entraram em um forte e rápido declínio já a partir de 1944 e, após o fim da II Guerra Mundial, o gênero foi quase varrido do mapa.

Último número de Flash Comics traz o Gavião Negro na capa.

Para se ter uma ideia, o vasto panteão de heróis da DC Comics foi gradativamente desaparecendo das bancas, com personagens como Sandman, Doutor Meia-Noite, Hourman e outros deixando de ser publicados já em meados da década. Os mais populares resistiram um pouco mais, porém, não muito: a longeva revista All-American Comics, que publicava as aventuras solo do Lanterna Verde foi finalizada na edição 102, de outubro de 1948, e mudou de título para All-American Western, focada em histórias de faroeste; o Lanterna Verde ainda tentou se manter em sua própria revista, Green Lantern, mas ela também foi encerrada no número 38, de maio-junho de 1949; a popular Flash Comics foi descontinuada na edição 104, de fevereiro de 1949, encerrando as aventuras individuais de Flash, Gavião Negro (Hawkman) e Canário Negro; e Sensation Comics, que publicava histórias da Mulher-Maravilha, mudou a temática para histórias de romance a partir da edição 94, de novembro de 1949 (e seria definitivamente cancelada no número 116, quatro anos depois); ainda que a revista Wonder-Woman tenha sobrevivido.

Um capítulo importante dos heróis da DC Comics acabaria em fevereiro de 1951, quando saiu All-Star Comics 57, último número dessa revista, que ainda trazia as aventuras da Sociedade da Justiça da América, reunindo os heróis sobreviventes, como Flash e Lanterna Verde, que simplesmente sumiram dali em diante. Ou seja, após a virada da década de 1940 para 50, Superman, Batman e Mulher-Maravilha eram os únicos heróis da editora que persistiam sendo publicados, ao lado de títulos de romance, de guerra e de faroeste.

Ultima aventura do Capitão América original em 1949.

E a DC não estava isolada nesse panorama: sua maior concorrente, a Marvel Comics (ainda chamada Timely, naqueles tempos) deixou de publicar todos os seus super-heróis – Capitão América, Tocha Humana e Namor, o Príncipe Submarino – no segundo semestre de 1949. A Fawcett Comics prosseguia com o Capitão Marvel (Shazam) e sua Família, mas isso também não duraria muito tempo, como veremos em breve.

Tendo em vista esse contexto, é impressionante o sucesso do Superboy em pleno final da década de 1940. Como vimos, após algumas edições de teste em More Fun Comics, o menino de aço foi transferido para Adventure Comics a partir do número 103, de abril de 1946, ainda escrito por Don Cameron e desenhado por Joe Shuster. Entre os grandes feitos do jovem herói estava, como mostra aquela edição em específico, garantir que uma de suas amigas de escola tivesse um aniversário decente. O processo judicial contra a DC fez Shuster encerrar seu trabalho na franquia como um todo na edição 107 daquela revista, quando a arte foi assumida por seu assistente, John Sikela.

Outro grande feito do Superboy ao salvar o trenzinho de seus amigos.

Aquelas aventuras mostravam o Superman realmente como uma criança, desenhado como se tivesse uns 10 anos de idade, mas gradativamente, a arte começou a mostrá-lo um pouco mais velho, com uma aparência de uns 12 anos, tal qual eram os parceiros mirins como o Robin ou o Speedy (Ricardito), o que pode ser visto mais ou menos por volta de Adventure Comics 117, de junho de 1947, quando outros escritores como Bill Finger e William Woofolk também começara a contribuir aos roteiros e a arte foi assumida por Al Wenzel ou Win Mortimer.

O fato do Superboy crescer um pouquinho – talvez para se ajustar melhor à idade dos leitores? – não mudou em nada a tônica das histórias, e os feitos do menino de aço incluíam ajudar a um intérprete de Papai Noel que emagreceu a engordar de novo para voltar ao seu papel (edição 125) ou a encontrar quem foi o misterioso aluno que deixou uma rosa para uma professora que se aposentou (e no fim descobrir que não era um aluno, mas outro funcionário da escola, com quem a mestra decide casar, vejam só), como vimos na edição 129.

Ademais, essas histórias tinham quase sempre uma ambientação urbana, e não rural como ficaria estabelecido em breve, e estavam focada na vida escolar de Clark Kent, com seus pais quase nunca aparecendo, e quando o faziam, eram mantidos anônimos. (Lembrem: eles seriam batizados de John e Mary apenas naquela história de 1948 de Superman 53).

Naqueles tempos, é preciso entender, as histórias não eram jamais republicadas (uma prática que só começaria a ser adotada nos anos 1960), portanto, os leitores casuais não tinham como saber de uma história publicada dois ou três anos antes. Assim, embora houvesse um senso de continuidade geral nas histórias, não havia a obsessão cronológica que seria a marca de alguns anos no futuro. Por isso, era muito comum que as tramas criassem contradições à continuidade ou à cronologia, e isso era particularmente sensível em aventuras como a do Superboy, que se passavam no “passado” do Superman.

Os choques começaram a se tornar muito comuns na medida em que as tramas avançavam. Por exemplo, Adventure Comics 120, de setembro de 1947, trazia uma história de Don Cameron e Al Wenzel na qual o Superboy ajudava o jovem Perry White a conseguir seu emprego no Planeta Diário, o que era uma contradição tanto às idades dos personagens (White deveria ser mais velho do que isso) quanto ao fato de (mesmo ignorando que as primeiras histórias do Superman traziam George Taylor como editor do Estrela Diária) as primeiras histórias do personagem mostrarem explicitamente que o Superman era uma “novidade” quando o encontramos em Action Comics 01, e que White não poderia, portanto, conhecer o herói antes, menos ainda como Superboy.

Na mesma linha, Adventure Comics 128, de maio de 1948, trouxe uma história de Bill Finger e Wenzel na qual Clark Kent e Lois Lane se encontram pela primeira vez, ainda adolescentes, disputando por um estágio no Planeta Diário, e ela até encontrar o Superboy (contradizendo de novo Action Comics 01). A trama retoma o tópico da rivalidade jornalística entre Clark e Lois, e ele sempre em desvantagem, porque precisa se transformar no Superboy para salvar o dia, e também, ficando interessado nela (uma vantagem deles serem um pouco mais velhos do que antes) e a garota o repudiando.

De qualquer modo, essas histórias pueris do menino de aço eram um grande sucesso, o que levou a um evento editorial importante: enquanto Adventure Comics 138 estava nas bancas, estreou a revista Superboy 01, de periodicidade bimestral igual à irmã Superman, com data de capa de março-abril de 1949, e trazendo três histórias em 52 páginas, assinadas, respectivamente por Ed Herron (roteirista com experiência no Capitão América e no Capitão Marvel) e John Sikela, Edmond Hamilton e Ed Dobrotka e William Woofolk e George Roussos. Superboy era a primeira nova revista de super-heróis a ser lançada pela DC Comics desde o fim da II Guerra Mundial, e continuaria a ser a única até fins da década de 1950!

Para se ter uma ideia, Superboy era até ali apenas a sexta vez que um super-herói da DC ganhava uma revista com o próprio nome, um atestado de sucesso e popularidade. Os outros foram Superman, Batman, Flash, Mulher-Maravilha e Lanterna Verde. Mas o contexto do menino de aço era muito mais árido do que aquele do início dos anos 1940 que gerou os demais.

Um dos grandes desafios do Superboy: cortar a grama do jardim.

A existência da revista Superboy fazia a franquia do homem de aço estar espalhada em nada menos do que cinco revistas (mensais e bimestrais): Action Comics, Superman, World Finest Comics, Adventure Comics e Superboy, além das tiras de jornal diárias e dominicais. Nada mal. Era um sucesso, uma ilha de prosperidade em um cenário de escassez, na qual os demais heróis desapareciam, e apenas Batman e Mulher-Maravilha se mantinham de pé ao seu lado, ainda que combalidos, com três e uma revistas respectivamente (Detective Comics, Batman e a mesma World Finest Comics para ele, e Wonder-Woman para ela).

E as histórias do Superboy, ainda mais nessa fase, também serviram para dar alguns contornos mais definidos ao universo ficcional do homem de aço. Por exemplo, Superboy 02 assume de modo definitivo que Clark cresceu na cidadezinha de Smallville no interior dos EUA (o estado do Kansas será definido um pouco mais tarde), em um ambiente rural e tranquilo, antes de mudar para a “cidade grande” quando adulto.

Jonathan Kent ganha seu nome em definitivo.

Em outro caso, apesar de ter seu nome definido apenas dois anos antes (após aparecer casualmente por 10 anos em flashbacks esporádicos), o pai adotivo do Superman ganhou um novo (e definitivo) nome em Adventure Comics 149, de fevereiro de 1950: Jonathan Kent, numa história de Edmond Hamilton e John Sikela. Não é claro porque o Pa Kent [forma caipira de chamar “pai Kent” em inglês) como os leitores o chamavam (por ele ter tido o nome indefinido por tanto tempo) mudou de nome, mas é provável que o editor Mort Weisinger, ao assumir o controle criativo (ainda que subordinado a Whitney Ellsworth, é claro) da franquia, não tenha gostado dos genéricos John e Mary e queria alcunhas melhores, mais fortes e criativas.

Weisinger também definiu que o Superboy precisava de um interesse romântico e ele chegou em Superboy 10, de setembro-outubro de 1950, por Finger e Sikela, na figura de Lana Lang, repare, outra garota com dois Ls nas iniciais, o que fundava uma tradição longeva. Na trama, o renomado professor Lewis Lang vai morar em Smallville e consegue que o afável casal Kent hospede sua filha, Lana, quando ele precisa ir à África coletar animais para o zoológico local. A presença da garota inaugura uma imediata relação de amor-rivalidade com o jovem Clark, inclusive, com ela, tal qual sua sucessora do futuro, tentando provar que Clark é o Superboy.

Martha Kent também assume seu nome definitivo.

Continuando as definições (e contradições, também), depois de Jonathan ter seu nome (re)definido, foi a vez da Ma Kent, que deixou o Mary para traz e foi chamada de Marthe (assim mesmo, com “e”) em Superboy 12, de janeiro de 1951, numa história na qual não se sabe quem é o escritor, a primeira vez que ela era nomeada em uma aventura do menino de aço (ela aparecia, mas sem ter seu nome pronunciado), porém, Weisinger deve ter decido simplificar as coisas, e ela vira (definitivamente) Martha Kent em Adventure Comics 169, de outubro de 1951, numa história de Edmond Hamilton com arte de Curt Swan.

A Estreia em Live Action

A primeira adaptação em live action do Superman ocorreu em 1948, quando um seriado com 15 episódios para os cinemas foi produzido pela Columbia Pictures, tendo Kirk Alyn como Superman e Noel Neill como Lois Lane. Naqueles tempos em que a TV ainda não era um artigo popular, as séries tal qual conhecemos hoje eram exibidas nos cinemas em capítulos (semanais ou mensais) compondo um conjunto de 15 episódios. (O esquema de temporadas só seria criado na televisão mesmo). Esses episódios de mais ou menos 15 minutos eram exibidos nas matinês, ou seja, em sessões diurnas nos fins de semana e eram uma atração voltada essencialmente ao público infantil (embora pessoas de maior idade também assistissem) e popular, no sentido de que cumpriam um papel comercial importante, mas não tinham prestígio da “alta” Hollywood. Por isso, eram empreendimentos invariavelmente de baixo orçamento.

O baixo custo era um enorme problema para adaptar super-heróis, mas ainda assim, vários deles ganharam serials (como eram chamados em inglês – no Brasil, chamávamos “seriados” mesmo) a partir de 1940, como Capitão Marvel, Batman e Capitão América. Na verdade, desde o sucesso das revistas pulp esse tipo de personagem já tinha sido adaptado às matinês dos cinemas, especialmente pelo estúdio Republic Pictures, que se tornou a maior força desse mercado: em 1937, Dick Tracy (das tiras de jornal) ganhou o seu seriado, seguido por “sequências” em 1938, 1939 e 1941; Zorro ganhou os seus em 1937, 1939 e 1944; e o Cavaleiro Solitário ganhou o seu em 1938 e 1939. O primeiro super-herói foi a criação “original” Doutor Satan, em 1940, seguido pelo Capitão Marvel, em 1941; o Spy Smasher (da Fawcett Comics), em 1942; The Masked Marvel (uma mistura de Cavaleiro Solitário com Besouro Verde), em 1943; e o Capitão América, em 1944.

A Republic tentou duas vezes fechar um contrato com a DC Comics para a adaptar o Superman, a primeira negociação já em 1939, e como o acordo não foi feito, o estúdio aproveitou o roteiro já escrito e o adaptou como o Doutor Satan, no ano seguinte. Seguiu-se outra negociação, e como não foi frutífera, a Republic adaptou o Capitão Marvel no lugar do homem de aço, em 1941, e foi muito bem sucedido. O principal motivo que impossibilitou o acordo DC-Republic foi o fato de que a editora queria ter controle criativo sobre o roteiro. Outros estúdios procuraram a DC depois disso, mas o contrato com a Paramount para produzir os desenhos animados do Fleischer Studios garantia exclusividade sobre qualquer mídia em vídeo.

Batman teve um seriado antes do Superman.

Alguns anos depois, em 1947, o produtor Sam Katzman conseguiu um acordo com a National/DC e comprou os direitos, tentando parcerias com a Republic e a Universal Pictures, que recusaram devido aos altos custos necessários para reproduzir os poderes do Superman em uma produção com atores. No fim das contas, quem aceitou o desafio foi a Columbia Pictures, que já tinha feito o seriado do Batman.

Feito o acordo, Harry Donenfeld colocou o editor executivo da National Comics, Whitney Ellsworth como produtor executivo do seriado e o responsável em garantir que roteiro e filmagens fizessem justiça ao Superman das HQs. A relação entre Katzman e Ellsworth não foi nada fácil, pois o editor realmente assumiu uma postura bastante protetiva em relação ao personagem, de modo que fosse bem retratado e a escolha de um ator para representá-lo foi longa e custosa, e Ellsworth se opôs a Kirk Alyn até o último momento.

Kirk-Alyn close
Kirk Alyn foi o primeiro Superman de carne e osso das telas.

Criar os feitos do Superman em um programa de baixo orçamento foi mesmo desafiador à produção e o resultado final não foi convincente como havia sido o seriado do Capitão Marvel, por exemplo, quando a equipe criou um boneco de papel maché suspenso por cabos. No caso do homem de aço, após filmarem testes de Alyn suspenso em cabos, o resultado não foi considerado digno e, em vez disso, Katzman decidiu criar sequências em desenho animado para retratar o Superman em voo. Embora o efeito até funcione em alguns momentos, ajudado pela fotografia em preto e branco da época, este elemento foi considerado o ponto mais fraco do programa.

Kirk Alyn e Noel Neill como Clark e Lois.

Superman teve 15 episódios, totalizando 244 minutos de duração, dirigido por Spencer Gordon Bennett e Thomas Carr, com roteiros de George H. Plympton, Joseph F. Poland e outros, e além de mostrar uma origem detalhada do herói, com Nelson Leigh como Jor-El e Luana Walters como Lara, e (seguindo a linha do programa de rádio) Edward Cassidy como Eben Kent e Virginia Carrol como Martha Kent, trazia o ambiente do Planeta Diário (com Pierre Watkin como Perry White e Tommy Bond como Jimmy Olsen) e uma ameaça em uma vilã chamada Spider Lady, vivida por Carol Forman.

O seriado foi um enorme sucesso, apesar de suas cenas de voo, e ganhou uma sequência em 1950, chamada Atom Man versus Superman, também em 15 episódios, totalizando 252 minutos, e com mais ou menos a mesma equipe: dessa vez, apenas Spencer Gordon Bennett dirigiu, o roteiro prosseguiu com George H. Plympton, Joseph F. Poland e outros, e o elenco principal retornou, incrementado por Lyle Talbot (que tinha feito o Comissário Gordon no segundo serial do Batman, do ano anterior) no papel de Lex Luthor, a primeira vez que o célebre vilão foi adaptado em outra mídia.

Lyle Talbot: o primeiro Luthor live action.

Na trama, Metrópolis é ameaçada pelo vilão Atom-Man que ameaça destruí-la sob chantagem, e descobrimos que o criminoso é ninguém menos do que Luthor. A crítica gostou menos dessa segunda tentativa, ainda que admita que os efeitos especiais melhoraram em comparação ao anterior, mesmo mantendo sequências animadas para cenas de voo mais longas e à distância. O resultado foi suficientemente bom para a DC Comics decidir continuar com produções desse tipo.

Donenfeld colocou Ellsworth como produtor e o enviou a Los Angeles para criar uma série de TV baseada no personagem, agora que esse aparelho doméstico começava a se tornar mais populares com o advento da nova década. Como maneira de vender o produto a distribuidores interessados, a DC financiou de modo independente a produção do primeiro longametragem adaptando o homem de aço (e o pioneiro em qualquer personagem da editora): Superman and the Mole Man, que chegou aos cinemas em novembro de 1951, com uma duração de 58 minutos.

Dessa vez, era uma equipe e elenco totalmente novos: direção de Lee Scholem, roteiro de Robert Maxwell Joffe e do próprio Whitney Ellsworth, e trazendo George Reeves como Clark Kent e Phyllis Coates como Lois Lane, um elenco bem mais ao gosto de Ellsworth que liderou a produção com bastante liberdade. A trama ignorava as origens do homem de aço (contadas na tela há pouco tempo) e ia direto à ação: Lois e Clark vão cobrir a inauguração do mais profundo poço de petróleo já cavado, em uma pequena cidade do sul dos EUA, mas a perfuração termina por atingir o lar de uma raça de pequenos homens subterrâneos que vivem nas profundezas da Terra. Em pânico com a aparição desses “duendes”, a população sai em fúria tentando matá-los e o Superman intervém para mostrar que eles são pacíficos.

Whitney Ellsworth e George Reeves.

Apesar do baixo custo, o longa foi considerado decente na época e fez sucesso, o que deu sinal verde à produção do programa de TV. Ellsworth chamou Mort Weisinger à Califórnia e o designou para desenvolver a sinopse de 15 episódios, o que ele fez e assumiu a função de story editor na série, cujos roteiros finais ficaram a cargo dos mesmos Joffe e Ellsworth e com vários diretores para os episódios, dentre eles, Thomas Carr. O elenco principal recebeu o reforço de Jack Larson como Jimmy Olsen e John Hamilton como Perry White, além de Robert Shayne como o inspetor de polícia Henderson. Como era uma produção independente bancada pela própria National Comics/DC Comics, a distribuição se deu por meio de sindicalização, igual ao programa de rádio, ou seja, emissoras de TV distintas (como a ABC e a CBS) podiam comprar o programa e exibi-lo.

george reeves buste
George Reeves: grande sucesso na TV.

Com a primeira temporada já pronta, a marca de cereais Kellogg’s assumiu o patrocínio do programa e garantiu sua exibição, que ocorreu seguindo o calendário típico da TV americana, com Adventures of Superman estreando em setembro de 1952 e seguindo por 26 episódios até o season finale em abril de 1953, que por sinal, foi montado a partir da edição em dois episódios do longa Superman and the Mole Man.

Reeves e Phyllis Coates, como Lois Lane.

O programa foi um enorme sucesso e a Kellogg’s encomendou uma segunda temporada, embora o longo intervalo entre as filmagens e o lançamento do programa tenham criado um problema para Phyllies Coates regressar, pois já tinha contrato para outras produções, então, Ellsworth decidiu chamar de volta Noel Neill, que tinha interpretado Lois Lane nos dois seriados com Kirk Alyn, A segunda temporada foi lançada em setembro de 1953, novamente com bastante sucesso, e o programa, na verdade virou um fenômeno de audiência.

Por causa disso, o orçamento da série aumentou e a terceira temporada, em 1954, foi lançada em cores, ainda que com uma contagem menor de episódios (13) e um tom mais leve (as duas primeiras temporadas eram bem mais violentas, inclusive, com mortes explícitas dos bandidos) e até alguns elementos humorísticos, especialmente no personagem de Jimmy Olsen, que emergiu como um alívio cômico e fez a fama de Jack Larson.

No fim das contas, Adventures of Superman teve 6 temporadas completas (as duas primeiras em preto e branco, as demais em cores), totalizando 104 episódios. Ela não chegou a ser realmente cancelada, o que aconteceu foi que durante a pré-produção da sétima temporada, morreram o ator John Hamilton primeiro e a grande estrela George Reeves em seguida. Whitney Ellsworth até cogitou seguir a produção com um spin-off focado em Jimmy Olsen (personagem extremamente popular) usando imagens de arquivo de Reeves, mas a ideia não foi adiante. Ellsworth também capitalizou a produção de um spin-off chamado Superboy e 15 episódios foram escritos, mas o piloto filmado (com Johnny Rockwell no papel principal), mas não foi aprovada a produção do programa.

A audiência abaixou um pouco no decorrer dos anos e George Reeves começou a ficar velho e gordo para o papel, além de expressar seu desencanto em não conseguir outros papeis em Hollywood porque não era levado à sério. Sua morte, em 16 de junho de 1959, foi classificada inicialmente como suicídio, porém, desde o início surgiram suspeitas. Investigações da época também apontaram para homicídio, embora o caso não tenha ido adiante. O escândalo foi muito bem adaptado aos cinemas no filme Hollywoodland – Os Bastidores da Fama, de 2006, na qual Ben Affleck interpreta George Reeves (e o Superman!), ficcionando a investigação do caso e apontando o envolvimento do ator com a esposa de um grande executivo de estúdio que poderia ter encomendado sua morte.

Superman versus Shazam

Já escrevemos antes que Harry Donenfeld e sua empresa assumiram, desde o início, uma postura muito protetiva em relação ao Superman, por exemplo, ameaçando a editora Fox de processo pelo herói Wonder-Man, que foi rapidamente tirado de circulação. Outros casos aconteceram… mas e o Capitão Marvel (Shazam)?

O herói e seu alterego, Billy Batson, na capa de “Whiz Comics 22”.

Imagine um herói que voa, é superforte, é invulnerável, usa um uniforme colante com um símbolo no peito, botas, camisa longa sem luvas e capa… É o Superman? Não, o Capitão Marvel, hoje mais conhecido como Shazam. Desde o início, a National/DC alertou a Fawcett Comics de que iria processá-los por plágio, porém, diferentemente das outras editoras, a Fawcett não cessou a publicação do personagem, que se revelou um imenso sucesso. Inclusive, não existe consenso entre os historiadores sobre quem vendeu mais revistas nos anos 1940, se o homem de aço ou o mortal mais poderoso da Terra, com não poucos apontando o segundo como o campeão.

Mas o fato é que o Capitão Marvel/Shazam foi um sucesso estrondoso desde seu lançamento em Whiz Comics 02, de 1939, o que rendeu o lançamento da revista Captain Marvel Adventures, em 1940, e com suas histórias em Master Comics dando origem ao Capitão Marvel Jr., como já mostramos, que depois ganhou sua própria revista, e à Mary Marvel, com todos eles reunidos em uma quinta revista, Marvel Family, que foi lançada no fim de 1945.

Claro, a DC não deixou barato, e ameaçou a Fawcett de um processo já em 1939, que foi ignorado. Quando a Republic lançou o serial do Capitão Marvel nos cinemas, em 1940, a DC ameaçou a editora e o estúdio, mas eles prosseguiram. Então, a National entrou formalmente na Justiça com a acusação de infringimento de direitos autorais (ou seja, plágio) em setembro de 1941. O processo se arrastou na Corte por anos e foi a julgamento em março de 1948 e trouxe um veredito impressionante: o juiz determinou que, sim, o Capitão Marvel infringiu os direitos do Superman, porém, a DC tinha falhado em registrar devidamente o copyright das tiras de jornal do homem de aço, e portanto, o magistrado considerou que a editora havia abandonado os direitos do personagem, e por isso, a Fawcett não poderia ser penalizada!

Mas Donenfeld não era um homem de se deixar abater… A National entrou com um pedido na Corte de Apelação (da Segunda Instância) e a avaliação do novo juiz começou em maio de 1951, sendo concluída no mês de agosto com o seguinte veredito: o copyright do Superman foi considerado válido, sim, mas não o das tiras de jornal do personagem, que foram perdidas (e só foram “patenteadas” a partir dali para frente) e manteve o veredito de que o Capitão Marvel infringia os direitos do Superman, já que as histórias e as características eram muito similares entre ambos. Todavia, o juiz reencaminhou o caso para uma corte mais baixa para avaliar se detalhes das tramas e feitos superheroicos podiam constituir infringimento de direitos. Ou seja: poder voar é um copyright que pode ser assumido por uma única empresa? Ou o uso de uma capa?

O caso voltou para a baixa instância e prosseguiu a discussão, mas em vista que ambos os vereditos afirmavam que a Fawcett infringiu os copyrights da DC, só restava à casa do Capitão Marvel fazer um novo apelo à Suprema Corte, que daria o veredito definitivo. No entanto, àquela altura, já estávamos em 1953 e a venda das revistas em quadrinhos estava em franco declínio, como já dissemos, então, a Fawcett percebeu que era custoso demais manter o processo que provavelmente iriam perder e serem obrigados a pagar quantias exorbitantes e impossíveis à concorrência.

Então, a Fawcett optou por fazer um acordo fora dos tribunais e foi acertado que eles pagariam uma indenização de 400 mil dólares à DC e encerrariam a publicação de todas revistas da Família Marvel, lançando apenas aquelas que já estavam na gráfica. A revista Whiz Comics chegou às bancas pela última vez no número 155, em junho de 1953; Captain Marvel Adventures na edição 150; Marvel Family no número 89, em janeiro de 1954.

Billy Batson e o mortal mais poderoso da Terra ficariam longe do público por 20 anos. Mas voltariam…

A Sedução do Inocente

O Superman começou os anos 1950 muito bem, com a popularidade em alta devido aos seriados de rádio e TV e suas revistas vendiam bem, sendo um oásis dentro do cambaleante mercado de quadrinhos. Mas as queixas à mídia sobre histórias violentas e deturpadas continuavam e ganharam mais força com a virada da década e o trabalho aloprado das revistas extremas da EC Comics de William Gaines.

Então, o renomado psicólogo Fredric Wertham publicou o livro A Sedução do Inocente, em 1954, acusando os quadrinhos de perverterem as crianças e serem o grande causador da onda de delinquência juvenil que assolava o país à época. E não somente isso, além de veement4es acusações contra a violência da EC Comics, o autor também mirava diretamente a DC, afirmando que a Mulher-Maravilha era lésbica e vivia rodeada de “amigas” e que Batman e Robin formavam um casal.

Com isso, o Maccartismo começou a perseguir os quadrinhos e uma Comissão no Senado foi criada (a versão ianque da CPI), colhendo depoimento de editores e artistas e as vendas, que já não vinham bem, despencaram mais ainda. Várias editoras de quadrinhos fecharam as portas, inclusive, algumas que eram grandes, e a Marvel (então, chamada Timely) demitiu todos os seus funcionários e passou a funcionar num regime de free-lancers com quadro reduzido e poucas revistas publicadas.

A reação das principais editoras veio por meio da criação do Comics Code Authority, um órgão de autocensura que trazia um tipo de Código de Ética. Sexo, mortes explícitas, monstros místicos, violência gráfica, consumo de álcool e drogas, temas considerados difíceis, situações que gerassem emoções muito fortes… tudo isso estava proibido nas revistas.

Era a maneira de tranquilizar os pais para que voltassem a comprar as revistinhas para seus filhos. As revistas que contivessem o selo de aprovação do CCA eram explicitamente inócuas e inofensivas às crianças.

O Início dos Anos 1950

Enquanto o Superman migrava das telas do cinema para as da TV, corria (e se encerrava) o processo contra a Fawcett Comics e Fredric Wertham criava sua cruzada contra os quadrinhos, o desenvolvimento do Superman em sua mídia de origem andava em passos lentos. A liderança de Mort Weisinger ainda não encontrara a criatividade, o brilhantismo e a empolgação que deixaram de existir com a partida (duplamente forçada) de Jerry Siegel.

Mort Weisinger, o líder criativo da franquia do Superman nos anos 1950.

Então, o homem de aço entrou na década de 1950 com uma boa popularidade – especialmente por causa dos seriados de cinema – mas sem grandes histórias ou feitos que tenham deixado marcas duradouras em seu cânone. Àquela altura, o editor Mort Weisinger já havia consolidado o seu estilo de trabalho, que era distinto do que normalmente ocorria (e ainda ocorre) em revistas em quadrinhos: se coloca uma equipe fixa (escritor e desenhista) para produzir uma história ou uma arco de histórias seguidas. Ao contrário, Weisinger mantinha um esquema de produção por demanda: ele mesmo definia temas e situações que queria que fossem publicadas (“uma história contra um monstro”, “mais um retorno do Galhofeiro”, “e se o Superman encontrasse outro kryptoniano?”, “e se Lois Lane descobrisse que Clark Kent é o Superman?”) e confiava a produção a um time relativamente numeroso de artistas que disputavam entre si para ter suas histórias (e suas artes) publicadas. O pagamento só se dava por meio de textos ou artes aceitas, que a DC Comics comprava de seus autores.

Assim, Weisinger tinha um time de escritores à sua disposição – William Woolfolk, Edmond Hamilton, Bill Finger, Alvin Schwartz eram os principais – a quem demandava temas e histórias e recebia e analisava os resultados, comprando ou não os produtos. Com o roteiro aprovado, ele designava um de seus artistas à disposição para produzir a arte: Wayne Boring era o artista titular, o responsável pelo o que o editor via como as “histórias principais” ou de destaque; Al Plastino era o segundo, a postos quando Boring já estava ocupado; Curt Swan era o terceiro na “hierarquia”, principalmente designado para histórias “secundárias” ou do Superboy, que apesar do sucesso, ainda era visto como um subproduto do tema principal; John Sikela era o principal artista do menino de aço, agora, raramente migrando ao trabalho de sua versão adulta; e Win Mortimer era o responsável pelas tiras de jornal (cujo próprio Weisinger escrevia, normalmente, apenas adaptando tramas das revistas para o formato fragmentado dos jornais), mas de vez em quando até desenhava alguma das revistas ou capas.

Capa por Wayne Boring.

No meio disso, poucas histórias chamaram a atenção… Por exemplo, Action Comics 141, de fevereiro de 1950, por Schwartz e Boring, Luthor consegue criar uma versão sintética da kryptonita e, com isso, quase derrota o homem de aço. O curioso é que essa trama teve um desdobramento direto: na edição seguinte, a mesma equipe criativa mostrou uma história na qual um grupo de bandidos comuns encontram essa kryptonita, que tinha se perdido na batalha anterior, e o herói precisa lidar com isso.

A edição 141 também é importante por outro motivo não relacionado ao Superman: foi a última vez que uma história do mágico Zatara era publicada na revista, encerrando as aventuras desse herói pioneiro da Era de Ouro que compartilhava Action Comics com o homem de aço desde o número 01, 12 anos antes. Mas outras atrações experientes permaneciam sendo publicadas na revista, como Congo Bill e Vigilante, e o mais recente Tommy Tomorrow (por nossos amigos Edmond Hamilton e Curt Swan). Dali para frente, por um tempo, Action Comics teria apenas essas quatro atrações, embora mantivesse o tamanho de 52 páginas.

Lois Lane mais presente nas capas… para atrair o público feminino. Arte de Al Plastino.

Também é importante frisar que o editor executivo Whitney Ellsworth percebeu que o público feminino de quadrinhos tinha crescido bastante na última década, pois as revistas de romance – focadas em histórias adocicadas (e inofensivas) de casais jovens apaixonados – vendiam bem. Então, Lois Lane começa a ter um papel cada vez maior nessas tramas, como já tinha sido ensaiado alguns anos antes, e a aparecer com mais frequência nas capas.

Esta capa de Wayne Boring mostra Lois Lane como professora universitária.

Por isso, a edição 143, a escritora Dorothy Woolfolk traz uma história, desenhada por Plastino, na qual a intrépida repórter fica loucamente enciumada quando o Superman revela um noivado com outra mulher, que na verdade, faz parte de um plano de desbaratar uma operação de espiões agindo nos EUA. Esta é a primeira ocasião em que o homem de aço esmaga um pedaço de carvão com tanta força que o transforma em um pequeno diamante, que ele usa para montar um anel de noivado à moça. No fim, Lois descobre a artimanha e a espiã é bem sucedida em frustrar os planos dos inimigos. Esses bandidos conseguem escapar e copiam as impressões digitais da moça, mas o Superman usa sua visão de raio-X (e de calor) para apagar o registro sem que eles percebam e o homem de aço os deixa ir, certo de que serão severamente punidos por seus líderes quando descobrirem que falharam na missão.

A edição 144 realiza uma rara interlocução direta com as aventuras do Superboy. Na trama de Schwartz e Boring, vemos uma retrospectiva da carreira de Clark Kent, que faz referência àquela velha história na qual o menino de aço ajudou o jovem Perry White a conseguir seu emprego no Planeta Diário, e de novo, faz referência a outra ocasião que é mostrada, no mesmo mês, em Adventure Comics 152 (também escrita por Schwartz, mas com arte de Sikela) na qual o Clark adolescente precisa responder à clássica redação da escola: o que você vai fazer quando crescer, e então, vai a Metrópolis e tenta trabalhar em vários empregos (de meio-período) diferentes, mas sempre estraga tudo por precisar virar o Superboy em meio a alguma emergência, até tentar uma experiência com seu conhecido White no Planeta e descobrir que, como repórter, pode estar sempre nas cenas de crime ou perigo sem parecer estranho, e isso é ideal para a manutenção de sua identidade secreta, e decide que vai ser repórter quando crescer!

Ademais, é importante salientar que, de volta àquela história, é mostrado em detalhes pela primeira vez como Clark se mudou de Smallville para Metrópolis após a morte dos pais, indo tentar seu emprego no Planeta, em parte confirmando, em parte negando o que fora mostrado em Superman 01, de 11 anos antes.

Ao mesmo tempo, a terceira história de Superman 63, de maio-junho de 1950, por Bill Finger e Al Plastino, mostrava o concurso de escolha da Miss Metrópolis 1950, porém, diferente dos concursos tradicionais dessa época, a trama mostra mulheres que concorrem por meio de feitos e ocupações de destaque na sociedade, com cientistas e coisas do tipo.

Uma história realmente importante é a terceira de Superman 65, de julho-agosto, por Woolfolk e Plastino na qual três kryptonianos chegam à Terra: U-Ban, Kizo e Mala. Na trama, Kal-El descobre que eles eram membros do Conselho que governava Krypton, mas se corromperam em um plano de domínio e foram descobertos e punidos por Jor-El: como aquela sociedade não praticava mais a pena de morte, eles foram banidos dentro de um veículo transparente, colocados em animação suspensa e enviados ao espaço. Mas a explosão de Krypton os libertou da prisão e os levou a cair na Terra. O Superman revela que é filho de Jor-El e os três saem atrás de matá-lo. No fim, o herói concorda em uma luta “até o fim” em uma região deserta – para que nenhum inocente possa ser ferido – e o quarteto briga até literalmente caírem de cansaço, com Kal-El só conseguindo alguma vantagem por causa de sua maior experiência com seus poderes.

No fim, o Superman precisa usar o cérebro para vencer os vilões, colocando-os de novo em animação suspensa, reconstruindo sua prisão transparente e enviando-os de novo ao espaço. Como se pode notar, essa trama serviria de inspiração a Superman – O Filme e Superman II quase 30 anos mais tarde, não somente na presença dos três kryptonianos, mas ao seu crime, às condições de sua prisão e até a estética. A tal prisão transparente também servirá de inspiração à Zona Fantasma, que chegará ao cânone do herói um pouco mais tarde (aguarde!).

Superman em busca de carvão e petróleo para abastecer a Terra em sua ausência. Arte de Al Plastino.

Outra história que deixaria um legado e influência é a segunda de Superman 66, de setembro-outubro, de novo por Woolfolk e Plastino, intitulada The last days of Superman, na qual sem Clark notar, um fotógrafo do Planeta Diário termina com pequenos fragmentos de kryptonita presos em sua câmera. Trabalhando ao lado dele todos os dias, Clark começa a se sentir mal e ficar fraco, sendo diagnosticado pelos médicos como portador de uma doença letal que o matará em 20 dias. Entristecido por isso, o homem de aço decide realizar uma série de façanhas que ajudem o mundo após a sua partida, coletando significativas quantidades de petróleo e carvão, por exemplo, e deixando uma mensagem escrita na Lua revelando sua identidade secreta para quando a humanidade chegasse lá. Só depois disso tudo, ele descobre os fragmentos de kryptonita e dá fim a eles, voltando ao normal, e apagando a mensagem lunar.

Claramente, essa trama serviu de inspiração à belíssima All-Star Superman que Grant Morrison e Frank Quitely produziriam já no século XXI e sobre a qual falaremos adiante.

Outro exemplo de tramas focadas em Lois Lane aparece em Action Comics 149, de outubro, cuja autoria é desconhecida (mas bem poderia ser de Dorothy Woolfolk) com arte de Plastino, na qual a repórter descobre como eram os rituais de casamento em Krypton e tenta usá-los para “encurralar” o Superman, numa aberta adesão à febre “Lois casamenteira” que será tão predominante no futuro próximo.

Nada demais acontece na 150º edição daquela revista, que poderia ser motivo de celebração, não é mesmo? Afinal, Action Comics continuava a ser a revista de super-heróis com mais alta numeração, atrás apenas de Detective Comics e Adventure Comics, mas a única dessas a ter uma atração principal ininterrupta desde o começo.

A comemoração parece só ter saído na edição 151, de dezembro de 1950, quando pela primeira vez vemos a reunião dos três mais populares vilões do Superman na época: Mr. Mxyzptlki, Galhofeiro e Luthor, o que dá uma grande trabalheira ao herói, numa história de Hamilton e Boring. Falando nesses vilões é preciso ressaltar que eles se alternavam com bastante frequência em Superman, com quase que cada um deles aparecendo em cada uma das edições.

A terceira história de Superman 67, de novembro-dezembro de 1950, por Schwartz e Boring, dá de novo bastante importância a Lois Lane, com ela outra vez descobrindo (e provando) que Clark Kent é o Superman até o herói conseguir enganá-la (dessa vez, usando um sósia muito parecido com ele). Esse tema se tornará muito recorrente nos anos vindouros.

Essas histórias se sucediam sem muita preocupação cronológica, como já discutimos, e outro exemplo flagrante disso se deu em Superman 73, de novembro-dezembro de 1951, por Bill Finger e Boring, na qual aparece o Superbaby – isso mesmo, a versão do bebê de aço, com poucos meses de vida e já com o mesmo uniforme (!) (emoji de palma na testa!), o que contradizia diretamente o que fora mostrado em Superboy 08 (de maio de 1950 pelo mesmo Finger [!!!] com arte de Swan), que mostrava – tal qual nas primeiras aventuras do menino de aço – que seus poderes se desenvolveram lentamente na medida em que crescia. Não era porque Finger não lembrava do escreveu, mas porque Weisinger não se importava nem um pouco com essas contradições, pois não existia ainda a noção de uma cronologia forte e amarrada. (Mas isso iria mudar em médio prazo…. aguarde!).

Arte de Win Mortimer.

Outra história marcante da época esteve em Superman 74, janeiro-fevereiro de 1952, por Hamilton e Boring, no qual Luthor se apossa de um arsenal de armas kryptonianas e dá um grande trabalho ao herói. Uma curiosidade dessa edição foi que a capa foi desenhada por Win Mortimer, que continuava ilustrando a tira diária de jornal.

Também foi importante a história de Superman 80, de janeiro de 1953, por Hamilton e Plastino, na qual o homem de aço conhece Halk Kar, um alienígena do planeta Thoron, que habitava o mesmo sistema solar que Krypton, e portanto, tinha os mesmos poderes do homem de aço, ainda que em um nível menor. Esse conceito seria explorado no futuro não tão distante, fique ligado…

Outro ponto importante é que você pode ter notado uma certa ausência de Curt Swan dos créditos: cansado do temperamento controlador e abusador de Mort Weisinger, com quem tinha discussões eméritas, Swan pediu demissão da DC no início dos anos 1950 e foi trabalhar na publicidade. O principal tópico era que Weisinger exigia que ele desenhasse no mesmo estilo de Wayne Boring. Mas a máquina do Superman não podia parar e a demanda era crescente, então, por volta de 1954, Weisinger o chamou de volta com um contrato de pagamentos bem altos, e o artista regressou. O fato de ter encarado o editor com dureza lhe rendeu respeito e Swan virou o jogo, se tornando um artista de confiança de Weisinger. Ele continuou (por um tempo) mantendo o “estilo Boring”, mas o subvertia um pouco, deixando o homem de aço ligeiramente menos quadrado e um pouco mais esguio.

Superman e Batman

Nos dias de hoje, com universos integrados não somente nos quadrinhos, mas também em outras mídias – inclusive no cinema – é estranho pensar um mundo no qual não há interação entre Superman e Batman, mas esse momento existiu na primeira etapa de existência desses personagens. Por mais que compartilhassem todas as capas da revista World’s Finest Comics desde 1941, o homem de aço e o homem-morcego jamais tinham realmente cruzado um com o outro em suas histórias.

Típico exemplo das capas compartilhadas de World’s Finest. Arte de Fred Ray.

Houve menções indiretas, como nas aventuras da Sociedade da Justiça (no qual eram mencionados pelos outros personagens) ou naquela aventura na qual Bruce Wayne e Dick Grayson apareceram discretamente contemplando as ações de Clark Kent. Pior ainda, o programa de rádio do Superman chegou a criar uma sequência de encontros entre os dois heróis, a partir de 1945, como uma maneira de tornar as histórias mais dinâmicas, e também, dar um pouco de folga ao ator Bud Collyer, pois os programas eram sempre gravados ao vivo.

Até hoje, não é exatamente claro por que, mesmo abrigados sob o mesmo teto, na mesma editora, Superman e Batman não se encontraram por longos 13 anos de existência mútua e 11 compartilhando a mesma revista e as capas. Soa inacreditável aos dias de hoje. Ainda mais quando a própria DC, via o selo All-American, estimulou a interação constante entre personagens como Flash, Lanterna Verde, Mulher-Maravilha, Espectro, Gavião Negro, Doutor Meia-Noite, Starman, Hourman, Sandman etc.

O fato é que o primeiro encontro entre Batman e Superman ocorreu em Superman 76, de maio de 1952, com roteiro de Edmond Hamilton e arte de Curt Swan, trabalhando a partir de uma ideia do editor Mort Weisinger, que foi o grande motivador do evento. Na trama, quando decidem fazer um cruzeiro, Clark Kent e Bruce Wayne são obrigados a compartilhar a mesma cabine, por causa da superlotação, e terminam descobrindo a identidade secreta um do outro. Os dois se unem contra um grupo de bandidos e precisam despistar Lois Lane, que desconfia daquela “incrível coincidência”.

Ainda assim, apesar do sucesso óbvio da empreitada, esse encontro foi um evento isolado por um tempo. Tudo continuou como antes, com cada herói em seu universo particular, e World’s Finest trazendo a dupla na capa sem interação nas histórias. Mas depois de dois anos, finalmente aconteceu! World’s Finest 71, de julho de 1954, por Alvin Schwartz e Curt Swan, traz Superman e Batman (e Robin!) se reencontrando (e não somente na capa!), relembram a aventura anterior e por meio de sua ação conjunta, precisam de novo, lidar com as suspeitas de Lois Lane, por isso, trocam de identidades, o que leva à repórter a desmascarar o Batman e descobrindo que ele é… Clark Kent! No fim, ela vê Clark e Batman na mesma sala e fica confusa.

Era óbvio que a bimestral World’s Finest era o lugar ideal para que o homem do amanhã e o cavaleiro das trevas compartilhassem o mesmo espaço, então, a partir da edição 72, uma aventura conjunta entre Superman, Batman e Robin se tornou a atração principal da revista, que contava ainda, com outras duas histórias, do Arqueiro Verde e do faroeste Tomahawk. Os roteiros dessas aventuras inicialmente circularam entre Alvin Schwartz, Edmond Hamilton e Bill Finger, todos com a arte de Curt Swan, mas a partir da edição 78, de setembro-outubro de 1955, a equipe com Edmond Hamilton (texto) e Dick Sprang (arte – vindo das aventuras do morcego) se tornou praticamente fixa na revista por anos a fio.

Coringa e Lex Luthor unem as forças: histórias infantis.

Embora fossem a maior diversão para seus leitores, essas aventuras conjuntas não eram essencialmente memoráveis, especialmente pelos malabarismos necessários para que a interação entre eles fosse crível, em vista o desnível absurdo de um Superman absolutamente poderoso, um Batman que é um humano sem poderes, ainda que no mais alto nível físico e intelectual possível, e o Robin, um garoto vindo do circo, habilidoso fisicamente, mas com apenas uns 12 ou 14 anos de idade. A tônica dessas aventuras era ainda mais boba e infantil do que aquelas correntes nas outras revistas amansadas pelo Comic Code Authority. De qualquer modo, essas histórias contribuíram muito para a ideia de que existia um Universo DC, com Metrópolis e Gotham City como cidades próximas e seus heróis compartilhando seus universos particulares, com aparições de Lois Lane, Perry White, Planeta Diário, Comissário Gordon, Alfred, e claro, os vilões. Daí que World’s Finest Comics 87, de maio-junho de 1957, inaugurou a tradição de confrontos combinados com Lex Luthor e Coringa.

Em 1954, a revista “World Finest” passa a trazer aventuras de Batman e Superman juntos.

A edição 89, pouco depois, introduziu o Clube dos Heróis, uma tentativa frustrada da DC de criar um time de heróis, mas que teria alguma repercussão às aventuras do homem-morcego no futuro. Mas de maneira geral, não eram histórias profundamente marcantes.

Elementos Clássicos: A Era de Prata

Olhando em retrospecto, podemos dizer que o encontro entre Superman e Batman foi o primeiro passo em uma série de mudanças profundas – ou ampliação seria um termo melhor – do universo específico do homem de aço. Se aquela ebulição criativa da Era Siegel foi interrompida ainda em meados dos anos 1940, o time liderado por Mort Weisinger patinou em termos criativos ou empolgantes por quase uma década… Contudo, por qualquer motivo que tenha sido – os desafios impostos pelo Comic Code Authority ou a grande popularidade do Superman por causa do cinema e da TV – o fato é que, a partir de 1954, e durante o restante daquela década, Weisinger e companhia finalmente acertaram o passo!

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Daí, que muitos dos elementos clássicos que vinculamos ao Superman e que os fãs tanto amam surgiram de modo consecutivo naquele pequeno punhado de anos: além do encontro com o Batman, seguiram a aparição da Fortaleza da Solidão, Zona Fantasma, a Cidade Engarrafada de Kandor, Krypto, o supercão, a Supergirl, a Legião dos Super-Heróis, o desenvolvimento de Lois Lane e Jimmy Olsen como personagens, e o surgimento de vilões como Bizarro, Brainiac e a segunda versão de Mentallo. E o resultado foi que o homem de aço alçou um sucesso ainda maior do que antes e se consolidou como o maior personagem da cultura pop do século XX.

Vale destacar que todo esse conjunto de inovações criava, na verdade, uma fase completamente nova do Superman e de seu universo, de modo que os historiadores consideram que o personagem ingressou (a partir de 1954) de modo precoce na chamada Era de Prata, que substituiu a Era de Ouro iniciada em Action Comics 01. Enquanto o início da Era de Prata é normalmente estabelecido com o surgimento do novo Flash em 1956 (falaremos sobre isso, aguarde…), o homem de aço parece ter entrado na nova fase um pouco antes.

Reforçando que as aventuras conjuntas de Superman e Batman foram o primeiro desses passos, o próximo movimento veio com o lançamento de mais um spin-off na franquia do homem de aço: com data de capa de setembro-outubro de 1954, chegou às bancas a revista Superman’s Pal Jimmy Olsen 01, focada no garoto loiro e de sarnas que frequentava a redação do jornal desde Action Comics 05, mas que ganhou um nome, personalidade (era fã do homem de aço) e um maior destaque ao longo dos anos 1940. Porém, mesmo ali nos anos 1950, Jimmy – que em vez de office boy agora era mais retratado como um adolescente estagiando como fotógrafo – até então nunca tivera a importância, o peso ou a frequência de Lois Lane ou Perry White, que formavam realmente o núcleo duro de personagens coadjuvantes de então.

Porém, a série de TV do homem de aço com George Reeves trouxe uma representação mais forte de Jimmy Olsen, interpretado por Jack Larsen, que servia como companhia para Lois ou Clark nas cenas de ação (o que promovia a possibilidade de diálogos explicativos), cumpria o papel de “inocente em perigo” e ainda fazia as vezes de alívio cômico. O personagem se tornou tão popular que Larsen virou uma estrela de Hollywood na época, estampando revistas e tudo, ao ponto que Whitney Ellsworth e Mort Weisinger pensarem que seria uma boa ideia lançar uma revista focada no rapaz. E lembre: o mercado de quadrinhos ainda estava combalido da crise do fim dos anos 1940 mais a perseguição pós-Wertham, de modo que Superman’s Pal Jimmy Olsen era a primeira revista nova de super-heróis criada pela DC Comics na década de 1950, a primeira desde Superboy, cinco anos antes!

Otto Binder, principal escritor do Superman na Era de Prata.

Outra inovação é que, diferente de todas as outras publicações da franquia, Superman’s Pal tinha uma equipe criativa fixa, tendo Curt Swan na arte e liderada pelo escritor Otto Binder, que fez fama produzindo as aventuras da Família Marvel e com o encerramento daquelas publicações após o processo judicial, foi imediatamente empregado na DC por Ellsworth.

Binder nasceu em 1911, em Bessemer, no estado de Michigan, numa família luterana que emigrou da Áustria no começo do século, mas que se estabeleceu em Chicago, quando ele tinha 11 anos, onde fez parte daquela primeira geração de fãs de ficção científica, e bem cedo já começou a escrever para revistas, muitas vezes ao lado do irmão Earl sob o pseudônimo Eando Binder, enquanto trabalhava como agente literário. A partir de 1941, Binder começou a escrever quadrinhos para a Fawcett Comics, rapidamente se tornando o principal escritor do Capitão Marvel e sua família até o fim da publicação da saga, em 1953, com o processo judicial da DC Comics. Também escreveu para outras editoras, como Quality e Marvel, e com o fim da Família Marvel, foi contratado pela DC para escrever histórias do Superman, onde rapidamente, se tornou o principal escritor ao lado de Edmond Hamilton.

Seguindo ligeiramente a representação de Jimmy Olsen na TV, Weisinger designou que a revista tivesse uma tônica mais leve e cômica, e numa boa sacada, pautada no absurdo. Assim, nas suas histórias solo – quase sempre com pequenas participações do Superman – Olsen tenta impressionar seus colegas do Planeta Diário, ou o próprio homem de aço, saindo em investigações para o jornal e usando disfarces que o colocavam em grandes apuros e aventuras. Gradualmente, Weisinger foi demandando situações mais e mais absurdas e o garoto sofrendo transformações infames, virando monstro, lobisomem, alienígena, crescendo a cabeça, crescendo uma barba gigantesca, virando um gigante, um gorila, uma tartaruga gigante, um polvo, um porco-espinho e um homem obeso, ganhando superpoderes de velocidade, virando o Rapaz-Elástico (Elastic Lad) na edição 31, de setembro de 1958, além de se disfarçar de hippie e de mulher, nas edições 44, 67, 84 e 159.

Curt Swan passaria nada menos do que 10 anos desenhando Jimmy Olsen e sempre considerou o lançamento dessa revista como o ponto de virada de sua carreira, quando deixa de ser um desenhista secundário dentro da franquia e começa a despontar um lugar de protagonismo. O fato de não estar no título principal também aliviava bastante a pressão, porém, rapidamente ele notou que era um lugar diferenciado: Superman’s Pal logo se tornaria a segunda revista mais vendida da franquia do último filho de Krypton, atrás apenas da campeã Superman.

Jimmy e Lucy.

De volta à revista, Jimmy terá Lucy Lane como interesse romântico a partir da edição 36, de abril de 1959, surgindo como uma nova versão da irmã (mais nova) de Lois, e portanto, ignorando a personagem (também chamada de Lucille) que aparecia nos anos 1940 como mãe da pequena (e encrenqueira) Susy Thompkins. Esta nova Lucy é mais jovem, mais ou menos na mesma faixa de idade de Jimmy, e trabalha como aeromoça, a típica idealização da “garota livre e para frente” dos anos 1960.

Krypto faz sua estreia.

Outro passo foi dado com a introdução de Krypto, o supercão, que apareceu em uma história de Binder e Swan em Adventure Comics 210, de março de 1955, portanto, numa aventura do Superboy. Mimetizando os testes aeroespaciais que Estados Unidos e União Soviética realizavam na época dentro do contexto da Guerra Fria e da Corrida Espacial, Krypto era o cãozinho de estimação da Casa de El em Krypton e foi usado como um teste para o protótipo do foguete que trouxe, depois, Kal-El à Terra. Mas após colidir com um meteoro, o dispositivo atrasou a chegada do cachorrinho, encontrando Clark Kent já adolescente.

A boa recepção ao animal garantiu que a presença de Krypto se tornasse constante e, na edição 214 daquela revista, Jonathan e Martha Kent criam uma identidade secreta para ele, chamada Skip, quando recobrem a pelugem inteiramente branca do animal com uma falsa mancha preta nas costas. Ademais, refletindo o clima das histórias pós-Comic Code Authority, Krypto tem todos os poderes do Superman e uma inteligência no mesmo nível da humana, representada por balões de pensamento com texto. Ele só é incapaz de falar. Ainda que na maior parte do tempo o cãozinho servisse de coadjuvante ao menino de aço, ele seria também introduzido no mundo de sua contraparte adulta algum tempo depois.

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A Fortaleza da Solidão estreia…

A Fortaleza da Solidão, o esconderijo do homem de aço no Ártico, já tinha aparecido há bastante tempo, lembre, primeiro como um QG secreto nas montanhas próximas a Metrópolis, e depois, como uma base na desolação do Ártico, contudo, a versão “definitiva “clássica” do lar do Superman apareceu em Action Comics 241, de junho de 1958, numa história de Jerry Coleman desenhada por Wayne Boring. Foi nesta ocasião que o lugar foi descrito como fortalecido por uma gigantesca porta metálica da qual a chave, igualmente enorme e pesada, jaz a algumas centenas de metros. O pressuposto de então era que o homem de aço era o único com força o suficiente para erguer a chave e abri-la.

Contudo, àquela altura, Wayne Boring já tinha quase 50 anos e quase 20 anos desenhando o Superman, portanto, queria outros desafios, e começou rapidamente a se afastar da DC Comics, fazendo um trabalho mais esporádico e pontual no homem de aço, o que abriu o caminho para que, na virada para a década seguinte, Al Plastino emergisse como o principal artista da franquia.

Action_Comics_242
A versão original de Brainiac, nos anos 1950.

No mês seguinte, outra grande adesão ao cânone do herói: o supervilão Brainiac estreia em Action Comics 242, por Otto Binder e Al Plastino, numa aventura que também introduziu a cidade engarrafada de Kandor, uma metrópole de Krypton que foi sequestrada e encolhida por Brainiac. Na trama, a Terra é atacada por Brainiac, aqui ainda descrito como um cientista (não um robô) alienígena que viaja de mundo em mundo sequestrando e encolhendo cidades para sua coleção bizarra. Na Terra, ele captura Londres, Paris, Roma e Nova York, e quando o Superman tenta detê-lo, é incapaz de adentrar o campo de força que protege sua nave.

Percebendo que Metrópolis é o próximo alvo, o homem de aço voa para lá e é encolhido junto com a cidade, que é depositada na coleção. Dentro da nave e usando seus poderes, ele consegue sair, mas termina descobrindo a existência de Kandor na coleção e fica maravilhado ao conhecer um fragmento de seu mundo natal ali, vivo no presente. Alimentada por um sistema de sol vermelho artificial, Kal-El perde seus poderes lá dentro, mas é auxiliado por seus bondosos habitantes e consegue sair.

Se aproveitando que Brainiac está em animação suspensa, já se preparando para a longa viagem de retorno ao seu mundo deserto – que ele pretende reabitar com as cidades roubadas – Superman encontra a arma encolhedora, mas percebe que só tem carga para seis disparos. Então, após recuperar as quatro cidades terráqueas, o homem de aço decide salvar Kandor, mas seus habitantes pedem que não faça isso, que eles estão vivos e bem naquelas condições, e que use o raio em sim mesmo para voltar ao tamanho normal e continuar protegendo a Terra. Assim é feito e o Superman deixa a nave de Brainiac cumprir seu rumo e leva a cidade engarrafada de Kandor consigo para sua Fortaleza da Solidão, onde a armazena num local especial e aguarda a oportunidade de encontrar uma tecnologia que possa devolvê-la ao normal.

Kandor seria uma parte importante do cânone do herói a partir dali, mas ao mesmo tempo, finalizava completamente a ideia de que o Superman era o “último filho de Krypton”, fazendo-o perder parte do apelo trágico de se descobrir como resquício final de uma rica civilização que existiu e se extinguiu.

Outro conceito bastante importante ao Superman da Era de Prata apareceu em Adventure Comics 247, de abril de 1958, também por Binder e Plastino: a Legião dos Super-Heróis. Na trama, Superboy encontra três adolescentes que sabem que ele é Clark Kent e eles se revelam como três super-heróis advindos do século 30: Cosmic Boy, Lightining Boy (mais tarde, Lightining Lad) e Saturn Girl. Os jovens levam o menino de aço para o futuro onde é admitido como membro da Legião. No futuro breve, esse encontro teria grande consequências.

O sucesso da revista de Jimmy Olsen se fez sentir na redação da National Comics/DC Comics, então, Whitney Ellsworth teve a ideia de criar mais outro spin-off da franquia do homem de aço: com data de capa de março-abril de 1958, chegava às bancas Superman’s Girl-Friend Lois Lane 01, dedicada integralmente às aventuras da intrépida repórter. Como já vimos, miss Lane já vinha tendo destaque nas aventuras do homem do amanhã e até ganhado aventuras solo já há algum bom tempo, em dois ciclos distintos, mas ao fim dos anos 1950, embalados no sucesso da série de TV, da revista de Jimmy Olsen e no surgimento de novos heróis da DC (que apresentaremos em seguida, tenha paciência), as vendas das revistas em geral voltaram a crescer efusivamente. E o mercado de HQs de romance voltadas ao público feminino continuava firme naquele momento, portanto, por Lois na ribalta não era uma jogada de risco.

E não foi mesmo. Foi um sucesso!

Dessa vez, Ellsworth fez um teste antes… a revista Showcase, cujo conteúdo variava mês a mês justamente para testar novas empreitadas, trouxe nas edições 09 e 10, de agosto e setembro de 1957, três histórias cada focadas inteiramente em Lois Lane e sua interação com o homem de aço e seu universo, com textos de Otto Binder e Jerry Coleman e a arte do porto-riquenho Rubem Moreira na primeira e de Wayne Boring na segunda. O resultado foi suficientemente bom e veio a revista própria.

Auto-retrato de Kurt Schaffenberger.

Assim como Superman, Superboy e Jimmy Olsen, Lois Lane tinha três histórias em edições bimestrais e, como aquela última, tinha um artista fixo na figura de Kurt Schaffenberger (que ilustrou nada menos do que as 81 primeiras edições!), e com roteiros circulando, inicialmente, entre Binder e Coleman e capas de Curt Swan, Al Plastino e Win Mortimer alternadamente. Nascido na Alemanha, em 1920, Schaffenberger emigrou com a família aos sete anos de idade e cresceu em Nova York, estudando no prestigiado Pratt Institute, e trabalhou como um dos artistas fantasmas das histórias do Capitão Marvel e sua família, empreitada temporariamente interrompida quando foi convocado pelo exército e atuou como membro da inteligência durante a Guerra, voltando à vida civil como sargento e retomando o trabalho na Família Marvel até o fim, em 1953, quando foi empregado pela DC Comics. Famoso por desenhar belas mulheres, Schaffenberger redefiniu o visual de Lois de tal modo que, ao longo dos anos 1960, Weisinger o designava para refazer o rosto da repórter na arte de outros artistas.

O reforço feminino não se encerrou nas aventuras de Lois e Weisinger teve a ideia de criar uma versão feminina do Superman… uma Supergirl! De novo, o editor decidiu testar o conceito antes: Superman 123, de agosto de 1958, e provavelmente, uma edição celebrativa dos 20 anos de criação do personagem, trazia uma única grande história por Otto Binder e Dick Sprang, na qual Jimmy Olsen encontrava um artefato místico em uma caverna indígena que lhe concedia a realização mágica de três desejos. O primeiro deles é fornecer uma companhia ao homem de aço, fazendo surgir uma Super-Girl. Embora bem intencionada, a moça de aço termina atrapalhando vários esforços do último filho de Krypton, mas no fim, ela se sacrifica quando um grupo de bandidos armados de kryptonita tenta atacá-lo, e ela toma o mineral nas mãos e termina morrendo.

Superman com seus pais, Jor-El e Lara. Arte de Dick Sprang.

Depois, um grupo de bandidos rouba o artefato e faz o Superman perder os poderes, mas com a ajuda de Jimmy ele retoma o totem e desfaz o pedido. Por fim, no último, o rapaz envia o herói de volta no tempo para encontrar seus pais biológicos, e ele se mantém no estado fantasmagórico tal qual aquela outra aventura de 10 anos antes, dessa vez, chegando antes do casamento de Jor-El e Lara, e com os dois agindo como agentes infiltrados num grupo terrorista liderado por Kil-Lor, mas sem conseguir provar suas inocências são condenados ao exílio fora do planeta. A trama termina sendo importante também porque pela primeira vez é explicada que a origem dos poderes do Superman advém do Sol amarelo que banha a Terra, ao passo que aquela velha história do Superboy tinha atribuído a gravidade menor como fonte da força do herói. Então, longe do sol vermelho de Krypton, o homem de aço se torna corpóreo e, sob a luz de um sol amarelo, retoma seus poderes para ajudar seus pais, ainda que Kil-Lor também ganhe poderes, mas termina derrotado.

Ao lado dos pais, Kal-El aprisiona o vilão de volta ao seu exílio e o casal, que decide pelo casamento nessa ocasião, retorna a Krypton para provarem suas inocências e o Superman usa sua supervelocidade para voltar ao presente e contar tudo a Jimmy.

A edição seguinte, Superman 124, voltou a ter três histórias e trouxe uma novidade: Weisinger inaugurou uma página para publicar as cartas que recebiam dos leitores, a primeira desse tipo que surgiu no mercado de quadrinhos, chamada Metropolis Mailbag (Malote dos Correios de Metrópolis). A interação entre os editores (e artistas) com os leitores era feita via carta desde o princípio e era um feedback extremamente importante para saber o que estava funcionando e o que não estava, do que os leitores gostavam ou não; com não raras vezes, leitores apontando falhas lógicas ou equívocos, que precisavam ser respondidas – e mostrava, obviamente, que não apenas crianças liam as HQs, mas essencialmente, adolescentes e jovens. A partir dali, as melhores cartas eram publicadas numa página da revista e logo as outras publicações seguiram a moda e inauguraram as suas próprias seções de cartas.

Action_Comics_252
A estreia da Supergirl.

Com a resposta positiva daquela menina de aço falsa, Weisinger encomendou a aparição da verdadeira Supergirl em Action Comics 252, de maio de 1959, por Otto Binder e Al Plastino, trazendo um detalhado conto de origem da super-moça: Clark Kent percebe a queda de um foguete numa área isolada próxima a Metrópolis e quando chega lá, fica surpreso ao ver uma jovem loira, com um uniforme parecido com o seu… a Supergirl! Ela é Kara, que nasceu em Krypton, e quando o planeta explodiu, sua cidade-natal, Argo City, ficou presa dentro de uma gigantesca bolha de ar que lhes permitiu sobreviver. Seu pai era o cientista Zor-El, que conseguiu criar um campo de força para manter a atmosfera em torno da cidade e blindou o chão com chumbo para protegê-los do envenenamento por kryptonita. Argo sobreviveu como um planetoide solto no espaço por um tempo até ser vítima de uma chuva de meteoros (provavelmente, pedaços de Krypton vagando pelo espaço) e ser destruída, com a população morrendo pelo envenenamento de Kryptonita. Mas Zor-El conseguiu colocar Kara em um foguete, e sua mãe, Alura, havia descoberto o Superman na Terra, e envia a nave para cá, onde ela poderia encontrar um igual.

Supergirl chega à Terra. Arte de Al Plastino.

Superman rapidamente percebe que Zor-El era irmão de seu pai, Jor-El, o que faz Kal-El e Kara primos legítimos. O homem de aço traça um plano de manter Kara escondida e a envia ao Orfanato Midvale, onde lhe entrega uma peruca com cabelos castanhos para que ela proteja sua identidade secreta, e a moça escolhe o nome Linda Lee como sua identidade terráquea. Superman se compromete em treiná-la no uso de seus poderes para ela ser sua arma secreta no combate ao crime, o que ela aceita de bom grado e termina a história se ajustando a nova vida no orfanato, treinando suas habilidades em tarefas simples do dia a dia e ansiosa para entrar em ação.

Perceba que a Supergirl foi introduzida de um modo completamente diferente do que vimos até aqui… Em vez de lançada direta à ação com uma rápida origem recapitulada, como ocorreu com o próprio Superman e com o Superboy, Kara Zor-El (como ela passou a ser conhecida, com as mulheres kryptonianas incorporando o nome do pai como sobrenome) foi apresentada “desde o começo”, com suas histórias mostrando seu desenvolvimento gradualmente, passo a passo. Era o sinal de que estávamos mesmo na Era de Prata e não mais na Era de Ouro.

Também é importante frisar que, tecnicamente falando, esta aventura de introdução da personagem era a terceira história de Action Comics 252, depois da primeira do Superman e da segunda de Congo Bill, e a menina de aço, portanto, substituía a tira de Tommy Tomorrow que se encerrou no número anterior. Dali em diante, Supergirl seria uma das atrações da revista, em sua próprias histórias.

Kara tira a sua peruca do disfarce de Linda Lee. Arte de Jim Mooney.

As aventuras solo da Supergirl começam logo na edição seguinte, número 253, seguindo com Binder nos textos, mas com a arte assumida dali em diante por Jim Mooney, numa trama na qual enquanto tenta manter a promessa de se manter em segredo, sai à noite como Supergirl para realizar alguns feitos fantásticos sem que ninguém fique sabendo, e a edição 254, mostra Linda Lee sendo adotada por um casal apenas para descobrir que são farsantes que vendem um falso remédio milagroso que conferiria superforça às pessoas, no que ela secretamente atrapalha os planos, devolve o dinheiro aos enganados e deixa os fraudadores falidos ao ponto que não podem arcar com a adoção e ela volta ao Orfanato de Midvale. A menina de aço seguiria esse tipo de história por um bom tempo.

E enquanto Linda Lee dava seus primeiros voos, outras coisas importantes aconteciam na mesma Action Comics, nas aventuras de seu primo. A mesma edição de sua estreia, o número 252, também trouxe o surgimento de outro clássico vilão do homem de aço: Metallo, numa história de Robert Bernstein e Al Plastino. Claro, você lembra que houve um primeiro Metalo (isso, com apenas um L) lá em 1942, e na verdade, houve até um segundo (agora com dois Ls): um robô criado por Jor-El ao qual o menino de aço precisou lutar em Superboy 49, de 1956, porém, esse era um vilão totalmente novo.

Na verdade, Mentallo apareceu primeiro nas tiras de jornal diárias numa história publicada entre dezembro de 1958 e abril de 1959, antes de ganhar sua versão na revista, em maio de 1959. Daí, há uma dúvida sobre quem escreveu a versão da tira (que foi desenhada por Win Mortimer) e qual versão foi criada primeiro. Na revista, Metallo é John Corben, um repórter inescrupuloso que sofre um acidente quase fatal de carro, mas é salvo pelo professor Vale, que substituí seu corpo destruído por um exoesqueleto metálico e seu coração por um mecanismo alimentado por urânio, recobrindo-o com pele falsa para ele parecer um humano comum.

Lois e Metallo. Arte de Al Plastino.

Corben é bastante parecido com o Superman e ao trabalhar no Planeta Diário ganha a simpatia de Lois Lane, mas seu coração atômico tem pouca durabilidade ele precisa renovar a fonte de urânio, o que o leva a sair à noite e invadir instalações científicas e militares para roubar mais material radioativo. Por fim, o professor Vale descobre que a kryptonita tem o mesmo efeito de alimentar seu coração, mas sem precisar ser recarregada. Roubando um pedaço de kryptonita de uma exposição, ele decide atacar o Superman antes que ela vá atrás dele pelos seus crimes, e há uma batalha na qual o vilão leva a melhor, pois o temor da kryptonita faz o homem de aço se esquivar e se afastar o tempo todo. Até que Metallo começa a fraquejar e eles descobrem que aquilo é uma kryptonita falsa, apenas uma rocha pintada de verde, e sem urânio para alimentá-lo, Corben morre.

O vilão não teria outra aparição na Era de Prata (e nem na de Bronze), mas deixou um legado importante, pois haveria outra versão de Metallo no futuro não tão distante e outra mais definitiva nos anos 1980. Chegaremos lá…

Outra personagem feminina que teria bastante importância nessa época surgiu exatamente ao mesmo tempo em que a Supergil: a sereia Lori Lemares. Em uma das histórias de Superman 129, de maio de 1959, Bill Finger e Wayne Boring contam a história na qual ao ver Lois Lane usando uma manta sobre suas pernas, Clark Kent relembra de seus dias de faculdade quando conheceu e se apaixonou por Lori, uma garota numa cadeira de rodas que, como é comum em países frios, usava uma manta sobre as pernas. Clark salvou a garota em duas ocasiões, uma em sua identidade secreta e outra como Superman, e os dois passaram a namorar, ao ponto que Clark chegou à conclusão que queria casar com ela, mas antes de poder fazer o pedido, Lori acabou o namoro e disse que ia embora da cidade.

Superman encontra o amor… em uma sereia: Lori Lemares. Arte de Wayne Boring.

Achando aquilo estranho, ele vai investigar e descobre que Lori é uma sereia de Atlantis e que usava a cadeira de rodas e a manta para esconder sua cauda de peixe (!), uma civilização submarina que tem laços com outro herói da DC, o Aquaman. Lori lhe conta que a cada 100 anos, Atlantis envia um representante à superfície para avaliar o desenvolvimento da humanidade, e ela era a encarregada daquela missão naquela vez. Lori, assim como todos os habitantes de Atlantis, é telepata e pode ler os pensamentos das pessoas, portanto, já sabia que Clark era o Superman desde sempre.

A resposta à garota – que como Lois e Lana também tinha dois Ls (!) – entre os leitores parece ter sido boa, pois ela voltaria logo depois. De qualquer modo, a história parecia passar a mensagem do por quê o Superman tinha certa resistência as mulheres e a Lois em particular, como que dando uma resposta aos fãs.

Outra adesão, agora bem menos interessante, contudo, veio em Superboy 76, de outubro de 1959, por Binder e Papp, na qual o menino de aço descobre que Krypto não foi o único animal kryptoniano que seu pai Jor-El testou antes de enviá-lo à Terra… também houve Beppo, o supermacaco! Na Terra, claro, o bichinho tem as mesmas habilidades do jovem Kal-El, mas ao contrário do confiável e companheiro Krypto, Beppo era atrapalhado e inconveniente, sempre causando problemas. Mas o macaquinho reapareceria algumas vezes em seguida. É, é tão ruim quanto parece.

Apenas duas edições depois da estreia de Metallo, Action Comics 254, de julho de 1959, já introduz outro vilão importante: Bizarro, nas mãos de Binder e Plastino. Na verdade, tal qual Metallo, era a derivação de outra criação anterior: Superboy 68, de outubro de 1958, pelo mesmo Binder com arte de George Papp, trouxe a história na qual um cientista cria uma máquina duplicadora e quando o menino de aço a utiliza acidentalmente em si mesmo cria uma cópia imperfeita de si, o Bizarro. O vilão ganhou uma versão adulta, como uma cópia imperfeita do Superman nas tiras diárias de jornal, numa história publicada entre agosto e dezembro de 1958, por Alvin Schwartz e Curt Swan. Swan assumira a arte da tira diária em 1956, quando Win Mortimer a deixou para trabalhar em outra empresa.

A versão das revistas estava diretamente ligada à prévia do Superboy: na trama, Luthor descobre sobre o experimento e tenta replicar a máquina duplicadora, criando o Bizarro, mas seu plano não sai como o planejado, pois em vez de um ser maligno, Bizarro tem ímpeto heroico igual ao homem de aço e ajuda a prender o vilão. Porém, Bizarro, a cópia imperfeita, se apaixona por Lois Lane e a sequestra para viver com ele em uma ilha deserta, e quando o Superman tenta detê-lo, Bizarro usa kryptonita para impedi-lo.

Num movimento muito raro, a trama teve um “to be continued” e prosseguiu em Action Comics 255, na qual Lois ajuda o Superman a se livrar da kryptonita e ele sai em luta contra Bizarro, mas é uma batalha na qual nenhum dos dois pode vencer: eles são iguais em tudo! Então, a repórter tem uma ótima ideia: usa a máquina replicadora em si mesma e cria uma Lois imperfeita, ao qual Bizarro cai de amores imediatamente e o casal parte para viver seu amor no espaço. O problema foi resolvido, mas Lois não perde a oportunidade de fulminar o homem de aço, questionando quando ele vai pedi-la em casamento… no que o herói apenas responde que “talvez, um dia…”.

A trama de Bizarro prosseguiu adiante, com Action Comics 263, de abril de 1960, por Binder e Boring, quando o casal bizarro está viajando no espaço e encontram um planeta abandonado que decidem transformar em seu lar. Com seus poderes, rapidamente, Bizarro (que passará a ser chamado de Bizarro N.º 1) constrói não apenas um mundo completo, como uma máquina especial que duplica clones dele próprio e da Lois Bizarro, criando uma população inteira de bizarros e o planeta Htrae, ou Mundo Bizarro, uma perfeita cópia imperfeita da Terra. O Superman descobre a existência dele ao ir ao espaço conter um asteroide e resolve visitá-lo, sendo inicialmente bem recebido, mas ao tentar “consertar coisas”, é acusado de quebrar a imperfeição do planeta, preso e posto em julgamento, no qual é condenado e atingido por uma arma que o transforma… em um Bizarro! E enviado à Terra.

Num raro “to be continued…”, a trama prossegue à edição 264, na qual ao chegar à Terra e pedir ajuda a Lois e Perry White, ninguém acredita nele e ele é preso… Até descobrir que era um sonho: ele ainda estava na prisão do Mundo Bizarro aguardando o julgamento, e quando ele vem, consegue mostrar que o planeta tem uma perfeição ainda: é um planeta esférico, e como pagamento por seu crime, o homem de aço usa seus poderes para tornar o planeta quadrado! Pronto, agora é mesmo um mundo imperfeito e o Superman pode voltar para casa. É, é tão ruim quanto parece…

Por mais bizarras que fossem essas histórias do Bizarro, o personagem era até popular, ao ponto que passou a ter suas próprias aventuras (sim, verdade) na revista Adventure Comics, em companhia àquelas do Superboy, ainda que por breve período de tempo.

A Volta de Jerry Siegel

Em meio à ampliação do universo do homem de aço e o sucesso crescente e aumento intenso das vendas das revistas do Superman na parte final da década de 1950, um evento editorial de suma importância ocorreu: o retorno de Jerry Siegel. Não foi uma volta triunfal ou gloriosa, mas pelo menos, o criador do personagem teve a oportunidade de se expressar e criar mais alguns elementos importantes.

Jerry Siegel retorna após 13 anos!

Na verdade, a vida fora bastante difícil para Siegel após o rompimento com a DC Comics em 1946. Após a empreitada do Funnyman, ele teve dificuldades de regressar ao mercado de quadrinhos, desgastado pelo processo judicial contra seus antigos empregadores e com fama de “artista problemático” para o qual editores fechavam as portas. A maior oportunidade que teve foi ser escalado como editor para a editora de Ziff-Davis em 1951, porém, em maio à crise dos quadrinhos naquele momento, a empresa terminou fechando as portas. Siegel ficou sobrevivendo de escritas pontuais, como freelancer em tiras de jornal várias, mas sem um fluxo muito certo e viveu problemas financeiros. Nesse meio tempo, ele se divorciou de Bella (um processo de alto custo financeiro em vista da indenização que recebera da DC após o processo judicial) e reencontrou Joanne Carter, a modelo que servira de molde para Lois Lane, em uma festa em 1948, e os dois decidiram se casar.

Em 1959, Siegel, Joanne e a filha Laura estavam vivendo em um pequeno apartamento de um quarto em Long Neck, em Long Island, um subúrbio relativamente agradável, vizinho à cidade de Nova York. Foi a própria Joanna, uma mulher proativa, quem foi aos escritórios da National Comics e se queixou diretamente para o editor executivo Whitney Ellsworth que o criador do Superman estava passando necessidades enquanto seu personagem era o maior sucesso do mundo dos quadrinhos. Ellsworth terminou ordenando que Mort Weisinger demandasse algumas histórias de Siegel como um tipo de “cala a boca”, mas no fim das contas, a coisa funcionou e o fluxo de trabalho continuou.

A primeira nova história de Jerry Siegel foi de Superboy.

Àquela altura, Weisinger era conhecido como uma pessoa desagradável, agressiva e intolerante, que gostava de humilhar os artistas com quem trabalhava, ao ponto de virar uma figura temida, talvez até por seus chefes. Portanto, não deve ter sido coincidência que o primeiro trabalho que Weisinger designou para Siegel foi justamente uma história do Superboy: era uma forma de humilhar o escritor, de obrigá-lo a escrever o controverso personagem que criou e foi rejeitado e que depois foi lançado sem sua autorização, levando ao custoso processo que destruiu sua carreira. Mas o fato que a história era boa, Siegel era um bom escritor, então, ele aprovou o roteiro e encomendou outros.

Siegel sabia muito bem qual era sua posição no novo jogo e que não era mais a liderança criativa do homem de aço, mas apenas um “empregado” de Weisinger que devia produzir o que o editor lhe demandava e se conformou com a situação, pois precisava de dinheiro para sobreviver.

Uma história de Siegel é o destaque na capa de Superman 133.

As primeiras novas histórias de Siegel chegaram no mês de novembro de 1959, na revista Adventure Comics 266, com o Superboy, e em duas histórias (a segunda e a terceira) de Superman 133, numa boa revista daqueles tempos. Enquanto a primeira história (de Otto Binder e Al Plastino) mostrava Clark Kent tendo uma breve experiência como policial, a primeira de Siegel (também com arte de Plastino) era um conto retroativo, mostrando como Clark conseguiu seu trabalho no Planeta Diário, um tema já explorado anteriormente, mas agora, como um tipo de “retrospectiva” da carreira do repórter, e a terceira, com arte de Wayne Boring, mostrava o Superman ingressando no exército e, na medida em que seu sargento tentava lhe humilhar, o homem do amanhã, obviamente, realizava facilmente qualquer façanha, o que lhe levou a subir na hierarquia militar em tempo recorde e chegar a general, aproveitando a patente para dar uma lição no sargento, passando à sua frente várias vezes para que ele sempre fizesse a pose de “sentido!” até ficar com o braço doendo.

No mês seguinte, Siegel contribuiu com Action Comics 259, com arte de Plastino, numa história na qual o Superman encontra um pedaço de kryptonita vermelha e desmaia e quando acorda precisa lidar com o Superboy no presente e um ataque de Luthor, que sequestra tanto Lois Lane quanto Lana Lang, e o homem de aço se vê na iminência de ver as duas garotas e sua versão juvenil morrerem nas mãos do vilão, até acordar e perceber que fora tudo um sonho após o desmaio. Esse tipo de história que lidava com realidades distintas do homem de aço começariam, a partir dali, a serem cada vez mais comuns e seriam batizadas de “histórias imaginárias”, algo como “o que aconteceria se…” que a Marvel faria uma década depois. E várias dessas histórias imaginárias seriam escritas justamente por Siegel.

Superman reencontra Lori, por Siegel e Boring…

Foi Siegel, por exemplo, quem escreveu o primeiro retorno da sereia Lori Lemares, na segunda das histórias de Superman 135, de fevereiro de 1960, com Boring na arte, na qual após ouvir marinheiros falarem ter visto uma sereia, Clark lembra da moça e decide ir atrás dela, encontrando-a e tendo um encontro submarino. Contudo, os mesmos pescadores a avistam e tentam capturá-la, deixando-a mortalmente ferida.

… apenas para ser rejeitado.

Em busca de salvá-la, Superman a leva a Atlantis, e eles não podem ajudá-la, nenhum dos médicos da superfície também não, porque não entendem sua fisiologia, então, o homem de aço vai ao espaço e encontra um cientista alienígena chamado Ronal que pode curá-la. Contudo, o processo de tratamento e e de cura faz com que Ronal e Lori terminem apaixonados, e o Superman se afasta para que eles sejam felizes. Uma história que mostrava que o homem de aço também podia partir seu coração e ser trocado por uma mulher. Ao voltar a Metrópolis, Clark Kent pede para sair com Lois Lane, veja só!

Em pouco tempo, também começou a contribuir com Superman’s Pal Jimmy Olsen, a partir da edição 43, de março de 1960, e Superman’s Girl-Friend Lois Lane, a partir do número 19, de agosto de 1960, e ficaria escrevendo novas histórias por sete anos até 1966. Nessa época a DC não dava os créditos aos artistas que trabalhavam nas revistas, portanto, o nome de Siegel não apareceu em canto nenhum.

A Liga da Justiça

Mencionamos anteriormente que o Superman pode ter ingressado precocemente na Era de Prata por causa da ampliação de seu universo particular ocorrida a partir de 1954, embora, como o leitor pode ter notado, atingiu seu ápice mesmo ao longo dos anos de 1958 e 1959. Isso porque foi um movimento editorial consciente e ocorreu dentro de um contexto específico, com uma mudança algo radical dentro da DC Comics: a recriação de velhos heróis e a reunião deles em um novo grupo, que terminou por redefinir a ideia de cronologia dentro da editora.

Julius Schwartz revolucionou a DC a partir do fim dos anos 1950.

Tudo isso começou pelas mãos de alguém com quem já cruzamos o caminho antes, de modo casual: o editor Julius Schwartz. Contratado ainda em meados dos anos 1940 para auxiliar na editoria do selo All-American Publications, ainda sob a égide de Max Gaines, após a fusão “oficial” daquela com a DC, Schwartz (que não tem parentesco com escritor Alvin Schwartz) continuou supervisionando aquele conjunto de personagens, como Flash, Lanterna Verde, Gavião Negro etc. Contudo, na medida que esses personagens foram paulatinamente cancelados na passagem dos anos 1940 para 50, o editor teve que se ocupar de outras revistas e de outros gêneros.

Showcase 04 traz a estreia do Flash.

Mas ele arquitetou um retorno aos super-heróis e lançou a ideia de criar novas versões dos velhos heróis abandonados, agora que as revistas do Superman estavam vendendo tão bem. Whitney Ellsworth, o chefão da redação, editor executivo, aceitou fazer um teste, então, a revista Showcase 04, de outubro de 1956, com roteiro de Robert Kanigher e arte de Carmine Infantino, trouxe uma nova versão do The Flash, agora, o policial forense Barry Allen, que ganha seus poderes ao ser atingido por um raio e ser banhado por uma série de produtos químicos. Posteriormente, este lançamento foi considerado como o marco zero da Era de Prata, de um modo geral.

O Volume 02 traz capa de “Showcase 22”, de 1959, com a primeira aparição do novo Lanterna Verde.

A empreitada foi tão bem-sucedida que logo Ellsworth autorizou o retorno da velha revista Flash Comics, agora, rebatizada The Flash e continuando a numeração da década de 1940 (a partir de 105). Em 1958, Julius Schwartz também capitalizou uma renovação da Mulher-Maravilha, que continuava, ao contrário do Flash, a ser publicada ininterruptamente desde a década anterior, que contou com o mesmo Kanigher como escritor e Ross Andru na arte. Então, Showcase 22, de outubro de 1959, trouxe uma nova versão do Lanterna Verde, por John Broome e Gil Kane, mostrando o piloto de testes Hal Jordan ser escolhido por um policial intergaláctico para ingressar na Tropa dos Lanternas Verdes, que patrulham o cosmos, armados de um anel superpoderoso, capaz de manipular uma energia verde como construtos sólidos de acordo com a imaginação do usuário e que precisa ser recarregado de tempos em tempos. Em seguida, a revista Green Lantern também foi retomada.

Capa de “The Brave and the Bold 28”, de 1960, com a primeira história da Liga da Justiça.

Com esse punhado de heróis retomados, Julius Schwartz capitaneou criar uma nova versão da Sociedade da Justiça, usando um nome que pensavam ser mais “moderno”: a Liga da Justiça da América, que reuniu Flash, Lanterna Verde, Mulher-Maravilha, Aquaman e Caçador de Marte no mesmo time, e dizendo explicitamente que Superman e Batman eram membros “reserva”, que estreou na revista The Brave and the Bold 28, de fevereiro-março de 1960, com roteiro de Gardner Fox (o mesmo escritor da Sociedade) e arte de Mike Sekowsky, que entregam uma aventura como o monstruoso alienígena Starro, uma estrela do mar gigante que é capaz de gerar pequenos filhotes que podem dominar a mente das pessoas. Quando a ameaça surge, é emitido um alerta para reunir os heróis, mas Superman e Batman estão ocupados e não comparecem.

No velho estilo DC, quando a aventura começa, a Liga já existe e está atuante, sem ser dado qualquer detalhe sobre as origens do grupo. (Emoji com palma da mão no rosto). O grupo se reúne uma base secreta em uma caverna (sério?), dramaticamente batizada de Santuário Secreto, e localizada em um local chamado Happy Harbour, uma baía entre Metrópolis e Gotham City, e quem cuida da base é o adolescente Snap Carr, que serve como um tipo de parceiro mirim do grupo ao estilo Jimmy Olsen (em vez do estilo Robin).

Superman estreia como membro da Liga da Justiça, mas isso não é anunciado na capa.

A ideia de Ellsworth era fazer um teste para ver se a ideia funcionava, então, ele deu a Schwartz três edições daquela revista para desenvolver a Liga da Justiça, e se seguiu, portanto, por mais duas edições: no número 29, o grupo combate o Mestre das Armas, e desta vez, Batman se une a eles, mas o Superman não; e na edição 30 – a última do “teste” – o grupo combate Amazo, um poderosíssimo androide construído pelo Dr. Ivo, que mimetiza todos os poderes da Liga, que pela primeira vez tem o Superman como um dos membros atuantes.

Capa da revista 01: Superman (e Batman) só aparecem no tabuleiro. Arte de Murphy Anderson.

As vendas se mostraram suficientemente fortes para mobilizar o lançamento da revista Justice League of America 01, com data de capa de novembro de 1960, com o mesmo time criativo, Fox e Sekowski, seguindo as aventuras da equipe agora com a participação explícita e conjunta de Superman e Batman, embora, curiosamente, a dupla quase nunca aparecesse nas capas. Isso acontecia porque os editores de Superman e Batman, Mort Weisinger e Jack Shifft, respectivamente, não gostaram da ideia de ver “seus” personagens serem usados por outro editor – Julius Schwartz – e fizeram lobby para que a dupla não integrasse o time. Mas Ellsworth foi sensato e pensou que uma equipe de super-heróis da DC não teria a mesma força sem justamente os dois personagens mais populares, e ainda que Weisinger e Schifft tenham insistido para copiar o que a Sociedade da Justiça havia feito (excluindo a dupla de suas aventuras), Ellsworth os manteve, alegando que não eram mais os anos 1940 e a DC não estava dividida em duas companhias como no passado.

Todavia, para não desagradar seus veteranos e eficientes editores, Ellsworth demandou uma especificidade a Schwartz para garantir algo mais próximo de um “meio-termo”: Superman e Batman teriam participações menores nas aventuras e não apareceriam nas capas. E assim se manteve nos primeiros anos. Repare que na capa da primeira edição, Superman (e Batman) só aparecem no jogo do tabuleiro do vilão Mesmero, mas não em pessoa. E não apareceriam de jeito nenhum nas capas dos números seguintes.

Talvez por isso, Schwartz recorreu sempre que pôde a adicionar mais personagens, com o Arqueiro Verde sendo o primeiro novo membro da Liga, a partir do número 04, de maio de 1961. Oliver Queen (um herói criado por Weisinger… era uma maneira de agradá-lo?) era um dos poucos personagens da DC publicado de modo contínuo desde a Era de Ouro, embora quase nunca com destaque, e na época, tinha suas aventuras publicadas em World’s Finest Comics.

Em paralelo, Schwartz também continuava gradativamente trazendo de volta novas versões dos velhos heróis da National (ou da All-American), com o Gavião Negro (Hawkman) reestreando em The Brave and the Bold 34, e a nova versão do Átomo em Showcase 34, ambos em 1961.

A capa da Justice League of America 05 cometeu a ousadia de colocar Superman e Batman como pessoas pela primeira vez, com os dois heróis discretamente colocados no fundo da cena.

Quando o grupo celebrou dois anos de publicação, Schwartz brindou os leitores com a origem do time, até então ainda não revelada, o que ocorre em Justice League of America 09, de fevereiro de 1962, com uma trama na qual um grupo de alienígenas em forma de árvore vêm à Terra disputar uma espécie de torneio e são combatidos pelos heróis (no caso, Flash, Lanterna Verde, Mulher-Maravilha, Caçador de Marte e Aquaman), que decidem se manter como uma equipe fixa. A trama informa – fazendo referência às primeiras aventuras – que Superman e Batman também combateram os aliens, porém, lutaram de modo separado dos demais e só se uniriam à equipe um pouco depois.

Isso deixava implícito um detalhe curioso na cronologia da Liga: Superman e Batman não eram membros originais da equipe, mas ingressaram depois. Esse tema não seria retomado de modo insistente, mas cumpriria um papel maior algumas décadas no futuro. Chegaremos lá.

A Superman e Batman reaparecem na capa da revista na edição 10, de março de 1962, e de novo apenas na edição 17, com esses dois heróis só se tornando uma presença constante nas portadas de Justice League a partir do número 19.

Superman aparece desavergonhadamente na capa de Justice League. Algo ainda relativamente raro.

Justice League of America 19, de maio de 1963, inclusive, trouxe uma história diferenciada, na qual um vilão cria versões malignas dos heróis da Liga da Justiça, o que faz a população se voltar contra eles. Com a confiança abalada uns nos outros, eles decidem revelar as identidades secretas entre si. Até ali, apenas Batman e Superman conheciam as identidades um do outro, por causa das aventuras em World’s Finest Comics. Mas isso durou pouco: ao final, o Superman usa um mineral especial guardado na Fortaleza da Solidão chamado Amnésio para fazer com que esqueçam essas identidades.

O Mercado Responde

Todos esses incrementos criativos parecem ter funcionado muito bem para a DC Comics do ponto de vista comercial. Como já mencionamos antes, os números de venda de revistas não eram públicos até 1960, portanto, não sabemos quanto as revistas da franquia do homem de aço vendiam até aquele ponto, mas os historiadores concordam que, após o sucesso improvável do Superboy na passagem dos anos 1940 para 50, o enorme sucesso da série de TV auxiliou o último filho de Krypton a atravessar a crise de 1954 com a perseguição de Wertham e do macartismo, mas é provável que no momento em que Julius Schwartz começou a relançar os velhos heróis da DC, a partir de 1956, as vendas tenham aumentado, e alguns especulam que a revista Superman pode ter atingido vendagens de mais de 1 milhão de unidades mensais ali por volta de 1958, o que era retornar ao patamar do apogeu das HQs da Era de Ouro, ali por volta de 1942.

O que temos de dados é que, em 1960, a revista Superman era a terceira mais vendida no mercado de HQs em geral, com uma média de 810 mil cópias mensais vendidas, atrás apenas de duas publicações da Dell Comics sobre o universo de Walt Disney (Uncle Scrooge, o Tio Patinhas, e Walt Disney’s Comics & Stories, uma revista do tipo mix), ambas com pouco mais de 1 milhão de vendas. Um resultado nada mal, não é mesmo? Ainda mais porque o ranking seguia do seguinte modo: 4º Superboy (635 mil cópias mensais), 5º Mikey Mouse, 6º Batman (502 mil), 7º Superman’s Pal Jimmy Olsen (498 mil), 8º World’s Finest Comics [com histórias de Superman e Batman juntos] (476 mil), 9º Looney Tunes [personagens da Warner, também editados pela Dell], 10º Action Comics e 11º Superman’s Girl-Friend Lois Lane (ambas empatadas na casa das 458 mil), 12º Adventure Comics (438 mil).

Ou seja, a franquia do Superman representava 7 revistas entre as 12 mais vendidas do mercado de HQs dos EUA, e a DC ainda tinha outra dentro dessa lista, com Batman. Várias outras revistas da DC apareciam mais abaixo no ranking, com Detective Comics, Flash, as hoje esquecidas Mystery in Space e Challengers of the Unknown, seguindo com The Brave and the Bold, Showcase e Wonder-Woman entre as 25 mais vendidas, com números entre 300 e 200 mil cópias mensais.

No ano de 1961 o mercado de quadrinhos começa sistematicamente a diminuir de tamanho (o ano anterior foi a última vez que uma revista atingiu vendas de 1 milhão de cópias até 1977!! – falaremos disso mais tarde), mas no cômputo geral, as revistas da DC foram na contracorrente e cresceram suas vendagens, com, em 1961, Superman subindo ao 2º lugar do ranking (atrás apenas de Uncle Scrooge) e 820 mil cópias vendidas mensais, seguida por Superboy em 3º, Superman’s Pal Jimmy Olsen em 4º, Superman’s Girl-Friend Lois Lane em 5º, Batman em 7º, Action Comics em 8º, World’s Finest Comics em 9º e Adventure Comics em 10º – ou seja, toda a franquia do homem de aço no Top10 – mais Justice League of America em 13º, Detective Comics em 14º, Flash em 17º e Green Lantern em 19º dentro do Top20.

A revista Superman chegou ao topo do mercado de quadrinhos no ano de 1962 e carregando toda a sua franquia de novo para dentro do Top10 mais a revista Batman, e agora concorrendo com Archie (o personagem adolescente, da Archie Comics) e Casper (o Gasparzinho, no Brasil) se tornando sua principal concorrência, pois os quadrinhos da Disney rapidamente desceram no ranking ao trocarem a editora Dell Comics pela Gold Key Comics.

Consolidando uma Cronologia

O regresso de Jerry Siegel ocorreu justamente no momento em que o editor executivo Whitney Ellsworth demandou a Mort Weisinger que as histórias do Superman se adequassem ao novo estilo da Era de Prata instituído na sala vizinha por Julius Schwartz. Daí que Weisinger trabalhou com Otto Binder, Siegel e Robert Bernstein para criar uma cronologia padrão do homem de aço, instituindo quem era o herói da Terra 1, amarrando melhor seu passado e evitando ao máximo possível as constantes contradições criadas ao longo do caminho.

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A clássica história de Siegel: “Retorno a Krypton”, com o herói encontrando sues pais, Jor-El e Lara.

Como parte desse projeto, Siegel escreveu, e Wayne Boring desenhou, aquela que é considerada por muitos como uma das melhores histórias do Superman: Return to Krypton, publicada ocupando o espaço das três histórias de Superman 141, de novembro de 1960. Nela, o homem de aço viaja no tempo sem querer e vai parar no planeta Krypton antes dele explodir, inclusive, encontrando seus pais, Jor-El e Lara, bem como se apaixonando pela atriz Lyla Leroll.

A trama aproveita para estabelecer uma série de conceitos sobre o planeta, a família do herói e sua história, sendo o alicerce da nova cronologia que despontava. Com o passar das décadas, essa história ganhou várias novas versões, duas delas nos anos 1980 por Alan Moore e John Byrne, sobre as quais iremos falar depois.

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“Superman 146”, de 1961, consolida a cronologia do herói na Era de Prata.

Essa nova cronologia foi apresentada ao público na história retroativa The Complete Story of Superman’s Life na qual todos os eventos da vida do herói são organizados dentro de uma lógica temporal e cronológica, numa história de Otto Binder e Al Plastino, publicada em Superman 146, de julho de 1961.

Na trama, se mostra que o bebê Kal-El que é posto na nave que o traz à Terra não é um recém-nascido, mas um menino de três anos, o que ajudava a explicar porque o Superman ainda tinha lembranças de Krypton. A história também faz a ponte entre o Superboy de Smallville, criado por Jonathan e Martha Kent (que o ajudaram a treinar seus poderes) até o Superman de Metrópolis. A mesma revista ainda trouxe uma épica história escrita por Jerry Siegel, Superman’s Greats Feats, na qual o herói volta ao passado por um pedido da sereia Loris Lemaris (uma de suas ex-namoradas!) para impedir a tragédia da Atlântida afundar no mar, mas o herói percebe que não é possível alterar os fatos do passado.

Siegel contou a origem da rivalidade com Lex Luthor em uma história do Superboy.

Jerry Siegel continuou ocupado em estabelecer a nova cronologia do homem de aço e, por isso, criou a até então inédita história que explicava a rivalidade entre Superman e Lex Luthor. No entanto, como Luthor também era vilão nas histórias do Superboy, foi dentro desse contexto que ele o fez. Em Adventure Comics 271, de abril de 1960, desenhada por Al Plastino, vemos o Superboy conhecendo e se tornando amigo do jovem ruivo Lex Luthor, um promissor cientista adolescente. Ele cria um antídoto para a kryptonita, mas um acidente no laboratório leva o menino de aço a agir e, sem querer, faz com que o jovem Lex perca todo o cabelo. Jurando vingança, o rapaz se torna um gênio do mal.

Apesar da inocência da história, esses elementos continuam influenciando os escritores até hoje. Embora a amizade juvenil entre Luthor e Superboy tenha sido apagada no futuro, vários outros artistas a resgataram, inclusive em outras mídias, como a série de TV Smallville.

O bom fluxo de histórias também era permeado por elementos bizarros que, por qualquer motivo que fosse, Mort Weisinger gostava de incluir em suas revistas. Um deles foi Streaky, o supergato, que estreou na aventura da Supergirl em Action Comics 261, de fevereiro de 1960, já com Jerry Siegel nos textos e a arte com Jim Mooney. Na trama, Kara tenta neutralizar os efeitos da kryptonita nela (e em seu primo), mas o experimento não dá certo e ela se livra da kryptonita, sem saber que os produtos químicos que ela usou causaram uma reação em cadeia que transformou um mineral em outra coisa, mais tarde chamada de X-kryptonita. Quando sob a identidade de Linda Lee encontra um gato vadio atacado por um cão, a menina o salva e ele o segue até o Orfanato Midvale, onde decide adotá-lo e o bichano é aceito pela administração. Numa de suas escapadas, o gatinho termina entrando em contato com a X-kryptonita e desenvolve poderes similares ao de Kara, que lhe batiza de Streaky e lhe dá uma capa vermelha para atuar como seu parceiro de aventuras.

Com Krypto, Beppo e Streaky, agora teríamos toda uma superfauna povoando as HQs da franquia do homem de aço. E ainda viria mais…

Até os vilões tinham seus pets… Em Superboy 83, de setembro de 1960, Jerry Siegel e George Papp introduzem o vilão Kryptonite Kid, um alienígena criminoso que, como alternativa à sua pena, se submeteu a um experimento e terminou banhado em uma nuvem radioativa de kryptonita no espaço, ganhando superpoderes e, claro, emanando energia letal ao menino de aço. O vilão também tinha um cachorro de estimação para fazer “par” com Krypto, e no futuro ganharia sua versão adulta, como o Homem-Kryptonita.

Além da Liga da Justiça, o Superman – via Superboy – teria bastante envolvimento com a Legião dos Super-Heróis, que, após aquelas duas primeiras aparições, regressou em Action Comics 267, de agosto de 1960, na história da Supergirl, escrita por Siegel e Mooney, na qual a menina de aço encontra o time de jovens do futuro, que agora, além do trio original de Cosmic Boy, Lightining Lad e Saturn Girl conta com as adesões de Colossal Boy, Chamaleon Boy e Invisible Kid, novas criações de Siegel.

O fato de Weisinger agora publicar as melhores cartas de leitores nas revistas estimulou ao enorme fandoom (comunidade de fãs) da DC Comics a escrever cartas e mais cartas à redação, e algumas histórias da época pareciam simplesmente destinada a responder perguntas comuns dos leitores. Por exemplo, em Superman’s Girl-Friend Lois Lane 20, de outubro de 1960, a segunda história, por Siegel e Schuffenberger, mostra a segunda daquelas “histórias imaginárias”, uma na qual vemos o que aconteceria se Superman e Lois adotassem a Supergirl, que parecia responder a uma pergunta do tipo: por que o homem de aço simplesmente não adota sua prima adolescente, afinal, em vez de deixá-la sozinha em um orfanato?

A trama mostra Clark e Lois casados e adotando Linda Lee, com Kal-El e Kara felizes usando seus poderes para combater o crime e cuidar da casa, o que faz Lois começar a se sentir sem função na vida, até que, ao final, abandona o lar levando consigo robôs imitando a aparência de Clark e Linda em suas identidades civis (já que as histórias da época mostravam que o homem de aço tinha esses robôs superavançados com tecnologia kryptoniana guardados na Fortaleza da Solidão) para ter uma vida mais normal. Nossa!!!!

O primeiro romance de Kara… com um sereio! Arte de Jim Mooney.

A Supergirl encontra o seu primeiro amor em sua história em Action Comics 269, daquele mesmo mês, seguindo com Siegel e Mooney, na qual a menina de aço interage com a sereia Lori Lemares e conhece e se apaixona por Jerro, um “sereio” de Atlantis.

Luthor termina causando sem querer o assassinato de Abraham Lincoln, por Siegel e arte de George Papp.

Outra história que parece responder apelos de fãs é a segunda de Superboy 85, de dezembro de 1960, de novo por Siegel (veja aí a importância do escritor em sua segunda fase) e com arte de George Papp, na qual o menino de aço usa seus poderes e viaja no tempo ao ano de 1865 para impedir que o presidente Abraham Lincoln seja assassinado, apenas para descobrir que o jovem Lex Luthor está tentando fazer o mesmo, e o vilão usa a kryptonita vermelha para incapacitar o Superboy, mas no fim, ambos descobrirem que é impossível mudar os eventos do passado. Era uma decisão criativa forte de caráter associado à ficção científica que servia para mostrar que não cabia ao menino (ou ao homem) de aço reescrever a história, e estabelecia um precedente que iria se manter nos anos seguintes, sendo tal situação relembrada na Superman 146 que já comentamos acima.

Outro ponto interessante da história é que os leitores (e os artistas) não podiam sequer imaginar que estavam há apenas três anos de verem outro presidente dos Estados Unidos ser assassinado no exercício de sua função. E falaremos disso logo mais, pois o Superman tem a ver com a questão.

O time juvenil já voltou em Superboy 86, de janeiro de 1961, na terceira história da revista, também escrita por Siegel com arte de George Papp, na qual a Legião volta no tempo para ajudar o menino de aço em uma batalha contra Lex Luthor, que criou um exército de homens-kryptonita. Esta revista também trouxe a história (a segunda), por Robert Bernstein e Papp, que introduziu Pete Ross, o jovem de Smallville destinado a virar o melhor amigo juvenil de Clark Kent.

Com as aventuras do Superboy consolidadas, Mort Weisinger começou a incentivar seus escritores a produzirem histórias que cruzavam elementos do passado e do presente do homem de aço, por isso, em Action Comics 272, daquele mesmo mês, Siegel e Swan introduzem Lana Lang no mundo do Superman (não de sua contraparte juvenil), colocando a garota como âncora da WMET-TV, em Metrópolis, ou seja, também atuando no ramo jornalístico e, por isso, facilmente cruzando os caminhos de Clark Kent e Lois Lane e, dali em diante, colocada em situações de rivalidade pelo amor do último filho de Krypton.

Lena Thorul e Lois Lane. Arte de Kurt Schaffenberger.

Outro desenvolvimento cronológico interessante acontece em Superman’s Girl-Friend Lois Lane 20, de fevereiro de 1961, por Siegel e Schaffenberger. E lembre: a revista solo da intrépida repórter nem podia ser considerada secundária, pois neste ponto, vendia mais do que Action Comics. Na trama, Lois investiga um caso de bruxaria em uma cidade do interior do estado de Nova York e conhece a jovem Lena Thorul, que suspeita ser a reencarnação de uma antiga bruxa, porém, ao fim, descobre que a menina é, na verdade, irmã de Lex Luthor!

Em uma entrevista, Lena revela que quando o jovem Lex se tornou um criminoso – como mostrado nas aventuras do Superboy (olha a cronologia funcionando aí, com histórias interligadas!) – o pai deles, Jules Luthor, expulsou o rapaz de casa, e eles saíram de Smallville e mudaram o nome para Thorul, um anagrama de Luthor. Lena era muito pequena na época e não entendeu bem o que aconteceu, apenas bem mais tarde. Temendo o irmão, Lena pede a Lois que guarde segredo e não publique essa história, e a repórter faz isso.

As aventuras do menino de aço renderam o conceito da Zona Fantasma, que apareceu pela primeira vez em Adventure Comics 283, de abril de 1961, por Robert Bernstein e George Papp, na qual uma caixa de artefatos de Kyrpton chega à Terra e um deles é o projetor da Zona Fantasma, que o Superboy ativa sem querer e fica preso dentro dessa dimensão fantasmagórica, que serviu como uma prisão interdimensional criada pelo pai dele, Jor-El, pois Krypton tinha abolido a pena de morte. Sim, era uma ideia bastante similar àquela outra que já apresentamos e, agora, tomava sua forma definitiva.

Outro aspecto importante daquela edição é que ela introduziu o vilão General Zod, um maligno kryptoniano preso na Zona Fantasma junto ao grupo com o qual tentou aplicar um golpe em Krypton. Hoje associado como um dos mais mortais inimigos do Superman, curiosamente, nesses primeiros tempos da Era de Prata, Zod apareceria principalmente nas histórias “secundárias” de Superboy ou Supergirl, raramente encontrando a versão adulta do homem de aço, e menos ainda, tendo algum tipo de confronto memorável com ele. Isso só aconteceria depois… e em outra mídia!

A Legião aumentou novamente seu corpo de membros em Action Comics 276, de maio, na história da Supergirl, por Siegel e Mooney, na qual a menina de aço encontra dessa vez a Saturn Girl ao lado de um verdadeiro time de novos personagens: Phantom Girl, Triplicate Girl, Shrinking Violet, Sun Boy, Boucing Boy e (por último, mas não menos importante) Brainiac 5, um rapaz verde, apresentado como um descendente do vilão Brainiac, mas de postura heroica, que virará muito rapidamente o líder e membro mais conhecido do bando. Na trama, Siegel explora outra vez os amores de Kara Zor-El, com Brainiac 5 querendo namorar com ela e ela também encontrando o “sereio” Jerro, por fim, com Linda Lee, regressando ao Orfanato Midvale toda faceira e suas amigas internas convencidas de que ela tem um namorado secreto, o que ela nega (pensando ao leitor que tem pretendentes…).

Em Superboy 89, de junho de 1961, Bernstein e Papp apresentam a história que introduz Mon-El, um coadjuvante importante das aventuras daqueles tempos. Na trama, o rapaz, um pouco mais velho do que o Superboy, chega à Smallville em um foguete e sem memória, mas com poderes muito similares ao do menino de aço e um medalhão pertencente a Jor-El! Isso leva Clark, Jonathan e Martha a pensarem que ele pode ser um irmão mais velho perdido de Kal-El, e tendo em vista que era uma segunda-feira (monday), batizam o jovem de Mon-El. Rapidamente, Jonathan e Martha criam a identidade civil de Bob Cobb para o rapaz, como um vendedor, mas Clark fica desconfiado da história dele.

Superboy e Mon-El. Arte de George Papp.

Numa noite, enquanto Mon-El dorme, pega um pedaço de kryptonita e põe perto dele para ver o efeito e nada acontece! E também verifica que o medalhão não é feito de um material kryptoniano. Mas depois, em meio a uma aventura, quando precisam lidar com outro pedaço de kryptonita e Mon-El salva Superboy prendendo a pedra em chumbo termina contaminado pelo chumbo e, então, o jovem recupera sua memória: ele não é mesmo kryptoniano, mas seu nome é Lar Gand, do planeta Daxam, que ficava no mesmo sistema solar de Krypton, e que ele realmente conheceu Jor-El. No caso dele, em vez de vulnerável à kryptonita, o daxamianos são afetados pelo chumbo! O rapaz está prestes a morrer por envenenamento quando Superboy decide enviá-lo à Zona Fantasma, para ficar incorpóreo lá à salvo até que encontrem uma cura para ele. Como é possível nota, essa histórias era meio que uma releitura da aventura de Superman 80, que apresentou um plot similar.

Superman ganha um conjunto de oponentes frequentes – tanto nas histórias do passado quanto nas do presente – em Superboy 94, de janeiro de 1962, cuja autoria é desconhecida, mas a arte é de George Papp, na figura do Superman Revenge Squad, um grupo de criminosos alienígenas que quer se vingar do menino e do homem de aço por ter atrapalhado seus planos.

Kara com a peruca de Linda é finalmente adotada. Arte de Jim Mooney.

Talvez, o tópico de Kara estar escondida em um orfanato e tendo aventuras secretas, enquanto o Superman continuava sua vida normalmente tenha se estendido um pouco por tempo demais, então, o plot é resolvido definitivamente em Action Comics 279, de julho de 1961, quando Siegel e Jim Mooney mostram a história na qual o bondoso casal Fred e Edna Danvers resolve adotar a garota do Orfanato Midvale, com a menina de aço ganhando um lar adotivo e incorporando o nome da nova família e se tornando Linda Lee Danvers dali em diante. A outra ponta da questão também se resolveu pouco depois: Action Comics 285, de fevereiro de 1962, também por Siegel e Mooney, traz o Superman finalmente revelando a Supergirl ao mundo, com ela deixando de ser sua “arma secreta”.

Jerry Siegel estava mesmo no auge de suas forças e entregava, naquele momento, as melhores e mais importantes histórias do homem de aço e seu universo, não sem rusgas com Mort Weisinger. O artifício das histórias imaginárias, além de uma estratégia editorial para testar limites e reações do público, talvez também fosse uma maneira do escritor ir um pouco mais longe e mostrar o que poderia fazer sem as amarras comerciais impostas pela DC Comics. Um ótimo exemplo disso é a história imaginária de Superman 149, de novembro de 1961, com arte de Curt Swan (que, repare, começava cada vez mais a migrar para as histórias principais no lugar de Boring ou Plastino).

Na trama de A Morte do Superman, Luthor está na cadeia e descobre uma rocha com o misterioso Elemento Z, um raríssimo mineral. Ao pesquisar o material no hospital da cadeia, Luthor termina criando uma cura para o câncer a partir do elemento. A despeito da suspeita inicial do Superman e do mundo, o procedimento inventado pelo vilão é comprovado e mundo consegue erradicar o câncer. Por causa disso, Luthor é libertado da prisão por meio de condicional e continua trabalhando pelo bem da humanidade, o que faz com que o Superman faças “as pazes” com o cientista.

A crueldade de Luthor em seu extremo numa história imaginária de Siegel. Arte de Curt Swan.

Mas no fim das contas, era tudo um ardiloso plano de Luthor. Apesar da cura do câncer ser real, era apenas uma estratégia para ganhar confiança do Superman. Ao atrair o herói para uma armadilha, Luthor envenena o homem de aço com Kryptonita e ainda faz Lois Lane, Jimmy Olsen e Perry White para assisti-lo morrer. Com o herói morto (de verdade), a Supergirl se fantasia de Superman, surpreende Luthor e seus capangas e os prende. Cabe agora à garota de aço manter vivo o legado de seu primo.

A história – ainda que um típico “o que aconteceria se…?” servia bem para mostrar o caráter maligno e genial de Lex Luthor nas mãos de seu criador, exibindo que ele podia ter a paciência para um plano ardiloso que matasse seu inimigo e que ele não era, no fim das contas, contra o bem-estar da humanidade.

Porém, o bom momento daquelas aventuras não eximia o editor Mort Weisinger, de vez em quando, se exceder em suas bizarrices e criar conceitos que hoje soam absurdos demais… Não bastava ter um supercão, um supermacaco e supergato… era preciso toda uma Legião dos Super-Pets? Bom, foi isso o que ele fez… Em Adventure Comics 293, de fevereiro de 1962, Siegel e Swan contam a história na qual um poderoso vilão domina a mente da Legião dos Super-Heróis, que saem em confronto com o Superboy, que é o verdadeiro alvo de Brain-Globes of Rambat, o dominador de mentes, e é dominado por ele.

A Legião dos Super-Pets. Por que não?

Quando a Legião é liberta pelo vilão, que não os considera uma ameaça, eles decobrem que o controle mental não tem efeito em Krypto, o supercão, então, voltam no tempo para coletar o restante da superfauna e formam a Legião dos Super-Pets (não, não é piada): Krypto, o supercão, Streaky, o supergato, Beppo, o supermacaco e… Cometa, o supercavalo (quem?). Isso, a coisa é tão louca que Cometa sequer tinha estreado ainda e já era “apresentado” aqui. Afinal, as aventuras da Legião não eram no futuro? Neste sentido foi até uma sacada de Weisinger e uma provocação aos seus leitores… do futuro valia tudo.

Pois bem, pouco depois, o ilustre Cometa, o supercavalo fez sua estreia no presente, em Action Comics 292, de outubro de 1962, justamente a aventura de estreia do escritor Leo Dorfman à frente das histórias solo da menina de aço, com a arte seguindo com Jim Mooney. Na trama, Kara tem sonhos estranhos com um cavalo branco superpoderoso e termina em meio a uma missão encontrando-o: ele é capaz de voar, tem superforça e tal qual Krypto tem uma inteligência no mesmo nível da humana, embora não possa falar. Ademais tem um pouco de telepatia, e é por isso que conseguiu induzir a heroína a sonhar com ele.

E se isso tudo não é estranho demais, piora em seguida… Na edição seguinte, número 293, vemos a origem de Cometa: ele vem da Grécia Antiga e era um centauro chamado Biron, que é transformado em um cavalo acidentalmente por um feitiço irreversível da feiticeira Circe. Depois, dessa aventura, Cometa termina no espaço e fica sem memória, o que o impede de voltar para Kara. Por um tempo.

Uma esposa para o Superman?

O tema de por quê o Superman não casava logo com Lois Lane retornou outra vez na história solo da Supergirl de Action Comics 289, de janeiro de 1962, por Siegel e Mooney, na qual a garota de aço – não mais escondida – ao ver seus amorosos pais adotivos juntos, pensa que deveria ajudar seu primo a conseguir uma esposa para ele. Ao pensar que mulher seria “ideal” para o homem de aço, Kara usa seus poderes para viajar no tempo 3 mil anos no passado e escolher Helena de Troia com sua parceira, mas uma série de infortúnios impede a felicidade do quase casal; então, ela decide ir ao futuro, ao século 30, numa época em que seus amigos da Legião dos Super-Heróis não são mais adolescentes, mas sim, adultos, e tenta fazer o romance entre o Superman e a Saturn Woman, até descobrir que ela já está namorando o Lightinning Man; dessa forma, Kara vai ao espaço e encontra sua melhor candidata em Luma Lynai, do planeta Staryl, que é superpoderosa tal qual Kal-El.

Porém, mesmo assim, as coisas não vão bem: embora se gostem, Superman e Luma percebem que ela vive em um mundo que orbita uma estrela laranja (alterado para azul nas republicações) e que não somente perde suas habilidades na órbita de uma estrela amarela como nosso sol, como a radiação de nossa estrela ainda é venenosa para ela. Assim, Kal-El e Luma precisam seguir seus caminhos separados. E Kara se convence que precisa deixar o destino agir para que o homem de aço encontre a sua mulher ideal.

Bem recebidas pelos leitores, as aparições da Legião dos Super-Heróis se tornaram fixas a partir da revista comemorativa Adventure Comics 300, de setembro de 1962, quando histórias focadas no time (com ou sem o Superboy) se tornaram uma atração regular da publicação ao lado das histórias do menino de aço, e que, inicialmente, traziam roteiros de Siegel com arte de John Forte. Essas aventuras durariam 80 edições até 1969. Na trama inaugural, a Legião se apresenta e Mon-El (que apesar da memória recuperada continua usando o nome que deram para ele) – ainda incorpóreo lá na Zona Fantasma – atua como um membro honorário, mas logo na edição 305, pouco tempo depois, o rapaz é curado de seu envenenamento por chumbo e se torna membro fixo do time.

O interessante é que as capas revelavam que o retorno de Mon-El se dava por “demanda popular”, ou seja, os fãs estavam escrevendo cartas para que o jovem herói voltasse e ingressasse na Legião, o que foi prontamente atendido.

Superman em ação por Curt Swan.

O movimento de definir uma cronologia também criou algumas situações (editoriais) estranhas. Seja por falta de criatividade, seja por senso de oportunidade, o fato é que, não apenas uma vez, Mort Weisinger demandava a reescrita de histórias já contadas no passado (num contexto, é importante lembrar, em que as histórias não eram republicadas jamais). Assim, uma das histórias de Superman 156, de outubro de 1962, Edmond Hamilton e Curt Swan reescrevem a história The last days of the Superman, que fora publicada na mesma revista, no número 66, mas agora, adicionando elementos como a Supergirl e a Legião dos Super-Heróis à trama.

O conteúdo é basicamente o mesmo, após um artefato de Krypton chegar à Terra, assim como kryptonita, o Superman fica bastante doente e chega à conclusão de que contraiu o poderoso vírus X de Krypton, que é mortal aos kryptonianos, e os médicos lhe dão apenas 30 dias de vida. O homem de aço traça um plano de realizar feitos que ajudem ao desenvolvimento da humanidade (dessa vez, o principal deles é a construção de uma rede de canais de irrigação para aplacar a fome no mundo), mas fica fraco demais para realizá-los, empregando a ajuda da Supergirl e da Legião. Kara também tenta desesperadamente ajudar seu primo, inclusive, viajando no tempo até Krypton na busca por uma cura, e descobre que existe uma cura para o vírus X, mas com a consequência que exterminaria toda a vida do universo, então, os kryptonianos a abandonaram.

Arte de Curt Swan.

No fim, com a ajuda de Kara e de Krypto, o Superman grava um epitáfio na Lua, inclusive, revelando que é Clark Kent, até que descobre que a causa de seu mal não é o vírus X, mas um pequeno fragmento de kryptonita que ficou incrustada na máquina fotográfica de Jimmy Olsen. Ao eliminá-la ele volta a ficar bem e apaga a escrita na Lua.

Linda Danvers (cabelos castanhos) e Lena Luthor se tornam amigas. Arte de Jim Mooney.

Em Action Comics 295, de dezembro de 1962, quando as aventuras da menina de aço já tinham passado às mãos do escritor Leo Dorfman, com a arte continuando com Jim Mooney, Linda Danvers conhece Lena (Luthor) Thorul e descobre que ela tem poderes mentais. Outra vez, a garota narra sua história e revela que ganhou os poderes a partir de uma máquina alienígena que ficou na sua casa, trazida à Terra pelo Superboy, ainda nos tempos em que ele e Lex Luthor eram amigos. Rapidamente, Linda e Lena se tornaram as melhores amigas uma da outra.

O General Zod tem a primeira oportunidade de se mostrar um oponente de respeito na história da Supergirl de Action Comics 297, de fevereiro de 1963, quando as aventuras da menina de aço já tinham passado às mãos do escritor Leo Dorfman, com a arte continuando com Jim Mooney, quando uma vilã da cidade engarrafada de Kandor (olha aí a conexão das histórias de novo) chamada Lesla Lar consegue escapar e liberta Zod e seus asseclas, Jax-Ur e Kru-El. No fim, Lesla termina sequestrando Lena (Luthor) Thorul, e Kara não tem outra opção que pedir permissão ao Superman para solicitar ajuda do irmão dela, Lex Luthor! Este é o momento em que o vilão descobre a verdade sobre sua família e concorda em resgatá-la.

Num raríssimo movimento daqueles tempos, a trama tem um “to be continued” e segue para Action Comics 298 na qual a Supergirl une forças com o Superman e Luthor (que consegue poderes artificiais) para combater Lesla, Zod, Jax-Ur e Kru-El, mas são bem-sucedidos e trazem Lena de volta.

Weisinger e sua equipe de criadores continuaram a (re)definir a cronologia do herói, como na primeira história de Superman 161, de maio de 1963, por Dorfman e Plastino, que traz a interessante trama em que são mostradas em detalhes as mortes de Jonathan e Martha Kent: após uma viagem ao passado, o Superboy traz sem querer o vírus de uma doença antiga que contamina seus pais e para a qual não é encontrada uma cura, mesmo com o menino de aço tentando feitos fantásticos, incluindo colocá-los na Zona Fantasma. No fim, ele precisa aceitar a finitude da vida e fica bastante deprimido com a morte de seus pais adotivos, chegando a pensar em abandonar a carreira heroica, até perceber que não era isso o que eles iriam querem e iniciar o processo de transformação do Superboy em Superman.

Outro aspecto retroativo do passado foi incluindo em Superboy 106, de julho daquele mesmo ano, por Siegel e Swan, na qual descobrimos que um Kal-El ainda bebê foi sequestrado por Brainiac ainda em Krypton, e que Jor-El não mediu esforços para conseguir resgatá-lo, mas no fim, o acaso age ao seu favor: sem conhecer esse pequeno “detalhe” da fisionomia kryptoniana, Brainiac ingressa em um sistema com uma estrela amarela, e o bebê desperta uma série de poderes que criam o caos na nave do cientista alienígena, que por fim, termina devolvendo a criança a seus pais.

Jimmy Olsen e Superman como Flamebird e Nightwing.

Enquanto isso, uma curiosa adesão à cronologia do homem de aço ocorre em Superman 158, de janeiro de 1963, por Edmond Hamilton e Curt Swan, quando uma rebelião de criminosos kryptonianos na Cidade Engarrafada de Kandor, liderada por Jax-Ur, termina por fazer a população da cidade se voltar contra o homem de aço, pois o cientista Than-Ol descobriu um processo de devolver seus habitantes ao tamanho normal, mas o herói descobre, ao custo de desintegrar todos no processo. Preso lá dentro com Jimmy Olsen, e sem superpoderes, por causa do sol vermelho artificial necessário para manter a vida naquele ambiente, com a ajuda do amigo Van-Zee (que lhe é um parente distante), e inspirado em Batman e Robin, Superman cria a identidade heroica Nightwing (Asa Noturna), portando uniforme e máscara, enquanto Jimmy se torna o Flamebird (Pássaro Flamajante), para combater o crime na cidade. No fim, a dupla de heróis consegue provar a inocência do Superman e ele e Jimmy voltam para nosso mundo.

A aventura teve uma sequência em Superman’s Pal Jimmy Olsen 69, de junho de 1963, também por Hamilton e Swan, na qual a ação do vilão Nor-Kann leva Superman e Jimmy a assumirem de novo as identidades de Nightwing e Flamebird em Kandor, e pouco depois, World’s Finest Comics 143, de agosto de 1964, dos mesmos artistas, trouxe inspiradores e inspirados juntos com Superman e Jimmy Olsen novamente em Kandor como Nightwing e Flamebird ao lado de Batman e Robin. No futuro, as identidades de Asa Noturna e Pássaro Flamejante seriam tomadas de empréstimo por outros personagens da DC para usos mais duradouros.

Nessa mesma época, a revista Action Comics cumpriu a grande façanha de chegar ao número 300, em maio de 1963, com uma história comemorativa, por Edmond Hamilton e Al Plastino, na qual o Superman fica preso no futuro distante da Terra, quando os humanos já tinham ido embora colonizar outros mundos e nosso sol virou uma estrela vermelha, e ele perde os poderes, com o homem de aço precisando cumprir uma jornada mortal até a Fortaleza da Solidão (que ainda existia) e usar a tecnologia de lá para regressar ao presente.

Na aventura da Supergirl na mesma edição, por Dorfman e Mooney, a menina de aço reencontra Cometa, o supercavalo, e a visão da garota faz o ex-centauro enfeitiçado recobrar a memória, voltando às aventuras ao lado dela, e na edição 305, um feitiço de uma alienígena faz com que Cometa volte à forma humana, onde ele adota a identidade humana de “Bronco” Bill Starr e até beija Kara! Peraí, a Supergirl namorando um cavalo? É, sr. Weisinger, você estava seguindo um caminho bizarro mesmo.

Superman 162, de julho de 1963, por Dorfman e Swan, trouxe outra história imaginária na qual um acidente termina separando o Superman em duas entidades: uma vermelha e a outra azul. No fim, eles se casam com Lana Lang e Lois Lane e o Vermelho vai morara em Kandor e o Azul fica defendendo a Terra. Essa ideia seria adaptada mais de 30 anos depois de novo nas revistas do herói.

Superman versus Luthor sem poderes. Arte de Curt Swan.

A mais importante história de Lex Luthor dessa fase foi publicada em Superman 164, de outubro de 1963, por Edmond Hamilton e Curt Swan, que consistiu, ainda, em uma das melhores aventuras do homem de aço em todos os tempos. A trama mostra Luthor desafiando o Superman a derrotá-lo sem o uso de seus poderes. Então, a dupla parte para um planeta que orbita um sol vermelho, que anula os poderes do homem de aço. Os dois saem em uma luta ferrenha, porém, Luthor descobre que o planeta é habitado, tem pouca tecnologia e sérios problemas com o fornecimento de água.

Numa ação estranhamente altruísta, o vilão cria uma solução para o problema cavando poços e criando aquedutos e, depois, usa seu intelecto científico para elaborar uma série de melhorias tecnológicas ao planeta, de modo que passa a ser visto como um herói pelos habitantes – que, por sua vez, passam a ver o Superman como um inimigo. Tão grande é a idolatria ao vilão que o planeta é rebatizado de Lexor. E o vilão ganha uma estátua em sua homenagem.

Percebendo com isso que seu inimigo tem um potencial para o bem, quando regressam à Terra e Luthor volta à cadeia, o homem de aço faz questão de mostrá-lo a estátua, para que desperte algo de bom nele. O planeta Luxor teria uma grande importância à cronologia de Luthor e seria palco de várias histórias dali em diante.

A trágica azarada Sally. Arte de Al Plastino.

Outra grande (e triste) história é narrada na edição seguinte, a segunda de Superman 165, por Siegel e Plastino, quando um encontro acidental com kryptonita vermelha deixa Clark Kent sem memória no interior do país. Pensando ser uma pessoa comum, ele adota a identidade de Jim White (talvez por lembranças subliminares de Perry e Jimmy) e termina abrigado por Digby Selwyn em seu rancho, onde passa a trabalhar, e se apaixona pela filha do fazendeiro, a doce Sally. Infelizmente, “Jim” tem um rival sem escrúpulos que o ataca, o amarra e o joga no rio para que morra.

Como é o Superman, claro, “Jim” não morre, as águas do rio o levam para o oceano e ele é resgatado por seu companheiro da Liga da Justiça, Aquaman, que o leva até Atlantis, onde Lori Lemares usa sua telepatia para resgatar a memória do homem de aço. Dá certo, mas infelizmente, Clark termina por esquecer todo o episódio com Sally, e a garota fica para traz, triste e depressiva, pensando que seu namorado cometeu suicídio. Pôxa…

Essa trama tocante ainda ganhou uma sequência não muito tempo depois. A segunda história de Superman 169, de junho de 1964, de novo por Siegel e Plastino, mostra Sally Selwyn conhecendo Ned Barnes, um rapaz que é um sósia perfeito do Superman por um motivo especial: quando adolescente, morando em Smallville, ele sofreu um acidente que deformou o seu rosto. Quando conseguiu uma cirurgia plástica reparativa, pediu para ter o rosto do menino de aço. Agora, adulto, Ned é um vigarista, mas se apaixona por Sally, que pensa que ele é seu amado Jim White, apenas não lembra disso. Mas no fim das contas, Barnes é atacado por velhos comparsas e para proteger Sally, termina morrendo, deixando a menina solitária e abandonada de novo. Caramba…

A arte de Curt Swan em toda a sua glória nessa bela capa.

Ao mesmo tempo, as histórias continuavam a explorar a rivalidade do herói com Lex Luthor e reforçar a presença de Brainiac como um oponente de maior importância. Superman 167, de fevereiro de 1964, com texto de Edmond Hamilton e Cary Bates e arte de Curt Swan, traz uma importante história na qual Luthor e Brainiac se unem pela primeira vez contra o homem de aço, encolhendo-o para torná-lo mais vulnerável, mas no fim, terminam na Cidade Engarrafada de Kandor, onde os vilões são derrotados, mas conseguem escapar.

A trama também é importante porque define, pela primeira vez, que ao contrário do que sua primeira aparição deixava entender, Brainiac não era simplesmente um cientista alienígena, mas um tipo de robô superavançado, ou para usar um termo mais contemporâneo, uma Inteligência Artificial alienígena e avançadíssima ocupando um tipo de corpo híbrido entre biônico e biológico. Curiosamente, essa informação parece um segredo, por isso, após Luthor descobrir esse fato, Brainiac termina apagando essa lembrança da mente do outro vilão.

No fim da história, não querendo voltar para Terra e ser preso, Luthor é deixado em Lexor por Brainiac, e lá, o vilão se aproxima de uma das habitantes do planeta, Ardora, que inicialmente rejeitara o vilão por descobrir suas maldades, mas o Superman, num ato de misericórdia, a faz esquecer disso, o que abre caminho para Luthor desenvolver um romance com ela. Brainiac vê isso como uma dupla derrota, mas o gesto abranda a necessidade de uma vingança imediata contra o último filho de Krypton.

A história teve uma consequência bem mais rápida do que o esperado, e os oponentes se reencontram já em Superman 168, quando Luthor age de novo pelo bem de Lexor, descobrindo que um conjunto de cristais radioativos que afetavam sua população era o que impedia o planeta de desenvolver tecnologia, e ao resolver isso, causa o potencial de mudar a história daquele povo, de novo. Em reconhecimento a isso, o herói vai embora e deixa o vilão livre por lá.

A trama, ainda com Hamilton e Swan, se conclui nas edições de Action Comics 318 e 319, terminando em dezembro de 1964, quando o Superman decide que Luthor já teve tempo demais e vai a Lexor para trazê-lo à justiça, e os dois têm novamente uma luta de mãos livres sob o sol vermelho, porém, dessa vez, o vilão cai aparentemente morto após um golpe, e a população do planeta, que vê Lex como um herói, se volta contra o homem de aço, que é preso e condenado a ser transformado em pedra.

Os advogados do herói, contudo, suspeitam de alguma artimanha e conseguem libertar o Superman, que descobre que Luthor se autoinduziu um coma artificial e o desperta, mas a volta do vilão é aclamada pela população e o último filho de Krypton parte dali como um exilado.

A Chegada do Multiverso

Ao contrário dos outros editores da DC, como Mort Weisinger, Julius Schwartz tinha bastante apreço pela cronologia e orientou seus escritores a seguirem o senso de continuidade de modo exato, e os fãs entenderam isso de modo imediato e, logo, incorporando o conceito, começaram a fazer perguntas difíceis nas seções de cartas: “se o novo Flash só apareceu agora, como fica o fato de que Superman e Batman são publicados desde os anos 1940?”. Conversas e mais conversas entre Schwartz, Elssworth, Weisinger e seus escritores levaram à ideia de considerar que enquanto os heróis da DC ali dos anos 1960 faziam parte de uma linha cronológica unificada, e as versões antigas dos heróis eram representantes de uma “realidade alternativa”, um conceito típico da ficção científica, em especial em histórias sobre viagens no tempo.

Flash 123 introduz o conceito do Multiverso e traz Jay Garrick de volta.

Então, o conceito é apresentado em The Flash 123, de setembro de 1961, por Gardner Fox e Carmine Infantino, na qual um fenômeno coloca o Flash/ Barry Allen (da Terra 1 – nosso mundo) para encontrar o Flash/ Jay Garrick (da Terra 2 – mundo dos heróis da década de 1940) e ambos tomam conhecimento dessa separação, que dará origem em breve ao conceito de multiverso. Não demorou nada, outras edições de The Flash e de Justice League começaram a explorar o tema até que ficou estabelecido que a Terra 2 também tinha versões de Superman, Batman e Mulher-Maravilha, os heróis que eram publicados de maneira ininterrupta desde então.

Isso é explorado explicitamente em The Flash 129, na qual Berry Allen vai de novo à Terra 2 e encontra a Sociedade da Justiça!

Gradativamente ficou definido que o Superman da Terra 2 mantinha vários dos elementos originários das velhas histórias que foram substituídos, como o jornal Estrela Diária e o editor George Taylor, bem como no fato de Luthor ter cabelos ruivos. Como surgiu na passagem dos anos 1930 para 40 (incorporando o “tempo real”), esse Clark Kent era mais velho no presente. Este “velho” homem de aço nunca agira como Superboy nem conhecia a Supergirl e seu nome era Kal-L.

A Morte de John F. Kennedy

Lembram que falamos sobre a morte de um presidente dos EUA na história de Abraham Lincoln? Bem aconteceu de novo… e dessa vez o Superman esteve envolvido. Bom, não no crime em si, mas em suas consequências.

Plastino e a arte original da história com JFK.

Por volta de outubro de 1963, o administrativo da presidência dos EUA procurou a DC Comics para que a editora os ajudasse na divulgação de um programa de disseminação da prática de educação física nas escolas capitaneada pela gestão de John Fritzgerald Kennedy, o jovial, popular e carismático presidente eleito em 1960. No típico estilo DC, Whitney Ellsworth e Mort Weisinger logo pensaram em uma história na qual o Superman é procurado pelo presidente, revela sua identidade secreta para ele e recebe o pedido de ajudar na divulgação de tal programa. Com o governo gostando da ideia, os editores designaram o editor E. Nelson Bridwell – uma voz “de fora” dos quadrinhos tradicionais – para escrever a história, que foi desenhada por Al Plastino.

Superman e Kennedy por Al Plastino.

A história agradou a todos e foi programada para a edição de fevereiro de 1964, que teria data de capa de maio, contudo, Kennedy foi baleado e morto em Dallas, no Texas, em 22 de novembro de 1963! Foi um choque para todos. Inicialmente, Ellsworth cancelou a história e colocou outra em seu lugar, mas ao saber do fato, o novo presidente, o ex-vice Lyndon Johnson, solicitou que a história fosse publicada como uma homenagem a Kennedy.

Ellsworth aceitou e Plastino criou uma nova splash page com a imagem fantasmagórica de Kennedy aprovando a ação do homem de aço, e a história saiu como a primeira aventura de Superman 170, de julho de 1964, apenas dois meses após a programação original. Um recordatório na splash page explica o processo de produção. Até o fim este foi o trabalho que Plastino mais se orgulhou de ter feito em sua longa carreira.

E uma curiosidade: por décadas, Plastino pensava que a arte original da HQ, que trazia a imagem de Kennedy, teria sido doada à John F. Kennedy Library and Museum em Boston, terra natal do ex-presidente, porém, foi descoberto que não (ou alguém a desviou do destino) e a peça foi posta à venda por um proprietário particular em um leilão em 2013, mas por sorte, a própria DC Comics comprou o material e o doou à Biblioteca.

Mas daquele ponto de 1964 em diante, Plastino começou a desenhar menos as revistas do Superman, porque fora designado para fazer as tiras de jornal diárias, o que demandava muito trabalho, e que eram escritas por Bill Finger desde 1960.

A revista com Kennedy também motivou os editores da DC a buscar outras aproximações com o contexto que lhes cercava, tal qual fizeram no início dos anos 1950, como podemos ver na história de Superman’s Pal Jimmy Olsen 79, de setembro de 1964, por Dorfman e Papp, na qual Jimmy é teleportado para a região de Israel por volta do ano mil Antes de Cristo e, usando uma peruca dos Beatles, ganha a vida cantando na rua… até o Superman ir lá lhe salvar. A chamada dizia “O Beatle Ruivo de Mil A.C.”. Na época, os Beatles varriam os Estados Unidos com seu sucesso colossal.

Mas o que gente como Whitney Ellsworth, Mort Weisinger e Irwin Donenfeld (o filho do chefão) não perceberam é que os Beatles e a Invasão Britânica eram a ponta de lança de uma revolução cultural que sacudiria o mundo ao longo daquela década, e mudaria tudo, inclusive, os quadrinhos. Como o cantor e compositor (americano) Bob Dylan cantou naquele mesmo ano, “os tempos estavam mudando…”.

Desenvolvendo o Multiverso

A ideia do Multiverso de início não impactou diretamente as revistas principais do homem de aço, pois Mort Weisinger estava interessado em outras coisas e não grandes interações com as ideias ou os personagens do editor da sala vizinha, Julius Schwartz. Este, por sua vez, continuou estimulando seus artistas a explorarem o conceito, o que se deu principalmente nas revistas The Flash e Justice League of America.

Por isso, Justice League of America 21 e 22, começando em agosto de 1963, trouxeram uma grande novidade: o primeiro encontro entre a Liga da Justiça e a Sociedade da Justiça, fazendo velhos personagens como Gavião Negro (Hawkman), Senhor Destino, Canário Negro, Lanterna Verde (Alan Scott), Hourman e Átomo interagirem com Superman e companhia, numa história chamada Crisis on Earth One, um título que ficaria marcado na memória de criadores e leitores.

A resposta das vendas foi tão boa que Schwartz decidiu transformar esse crossover entre Liga e Sociedade em um tipo de evento anual de verão. Por isso, Justice League 29, de agosto de 1964, já traz um novo encontro dos dois times, se prolongando às edições 30 e 31, trazendo agora além da Terra 2 a Terra 3, na qual os heróis da Liga são entidades malignas.

Capa de “Justice League of America 30”, com a primeira aparição do Sindicato do Crime.

Esse conceito se tornou bastante importante dali em diante, com personagens como Ultraman e Owlman como as versões “do mal” de Superman e Batman, que seriam exploradas diversas vezes depois daquilo.

Os encontros entre os dois times e as duas Terras continuaram seguidamente, nas edições 38, de 1965, 47 de 1966, 55 e 56, de 1967, e assim consecutivamente. Mas a partir daí, as coisas começaram a ficar cada vez mais confusas… pois o Gavião Negro (da Terra 2) se torna uma espécie de embaixador na Terra 1 – até ser substituído por sua versão da Terra 1. Então, a Canário Negro (da Terra 2) ocupa esse papel, se tornando uma membra da Liga na Terra 1.

Jerry Siegel versus DC Comics De Novo

O criador do Superman voltou a ser um dos principais escritores do homem de aço e sua franquia no fim dos anos 1950, como já vimos, porém, após quatro anos gloriosos, as relações dele com o irascível editor Mort Weisinger declinaram, assim como declinaram as demandas de novos roteiros. A situação financeira da família Siegel começou a se complicar de novo e o escritor encontrou algum trabalho por pura misericórdia de seu amigo Stan Lee na Marvel (falaremos sobre eles a seguir), mas com uma quantidade menor de textos, Siegel prosseguiu na DC até o ano de 1966.

A última história de Siegel em Action Comics foi a principal da edição 322, com capa de Curt Swan.

Em determinado momento, Siegel deixou de ser o principal escritor da Supergirl, em Action Comics 291, de agosto de 1962, e foi substituído por Leo Dorfman, mas ele migrou para as aventuras do próprio Superman naquela revista e continuou produzindo para as demais revistas, no estilo de Weisinger, alternando escritores a cada edição. Contudo, a partir de 1963, ele começou a aparecer cada vez menos.

A tensão das relações e a diminuição do trabalho talvez tenham motivado Siegel a mover outro processo judicial pelos direitos do Superman contra a DC Comics, um caso que foi resolvido bem mais rápido pela Justiça dessa vez, tendo em vista os acordos do processo anterior, que colocou a condição de Siegel não mais contestar o direito do personagem. Assim, ele foi banido de novo da editora.

Siegel se despede em definitivo de sua maior criação em Lois Lane 65.

O desaparecimento de Siegel começa já em Action Comics 322, de março de 1965, quando ele escreveu sua última história do Superman de modo regular para a revista que lançou vinte e oito anos antes. Mas ele continuou aparecendo alternadamente em Superman até a edição 182, de janeiro de 1966. Depois veio Superman’s Pal Jimmy Olsen 90, também de janeiro, e o criador do homem de aço escreveu sua última história de seu personagem de modo regular em Superman’s Girl-Friend Lois Lane 65, de maio de 1966, simbolicamente, em um confronto contra Lex Luthor.

Histórias de Siegel continuariam a aparecer, mas sob a forma de republicações, pois a DC adotou a prática de começar a republicar histórias do passado, começando em Superman 183, de fevereiro de 1966, ironicamente, a edição seguinte à sua última participação, e neste caso, a criação de um novo formato, com 80 páginas e preço maior, e somente aventuras antigas. O chamado 80 Pages Giant virou um tipo de revista especial anual por um par de anos, mas nos anos 1970, a editora voltaria a adotar republicações como uma prática comum e complementar de suas revistas.

Sem Siegel, a DC continuou comissionando escritores como Otto Binder, que produziu a história de Superboy 124, de outubro de 1965, na qual, ao auxiliar uma raça de alienígenas insectoides que caíram em Smallville, Lana Lang ganha poderes deles e se torna a Rainha Inseto (Insect Queen).

Uma Ameaça Chamada Marvel

Desde o início de tudo, a National Comics/DC Comics tinha sido uma das principais editoras de quadrinhos dos EUA e, durante vários momentos daqueles 30 anos iniciais, foi a maior editora de todas. Sempre existiram concorrentes ameaçando seu primeiro lugar, como a Fawcett Comics no passado, a Dell Comics e seus quadrinhos da Disney nos anos 1950… mas nenhuma ameaça foi maior do que a Marvel Comics dos anos 1960, porque diferente das demais, a companhia de propriedade do publisher Martin Goodman e liderada pelo enérgico editor-chefe Stan Lee jogava o mesmo jogo da DC, com super-heróis, porém, mudando a essência da coisa (algo que a Fawcett nunca fez, por exemplo) e criando uma demanda que, naquele ponto, a DC era incapaz de suprir.

… o Stan Lee superstar de 1968.

A Marvel existiu quase desde sempre… já falamos dela antes: com o nome de Timely, estreou em 1939 trazendo sucessos como Tocha Humana e Namor, o Príncipe Submarino, e mais tarde, rivalizou o Top10 das revistas mais vendidas com o Capitão América ao longo dos anos 1940, até, como todo o mercado, sucumbir à crise do pós-Guerra e à perseguição de Wertham. Nos anos 1950, virou uma empresa pequena que precisou terceirizar sua distribuição em banca que coube, triste ironia, à Independent News, a distribuidora de Harry Donenfeld, parte do conglomerado da National. Mas quando a DC começou a aumentar suas vendas no fim dos anos 1950 e entrou na década de 1960 com um grande sucesso e eletrizando o mercado com sua Liga da Justiça, Martin Goodman percebeu o movimento e demandou de Stan Lee que a editora voltasse a publicar super-heróis.

O que veio daí foi uma revolução. Mais uma daquelas dos anos 1960. Armado com desenhistas expressivos como Jack Kirby, Steve Ditko e Don Heck, Stan Lee lançou não um punhado, mas um verdadeiro novo Universo de Super-Heróis, o Universo Marvel, com Quarteto Fantástico, Hulk, Thor, Homem-Aranha, Homem-Formiga, Vespa, Nick Fury, Doutor Estranho, Homem de Ferro, Vingadores e X-Men… isso tudo somente entre 1961 e 1963! O fluxo seguiu um pouco mais nos anos seguintes, com Demolidor, Viúva Negra, Gavião Arqueiro, Inumanos, Surfista Prateado, Pantera Negra, Capitão Marvel, Falcão… a lista não tem fim, permita-nos parar.

Mais importante ainda: os heróis de Lee & companhia eram diferentes daqueles da DC naquele momento. Eram retratados como adultos, cheios de energia e ansiedade, tinham dúvidas e medos, erravam, tinham franquezas explícitas (Peter Parker era apenas um adolescente nerd, tímido, retraído, sem sorte com as mulheres e sem dinheiro para viver bem; Tony Stark era milionário, mas tinha um coração fraco e podia morrer a qualquer momento, aliado ao fato de sempre se meter em confusões atrás de um “rabo de saia”; Johnny Storm era arrogante e insuportável; Thor era arrogante e orgulhoso, mas sua identidade secreta era aleijada de uma perna e usava bengala; Matt Murdock era cego, mesmo tendo superpoderes; Charles Xavier tinha uma mente poderosa, mas vivia preso em uma cadeira de rodas…). Totalmente ao contrário dos heróis da DC daqueles tempos, suas identidades secretas eram tão importantes quanto suas personas heroicas, mostrando de modo profundo suas vidas pessoais, amizades, amores, problemas no emprego ou trabalho, contas a pagar…

Suas histórias eram cheias de ação e muito drama, eram fortes, ousadas, traziam questionamentos éticos e espirituais, críticas sociais, discursos pela igualdade dos direitos civis (especialmente aos negros), mensagens pacifistas em meio à Guerra do Vietnã, mostravam a juventude se organizando e fazendo passeatas, os negros ao ponto da ebulição no Harlem…

O resultado veio rápido em vários campos. Primeiro, nas vendas que foram crescendo e a Marvel paulatinamente deixando de ser uma empresa minúscula que funcionava em uma única sala do Edifício Empire State para se tornar uma das cinco grandes (ao lado da Archie Comics, da Dell, da Gold Key e, claro, da DC). Segundo, como as revistas da Marvel traziam todos os créditos de quem produzia aquelas histórias (roteiristas, desenhistas, arte-finalistas, letramento, colorista e editor) em TODAS AS REVISTAS, o público, a imprensa, os leitores conheciam publicamente quem eram aquelas pessoas por trás daqueles personagens (ao contrário da DC que não dava crédito a ninguém, nem escritores nem desenhistas), e o próprio Lee, com sua personalidade carismática emergiu como um figura pop, dando entrevistas e aparecendo em eventos, dando palestras etc.

Em terceiro, mas não menos importante, o conteúdo das revistas Marvel atraíam um público mais adulto e, de repente, Homem-Aranha e Quarteto Fantástico estavam sendo discutidos nas Universidades americanas, com leitores daquela faixa etária. Não crianças! Ao perceberem isso, os artistas subiram ainda mais o tom, com histórias mais dramáticas com mais elementos do mundo real.

Em contrapartida, os heróis da DC viviam aventuras que tinham um tom idílico. A arte era quase sempre belíssima, mas faltava o vigor, a ousadia, a estranheza e por vezes até a feiura que marcavam aqueles da Marvel. Os roteiros retratavam uma realidade pura de “american way of life”, ingênua, sem conexões com a realidade, os heróis eram “perfeitos”, mas tanto ao ponto de perderem a alma… suas identidades secretas eram apenas um recurso narrativo pontual, não havia nenhum desenvolvimento. A rigor, podemos afirmar, Superman ou Batman não tinham vida social: não tinham amigos, não tinham familiares, não tinham problemas domésticos, apenas vestiam seus uniformes e iam combater a ameaça da vez.

Naquele contexto, essa diferença, quase polaridade, entre Marvel e DC começou a pontuar negativamente para a poderosa National. Já comentamos que o mercado de quadrinhos nos EUA começou a diminuir paulatinamente na década de 1960 (lembram?) – e os estudiosos pensam que aquelas mudanças sociais mais a popularização da televisão foram fatores cruciais – e se, no início, a DC compensou aumentando suas vendas e tomando a liderança do mercado, a partir de meados da década de 1960, o jogo começou a virar, com a queda nas vendas sendo ameaçada pelo crescimento da Marvel.

Se no início dos anos 1960 as revistas da Marvel mal arranhavam o Top40 das HQs mais vendidas, em 1966, Amazing Spider-Man (a revista do Homem-Aranha) e Fantastic Four (do Quarteto Fantástico) já estavam no Top20 e vendendo mais do que The Flash e The Brave and the Bold, por exemplo, e o cabeça de teia emparelhando com Justice League of America em 1967 e a ultrapassando em 1968, e chegando a 1969 vendendo mais do que World’s Finest Comics e Batman!

Um reflexo das mudanças foi o fim das tiras de jornal (tanto a diária e dominical) do Superman, em 1966, após serem publicada por 27 anos! Naqueles tempos, o roteiro era de Bill Finger ou de Jerry Siegel (antes de ser banido) e a arte de Al Plastino, mas basicamente, naquele ponto, as tiras apenas adaptavam histórias já contadas nas revistas e sua audiência caiu muito.

Nos dias de hoje, encontrar o material publicado nas tiras não é muito fácil, mas todas elas foram reimpressas no formato livro: a Kitchen Sink Press publicou dois volumes em 1998 e 1999: Superman Dailies 1939-42 e Superman Sundays 1939-1943; e depois, a IDW Publishing publicou (de 2014 a 2017) 7 volumes com as tiras dominicais entre 1944 e 1966, e de 2014 a 2019, outros 7 com as tiras diárias de 1943 a 1966.

E se o Superman foi o campeão incontestável de vendas na década de 1960, é preciso atestar que o homem de aço até chegou a perder a primeira posição no ranking nos anos de 1966 e 1967 para o Batman, por causa do sucesso (breve) da série de TV do homem-morcego (falaremos sobre isso abaixo), e mais sério ainda: em 1970, embora ainda fosse a HQ mais vendida do país, a revista Superman tinha um número de cópias praticamente igual à metade do vendia dez anos antes. “Os tempos estavam mudando…”.

Jim Shooter, o Menino Prodígio

Um episódio incrível que ilustra como a DC Comics estava desconectada do público e do mercado em meados dos anos 1960 se deu a contratação (e o sucesso) de Jim Shooter como novo roteirista da franquia do Superman, em muitos sentidos, se tornando de modo não planejado no substituto de Jerry Siegel.

A edição de estreia de Jim Shooter como roteirista… e desenhista. A capa é de Curt Swan.

Mas por que? Calma… primeiro o suspense… No fim de 1965, Jim Shooter usou o sistema de correspondências aberto por Mort Weisinger não para enviar dúvidas, críticas ou elogios, mas para mandar um par de roteiros e alguns desenhos, se candidatando a escrever para a franquia do Superman. Weisinger ficou mesmo impressionado com os roteiros quando lhes caíram em sua mão, já no início do ano seguinte: era uma narrativa enérgica, dinâmica, trazendo boas interações entre os personagens e lhes dando força e personalidade. No início do ano de 1966, Weisinger ligou para o número fornecido na carta, disse que queria lhe comprar os roteiros, solicitou mais textos, dando-lhe instruções de como deveriam ser feitos e propondo tramas e conceitos (como era seu feitio como editor) e ainda convidou o aspirante a roteirista (que morava em Pittsburgh, na Pensilvânia) a viajar à Nova York e passar uns dois dias na redação da DC para receber um tipo de treinamento e orientação. Shooter aceitou, mas disse que só poderia ir em maio, após o fim do ano letivo. Tudo bem.

Jim Shooter se tornou um dos principais escritores do Superman… aos 14 anos de idade!

Quando Shooter apareceu presencialmente na DC Comics, na verdade, sua primeira história já estava nas bancas: uma aventura da Legião dos Super-Heróis em Adventure Comics 346, com data de capa de julho de 1966, na qual a arte também era dele. Mas foi somente quando encontrou o novo roteirista que Weisinger percebeu que Jim Shooter era um menino de apenas 14 anos (e que vendera sua história quando ainda tinha 13!!!!), acompanhado de sua mãe!

Aquela história da Legião causou um grande impacto nos fãs, que inundaram a redação da DC com cartas elogiosas e impressionadas: tinha ação, suspense, drama, reviravolta, perigo real. Ninguém iria admitir, mas tinha um quê de Marvel. Tanta foi a reação que Weisinger publicou a carta de uma fã na edição 349 na qual ela pergunta impressionada quem foi o escritor daquela história e o editor respondeu que foi o jovem James Shooter. Quase ao mesmo tempo da estreia, também saiu Action Comics 339, na qual a história da Supergirl era de Shooter, com arte de Jim Mooney, no qual a menina de aço combate o terrível Brainiac.

Shooter também era de origem judaica, seus pais descendentes de poloneses, tinha nascido em 1951, ou seja, quando Weisinger já era um veterano editor do Superman, e estava ainda no ensino fundamental e seu pai era um metalúrgico. A família vivia com sérios problemas financeiros e o pequeno Jim ficou doente em 1963 e como passatempo no hospital lhe foi dado um kit de HQs, que incluíam as tradicionais revistas do Superman e as novidades quentes da Marvel. Àquela altura, Jim tinha parado de ler HQs aos 8 anos de idade, e ao lê-las novamente, percebeu que as histórias da DC estavam exatamente do mesmo jeito de quando ainda as lia, ao passo que aquelas da Marvel eram dinamite pura, eletrizantes. Em seus sonhos pueris, o pequeno Shooter fez um plano: estudou minunciosamente as HQs até discernir os estilos de cada uma e, com isso, se preparou para escrever histórias, ganhar dinheiro e ajudar no sustento da família. Seria apenas uma fantasia adolescente se não tivesse mesmo dado certo: Jim se tornou a principal fonte de renda da casa antes de completar 15 anos!

E suas habilidades no roteiro não se restringiram só ao mundo juvenil da Legião dos Super-Heróis, que aliás, ele se tornou o escritor fixo quase de imediato, mas rapidamente migrou para as demais, estreando uma história do Superman em Action Comics 349, de agosto de 1966, com arte de Al Plastino, na qual criou o duradouro vilão Parasita, que tem o terrível poder de absorver energia e, portanto, ficar cada vez mais forte quanto mais próximo fique do homem de aço. Shooter continuaria a ser o principal escritor da Legião até Adventure Comics 380, de maio de 1969, quando essas aventuras foram canceladas.

No meio do caminho, Shooter criou personagens importantes à Legião, como Karate Kid, Ferro Lad, Princess Projectra e os vilões Fatal Five, que serão alguns dos mais importantes ao time, assim como histórias muito marcantes àquela geração.

Amalak. Arte de Wayne Boring.

Foi Shooter também quem criou, com arte de Wayne Boring, o vilão Amalak, em Superman 190, de outubro de 1966, um sujeito que odeia todos os kryptonianos, a quem os culpa pela destruição de seu mundo, e vira uma ameaça não apenas ao homem de aço, mas também à Supergirl e aos kandorianos.

Seus conceitos inovadores vinham de alguém que realmente sabia como os fãs pensavam e o que queriam ver, daí ter escrito a lendária história de Superman 199, de agosto de 1967, com arte de Swan, na qual há uma corrida para saber quem é mais rápido, o homem de aço ou o Flash?

Superman e Flash disputam uma corrida.

E o melhor de tudo: Shooter criou um motivo crível e uma história interessante para a corrida. Os dois heróis são abordados pela ONU para fazerem da corrida um evento beneficente e correrem por um percurso pré-determinado há uma velocidade controlada. A corrida é marcada para o dia 10 de junho, mas grupos criminosos do mundo inteiro tentam se aproveitar do evento, com apostas correndo o mercado negro, ao ponto que quando os dois heróis iniciam a jornada vão constantemente enfrentando ameaças de criminosos dos continentes americano e europeu, até que decidem encerrar a disputa em um empate para que nenhum dos bandidos saia vencendo. A Liga da Justiça ainda faz uma raríssima aparição numa história solo do homem de aço, como amigos e expectadores. E a pergunta de quem é mais rápido permanece ao final…

O sucesso da trama de Shooter motivou a DC até a criar uma sequência publicada em The Flash 175, de dezembro de 1967, escrita por E. Nelson Bridwell e com arte de Ross Andru, na qual uma dupla de poderosos criminosos sequestra a Liga da Justiça e coloca Superman e Flash para correrem 40 mil anos-luz até o fim da Via Láctea e voltar, e o perdedor terá sua cidade (Metrópolis e Central City) destruída. Claro, os heróis encontram uma forma de vencer e, de novo, a questão sobre quem é mais rápido fica sem resposta.

Mudança Total na DC Comics

Enquanto a mudança de mercado acontecia com a escalada da Marvel Comics, a própria DC Comics vivenciou uma grande mudança do ponto de vista comercial e editorial. Até 1966, a National, assim como todas as outras editoras de quadrinhos, era uma empresa particular, quase familiar, com donos discerníveis, que não raramente interagiam diretamente com os artistas de suas histórias. Para você ver: quem apresentou Irwin Donenfeld à sua segunda esposa foi Bob Kane, um dos criadores do Batman.

Harry Donenfeld e sua esposa, em foto de 1954.

Isso ainda era verdade em 1965, quando o chefão Harry Donenfeld, velho gangster que tomara a empresa de seu fundador e construíra um império comercial baseado no papel e na venda de HQs de super-heróis, morreu. O velho Donenfeld continuara ativo na administração da National Comics até o fim dos anos 1950 e apontou seu filho, Irwin, como o novo diretor da companhia em 1958, porém, continuava uma voz ativa na empresa até que sofreu um acidente doméstico, em 1962, batendo a cabeça e passando a ter problemas de fala e de memória. Irwin Donenfeld tocou o barco como presidente da National e o velho Harry morreu em 26 de fevereiro de 1965, aos 71 anos de idade.

Irwin Donenfeld assume. Foto dos anos 1950.

O jovem Donenfeld teve um papel importante no comando da empresa, demandando renovações criativas aos dois principais personagens, Superman e Batman, que renderam aquela riqueza criativa do homem de aço no início da década de 1960, e na renovação completa do homem-morcego no mesmo período, bem como em dar mais espaço à Liga da Justiça e ampliar o panteão de personagens importantes da DC. Outro passo administrativo fundamental de Iwin Donenfeld foi encomendar a microfilmagem de todo o material de arquivo da editora, o que significou a preservação do riquíssimo legado da National (e da All-American) e permitiu a fácil republicação de material antigo que a editora passou a adotar na segunda metade da década de 1960.

Irwin teve um papel ativo na redação, demandando constantemente mudanças e redirecionamentos a Whitney Ellsworth, analisando o que vendia bem e o que não e procurando uma “fórmula do sucesso”. Nos anos 1950, por exemplo, ele percebeu que – por qualquer motivo que fosse – a aparição de gorilas nas capas fazia aumentar as vendas, então, praticamente todos os meses pelo menos uma das revistas da DC trazia um gorila na capa. Quando a Marvel começou a vender bem e ameaçar o império da National, o jovem Donenfeld estudou as revistas da concorrente em busca do motivo. Ele não entendeu: achou que elas vendiam bem porque os desenhos eram “feios”, e até demandou que algumas capas da DC trouxessem desenhos feios. Nossa!

A série de TV (1966-68) fez sucesso, mas manchou a imagem do homem-morcego.

Todavia, tudo mudou para sempre na DC Comics em 1966: a estreia de Batman, a série de TV estrelada por Adam West e Burt Ward adaptando o homem-morcego (e o Robin) sob um viés cômico pastelão, fez um sucesso estrondoso. O que aconteceu foi que aqueles velhos seriais de cinema continuavam sendo exibidos em reprises especiais de tempos em tempos nas salas de cinemas dos EUA, e em 1964 e 1965, o seriado do Batman de 1943 foi reprisado com muito sucesso na cidade de Nova York, ao ponto de um grupo de produtores decidir adaptá-lo de novo, agora, para a TV. A ótima experiência de The Adventures of Superman, que fora um enorme sucesso e só acabou por meio da tragédia, seis anos antes, motivou que Irwin Donenfeld autorizasse Whitney Ellsworth a negociar os direitos de adaptação e fosse produtor do programa, como fora no passado dos outros.

No entanto, a abordagem escolhida pelo produtor William Dozier era a comédia pastelão, algo que irritou a DC ao ponto de Ellsworth se desligar do projeto. Mas o programa foi feito e estreou no início do ano de 1966, com um sucesso que não foi só grande: foi um fenômeno, lançou uma batmania como nunca existira, não se falava outra coisa. Até Adventures of Superman voltou a ser exibida na TV e fez sucesso de audiência também!

Em outras mídias, o homem de aço ganhou uma nova série de desenhos animados, agora na TV, The New Adventures of Superman (o título era um aceno direto à série live action da década anterior) produzidos pela Filmation, a partir de setembro de 1966. O programa foi produzido por Lou Schemeir, com direção de Hal Sutherland, e foi supervisionado de perto pela DC Comics, representada por Mort Weisinger, que atuou e recebeu créditos como “consultor de história”, liderando a equipe de roteiristas protagonizada por Oscar Bensol. O elenco trouxe novamente Bud Collyer e Joan Alexander no papel de Clark Kent e Lois Lane, com Jackson Beck (narrador, Perry White), Jack Grimes (Jimmy Olsen), Ray Owens (Lex Luthor) e Gilbert Mack (Brainiac e vários outros vilões).

O programa foi exibido pela CBS e teve quatro temporadas, totalizando 68 episódios de 15 minutos cada. Normalmente, eram exibidos dois episódios do herói, intercalado por outras atrações, que incluíam curtas do Superboy (dublado por Bob Hastings) na primeira temporada, do Aquaman (e do restante da Liga da Justiça) na segunda e do Batman na terceira, com a 4ª temporada sendo apenas reprises, encerrando em 1970.

Bob Holliday foi o Superman cantor…

Por fim, um destaque menor foi a criação de um musical da Broadway sobre o Superman, chamado It’s a Plan, It’s a Bird… It’s Superman, que permaneceu em cartaz entre 1965 e 1966 e fez sucesso mediano.

Essa maior visibilidade dos personagens no cinema, TV e teatro chamou a atenção do mundo dos negócios corporativos para a DC Comics e seus personagens, algo que não ocorrera antes, e em 1967, a Kinner National Company, um conglomerado corporativo que nasceu na manutenção de casas, mas naquele tempo atuava com todo o tipo de negócios, fez uma oferta irrecusável de comprar a National Comics/DC Comics.

Jack Liebowitz, que administrou a DC desde 1937 deixou a empresa 30 anos depois.

Irwin Donenfeld a vendeu e negociou para continuar no cargo (simbólico) de vice-presidente da companhia, o que foi aceito temporariamente, mas o sócio Jack Liebowitz e o editor executivo Whitney Ellsworth foram afastados definitivamente após estarem no comando da editora desde o início. A nova diretoria da DC Comics – agora um bando de engravatados fora do mundo artístico – avaliou (não sem razão) que a editora estava defasada no mercado de quadrinhos, sem o brilho ou a popularidade da concorrente Marvel, pois ainda que a DC vendesse mais, era a Marvel quem ocupava espaço nas notícias das páginas de jornais como The New York Times ou em seminários na Universidade de Columbia, em Nova York.

Tão simbólico desse momento era o fato de que o grande destaque da editora naquele momento era um escritor de 15 anos de idade! Como é que um menino estava escrevendo as melhores histórias da DC?

Carmine Infantino: virou o novo editor executivo da DC.

Era preciso sangue novo e mudanças, então, logo após a compra pela Kinney, em 1967, o desenhista Carmine Infantino, que fora o cocriador da nova versão do Flash e fizera o redesign das revistas do Batman com sucesso, foi apontado como novo editor executivo e ele colocou o também desenhista Dick Giordano (que chamara a atenção na Charlton Comics) como seu braço direito na redação, no cargo equivalente a editor-chefe. O colorista Sol Harrison, que desde 1942 era parte da editoria da All-American e permaneceu após a fusão das empresas, se tornou o gerente comercial, o que lhe levaria ao cargo de vice-presidente em 1973. A diretoria da Kinney afastou definitivamente Irwin Donenfeld da empresa em 1968, encerrando a participação da família no negócio que administrara desde 31 anos antes.

Wayne Boring e os velhos artistas foram mandados embora…

Outro efeito da compra da DC pela Kinney veio no afastamento de quase todo o velho staff de artistas da editora. Com uma empresa de grande porte assumindo o controle dos negócios, os velhos artistas – que trabalhavam quase exclusivamente sob contratos de demanda, ganhando por página produzida – viram uma oportunidade de exigir melhores condições de trabalho, como valores mais justos, participações no royalties e planos de saúde. A resposta da Kinney foi clara e definitiva: demitiu todo mundo! Assim, artistas como Bob Kane e Bill Finger (criadores do Batman), Edmond Hamilton, Otto Binder, Al Plastino, Dick Sprang, Wayne Boring… foram afastados definitivamente das revistas. Foi realmente o fim de uma era.

E claro, o afastamento dos artistas que fizeram a DC pelo menos nos últimos 10 ou 20 anos causou um grande impacto no aspecto criativo, esmorecendo ainda mais as histórias da franquia do homem de aço.

Mas a expansão dos negócios continuou: em 1969, a Kinney comprou um estúdio de cinema de Hollywood que estava em decadência, a Warner Bros.-Seven Arts, e agora que passou a atuar principalmente no ramo de entretenimento, a Kinney mudou seu nome em 1972 para Warner Communications Inc. E nisso, a DC Comics se tornou uma subsidiária de uma empresa de cinema!

A Crise dos Anos 1960

Como é fácil notar nesse texto, a franquia do Superman viveu um momento de intensa criatividade e expansão no início dos anos 1960, refletido também nas vendagens, mas a segunda metade da década não conseguiu repetir o mesmo fôlego… A concorrência da Marvel, a mudança do mercado, a venda da DC Comics, a saída dos velhos criadores… tudo isso se somou à incapacidade da editora manter a qualidade de suas revistas e, no que se refere especificamente à franquia do homem de aço, a segunda metade da década simplesmente não conseguiu entregar momentos marcantes como antes.

Para além das histórias do menino Jim Shooter, pouca coisa é digna de nota no Superman naquele período, valendo apenas anotar que Superman’s Girl-Friend Lois Lane 70, de novembro de 1966, ainda por Leo Dorfman e Kurt Schaffenberger, se deu o retorno da Mulher-Gato, a vilã do Batman, após uma ausência de 12 anos nas HQs! A personagem havia sido banida pela perseguição pós-Wertham – pois ela gerar atração sexual no homem-morcego era entendido como uma dubiedade moral inaceitável nos tempos duros do Comic Code Authority – mas o sucesso da personagem na série de TV do Batman, interpretada por Julie Newmar, fez os editores da DC decidirem trazê-la de volta.

Mas notem… Selina Kyle não voltou imediatamente aos braços do Batman, mas sim, fez um retorno primeiro (talvez como teste? Para testar a reação do Código?) servindo de oponente à intrépida repórter, o que foi curioso.

Também foi na revista da moça que ocorreu outra pequena mudança notável naquele período tão pouco fértil… Com os anos 1960 efervescidos com o movimento hippie, o rock’n’roll e a contracultura, a visão da Lois casamenteira com cara de dona de casa dos anos 1950 não era mais compatível e no que deve ter sido um esforço hercúleo, o editor Mort Weisinger autorizou um redesign da personagem, criado por Neal Adams, um desenhista novato que estava causando sensação na editora (falaremos sobre isso adiante). Assim, uma Lois Lane de cabelos curtos, roupas na moda dos anos 1960 e atitude mais altiva aparece em Superman’s Girl-Friend 80, de janeiro de 1968, ainda com Dorfman e Schaffenberger, mas com capa em que a arte de Curt Swan é retocada por Neal Adams, na qual a garota revisa suas posições e decide não viver à sombra do homem de aço, saindo do Planeta Diário e indo trabalhar em uma Base de Mísseis na qual até namora (!) um astronauta chamado comandante Rand Kirby.

A arte mais adulta de Neal Adams nessa bela capa.

Claro, tudo isso não dura nada e Lois já volta ao status quo na edição seguinte, porém, o novo visual de cabelos curtos (e roupas mais curtas, também) permaneceu por muitos anos e algo da atitude dela também. O número 81 marcou o fim da longuíssima temporada de Kurt Schaffenberger, que desenhara a revista desde o início, e a arte passou ao também veterano Irv Novick, que na época também desenhava histórias do Batman. Dorfman continuou nos roteiros e Adams fez as capas por um tempo e as tramas até continuaram a envolver elementos de “casamento” da moça com o Superman, mas algo realmente mudou.

Vez por outra, alguma história se destacava, como foi o caso de Superman 200, de novembro de 1967, com roteiro pelo jovem Cary Bates (outro menino – tinha 19 anos!!! – empregado pela DC) e Curt Swan, feita para celebrar o ducentésimo número da publicação, um grande feito em um mercado tão instável quanto as HQs. A trama mostrava o homem de aço desiludido após não conseguir impedir uma morte, e decidindo se exilar da Terra e abandonar seu papel de Superman. Indo parar em um planeta com sol vermelho, ele atua como um cientista chamado Clarken até um salvamento que lhe lembra de sua missão na Terra, então, volta.

A queda na venda das revistas começou mesmo a preocupar a nova direção da DC, que buscou “dar um ar” de maior novidade às revistas da franquia, pelo menos nas capas, para chamar à atenção. Neal Adams era um jovem desenhista que vinha fazendo sucesso nas histórias do Desafiador (Deadman, no original) e desenhando o Batman em The Brave and the Bold, com um traço mais adulto, detalhado, cheio de texturas, em poses dinâmicas e bonitas, mantendo uma qualidade dramática e cinematográfica. Por isso, Carmine Infantino designou que Adams fizesse as capas da franquia do homem de aço, o que começou em janeiro de 1968, como vimos no caso de Lois Lane acima. Era uma mudança notável em comparação com a beleza plástica, mas com pouca dinâmica e movimento da arte de Wayne Boring no passado e Curt Swan no presente.

Esta bela capa de Neal Adams trouxe a arte interna com a estreia de Ross Andru.

Além de Jim Shooter, Cary Bates e Irv Novick, alguns artistas novos se somaram ao time de desenhistas, até como uma forma de substituir os nomes que foram demitidos, como foi o caso de Ross Andru, um veterano da casa e principal desenhista da Mulher-Maravilha por 10 anos desde 1958, trabalhando ainda em Metal Men (que fez sucesso na primeira metade dos anos 1960) e em The Flash. Andru estreou na franquia em Superman 204, de fevereiro de 1968, embora tenha trabalhado de modo muitíssimo esporádico nessa revista.

A estreia de Ross Andru na arte de Action Comics. Mas a capa é de Neal Adams.

Andru teve uma participação bem maior em Action Comics, a partir da edição 362, de abril de 1968, onde apareceria com muita frequência até o número 393. Andru desenharia World Finest Comics a partir do número 180, de novembro de 1968, e assumiria brevemente Superman’s Girl-Friend Lois Lane entre os números 105 e 110, já em 1970.

Esse pequeno movimento era o prenúncio de transformações muito maiores que estavam em curso…

Jack Kirby e o Quarto Mundo

As grandes mudanças editoriais da DC Comics trouxeram novos direcionamentos artísticos e um dos primeiros que acometeu a franquia do homem de aço em específico se deu em 1970, com um grande evento balançou o mercado de quadrinhos: Jack Kirby, o principal criador visual e narrativo do Universo Marvel (ao lado de Stan Lee), saiu de sua velha editora e foi para a DC. E onde foi trabalhar? Claro que com o Superman.

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Superman na arte de Jack Kirby.

Veterano da Era de Ouro, Kirby nasceu Jacob Kurtzberg em 28 de agosto de 1917, no Low East Side em Manhattan, Nova York, no seio de uma família judia de origem austríaca, na qual seu pai trabalhava como operário em uma indústria têxtil. Crescendo em um ambiente pobre e cheio de gangues, Kirby desenvolveu uma personalidade durona, mas era retraído e apaixonado pela literatura e pela arte, o que lhe levou ao desenho como autodidata, embora ele tenha sido admitido no prestigioso Pratt Institute no Brooklyn para estudar desenho, mas desistiu da escola, por entrar em confronto com seus aspectos formais.

Jack Kirby, o rei dos quadrinhos.

Kirby trabalhou em pequenas editoras e nos Studios Fleischer de animação, entre 1935 e 1937, antes de se associar ao primeiro grande “estúdio” de HQs, o Eisner & Iger Studios, liderado por Will Eisner (o criador do Spirit) e Jerry Iger, que produziam histórias comissionadas para várias editoras no então nascente mercado de quadrinhos, e pouco depois, Kirby estabeleceu uma parceria com Joe Simon, que como ele, escrevia e desenhava, e os dois produziram material para a Fox Feature Syndicate, antes de ingressar na Marvel (chamada então Timely) em 1940 onde Simon e Kirby criaram o maior sucesso da casa: o Capitão América. Depois, a dupla trabalhou com o Capitão Marvel da Fawcett e se abrigou na própria DC Comics, onde criaram três HQs de sucesso em 1942: Boys Commandos (sobre um “batalhão juvenil” na guerra), Newsboys Legion (sobre meninos vendedores de jornais que criam uma rede de informações e se envolvem na luta contra o crime) e Boys Ranch (um faroeste juvenil), além de um novo superheróis, o Manhurting, e assumirem outro pré-existente, como foi o caso do Sandman. Depois da guerra, Simon e Kirby ainda criaram o gênero de HQs de romance que fizeram muito sucesso na época, e após romper com Simon, Kirby fez inúmeros trabalhos de free-lancer para a DC Comics (incluindo a criação dos Desafiadores do Desconhecido e trabalhando com o Arqueiro Verde) e voltou à Marvel em histórias de faroeste e terror.

E foi na Marvel onde Kirby faria seu trabalho mais conhecido, quando criou as bases do Universo Marvel ao lado do editor-escritor Stan Lee e a dupla introduziu, a partir de 1961, Quarteto Fantástico, Hulk, Thor, Homem-Formiga. Homem de Ferro, Nick Fury, Vingadores, X-Men, Pantera Negra e muito mais, além de retomar o Capitão América que criara vinte anos antes. A arte enérgica, estilizada, cheio de movimento e de fúria de Kirby virou uma das marcas mais fortes da Marvel e o estilo a ser seguido por outros artistas, o que lhe valeu o apelido de O Rei dos quadrinhos.

Insatisfeito com a Marvel, onde achava não receber o reconhecimento que devia, Kirby se desligou da empresa e atendeu ao convite de Dick Giordano de ir trabalhar (de novo) na DC, onde teria carta branca para fazer o que quisesse. A condição era começar por uma HQ estabelecida e daí desenvolver seu próprio material. Kirby não queria “tirar o lugar de ninguém” nas revistas já estabelecidas, mas Giordano lhe ofereceu a revista de Jimmy Olsen, que estava sem uma equipe criativa fixa nos últimos meses, então, ele aceitou.

Kirby estreou em Superman’s Pal Jimmy Olsen 133, de outubro de 1970, fazendo texto e arte, e já mudando tudo e apresentando um cenário inteiramente novo, adotando medidas que se tornariam duradouras na franquia do homem de aço. A primeira era o poderoso empresário multimídia Morgan Edge, dono da Galáxia Comunicações, que era um homem inescrupuloso que cria a Intergangue, uma trupe de bandidos armada com tecnologia alienígena para dar trabalho ao homem de aço. Na trama, Jimmy se encontra com a Newsboys Legion (a tradução poderia ser “a legião dos jornaleiros”, uma trupe de garotos que vendiam jornais e se comunicam via rádio transmitindo informações e notícias, lutando à sua maneira contra o crime, tal qual a HQ que o próprio Kirby criara na década de 1940, mas agora, apresentados como se fossem os “filhos” daquele velho grupo), e desobedece o Superman em vai em busca da mítica Montanha do Julgamento, armado em um veículo possante chamado Whiz Wagon, onde encontra uma raça misteriosa de seres chamada de Haires (os cabeludos), e no fim, ficamos sabendo que Edge obedece às ordens de um mestre alienígena chamado Darkseid.

O vilão Darkseid foi criado por Jack Kirby nas histórias do Superman.

É apenas o início de uma complexa saga, que tira Jimmy Olsen de sua narrativa cômica do absurdo para um empreendimento sério e ousado, desenvolvendo uma elaborada trama mitológica que mostrava o Laboratório Cadmus fazendo experimentações com clonagem; o retorno do Guardião, um super-herói criado por Kirby mesmo nos anos 1940; e apresentando a trama de Darkseid, que inaugurava o conceito dos Novos Deuses: uma nova raça de seres cósmicos extremamente poderosos que vivem em dois mundos em guerra, o maligno Apokolyps e o benéfico Nova Gênese. Os personagens do chamado Quarto Mundo, como Sr. Milagre, Orion e Forever People logo ganharam suas próprias revistas, assim como os Novos Deuses, para as quais Kirby migrou.

Morgan Edge se encanta com Jimmy Olsen como um retrato da nova geração. Arte de Jack Kirby.

Vale acrescentar também que aquela primeiríssima história de Kirby definiu que a Galaxy Broadcast System de Morgan Edge era um conglomerado multimídia que adquiria o Planeta Diário, algo que teria consequências em breve para o universo do homem de aço… Outro aspecto importante é que, desde o começo, as tramas de Kirby eram contínuas tal qual ele as fazia na Marvel, ou seja, a história ia se desenvolvendo e avançando a cada número, como numa série de TV (ou novela), o que era distinto do estilo de contos semi-independentes que a DC adotava para suas revistas, com apenas um pequeno feixe de continuidade.

Kirby ficou em Superman’s Pal até o número 148, em abril de 1972, e nesse ínterim, lançou três revistas para desenvolver a trama do Quarto Mundo: Forever People e New Gods saíram em março de 1971, enquanto Mr. Miracle saiu em abril, e duraram 11, 19 e 25 edições, respectivamente. À parte do Quarto Mundo, Kirby ainda lançou as revistas OMAC, the one-man army e Kamandi, the lost boy on Earth.

Na época, o público recebeu o material de Kirby com sentimentos mistos, confuso com toda aquela mitologia nova, e a empreitada foi cancelada em 1974, porém, Darkseid e os Novos Deuses se tornaram parte fundamental do Universo DC. E Darkseid, com o tempo, se tornaria o maior de todos os vilões cósmicos da editora.

Nesse sentido, a empreitada de Kirby foi um sucesso, pois o elaborado conceito dos Novos Deuses e seus personagens continuaram a oferecer uma riquíssima mitologia bastante explorada no Universo DC dali em diante, e fundamental em tramas futuras, como Lendas ou Crise Final, das quais falaremos mais adiante, e na adaptação da DC em outras mídias, vide os desenhos animados dos Super-Amigos no anos 1980, a série de TV Smallville (que adaptou a trama dos Novos Deuses em sua última temporada, em 2011) ou no filme Liga da Justiça, especialmente, na versão ampliada de seu diretor, Zack Snyder, lançada em 2021.

Comparação da arte expressiva original de Kirby (em lápis) e o material publicado com retoques de Al Plastino: medo da DC em fugir do padrão.

Ainda assim, a produção não foi um mar de rosas. Apesar das promessas, Kirby não teve toda a liberdade que queria, e a DC ficou um pouco assustada com a ousadia dinâmica e estética empregada pelo artista, especialmente, em uma propriedade tão protegida quanto o Superman. Kirby não se importava tanto com beleza, gostava de expressões exageradas e dramáticas num flerte leve com a caricatura, ao passo que a DC investia em beleza e traços limpos, pouco dinâmicos. Daí, que a expressão tensa e dramática de seus personagens foi “amenizada” pela redação da DC, com Dick Giordano contratando o veterano Al Plastino para redesenhar o rosto do Superman nas histórias, como é possível perceber algo claramente nas ilustrações. Em algumas capas, especialmente nas primeiras, Plastino terminava substituindo a figura do homem de aço inteira, como uma maneira de apagar o Superman tenso, ágil e dramático de Kirby em prol de sua versão “padrão”, estática e pouca dinâmica, típica da Era de Prata. Uma pena.

Um Superman Maduro

A mudança editorial da DC Comics continuou a trazer mudanças no campo criativo ao mesmo tempo em que saía a fase inovadora de Kirby. A gestão de Carmine Infantino e Dick Giordano, bancada pela Kinney/Warner, queria mudanças profundas, mas tinham um grande obstáculo, uma muralha, chamada Mort Weisinger. Editor do Superman desde os anos 1940, o homem de temperamento explosivo e comportamento abusador, que gostava de humilhar seus artistas, era temido pela velha guarda, mas agora, era visto como uma excrescência de tempos idos. Sua abordagem infantil, inofensiva do homem de aço e de suas aventuras não tinha mais lugar em plenos fins dos anos 1960, com a luta dos direitos civis, as mortes de Martin Luther King, Malcolm X, John e Bob Kennedy, rock’n’roll, hippies, panteras negras, feministas, Woodstock…

O fim da era de Mort Weisinger.
Carmine Infantino, novo chefão da DC.

Sem se intimidar, Infantino e Giordano pressionaram Weisinger ao ponto que o velho editor viu que o caminho mais honroso era se aposentar antes que fosse demitido do cargo que tanto amava, o que fez no fim de 1970. A dupla tentou, a partir dali, uma nova abordagem… designaram o vitorioso Julius Schwartz – que causara toda a revolução da nova cronologia da DC com Flash, Lanterna Verde e Liga da Justiça – para tomar conta da revista Superman, que seria (ou continuaria a ser) a ponta de lança da franquia do homem de aço, ao passo que o também veterano Murray Boltinoff assumiria o comando das revistas secundárias, ou seja, todas as outras, incluindo Action Comics, mas em certo sentido, subordinado a Schwartz.

Dick Giordano em 1969.

Os feudos do Superman e do Batman, as principais criações da DC, foram, na verdade, os últimos a serem realmente modificados, com o homem-morcego começando uma grande mudança no fim de 1969, e o homem de aço um pouco mais tarde, já em 1971. Antes disso, a nova DC de Infantino e Giordano começou a mudar os andares de baixo da editora e isso incluía trazer gente nova, escritores mais jovens, mais antenados com os novos tempos que estavam mudando.

O efeito Jim Shooter teve consequências e a DC se abriu para escritores mais jovens a partir de 1966, de modo que garotos de vinte e poucos anos como Len Wein e Marv Wolfman, membros do fandoom, aqueles que organizavam convenções de quadrinhos e escreviam cartas à redação, começaram a ser admitidos, e até Roy Thomas, que viraria o braço direito de Stan Lee na Marvel, passou alguns dias trabalhando com Weisinger como assistente.

Dennis O’Neil: a revolução da juventude.

Mas o grande destaque nesse cenário foi o jovem Dennis O’Neil. Nascido em Saint Louis, no Missouri, em 03 de maio de 1939, O’Neil fez parte da geração de leitores da Era de Ouro quando criança, e cresceu como fã de quadrinhos. Ele serviu a marinha depois do ensino médio e até participou das forças militares envolvidas na Crise dos Mísseis de Cuba e da Invasão da Baía dos Porcos, os dois pontos mais extremos da Guerra Fria, em 1962, mas a experiência militar o fez se transformar em um homem liberal, de ideias de esquerda, pacifista e militante do desarmamento. Formado em Literatura Inglesa pela St. Louis University, trabalhou como jornalista até 1965, quando conseguiu um emprego de editor assistente na Marvel, trabalhando ao lado de Roy Thomas e Stan Lee, e até escrevendo algumas HQs de vez em quando.

Porém, procurando sua própria voz e espaço, terminou indo escrever para a Charlton Comics, uma velha editora que estava renovando seu parque de revistas em 1966, atualizando velhos personagens e criando novos. Quem liderava a Charlton era justamente Dick Giordano, e quando ele foi convidado para a DC Comics, levou seus jovens artistas consigo, que incluíam não somente Dennis O’Neil, mas também o incrível desenhista Neal Adams e até o veterano Steve Ditko, cocriador do Homem-Aranha e do Doutor Estranho.

A Mulher-Maravilha chega aos anos 1960.

Trabalhando inicialmente com personagens pequenos, o primeiro grande trabalho de O’Neil na DC foi cuidar da renovação total da Mulher-Maravilha, a partir de 1968, inserido a velha princesa amazona dentro do contexto colorido e mais libertário dos anos 1960, e logo em seguida, tomou a frente da Liga da Justiça, com a missão de dar uma soerguida na superequipe que, nem de longe, parecia tão dinâmica e interessante como o Quarteto Fantástico ou os Vingadores da Marvel.

O Batman de O’Neil e Adams.

Bem sucedido em ambas as empreitadas, O’Neil migrou para o Batman em 1970 e gerou uma revolução no homem-morcego, ao lado de Neal Adams, ao devolvê-lo à sua ambiência noturna e sombria como não tinha desde os anos 1940, com um grande sucesso. O próximo passo, portanto, era o Superman!

A estratégia de Infantino, Giordano e Schwartz foi a mesma da Liga da Justiça e do Batman: colocá-lo nas mãos daqueles artistas mais jovens, que pudessem se comunicar com esse novo público e tornar esses velhos personagens relevantes e interessantes naquele cenário. Manter o veterano Boltinoff no restante da linha era revelador de que a estratégia era um teste para ver se realmente funcionava.

Neal Adams foi um dos maiores desenhistas das HQs em todos os tempos.

Neal Adams foi o novo artífice visual. Nascido em 15 de junho de 1941, na cidade de Nova York, Adams cresceu em uma família militar, sempre se mudando de cidade ou país, mas voltou à terra-natal e estou no prestigiado Industrial Arts College, começando a trabalhar em 1959 na publicidade, antes ingressar no mundo dos quadrinhos, sua grande paixão, na Archie Comics, trabalhando na linha de humor, mas também no super-herói The Fly, passando depois por algumas tiras de jornal, como Ben Casey, e passou pela Warren Publications com histórias de terror, antes de chegar a Charlton de Giordano e pular para a DC. Após passagens por Deadman e Espectro (sim, o outro personagem de Siegel), e de ter feito as capas da franquia do Superman, a partir de 1968, ele fez sucesso com Batman e foi escolhido para criar o novo template do Superman, ao qual os demais artistas – em especial Curt Swan – deveriam seguir.

Superman 233 (cover by neal adams)
A icônica capa de Neal Adams marca o início da nova fase.

Adams criou um Superman heroico e épico, de composição mais esguia, em nada lembrando o modelo quadrado de Wayne Boring: seu homem de aço era musculoso, mas atlético, de movimentos fluidos de grande beleza, gracioso, e ele até resgatou as dobras das bochechas que Joe Shuster usava. Infelizmente, Adams não tinha tempo de desenhar as histórias do último filho de Krypton, pois preferia as do Batman, mas ficou responsável pelas capas da revista Superman, na qual criou obras de grande beleza.

Curt Swan assume a missão de ser quase o desenhista exclusivo do Superman.

Por outro lado, Curt Swan passou a trabalhar com Andy Murphy no nanquim e a dupla não apenas mimetizou o Superman de Adams, mas criou uma versão lindíssima do herói para suas aventuras. Swan sempre foi um ótimo artista, mas até ali precisava seguir os mandamentos “mansos” da DC, mas com a mudança editorial teve mais liberdade de explorar suas habilidades e se adaptou maravilhosamente bem ao novo visual do homem de aço, enchendo as revistas de beleza.

E não deixa de ser importante frisar… Apesar de desenhar o homem de aço há pouco mais de uma década de modo contínuo, até aquele momento, Swan era “um dos” artistas do último filho de Krypton, mas com essa mudança editorial da DC, o artista ganhou a missão de ser não somente o principal desenhista do personagem, mas quase que seu desenhista exclusivo, tomando o controle de Superman e Action Comics em quase todas as ocasiões por um longo período de tempo, não sendo o artista raras vezes.

A arte mais dinâmica da dupla Curt Swan e Murphy Anderson.

Essa nova fase começava em Superman 233, de janeiro de 1971, que trazia uma icônica capa de Neal Adams (recriando a imagem do homem de aço rompendo as correntes) e um anúncio que dizia se tratar de um “novo número um”, ou seja, um novo começo. E era mesmo! Na história de O’Neil, Swan e Anderson, cientistas fazem uma experiência para usar a kryptonita como fonte de energia, mas algo dá errado e ocorre uma explosão atômica. O resultado? Um efeito em cadeia transforma toda a kryptonita da Terra em ferro, anulando a única fraqueza do Superman.

A kryptonita perde seu efeito.

Era uma reação à banalização do mineral, que nas histórias dos anos 1960, tinha ganhado dezenas de versões, além da tradicional verde, como vermelha, roxa, preta, azul, dourada, lilás, prateada… com os efeitos mais bizarros e medonhos que se possa imaginar.

Em contrapartida, a explosão também afeta o homem de aço, que parece perder uma parte do seu poder. Era uma ação consciente para diminuir os poderes do Superman e torná-lo alguém que precisasse se esforçar para cumprir seus feitos. Afinal, as últimas décadas o tinham colocado tão poderoso que ele, virtualmente, podia fazer qualquer coisa… movia planetas com suas mãos, voava pelo espaço sem precisar respirar, viajava no tempo ao bel-prazer tão grande era sua velocidade, podia ouvir tudo, ver tudo, nada o feria (exceto a kryptonita)…

O que seria uma ameaça para alguém tão poderoso? A lógica que a Marvel ensinou ao público e aos editores da DC (ainda que não quisessem admitir) é que era necessário fazer as histórias afetarem o protagonista, que ele enfrentasse desafios, dilemas, que precisasse se esforçar para vencer, se superar para ser vitorioso contra o mal.

A trama ainda mostrava o homem de aço contra um grupo de bandidos (que estavam até armados com kryptonita) como maneira de mostrar que ele não é mais afetado – ele até come a kryptonita!!! – mas o herói percebe que seus poderes estão falhando de vez em quando. E o fim da história ainda mostra um tipo de duplicata do Superman formado de Areia emergindo do local onde ele caiu após a explosão do início.

E também, aproveitando da ideia de Jack Kirby de que a Galaxy Communications de Morgan Edge era um conglomerado multimídia proprietária do Planeta Diário, e em consequência, na trama, Edge decide que Clark Kent deveria trabalhar no jornal televisivo do grupo Galáxia, uma mudança que não seria muito longeva, mas cumpriu seu papel de importância ao mudar um pouco o status quo do universo do homem de aço e adicionar algumas camadas que seriam bastante úteis depois.

Era o início do arco Kryptonita Nevermore!, também conhecido como The Sandman Saga, e isso também era outra mudança algo radical implementada pela equipe de Infantino, Giordano, O’Neil, Adams, Swan e Anderson: a partir daquele número, a revista Superman adotaria o esquema de histórias seriadas típicas da Marvel, ou seja, com ou sem um “to be continued” no fim, as tramas seguiam um fluxo continuo, como uma história se desenvolvendo em capítulos e não mais o caráter episódico, fechado e independente da Era Weisinger. Por isso, Superman 234 mostra a continuação da trama, com o último filho de Krypton percebendo seus poderes cada vez mais falhos enquanto encontra pela primeira vez a tal criatura de areia, chamado nos recordatórios de Sand Superman (ou Superman de Areia), que parece drenar seus poderes quando se aproxima e o observa de longe.

Ademais é preciso adiantar que, voltando um pouco atrás, no mês de janeiro de 1971, além da Superman 233, também foi publicada outra edição no mesmo mês, o número 232, mais uma daquelas edições anuais especiais 80 Pages Giant apenas com republicações, dessa vez, focada apenas em histórias sobre Krypton. Talvez por isso, Superman 233 começou a publicar uma segunda história (depois de um tempo com a revista trazendo apenas uma única história) focada em histórias sobre Krypton, que se seguiram por alguns meses, a maioria escrita pelo editor E. Nelson Bridwell, algumas por O’Neil, e com a arte variando entre Murphy Anderson, Carmine Infantino, Curt Swan e outros.

A The Sandman Saga continua nos números seguintes, mas teve uma pausa em Superman 236, com uma história provocativa cuja capa de Neal Adams mostra o homem de aço no Inferno! Na trama, a coisa é ainda mais complexa: na verdade, o herói vai a um planeta na qual Anjos e Demônios lutam entre si, até descobrir que os papeis estão invertidos dentro de nossa compreensão, e os Anjos são os criminosos, enquanto os Demônios é que são os oprimidos que precisam ser salvos. Um chute no establishment desses jovens artistas?

Outra pausa aconteceu na edição 239, de julho, um tipo de número de férias (de verão) que foi inteiramente dedicado a republicações da década anterior, como o confronto com Hércules ou aquele célebre duelo com Luthor em Luxor.

A trama é retomada na edição 240, quando o homem de aço recebe a ajuda de Diana Prince, a Mulher-Maravilha (olha a lógica mudando, com os personagens da Liga da Justiça aparecendo nas tramas de modo “casual”) que traz o seu novo guru I Ching para ajudar, e ele descobre que a criatura de areia é alimentada por um espírito vindo da Dimensão de Quarrm, ao mesmo tempo em que o homem de aço se vê com os poderes diminuindo ao ponto dele virar um ser humano normal.

Usando a manipulação das energias de Quarrm, I Ching consegue devolver os poderes do Superman na edição 242, de setembro de 1971, que encerra o arco, mas o Superman de Areia absorveu parte dos poderes do homem de aço e está disposto a tomar o lugar dele como o protetor da Terra. Os dois então saem em um combate mortífero que termina por destruir nosso planeta… até que descobrem que a luta foi um tipo de projeção de sonho criada por I Ching para mostrar a ambos a inutilidade do confronto. (Uma mensagem pacifista embutida de O’Neil).

Os dois chegam à conclusão de que é inútil lutar, e o Superman de Areia decide se exilar na dimensão de Quarrm (motivo pelo o qual ele será chamado em aparições posteriores de The Quarmer), mas ainda assim, vai embora levando 1/3 dos poderes do Superman, que a partir dali será um herói bem menos poderoso do que fora antes. Com linguagem mais moderna, belíssimos desenhos, uma trama envolvente e fluída, The Sandman Saga terminou se tornando, com justiça, em uma das melhores histórias do homem de aço em todos os tempos, e abriu com chave de ouro uma fase inteiramente nova do personagem que muitos consideram como sua entrada na Era de Bronze.

Clark Kent estrearia na nova função de âncora de TV no canal da Galaxy TV, WGBS, de modo explícito em Action Comics 408, de janeiro de 1972, por Cary Bates e Curt Swan, já lançando a problemática que iria permear essa função: como conciliar o tempo constante e fixo do horário da TV com as ações do Superman? Era uma questão que o próprio Clark percebia: “o Superman vai ter que aguardar os comerciais?”, e era mais uma tentativa de tornar as coisas mais difíceis na vida do herói.

A Reorganização Editorial do Homem de Aço

As mudanças editoriais na linha de revistas do Superman foram grande na virada dos anos 1960 para 70, procurando prepará-lo para a nova década, mas em alguns sentidos, a DC continuou sendo a DC. Por exemplo: estranhamente, enquanto Julius Schwartz assumiu a editoria da revista Superman para trabalhar na atualização do personagem com Dennis O’Neil e Neal Adams, as demais revistas foram distribuídas para o veterano editor Murray Boltinoff, que continuou a cargo de Action Comics e companhia.

A arte de Mike Sekowsky renova o visual da Supergirl.

Houve uma dança das cadeiras… As aventuras da Supergirl (escritas por Leo Dorfman e arte de Curt Swan) saíram de sua casa na Action Comics 371, e ela foi transferida como a atração principal de Adventure Comics a partir do número 381, de junho de 1969, onde suas aventuras seriam assumidas por Mike Sekowsky, o mesmo desenhista que liderou a modernização da Mulher-Maravilha, e fez o mesmo com Kara, inclusive, criando um novo uniforme para ela, que incluía uma minissaia. Por sua vez, a Legião dos Super-Heróis (ainda escrita por Jim Shooter e com arte de Win Mortimer) saiu da Adventure Comics no número 380 para substituir a menina de aço a partir de Action Comics 372, também em junho de 1969.

Murray Boltinoff, editor das revistas do Superman.

As coisas se mantiveram assim por um tempo, até Action Comics 392, de setembro de 1970, quando esta revista passou a apresentar uma segunda história variável, mudando de protagonista a cada mês, até que algum tempo depois do número 400 passou a trazer de novo um conjunto de quatro histórias como fora no passado, trazendo uma aventura inédita, uma republicação (que podia incluir não apenas o Superman, mas também Supergirl ou Superboy) e após experimentar trazer velhas atrações do passado (como o Vigilante) fixaria aventuras solo do Aquaman e do Átomo de modo alternado.

As mudanças editoriais também se voltaram às revistas periféricas da franquia do homem de aço, na busca de lhes dar um tom mais moderno e sério, o que resultou em Jack Kirby assumir Superman’s Pal Jimmy Olsen, como já mencionamos. A ideia era fazer o mesmo com Superman’s Girl-Friend Lois Lane, mas a editora teve mais dificuldades neste ponto, sem encontrar artistas jovens dispostos a tocar a revista da amada do herói, uma publicação que tinha má fama pelo exagero da visão chauvinista adotada pelo velho Mort Weisinger em algumas daquelas histórias dos anos 1960.

Com a editoria de E. Nelson Bridwell, Lois Lane (ainda a terceira revista mais vendida da franquia em 1969, atrás apenas de Superman e Superboy) foi colocada, assim, nas mãos de um escritor que tinha experiência escrevendo super-heroínas: Robert Kanigher, o cocriador do Flash moderno e veterano editor da revista da Mulher-Maravilha desde os anos 1940! Para arte, foi designado Werner Roth, um artista com passagem pelos X-Men da Marvel. Tal qual ocorria nas aventuras da princesa amazona, Bridwell, Kanigher e Roth tomaram o rumo de colocar o mundo feminino em primeiro plano numa perspectiva positiva, se esforçando para não serem estereotipados demais, colocando pautas feministas como objeto das tramas.

Um dos destaques desse início – ainda que algo ainda meio arriscado visto aos olhos de hoje – foi a história de Superman’s Girl-Friend Lois Lane 106, de novembro de 1970, na qual abordam pela primeira vez a questão racial numa revista associada ao homem de aço. Na trama, Lois vai investigar uma série de problemas em Little Africa, um gueto de Metrópolis similar ao Harlem de Nova York, mas a repórter percebe que só pode entender o que está realmente acontecendo se for uma mulher negra, então, pede ajuda ao Superman para usar uma máquina alienígena que transforma Lois em uma mulher negra por 24 horas, quando ele vive algumas aventuras no gueto, vê de perto o preconceito e conhece (e salva a vida) do ativista político Dave Stevens. Ainda que nos dias de hoje transformar uma mulher branca em negra gerasse uma discussão ruidosa, é inegável o esforço da DC em apresentar de uma maneira crítica (e ainda divertida) uma questão muito premente em seu tempo, e ainda nos dias de hoje.

Cary Bates, outro jovem escritor do universo do homem de aço.

As aventuras do Superman em Action Comics, sob a supervisão de Murray Boltinoff, são assumidas pelo escritor Cary Bates a partir do número 403, de agosto de 1971, com a arte também nas mãos de Curt Swan. Nascido em 1948 na Pensilvânia, assim como Jim Shooter, Bates também foi um menino de 13 anos que começou a enviar roteiros para a DC Comics pelo correio, a primeira dessas histórias sendo publicada já em Superman 167, de fevereiro de 1964, quando ele tinha 17 anos de idade. Suas histórias continuaram saindo em Action Comics, a partir do número 354, com alguma frequência, além de outras revistas, como The Flash, mas ele se tornou realmente o escritor principal de Action Comics ali no número 403, dentro do pacote de renovação do homem de aço com uma abordagem mais séria e adulta.

A revista Superboy passou entrou na renovação a partir do número 172, de março de 1971, quando os roteiros passaram para E. Nelson Bridwell e Cary Bates e a arte para George Tuska (vindo da Marvel onde desenhou Capitão América e Homem de Ferro) e o novato Dave Crockum, que estreou na edição 184, de abril de 1972. A Legião dos Super-Heróis ganhou uma revista própria especial com quatro números trazendo apenas republicações, então, foi definitivamente incorporada ao mix da revista do menino de aço, que mudou o título para Superboy Starrring the Legion of the Super-Heroes, no número 197, de abril de 1972.

A menina de aço continuou aparecendo em Adventure Comics até a edição 424, quando era produzida por Steve Skeates e Tony Dezuniga, mas no mês seguinte migrou para sua própria revista a partir de Supergirl 01, de novembro de 1972, por Cary Bates e Art Saaf, com capas de Bob Oksner. A esta altura, Kara já usava um terceiro uniforme, com mangas soltas, um grande decote, sapatilhas em vez de botas e a capa era presa em seu pescoço como se fosse uma escarpe. A revista ainda trazia uma segunda história estrelada pela mágica Zatanna, a filha de Zatara que estrelava Action Comics na Era de Ouro.

A tentativa de manter um clima mais sério e uma narrativa mais moderna nas revistas da linha do homem de aço fizeram com que o editor E. Nelson Bridwell assumisse os roteiros de Superman’s Girl-Friend Lois Lane a partir do número 111, criando um arco que se estendeu até a edição 119, a partir de julho de 1971, vinculando as ações da repórter com a trama do Quarto Mundo de Jack Kirby que corriam paralelamente em Superman’s Pal Jimmy Olsen e suas derivadas, e um marco de que as coisas estavam mais adultas veio em Lois Lane 120, de março de 1972, por Cary Bates e Irene Vartanoff e arte de Werner Roth, na qual ocorre a morte de Lucy Lane, a irmã mais nova da repórter e interesse amoroso de Jimmy.

Foi um alerta aos fãs da DC, mas as consequências não foram duradouras… Superman’s Pal Jimmy Olsen 160, de outubro de 1973, por Dorfman e Schaffenberger, já trouxe a moça de volta dos mortos.

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Capa de “Superman 247”, de 1972.

A renovação de artistas prosseguia e Elliot S. Maggin fez sua estreia como escritor do personagem em uma das melhores histórias do homem de aço: Must there be a Superman?, desenhada por Swan e Anderson, em Superman 247, de janeiro de 1972. Na trama, a pergunta do título – “precisa haver um superman?” – é feita pelos Gardiões de Oa (isso mesmo, os chefes da Tropa dos Lanternas Verdes) ao próprio homem de aço.

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Os Guardiões provocam o Superman: clássico de Elliot S. Maggin e Curt Swan.

Chamado a um tipo de julgamento, os poderosos seres cósmicos tentam argumentar com o herói que sua ação, sempre salvando a humanidade, deixa os seres humanos mal acostumados, e que ele não devia resolver os problemas da humanidade. Com isso, o Superman questiona suas ações e viaja a lugares distantes para tentar ações mais construtivas do que bater em bandidos. No final, os Guardiões conversam entre e si e mostram que queriam apenas plantar a semente de dúvida no Superman e atingiram seu objetivo.

Cary Bates e Elliot S. Maggin: a juventude em Superman.

Maggin não só entrou pela porta da frente, mas entrou chutando a porta! Nascido em 14 de dezembro de 1950, o jovem Elliot tinha apenas 21 anos na época! Fãs de quadrinhos, ele estudava na Brandeis University e ao escrever um trabalho de disciplina sobre a diferença que uma pessoa pode fazer na sociedade e levar uma nota ligeiramente baixa, decidiu, como forma de provar que era um bom material, transformá-la em um roteiro de quadrinhos e enviou por correio à DC Comics, que parou nas mãos do desenhista Neal Adams, que comungando das ideias de esquerda do rapaz, decidiu ilustrar o roteiro, que saiu na revista Green Lantern 87, de dezembro-janeiro de 1971-1972. Mais tarde, em uma entrevista, o editor Julius Schwartz disse que em suas décadas de trabalho nunca viu um primeiro roteiro tão perfeito e de tanta qualidade quanto aquele.

Obviamente, Maggin foi convidado a escrever outros e este golaço da edição 247 foi sua primeira história do Superman. De muitas que viriam… Maggin ainda disse, depois, que a inspiração para “Deve haver um Superman?” veio de uma conversa que teve como o enteado do vice-presidente de sua universidade, da qual virara um amigo da família. Esse menino com quem conversava sobre quadrinhos se chamava Jeph Loeb e teria uma longa e profícua vinculação com o homem de aço no futuro distante. Aguarde…

Como se dá para notar, a DC não resistiu manter a publicação de histórias seriadas como arcos contínuos de histórias tal qual era feito pela concorrente Marvel, e logo, voltou a contar com histórias mais episódicas, ainda que agora houvesse um senso de continuidade bem maior do que antes, e as tramas fossem mesmo mais adultas e sérias.

Marcou época, por exemplo, a história de Superman 249, de março de 1972, na qual Bates e Swan estreiam o vilão Terra-Man, no que é considerada uma das melhores histórias do homem de aço naquela década, apresentando um estranho vilão que é um cowboy usando armas alienígenas.

Ao que parece, os andares de cima da DC aprovaram as mudanças criativas implementadas na franquia do último filho de Krypton e isso deve ter dado resultado nas vendas. Por isso, Murray Boltinoff encerrou seu período em Action Comics 418, e a editoria dessa revista passou (finalmente) às mãos de Julius Schwartz, na edição 419, de dezembro de 1972, que agora podia integrar melhor o conteúdo das duas principais publicações do herói. Para marcar sua chegada, Schwartz encomendou uma estonteante capa a Neal Adams, que entregou uma ilustração icônica, do homem de aço disparando aos céus por uma Metrópolis recriada por uma fotografia aérea de Nova York. Lindíssima! Tão especial que essa mesma ilustração seria, mais de uma década depois, utilizada pela editora Abril aqui no Brasil quando finalmente lançou o personagem dentro de sua linha de HQs, com Super-Homem 01, de 1984.

Naquele ponto, Action Comics estava publicando também uma história secundária do Metamorfo, mas Schwartz colocou um elenco rotativo com Arqueiro Verde, Canário Negro e Alvo Humano se reservando na revista.

Morgan Edge na arte de Jack Kirby (e intervenções de Al Plastino).

Embora via de regra as revistas funcionassem mais em histórias pontuais do que em arcos contínuos, ainda assim, o estilo de narrativa mudou, admitindo desenvolvimentos de médio e longo prazo e tramas que seguiam ao longo dos meses. Um exemplo disso foi o plot envolvendo Morgan Edge, o dono da Galaxy Broadcast System. O personagem de Jack Kirby já estreou como um chefe rude e determinado, mas que escondia uma faceta maligna vista sua associação com Darkseid, porém, ao que parece, os editores pensaram que era um bom personagem para manter no conjunto de coadjuvantes em vez de um vilão, e essa trama foi alterada.

Assim, em Superman 244, de novembro de 1971, Dennis O’Neil e Curt Swan mostraram que Edge mantinha um misterioso prisioneiro em seu apartamento no prédio da Galaxy, e Superman’s Girl-Friend Lois Lane 118, de janeiro de 1972, por Robert Kanigher e Werner Roth, descobrimos que o cativo é ninguém menos do que o verdadeiro Morgan Edge, e aquele que vimos até ali desde a sua estreia era um clone maligno criado por Darkseid, mas a cópia, ainda assim, fora incapaz de matar seu predecessor por se sentir conectado a ele. O plot se resolve em Superman’s Pal Jimmy Olsen 152, de setembro de 1972, por E. Nelson Bridwell e Mike Sekowsky, na qual o verdadeiro Edge consegue se libertar, briga com seu clone e a cópia maligna termina desintegrada acidentalmente por outro assecla de Darkseid.

O verdadeiro Morgan Edge volta aos negócios, mas decide manter as modificações corporativas implementadas por seu clone, por julgar que devem ser boas escolhas, afinal, o outro era uma cópia quase exata de si mesmo.

Steve Lombard… um chato no Planeta Diário.

O mundo em torno do Superman também mudou bastante, com mais espaço para os coadjuvantes, que ganharam mais personalidade. Assim, as rusgas entre Perry White e Morgan Edge geravam subtramas, e como tanto Jimmy Olsen quanto Lois Lane tendo suas aventuras individuais, o cast de personagens precisou ser aumentado, com a introdução, por exemplo, do jornalista esportivo Steve Lombard, em Superman 264, de junho de 1973, criado por Bates e Swan como um cara desagradável, que se aproveita da pretensa timidez de Clark Kent para fazer bullying com ele e chamá-lo de Clarkie.

As gêmeas April a May Marigold, vizinhas de Clark.

As histórias já haviam criado alguns outros, como Irma Goldstein, a vizinha idosa e cadeirante de Clark, e o porteiro afroamericano Franklin Jackson, ambos criados por Len Wein e Swan em Superman 246, que servia para mostrar mais do mundo doméstico do herói, incluindo uma definição mais exata de que ele morava em um edifício no número 344 da Clinton Street, no terceiro andar, apartamento 3-D, na qual também era vizinho das gêmeas April e May Marigold (surgidas em Superman 262), das quais esta última tinha um crush no repórter. Em outro núcleo, havia o professor Jasper J. Pepperwinklie, que surgira no programa de rádio dos anos 1940, mas foi recriado para os quadrinhos como um cientista que ajudava o herói, a partir de Action Comics 442.

A renovação atingiu também os vilões do homem de aço, de modo que Bates e Swan criam um novo Toyman (Mestre dos Brinquedos) em Action Comics 432, de fevereiro de 1974, um criminoso chamado Jack Nimball que continua usando elementos relacionados a brinquedos, mas agora, além de um uniforme, é mais perigoso e mortífero, sem ser um zombeteiro como seu antecessor.

Última edição regular de Lois Lane, no número 136. Arte de Bob Oskner.

Naquele ponto, começando o ano de 1974, o mercado de HQs deu o primeiro sinal forte de crise (de muitos que viriam no futuro breve): o cancelamento de várias revistas. A franquia do homem de aço representava quase uma dezena de publicações mensais, com Superman, Action Comics, World’s Finest (com as aventuras conjuntas com o Batman), Superboy Starring The Legion of Super-Heroes, Superman’s Pal Jimmy Olsen, Superman’s Girl-Friend Lois Lane e Supergirl, além das aparições em Justice League of America. Com a queda nas vendas, a DC Comics decidiu enxugar a máquina, cancelando Jimmy Olsen, Lois Lane e Supergirl.

Último número regular de Supergirl, na edição 09. Arte de Bob Oskner.

A revista da menina de aço só tinha 09 números publicados até janeiro de 1974, enquanto Lois Lane acabou na edição 136, do mês seguinte. Jimmy Olsen terminou no número 163, de abril. As três revistas foram reunidas em uma nova publicação, de 100 páginas, chamada Superman Family, que herdou a numeração desta última, por isso, começou na edição 164, de maio. A nova revista era uma miscelânia, continuando as aventuras (de Jimmy, Lois e Kara) do ponto em que pararam, mas também misturando republicações, especialmente, da década anterior, incluindo aventuras das breves iniciativas de histórias solo de Krypto ou Bizarro.

A nova Superman Family, reunindo as aventuras do elenco de apoio. Arte de Nick Cardy com colagens de outros artistas.

E por qualquer motivo que fosse, duas dessas revistas tiveram uma última edição de encerramento tardia, provavelmente porque já tinham ido à gráfica quando da decisão do cancelamento. Por isso, houve a Lois Lane 137 e a Supergirl 10, ambas no mês de outubro, mas foi apenas uma excepcionalidade.

Enquanto isso, o conceito do Multiverso da DC ia gradativamente se tornando mais importante à editora e ia se expandindo da especificidade das aventuras da Liga da Justiça (em Justice League) ou do Flash e iam aparecendo nas demais revistas, por isso, Elliot S. Maggin decidiu brincar com o conceito em Superman 276, de junho de 1974, com arte de Swan, na qual o homem de aço encontra um viajante acidental de outra Terra (de outra realidade): O Capitão Trovão, nada menos do que uma versão nada disfarçada do Capitão Marvel da Fawcett Comics. Era outra forma de um fã como Maggin utilizar um tipo de conceito que ele sabia que o público ia gostar bastante.

Aproveitando a deixa… a aparição “disfarçada” do Capitão Marvel fora possível sem nenhum risco porque havia sido costurado na época um acordo entre a DC Comics e a Fawcett. Como Billy Batson saiu das bancas em 1953, a lei americana diluiu os direitos sobre o nome do personagem, então, a Marvel Comics garantiu a propriedade do termo “Capitão Marvel” para que não houvesse nenhum herói por aí ostentando a marca daquela editora, criando a sua própria versão do Capitão Marvel, o alien Kree Mar-Vell. Mas sem querer a iniciativa resgatou o “mortal mais poderoso da Terra” na memória dos fãs, e a DC arranjou para publicar as histórias do velho herói como um tipo de licenciamento à Fawcett, que era impedida pela Justiça de publicar a Família Marvel, mas podia ganhar royalties se a DC o fizesse. Então, a DC lançou uma revista chamada Shazam! (o grito de guerra do herói), pois não podia usar o nome Capitão Marvel nas capas (apenas nas histórias), reunindo tanto republicações dos anos 1940 quanto algumas novas histórias.

Martin Pasko.

Um novo escritor para o Superman inicia sua profícua carreira em Superman 277, de julho de 1974, com arte de Swan: o canadense Martin Pasko. Nascido em Montreal, em 1954 (tinha, portanto, apenas 20 anos de idade!), Pasko foi um membro ativo do fandoom, escrevendo tanto para as colunas de cartas dos leitores que passou a ser reconhecido pelo editor Julius Schwartz. Após escrever algumas HQs para editoras menores, como a Warren Publications, ele foi mais um daqueles fãs que conseguiu transicionar do fandoom para a redação, como Jim Shooter, Roy Thomas, Len Wein, Mike Friedrich e vários outros.

Arte de capa por Nick Cardy.

Inicialmente fazendo as histórias secundárias de Superman, ele também escreveu as histórias do Átomo em Action Comics (a partir da edição 438, de agosto de 1974) antes de se tornar efetivamente um dos principais roteiristas do homem de aço a partir de 1977.

O traje de batalha de Luthor: visual icônico do vilão. Arte de Curt Swan.

Um pequeno redirecionamento para Lex Luthor aparece em Superman 282, de dezembro de 1974, por Maggin e Swan, na qual o vilão decide se preparar melhor para combater o homem de aço e inaugura um uniforme especial chamado de Battle Array, em verde e púrpura, uma roupa de batalha repleta de armas especiais, como botas com jatos para voar, lasers nas luvas e outros dispositivos que lhe colocam como uma ameaça física maior ao último filho de Kyrpton, não apenas intelectual. Na trama, ele até consegue rejuvenescer o Superman em 10 anos, deixando-o como um Superboy como uma estratégia de tirar-lhe a experiência e tentar subjugá-lo, mas o herói consegue vencer ainda assim.

O novo visual de Luthor era bem mais imponente do que as batas e ternos que ele usara até então e virou algo definitivo pela década seguinte e um referencial importante até os dias de hoje.

Arte de Bob Oskner.

Mas os autores e editores também exploraram outras facetas de Luthor e de sua relação com o homem de aço, como Superman 286, de abril de 1975, também por Maggin e Swan, na qual os dois inimigos precisam de aliar contra a ameaça do Parasita.

Outra das histórias bastante lembradas da década de 1970 foi Who took the super out of Superman?, publicada entre Superman 296 e 299, começando em fevereiro de 1976, escrita por Cary Bates e Elliot S. Maggin, com arte de Swan, na qual o homem de aço enfrenta a bizarra situação na qual perde seus poderes toda a vez que usa as roupas civis de Clark Kent, o que vai deixando sua vida “civil” cada vez mais complicada, até descobrir ser a ação de um alienígena chamado Xviar, parte de um plano de dominar a Terra, que assume uma identidade humana na figura do Sr. Xavier, vizinho de Clark Kent.

O Sr. Xavier era o alien Xviar.

A situação estressante do herói o leva até a revidar o bullying de Steve Lombard ao ponto de socá-lo, e o plano de Xviar é bombardear o Superman com um tipo de energia que, após o herói atingir um determinado pico de esforço, resultaria em uma reação em cadeia para destruir a Terra. Para isso, o alien chega até a forçar o homem de aço a enfrentar seus piores inimigos de uma vez: Luthor, Brainiac, Mr. Mxyzptlik, Parasita, Galhofeiro, Mestre dos Brinquedos, Terra-Man, Homem-Kryptonita e Amalak, mas claro, Clark descobre o plano e o impede.

A DC Comics decidiu ainda investir pesado na Terra 2, com a representação dos “velhos” heróis dos tempos da National/All American e na qual temos versões mais velhas de Superman e Batman, e a revista All-Star Comics foi relançada, mantendo a numeração original que fora interrompida em março de 1951. A nova All-Star Comics 58, com data de capa de fevereiro de 1976, por Gerry Conway e Ric Estrada, trazia novas aventuras da Sociedade da Justiça, reunindo Senhor Destino, Doutor Meia-Noite, o Flash Jay Gsarrick, o Lanterna Verde Alan Scott, Gavião Negro, Pantera e três novos membros: a versão adulta do Robin, o Star-Spangled Kid (advindo dos Sete Soldados da Vitória) e a estreia da Poderosa (Power-Girl).

A Power-Girl é apresentada como a versão da Terra 2 da Supergirl, mas uma mulher mais madura, mais assertiva e com mais atitude, e que optou por adotar um nome desvinculado de seu primo famoso. A Poderosa seria um constante personagem secundária da DC e seguiria longeva carreira dali em diante.

Os Super-Amigos

Embora os super-heróis da DC Comics tivessem sua “casa” nos quadrinhos, boa parte do público que nasceu depois dos anos 1960 provavelmente os conheceu através da TV, por meio do desenho animado dos Super-Amigos. Animações de heróis começaram a se tornar populares na televisão na década de 1960, não apenas através desses personagens (como já vimos no caso de The New Adventures of Superman pela Filmation, entre 1966 e 1970), mas também através da Marvel, que teve seis séries de desenhos também no fim daquela década.

Assim, a criação dos Super-Friends era apenas mais uma tentativa da DC de investir nessa mídia, dessa vez, através do famoso estúdio Hanna & Barbera, responsável por algumas das mais marcantes animações da história, como Os Flintstones e Os Jetsons. Com produção executiva de William Hanna e Joseph Barbera, produção de Iwao Takamoto, direção de Charles A. Nichols, design de personagens de Alex Tooth (um cartunista que trabalhou na DC nos anos 1940, especialmente no Batman) e uma equipe de roteiristas que incluía nomes das HQs, como Jack Cole, Gardner Fox (ninguém menos do que o criador da Liga da Justiça) e o velho Mort Weisinger (sim, ele mesmo!), os Super-Amigos eram uma adaptação da Liga da Justiça numa abordagem bastante amigável para as crianças. O elenco trazia: Danny Dark (Superman), Olan Soule (Batman), Casey Casem (Robin), Shannon Farnon (Mulher-Maravilha) e Norman Alden (Aquaman).

Super-Amigos: sucesso na TV.

Exibido pela ABC na programação de sábado de manhã, Super-Friends estreou em setembro de 1973 como um programa de 16 episódios de 1 hora de duração, trazendo o grupo formado por Superman, Batman, Robin, Mulher-Maravilha e Aquaman (eles são chamados tanto de Super-Amigos quanto de Liga da Justiça nos diálogos) que partem em missões quase educativas a partir do belo prédio do Hall da Justiça, auxiliados pelo trio formado pelos gêmeos Wendy e Marvin (adolescentes sem super-poderes) e seu cachorro, Wonder Dog, mas contando com participações especiais de outros heróis como Flash, Homem-Borracha e Arqueiro Verde.

O resultado não deve ter agradado à emissora, pois o programa foi cancelado após apenas uma temporada, contudo, em meados da década de 1970, os super-heróis se tornaram bastante populares na TV americana, com Mulher-Maravilha e também O Homem de Seis Milhões de Dólares (o que acarretou na produção de outros em seguida, como Shazam, A Mulher-Biônica, A Poderosa Íris, O Incrível Hulk e Homem-Aranha). Por causa disso, a ABC reprisou Super-Amigos ao longo do ano de 1977, adaptados agora como episódios de 30 minutos, e a audiência os convenceu a voltar a produzir o seriado.

Daí em diante, Super-Friends teria mais 8 temporadas, exibidas entre 1977 e 1986, em vários formatos e com formações distintas dos heróis, mas ajudando a popularizar a imagem dos heróis da DC Comics (mesmo sem usar o nome Liga da Justiça – que desperdício) na mente do grande público não leitor de quadrinhos mundo à fora.

A Última Batalha de Siegel e Shuster versus a DC

Afastado da DC Comics desde 1966, o criador do Superman prosseguia sua carreira e viu uma mudança total na sua relação com a editora em meados da década de 1970, quando finalmente conseguiu o reconhecimento merecido por seu trabalho. Não veio fácil, porém…

Siegel e Shuster nos anos 1980.

Após a segunda demissão da DC, a carreira de Siegel chegou ao fundo do poço. Agora, o escritor estava mesmo banido do mercado de HQs: quem iria contratar o cara que processou seus “empregadores” duas vezes? O único editor que deu uma chance a Siegel foi Stan Lee da Marvel, que após verificar que suas histórias pareciam “velhas” e “não adequadas ao estilo Marvel”, lhe ofereceu um trabalho de revisor na editora. Não era glorioso e nem parte do campo criativo, mas pelo menos tinha um salário decente, e ele aceitou. Enquanto isso, viveu outra experiência como escritor quando conseguiu trabalho na Amalgama Press, uma editora do Reino Unido, escrevendo um super-herói chamado The Spider na revista semana Lion (as revistas britânicas eram semanais, ao contrário das mensais americanas) por bons três anos, entre janeiro de 1966 e fevereiro de 1969, ainda que o pagamento não fosse grande coisa.

Livro reunindo o material britânico de Jerry Siegel.

Mas desiludido com a própria vida, Siegel agradeceu ao amigo Lee, pediu demissão em 1968 e decidiu se mudar para a Califórnia, onde terminou num emprego de datilógrafo numa repartição pública de Los Angeles, no ponto mais baixo de sua biografia. Mais tarde, ele afirmou em entrevistas que queria “sumir” do mundo do entretenimento.

Siegel passou alguns anos na penúria, com sua esposa Joanne Carter trabalhando como vendedora de automóveis para ajudar nas despesas de casa, mas um primeiro sinal que as coisas podiam mudar veio em 1968, quando o desenhista Carl Banks (famoso por suas histórias do Pato Donald e do Tio Patinhas na Disney), apiedado de sua situação, lhe convidou para escrever roteiros para a revista Junior Woodschucks, com as aventuras de escoteiros de Huey, Dewey e Louie (Huguinho, Zezinho e Luisinho, no Brasil), os sobrinhos de Donald, da editora Western Publishing.

O quadrinhos Disney foram a casa de Jerry Siegel por um tempo, em histórias populares no Brasil também.

Pouco tempo depois, a Disney decidiu encerrar a publicação de suas HQs nos EUA, mas as revistas eram tão populares na Itália que a editora que as republicava, Mondadori Editore, decidiu passar a produzi-las por conta própria, ao passo que Jerry Siegel se tornou um de seus principais escritores, na revista Topolino, a versão italiana do Mickey Mouse, uma revista semanal. Esse seria o último trabalho notável de Siegel, que se manteve ocupado entre 1972 e 1979 com um bom salário. O curioso é que outro país em que as aventuras do mundo de Walt Disney continuavam populares eram o Brasil e apesar das histórias não trazerem os créditos individuais de criação, muitas dessas aventuras escritas pelo criador do Superman foram publicadas nos gibis da Disney da editora Abril nos anos 1970 e 1980.

E no meio disso ele voltou ao mundo da DC Comics…

Shuster e Siegel, sentados, entre Neal Adams e Jerry Robinson.

No verão de 1975, a Warner Bros. anunciou a produção de um filme sobre o Superman (sim, falaremos sobre ele mais tarde) e isso gerou algum falatório, pois não seria uma produção barata como no passado, mas uma superprodução com elenco de peso, levado a sério. Siegel aproveitou a oportunidade para apresentar a sua condição à imprensa, mas dessa vez, ele ganhou aliados inesperados. As mudanças na virada dos anos 1960 para 70 trouxeram uma nova geração de artistas, com mais anos de estudo, melhor formação, antenados aos problemas de seu tempo, não raramente ligados a ideais progressistas e o sindicato dos artistas, impulsionado por ninguém menos do que Neal Adams, encampou a luta pelo reconhecimento de Siegel e de Shuster pelo o que criaram. Também ganharam o apoio público de Jerry Robinson, na época um famoso cartunista, que fora um dos criadores do Robin e do Coringa no universo do Batman nos anos 1940.

Joe Shuster nos anos 1940.

E vale acrescentar: a vida de Joe Shuster havia sido ainda mais penosa do que a de Siegel, pois após a empreitada do Funnyman nos anos 1940, quando os dois encerraram sua parceria, o desenhista nunca mais conseguiu se estabelecer na carreira, conseguindo apenas trabalhos informais como auxiliar ou artista fantasma, chegando até a desenhar revistas pornográficas para poder se manter. No fim das contas, seus problemas de visão deram cabo de sua carreira de qualquer modo, e ele passou a trabalhar como entregador numa firma de papel, e ocorreu o infame episódio de que, em algum momento dos anos 1960, foi incumbido de fazer uma entrega nos escritórios da DC, e foi reconhecido por Mort Weisinger, que se compadeceu de sua situação lastimável e lhe deu 100 dólares para que comprasse um terno novo.

Quando a imprensa começou a noticiar esses eventos, ao longo do ano de 1975, a DC Comics não era mais uma editora do nicho dos quadrinhos, mas parte de um conglomerado multimídia na qual a boa imagem pública era necessária. Algo rapidamente, a DC convocou Siegel e Shuster e lhes propôs um acordo: pagaria uma pensão vitalícia a cada um de US$ 20 mil (algo como 120 mil nos dias de hoje) e daria os créditos de criação da dupla nas histórias.

Eles não ficariam ricos, mas teriam uma boa renda fixa e reconhecimento. Aceitaram. Superman 301, de agosto de 1976, trouxe o crédito “Superman created by Jerry Siegel & Joe Shuster” que passou a aparecer na abertura de todas as histórias do homem de aço.

Lois Lane, Superman e Clark Kent… ou melhor: Joanne Carter, Jerry Siegel e Joe Shuster.

E a imprensa também popularizou a informação de que a esposa de Siegel, Joanne Carter Siegel, havia sido a inspiração para Lois Lane, virando ela própria um tipo de celebridade no mundo nerd.

Superman versus Homem-Aranha

A disputa do Superman com o Homem-Aranha da Marvel não se restringiu às vendas das revistas, mas os dois personagens realmente cumpriram o sonho dos leitores e trocaram sopapos de verdade em uma história. Em 1976 veio o primeiro crossover entre Marvel e DC! Superman versus Homem-Aranha!

Arte promocional do crossover do Homem-Aranha com Superman, por Ross Andru com nanquim de Dick Giordano.

O início dessa história veio de modo inesperado, quando o agente literário David Obst, que queria investir na produção de cinema e TV, abordou tanto o publisher da Marvel, Stan Lee, e o diretor editorial da DC, Carmine Infantino, com uma ideia maluca: um crossover entre as duas editoras no cinema, mas era um passo ousado demais para época – e ainda o é até hoje – e havia efetivamente um filme do Superman em produção (sim, falaremos sobre ele, tenha paciência), mas Lee e Infantino pensaram que poderia ser uma boa ideia fazer isso numa HQ, ainda mais porque os dois – ocupando cada qual o cargo responsável por se preocupar com vendas e custos de suas respectivas editoras – estavam preocupados com o declínio contínuo das vendas das HQs e já tinham aprendido (especialmente a DC nos últimos tempos) que atender aos sonhos dos leitores (como ver Superman e Flash apostando uma corrida) era algo bastante lucrativo.

Len Wein.

Infantino e Lee, portanto, colocaram seus editores-chefes (Dick Giordano e Len Wein, respectivamente) para articular o encontro, ao passo que buscaram viabilizar a empreitada do ponto de vista comercial, embora houvesse antecedentes nos quais as duas editoras trabalharam juntas na publicação de revistas não relacionadas aos super-heróis. O fluxo de conversa inicialmente foi fluído, pois Wein tinha sido roteirista da DC e conhecia bem o pessoal da redação, tornando o acordo mais fácil.

Foi definido que Superman e Homem-Aranha seriam os protagonistas e estabeleceram que a HQ especial deveria ser criada por artistas que tivessem trabalhado com ambos os personagens, o que naqueles tempos em que o mercado de HQs era restrito e até certo ponto fechado não era assim tão simples. Havia o desenhista Jim Mooney, que passou anos fazendo as histórias da Supergirl e na segunda metade dos anos 1960 trabalhou na Marvel justamente desenhando o Aranha ou fazendo nanquim para artistas como John Romita e John Buscema.

Ross Andru.

Mas os editores escolheram Ross Andru por ter sido efetivamente o desenhista principal de ambos os personagens, primeiro nas aventuras do Superman no final da década de 1960, e ter passado à Marvel e atuado com vários personagens, sendo o desenhista principal do Homem-Aranha na revista Amazing Spider-Man a partir de 1973, no que seria uma longa temporada de cinco anos. Vale lembrar que, ao contrário da DC e suas equipes criativas fluídas, a Marvel adotava times fixos por longas temporadas.

Encontrar um roteirista foi um pouco mais difícil, pois enquanto o homem de aço tinha décadas de existência e já passara pelas mãos de mais de duas dúzias de escritores, o Homem-Aranha tinha pouco mais de dez anos de publicação e um pequeno conjunto de escritores que praticamente cabiam nos dedos de uma única mão. Na verdade, só existia um único escritor que produzira de verdade histórias tanto do Superman quanto Homem-Aranha: Len Wein, contudo, naquele momento, ele era o editor-chefe da Marvel, e num projeto no qual o equilíbrio era tão importante, Wein assumir o roteiro não era admissível.

A estreia de Gerry Conway no Superman, em Action Comics 457.

Giordano e Wein decidiram por o roteiro nas mãos de Gerry Conway, outro dos meninos prodígios da Era de Bronze, que começou a escrever HQs para a Marvel ainda aos 16 anos de idade, e aos 19 assumiu a produção do Homem-Aranha e do Quarteto Fantástico, as duas revistas mais vendidas da Marvel. Conway escreveu uma das mais célebres fases do aracnideo entre 1972 e 1975, mas depois de se desentender com Stan Lee, decidiu se transferir para a DC, onde estreara na Liga da Justiça em Justice League 125, de dezembro de 1975, mas logo em seguida, passou também à franquia do homem de aço, na qual seus roteiros saíram em Action Comics 457, de março de 1976 (na famosa história na qual o filho de Pete Ross, Jon, está com uma séria doença e tem como sonho saber a identidade secreta do Superman, mas quando o herói revela que ele é Clark Kent, o menino não acredita), e também em Superman 301, de julho de 1976.

Gerry Conway.

Como se vê, Gerry Conway era muito novato na DC, mas naquele ponto, era o único que poderia cumprir o critério de efetivamente ter trabalhado com ambos os personagens. Conway era um escritor fabuloso e produziu uma história simples e eficaz, criando um clássico imortal. A arte de Andru também está sensacional, ainda que cada editora tenha adotado uma postura muito defensiva sobre seu personagem, de modo que foi comissionado que Neal Adams fizesse retoques no rosto do Superman e John Romita tenha feito retoques no Homem-Aranha no intuito de manter a versão mais icônica possível de cada um.

O primeiro encontro Marvel-DC: Superman e Homem-Aranha.

O histórico evento foi acondicionado em uma revista única, chamada Superman versus The Amazing Spider-Man: The Battle of the Century, com data de capa de janeiro de 1976, e uma trama interessante na qual Lex Luthor e o Doutor Octopus terminam confinados na mesma prisão e unem forças num plano de dominação, o que ocasiona no homem de aço e no escalador de paredes cruzarem caminhos, haver um mal-entendido – em vista da má fama do aracnídeo diante da justiça – mas os heróis reunirem seus esforços e lutarem juntos contra a dupla de malfeitores, além da interação de seus coadjuvantes.

A trama optou por não explicar como Clark Kent e Peter Parker estavam de repente em um mesmo universo como se assim o fosse desde sempre, mas foi uma decisão criativa para não perder tempo com explicações desse tipo e se concentrar na diversão de vê-los juntos.

Apesar do alto custo de 2 dólares (quando uma revista regular custava 25 centavos) e de suas 60 páginas (lindamente ilustradas com painéis grandes com cenários extremamente detalhados por Andru), A Batalha do Século foi um sucesso enorme, um evento histórico e a abertura de uma porta que seria explorada algumas outras vezes em crossovers entre Marvel e DC até o início dos anos 1980.

E no que concerne especificamente ao Superman, esta publicação terminou sendo o início de uma boa temporada de histórias especiais focadas no último filho de Krypton, que se aproximava do inédito aniversário de 40 anos de publicação, e que reverberou nas publicações tradicionais, mensais, também com grandes histórias produzidas.

A Chegada de Jenette Khan

Curiosamente, o lançamento de Superman versus the Amazing Spider-Man chegou às bancas exatamente no momento em que a DC Comics passou por uma grande mudança editorial. Com o filme do Superman em produção (sim, ele de novo, aguarde um pouco mais…), a Warner Bros. olhava com mais atenção à sua divisão de quadrinhos e não estava satisfeita com os resultados. O mercado de HQs diminuía a passos largos desde a década passada – e isso não era um problema apenas da DC, óbvio – mas preocupava à companhia o risco crescente de perder a liderança desse mercado.

Homem-Aranha e Superman: batalha também nas vendas.

Efetivamente, lembre, a revista Superman, a número 1 do mercado dos EUA, chegou ao ano de 1970 vendendo a metade do que vendera uma década antes. E os números continuaram a cair, passando de 446 mil unidades mensais naquele ano para 282 mil no ano de 1974, quase outra queda de 50%. E pior: neste último ano, pela primeira vez, Superman perdeu o posto de revista mais vendida do segmento de super-heróis… e justamente para Amazing Spider-Man, que vendeu um média mensal de 288 mil. O homem de aço recuperou a liderança em 1975, com 293 mil contra 273 mil, mas sobre uma diferença pequena. O alerta soou.

A Warner achou que a administração da DC cometera alguns equívocos comerciais no período, como o aumento dos preços em prol do aumento de páginas (trazendo quase sempre apenas republicações nas adicionais) e resolveu promover mudanças. O colorista e gerente de vendas Sol Harrison foi promovido a Presidente da DC Comics (ainda chamada oficialmente de National Comics, por incrível que isso possa nos parecer nos dias de hoje), e Carmine Infantino foi removido do cargo de publisher, que foi ocupado por Jenette Kahn, que construiria uma longuíssima história na editora.

Jenette Kahn, a primeira publisher mulher da DC Comics.

Nascida em Boston em uma família judia, Kahn tinha 28 anos de idade e era uma bem sucedida editora comercial, grande fã de quadrinhos, mas que não tinha experiência profissional na área das HQs. Mas ela entendia de leitores e mercado, e gostava do produto e parecia um bom nome. E era mesmo! E era a primeira mulher a assumir a liderança da DC em sua história. Ela decidiu não cortar cabeças, mas apenas reestruturar a redação, com o veterano desenhista Joe Orlando como editor executivo, e Dick Giordano mantido como editor-chefe.

Jenette Kahn promoveu uma série de mudanças operacionais na DC, incluindo um rebranding da companhia. Acredite se quiser: até este momento da história, o nome oficial da empresa ainda era National Comics, e Kahn mudou isso, fazendo estrear em 1977 um novo logotipo da editora, com o clássico visual circular e estrelas, e adotando definitivamente o nome DC Comics como nomenclatura oficial da companhia, mais de 40 anos após sua fundação.

Histórias Especiais: Superman 40 Anos

A revista Superman atingiu a marca comemorativa do número 300 em junho de 1976, e foi celebrada com uma história especial da dupla matadora Elliot S. Maggin e Cary Bates com arte de Curt Swan, numa daquelas “histórias imaginárias” na qual a nave do pequeno Kal-El chega à Terra (mas à nossa Terra, o mundo real) no ano de 1976, de modo que ele se tornará o Superman no ano de 2001! (A data talvez fosse uma alusão ao filme de Stanley Kubrik). Na trama, Kal-El cai no Oceano e é alvo de uma disputa entre os Estados Unidos e a União Soviética, mas o bebê termina nas mãos do tenente Thomas Clark, que o leva aos militares e o menino fica sob a responsabilidade do major Kent Garrett, que o chama de Skyboy, até que nos anos 1990, quando uma potência do terceiro mundo desequilibra a balança mundial da Guerra Fria, Skyboy ganha um uniforme e impede a detonação de uma bomba nuclear, infelizmente, à custa da vida de Garrett.

Como todos dão Skyboy como morto também, o rapaz decide viver escondido entre os humanos, adotando o nome de Clark Kent (a partir dos dois homens que mudaram sua vida) e trabalha como repórter por uma década mais ou menos até que, no ano 2001, aquela terceira potência emerge de novo ainda mais perigosa, armada de um robô devastador, e Clark não tem outra opção além de resgatar seu uniforme e acabar com a ameaça. Vencedor, ele novamente volta para sua vida anônima. Essa história marcou época e serviria de inspiração para várias outras aventuras imaginárias do herói no futuro, inclusive, as aclamadíssimas Superman: A Foice e o Martelo e Superman: Identidade Secreta.

Superman 301 foi a primeira a trazer na abertura o crédito de “criado por Jerry Siegel & Joe Shuster”, e trouxe uma história de Gerry Conway e o incrível desenhista José Luís Garcia Lopez na qual o vilão Solomon Grundy, arqui-inimigo do Lanterna Verde da Terra 2 (ou seja, da versão dos heróis da década de 1940) reaparece na “nossa” Terra 1 em consequência dos eventos da velha Justice League 91 e 92 lá dos anos 1960. O vilão fica furioso porque descobre que não tem um correspondente na nossa Terra e é um páreo duro ao homem de aço.

José Luís Garcia Lopez, em 2016.

Um parênteses para falar de José Luís Garcia Lopez: nascido na Espanha, em 1948, mas seus pais se mudaram para a Argentina quando tinha apenas três anos de idade e cresceu por lá, mas nos anos 1960 foi tentar a carreira nos Estados Unidos e terminou na Charlton Comics, mas em 1974, foi contratado pela DC através do editor Joe Orlando, e inicialmente fez o nanquim na arte de artistas como Curt Swan e Dick Dillin nas histórias secundárias do Superman publicadas em Action Comics e Superman, incluindo a série The Private Life of Clark Kent, focada na vida “doméstica” do herói que saía naqueles tempos, começando a assumir o lápis naquele momento em 1976 e, a partir daí, se tornando um dos mais importantes artistas da DC Comics, com seu traço bonito, clássico e icônico.

Garcia Lopez faria inúmeros trabalhos importantes para a DC e o Superman, como veremos, e a partir de 1982, ficou responsável por criar o Guia de Estilo dos personagens da editora, fazendo belíssimas ilustrações icônicas que serviram não apenas de base para produtos licenciados, como brinquedos, mas também ilustravam embalagens e mercadorias inúmeras baseadas nos personagens da editora, como cadernos, roupas de cama, utensílios domésticos e muito mais. Até os dias de hoje as artes do artista são vistas nesses produtos e ele continua a realizar Guias de Estilo de tempos em tempos.

De volta às revistas, Superman 302 trouxe outra célebre aventura, agora por Maggin e Garcia Lopez, na qual Lex Luthor consegue fazer o homem de aço aumentar de tamanho até uns 25 metros de altura e toma controle de seus poderes, mas o herói ganha o auxílio de seu amigo da Liga da Justiça, o Átomo, que consegue fazê-lo voltar ao normal e derrotar o vilão.

Arte de José Luís Garcia Lopez.

Enquanto isso, em Action Comics, a edição 460, de junho de 1976, por Cary Bates e Curt Swan, dá início a um arco que quatro números celebrativos do aniversário da Independência dos Estados Unidos, que celebrava 200 anos naquela época. Na trama, um alienígena chamado Karb-Brak, da Galáxia de Andrômeda, vive escondido na Terra, mas descobre que a presença do homem de aço o faz assumir sua verdadeira aparência. Ele decide, então, matar o Superman, que a princípio pensava ser Steve Lombard, e depois cria uma confusão tentando virar a opinião pública contra o último filho de Krypton, ao mesmo tempo em que enaltece a imagem de Clark Kent como um “verdadeiro herói”, para por fim, enviar o herói ao passado, ao ano de 1776, onde sem memória, Clark termina trabalhando como repórter no jornal de Benjamin Franklin até se recordar de quem é e combater Karb-Bak em meio aos eventos da Independência.

Arte de capa por José Luís Garcia Lopes.

Na edição 310, de abril de 1977, Martin Pasko e Curt Swan introduzem a segunda versão do vilão Metallo, Roger Corben, o irmão mais novo do original John Corben dos anos 1960. Este vilão seria mais recorrente e voltaria outras vezes, iniciando aqui um arco mais longo contra o nosso herói.

Arte de Neal Adams.

Uma estratégia da DC para aumentar as vendas foi criar novas revistas especiais, então, em setembro de 1977 foi lançada DC Special Series, uma revista quinzenal focada em personagens avulsos da editora: o primeiro número trouxe alguns dos heróis da Liga da Justiça (exceto o Superman) em aventuras individuais inéditas, enquanto os números 02, 03 e 04 trouxeram Monstro do Pântano, Sargento Rock e histórias das revistas de terror, a maior parte com republicações.

Arte de José Luís Garcia Lopes.

Mas DC Special Series 05, de novembro de 1977, trouxe uma história especial inédita do Superman, The Second Coming of Superman, por Cary Bates e Curt Swan, na qual o homem de aço viaja no tempo (como nos velhos tempos) para 100 milhões de anos no passado e impede que uma colossal tromba d’água alimentada por raios cósmicos destrua o planeta, mas sem saber, essa ação faz com que uma raça de alienígenas chamados Quorxa que viviam escondidos na Terra se tornassem imortais, e no presente, cultuam o último filho de Krypton como se fosse um deus. Quando, de sua ilha invisível no meio do oceano, veem uma estátua gigante do Superman construída para a celebração do Superman Day em Metrópolis, os Quorxa pensam que o “segundo advento” do homem de aço está próximo e enviam uma emissária ao continente para tentar localizá-lo, o que leva o herói a conhecer seus adoradores, descobrir sua história e saber que eles estão começando a perder sua habilidade de serem imortais e tentar, inutilmente, convencê-los de que não é um deus.

Mas Lex Luthor descobre a existência dos aliens e pensa em usá-los em seu plano para matar o Superman, contando com a ajuda de Brainiac para recriar a tromba d’água cósmica da primeira vez. Quase conseguindo seu intento, o Superman precisa de todas as suas forças e habilidades para vencer os vilões e impedir a tragédia cósmica, num feito que, sem querer, termina por devolver a imortalidade aos Quorxa, que continuam adorando o último filho de Krypton como seu deus. Uma história divertida na qual Bates explora o herói como um ídolo e seu potencial de ser algo mais.

Alguém aí estava com saudades das capas de Neal Adams?

Naquele mesmo mês chegava às bancas Superman 317, por Pasko e Swan e uma bela capa de Neal Adams, prosseguindo o arco com o segundo Metallo, que se mostrou um oponente digno do homem de aço. E esta edição ainda trouxe uma novidade: no final, Lana Lang reaparece para se tornar apresentadora da WGBS, dividindo a bancada com seu velho amigo Clark Kent. Era a oportunidade perfeita para retomar a rivalidade entre Lana e Lois pelo amor do homem do amanhã e ampliar de novo o elenco coadjuvante da vida pessoal de Clark.

Como se vê, na segunda metade dos anos 1970, o Superman mantinha seu papel de um dos personagens mais populares do planeta, mas suas histórias começaram a perder força de novo. Curiosamente, algumas grandes histórias do homem de aço foram publicadas nessa época, em uma tetralogia de revistas especiais em formato tabloide, bem maior do que o das revistas tradicionais. O sucesso de Superman versus the Amazing Spider-Man ficou na memória dos editores da DC e, em 1978, quando o homem de aço completou 40 anos de idade, foram publicados no mesmo formato outras três revistas com confrontos especiais. Era uma maneira de celebrar o único super-herói que fora publicado ininterruptamente por tanto tempo até ali.

O veículo para essas histórias especiais foi uma coleção chamada All New Collector’s Edition, predecessora de uma anterior chamada Limited Collector’s Edition, criada por Sol Harrison quando ainda era o gerente de vendas da DC, começando em dezembro de 1972 com a estranha numeração C-20 (mesmo não havendo as 19 anteriores!). Era uma coleção dedicada a republicações de “melhores histórias”, mas num formato magazine, que era ligeiramente maior do que o formato comics e trouxe um bom punhado de números, que incluíram desde Ruldoph (uma das renas de Papai Noel) ou personagens apenas licenciados pela DC, como Shazam ou Tarzan, passando por algumas coisas próprias da editora, como histórias da revista de terror House of the Mystery e até o Batman.

Arte de José Luís Garcia Lopez.

Porém, tudo mudou no final de 1977, quando a publicação adotou o nome All New Collector’s Edition, a partir do número C-53 e se focou em histórias inéditas e mais nos personagens consagrados da DC. A edição C-54, de janeiro de 1978, trouxe a bombástica Superman vs Wonder-Woman, escrita por Gerry Conway e desenhada por José Luis Garcia-Lopez, trazendo as versões da Terra 2 dos personagens, nos tempos da II Guerra Mundial. A C-55 trouxe uma aventura de Superboy and the Legion of Super-Heroes.

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Muhammad Ali e Superman na gloriosa arte de Neal Adams.

A cereja do bolo dessa série foi a histórica Superman vs Muhammad Ali, que saiu originalmente na All New Collector’s Edition C-56, de abril, escrita por Dennis O’Neil e desenhada por Neal Adams, na qual o homem de aço é obrigado a confrontar o maior campeão da história do boxe. Apesar de soar meio boba a ideia, num primeiro momento, a trama é incrivelmente bem desenvolvida e mostra um motivo crível e inteligente para que o homem de aço precise lutar contra um campeão atlético, mas que é apenas um homem comum. É preciso lembrar, também, que Muhammad Ali não apenas era um famoso boxeador, mas virou um símbolo da luta pelos direitos civis dos negros (algo que a história incorpora), pois quando era ainda chamado Cassius Clay se recusou a lutar na Guerra do Vietnã, foi preso e perdeu o título de campeão mundial de boxe. Ele reconquistou o título, chegou a perdê-lo para George Foreman, e o recuperou depois, em uma sequência de lutas célebres pelos anos 1970.

Outro ponto da história é a arte de Neal Adams, que até ali quase que exclusivamente apenas tinha desenhado capas para as revistas do Superman, mas aqui, assume com maestria e dedicação uma revista inteira focada no homem de aço e é de uma beleza inacreditável. É considerada uma das melhores histórias do Superman em todos os tempos, com um bom roteiro e uma arte simplesmente maravilhosa. Há uma invasão alienígena na trama, e os desenhos de Adams do Superman combatendo uma frota de naves é uma das coisas mais belas já realizadas com o personagem.

A capa dupla da publicação traz vários personagens da DC na plateia, mas especialmente, dezenas de personalidades da vida real ilustradas de modo realístico por Adams, que incluem o presidente Jimmy Carter (na extrema direita em baixo) e, com bastante destaque, o jogador brasileiro Pelé (no canto esquerdo).

A All New Collector’s Editiion C-58, de maio, trouxe Superman vs Shazam, novamente escrita por Gerry Conway com arte de Rick Buckler, trazia o real encontro entre o homem de aço e o Capitão Marvel, personagem então licenciado pela DC. Lembre que já havia ocorrido um “embuste” de uma briga (disfarçada) dos dois, porém, nesta ocasião, os dois heróis de verdade se batem um contra o outro, com uma ameaça às realidades de cada um (a Terra 1 e a Terra S).

Após a edição C-59 trazer uma história do Batman, a coleção foi finalizada no número C-62 com Superman: The Movie, já em março de 1979, e não uma HQ, mas uma revista informativa com bastidores do filme do homem de aço. (Sim, iremos mesmo falar sobre ele. Tenha calma!).

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O casamento de Superman e Lois. Mas na Terra 2.

A comemoração dos 40 anos do Superman também se deu em suas revistas principais, procurando criar histórias memoráveis. A edição do aniversário, no mês de junho de 1978, foi Action Comics 484, por Cary Bates e Curt Swan, com capa de José Luís Garcia-Lopez, que trouxe um evento bombástico: o casamento de Lois Lane e do Superman. No entanto, os leitores ficaram um pouco frustrados ao notar que se tratava do matrimônio das versões da Terra 2 e não da Terra 1. A DC insistia que fazia algum sentido a enganação, pois era uma celebração de Action Comics 01, que efetivamente trazia o herói da Terra 2 e não o homem de aço do presente da Terra 1 (que só vai aparecer e se consolidar na segunda metade da década de 1950).

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Capa de “Superman 338” por Ross Andru.

Por causa disso, foi mais impactante Superman 338, de agosto, o número celebrativo das quatro décadas, por Len Wein e Curt Swan, com capa de Ross Andru, que trouxe a história em que Superman e Supergirl tentam devolver a Cidade Engarrafada de Kandor ao seu tamanho natural ao usar um artefato para acumular a energia da explosão de uma supernova para usá-la para aumentar a cidade. O processo dá certo, mas como os kandorianos não podem viver na Terra, o Superman encontra um lugar para eles em um planeta de uma outra dimensão. Mas há um preço: o herói tem pouco acesso ao lugar.

Outra forma de celebrar o aniversário do Superman foi criar mais uma revista para sua franquia, e em agosto de 1978, chegou às bancas DC Comics Presents, uma publicação do tipo team-up, ou seja, no mesmo estilo da The Brave and the Bold, que trazia o Batman interagindo com outros personagens da editora. DC Comics Presents tinha a mesma função: a cada mês apresentava o Superman atuando ao lado de outro personagem, em histórias mais voltadas à ação e sem a obrigação de desenvolver os personagens coadjuvantes ou o universo “doméstico” do herói.

O número 01 de DC Comics Presents inicia do ponto que a editora sabia que os fãs iam amar: mais uma corrida entre Superman e Flash, dessa vez, para impedir uma grande ameaça extraterrestre e com a dupla correndo em pleno espaço sideral! O roteiro desta edição e da seguinte (que continua a aventura) foi de Martin Pasko e a arte de José Luís Garcia Lopez, que se manteve como o artista fixo nas primeiras edições, ao passo que os escritores seriam circulares, com David Michelinie e Jack C. Harris na edição 03 (com Adam Strange) e Len Wein na 04 (com Metal Men), com Paul Levitz assumindo os roteiros de modo fixo a partir da edição 05 (Aquaman) com artistas circulando, como Murphy Anderson, Curt Swan, Dick Dillin etc.

Os óculos hipnóticos do Superman garantem o segredo de Clark Kent. Arte de capa por Ross Andru.

As comemorações prosseguiram ao longo do ano e a DC aproveitou a onda do lançamento do filme do herói para fazer Superman 330, de dezembro de 1978, por Martin Pasko e Swan, com capa de Andru, no qual é explicada a razão porque o mundo não percebe que Clark Kent é o homem de aço: o Superman usa lentes kryptonianas hipnóticas nos seus óculos que fazem todos verem Clark como um sujeito mais baixo, mais magro, com um nariz ligeiramente maior e menos bonito do que na realidade. A trama também mostra que, apesar de canalizada pelas lentes, o efeito é fruto de um poder latente do próprio homem de aço, que precisa usar sua super-hipnose para livrar a cidade de Metrópolis do domínio do vilão Spellbinder.

Embora esse recurso tenha sido pouco mencionado depois disso, até segunda ordem, ele é um elemento canônico do herói pré-Crise e, talvez, até tenha se mantido na realidade posterior ao reboot que veremos alguns anos à frente.

Superman – O Filme: O Primeiro Blockbuster de Super-Heróis

Todavia, a maior comemoração dos 40 anos do Superman foi mesmo o lançamento bombástico de Superman – O Filme pela Warner Bros. Pictures, não custa lembrar, empresa que era a dona da DC Comics. E dessa vez, diferente daquelas velhas produções com Kirk Allen ou George Reeves, não era uma produção barata para as matinês, mas uma superprodução. Tanto que foi o primeiro blockbuster de super-heróis já lançado! Hollywood estava apenas começando a ideia do “arrasa-quarteirão” de verão – que historiadores atribuem o pioneirismo a Tubarão (1975) de Steven Spielberg – e o primeiro Star Wars (No Brasil: Guerra nas Estrelas, na época) tinha saído apenas no ano anterior ao do homem de aço.

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Christopher Reeve: o Superman para toda uma geração.

Tudo começou em 1969: quando a Kinney (que havia comprado a DC Comics dois anos antes) comprou também o estúdio Warner Bros., um dos mais tradicionais dos EUA. No entanto, apesar de ser proprietária de personagens como Superman, Batman e Mulher-Maravilha, a Warner não tinha interesse em desenvolver filmes sobre eles, porque os super-heróis ainda eram considerados entretenimento de “segunda categoria”, com os típicos seriados de cinema dos anos 1940, além do fato de que a série de TV do Batman, com seu tom pastelão e brega, deixou um gosto amargo como algo ao qual ninguém queria estar associado.

Ilya e Alexander Salkind, os produtores.

A história veio, portanto, por outro rumo, através do jovem produtor de cinema Ilya Salkind e seu pai Alexander, que decidiram produzir um filme baseado no Superman. Os Salkinds eram um sólido empreendimento cinematográfico já em sua terceira geração: o avô Mikhail Salkind nasceu no que hoje é a Polônia no seio de uma família judaica, e seu filho Alexander nasceu em 1921, mas a perseguição aos judeus e a ascensão soviética na Rússia levaram a família a imigrar para Paris, onde Mikhail começou a trabalhar como produtor cinematográfico, e Alexander se uniu ao pai mais tarde, trabalhando juntos em produções europeias por décadas, bem como passaram um tempo no México (nos anos 1940) e em Hollywood, realizando filmes como O Julgamento dirigido por Orson Welles, em 1962. O neto de Mihkail, filho de Alexander, Ilya Salkind, nasceu na Cidade do México, em 1947, e no fim da década de 1960 começou a trabalhar com o pai e o avô.

O grande sucesso comercial da família Salkind veio com Os Três Mosqueteiros (1972), dirigido pelo britânico Richard Lester, famoso por ter realizado os filmes dos Beatles (A Hard Day’s Night, de 1964, e Help!, de 1965) e alguém versado na comédia. A produção ganhou uma sequência imediata que saiu em 1974, Os Quatro Mosqueteiros, mas gerou uma confusão com o Sindicato dos Atores em Hollywood, porque os Salkinds e Lester filmaram os dois filmes ao mesmo tempo, de modo que a equipe técnica foi paga por um filme, mas atuou em dois.

Em uma entrevista posterior, o caçula Ilya Salkind disse que a ideia para um filme do Superman veio em 1973, quando viu o cartaz de um filme francês sobre o Zorro, e pensou que um super-herói com um tratamento sério poderia render um filme sensacional e ter um visual incrível. Tendo sido criança em Nova York nos anos 1950, Ilya era fã de quadrinhos, e do homem de aço em particular, que julgou a melhor escolha para um longametragem porque era, ainda naquele ponto, o mais famoso entre todos os super-heróis. O avô Mihkail morreu após o lançamento de Os Três Mosqueteiros, e Ilya precisou convencer o pai, que nunca ouvira falar no homem de aço, de que aquela poderia ser uma empreitada de sucesso, em vista da fama do personagem. Posteriormente, Alexander Salkind disse que a todos a quem perguntou uma opinião na indústria cinematográfica sobre a viabilidade de um filme sério sobre o Superman recebeu um feedback positivo, sobre como conheciam e gostavam do herói.

A negociação com para adquirir os direitos do personagem, contudo, não foi fácil. Iniciando as conversas com o Departamento de Marketing da própria DC Comics, recebeu muitas exigências, pois a editora ficara ressabiada com o que houve na série de TV do Batman e queria controle criativo total sobre a adaptação de seu produto mais valioso. Após meses e meses de conversa difícil, Alexander Salkind interviu: escaldado por sua experiência em Hollywood, decidiu fazer a negociação “de cima para baixo” e foi direto à Warner, que lhe encaminhou rapidamente à Warner Publications, subsidiária responsável pelo parque editorial do conglomerado, o que incluía a DC. Em poucos dias de conversa, Alexander conseguiu o contrato, assinado em novembro de 1974.

O contrato mostrava que a Warner não estava interessada: os Salkinds tinham permissão de adaptar o Superman durante um período de 25 anos e seriam os responsáveis por financiar a empreitada, com a Warner garantindo apenas uma primazia para a distribuição dos filmes (caso tivesse interesse – com a distribuição passando a outros estúdios se assim quisessem). Pelo menos, o contrato garantia algum poder de supervisão pela DC Comics, que podia intervir na trama geral, no uso dos personagens e na escalação do elenco.

Robert Redford, o favorito da Warner para viver o Superman.

Como o plano era fazer uma superprodução ambiciosa, a DC solicitou aprovação de uma lista de candidatos a viver o Superman e os Salkinds elaboraram uma lista com Al Pacino, Clint Eastwood, Dustin Hoffman, James Caan, Steve McQueen, alguns dos atores mais aclamados da época, além do boxeador Muhammad Ali, que já tinha “lutado” com o homem de aço. A Warner indicou sua preferência: Robert Redford, e todos esses atores foram realmente sondados ao papel e todos recusaram, por não levarem (ainda) a sério a ideia de um filme de super-heróis. Para o roteiro, Ilya Salkind contratou o escritor de ficção científica Alfred Bester, que escreveu um tratamento de roteiro (uma versão prévia do roteiro, com uma sinopse estendida e tópicos descritivos sobre os personagens, trama e tom da história) e você deve lembrar, efetivamente escreveu HQs do Superman nos anos 1940, mas Alexander queria um nome mais famoso para a empreitada.

Mario Puzo.

E, em 1974, nenhum escritor era mais famoso ou aclamado do que Mario Puzo, que escrevera o livro O Poderoso Chefão (1969), que fora um grande sucesso, e também o responsável por adaptá-lo no roteiro do filme dirigido por Francis Ford Coppola (1972), que desde o início foi aclamado como um dos melhores filmes da história do cinema, bem como fez o roteiro de sua sequência, O Poderoso Chefão – Parte II (1974), no qual usa tramas do livro não aproveitadas no filme original. Alexander abordou Puzo e ele aceitou fazer o roteiro pela fortuna de 600 mil dólares. O curioso é que Puzo não era alheio ao mundo dos quadrinhos, tendo trabalhado numa editora que era proprietária da Marvel Comics, e portanto, era não apenas amigo, mas colega de trabalho de Stan Lee.

Marlon Brando.

Com Puzo a bordo, ficou mais fácil vender a seriedade do filme e os Salkinds anunciaram, no início de 1975, dois grandes atores ganhadores do Oscar para compor o elenco: Marlon Brando como Jor-El e Gene Hackman como Lex Luthor. Brando era o ator mais aclamado de sua geração, famoso por interpretações intensas em obras como Um Bonde Chamado Desejo (1951), Sindicato dos Ladrões (1954 pelo qual ganhou um Oscar), Júlio César (1953), e mais recentemente, o polêmico O Último Tango em Paris (1973) e o papel icônico de Don Vito Corleone em O Poderoso Chefão (1972), que lhe rendeu seu segundo Oscar. Brando aceitou um contrato de 3 milhões de dólares (sendo o ator mais bem pago da época) por apenas 12 dias de filmagens mais 11% de porcentagem da bilheteria.

Gene Hackman.

Já Hackman era conhecido por interpretações enérgicas, que lhe valeram indicações ao Oscar por Bonnie and Clyde (1967), I never sang for my father (1970), ganhando o prêmio por Operação França (1971), além de estrelar os sucessos Poisedon (1972) e A Conversação (1974). Vários outros atores famosos ganharam pequenos papeis: o herói dos tempos do faroeste Glen Ford como Jonathan Kent; a britânica Suzanne York como Lara; Jackie Cooper como Perry White; Ned Beatty como Ottis, o assistente atrapalhado de Luthor.

Embora não conseguissem ninguém para o papel do Superman em si, garantir Puzo, Brando e Hackman no time virou o jogo para a produção e uma série de diretores se interessou pelo projeto, um dos primeiros deles Steven Spielberg, que Ilya Salkind garante que era seu preferido para a vaga, porém, seu pai, Alexander, era mais comedido: até ali, Spielberg só tinha dirigido um único filme (Encurralado) e Tubarão só estrearia no verão daquele 1975. Alexander preferiu esperar o drama marítimo ser lançado para ver se o diretor era mesmo bom, e quando isso aconteceu, e foi um sucesso sem precedentes, Spielberg não precisou mais lutar por trabalho e preferiu se comprometer com outros projetos, como Contatos Imediatos de Terceiro Grau, que lançaria em 1977. George Lucas também declinou da oferta, pois já estava trabalhando em Star Wars.

Guy Hamilton, foi o primeiro diretor.

Nomes premiados como Francis Ford Coppola (O Poderoso Chefão), William Friedkin (Operação França, O Exorcista), Peter Yates (Bullit), Sam Peckinpah (Meu Ódio Será tua Herança, Sob o Domínio do Medo, Pat Garret and Billy the Kid) efetivamente negociaram a direção, com Yates e Peckinpah avançando bem nas negociações, mas quem fechou o contrato foi o britânico Guy Hamilton, famoso por seus filmes da franquia de James Bond (007 Contra Goldfinger, 1965; 007 – Os Diamantes são Eternos, 1971; Com 007 Viva e Deixe Morrer, 1973; 007 Contra o Homem da Pistola de Ouro, 1975), além do drama épico War of Britain (1969).

Non, Zod e Úrsula, na versão final.

Em julho de 1975, Mario Puzo entregou seu roteiro de Superman: um colosso de 620 páginas que não era apenas épico, mas uma saga! Puzo pesquisou sobre o personagem (com a ajuda da editoria da DC liderada, ainda, por Carmine Infantino) e levou à serio sua missão, criando um filme sério e cheio de mitologias e associações messiânicas, com uma divisão não tradicional da trama, que trazia as origens em Krypton (não apenas a explosão do planeta, mas também a rivalidade entre Jor-El e o General Zod), Clark Kent chegando à Terra e crescendo em Smallville, indo ao Ártico e construindo sua Fortaleza da Solidão, se tornando o Superman, chegando a Metrópolis para trabalhar como repórter (mas na TV Galáxia como nas HQs dos anos 1970 e não no Planeta Diário), sua paixão por Lois Lane, ele combatendo a ameaça nuclear de Lex Luthor, a explosão de duas bombas atômicas, uma das quais liberta os prisioneiros kryptonianos da Zona Fantasma, o ataque de Zod e seus asseclas (um deles Jax-Ur) à Terra, o que faz um ciclo perfeito com o início do filme, justamente no momento em que o homem de aço havia decidido abandonar seus poderes pelo amor de Lois, e precisando do sacrifício de Jor-El em sua forma fantasmagórica na Fortaleza, que entrega ao filho sua “alma” para que recupere os poderes e tenha a batalha final com Zod.

Naquele ponto, Puzo era um experiente roteirista de Hollywood, e com certeza sabia que seu roteiro era suficiente para um filme de 10 horas de duração, ou pelo menos, três filmes de três horas cada. Não se sabe exatamente por que ele escolheu essa abordagem. O diretor contratado Guy Hamilton amou o texto, mas era óbvio que ele era impossível de filmar, então, em acordo com os Salkinds, Hamilton contratou a dupla Robert Benton e David Newman para adaptar o roteiro de Puzo como dois filmes, Superman I e II, já planejando a filmagem em conjunto de ambos, como os Salkinds fizeram com Os Três Mosqueteiros. Em seguida, contrataram também Leslie Newman, esposa de David, para escrever as cenas e diálogos de Lois Lane, para lhe dar um ar mais autêntico e feminino. O trio entregou o roteiro em julho de 1976, diminuindo o material para 400 páginas combinadas e carregando no tom da comédia. Com o roteiro em mãos, os Salkinds e Hamilton começaram a pré-produção na Itália, construindo cenários e gastando 2 milhões de dólares em testes de voo buscando tornar a habilidade aérea do Superman algo crível para uma produção séria.

Mas outro percalço atingiu a produção em seguida, quando Marlon Brando descobriu que não poderia filmar na Itália: a justiça abrira um processo contra ele por obscenidade, por causa de O Último Tango em Paris, de modo que poderia ser preso se colocasse os pés no país. A melhor alternativa era transferir a produção para o Reino Unido, porém, àquela altura, Hamilton era um exilado fiscal e também não podia ficar na Inglaterra por muito tempo sem ser preso. Tendo em vista que Brando era o maior salário da produção e Hamilton ficou doente, os Salkinds resolveram dispensar o diretor, o que foi feito amigavelmente.

Christopher Reeve e Richard Donner.

No final de 1976, a produção se deslocou para a Inglaterra enquanto a busca por um novo diretor começou, e terminaram escolhendo Richard Donner, de A Profecia. Donner não gostou do roteiro de Benton-Newman-Newman, que achou muito camp, e contratou Tom Mankiweickz para reescrever o texto, autor este de todos os filmes de James Bond na década de 1970.

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Superman – O Filme trouxe uma origem com diferenças.

Embora a Warner adorasse ver um nome famoso no papel do homem de aço, como Robert Redford ou Paul Newman (que recusou os papeis de Superman, Jor-El e Luthor seguidamente), Donner optou por um nome desconhecido, para fortalecer o personagem, mas as audições com mais de 200 candidatos transcorreram por meses e meses a partir do fim de 1976 sem encontrar ninguém que realmente agradasse no duplo papel de Superman e Clark Kent. No fim, acabou escolhido o novato Christopher Reeve, que inicialmente fora recusado porque Donner e os Salkinds o consideraram magro demais para o papel. Mas quando Reeves colocou a roupa de Superman e fez os testes (usando as cenas da varanda de Lois), todos concordaram de que ele era o homem certo para o papel. Ilya Salkind contratou o famoso fisiculturista e ator David Prowse (que logo logo ficaria mundialmente conhecido por vestir a armadura de Darth Vader em Star Wars) para fazer um intenso treinamento em Reeves para ele ganhar músculos e massa corporal.

Eles tinham tempo, porque decidiram filmar primeiro todas as cenas de Brando e Hackman (para os dois filmes) para que ambos ficassem liberados para outras produções, e após escolherem Margot Kidder como Lois Lane, também após dezenas de testes, as filmagens iniciaram em março de 1977, mas como era o filme mais caro já produzido (55 milhões de dólares de orçamento) e dois filmes seguidos (partes I e II), as filmagens demorariam nada menos do que 19 meses!

E foram um pandemônio com brigas homéricas entre Donner e os Salkinds, que discordavam do tom da história; além de estouros no orçamento; atrasos; e enorme dificuldade em deixar os efeitos especiais críveis. As relações ficaram tão ruins que Richard Lester – que havia dirigido Os Três Mosqueteiros – foi contratado como produtor executivo para servir de intermediário entre Donner e Salkinds para que eles não se matassem, ainda que o britânico tenha se recusado a aparecer nos créditos. quando as filmagens entraram no ano de 1978 e fizeram a produção perder a janela de lançamento do verão, para o qual ambicionavam lançar, decidiram interromper o trabalho em Superman II para se concentrar somente no primeiro.

Isso criou um problema, porque a parte II ficaria inacabada – ainda que tenha sido feito 75% da sequência – e não havia garantias de que a parte I seria um sucesso. Por causa disso, Donner decidiu eliminar o gancho que havia no fim do primeiro filme, chamando para a sequência e dar um fim acabado ao primeiro. Por isso, Donner e Mankieweicks pegaram o fim da parte II (a sequência da volta no tempo) e colocaram como fim do primeiro filme, deixando um encerramento mais ordinário ao segundo.

Com todos os atrasos e problemas, o filme só foi concluído no mês de outubro, às vésperas de seu lançamento em dezembro de 1978, e entrar nas comemorações dos 40 anos do personagem – e na temporada de Natal dos cinemas!

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Superman se comunica com Jor-El na Fortaleza da Solidão.

Mas deu certo: Superman – O Filme foi um estrondoso sucesso de bilheteria com US$ 300 milhões (um número muito alto na época) e aclamado pela crítica. A Academia de Artes e Ciência de Hollywood até criou um Oscar especial de Efeitos Visuais para premiar o filme no ano seguinte – categoria que depois se tornou fixa. O filme é lembrado como exemplo de adaptação dos quadrinhos e criou uma imagem icônica do Superman na figura do ator Christopher Reeve.

Jerry Siegel and Joe Shuster (creators of Superman character for the original comics)
and Joanne Carter
© 1979 Ulvis Alberts

Jerry Siegel e Joe Shuster foram procurados pela imprensa para falar sobre suas impressões acerca do longa e ambos foram apenas elogios. Shuster gostou bastante e Siegel disse que o Superman de Christopher Reeve era tudo o que ele sempre imaginou. Depois de terem garantido seus créditos de criação, esta foi a última vez em que a dupla de criadores teria espaço na grande mídia vinculados ao personagem. Dali em diante, Siegel e Shuster prosseguiriam suas vidas com mais discrição e com apenas alguns acenos ao mundo nerd, por meio de convenções ou coisas do tipo.

A Implosão da DC

A queda na vendas de HQs experimentada no fim dos anos 1960 não foi pontual: ao contrário, os números prosseguiram em decréscimo por muito tempo e o mercado começou a se desestabilizar no fim da década de 1970, vivenciando uma crise tão expressiva quanto aquela de 20 anos antes. A revista Superman, a mais vendida da DC Comics, que chegou a ter média de 800 mil cópias mensais vendidas naquele primeiro período, e entrou nos anos 1970 com média de 446 mil cópias, caiu para menos de 300 mil unidades em 1974 e o declínio persistente prosseguiu, chegando a 176 mil em 1980. Sua irmã Action Comics, que vendia pouco menos do que 330 mil cópias mensais em 1970, chegou a 1974 com 253 mil unidades, a 177 mil em 1977 e em 1980 atingiu 116 mil unidades.

O Raio Negro foi um dos que perdeu a revista na Implosão.

Para todo o restante do parque editorial da DC a situação era ainda pior. O resultado: mais de duas dúzias (isso mesmo!) de revistas foram canceladas entre outubro e novembro de 1978, num evento editorial tão forte e impactante que ficou conhecido como DC Implosion. Dentre as vítimas, veteranos como Aquaman, House of Secrets, Teen Titans e até Batman Family; outras de carreira mediana, como Shazam, DC Special, Kamandi e todo o Quarto Mundo que restara de Jack Kirby; além de revistas que tinham acabado de ser lançadas, com os novos heróis juvenis de Black Lightning e Firestorm.

A franquia do Superman foi poupada, mas há de se lembrar que a própria criação de Superman Family, alguns anos antes, já era uma reação às vendas baixas. Esta sobreviveu mais um tempo (mas não muito!) ao contrário de sua prima da família do homem-morcego.

Isso não quer dizer que a franquia passou incólume a esse processo… Outrora campeão de vendas, as histórias da versão juvenil do herói iam muito mal e passaram por várias mudanças em busca de estabilidade. Já mencionamos que a revista original Superboy se encerrou efetivamente no número 196, de julho de 1973, pois a publicação mudou de título para Superboy Starring The Legion of Super-Heroes a partir da edição 197, do mês seguinte, reunido as duas atrações na mesma revista, em histórias separadas, e a publicação mudou de nome de novo a partir do número 222, de dezembro de 1976, para Superboy and the Legion of Super-Heroes, arranjo que durou por 37 meses até ser descontinuada na edição 258, de dezembro de 1979, no meio da temporada escrita por Gerry Conway e Joe Staton.

A DC meio que zerou tudo para o menino de aço e lançou, em janeiro de 1980, a nova The New Adventures of Superboy, cujo nome oficial para fins de catálogo era Superboy (vol. 2) 01, com histórias de Cary Bates e arte do veterano Kurt Schaffenberger, definindo que o jovem Clark Kent tinha 16 anos de idade em tramas que, se por um lado tentavam resgatar o espírito das aventuras de 20 anos antes, por outro, buscavam trazer elementos mais modernos e adequados ao público contemporâneo.

Não foram bem sucedidos.

Para o Alto… e Para Baixo! O Declínio da Franquia Cinematográfica

Enquanto as vendas dos quadrinhos caíam de modo alarmante, o homem de aço ainda alçava bons voos no cinema. Superman II – A Aventura Continua estreou com sucesso no fim de 1980 trazendo a épica batalha do herói contra o General Zod e seus asseclas, Ursa e Non, além de uma mãozinha de Lex Luthor. A produção, contudo, foi tão problemática quanto o primeiro longa: devido aos conflitos nas filmagens, o diretor Richard Donner foi demitido pelos produtores Alexander e Ilya Salkind, e substituído pelo diretor de britânico Richard Lester, mais famoso por A Hard Day’s Night e Help!, os filmes dos Beatles nos anos 1960, que tinha feito sucesso recentemente com Os Três Mosqueteiros. Todavia, Lester era um diretor de comédias e terminou por rechear Superman II de cenas de comédia pastelão e momentos “vergonha alheia”.

Richard Donner tinha filmado 75% do material de Superman II e Lester teve que refilmar 40% do material para garantir o direito (junto ao Sindicato dos Diretores) de ganhar o crédito pela direção, mudando o tom do filme. A Aventura Continua foi elogiado pela crítica e fez sucesso, mas com o passar do tempo, a crítica se tornou menos condescendente com o humor inapropriado de Lester. Por isso, em 2006, foi lançada outra versão do longa: Superman II – The Richard Donner’s Cut, como parte do box-set em DVD de todos os filmes do homem de aço até ali, resgatando a ideia original do filme, e que consegue ser melhor (e muito) do que a versão oficial. (O HQRock fez um post sobre o filme, leia aqui).

Mas tudo pode piorar, e a coisa piorou mais ainda em Superman III, lançado em 1983, onde o pastelão e a “vergonha alheia” é a linha principal do filme, tanto que o Superman em si se torna coadjuvante do comediante Richard Pryor, um sucesso na TV na época. O filme arrecadou apenas 1/4 da bilheteria do capítulo anterior e a crítica (e boa parte do público) odiou.

Supergirl também ganhou seu filminho.

Tanto que foi difícil conseguir financiamento para o quarto filme. E no meio, os Salkinds ainda fizeram um filme da Supergirl, lançado em 1984, estrelado por Helen Slater, que também foi um fiasco.

Por isso, para o quarto filme da série, os Salkinds terminaram vendendo os direitos do herói para o The Cannon Group, estúdio especializado em filmes de ação de baixo orçamento, estrelados por Chuck Norris, Charles Bronson e Jean Claude Van Damme, que só conseguiu a adesão de Christopher Reeve mediante uma série de promessas, como produzir um filme sério que ele queria realizar (essa cumprida) e poder definir a história, o tom e o diretor, o que levou Reeve a criar uma beleza de premissa: a intervenção do Superman na corrida atômica entre os EUA e a URSS nos estertores da Guerra Fria. No entanto, a Cannon passava por uma crise financeira e cortou o orçamento em mais da metade, o que os obrigou a cortar partes inteiras do filme (que sacrificaram a lógica da história: nada menos do que 45 minutos do longa foram cortados) e resultaram nos efeitos especiais ficarem basicamente inacabados. O resultado é que Superman IV – Em Busca da Paz é pavoroso, com um visual brega, atuações ruins, um vilão caricato (Nuclear Man), coreografias sem graça. E os bônus da versão em DVD mostram que as melhores cenas (aquelas que dariam profundidade à história) foram cortadas.

Lançado em 1987, foi um fiasco tão grande que pôs o fim na primeira franquia cinematográfica do Superman e demoraria nada menos do que 29 anos para o homem de aço alçar voo novamente na tela grande.

Uma Crise Editorial

Enquanto o Superman afundava no chão sua franquia cinematográfica, os quadrinhos não faziam melhor. Não bastasse a queda saltitante nas vendas (como apresentamos acima), a qualidade do material começou a cair também: seja por interferência editorial ou pelo cansaço da fórmula, as revistas do homem de aço, que iniciaram a década de 1970 cheia de inovação e inventividade, dez anos depois, estavam estagnadas e sem graça.

Em meio a isso, Action Comics chegou à histórica numeração 500, em outubro de 1979, trazendo uma história comemorativa por Martin Pasko e Curt Swan, na qual ao visitar o museu em sua homenagem em Metrópolis, o Superman narra toda a sua história, servindo como uma nova (e atualizada) reorganização cronológica do herói para a Era de Bronze. Ainda assim, a história mostrava que muita coisa permanecia a mesma em relação ao passado, pois Pasko e Swan basicamente copiaram os mesmos quadros de boa parte de Superman 146, de 1962, que fora criada por Otto Binder e Al Plastino com a mesma função na aurora da Era de Prata.

A revista ainda trouxe um texto em prosa de E. Nelson Bridwell narrando brevemente a história da própria revista.

Ainda assim, o início dos anos 1980 tem poucos destaques no campo criativo. Uma das exceções foi Action Comics 507 e 508, começando em maio de 1980, por Cary Bates e Curt Swan, com capa de Ross Andru, no qual o vilão Starshine leva à ressurreição temporária de Jonathan Kent, que pode partilhar alguns momentos tocantes com o filho adulto que não conheceu.

Arte de capa de Jim Starlin.

Uma adesão importante ao cânone do homem de aço veio em DC Comics Presents 27, de novembro de 1980, com texto de Len Wein e arte de Jim Starlin, na qual surge o vilão Mongul. Na trama, esse poderoso alienígena vem à Terra e sequestra os amigos do herói – Lois Lane, Jimmy Olsen e Steve Lombard – para forçá-lo a reativar o Mundo Bélico (Warworld), um planeta inteiramente feito de tecnologia (baseado na Estrela da Morte de Star Wars), numa aventura que leva o Superman a lutar contra seu amigo Caçador de Marte e, na edição 28, contar com a ajuda de sua prima Supergirl. Mongul é um oponente forte e impiedoso e tinha grande potencial para ilustrar grandes desafios ao herói.

Len Wein disse mais tarde em entrevistas que o propósito de criar Mongul era dar ao Superman um oponente físico digno, enquanto Jim Starlin criou o visual do personagem baseado em sua maior criação: o vilão Thanos, do Universo Marvel. Starlin também declarou que sua intenção era fazer mesmo de Mongul uma versão DC de Thanos, ou seja, um oponente de nível cósmico que representaria uma ameaça a todo o Universo DC, contudo, naqueles tempos, a DC não tinha a integração e continuidade fluída que a concorrente, então, Starlin jamais conseguiu seu intento.

Arte de capa por Jim Starlin.

A dupla Wein e Starlin também produziu a curiosa história de DC Comics Present 29, de janeiro de 1981, na qual as duas maiores criações de Jerry Siegel se unem em uma aventura: o Superman e o Espectro.

Arte da capa de Brian Bolland.

Starlin tentou desenvolver seu plano para Mongul e ele escreveu, ao lado de Paul Levitz, e também desenhou, DC Comics Presents 36, de agosto de 1981, com o retorno do vilão, conquistando um império galáctico que coloca o Superman para lutar e depois se unir com a nova versão de Starman; mas coube a Levitz, com arte de Curt Swan, encerrar o arco em DC Comics Presents 43, já em março de 1982, quando o homem de aço precisa se unir à Legião dos Super-Heróis, à Supergirl e parte da Liga da Justiça para combater Mongul, que colocou o monstruoso Devorador de Sóis para destruir nossa estrela.

Após essa derrota, contudo, Mongul demoraria bastante a retornar.

Jenette Kahn, Paul Levitz e Dick Giordano: o novo trio comandante da DC Comics

Grandes Mudanças na DC Comics

Em fevereiro de 1981, o presidente da DC Comics, Sol Harrison, se aposentou, e a Warner Publishing aproveitou a ocasião para promover uma mudança do corpo diretivo de sua subsidiária. A editora executiva Jenette Kahn foi promovida a presidente, se tornando parte da Diretoria da Warner Bros., e com isso, aos 33 anos de idade, ser a primeira mulher e a mais jovem executiva a conseguir isso. Paul Levitz, que era então o editor das revistas do Batman, foi alçado à condição de vice-presidente da DC, e Dick Giordano virou o editor executivo.

Julius Schwartz continuou como editor das revistas do Superman.

A Busca por Inovação

Passados quatro anos da Implosão, o fantasma do cancelamento por baixas vendas continuava rondando os corredores da DC Comics e fez uma nova vítima: a revista Superman Family. No início dos anos 1980, essa publicação trazia aventuras da Supergirl (pelo escritor Jack C. Harris), de Jimmy Olsen, Lois Lane e contos baseados em Krypton, que foram substituídos por aventuras chamadas Mr. and Mrs. Superman, com versões da Terra 2 do homem de aço e Lois Lane passadas após o casamento deles naquela história de 1978.

Arte de capa por Gil Kane.

O escritor Paul Kupperberg iniciou nesses contos de Krypton (a partir da edição 182, de abril de 1977), mas assumiu as histórias da Supergirl em Superman Family 217, de abril de 1982. Naquele ponto, a queda nas vendas era irreparável e Superman Family foi cancelada no número 222, de setembro de 1982. Mas a DC decidiu salvar a menina de aço, e Kara ganhou uma história de transição (por Maggin e Swan) em Superman 376, de outubro, e no mês seguinte estreou The Daring New Adventures of Supergirl (oficialmente, Supergirl (vol. 2) para fins de catálogo) mantendo Kupperberg no roteiro e com arte do ex-editor Carmine Infantino, e capas de Rick Buckler.

Esse novo ciclo de aventuras solo de Kara foi importante para redefinir a personagem, apresentada por Kupperberg como uma garota universitária de 19 anos de idade. A ideia era distinguir Supergirl de seu primo, evitando a representação que ela teve nas histórias recentes, onde era uma moça já por volta dos 24 anos e inserida no mercado de trabalho. Kupperberg e os editores da DC queriam que Kara fosse mais jovem e tivesse uma separação de uns 10 anos de diferença de idade em relação ao primo, o que definia, por sua vez, que Clark Kent deveria ter uns 29 anos de idade.

A nova revista da Supergirl foi mais bem-sucedida do que a empreitada anterior e duraria 23 números até setembro de 1984.

A DC tentou várias medidas para sair da crise. No início dos anos 1980, a presidente Jenette Kahn conseguiu a adesão de uma nova turma de escritores e artistas, como Marv Wolfman, Gil Kane, George Perez, Roy Thomas e muitos outros que se somaram à primeira leva de ex-marvetes (como Dennis O’Neil e Gerry Conway) e outros que já tinha histórico na DC, mas tinham passado uma temporada na Marvel e estavam voltando, como Len Wein. O interessante é que, além do estilo de narrativa dramática e mais realista típica da Marvel, os desenhistas também rompiam a estética “controlada” muito típica da DC.

Gil Kane.

Um caso exemplar era Gil Kane, um artista que ganhara notoriedade na própria DC (foi o criador visual do Lanterna Verde Hal Jordan e trabalhou com o Batman e as histórias solo do Robin) nos anos 1960, mas na Marvel teve mais liberdade para encontrar um estilo próprio, desenvolvendo uma arte angulosa e expressiva fora do padrão “comportado” da velha casa. E se apenas 12 anos antes Jack Kirby teve sua arte “censurada” por um motivo similar, esse não foi o caso de Kane, que emplacou sua versão não-usual do Superman nas revistas da franquia.

O Superman de Gil Kane.

Inicialmente, Kane foi alocado nas histórias secundárias focadas em Krypton ainda contadas em Superman, com destaque nas edições 367, 372 ou 375, a partir de janeiro de 1982, com roteiros de Martin Pasko ou Bob Rozaski, mas logo passou também a histórias principais, como em Action Comics 539.

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“Action Comics 544” traz as novas versões de Lex Luthor e Brainiac, por Gil Kane.

Um passo importante da busca pelo novo se deu na histórica Action Comics 544, de junho de 1983, que trouxe duas histórias que apresentavam versões mais modernas e ameaçadoras de Lex Luthor e Brainiac, que envolviam não somente uma nova postura (mais adulta e perigosa) desses vilões, mas visuais novos também.

Na primeira história, Cary Bates e Curt Swan contaram a trama na qual Luthor usa a tecnologia de Lexor para criar sua clássica armadura verde de combate, que lhe permite lutar braço a braço com o Superman. Creditado na revista, o visual da Battle Armor do vilão foi criado por George Perez, que desenhou uma pin-up no meio da revista. A história é dramática, pois resulta no planeta que acolheu o vilão ser destruído em consequência das ações do vilão na busca ensandecida por vingança contra o Superman, matando não apenas a população inteira, assim como a esposa e o filho de Lex, que, claro, culpa o Superman por tudo.

Na segunda história, Marv Wolfman e Gil Kane mostram Brainiac abdicando de seu velho corpo e assumindo um novo, totalmente robótico, como uma aparência assustadora (o novo visual foi criado por Ed Hannigan) e um modus operandi mais agressivo e assassino, além de usar uma nave que é a representação de sua própria cabeça. Essa trama passa a Action Comics 545, e o homem de aço é realmente quase morto pela versão mais feroz de seu oponente.

A história conclui em Action Comics 545, na qual o Superman precisa da ajuda da Liga da Justiça e dos Novos Titãs para conseguir refrear a ameaça de Brainiac e seu exército alienígena. No típico estilo mais dramático criado pela concorrente Marvel, o escritor Marv Wolfman coloca Clark Kent sob pressão desses acontecimentos – e uma referência à batalha com Vandal Savage quatro números antes – e ainda, problemas em seu emprego, pois ir ao espaço lutar contra a nova versão de seu inimigo não é nada saudável para um repórter que precisa aparecer diante das câmeras, o que leva Kent a receber uma reprimenda de Morgan Edge humilhando-o e ameaçando lhe demitir e explodir contra seu chefe, dizendo que não aceita ser tratado daquela maneira e pede demissão da Galáxia Comunicações.

Apesar dessas boas histórias e dos bons incrementos visuais, as histórias do homem do amanhã não conseguiam mais cativar ao público como antes. Ainda assim, alguns bons momentos apareciam, como a história de Action Comics 554, de abril de 1984, ainda por Wolfman e Kane, na qual se constrói uma linha do tempo no qual o Superman não existe, o que resulta na Terra ser dominada por extraterrestres, o que faz com que duas crianças, chamadas Jerry e Joe (sacou?) criarem o personagem para defendê-los.

A revista Superman chegou ao número 400, em outubro de 1984, e a DC lançou uma edição celebrativa, na qual Eliot S. Maggin conta uma história em sete capítulos, desenhados por lendas dos quadrinhos raramente associadas ao homem de aço: Joe Orlando, Al Williamson, Frank Miller, Marshall Rogers, Wondy Pini, Mike Kaluta e Klaus Janson; além de uma segunda história (The exile on the edge of Eternity) com texto e arte de Jim Steranko, tudo emoldurado por pin-ups com artes de Brian Bolland, John Byrne, Jack Davis, Steve Ditko, Will Eisner, Mike Grell, Jack Kirby, Moebius, Jerry Robinson, Bill Sienkiewics, Walt Simonson, Leonard Starr e Bernie Wrightson. E um conto em prosa do escritor de ficção científica Ray Bradbury.

Arte de Ed Hannigan.

Vez por outra, algumas histórias surpreendiam, como a de Superman 408, de junho de 1985, com texto de Ed Hanningan e Paul Kupperberg e arte de Curt Swan, na qual o herói no futuro precisa lidar com a aniquilação da Terra por causa de uma guerra nuclear, um tema que inspiraria o ator Christopher Reeve a pensar no plot do filme Superman IV – Em Busca da Paz, de 1987.

Alan Moore: um dos maiores escritores de quadrinhos em todos os tempos.

Em meio a essa fase menos que morna, saiu uma das melhores e mais celebradas histórias do Superman em todos os tempos, um evento fora da curva naquele contexto. Àquela altura, a DC sabia da crise criativa e editorial que vivia e já tomava soluções drásticas – falaremos disso logo a seguir, no próximo tópico – mas ao mesmo tempo buscava inovar ao convidar escritores britânicos para assumirem suas revistas, pois perceberam que o mercado do Reino Unido, no outro lado do Atlântico, borbulhava de inovação. Foi o início da chamada Invasão Britânicas e a ponta de lança desse movimento foi o escritor Alan Moore, um homem erudito dotado da capacidade de escrever histórias muito impactantes, como V de Vingança, que saiu de modo seriado na Inglaterra a partir de 1982 (e seria publicada como minissérie pela DC) e que na própria DC havia assumido a HQ do Monstro do Pântano e causado um grande impacto.

Por isso, Julius Schwartz convidou Moore para escrever Superman Annual 11, que sairia em setembro de 1985, com a arte do também britânico Dave Gibbons. Na trama, Batman, Robin (Jason Todd) e Mulher-Maravilha vão visitar o Superman na Fortaleza da Solidão por ocasião de seu aniversário, em 29 de fevereiro, mas ao chegar lá, encontram o herói imobilizado e em transe conectado com uma estranha planta alienígena. Descobrimos ao longo da história, que o “presente” foi enviado por Mongul e que a tal planta (Black Mercy) prende o hospedeiro em uma fantasia na qual se realiza o seu maior desejo.

E o interessante é que Moore e Gibbons narram o “sonho” do Superman, como ele adulto, vivendo em Krypton e casado com Lyla Lerrol e filho, mas ao mesmo tempo, numa realidade cheia de pontos sombrios, pois Kandor foi sequestrada por Brainiac e o planeta não ter explodido destruiu a reputação de Jor-El, que se tornou o artífice de um culto religioso fanático e vive em conflito com seu filho, ao mesmo tempo em que a sociedade kryptoniana vive à beira da guerra civil.

O Superman versus Mongul: conflito existencial por Alan Moore.

Na trama, os heróis conseguem libertar o Superman e o homem de aço trava uma batalha colossal com Mongul, com a arte magistral de Gibbons, e no fim, deixam o vilão preso à Black Mercy para fantasiar uma realidade de guerra e destruição. Superman Annual 11 foi recebida com entusiasmo já na época e imediatamente foi aclamada como uma obra-prima. É uma história que marcou época e seria adaptada a outras mídias duas vezes: primeiro, como um episódio de Justice League Unlimited, em 2004; e como um episódio da série live action da Supergirl, em 2016 (trocando o primo por Kara).

E Moore e Gibbons se reuniriam não muito tempo depois, lançando a maxissérie Watchmen, que revolucionou os quadrinhos de super-heróis.

A Crise nas Infinitas Terras

Se havia um fundo de poço para chegar, a DC Comics chegou em meados dos anos 1980… Se a revista Superman já chegou ao ano de 1980 com o alarmante número de média de apenas 176 mil cópias mensais, as vendas continuaram caindo, chegando a 124 mil em 1983, apenas 108 mil em 1984, e caindo abaixo da marca das cem mil unidades pela primeira vez em sua história, com somente 96 mil em 1985. Action Comics estava no patamar de 116 mil unidades em 1980 e caiu abaixo das cem mil em 1984, com 84 mil, batendo 65 mil em 1985.

Ou seja, as revistas vendiam quase dez vezes menos do que vinte e cinco anos antes e quatro vezes menos do que quinze anos antes. Era preciso medidas drásticas.

Como resultado das vendas baixas, em 1984, a DC Comics estava à beira da falência! A sua empresa-mãe, Warner Publishing, considerou seriamente em vender os personagens da DC para a Marvel Comics e trabalhar apenas com licenciamentos, uma proposta que interessou ao editor-chefe e vice-presidente da Marvel, Jim Shooter (sim, o mesmo ex-menino prodígio do homem de aço, era, então, o poderoso comandante da concorrência). Jenette Kahn lutou com todas as suas forças para impedir esse plano e conseguiu um adiamento sob uma condição: em determinado prazo, aumentar consideravelmente as vendas de toda a linha de revistas da editora.

Naquele ponto, uma única revista da DC se destacava nas vendas: The New Teen Titans (os Novos Titãs, no Brasil), a reinvenção da velha equipe de jovens super-heróis que atuavam como parceiros mirins (sidekicks), liderada por Robin e contando com Kid Flash, Moça-Maravilha e alguns novos personagens, como Ciborgue, Ravena, Mutano e Estrelar, que era produzida por uma dupla advinda da Marvel, o roteirista Marv Wolfman (que fora editor-chefe da concorrência, entre 1975 e 1976) e o desenhista George Perez, que simplesmente mimetizavam o estilo da Casa das Ideias dentro do Universo DC, e conseguiram muito sucesso com isso.

Marv Wolfman e George Perez revolucionaram a DC.

Por isso, Jenette Kahn, Paul Levitz e Dick Giordano organizaram uma série de reuniões com Wolfman e Perez na tentativa de elaborar um plano para (literalmente) salvar a vida da DC Comics. Para Wolfman, a DC tinha dois grandes problemas: primeiro, lhe faltava o drama e a ousadia que a Marvel tinha, que com ações drásticas como as mortes de Gwen Stacy (namorada do Homem-Aranha), do herói Capitão Marvel e de Jean Grey/Fênix criavam entre os leitores a noção de risco real, de que qualquer coisa podia acontecer. (Isso, claro, foi antes do mercado banalizar a morte e o retorno da morte, como aconteceria na década seguinte). A DC não tinha isso, era muito protetora de suas “propriedades” e tolhia os artistas a não ousarem, a não inovar para não mudar o status quo.

Os heróis da Terra 2 reunidos através da Sociedade da Justiça.

Em segundo lugar, e tão importante quanto, a DC tinha o problema insolúvel de uma cronologia absolutamente confusa. Ao contrário da Marvel, que era mais jovem e que, desde o início, nos anos 1960, teve uma obsessão com continuidade, a DC nunca levou esse elemento muito a sério: no começo sequer dava importância à continuidade, com o velho editor Mort Wesinger criando constantemente contradições às próprias histórias que publicava, e depois, a partir de 1970, quando começou a ter mais atenção a isso, também pegava leve. Mas para complicar, a noção de Multiverso inaugurado nos anos 1960, com as revistas publicando de modo concomitante aventuras passadas na Terra 1 e na Terra 2 deixavam os leitores muito confusos. Até os escritores (e podemos pensar, os editores também) ficavam confusos com os limites entre as Terras 1 e 2 e não raro cometiam erros que deixavam tudo pior.

Tempos desesperados pediam medidas desesperadas e Kahn e Giordano foram convencidos: era preciso da máxima ousadia e a única saída era acabar com o Multiverso! Organizar a confusa cronologia e, com isso, criar uma nova DC: destruir o Multiverso e alocar todo o Universo DC em uma única Terra; mudar origens, reformular personagens etc. A premissa para tudo isso foi a maxissérie Crise nas Infinitas Terras, que seria publicada em 12 capítulos mensais a partir de 1985.

Crise, claro, foi produzida por Wolfman e Perez, e, na megassaga, uma entidade cósmica chamada Antimonitor tenta destruir toda a realidade. Os heróis de várias Terras se unem para detê-lo, mas ao custo de muitos sacrifícios, como o da Supergirl e do Flash, que morrem na história, junto com muitos outros.

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Supergirl é morta em “Crise das Infinitas Terras”, na bela arte de George Perez.

A morte da Supergirl não era pouca coisa: com mais de 25 anos de publicação, a personagem fora uma das mais populares super-heroínas dos quadrinhos e seu fim brutal chocou os leitores de uma DC que não tinha, até então, esse tipo de coragem ou atitude. Kara encontra seu destino na edição 07 de Crisis on Infinitive Earths, de outubro de 1985, que traz a icônica e chocante capa da heroína falecida nos braços de seu primo na bela arte de Perez.

Na trama de Crise, os heróis conseguem deter o Antimonitor, mas a um custo muito grande: o Multiverso é realmente destruído e a realidade se torna uma só. Ou seja, se antes existiam infinitas Terras como maneira de representar as várias dimensões do Universo DC, agora, havia uma única dimensão, um único universo. Isso significava que era preciso adaptar as histórias e as versões dos heróis dentro de uma única realidade. Criado o mote, a realidade alterada e a condensação de todas as múltiplas Terras em uma só, a DC tratou de reformular seus personagens a apresentar novas origens.

E isso significava, portanto, as versões “antigas” desses heróis não existiam mais. Para se despedir da velha versão do Superman, a DC decidiu contar a sua última história. A editora convidou o criador Jerry Siegel para a empreitada, mas o escritor (afastado de sua criação-mor já há vinte anos) recusou educadamente, assim, o trabalho foi cair nas mãos de Alan Moore.

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“Action Comics 583”: última história do Superman.

Com sua caneta afiada, Moore escreveu a história What happened to the man of steel?, que funciona como a última história do Superman, com arte de Curt Swan, publicada em duas partes nas revistas Superman 423 e Action Comics 583, ambas de setembro de 1986, as últimas pré-Crise em termos cronológicos. Na história, num futuro próximo, um repórter entrevista Lois Lane, que narra a última missão do herói, quando Superman luta contra uma investida rápida e inesperada de todos os seus piores inimigos e enfrenta seu destino final. Um clássico absoluto e atemporal, que utiliza do máximo possível dos elementos típicos das Era de Prata e Bronze, bem como de todo o elenco coadjuvante do personagem.

A publicação dessas duas revistas também representou a aposentadoria de dois gigantes que cuidaram do Superman ao longo das últimas duas décadas: Julius Schwartz e Curt Swan. O editor e o desenhista realmente se aposentaram e se afastaram da DC após quase quatro décadas de serviços prestados.

Era o fim de uma era. De verdade!

Uma Nova Era: A Reinvenção de John Byrne

Uma vez que Crise nas Infinitas Terras definiu o fim do Multiverso e que existia uma única dimensão, uma única Terra com todo o Universo DC dentro, era preciso redefinir, então, toda a cronologia desse Novo Universo DC, e portanto, novas versões para todos os seus personagens. A DC Comics manteve o “andar de cima” intocado – com Janette Kahn, Paul Levitz e Dick Giordano liderando a turma – porém, alterou significativamente o “andar de baixo”, com escritores importantes das últimas décadas (mas não mais tão jovens), como Dennis O’Neil convertidos em editores para liderar a produção de artistas mais jovens. No caso do Superman, Marv Wolfman foi apontado como editor dos títulos do homem de aço, que precisavam reestruturar quem era o homem de aço nessa nova DC.

Wolfman decidiu apostar alto e convenceu o alto escalão a contratar o escritor e desenhista John Byrne para cuidar do relançamento do Superman pós-Crise. Não era pouca coisa… aquela altura, Byrne era o maior nome da indústria dos quadrinhos, dono de uma carreira exemplar, com um texto que ousava em situações novas ao mesmo tempo em que era extremamente reverente ao cânone dos personagens (afinal, ele vinha do fandoom e da produção de fanzines) e uma arte dinâmica e muito bonita, com aquela beleza plástica tão ao gosto da DC da Era de Prata.

John Byrne: lenda dos quadrinhos.

Nascido em Walsall, em Staffordshire, na Inglaterra, em 1950, Byrne se encantou pelos super-heróis aos 6 anos de idade lendo as republicações britânicas do material da DC Comics, principalmente, o Superman e o Batman, mas quando tinha 8 anos, sua família emigrou para o Canadá, onde teve contato com o material direto dos EUA e conheceu também a Marvel Comics, virando um grande fã. Hábil como escritor e desenhista, Byrne largou a universidade do Alberta College of Arts and Design no começo dos anos 1970, enquanto publicava em fanzines de quadrinhos, o que o levou à Charlton Comics, em 1975, e sua arte bonita chamou a atenção dos editores da Marvel, que o levaram para desenhar a revista Iron Fist (Punho de Ferro), ao lado do escritor Chris Claremont,The Champions (Os Campeões), entre 1977 e 78, ganhando sua primeira grande oportunidade ao se tornar o desenhista de Marvel Team-Up, revista que sempre trazia o Homem-Aranha ao lado de um convidado especial.

Após trabalhar novamente com o escritor Chris Claremont em Marvel Team-Up, a Marvel reuniu os dois artistas na revista dos X-Men, onde a dupla produziu a melhor e mais famosa fase da revista dos mutantes em todos os tempos, criando histórias imortais como A Saga da Fênix Negra e Dias de um Futuro Esquecido, entre 1977 e 1981. Ao mesmo tempo, Byrne emprestou sua bela arte a outros trabalhos, como em Avengers (Vingadores), Captain America (Capitão América), ao lado do escritor Roger Stern, e em Fantastic Four (Quarteto Fantástico), no qual trabalhou com Marv Wolfman como escritor, entre 1979 e 80. Byrne também era escritor e a Marvel lhe deu a oportunidade de fazer uma temporada solo, como escritor e desenhista no Quarteto Fantástico, no qual sua fase é unânime como a “segunda melhor” depois do material original de Stan Lee e Jack Kirby dos anos 1960, e a abordagem de Byrne fez muito sucesso. Em seguida, escrevendo e desenhando, Byrne também produziu Alpha Flight (Tropa Alfa) e uma aclamadíssima curta temporada em The Incredible Hulk, em 1986.

O Superman na arte de John Byrne.

Em sua carreira até ali, Byrne se notabilizou como um artista talhado para resolver problemas cronológicos de personagens que eram produzidos há décadas por artistas diferentes cujas histórias entravam em contradição entre si, o que tinha muito valor na Marvel, que mantinha uma cronologia mais coerente e alinhada, mas era crucial à redefinição da DC naquele momento.

As reuniões de Byrne com Wolfman, Giordano, Levitz e Kahn definiram qual seria o novo status quo do Superman pós-Crise nas Infinitas Terras

  • A cronologia da DC foi organizada a partir de anos, de modo que o Ano Um é referente a quando Superman e Batman iniciaram suas carreiras, ambos com 25 anos de idade. No “presente” a DC estava por volta do Ano 8.
  • Na nova realidade, o Superman era realmente o “último filho de Krypton”, então, foram apagados todos os outros kryptonianos que povoavam a franquia do herói, o que incluía a Supergirl, Krypto, a Cidade Engarrafada de Kandor e vilões como o General Zod. Ou seja, eles nunca existiram na nova cronologia.
  • Também ficou definido que o Superboy nunca existiu e, tal qual as histórias originais de Jerry Siegel, Clark Kent se tornou o homem de aço já adulto. Se mantinha a ambientação da juventude de Clark em Smallville e personagens como Lana Lang e Pete Ross, mas sem Superboy. E os pais adotivos do herói, Jonathan e Martha Kent, ao contrário de todas as outras versões do personagem até então, se mantinham vivos no presente.
O Superman de John Byrne.

Terminada Crise nas Infinitas Terras, em 1986, era a hora de lançar um novo Superman. Com supervisão de Marv Wolfman como editor, Byrne escreveu e desenhou a minissérie Superman: The Man of Steel, publicada em seis edições quinzenais entre outubro e dezembro de 1986, que contou sua nova origem pós-Crise com um visual estonteante, com a arte dinâmica de Byrne conferindo uma natureza imediatamente icônica ao personagem, combinando a expressividade de Neal Adams, a beleza de Curt Swan, o movimento de Ross Andru e até alguns elementos das feições do ator Christopher Reeve.

superman man of steel cover by john byrne 1986
“Man of Steel” de John Byrne cria a nova versão do Superman.

A versão de Byrne humanizava o Superman, mostrando-o menos poderoso. Também acabava com o ridículo mistério em torno de sua identidade secreta: como não usava máscara, ninguém pensava que o Superman tinha uma identidade secreta, o que ajudava Clark Kent a manter o anonimato. Assim, Clark não precisava ser desastrado ou atrapalhado. Ao contrário, era um ex-jogador de futebol – o que explicava seu corpão e seu porte – e o melhor repórter do Planeta Diário em competição com Lois Lane. Nesta versão, Clark Kent se tornava o real personagem, enquanto o Superman era apenas uma máscara.

Lois Lane se tornou uma mulher mais moderna e madura. Nada da louca casamenteira dos anos 1960: alguém que ama o Superman, mas tem sua própria identidade e moral muito alta. Na trama de Byrne, Clark deixa Smallville ao iniciar a vida adulta, mas não sabe o que fazer da vida, então, vai correr o mundo em busca de conhecimento e de algum sentido, e começa a ajudar as pessoas e evitar desastres naturais, no que começa a captar a atenção da imprensa, especialmente a sensacionalista, mas Clark faz tudo isso de modo anônimo e em segredo, ainda que vemos que Jonathan e Martha guardam recortes de jornais sobre esses feitos misteriosos. Mas certo dia, quando estava em Metrópolis, um avião experimental cai sobre a cidade e Clark (em roupas civis) impede a queda, mas isso lhe expõe aos olhos de todos, inclusive, de Lois Lane, que divulga uma matéria do Planeta Diário sobre o feito e chama o misterioso salvador de Superman, batizando o herói.

Superman JohnByrne
O Superman de John Byrne: menos poderoso e mais humano.

Esta “revelação” obriga Clark a sair das sombras, e é a partir daí que ele desenvolve, com a ajuda de seus pais, a identidade do Superman, com Martha criando seu uniforme. É apenas depois disso que ele cria a persona de Clark Kent repórter do Planeta Diário, já na edição 02 da minissérie, mas não mais o repórter atrapalhado e sem graça do passado, mas um sujeito comum e não afetado, de novo, beneficiado pelo fato de ninguém pensar que o homem de aço tem uma identidade secreta.

O debate moral entre Batman e Superman, por Byrne.

O número 03 da minissérie colocou o homem de aço no caminho do Batman: na trama, o herói de Metrópolis fica incomodado com a ação desse misterioso e violento vigilante da cidade de Gotham City e vai investigar, com ambos envolvidos nos crimes da vilã Magpie, e fica claro que os métodos dos heróis são muito diferentes, com Batman jogando sujo e usando o medo e a violência como recursos para ganhar vantagens sobre os oponentes (e para assustar até os aliados) ao passo que o Superman é muito mais cordial, luminoso e simpático. Isso cria uma rusga entre os dois, e meio que impede que sejam “bons” amigos (como eram na versão pré-Crise mostrada em World’s Finest Comics), mas o homem de aço reconhece que o homem-morcego é bem intencionado e eficaz e o deixa livre.

Esse era o novo status quo da relação Batman e Superman: cada um tolerando o outro, não como amigos, mas quase como rivais.

Superman encontra Lex Luthor (com cabelos) por Byrne.

The Man of Steel narra o início da carreira do Superman de modo compacto e acelerado, desenvolvendo como a nova realidade pós-Crise está definida e Lex Luthor é reintroduzido (após uma rápida menção na edição 02) na edição 04. Dentre os elementos tradicionais desse universo, a abordagem sobre Luthor foi uma das mais modificadas nessa nova origem: Luthor deixou de ser o “cientista louco” de sempre para se tornar um empresário corrupto, mas de “ficha limpa”, adorado pelo público, esmagando quem ouse ficar em seu caminho, mas sempre conseguindo se livrar de qualquer acusação, quando elas surgem. Mais ou menos como o Rei do Crime nas histórias do Homem-Aranha.

Luthor é introduzido como um homem inescrupuloso e naturalmente calvo com cabelos ruivos e ligeiramente acima do peso. A história de Byrne vai mostrando que o estresse causado pela presença do Superman faz com que o vilão gradativamente perca o cabelo inteiramente, num processo natural que serve como uma “homenagem” à origem da Era de Prata para a calvície do vilão. Um pouco mais tarde, nas histórias depois da minissérie, Byrne passou a representar Luthor como alguém mais parrudo, ou seja, sem sem atlético como na Era de Bronze, mas também sem ser o barrigudo que o Superman viu pela primeira vez, outro efeito do herói sobre ele.

O prefeito manda prender Luthor, por Byrne.

Na edição 04, Luthor testa a eficácia do Superman, mas o herói desmascara o estratagema e o prefeito de Metrópolis ordena que o herói prenda o vilão, o que leva não apenas ao primeiro problema de Luthor com a lei, como acaba oficialmente com sua posição intocável, o que funda o ódio irracional do empresário contra o homem de aço, por não suportar ser superado pelo Superman.

Na edição 05, vemos a primeira grande ação de Luthor contra o herói, quando ele tenta cloná-lo, o que gera uma nova versão (mais realística) do Bizarro. Essa ocasião é importante porque é somente nesse momento que o Superman descobre que é um alienígena, pois até então, não tinha ideia de suas origens, apenas que os Kent o tinham encontrado no que parecia uma nave pousada no milharal.

Jor-El e Superman por Byrne.

No último capítulo da minissérie, a edição 06, finalmente, o Superman descobre sua verdadeira origem, a existência de Krypton e de seus pais biológicos, Jor-El e Lara, quando já conta três anos de ação como o homem do amanhã, dentro da nova cronologia (a edição determina explicitamente que ele tem 28 anos de idade). Clark começa a ter visões fantasmagóricas de um homem que descobre ser seu pai biológico, Jor-El, um tipo de holografia enviada dos arquivos de sua nave, e ele introjeta na mente do herói memórias sobre Krypton e sua linguagem. Nesta versão, Krypton é apresentado como um mundo frio e tecnológico e Jor-El e Lara são dissidentes desse sentimento, e quando percebem que o mundo está à beira da destruição, procuram um mundo que possa abrigar Kal-El, mas também seja um planeta “caloroso”. Uma pequena adesão de Byrne, que gerou alguma polêmica, está no fato dos bebês serem gerados em câmaras criogênicas em Krypton e que a de Kal-El só abre efetivamente na Terra, fazendo com que, para fins práticos, o Superman nasça na Terra e não em Krypton. Havia um sentido em fazer isso, mas esse detalhe seria ignorado por escritores posteriores, afinal, o elemento de um imigrante, de um alienígena, era e continua sendo importante à construção do personagem.

Apesar da insatisfação de alguns leitores da “velha guarda”, Man of Steel foi um grande sucesso e possibilitou ao Superman ser novamente um dos maiores sucessos do mercado. Em seguida à minissérie, John Byrne foi transferido para as revistas de linha da franquia do homem de aço.

O fim de World’s Finest nesse formato, após 30 anos. Arte de Dennis Cowan.

A linha de revistas pós-Crise foi completamente alterada, claro. Não custa lembrar, Superboy e Supergirl já haviam sido canceladas em junho e setembro de 1984, respectivamente, e os dois personagens desapareceram no seio de Crise nas Infinitas Terras. Mas os cancelamentos não pararam aí… Primeiro, World’s Finest Comics, a revista que trazia histórias em conjunto do Superman ao lado do Batman desde os anos 1950 foi extinta no número 323, de janeiro de 1986, um ano antes das grandes mudanças cronológicas se firmarem. Claro, a DC já tinha uma ideia de para onde estava indo e a trama dessa revista, por Joey Cavalliere (texto) e José Delbo (arte), com capa de Dennis Cowan, já apontava o caminho definido na minissérie Batman – O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, com uma relação menos amistosa entre o homem-morcego e o homem de aço. Na trama do último número, o Superman dispara contra um vilão dotado de magia – e o herói é vulnerável à magia – e termina dominado, precisando ser salvo pelo Batman. No fim, o cavaleiro das trevas reclama da impulsividade do Superman e que não pode mais trabalhar com ele nessas condições e os dois “rompem” a parceria.

Em seguida, DC Comics Present, que trazia sempre o homem de aço ao lado de outro herói ou personagem, se encerrou no número 97, em setembro de 1986.

Capa por Jerry Ordway.

Terminada a publicação de Crise nas Infinitas Terras e da minissérie O Homem de Aço, a nova linha de revistas do último filho de Krypton estreou em nova formatação em janeiro de 1987. A principal revista do herói se tornou a nova Superman (vol. 2), que ganhou um número 01, com texto e arte de John Byrne. A pioneira Action Comics manteve a numeração, reiniciando no número 584, também com texto e arte de Byrne, e se transformou em uma revista do tipo team up, ou seja, a cada edição, trazia o homem de aço ao lado de algum convidado especial, ocupando, portanto, o lugar de DC Comics Present. A antiga revista Superman foi renomeada como The Adventures of Superman, mantendo a numeração anterior, portanto, reiniciando no número 425, com texto de Marv Wolfman e arte de Jerry Ordway (um artista que tinha um traço bastante parecido com Byrne), e mais focada no elenco secundário do universo do herói, desenvolvendo suas histórias e personalidades, com o Superman sempre aparecendo, mas quase como um coadjuvante.

Essa reestreia trouxe uma aventura com foco em Lois Lane sendo chantageada por Lex Luthor sobre um tratamento contra a radiação de sua mãe, Elionore, contaminada em uma empresa do vilão, trazendo as estreias pós-Crise do general Sam Lane e da repórter de fofocas Catherine “Cat” Grant, que se enamora de Clark Kent.

Capa de John Byrne.

A nova Superman (vol. 2) começa com o conto de origem de Metallo (John Corben), criado pelo cientista Dr. Emmett Vale, que é também quem descobre e nomeia a kryptonita, que faz sua primeira real aparição no número 01 (e agora, pós-Crise, haverá somente a kryptonita verde), a partir da velha história de se usar o mineral radioativo para servir como um “coração” para Metallo, que é muito mais robótico nessa versão, perdendo parte de sua humanidade. A trama afirma explicitamente que esses eventos ocorrem três meses após Man of Steel 06, e que as ações de Vale são financiadas por Lex Luthor. A trama também estabelece – num curioso aceno às histórias originais do personagem na Era de Ouro – que o mundo fantasioso ao qual estamos acostumados a ver o Superman atuar só surgiu gradualmente no Pós-Crise: até então, o homem de aço teria combatido somente criminosos comuns e o Bizarro (da edição 05 de Man of Steel) foi a primeira ameaça superhumana com a qual ele lutou, e Metallo é a segunda. As únicas outras ameaças metahumanas que ele teria enfrentado seriam aquelas junto à Liga da Justiça (mas a cronologia própria da Liga demoraria um pouco para ser bem definida e este tópico não ficou muito claro por bastante tempo).

Luthor com seu anel de Kryptonita. Arte de Byrne.

Na edição 02, Superman consegue vencer Metallo e percebe a conexão com Luthor, mas não tem como provar. E pior, quando vai confrontar o vilão, o herói se descobre impotente, pois Luthor está usando um anel de kryptonita que o protege do herói e pode até ser usado como arma.

A nave de Kal-El decola de Krypton em seu momento final por John Byrne.

E para estabelecer o novo universo do Superman, Byrne escreveu três especiais muito celebrados na época: The World of Krypton, The World of Smallville e The World of Metropolis, focados nos três cenários principais do personagem, cuidando dos textos e com a arte por Mike Mignola, Dick Giordano e Win Mortimer, respectivamente.

Lendas

A DC Comics demorou um tempo para definir os elementos básicos da nova origem da Liga da Justiça: havia uma série de questões, dúvidas e conflitos relacionados à participação de Superman e Batman, principalmente, por isso, a editora deixou esse tópico um pouco “quieto” de início.

“Lendas” na bela arte de John Byrne.

Mas ainda assim, era preciso relançar a principal equipe da DC na realidade pós-Crise, então, foi realizado o evento Lendas, o primeiro grande crossover (reunião de várias revistas em um mesmo evento) pós-Crise, puxada por Legends, uma minissérie em seis capítulos com roteiro de John Ostrander, diálogos de Len Wein e a arte maravilhosa de John Byrne, começando em novembro de 1986, mas que se desdobrou em diversas outras revistas da DC, inclusive do homem de aço. A trama geral traz um grande ataque à Terra do vilão cósmico Darkseid.

A história mostra os super-heróis – chamados de metahumanos – sofrerem perseguição de um agitador chamado Gordon Godfrey que consegue fazer a opinião pública se voltar contra eles. Em meio ao pânico, o presidente dos EUA declara os metahumanos ilegais. Na verdade, Godfrey é um assecla de Darkseid, que quer destruir os protetores da Terra de uma vez por todas. A trama mostra um grande ataque à Liga da Justiça – que naquele momento só tinha o Aquaman dos membros clássicos -, o que resulta na morte de alguns membros, como Vixem, Vibro e Gládio.

Como parte da Liga da Justiça versão cômica do fim dos anos 1980.

Na nova cronologia pós-Crise, Lendas marca a reintrodução do Capitão Marvel/Shazam como parte efetiva do Universo DC (pois a editora tinha comprado o acervo da Fawcett Comics) e o momento em que a Mulher-Maravilha se apresenta ao “mundo do patriarcado”, o que traz outro grande problema cronológico para a Liga da Justiça clássica. Como assim até aquele momento Diana simplesmente não existia? Isso ficou confuso… No fim da saga, é criada uma Liga da Justiça totalmente nova, com membros como o Lanterna Verde Guy Gardner, Shazam, Canário Negro, Besouro Azul, Senhor Destino e Senhor Milagre dos Novos Deuses, liderados pelo Batman e com patrocínio do empresário Maxwell Lord. Esse novo time, que será chamado apenas de Liga da Justiça (sem o “da América”), estrelará uma nova revista chamada apenas Justice League, a partir de maio de 1987, com roteiro de Keith Giffen e J.M. DeMatteis e arte de Kevin Maguire, que faria bastante sucesso.

O Superman, contudo, não teria envolvimento direto com essa nova Liga para dar espaço ao reinício de Byrne.

O arco de histórias de Lendas seria adaptado no futuro como a linha narrativa principal da 10ª e última temporada da série de TV Smallville, sobre a qual falaremos 14 anos à frente.

O Fim da Fase de John Byrne

Por um período curto, John Byrne chegou a manter a escrita das três revistas do homem de aço – Superman, Action Comics e Adventures of Superman – assumindo (a partir do número 436, de janeiro de 1988) a função nesta última das mãos de Marv Wolfman, mas mantendo Jerry Ordway na arte. Byrne era um artista rápido, mas desenhar duas revistas mensais e escrever três estava em seus limites. Mas isso só até uma pequena mudança na linha de revistas.

Em junho de 1988 o Superman celebrava 50 anos de publicação e realmente tinha motivos para comemorar: toda a reformulação pós-Crise liderada por John Byrne resultou em um grande sucesso e na retomada das altas vendas das revistas. Após chegar ao baixíssimo ponto de apenas 95 mil unidades mensais vendidas na média do ano de 1986, as vendas da revista Superman quase dobraram para 159 mil em 1987, ano em que Action Comics bateu a média de 180 mil cópias (números similares a de dez anos antes). Não existem dados para Superman (vol. 2), mas o que se sabe é que ela ainda vendeu bem mais do que isso, o que joga seus números para provavelmente mais de 200 mil, uma grande recuperação comercial.

A capa da revista Time por Byrne.

A nova origem e seu sucesso colocou o homem de aço na crista da onda, fazendo-o popular novamente na cultura pop, ao ponto que a prestigiada revista Time, a mais vendida publicação de notícias dos EUA na época, concedeu sua capa na semana de 14 de março de 1988 para celebrar o aniversário do personagem, com uma lindíssima imagem original de John Byrne.

A revista Action Comics chegou ao número 600 em maio de 1988 e foi celebrada com uma edição especial com várias histórias, todas escritas por John Byrne, mas com arte de Kurt Schaffenberg, Dick Giordano, Mike Mignola e até o aposentado Curt Swan (com roteiro em coautoria de Roger Stern), e tramas com foco nos coadjuvantes do herói e mais uma série de pin-ups especiais. O número celebrativo também terminou sendo o último dessa fase da revista.

A partir de junho de 1988, no número 601, Action Comics mudou completamente seu status: virou uma revista semanal (uma experimentação da DC Comics) voltando a ser uma revista mix como fora em seus primórdios, trazendo como atração principal e fixa uma história do Lanterna Verde Hal Jordan (cuja revista própria fora cancelada pouco antes) e trazendo um número rotativo de outros personagens, como Deadman (Desafiador), Blackhawk (Falcões Negros) e outros, e o Superman aparecendo também, mas em histórias de apenas duas páginas, como um tipo de homenagem às tiras de jornais, escritas por Roger Stern e com arte do veterano Curt Swan. A empreitada durou quase um ano e 41 edições semanais até o número 643, de maio de 1989.

A mão metálica de Luthor, por Byrne.

Porém, de volta àquela edições comemorativa de Action Comics, a história sobre Lex Luthor, por Byrne e Giordano, deu início a um plot importante para o vilão: Luthor sente uma grande dor na mão e descobre que a radiação do anel de kryptonita lhe rendeu um câncer agressivo e ele precisa amputar a mão para conter a infecção, o que fará, como se vê em Superman 19, de julho de 1988, com que passe a usar uma mão cibernética e uma luva negra para escondê-la, um elemento iconográfico bastante marcante na época.

Em seguida, a profícua e lendária fase de John Byrne se encerrou por meio de um arco chamado The Supergirl Saga, que se encarregou de reintroduzir a super-heroína, mas numa versão completamente diferente. Na trama que se inicia em Superman 21, passa a Adventures of Superman 444 (com arte de Ordway) e Superman 22, de setembro e outubro de 1988, na qual o herói descobre a existência de um universo alternativo compacto, no qual três criminosos kryptonianos general Zod, Faora e Quex-Ul, conseguem escapar da prisão da Zona Fantasma e usam seus poderes para causar uma grande matança na Terra, sofrendo a resistência de uma versão heroica de Lex Luthor, que nunca se tornou um vilão naquela realidade. Luthor concebe uma forma de vida artificial feita de protoplasma chamada Matriz, que alimenta com as memórias de Lana Lang e daí nasce uma nova Supergirl.

Superman e Supergirl conseguem a muito custo vencer Zod e seus aliados, com o herói usando a kryptonita dourada para eliminar seus poderes após os vilões matarem quase toda a população, mas após um pedido de justiça de Luthor à beira da morte, o homem de aço pensa que não tem outra opção e usa a kryptonita verde para matar os três criminosos. Superman regressa à nossa realidade trazendo a Matriz/Supergirl com ele e a deixa com seus pais Jonathan e Martha para ajustá-la ao novo mundo, mas permanece abalado e conflitante pela atitude extrema que tomou.

John Byrne nos anos 1990.

Àquela altura, John Byrne tinha dedicado dois anos completos inteiramente ao Superman e estava esgotado criativamente. Querendo novos desafios, o artista decidiu deixar a DC Comics e regressar à Marvel, onde assumiria as revistas dos Vingadores. Ele nunca mais teria um papel tão protagonista na criação do Superman, mas sua intensa passagem mudou para sempre o personagem, criou histórias marcantes, apresentou conceitos interessantíssimos e consolidou aquela que muitos consideram como a melhor origem já contada do personagem.

A Nova Origem da Liga da Justiça

Foi apenas a partir de novembro de 1988 (dois anos após Lendas!) que a DC Comics começou a realmente definir qual era a nova origem da Liga da Justiça. E isso causou bastante confusão à tentativa de organizar uma cronologia “limpa” para a realidade pós-Crise. Os fatos que orientavam e problematizavam esse nova origem eram:

  1. Batman agora era um herói solitário e soturno, algo distinto do caráter “público” de uma equipe como a Liga da Justiça.
  2. A Mullher-Maravilha só apareceu durante os eventos de Lendas.
  3. O Superman era ou não um membro original do time?

Então, veio Secrets Origins 32, de novembro de 1988, por Peter David e Eric Shanower, na qual aprendemos que a Liga da Justiça foi fundada por Flash, Lanterna Verde, Aquaman, Caçador de Marte e a Canário Negro! Ou seja, a antiga heroína da Era de Ouro, antiga participante da Sociedade da Justiça, agora, era retratada como a filha da heroína original, e substituía a Mulher-Maravilha, que não havia aparecido ainda naquele ponto da cronologia, o Ano Um do Universo DC.

A trama mostra uma nova versão da velha história dos heróis contra os alienígenas em forma de árvore, mas a história define que o Superman lutou com um deles no Ártico, mas não ingressou no time. Histórias futuras iriam definir que o homem de aço teria ingressado no time algum tempo depois de sua fundação, mas o vínculo do Batman continuaria algo conflitivo por alguns anos.

O Superboy por John Heymes Newton…

O Superboy na TV… e nos Quadrinhos

Enquanto John Byrne encerrava sua aclamadíssima fase do Superman nas HQs um episódio pitoresco ocorreu em meio à franquia do homem de aço: o Superboy ganhou uma série de TV! O fato é que apesar do personagem ter sido “extinto” nos quadrinhos em consequência da Crise nas Infinitas Terras, ele continuava como uma propriedade da DC Comics e da Warner Bros. E aí vem o engraçado: os produtores Alexander e Ilya Salkind descobriram que venderam os direitos de adaptação do Superman ao Cannon Group, mas ainda eram proprietários de outros personagens da franquia, como a Supergirl e o Superboy. Então, em vista do fracasso de Superman IV nos cinemas, e sem poder fazer o herói voltar às telonas por não terem mais os direitos, os produtores decidiram adaptar sua versão juvenil, a qual tinham os direitos.

… e de Gerard Christopher.

Então, de modo comissionado – ou seja, produzida de modo independente e vendida diretamente às emissoras de TV – os Salkinds lançaram Superboy em setembro de 1988, estrelada por John Haymes Newton, no papel de Clark Kent/ Superboy, aqui, um estudante da Universidade Shuster (batizada em homenagem ao desenhista cocriador do personagem), enamorado de Lana Lang (Stacy Haiduk) e tendo Lex Luthor (Scott James Wells) como um dos colegas de turma, que vai gradativamente nas histórias se tornando mais maligno e virando um vilão. Foram produzidos 26 episódios para a 1ª temporada, e a resposta da audiência foi boa, ainda que grandes ajustes foram feitos para a 2ª temporada, com o protagonista Newton sendo substituído por Gerard Christopher e Luthor também trocado por Sherman Howard, ao passo que a produção passou a contar com o famoso escritor do Superman nos quadrinhos, Cary Bates, como Consultor Executivo das Histórias, o que aumentou sua qualidade.

A nova revista do Superboy.

No fim das contas, Superboy encontrou um público de nicho na TV americana e seguiu com sucesso moderado, sem ser um fenômeno. Foi o suficiente até para a DC Comics decidir lucrar um pouquinho e, de modo impressionante em vista das tentativas de consolidar seu novo universo pós-Crise, lançou uma revista em quadrinhos adaptando a série! E por isso, claro, essas histórias não faziam parte da continuidade dos quadrinhos do Universo DC. Superboy (vol. 3) 01 chegou às bancas em fevereiro de 1990, quando a 2ª temporada estava no meio de sua exibição, e trazendo roteiros de John Francis Moore e arte do veterano Jim Mooney, e a empreitada ainda durou 22 edições até fevereiro de 1992.

Naquele ponto, Superboy encerrava a sua 4ª temporada e teve mais de 100 episódios, mas a Warner entrou na Justiça e conseguiu cancelar os direitos que os Salkinds tinham desde 1975, extinguindo o programa de TV, cujo último episódio foi exibido em abril de 1992. E com o fim anunciado, a HQ foi encerrada também.

O motivo da Warner acabar com os Salkinds e Superboy era porque o conglomerado de mídia tinha em mente outra série de TV para o Superman, sobre a qual falaremos adiante…

Aprofundando a Realidade Pós-Crise

O substituto de John Byrne foi seu melhor amigo, o escritor Roger Stern, que teria uma longa associação com o Superman.

Roger Stern.

Nascido em Noblesville, Indiana, em 1950, Roger Stern viria a se tornar um dos maiores escritores de quadrinhos dos anos 1980 e 90. Vindo do fandoom, como Byrne, Stern começou na Marvel Comics como editor e ganhou projeção como escritor na revista The Incredible Hulk, a partir de 1977, antes de ganhar notoriedade em Captain America (ao lado de Byrne), e em Peter Parker: The Spectacular Spider-Man, a revista secundária do Homem-Aranha, ambas em 1980, passando a The Amazing Spider-Man (a principal) para uma das mais celebradas fases do herói aracnídeo, entre 1982 e 84, que trouxe a criação do vilão Duende Macabro, em paralelo à marcante passagem pelos Vingadores, entre 1982 e 1988, antes de se mudar para a DC.

Stern assumiu Superman (vol. 2) a partir do número 23, de novembro de 1988, e a arte passou a Kerry Gammill a partir do número 25, numa série de aventuras que trouxeram de volta o herói Guardião (criado por Jack Kirby nos anos 1940) e o homem de aço questionando suas próprias ações e sua moral (em decorrência do episódio com os kryptonianos), ao ponto de que até assume a identidade de um outro herói mascarado, chamado Gangbuster, antes de decidir se impor um autoexílio no espaço no número 28, de fevereiro de 1989, no qual o personagem busca se reencontrar consigo mesmo.

Após passar por um encontro (o primeiro pós-Crise) com Mongul e reapresentando o conceito do Mundo Bélico na edição 32, essa fase e o exílio se encerram no número 33, de julho de 1989, e a edição 34 traz o início de uma nova fase para Superman (vol. 2) no qual o artista Jerry Ordway assume os desenhos e também os roteiros, se transferindo de Adventures para esta.

Dan Jurgens: importante escritor e artista do Superman nos anos 1990.

Adventures of Superman, por sua vez, transitou um pouco entre Stern e Perez, mas terminou assumida pelo escritor e desenhista Dan Jurgens, a partir da edição 458, de setembro de 1989, um autor que também teria uma forte vinculação com o personagem dali em diante. Nascido em Ortoville, em Minnesota, em 1959, ele tinha apenas 30 anos de idade e fora formado pelo Minneapolis College of Arts and Design, e começou a carreira nos quadrinhos em 1982 na própria DC, como desenhista, fazendo trabalhos menores em The Warlord e Sun Devils, nesta última, na qual começou a também escrever os roteiros, a partir de 1985, o que lhe possibilitou criar o personagem Gladiador Dourado (Booster Gold), que ganhou uma revista própria em 1986 e se tornaria membro da Liga da Justiça. Depois de desenhar as aventuras do Desafiador na fase semanal de Action Comics, Jurgens desenhou o Arqueiro Verde escrito por Mike Grell, mas sua bonita arte, que remetia diretamente ao estilo de John Byrne (e Jerry Ordway) o colocou como alguém talhado para o trabalho no Superman.

Jurgens seria um importante escritor e artista do Superman ao longo da década de 1990.

Nesse primeiro momento, sua história mais marcante foi aquela mostrada em Adventures 465 a 468, começando em abril de 1990, no qual um time de cientistas da LexCorp vai ao espaço em uma missão especial chamada Excalibur, mas são atingidos por raios cósmicos (sim, mimetizando a origem do Quarteto Fantástico da Marvel) e cada um desenvolve poderes especiais relacionados aos elementos, com alguns deles se voltando contra o Superman, mas se arrependendo e se suicidando, e com o líder Hank Henshaw se sacrificando para salvar a esposa, Teri, que estava se teleportando para uma outra dimensão. Mas Henshaw também desenvolveu poderes: com seu corpo destruído, ele transfere sua mente à rede de computadores da LexCorp, e depois para a Matrix Genética kryptoniana na qual Kal-El nasceu e chegou à Terra, e com a vilania e loucura que toma sua consciência, Teri termina por enlouquecer e morrer também, o que faz Henshaw deixar o planeta Terra rumo ao espaço.

Enquanto Action Comics vivia sua fase semanal (que tinham aquelas mini-histórias escritas por Roger Stern), este roteirista também lançou Action Comics Annual 02, no verão de 1989, com arte de Curt Swan, no qual apresentam o Erradicador, uma inteligência artificial kryptoniana que terá bastante importância nos quadrinhos dali em diante.

Action Comics havia voltado a ser mensal no número 643, de julho de 1989, como já dissemos, com roteiro e arte de George Perez e os diálogos escritos por Stern. Essas histórias trouxeram a Matriz de volta e também introduziram Máxima, uma alienígena de Almerac com poderes compatíveis ao do herói em força e voo e que acreditava, por isso, que o Superman devia ser seu consorte, o que tanto rendeu algumas confusões quanto certo humor.

Mas no fim das contas, Action Comics virou a revista de Roger Stern, com Perez se mantendo apenas na arte, dividindo o esforço com Kerry Gammill, numa série de histórias que trouxeram os retornos de Metallo e de Brainiac, e a arte passou às mãos de Bob McLeod (vindo das revistas do Homem-Aranha) na edição 654, de junho de 1990. De modo não intencional, a qualidade dos roteiros de Stern (e das artes de Perez, Gammill e McLeod) terminaram por transformar, nesse período, Action Comics na principal revista do homem de aço, ultrapassando em vendas, qualidade e fama suas irmãs Superman e Adventures of Superman, que estavam ao comando dos escritores-desenhistas Jerry Ordway e Dan Jurgens, respectivamente.

A temporada de Stern e McLeod trouxe o arco com a “morte” de Lex Luthor, em Action Comics 660, de dezembro de 1990, quando o vilão descobre que seu câncer voltou e não tem mais tratamento. Luthor simula sua própria morte num acidente aéreo no alto dos Andes, no Peru, e clona a si próprio para um corpo mais jovem, saudável e com vastos cabelos ruivos, assumindo a identidade de Lex Luthor II, como se fosse um “filho perdido” que fora criado na Austrália para não atrair as atenções de seus “inimigos”.

A estranha versão de Lex Luthor II.

Por mais que o conceito do filho/clone cabeludo fosse bizarro, a ideia duraria bastante tempo nos quadrinhos da época.

Também foi nas histórias de Stern e McLeod que finalmente (no pós-Crise) se tem um engajamento amoroso entre Lois e Clark (e não da repórter com o Superman!) e os dois começam a pensar seriamente em ficarem juntos “em definitivo”. Um ponto interessante dessa trama é que, por ser narrada já no início dos anos 1990, era a primeira vez nos quadrinhos que se admitia que Lois e Clark dormiam juntos, o que ficava implícito nas histórias, ainda que nunca se ousou mostrar uma cena de sexo ou de nudez.

Colocado nessa situação, Clark pensa que não é justo continuar a enganar Lois com sua identidade secreta, então, pela primeira vez de forma canônica em mais de 50 anos, o Superman revela sua identidade secreta para a amada, na histórica Action Comics 662, de fevereiro de 1991. Mas saber do segredo não deixa as coisas mais fáceis, e o casamento que estava quase certo, termina postergado.

O grande momento: Clark Kent revela que é o Superman.

De qualquer modo, a bombástica revelação teve um efeito permanente, a despeito da instabilidade do relacionamento do casal pelos anos seguintes. Dali em diante, Lois saberia definitivamente que Clark Kent era o Superman, o que se mantém nos quadrinhos até os dias de hoje.

É preciso mencionar, também, que a partir daquele ponto, a DC passou a experimentar outra abordagem na fluidez de suas histórias, adotando uma forma seriada que transcendia às revistas. Assim, a mesma história passava de Action Comics (por Stern e McLeod) para Adventures of Superman (por Ordway) e para Superman (por Jurgens), e assim sucessivamente. Era tão confuso que as capas das revistas passaram a ostentar um triângulo com uma numeração paralela (1, 2, 3…) para orientar aos leitores.

E como o mês tem quatro semanas e o Superman era um sucesso de vendas de novo como consequência de todas as mudanças dos anos anteriores, (e o mercado de quadrinhos entrava em uma grande fase com as vendas cada vez mais altas) a DC decidiu criar uma nova revista, a quarta, para que o homem de aço tivesse uma história a cada semana de modo consecutivo.

Então, em julho de 1991, estreou a revista Superman: The Man of Steel, com roteiros da escritora Louise Simonson e arte de Jon Bogdanove. Neste ponto, Action Comics prosseguia com Stern e McLeod, Adventures of Superman estava com Jerry Ordway (texto) e Tom Grummett (arte) e Superman com Dan Jurgens (texto e arte), estabelecendo a nova fase do personagem.

Louise Simonson, nova escritora do Superman.

Louise Simonson (antes, Jones) tinha sido uma bem-sucedida editora na Marvel Comics, trabalhando ostensivamente com os X-Men, antes de se tornar uma escritora de talento reconhecido, especialmente, na revista X-Factor, spin-off dos mutantes.

Ela chegou bem há tempo de participar do primeiro grande crossover dessa fase, uma estratégia não apenas de interligar as histórias uma com as outras, mas promover “grandes eventos bombásticos” para movimentar o verão ou inverno e suas vendas mais altas. Tratava-se da saga Pânico no Céu, que transcorreu por Action Comics 674 e 675, Superman: The Man of Steel 09 e 10, Superman 65 e 66 e Adventures of Superman 488 e 499, entre fevereiro e abril de 1992, na qual o homem de aço enfrenta as consequências do final do arco do Exílio, no qual secretamente Brainiac articula para usar o Mundo Bélico como uma arma contra o planeta Terra, controlando a mente de Máxima para ela atacar o Superman, no que é necessária a intervenção da Supegirl-Matriz e a ajuda da Liga da Justiça.

Morte e Ressurreição

Articular quatro revistas mensais contando a mesma história de modo contínuo exigia muita coordenação editorial, o que dava bastante trabalho ao editor Mike Carlin, que passou a organizar um tipo de seminário anual ao longo de um fim de semana reunido todos os criadores da franquia do Superman para planejar as aventuras do ano seguinte e alinhar todo mundo sobre o que viria e o que deviam fazer. Essas reuniões definiram que o grande passo seguinte seria realizar o casamento entre Lois e Clark. Embora casar heróis ainda não fosse o mais comum, com certeza, já havia alguns precedentes: seu colega de Liga, o Flash Barry Allen havia se casado em 1966; o Fantasma das tiras de jornal se casou em 1978; John Byrne casou Bruce Banner, o Hulk, em 1986; e o Homem-Aranha se casou com Mary Jane Watson com estardalhaço em 1987.

O Superman nunca teve outra namorada tão expressiva quanto Lois Lane, portanto, a repórter não tinha grandes concorrentes as quais os fãs pudessem se opor em excesso, e fazia sentido reunir logo o casal, pois as histórias mais maduras pós-Crise podiam se beneficiar disso. As tramas começaram a se movimentar nesse sentido, mas é preciso lembrar que a DC Comics, embora gozasse de boa autonomia, ainda era uma subsidiária da Warner Bros. e as ordens de cima eram mais importantes. E naquele momento a empresa estava planejando uma nova série de TV do Superman baseada justamente no romance entre Lois e Clark, quase como uma comédia romântica de ação. Portanto, casar os personagens nas HQs naquele momento não era uma boa ideia.

Não poder casar os repórteres do Planeta Diário criou um buraco no planejamento da franquia do Superman nos quadrinhos e o que fazer então? O escritor J.M. DeMatteis, que escrevia as revistas da Liga da Justiça com Keith Giffen, tinha uma piada recorrente nessas reuniões: toda vez em que encontravam algum beco narrativo sem saída, ele dizia de brincadeira: “o jeito, então, é a gente matar o personagem”. Mas ao dizer isso sobre o Superman, todos começaram a pensar que isso era uma coisa que se podia fazer: algo novo, ousado e nunca realizado de verdade antes.

Mike Carlin, Dan Jurgens, Roger Stern, Louise Simonson e Jerry Ordway começaram a planejar uma grande história que traria a morte do homem de aço e isso seria uma oportunidade para explorar a importância do Superman ao Universo DC e como sua ausência seria sentida, para depois, claro, ele voltar em grande estilo. Nem por um único segundo se pensou nessa morte como algo duradouro, mas o mote de uma grande trama de retorno e consequências.

A aparição do misterioso Doomsday. Arte de Jon Bogdanove.

Assim, anunciada com alarde, a saga A Morte do Superman se inicia em Superman: The Man of Steel 18, de dezembro de 1992, por Louise Simonson e Jon Bogdanove, seguindo por Justice League of America 69, por Dan Jurgens (que tinha assumido a revista da equipe seis meses antes), Superman 74, também por Jurgens, The Adventures of Superman 497, por Jerry Ordway e Tom Grummett, Action Comics 684, por Roger Stern e Jackson Guice, e então, prosseguir por The Man of Steel 19 e concluir seu primeiro ciclo na lendária Superman 75.

Doomsday derrota a Liga, por Dan Jurgens.

Na trama, um monstro implacável e extremamente forte e poderoso emerge de alguma prisão subterrânea no meio-oeste dos Estados Unidos e sai destruindo e matando tudo o que encontra em seu caminho. A Liga da Justiça – formada então por Besouro Azul, Gladiador Dourado, Lanterna Verde Guy Gardner, Gelo, Fogo, Máxima e o misterioso Bloodwynd (que era o Caçador de Marte disfarçado) – intercepta a criatura, mas são sumariamente derrotados pela força bruta do ser que é batizado de Doomsday (Apocalipse) pelo Gladiador Dourado.

Arte de Jon Bogdanove.

O Superman se une ao time, mas ainda assim, não conseguem impedir o monstro que segue avançando para o leste. Depois que todo o time cai, Máxima e o Guardião ainda ajudam o Superman no encalço da criatura, que tem como destino Metrópolis, mas nada é capaz de pará-lo. O homem de aço vai dando tudo de si no confronto, com seu uniforme gradativamente ficando em pedaços e ele ostentando machucados como nunca antes, mas ainda assim, não consegue sequer cansar Apocalipse.

Superman - deathofsuperman3 art by dan jurgens
Superman combate Apocalypse na arte de Dan Jurgens.

Já muito debilitado, o Superman só consegue causar dor ou dano a Apocalipse quando a luta já chega a Metrópolis e estamos em Superman (vol. 2) 75, de janeiro de 1993, com Jurgens fazendo a revista inteira apenas com quadros de página inteira ou página dupla, que dão mais drama e detalhes à feroz batalha.

Superman jaz nos braços da amada, por Dan Jurgens.

No fim, reunindo todas as suas forças, o Superman consegue matar a criatura com um soco, mas cai completamente esgotado no chão. Lois chega até ele, tentando ajudá-lo, mas o herói não tem mais forças e se despede, morrendo nos braços da amada.

A morte do Superman causou um grande impacto no mundo dos quadrinhos e foi um evento bombástico em todos os sentidos, chamando a atenção da grande mídia, o que não era muito comum para coisas relacionadas às HQs. Mas o fato é que a grande mídia não entendeu que morte do homem de aço seria, claro, temporária, e noticiou o fato de modo alarmante, o que deu ainda mais visibilidade ao evento como um todo e fez as vendas aumentarem ainda mais. E o Superman virou notícia em todos os grandes jornais e revistas, do The New York Times à Time Magazine, da CNN à BBC News.

Para se ter uma ideia desse sucesso, Superman 75 vendeu 3 milhões de cópias, atingindo números ainda mais altos do que os recordes da década de 1940, e se tornando a quarta revista em quadrinhos mais vendida da história!!!! Mesmo que naquele momento do início dos anos 1990 em que o mercado de HQs estava muito aquecido e a revista vendesse normalmente algo como 400 mil unidades mensais em média, passar dos três milhões era muita coisa, muita coisa mesmo! E mais: pouco depois, a DC começou a reunir a saga em encadernados somando várias edições e esses encadernados foram um enorme sucesso e venderam bem por muitos e muitos anos. E continuam vendendo até hoje!

E não acabou, pouco depois, The Adventures of Superman chegou à numeração 500, em junho de 1993, e Ordway e Grummett contam uma tocante história na qual, abalado pela morte do filho, Jonathan Kent sofre um infarto e tem uma visão de pós-morte, na qual encontra a alma de Clark, que o ajuda a voltar ao seu próprio corpo. No hospital, Jonathan acorda convencido de que seu filho está vivo! Essa revista vendeu mais ainda: chegou a 4,2 milhões de cópias e se tornou a terceira revista em quadrinhos mais vendida da história!!!

Ao mesmo tempo, as tramas das quatro revistas exploravam as consequências da morte do herói e seu funeral se estendeu por todas elas e outras da DC Comics, como da Liga da Justiça, do Batman, do Lanterna Verde etc., no que é o segundo ciclo da saga e ficou conhecido como o arco Funeral para um Amigo.

four supermen
Os quatro supermen: Superciborgue, Aço, Superboy e Superman de óculos.

E também: iniciando o terceiro ciclo, O Retorno do Superman (no original The Reign of Supermen, “o reinado dos super-homens”), Adventures 500 trouxe uma série de tramas que mostravam acontecimentos misteriosos nos quais parecia que o Superman havia retornado, até percebemos que não era o herói, mas outras quatro pessoas que afirmavam ser, de um modo ou de outro, a reencarnação do herói! Um Superman Ciborgue que tinha a aparência do herói e parecia ter fragmentos de sua memória; um frio Superman de óculos amarelos que parecia mesmo kryptoniano; o cientista afroamericano John Henry Irons, que parece incorporado da alma do herói, e constrói uma armadura poderosa pela qual será conhecido como Aço (Steel); e um garoto, um adolescente impetuoso e arrogante que afirma ser um clone do Superman e será, claro, conhecido como Superboy.

O Superman Ciborgue se alia a Mongul.

Cada um desses “novos” Supermen ocupa uma das revistas mensais – o Ciborgue em Superman, o frio em Action Comics, Aço em Man of Steel e Superboy em Adventures – nas quais os artistas exploram seus mistérios e os efeitos que causam no elenco coadjuvante do Superman (em especial Lois, que tem motivos para acreditar em cada um deles), e as revistas seguintes gradativamente revelam que o Superman frio é, na verdade, o Erradicador, que assumiu a aparência do herói para manter viva a herança de Krypton e não tem más intenções; Aço é apenas um homem bem intencionado que foi salvo pelo Superman e se inspirou a fazer o bem com seu conhecimento; Superboy é mesmo um clone do Superman realizado pelo Projeto Cadmus; e o Ciborgue é Hank Henshaw, que é agora um vilão e se alia a Mongul para destruir a Terra.

O Superman retorna usando um uniforme preto. Mas por pouco tempo. Arte de Dan Jurgens.

Daí que Action Comics 690, de agosto de 1993, mostra Ciborgue/ Henshaw movendo seu plano e um misterioso ser usando uma massiva armadura kryptoniana (remanescente do Erradicador) como veículo para se deslocar até Metrópolis, no que termina sendo atacado por Superboy, a Supergirl Matriz e Lex Luthor II, e na passagem de The Man of Steel 25 para Superman 81, é revelado que quem está dentro da armadura é o Superman, renascido pela tecnologia kryptoniana da Fortaleza da Solidão e usando um novo uniforme preto (para captar ainda mais energia solar), e ele não está na plenitude de seus poderes, pois ainda está se recuperando.

O Ciborgue mata o Erradicador.

O Ciborgue é tão poderoso que consegue subjugar Mongul e também mata o Erradicador, que tentava ajudar o herói.

A resolução da saga tem um spin-off direto em Green Lantern 45 e 46, por Gerard Jones e Mark D. Bright, pois Ciborgue e Mongul destroem a cidade de Coast City, o lar do Lanterna Verde Hal Jordan, que tem uma acirrada batalha com eles e auxilia o Superman na batalha final, que ocorre em Superman (vol. 2) 82, de outubro de 1993, por Jurgens, que encerra a saga. Após já ter matado Doomsday na porrada, essa edição causou alguma controvérsia, pois em vista de Henshaw não poder ser realmente derrotado e não poder ser aprisionado em nenhuma prisão, o Superman resolve matá-lo (!), vibrando tão rápido que destrói seu corpo. Embora, também, o texto deixa claro que o herói espera que o vilão irá voltar de algum modo no futuro, o que passa uma impressão de uma ação radical, mas que não resulta de verdade na morte de Henshaw. E ele voltaria, claro, no futuro.

Mas os efeitos da tragédia no Lanterna Verde teriam grandes consequências para o Universo DC como um todo.

O Superboy dos anos 1990 fez bastante sucesso.

O conjunto de histórias da morte e da ressurreição cumpriram aos seus dois propósitos: foram um grande sucesso e contaram boas histórias. O Superman voltou aos holofotes com força e continuou em uma fase de bastante sucesso, com vendas muito altas, e o novo Superboy se mostrou imediatamente popular e ganhou uma revista de sucesso, Superboy (vol. 4) escrita por Karl Kesel e desenhada por Tom Grummett, começando em fevereiro de 1994 e que duraria 100 edições até julho de 2002. Inicialmente um jovem “cabeça quente”, rebelde e inconsequente, gradativamente, o jovem clone vai se tornando mais responsável ao compreender o peso da herança do Superman até terminar se reconciliando com o homem de aço, aceitando um tipo de “criação” por Jonathan e Martha Kent e adotando o nome civil de Conner Kent.

O ano de 1994 ainda foi tomado por outro grande evento: A Queda de Metrópolis, no qual Lex Luthor articula um ataque de robôs que destrói vários prédios da cidade e conclui em Action Comics 700, do mês de junho, por Stern e Guice, com a revista celebrando mais essa marca de sete centenas de edições.

O dano à cidade é muito grande, mas as ruínas permanecerão por considerável tempo.

Zero Hora

Neste ponto em que estamos, fazia nove anos desde a publicação de Crise nas Infinitas Terras e a cronologia do Universo DC estava muito mais organizado, porém, ainda tinha alguns problemas relativamente graves em alguns dos seus cantinhos, relacionados a personagens impactados pelas mudanças que, de muitos modos, os inviabilizaram na Nova Terra (como essa realidade passou a ser chamada), como a Legião dos Super-Heróis ou a Poderosa.

Para consertar essas coisinhas, a DC lançou outro megaevento, chamado Zero Hora, cuja publicação principal se deu em uma minissérie em cinco capítulos, apresentados com numeração decrescente de 04 a 0 (zero) e de modo semanal ao longo do mês de setembro de 1994, com a arte e o texto por Dan Jurgens, que demonstram a importância que o artista adquiriu na editora pós-Morte do Superman.

Na trama, em consequência da destruição de Coast City, sua cidade, o Lanterna Verde Hal Jordan termina sendo levado à loucura e se transforma em um vilão chamado Parallax, que quer remodelar o Universo à sua visão, numa história que resgata a ideia de Multiverso, e também com várias linhas do tempo diferentes. Todos os heróis da DC precisaram se unir para impedir isso, mas ainda assim, a ação de Parallax resulta – por meio da intervenção salvadora do Espectro (o “irmão de criação” do Superman) – em um novo Big Bang no universo e o Universo DC sofre um reboot.

Foi um reboot bem mais leve do que em Crise, mas mudou algumas coisas de personagens importantes, como Gavião Negro, e deixou um legado particularmente doloroso no universo específico dos Lanternas Verdes. Como é comum nesses eventos crossover, a ação migrou às demais revistas da editora, inclusive da franquia do Superman, mas o herói não foi particularmente afetado por essas mudanças, exceto em pequenos detalhes.

De volta à linha narrativa do herói, Metrópolis só é reconstruída em Adventures of Superman 522, de abril de 1995, por Karl Kesel e Stuart Immonen.

A quinta revista para os meses com cinco semanas!

A dinâmica de ter quatro revistas publicando histórias sequenciadas a cada mês tinha um pequeno inconveniente: quando um mês tinha cinco semanas, os leitores ficavam uma semana sem ler uma aventura nova do Superman. E com as vendas nas alturas, para a DC isso era prejuízo. Então, a editora lançou a revista Superman: The Man of Tomorrow 01, em junho de 1995, a quinta revista da franquia, lançada apenas nos meses com cinco semanas (!!!). Na maioria das primeiras ocasiões, texto e arte ficavam com Roger Stern e Tom Grummett. Por causa dessa periodicidade irregular, The Man of Tomorrow ia saindo ao sabor do calendário, com o número 02 em setembro e o 03 em dezembro, por exemplo, mas funcionando como mais um episódio nas histórias sequenciadas.

Ela teria 15 edições publicadas até setembro de 1999.

A grande popularidade da franquia do homem de aço ainda possibilitou a criação de outro spin-off não muito tempo depois: a nova Supergirl também ganhou sua revista própria: Supergirl (vol. 4) estreou em setembro de 1996, com uma aclamada fase escrita por Peter David e desenhada por Gary Frank, dupla que vinha de uma célebre fase no Hulk da Marvel. A nova trama estabelecia que a Matriz (a versão de Lana Lang do Universo Compacto com poderes iguais ao homem de aço) termina fundida com a humana comum Linda Lee Danvers, promovendo uma nova origem que adiciona elementos da Era de Prata, como sua identidade civil, seus pais e alguns coadjuvantes.

A revista teria 80 edições publicadas até maio de 2003.

Na TV de novo: Lois & Clark – As Novas Aventuras do Superman

O início dos anos 1990 ficou marcado pela volta do Superman à TV em grande estilo: em meio ao recém readquirido sucesso nos quadrinhos, estreava Lois & Clark – As Novas Aventuras do Superman.

Superman volta às telinhas com “Lois & Clark”.

Lembre: a Warner Bros. (dona da DC) havia readquirido os direitos cinematográficos do Superman no início dos anos 1990, tomando-os dos produtores Alexander e Ilyia Salkind. E enquanto um projeto de filme para o cinema demoraria a se desenvolver e decolar nos corredores do estúdio, a empresa autorizou a divisão de TV a desenvolver uma nova série com o personagem, tendo em vista o sucesso modesto de Superboy. Assim, apostando num tipo de comédia romântica de super-heróis, Lois & Clark (note que o nome da repórter vem primeiro!) estreou em setembro de 1992 e fez um imenso sucesso.

Dean Cain e Teri Hatcher em Lois and Clark.

Criando uma versão moderna e sexy da relação entre o casal de repórteres, a série foi um grande sucesso, transformando Dean Cain e Teri Hatcher em estrelas. A maior inovação da série foi tirar a tônica do homem de aço – e da ação e dos caros efeitos especiais – para a relação por vezes cômica entre Lois e Clark, o que agradou bastante o público não acostumado com os quadrinhos. O sucesso se manteve por três temporadas, mas na quarta, o casamento de Lois e Clark terminou minando o interesse do público e, curiosamente, levou ao fim da série, com o último episódio (trazendo um gancho que nunca seria resolvido) exibido em abril de 1997.

Ainda assim, foi um programa que marcou gerações e ocupou um espaço importante do Superman na cultura pop, no mundo do entretenimento e em Hollywood.

O Reino do Amanhã

Em meados dos anos 1980, o fim da Era de Bronze e o início da Era Moderna ou Era Sombria trouxe toda uma nova fase no mercado das HQs de super-heróis, com histórias mais adultas, ousadas e risco maior, como vimos desde Crise nas Infinitas Terras. Isso permitiu que os chamados anti-heróis se tornassem cada vez mais populares, o que encontrou um prato cheio na concorrente Marvel Comics, no qual anti-heróis como Wolverine, Justiceiro e Motoqueiro Fantasma, de repente, se tornaram muito mais populares do que os tradicionais heróis “certinhos” do passado. Mas a DC passou por isso também e viu Batman, que se encaixa bem no conceito, crescer cada vez mais em sua popularidade e, pela primeira vez depois de bastante tempo, passar a vender mais do que seu “amigão” Superman. Mas vimos o Aquaman se tornar um herói mais durão (com cabelos longos e barba e a ausência de uma mão), o boca suja e intratável Guy Gardner ser por um período de tempo o Lanterna Verde mais popular e seu colega Hal Jordan também ficar mais durão ao ponto de virar um vilão e etecetera.

O Superman de mullets na arte de Tom Grummet.

O homem de aço ficava um pouco deslocado desse cenário, pois sempre foi retratado como o boy scout, ou seja, o escoteiro bonzinho, mas mesmo ele precisou passar por mudanças, refletidas, por exemplo, no uso dos mullets, uma maneira de mostrá-lo mais ousado, mais rebelde, mais antenado aos novos tempos (e datado, pois essa moda horrível durou pouco e hoje é escandalosamente feia), porém, também em algumas atitudes, como ele sendo menos “bonzinho” do que no passado, como aquela finalização do Superciborgue deixou claro.

Porém, na medida em que os anos 1990 avançavam, as histórias em geral aprofundaram cada vez mais nesses elementos violentos e começaram a incorporar outras “ousadias”, como o apelo à nudez (apenas sugerida, não mostrada), o sexismo na representação das mulheres (desenhadas como “gostosas de pouca roupa”) e uma arte que da expressão detalhista (com artistas produzindo maior atenção a roupas, uniformes e cenários, criando texturas nas roupas e corpos, investindo em expressões faciais) descambou para o exagero puro e simples com o aumento do volume das peças anatômicas dos personagens, de músculos, seios e bundas, numa vertente que ficou negativamente conhecida como Efeito Muscular, um tipo de arte que vocês verão aparecer com mais frequência daqui em diante.

E não foi uma coisa qualquer: os adeptos dessa nova estética foram responsáveis por muitas das revistas que bateram recordes de vendagem na primeira metade dos anos 1990, um período no qual números especiais específicos chegaram a vendagens de 8, 6, 4 milhões de unidades, e na média mensal títulos importantes ficavam na casa das 400 mil cópias vendidas. Uma vendagem muito, muito alta, maior até do que no melhor período dos apogeu dos anos 1940.

Superman na arte pintada de Alex Ross.

Porém, em paralelo a isso, havia uma outra classe de artistas que se incomodou com essas mudanças, esse exagero, essa violência e começaram a escrever histórias contra tal movimento e um caso exemplar disso foi a belíssima minissérie O Reino do Amanhã (The Kingdom Come), publicada em quatro capítulos entre maio e agosto de 1996, com roteiro de Mark Waid (famoso então por seu trabalho no Flash) e a incrível arte pintada a óleo de Alex Ross. Ross já tinha feito algo similar dois anos antes na concorrência (Marvels, com Kurt Busiek), que também enfatizava a força e a beleza das HQs clássicas.

Além de sua beleza estonteante no campo artístico, O Reino do Amanhã era uma grande história que funcionava não apenas como uma crítica aos exageros da Era Sombria e do Efeito Muscular, mas realmente um manifesto contra isso. Na trama, o velho Wesley Dodds (o Sandman dos anos 1940, lembra dele? Da máscara de gás?) começa a ter visões terríveis do futuro e é conduzido pelo Espectro na compreensão do que está acontecendo, o que tem a ver com o mundo que nos é apresentado: um futuro próximo do Universo DC, com nossos heróis (Superman, Mulher-Maravilha, Lanterna Verde etc.) aposentados e desaparecidos, e uma nova geração de heróis e vilões causando o completo caos no mundo. O principal problema é que esses novos heróis e vilões – muitos dos quais filhos da geração anterior – não ligam para moral ou princípios e fazem o que fazem apenas pela diversão, causando uma grande destruição e não deixando nenhuma diferença real entre ser herói ou vilão. Não faz diferença. Uma crítica direta à praga dos anti-heróis da época.

Descobrimos que tudo começou quando o Superman (a grande inspiração dos heróis “do passado”) desapareceu e o por quê é terrível: algum tempo antes, o Coringa invadiu o Planeta Diário e matou todos lá dentro, incluindo Perry White, Jimmy Olsen… e Lois Lane. O homem de aço vive isolado na Fortaleza da Solidão, simulando através da tecnologia uma vida no campo, como foi sua juventude. Mas uma grande tragédia – um herói chamado Mangog (que no passado tinha emergido como um tipo de concorrente ao Superman, condenando sua moral “antiquada”) mata um vilão que libera uma explosão nuclear que destrói o Sul dos Estados Unidos, acabando com o “celeiro” do país, e a Mulher-Maravilha vai até lá tentar trazer Clark de volta.

O Superman retorna, mas numa analogia à adesão do personagem à Era Sombria e ao Efeito Muscular de anos recentes, influenciado por Diana – retratada como uma amazona guerreira que pensa que a guerra é a melhor saída – se cerca de velhos e novos seguidores e cria uma prisão especial para prender todos esses arruaceiros. Mas não consegue a adesão do Batman. Bruce Wayne está velho e calejado, sua identidade secreta foi exposta, mas ele continua usando seus recursos (intelectuais, físicos e financeiros) para deixar Gotham City segura. Porém, Batman vê a ação de Clark e seus amigos como uma medida fascista e vira uma terceira via.

Superman vs. Capitão Marvel em “O Reino do Amanhã”, na arte pintada de Alex Ross.

Tudo fica mais complicado quando descobrimos que o guarda-costas de Lex Luthor é ninguém menos do que o Capitão Marvel/Shazam (via controle mental) e temos uma grande batalha entre o Superman e o mortal mais poderoso da Terra, belamente ilustrada pela arte expressiva de Ross.

O Capitão Marvel zomba do Superman.

O Reino do Amanhã causou uma grande impressão na crítica e foi um enorme sucesso, sendo até hoje uma das obras definitivas dos anos 1990 e da carreira de seus autores, bem como a DC Comics como um todo. Um clássico!

A Morte de Jerry Siegel

Jerry Siegel, o criador do Superman, morreu aos 81 anos de idade em 28 de janeiro de 1996. Ele enfrentou doenças cardíacas no fim da vida e sofreu um infarto.

Siegel se distanciou o máximo que pôde de sua maior criação nos últimos anos, mas ainda se manteve ativo como escritor pelo menos até o fim dos anos 1980, colaborando com a Eclipse Comics numa HQ de sua criação chamada The Starling, sobre a mãe de uma criança alienígena. Ele deixou a esposa Joanne Carter (a inspiração para Lois Lane), dois filhos e dois netos.

O desenhista Joe Shuster já havia falecido em 1992.

O Casamento

Enquanto isso, um dos frutos da série de TV Lois & Clark – As Novas Aventuras do Superman foi o casamento do Superman, ainda que de uma maneira atrapalhada, por causa de fatores externos. Lembrem, logo no início dos anos 1990, o editor Mike Carlin e os artistas das revistas haviam decidido casar Lois e Clark e foram barrados pela Warner Bros. para que Lois & Clark explorasse a divertida brincadeira de “gato e rato” dos dois repórteres e sua identidade heroica como um tipo de comédia romântica. A diretriz da Warner era reter o casamento até o momento em que ele ocorreria na série e fazê-lo de modo concomitante nas duas mídias.

Como não havia um prazo definido, os artistas da revista fizeram o planejamento para o ano de 1996 e pensaram que estava cada vez mais difícil manter Clark e Lois como não casados, pois eles se aproximaram ainda mais depois da Morte e Retorno, então, a única maneira de evitar isso seria separá-los e se puseram a trabalhar nisso, e as tramas daquele ano mostraram uma crise matrimonial, com o casal se afastando e Lois achando que o relacionamento dos dois afastava o Superman de sua missão e que ele deveria pertencer ao povo e não a ela.

Por isso, Action Comics 720, de abril de 1996, por David Michellinie e Kieron Dwyer, traz o rompimento dos noivos, com muito drama e choro, e Superman 115, de setembro, por Dan Jurgens (agora, apenas no roteiro) e Ron Frenz, com Lois se tornando uma correspondente estrangeira do Planeta Diário para se afastar de Metrópolis e de Clark.

O casamento na TV.

Mas os editores e os artistas foram surpreendidos por uma mudança de planos na parte da Warner. Lois & Clark teve uma audiência altíssima nas primeiras duas temporadas (altíssima mesmo, no nível fenômeno cultural), porém, ao longo da 3ª temporada a fórmula de “gato e rato” parece ter cansado e audiência despencou e a Warner TV começou a discutir uma saída, e portanto, decidiram antecipar os planos do casamento como uma forma de dar uma “sacudida” no programa: o enlace aconteceu apressadamente no terceiro episódio da 4ª temporada, exibido em outubro de 1996.

A DC Comics teve que mudar seus planos rapidamente, e o resultado ficou comicamente apressado, pois depois de Lois ir embora em Superman 115, ela já precisa voltar e Clark lhe fazer o pedido de casamento na edição 118, com data de capa de dezembro de 1996, mas que chegou às comics shops ao mesmo tempo em que o matrimônio televisivo foi ao ar.

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O casamento de Lois e Clark em 1998: marco histórico.

O enlace matrimonial dos quadrinhos em si ocorreu com estardalhaço na revista especial Superman: The Wedding Album, com data de capa também de dezembro, com os cinco escritores do momento do homem de aço – Dan Jurgens, Roger Stern, Louise Simonson, Karl Kesel e David Michelinie – e com nada menos do que 30 desenhistas, dentre os quais, os clássicos Curt Swan e Gil Kane, o modernizador John Byrne e outros mais recentes, como George Perez, Ron Frenz e o fantástico Stuart Immonen.

A capa era dupla e trazia uma frente branca com o símbolo do Superman e uma figura interna desenhada por John Byrne. Na história quem os casa é um pastor com o rosto de Jerry Siegel, que infelizmente, morreu naquele mesmo ano. O público presente, retratado no último quadro por Jurgens, reproduz diversos artistas históricos da carreira quadrinística do homem de aço, como Joe Shuster, Bill Finger, Neal Adams e outros, além de Jenette Kahn e Paul Levitz, que continuavam a liderar a DC como presidenta e vice.

Um efeito estético interessante do casamento nas HQs é que, após três anos de cabelos longos e mullets, Clark corta seus cabelos para a cerimônia, voltando a um visual mais “tradicional”.

A pressa em publicar o casamento trouxe algumas consequências curiosas, com pequenos errinhos e deslizes nas revistas da época.

Por exemplo, quando o casamento ocorreu, a DC estava no meio da publicação de uma saga dos heróis DC chamada A Noite Final, de novo, transcorrendo em The Final Night, uma minissérie de 4 edições, começando em novembro de 1996, com texto de Karl Kesel e a belíssima arte de Stuart Immonen, na qual enfrentam a ameaça do Devorador de Sóis, que chega a causar o escurecimento de nossa estrela e o estabelecimento de uma fria noite no planeta inteiro até conseguirem reverter a tragédia.

Mas as alterações no sol afetam diretamente o Superman, cujos poderes advêm de nossa estrela, e por isso, o homem de aço perde temporariamente seus poderes. É por isso que, de modo algo incômodo, no momento do casamento, Clark está sem poderes!

Ser o protagonista de A Noite Final apenas mostrava como o Superman ainda vivia uma fase de altíssimas vendas, ainda que o mercado geral de HQs já sofresse uma forte retração em resposta ao crescimento desenfreado vivenciado anos antes. Como resultado, todas as revistas – de todas as editoras – tiveram um decréscimo rápido nas vendas ao longo dos anos de 1996 e 1997, o que resultou (dentre outros fatores econômicos externos) à concorrente Marvel Comics ter que pedir concordata para não entrar em falência.

A DC se saiu melhor, mas enquanto personagens como Superman e Batman iam muito bem, outros enfrentaram desafios maiores e um desses foi a Liga da Justiça, que após uma fase de bastante popularidade pós-Crise e pós-Lendas, caiu quase à irrelevância nos meados da década. A editora decidiu promover uma mudança radical no time e fazer isso em grande estilo, descontinuando abruptamente a revista Justice League of America no número 113, em agosto de 1996, encerrando a fase do escritor Gerard Jones.

Em seguida, foi lançada a minissérie em três capítulos Midsummer Nightmare, e a partir do mês de setembro, com textos de Fabian Nicieza (vindo dos títulos mutantes da Marvel) e Mark Waid e arte de Jeff Johnson e Darrick Robertson, na qual o clássico vilão Despero consegue pôr todo o planeta Terra dentro de um sonho no qual não existem os heróis da DC, mas eles conseguem gradativamente se soltar e recriar a Liga da Justiça reunindo, pela primeira vez no pós-Crise (acreditem!!!), os maiores heróis do Universo DC, os membros clássicos do time: Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Caçador de Marte, Aquaman, reunidos aos novatos-sucessores Flash Wally West e Lanterna Verde Kyle Ryner.

(Detalhe: esses heróis já haviam sido a Liga na cronologia pós-Crise, numa referência às aventuras [relativamente] válidas dos anos 1970, como na Fase do Satélite, porém, desde o reboot de 12 anos antes esse time estrelar não protagonizava as revistas senão em flashbacks ou histórias retroativas).

A Liga da Justiça de Grant Morrison foi um grande sucesso de público e crítica.

Era apenas o aperitivo para o relançamento do time com a revista JLA (assim mesmo, apenas a sigla), cujo número 01 saiu em janeiro de 1997, com roteiro do aclamado escritor escocês Grant Morrison e arte de Howard Potter, apresentando um primeiro arco no qual o grupo enfrenta o Hiperclan, com a invasão dos marcianos brancos.

A pressa do casamento deixou um pequeno detalhe no arco, pois apesar de se passar cronologicamente após o casório, o Superman ainda é retratado com os cabelos longos, pois a revista foi desenhada antes da decisão de realizar o casamento. JLA 01 também foi publicada antes do homem de aço retomar seus poderes, o que só aconteceu em Superman: the Man of Steel 64, por Louise Simonson e Ron Lim.

A fase de Morrison e Potter foi longa e fez muito sucesso, trazendo finalmente uma grande popularidade à Liga da Justiça pela primeira vez desde o fim dos anos 1980, e agregou personagens do Quarto Mundo de Jack Kirby, como Orion, Grande Barda e Sr. Milagre. Foi esse sopro de criatividade que possibilitou o surgimento de Justice League – The Animated Series, em 2001.

A fase terminaria em JLA 41, já em maio de 2000.

Bizarrices e Algum Classicismo

Em seguida, as revistas do Superman viviam momentos de estranheza, com os escritores buscando inovações e novidades dentro dos exageros típicos dos anos 1990. Inspirados naquela velha história de Leo Dorfman dos anos 1960, a DC quis “experimentar” a bizarrice de dividir o Superman em duas entidades, uma vermelha, outra azul, devido a um acidente mal explicado.

Dois supermen: péssima ideia.

Começa em Superman 123, de maio de 1997, por Dan Jurgens e Ron Frenz, e ainda durou um ano até a edição 135, de maio de 1998, e a fase se encerrou porque a resposta dos leitores foi muito negativa.

O Superman voltou ao natural para comemorar os seus 60 anos de publicação: para marcar o retorno, foi lançada a revista especial Superman Forever, em junho de 1998, escrita por Louise Simonson e Karl Kesel e com vários desenhistas (incluindo Dan Jurgens, John Byrne, Kieron Dwyer, Jon Bogdanove, Norm Breyfogle, Stuart Immonen) e uma capa emblemática pintada por Alex Ross.

O Superman de Tim Sale.

Também para comemorar o aniversário, a DC lançou a minissérie Superman: As Quatro Estações (For All Seasons), publicada em quatro capítulos (um para cada estação, claro), entre setembro e dezembro de 1998, que retrata quatro tempos diferentes da vida do herói, em uma abordagem humana e reflexiva, escrita por Jeph Loeb e desenhada por Tim Sale (mesma dupla de Batman: O Longo Dia das Bruxas). Um clássico absoluto, permeado de nostalgia, que não é exatamente uma origem do herói, mas uma revisitação ao seu passado, tentando não criar contradições demais com O Homem de Aço de John Byrne, mas explicitamente buscando resgatar elementos da Era de Prata e de seu tom mais “leve”, em contraposição aos elementos mais sombrios dos quadrinhos daquele tempo.

Jeph Loeb.

Nascido em 1958, em Stamford, Connecticut, Loeb tinha 40 anos de idade e era um veterano roteirista de cinema e TV naquele tempo. Ele era fã de quadrinhos desde criança e quando tinha uns 12 anos de idade conheceu o escritor Elliot S. Maggin, que era amigo de seu padrasto e estava iniciando sua carreira como roteirista do Superman nos anos 1970. Loeb terminou cursando a Universidade de Columbia, em Nova York, e estreou como roteirista de cinema em Teen Wolf, filme juvenil de lobisomem estrelado por Michael J. Fox, em 1985, e depois, também assinou Comando para Matar, de Arnold Schwarzenegger, do mesmo ano. Ele continuou com vários créditos e ao trabalhar na série de TV The Flash, que teve uma temporada apenas em 1990, o levou a conhecer Jenette Kahn, que o convidou para escrever HQs na DC, e ele se destacou especialmente em Batman: O Longo Dias das Bruxas, em 1995, e sua sequência, Vitória Sombria.

As Quatro Estações fez bastante sucesso e foi muito bem recebida, o que abriu caminhos para Loeb se aventurar em mais histórias do homem do amanhã.

O sucesso e aclamação de O Reino do Amanhã possibilitaram o artista Alex Ross a desenvolver uma série de projetos especiais para a DC Comics, e um deles foi uma série de álbuns (HQs em formato ainda maior do que o magazine) pautados nos mais icônicos personagens da editora para celebrar o momento em que eles faziam 60 anos de publicação. A serie atrasou e perdeu a data, mas ainda assim, Superman: Peace on Earth (Paz na Terra), com a arte de Ross e roteiro dele mesmo e textos de Paul Dini (roteirista de A Série Animada) trazia uma tocante história do homem de aço tentando enfrentar os grandes problemas do mundo: guerra, fome… e enfrentando a ganância sem limites do maior dos vilões: o ser humano mesquinho comum.

Usando quadros grandes e imagens icônicas, é uma das mais belas histórias já contadas sobre o Superman.

Superman debate com a Elite: heróis vs. antiheróis.

Nas revistas de linha, embora vendendo bem menos do que no passado, o Superman ainda teve uma grande fase nas mãos do escritor Joe Kelly, que se iniciou em Action Comics 760, de dezembro de 1999, mas viu se clímax na edição 755, de março de 2001, com arte de Doug Mahnke e Lee Bermejo. Na trama de What’s funny about truth, justice and american way? (No Brasil, Olho por olho), surgidos aparentemente do nada, uma equipe de “heróis” chamada A Elite causa um grande estrago, na mesma linha de questionamento ético de O Reino do Amanhã. Liderados pelo cínico Manchester Black, que tem poderosos poderes telepáticos, o grupo é daqueles heróis amorais que querem impor uma ordem deturpada e estão se lixando para as pessoas, e do ponto de vista editorial, serviam também como uma analogia do grupo The Autorithy, publicado pelo selo Wildstorm da Image Comics (uma editora especializada em Efeito Muscular), mas o selo fora comprado pela DC pouco tempo antes.

Na trama, a Elite se põe contra a “moral antiquada” do Superman e isso resulta em uma grande batalha, mas no fim, o homem de aço vence fazendo Manchester Black sentir uma dose de sua moral: Superman usa sua visão de calor para calcinar a parte do cérebro responsável pelos poderes do outro “herói” e ele se torna incapaz de usá-lo. Essa HQ, publicada em um volume único – algo muito raro nos tempos dos crossovers – causou uma grande impressão na época e seria mais tarde adaptada como o desenho animado em longametragem Superman versus The Elite, em 2012.

A fase de Kelly seguiu adiante, passando pela comemorativa Action Comics 800, em abril de 2003, e se encerrando na edição 813, de maio de 2004.

Na TV Mais Uma Vez: Smallville

O Superman não ficou muito tempo longe das TVs. Pouco tempo após o fim de Lois & Clark, em 1997, o herói voltou com tudo às telinhas. A a dupla de produtores Alfred Gough e Miles Millar apresentou o projeto de fazer uma série de TV que explorasse a vida do jovem Bruce Wayne antes dele se tornar o Batman, mas com os planos de uma nova franquia do homem-morcego para os cinemas a partir de sua origem (que resultaria em Batman Begins, em 2005), a Warner sugeriu fazerem o mesmo com o Superman e o duo aceito, desde que mostrassem a adolescência de Clark Kent com a regra: no tigh, no flying, ou seja, sem uniformes e sem voos.

A série começou menos fantasiosa…

O motivo era criar um universo mais crível e moderno ao mesmo tempo em que explorava as motivações do jovem fazendeiro em se tornar o maior herói da Terra, mas sem correr o risco de cair em uma nova série do Superboy. Aliás, naqueles tempos, a DC nem podia se dar esse luxo, pois a família de Jerry Siegel, representada por sua filha, estava processando a Warner pelos direitos do Superboy e o estúdio nem podia usar esse nome, que realmente não aparece em todo o programa.

O nome da nova série seria o da cidade onde rapaz cresce: Smallville, e a trama mostrava Clark aos 15 anos de idade precisando lidar com suas habilidades fora do comum (e seus poderes foram surgindo e se desenvolvendo ao longo dos capítulos) e por um senso de culpa, pois sua nave chegou à Terra puxando uma Chuva de Meteoros que causou uma grande destruição na região e em muitas mortes, inclusive, aos pais de sua amiga de infância e paixão secreta Lana Lang. Chegando ao ensino médio e ao auge da adolescência, com tudo o que está implícito, Clark vive momentos difíceis, enquanto o jovem Lex Luthor (filho de um poderoso e inescrupuloso empresário) chega à cidade e se torna interessado pelos mistérios que envolvem um minério radioativo desconhecido (a kryptonita) e o efeito que ela tem em humanos (transformando as pessoas expostas em metahumanos – o que dá vilões para Clark lutar a cada episódio).

O trio de protagonistas no início.

Com elenco puxado por jovens nomes – Tom Welling (Clark Kent), Kristin Kreuk (Lana Lang) e Michael Rosenbaum (Lex Luthor) – Smallville teve seu Episódio Piloto exibido em setembro de 2001 e fez tanto sucesso que marcou um recorde: oito milhões de expectadores! O programa foi um enorme sucesso (especialmente em suas três primeiras temporadas) e marcou toda uma geração.

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A Liga da Justiça de Smallville, com Bart Allen à esquerda.

A serie se desenvolveu explorando as personalidades de Clark e Lex, que vão lentamente de amigos a inimigos, aprofundando muito a psiquê do vilão, criando talvez a sua melhor versão entre todas. Inicialmente de natureza mais realista (apenas fantasiosa), lentamente, a série foi acrescentando elementos do universo do Superman, como Jor-El, a Fortaleza da Solidão, outros heróis da DC (Flash, Aquaman, Arqueiro Verde) e até a formação da Liga da Justiça. Na reta final, vilões como Brainiac, Doomsday/Apocalypse, General Zod e até Darkseid apareceram. Isso tudo antes de Clark Kent colocar seu uniforme de Sueprman! Lois Lane também foi introduzida bem cedo, na quarta temporada.

Embora muitos achem que Smallville perdeu a força com o passar dos anos, a série teve 10 temporadas até se encerrar em maio de 2011, sendo a mais longeva série de ficção científica da história da TV norteamericana, com 218 episódios. No último episódio para vencer a ameaça de Darkseid, Clark finalmente aceita sua herança e sua missão e se torna o Superman, vestindo o uniforme azul e vermelho. (Leia os melhores momentos da série aqui e compare os personagens principais com os quadrinhos aqui).

Paul Levitz se torna o presidente da DC Comics, em 2002.

Trazendo Elementos Clássicos de Volta

A DC Comics passou por uma boa mudança na virada do novo século. Após 26 anos na liderança da companhia, Jenette Kahn deixou o cargo de Presidenta e migrou para a área do cinema, produzindo filmes como Gran Torino de Clint Eastwood. Seu vice, Paul Levitz, assumiu a presidência da DC, cargo que ocuparia até 2009.

Dan DiDio, o novo chefe da DC Comics.

Vindo de trabalhos na televisão, mas um grande fã de quadrinhos desde sempre, Dan DiDio se tornou o vice-presidente editorial da DC, em janeiro de 2002, ou seja, a liderança criativa sobre a criação na redação, e dirigiu a editora para, ao mesmo tempo em que honrava as mudanças importantes e modernizações necessárias advindas da Crise nas Infinitas Terras, incentivava aos criadores para resgatar elementos clássicos das Eras de Prata e Bronze perdidos na grande reformulação que ainda podiam funcionar no mundo atual, com adaptações e coisas do tipo.

Um desses elementos era a própria ideia de Multiverso, que a DC abandonara quase completamente e havia apenas acenado sem grandes consequências durante eventos como Zero Hora, anos antes. Gradativamente, o editor incentivou a uma nova turma de criadores, como Jeph Loeb e Geoff Johns, ambos vindos de Hollywood, para criar grandes tramas que trouxessem esses elementos de volta.

Superman - Strange Attractors cover by John Byrne
John Byrne volta aos desenhos, com texto de Gail Simone.

Com o início dos anos 2000, as histórias do Superman sofreram uma queda de interesse. Desde então, o personagem só ganha relevância de mercado pontualmente. Ainda assim, vale nota a fase escrita pela escritora Gail Simone que produziu histórias interessantes em que John Byrne atuou “apenas” como desenhista, na revista Action Comics.

Superman vs Brainiac by ed benes
Superman vs. Brainiac na arte do brasileiro Ed Benes.

Já em Superman, houve uma boa fase escrita por Mark Verheiden (um dos roteiristas de Smallville) e com desenhos do brasileiro Ed Benes, que se tornou um dos grande nomes da editora.

Além disso, a DC decidiu resgatar vários dos elementos pré-Crise eliminados na reformulação de John Byrne. Por exemplo, Krypto, o supercão, foi reintroduzido em 2001, em Superman (vol 2) 167, numa história da dupla Jeph Loeb e Ed McGuiness.

Lex Luthor vira Presidente dos EUA.

Também alguns eventos importantes ocorreram na época, como a eleição de Lex Luthor como Presidente dos Estados Unidos, numa sacada ousada e interessante da DC. Também funcionava como uma crítica à Era Bush. Muitas boas histórias foram contadas em torno disso. A trama é mostrada na revista especial Lex 2000, publicada em janeiro de 2001, com cinco histórias, das quais quatro foram de autoria de Jeph Loeb e uma por Greg Rucka. Para Superman, além de ter seu arqui-inimigo agora como presidente do país, o evento ainda tem outro elemento sórdido, pois o vice-presidente é ninguém menos do que Pete Ross, o amigo de infância de Clark Kent, agora, o marido de Lana Lang, o primeiro amor do herói, e pai do filho dela.

A trama de Luthor como presidente dos EUA impactou bastante todas as revistas da DC Comics durante dois anos e, claro, a imagem de Luthor como presidente se tornou importante dentro da iconografia do personagem.

Um desenvolvimento da história ganha impulso em Superman (vol. 2) 178, de março de 2002, por Loeb e McGuinness, na qual um técnico que trabalha com o monitoramento via satélites mostra a nave que trouxe o bebê Kal-El caindo em Smallville, próximo à Fazenda Kent, o que é suficiente para Luthor deduzir a identidade secreta do herói, o que desequilibra a relação com o presidente.

Isso resultou na saga A Batalha Final, quando Luthor usa o vilão Manchester Black para matar o Superman, e que termina em Action Comics 796, de dezembro de 2002, com texto de Joe Kelly e arte de Duncan Rouleau. Na trama, Manchester Black quer forçar o Superman a lhe matar para provar o ponto de vista dele, de que o homem de aço é uma grande ameaça, e Black “mata” Lois Lane e espera que o kryptoniano enlouqueça e lhe ataque, mas o herói simplesmente imobiliza o vilão e tenta lhe levar para a prisão. Isso convence Manchester de que ele próprio estava errado, e ele mostra que Lois estava viva e a “morte” fora apenas uma ilusão. Manchester se retira e, como vingança contra Luthor, antes de se matar, apaga o conhecimento de que Clark Kent é o Superman da mente do presidente.

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Legado das Estrelas reconta a origem do Superman para os anos 2000.

Para marcar o novo século e a modernização dos conceitos do Superman pós-Crise, foi publicada a maxissérie Superman: Birthright (Legado das Estrelas, no Brasil), publicado em 12 partes entre 2002 e 2003, escrita por Mark Waid e desenhada pelo filipino Leinil Francis Yu. A história até tenta não “atropelar” a versão de Byrne, mas traz várias modificações, como reintroduzir a amizade juvenil entre Clark Kent e Lex Luthor; criar uma explicação para o fato do Superman não usar máscara (não passar a ideia de que está escondendo alguma coisa); e mostra Clark como um jovem repórter viajando pelo mundo em busca de conhecê-lo e, secretamente, ajudar as pessoas com suas habilidades, antes de se tornar o Superman, propriamente dito, como The Man of Steel havia mostrado rapidamente 16 anos antes.

Era uma forma da DC se aproximar da série de TV Smallville, que fazia um grande sucesso na época.

Superman e Batman passam a dividir uma revista de sucesso.

Esse bom momento na franquia do homem de aço foi celebrada com o lançamento da revista Superman/ Batman, em outubro de 2003, com roteiro de Jeph Loeb e arte de Ed McGuinness, retomando o velho espírito da World’s Finest Comics, e trazendo aventuras conjuntas dos personagens, mas agora, sob a abordagem moderna, pós-Crise, investindo nas diferenças entre os dois heróis, suas personalidades distintas, mas o respeito mútuo por suas habilidades.

De partida, o título foi um grande sucesso e seu segundo arco, publicado entre Superman/ Batman 03 a 06, trouxe a história Inimigos Públicos (mais tarde adaptada como um desenho animado em longametragem), que mostra a dupla de heróis sofrendo um grande ataque do Presidente Luthor, mas usando isso para expor seus crimes (de um modo aberto pela primeira vez desde a abordagem pós-Crise na qual o vilão é visto como uma “pessoa de bem” pela população) e, com isso, fazendo-o perder a presidência e virar um criminoso foragido.

Outro arco célebre da revista se deu nas edições 08 a 13, com texto de Loeb e arte de Michael Turner, que introduziu a nova versão da Supergirl, retomando a origem direta dela como outra habitante de Krypton, tal qual na Era de Prata e sem os subterfúgios “terráqueos” e extradimensionais da versão anterior. Na trama, um acidente faz a nave de Kara atrasar sua chegada à Terra em anos e, apesar dela ser mais velha do que Kal-El (uma adolescente, enquanto ele era apenas um bebê), o atraso (e a relatividade do tempo nas viagens pelo espaço) fazem ela chegar aqui ainda adolescente, mas seu primo já adulto.

Superman e Batman arranjam para que Kara treine suas habilidades com as Amazonas da Mulher-Maravilha, e ela é aliciada pelo vilão Darkseid, que tenta corrompê-la, mas os heróis conseguem salvá-la, e Kara emerge como uma nova heroína no fim. Esta história também foi adaptada, mais tarde, como um longametragem animado chamado Superman & Batman – Apocalipse.

A nova Supergirl de Loeb e Turner.

Bem recebida pelos leitores, essa nova versão logo ganhou sua revista própria e Supergirl (vol. 05) estrou em outubro de 2005, com textos de Jeph Loeb e arte de Ian Churchill.

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All-Star Superman: para muitos a melhor história das últimas décadas.

O coroamento dessa boa fase e também um marco da volta dos elementos pré-Crise a maxissérie All-Star Superman, escrita por Grant Morrison e desenhada por Frank Quitely, com a publicação iniciada em janeiro de 2006, mas prosseguindo com grandes atrasos e sendo concluída apenas em outubro de 2008. A proposta da linha All-Star era criar histórias icônicas de personagens icônicos. As tramas seriam à parte da cronologia e deveriam focar na essência dos personagens. Nisto, Morrison e Quitely acertaram em cheio. Os 12 capítulos são um deleite ao leitor, mostrando uma história ao mesmo tempo complexa (pois brinca com centenas de referências às Eras de Prata e Bronze) e simples (a linha principal da trama), em que o Lex Luthor consegue super-expor o Superman ao sol, sobrecarregando suas células que absorvem a energia solar, no que resulta em sua morte lenta. Ao perceber que vai morrer, o homem de aço se autodetermina a uma série de atividades que quer realizar antes de partir, o que é pretexto para uma bela história.

Os críticos afirmam que é a melhor história do Superman em décadas e, definitivamente, é um clássico moderno. Mais tarde, foi adaptada como um longametragem animado de mesmo título muito interessante.

A linha All-Star, entretanto, não emplacou. Um volume do Batman chegou a ser publicado com roteiros de Frank Miller e desenhos de Jim Lee, mas sequer foi terminado. Um outro da Mulher-Maravilha foi anunciado, mas nunca iniciado.

O Retorno ao Cinema

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Nicolas Cage quase foi o Superman…

O Superman demorou quase 20 anos para voltar às telas do cinema. Depois do fracasso de Superman IV, a Warner deixou o azulão de lado e promoveu uma bem-sucedida franquia do Batman, que lançou dois grandes filmes – Batman – O Filme (1989) e Batman – O Retorno (1992), ambos de Tim Burton – e dois grandes fiascos – Batman Eternamente (1995) e Batman & Robin (1997), ambos de Joel Schumacher.

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… e usaria isso.

Apesar do homem de aço frequentar bem as telinhas da TV, como já vimos, sua trajetória aos cinemas foi bem mais árdua. No início dos anos 1990, motivada pelo sucesso de Lois & Clark, a Warner retomou a ideia de um filme do Superman. Um roteiro foi feito e terminou caindo nas mãos do diretor Kevin Smith, conhecido nerd que mais tarde faria também quadrinhos de sucesso. Como era uma porcaria total, Smith terminou conseguindo convencer os executivos do estúdio em produzir um novo texto. O projeto seria Superman Lives e adaptaria o arco da morte e do retorno do Superman.

Contudo, o produtor Jon Peters, que tinha cuidado do Batman, interferiu no projeto e acabou impondo uma série de mudanças, como o fato do herói não voar, uma aranha mecânica gigante e um cachorro falante alienígena e gay. (Isso mesmo, não é brincadeira!). O vilão principal seria Brainiac e o astro (pelo menos na época) Nicolas Cage era o grande chamariz do projeto e faria o homem de aço. Então, por volta de 1996, a Warner decidiu contratar o diretor Tim Burton, que havia saído da franquia do Batman.

Superman e Batman no fanfilm.

Burton demitiu Kevin Smith, colocou outro roteirista e impôs sua visão: o Superman continuaria sem voar, usaria uma roupa preta e carro possante. Isso lembra alguém? Contudo, os conflitos criativos se agravaram e (graças a Rao) o filme não foi para frente. Por volta de 1998, surgiu um projeto ainda mais ousado: Superman versus Batman, já que a franquia do homem-morcego também tinha afundado. Essa ideia foi levada à sério durante algum tempo e o filme, que chegou a ser chamado também de World’s Finest terminou não acontecendo. Mas um grupo de fãs do herói fez um fanfilm (produções amadoras e não-oficiais) com os dois heróis que foi um hit na internet.

… ao mesmo tempo de “Superman – O Retorno” e não conectados.

Então, o projeto voltou os olhos de novo à ideia de Superman Lives e, em 2004, com a entrada do diretor Bryan Singer (de Os Supeitos e os filmes dos X-Men), se transformou em Superman – O Retorno, lançado em 2006, com Brandon Routh (Clark Kent), Kate Bosworth (Lois Lane) e Kevin Spacey (Lex Luthor). Singer investiu em um projeto um pouco mais intimista, sem grandes cenas de ação, e totalmente voltado a homenagear os antigos filmes de Richard Donner e Christopher Reeve. Em termos plásticos, um ótimo filme, que teve a proeza de trazer até Marlon Brando de volta como Jor-El – por meio de um efeito especial e gravações da voz do ator falecido em 2004 – porém, carente de ação e intensidade que provocassem o público moderno.

Resultado: arrecadou apenas 400 milhões de dólares nas bilheterias e desmotivou a Warner a dar prosseguimento à franquia. Em paralelo, a franquia do homem morcego virara um fenômeno de crítica e público.

A Warner cogitou fazer um filme da Liga da Justiça, mas cancelou o projeto às vésperas de ser filmado, em 2008, com os atores contratados, cenários montados e figurino pronto. O movito era o medo de chocá-lo com os filmes de Batman, que faziam tanto sucesso. No longa da equipe Superman e Batman seriam vividos por outros atores que não Brandon Routh e Christian Bale, mas os mais jovens, D.J. Corona e Armie Hammer, respectivamente.

Novas Grandes Mudanças

A segunda metade da década de 2000 foi repleta de mudanças e grandes arcos para o Superman, embora as vendas tenham oscilado. De fato, os escritores continuaram a empreitada de trazer de volta muitos dos elementos pré-Crise.

Liga da Justiça - Infinite_Crisis_5 cover by George Perez (superman x superman)
O Superman da Terra 2 vs. o Superman da Terra 1 na sólida arte de George Perez.

Na maxissaga Crise Infinita, de 2006, escrita por Geoff Johns e desenhada por Phil Phimenez, uma espécie de sequência da primeira Crise, o status de herói e inspiração do Superman é testado, inclusive na clássica cena em que o homem de aço discute com o Batman, que diz que ele não inspira ninguém desde que esteve morto.

Liga da JUstiça - Crise Infinita - Batman diz que Superman não inspira mais ninguém
Batman diz que a última vez em que o Superman inspirou alguém foi quando esteve morto. Texto de Geoff Johns e arte de Phil Jimenez.

Usando isso como mote, Johns coloca duas velhas versões do Superman – o da Terra 2 e o Superboy extinto – como personagens da saga. Ao final da primeira Crise, ambos ficaram presos em um limbo para além do tempo e do espaço, mas agora estavam de volta. Só que o Superboy Prime – para diferenciá-lo do Superboy clone, agora chamado, Connor Kent – quer remodelar a realidade à sua vontade e termina se transformando em um perigoso supervilão, que mata o Superman da Terra 2.

O nosso Superman quase não sobrevive ao confronto, mas mata sua versão juvenil e maligna, porém, ao custo de seus poderes. O herói passa um ano afastado – cronologicamente – e retorna somente após a volta de sua força.

Bela capa do brasileiro Ed Benes.

Essa fase pós-Crise Infinita trouxe uma grande reformulação editorial a toda a DC, por meio da bandeira Um Ano Depois (pois não somente o Superman, mas Batman e Mulher-Maravilha também se ausentam por um ano do Universo DC). De qualquer modo, a revista Superman (vol. 2), que vinha desenvolvendo a boa fase de Mark Vernhaiden e Ed Benes, encerra sua publicação com o número 226, de abril de 2006, após quase 20 anos, com uma edição especial na qual além daqueles dois autores, também trouxe contribuições de Joe Kelly, Jeph Loeb, Tim Sale, Jerry Ordway, Howard Chaykin e o também brasileiro Renato Guedes.

Capa do brasileiro Ivan Reis.

Com o fim dessa revista, The Adventures of Superman (que vinha sendo escrita por Greg Rucka com arte de Karl Korschi) também se encerra com o número 649, numa edição especial com Kelly, Benes, Ed McGuinness e alguns outros. Então, Adventures retoma seu nome original e volta às comic shops como Superman 650, dando início à nova fase Um Ano Depois, com roteiro de Kurt Busiek e Geoff Johns e arte de Pete Woods, numa nova abordagem editorial na qual essas tramas seguiam diretamente para Action Comics 837, ambas em maio de 2006, de modo que, para fins práticos, Superman e Action Comics funcionavam como uma só revista publicada quinzenalmente, sem serem essencialmente distintas por algum tempo.

A revista Superman volta a ostentar seu título original após quase 20 anos com o acréscimo de “The Adventures of…”.

Era o momento em que o roteirista Geoff Johns, responsável por Crise Infinita, se tornava o principal criador do homem de aço e alguém que teria enorme importância para o seu desenvolvimento nos anos vindouros.

Geoff Johns.

Nascido em Detroit, em 25 de janeiro de 1973, Johns tinha origem libanesa por parte de seus pais, e foi um grande fã de quadrinhos desde criança, especialmente, daqueles da DC Comics. Ele se graduou em roteirização e produção cinematográfica na Michigan State University, em 1995, e foi para Los Angeles, onde conseguiu um estágio na produtora do diretor Richard Donner, sim, o mesmo de Superman – O Filme, começando seus serviços no longa A Teoria da Conspiração (1997). Após fazer uma visita guiada pelos escritórios da DC Comics, Johns começou a interagir com escritores e editoras da empresa e sugerir histórias, o que resultou nele assumindo o roteiro de SJA, a revista da Sociedade da Justiça, em 2000, um título que tinha passado por uma fase excelente nas mãos de James Robinson, mas a temporada de Johns culminou em transformar aquela em um dos maiores sucessos da DC da época.

Após uma bem recebida temporada em The Flash, Johns deu uma passada na Marvel, onde escreveu os Vingadores, entre 2002 e 2004, mas voltou à DC com tudo, relançando o Lanterna Verde Hal Jordan (de volta à raia heroica após aquele incursão vilanesca dos anos 1990) com enorme sucesso a partir de 2005, o que o pôs em Crise Infinita e, em seguida, no Superman.

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A bela arte de Adam Kubert em “Last Son”.

Em seguida, Johns uniu-se ao diretor Richard Donner para escrever um arco de histórias do personagem, a primeira vez em que o diretor trabalhou com quadrinhos, e o resultado foi The Last Son, belamente ilustrada por Adam Kubert, a partir de Action Comics 844, de dezembro de 2006. Nessa boa história, o Superman encontra uma criança com seus mesmos poderes, que descobre ser um filho do General Zod com Ursa, concebido na Zona Fantasma como estratégia de libertar os criminosos lá trancafiados.

Essa trama introduziu a moderna versão do General Zod, o antigo vilão da Era de Prata que, apesar de mundialmente famoso pelo filme Superman II – A Aventura Continua jamais tivera real importância nas HQs, pois nos anos 1960 fora principalmente oponente da Supergirl ou do Superboy e os parâmetros pós-Crise (de que Kal-El foi mesmo o único sobrevivente de Krypton) o tornaram “extinto” e mesmo aquela célebre história de John Byrne o colocava em uma realidade alternativa (o Universo Compacto) e não teve continuidade, pois ele morreu ao fim. Desse modo, apesar de cultuado pelo filme de 1980, Zod permanecia até então como um mero apêndice do cânone do homem do amanhã, mas a sequência de histórias de Johns se esforçou em mudar isso.

Capa do encadernado de Brainiac por Geoff Johns e Gary Frank.

Com o aval de Paul Levitz e Dan DiDio, Geoff Johns se encarregou de resgatar os elementos que julgava fortes da Era de Prata, adaptando-os aos aspectos mais modernos, aproveitando-se do soft reboot proporcionado por Crise Infinita. Então, entre Action Comics 866 e 870, começando em agosto de 2008, com arte do britânico Gary Frank (famoso por Hulk na Marvel e Supergirl na DC), apresentou o arco Brainiac, que reintroduz o célebre vilão na nova realidade. Apesar de histórias relativamente recentes da fase de Mark Vernhaiden e Ed Benes terem “renovado” o vilão, Johns já atualiza Brainiac de novo.

Na trama, 35 anos atrás, tal qual na Era de Prata, Brainiac atacou Krypton e, no presente, se lança contra a Terra, com a história deixando implícito que todas as interações anteriores do Superman com o vilão tinham se dado apenas com seus avatares, e que, portanto, Brainiac aparecia pela primeira vez. Foi uma boa história com a bela arte de Frank, um artista de traço reto e limpo, que adotou o rosto do ator Christopher Reeve como template do Superman, enchendo a HQ de nostalgia. a grande surpresa do arco é que Brainiac havia sequestrado a cidade Kandor, devolvendo esse elemento à realidade pós-Crise Infinita.

Superman vence Brainiac, mas as cidades de Kandor e Argo (a terra-natal da Supergirl!) são devolvidas ao tamanho natural no Ártico, ao lado da Fortaleza da Solidão, e – num aceno a Superman – O Filme Jonathan Kent morre de um infarto, sem que seu filho consiga salvá-lo.

Arte da capa por Alex Ross.

O arco seguinte é Novo Krypton, na qual o Superman (e o planeta Terra) precisam lidar com 100 mil kryptonianos na Terra. Lex Luthor age pelos bastidores e consegue que uma nova versão de Apocalipse (Doomsday) ataque Kandor e destrua Argo, mas a reação dos kryptonianos impede o monstro, embora não sem a morte de humanos, aos quais Zor-El e Alura, os pais de Kara, a Supergirl, não dão a mínima. O general Sam Lane (pai de Lois) é encarregado pelo Governo dos EUA de lidar com a “invasão” kryptoniana, e o militar não tem escolhas além de recrutar Luthor para ajudá-lo, com ambos usando Metallo como uma arma.

Superman tenta impedir uma guerra sem controle, mas Reactron termina por matar Zor-El, o que enfurece Alura, a nova líder dos kryptonianos, contra os terráqueos, mas no fim, eles usam sua tecnologia para ejetar Kandor da Terra e desenvolvem um novo planeta, chamado Novo Krypton, situado no extremo oposto da Terra no Sistema Solar, no qual o homem de aço não é bem-vindo. Precisando de ajuda para liderar os kryptonianos em seu novo lar, Alura resgata o General Zod da Zona Fantasma.

Essa grande história foi narrada de modo complementar, como nos velhos tempos, entre Superman 681 e 683, por James Robinson e o desenhista brasileiro Renato Guedes, e Action Comics 871 e 872, por Geoff Johns e Pete Woods, a partir de dezembro de 2008.

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Superman versus Zod na arte do brasileiro Eddy Barrows.

Seguiu-se o arco O Mundo Sem o Superman, no qual o herói precisa lidar com a crescente tensão entre a Terra e New Krypton e as artimanhas de Luthor e Zod, cada qual em seus interesses, até que vem A Guerra dos Supermen, com as maquinações de Zod, Luthor e do General Sam Lane culminando numa guerra entre Novo Krypton e a Terra, que tem como resultado, a morte de praticamente todos os kryptonianos – cortesia de Luthor – e o estabelecimento de Zod como talvez o maior inimigo moderno do homem de aço. O arco terminou em uma minissérie de 5 capítulos, publicados semanalmente em julho de 2010, escrita por James Robinson e Sterling Gates e arte principal pelo desenhista brasileiro Eddy Barrows.

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Painel com as capas de Origem Secreta, por Gary Frank.

Ao mesmo tempo, Geoff Johns também modificou mais uma vez a origem do herói. Na minissérie Origem Secreta, de 2010, escrita por ele e desenhada por Gary Frank, além de se estabelecer o herói com o rosto do ator Christopher Reeve, mostra-se uma origem que toma elementos de Legado das Estrelas, mas é muito mais explícita em reintroduzir a Era de Prata, colocando Clark Kent para ser amigo de Lex Luthor ainda adolescente; agir como Superboy (com uniforme e tudo); encontrar a Legião dos Super-Heróis; enfrentar um complô comandado por Luthor e o General Lane… e no caminho, mesclar elementos dos filmes e de Smallville.

Mas o estabelecimento dessa nova “realidade” e dessa nova origem não duraram nada… Um novo reboot estava no horizonte…

Antes disso, veio o arco Reino do Apocalipse, no qual em Action Comics 899, de 2011, escrita por Paul Cornell e desenhada por Jesus Merino, Lex Luthor se apossa de um artefato cósmico extremamente poderoso e confronta Brainiac usando uma nova versão de sua armadura de batalha, incrementada com tecnologia kryptoniana, e vence, conseguindo uma passagem para a Zona Fantasma. Lá encontra um monstro cujo domínio das emoções lhe fazem uma das coisas mais poderosas do universo. Luthor consegue se fundir ao monstro e se torna poderoso como um deus.

A batalha “final” entre Luthor e Superman se dá em Action Comics 900, de junho de 2011, que celebrava os 73 anos de publicação da revista (e do herói), numa edição especial com quase 100 páginas e várias histórias. Na principal, escrita por Paul Cornell e desenhada especialmente por um batalhão de artistas, que inclui Pete Woods, Gary Frank, Jesus Merino e Rags Morales, Superman tenta convencer Luthor a fazer o bem com os novos poderes que adquiriu, mas o ódio do vilão é mais forte. Ele tenta sobrecarregar o homem de aço de emoções humanas que ele acha que o “alien” apenas finge ter, mas o acesso à mente do Superman revela para o vilão que ele é Clark Kent, o seu velho “amigo” de adolescência, o que o desestabiliza. Com isso, Luthor perde a conexão com o tal monstro e também perde todas as memórias do que aconteceu enquanto esteve vinculada a ele, o que inclui o lance da identidade secreta, e termina caindo em um buraco no espaço-tempo da Zona Fantasma, onde ficaria para sempre.

Terminada a trama, a DC mudou tudo e zerou a cronologia da DC de um modo tão radical quanto fizera em Crise nas Infinitas Terras.

O Reboot (ou The New 52)

Em 2009, a Warner Bros., promoveu uma pequena reestruturação corporativa, de modo que a DC Comics se tornou uma subsidiária da DC Entertainment (mais focada na produção de filmes e outros produtos multimídia), sob a presidência de Diane Nelson, que apontou a dupla Dan DiDio e Jim Lee como copublishers da DC Comics em 2010. DiDio já era o vice-presidente editorial da DC desde 2002.

DiDio e Lee analisaram a fundo a situação da editora, com vendas em quedas nos últimos anos e com raras revistas vendendo mais do que 100 mil cópias ao mês, e chegaram à conclusão de que a única maneira de recuperar as vendas perdidas e dar um gás às suas propriedades era criar um novo reboot, tão profundo quanto fora Crise nas Infinitas Terras. Afinal, desde 1985, Zero Hora Crise Infinita foram reboots “menores”, que alteraram apenas detalhes da cronologia da DC, em certo sentido, consertando elementos da Crise de 1985. DiDio e Lee pensaram que chegara o momento de fazer outra reformulação profunda, que mudasse tudo.

Flashpoint nos quadrinhos: realidade alternativa.

Do ponto de vista criativo, a coisa começou no evento Flashpoint (Ponto de Ignição, no Brasil), publicado como uma minissérie em 7 capítulos, escrita por Geoff Johns e desenhada por Andy Kubert, na qual o Flash viaja ao passado para tentar impedir que sua mãe seja morta, mas ao fazer isso, abala a estrutura da realidade e vê o presente totalmente transformado para um mundo no qual o Superman nunca apareceu e Amazonas e Atlantes estão em guerra. Ao tentar consertar a realidade, o Flash não consegue voltar ao que era, e termina criando uma nova realidade, que a DC irá chamar de Os Novos 52.

Não somente um reboot cronológico, Os Novos 52 foram uma profunda reformulação editorial, talvez até maior do que a Crise original. De mais de 70 revistas publicadas mensalmente, a DC as reduziu para exatamente 52 e zerou a numeração de todas elas, começando com Justice League 01, em agosto de 2011, e no mês de setembro, lançando as demais, todas com novos números 01.

Não somente as revistas foram zeradas, mas novas equipes criativas assumiram cada título. Em termos cronológicos, os personagens foram todos rejuvenescidos e uma nova cronologia passou a imperar. O parâmetro estabelecido por Dan DiDio, Jim Lee e o escritor Geoff Johns era de que os heróis da DC estavam em ação há pouco tempo e, portanto, tinham um passado mais enxuto. Em linhas gerais…

  • Fazia apenas 5 anos que os heróis da DC tinham surgido, portanto, todos eram bastante jovens.
  • Os metahumanos, à princípio, assustaram a humanidade e foram perseguidos pelas autoridades até que o ataque de Darkseid à Terra forçou a união da Liga da Justiça e, então, nasceu a expressão “super-heróis”.
  • A formação original da Liga da Justiça era: Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Flash, Lanterna Verde Hal Jordan e o Ciborgue.
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O novo uniforme Superman, por Jim Lee.

personalidade de alguns personagens foi ligeiramente alterada… O Superman se tornou menos “bonzinho” e um pouco mais raivoso e impulsivo. A Mulher-Maravilha ficou mais durona e mais ligada à Mitologia Grega. Aquaman também se tornou mais marrento, como fora naquelas revistas do fim dos anos 1990.

Na revista da Justice League, escrita por Geoff Johns e com desenhos de Jim Lee é mostrada uma fase de transição, há cinco anos atrás, em que o Superman já usa seu uniforme, mas ainda é intempestivo e não tem total confiança da população. Ao mesmo tempo, ele se une pela primeira vez com outros heróis do Universo DC, como Batman e Lanterna Verde para fundar a Liga da Justiça e combater a invasão alienígena de Darkseid.

Enquanto Batman e Lanterna Verde sofreram poucas alterações, porque suas revistas estavam entre as mais vendidas do mercado, o homem de aço sofreu transformações profundas. Ficou estabelecido que a palavra “super-herói” não existia até o surgimento do Superman e, que antes, os pouquíssimos seres metahumanos que tenham aparecido eram vistos com extrema desconfiança, temidos e odiados. O Batman é retratado como um veterano, já agindo alguns anos antes, mas definitivamente, ninguém pensa nele como um “super-herói”, mas como uma lenda urbana ou um terrorista. Quando o Superman se revela em toda a sua glória, o público ainda demora um tempo para se acostumar com ele até ganhar sua confiança.

O grande destaque de Os Novos 52 no que concerne ao Superman foi o relançamento da revista Action Comics nas mãos do roteirista Grant Morrison (de All-Star Superman) e do artista Rag Morales (de Crise de Identidade). A trama de Action Comics (vol. 2) 01, com data de capa de outubro de 2011, traz os eventos no que seria o Ano Zero do Universo DC, um ano antes dos eventos mostrados em Justice League 01 publicados no mês anterior, que estaria no Ano Um. O jovem Clark Kent não conhece suas origens e usa secretamente seus poderes para ajudar os oprimidos. A abordagem de Morrison procurava homenagear a primeiríssima representação do homem de aço, por Siegel e Shuster, no qual o herói luta contra os ricos e corruptos para ajudar aos mais pobres.

A ambientação desse jovem Superman dos Novos 52 de Grant Morrison também remete à representação original do personagem, com o herói tendo poderes mais limitados – ele é forte e rápido, mas com limites – e não voa ainda, apenas dá grandes saltos, usando não um uniforme, mas uma t-shirt com seu emblema kryptoniano, a capa indestrutível que veio com ele na nave, um jeans escuro e botas de trabalhador… um visual operário. Clark Kent é apresentado bastante jovem, como um nerd retraído, vivendo em um cortiço, trabalhando com jornalismo no pequeno jornal Estrela Diária sob a liderança do editor George Taylor (entenderam?).

O jovem Superman no início de carreira dos Novos 52: sem uniforme. Arte de Rags Morales.

Com seu visual simples e improvisado, o Superman é perseguido pelas autoridades e pela polícia, e sofre ampla perseguição do CEO da Galaxy System Broadcast, Glen Glenmorgan, por mover uma investigação contra ele no Estrela Diária (recebendo dicas quentes de uma fonte anônima), ao mesmo tempo em que o cientista Lex Luthor e o general Sam Lane estão preocupados com essa ameaça alienígena e querem testá-lo para saber do que ele é capaz. No fim da edição 01, Luthor e Lane conseguem capturar o Superman, e no número 02 ele é levado a um complexo militar onde é sumariamente torturado por Luthor para testar suas habilidades, e descobrimos que o vilão detém a nave que trouxe Kal-El à Terra. Conhecemos também o cientista John Henry Irons e o militar John Corben, que fazem parte do Projeto Soldado de Aço, que ficam preocupados com os métodos de Luthor, mas quando o Superman consegue resistir e escapar (deixando inúmeros militares desacordados) – encontrando Lois Lane pela primeira vez, que tentava convencer seu pai de que ele não era uma ameaça -, Corben se convence de que ele é uma ameaça e pede para acelerar o projeto.

Na edição 03 vemos um flashback de Krypton, com uma inteligência artificial (claramente, o vilão Brainiac) atacando o planeta, copiando todos os seus dados e sequestrando a inteira cidade de Kandor, avisando de uma iminente destruição, e no presente, Clark sofrendo uma revista policial em sua casa por causa de suas acusações contra Glenmorgan, e Corben usando a avançada armadura do Projeto Soldado de Aço que é invadida por Brainiac, com Luthor revelando que está associado ao vilão, e na edição 04, Brainiac ataca Metrópolis, envolvendo a ilha de Nova Troia com uma espécie de bolha, o que leva Superman e Sam Lane a se aliarem, e no número 05, finalmente vemos a origem do herói, com Jor-El e Lara tentando migrar para a Zona Fantasma e percebendo que lá não seria um local seguro por causa dos criminosos que estão confinados, e que tentam sair, o que leva ao cachorro da família a atacar um deles e terminar preso dentro da outra dimensão.

Por fim, sem alternativas, o casal põe o bebê Kal-El no protótipo de nave de evacuação que o cientista criou e a criança parte momentos antes de Krypton conhecer seu fim. Na Terra, o bebê é coletado pelo casal Jonathan e Martha Kent nas proximidades de Smallville, mas os militares conseguem capturar a nave deixada para trás – a mesma que o herói encontrou na base militar. A edição 06 traz a confusa trama na qual o Superman do presente é alertado pela Legião dos Super-Heróis do futuro para salvar a Terra e sua versão juvenil do ataque de Brainiac,

Na edição 07, já em maio de 2012, Superman usa toda a sua supervelocidade para ganhar suficiente impulso e saltar para fora da órbita terrestre, chegando à nave do Coletor de Mundos, encontrando uma armadura (branca) kryptoniana, que ele veste e assume a cor azul e o emblema de sua família (o “S”) virando seu uniforme típico d’Os Novos 52, e é só na conversa com Brainiac que o herói aprende sobre sua origem kryptoniana e que é o último sobrevivente do planeta, ao passo que o vilão o manda escolher entre a cidade de Kandor ou o bairro de Nova Troia e o Superman diz que vai salvar as duas, e o arco termina na edição 08, com a inteligência artificial de Brainiac tomando posse da armadura robótica de John Corben, mas os sentimentos humanos dele ajudando ao Superman conseguir vencer o vilão, fazer o sistema kryptoniano tomar o controle da nave espacial de Brainiac e devolver Nova Troia ao seu lugar apenas segundos antes do processo se tornar irreversível.

Superman recebe a chave da cidade de Metrópolis por salvar a cidade e comunica a todos que é um alienígena de Krypton, mas que é um amigo que vai sempre defendê-los. A reportagem de Clark leva Glenmorgan à Justiça e o editor Taylor diz que conheceu os pais de Clark quando trabalhou no Smallville Sentinel, e que o rapaz está pronto para voos maiores e deve aceitar o convite de Perry White para trabalhar no Planeta Diário. Clark visita o túmulo de Jonathan e Martha Kent e percebe que encontrou seu lugar no mundo, passando a usar a nave de Brainiac como uma base na órbita da Terra.

A edição 09 é um tipo de intervalo da temporada, com uma aventura apresentando o Multiverso e o Superman da Terra 23, Calvin Ellis, a versão afro do herói, criada pelo próprio Morrison em Crise Final. Action Comics 10, de agosto de 2012, dá início ao novo arco, no qual Morrison põe em jogo as suas bizarrices, com o herói enfrentando a ameaça do Capitão Cometa (um obscuro personagem da DC criado por Julius Schwartz, John Broome e Carmine Infantino, baseado no próprio Superman, com poderes bem parecidos, cujas histórias foram publicadas originalmente na revista Strange Adventures, entre os números 09 e 49, de 1951 e 1954, mas depois fez algumas outras aparições) e dos Metaleks (alienígenas em formato de máquinas de construção, que seriam uma versão DC dos Transformers, embora baseados numa linha de brinquedos britânicos dos anos 1960 ao qual o escritor brincava quando criança), mas que são apenas o impulso para a verdadeira ameaça: um evento cósmico chamado Multitude que resultou na destruição de 333 mundos em 54 galáxias.

Ilustração da capa variante da edição 15, com Vyndktvx.

Superman descobre que quem está por trás da ameaça é um poderoso mago da 5ª Dimensão, Vyndktvx, um rival do tradicional Mr. Mxyzptlk, e que apenas três mundos resistiram a tal evento, dois dos quais Krypton (pelas mãos de Jor-El) e a Terra (pelo Superman). Inclusive, o herói percebe que os mundos atacados por Brainiac eram justamente aqueles destruídos pela Multitude, de modo que, em certo sentido, o vilão robótico queria preservar aquelas heranças culturais, genéticas e tecnológicas da destruição. Morrison cria uma trama complexa, na qual Vyndktvx tenta se vingar do homem de aço em múltiplos ataques ao longo do tempo, o que resulta nele ter interferido em sua vida em diversos momentos cruciais.

É durante este arco que o Superman acessa – na realidade d’Os Novos 52 – a Zona Fantasma pela primeira vez, trazendo as aparições das novas versões dos prisioneiros kryptonianos, como Non, Ursa, Jax-Ur e, claro, o general Dru-Zod, na edição 13.

O astrofísico Neil deGrasse Tyson aparece na edição 14.

No meio daquele arco, Action Comics 14, de janeiro de 2013, trouxe um bônus especial que fez o Superman ser noticiado na grande mídia: uma história secundária, escrita por Sholly Sprouse e com arte de Karl Story, na qual o homem de aço visita o Planetário Hayden, no Museu Americano de História Natural, em Nova York, no qual com a ajuda do herói e sua tecnologia e mais dados de todos os grandes telescópios do mundo, o Dr. Neil deGrasse Tyson (um astrofísico que existe de verdade, discípulo de Carl Sagan, e famoso por atuar na popularização da ciência, tendo apresentado diversos programas de TV, como Cosmos) lhe apresenta imagens do planeta Krypton.

A história usa de recursos da ciência verdadeira: com Krypton localizado há 27 anos luz da Terra e o Superman ter deixado o planeta com apenas alguns dias de vida e tendo 27 anos de idade, significava que ainda era possível ver Krypton no céu noturno como se ele ainda existisse. Isso porque, na vida real, a luz emitida por um planeta, mesmo viajando à velocidade da luz, demora muitos e muitos anos para chegar à Terra por causa das longuíssimas distâncias do universo. O “ano luz” é a medida de distância que a luz demora para percorrer em um ano terráqueo (365 dias), o que equivale a 9,4 trilhões de quilômetros. Sim, o universo é um lugar muito grande e a luz do Sol, por exemplo, ainda demora 8 minutos para chegar à Terra.

A HQ informa que Tyson foi capaz de localizar Krypton: o planeta orbitava a estrela Rao, uma gigante vermelha, na constelação de Corvo, no sul celeste, a 27 anos luz da Terra. Essa é uma distância relativamente curta, estando, portanto, dentro do grupo de sistemas solares relativamente próximos do nosso. A estrela mais próxima da Terra é Proxima Centauri, a 4,2 anos luz de distância. Para se ter uma ideia, eis aqui uma lista das estrelas mais brilhantes no céu noturno e sua distância em anos luz: Sírius (8,6), Arcturo (37), Vega (25), Betelgeuse (546) e Rigel (860).

Os cálculos de Tyson e do próprio Superman permitiram calcular aproximadamente a data da explosão de Krypton, e portanto, ao lado do cientista naquela noite, o homem de aço assiste seu mundo explodir. Essa boa história trouxe um tom de poesia, pois a ideia de usar a Física Moderna para fazer o Superman assistir no presente a destruição de seu mundo natal é realmente uma ferramenta poderosa, e ao mesmo tempo, estabeleceu de modo preciso, pela primeira vez, a localização celeste de Krypton, usando de recursos do mundo real: uma estrela gigante vermelha relativamente próxima à Terra.

… e dá uma lição sobre responsabilidade.

Ainda durante o arco, a edição 17 trouxe a tocante história que narra a morte dos pais adotivos de Clark: Jonathan e Martha Kent morrem em consequência de um acidente de carro, quando Clark estava em uma festa. A mãe morre imediatamente e o pai convalesce. Clark tira o pai do hospital e o leva para casa. No leito de morte, Jonathan Kent faz um discurso sobre Clark usar seus poderes para o bem e ser um campeão dos oprimidos.

Grant Morrison encerrou sua passagem no Superman na edição 18, de maio de 2013, que teve o dobro de páginas (48) com desenhos de Rags Morales e Brad Walker, como vinham sendo as últimas edições, concluindo o embate com Vyndktvx e a participação do Capitão Cometa.

A partir da edição 19, iniciou-se a nova fase da revista, com roteiro de Andy Diggle e arte de Tony Daniel.

A capa de estreia dos Novos 52, por George Perez.

Em paralelo à publicação da nova Action Comics, também saía a nova Superman (vol. 3), que ao contrário de sua revista-irmã se passava no presente do novo Universo DC, ou seja, no Ano 5, mostrando um homem de aço mais maduro e experiente, mas retendo algumas características da versão mais impulsiva e abusada de Morrison.

Superman (vol. 3) 01 chegou às comic shops em setembro de 2011, com data de capa de novembro, com roteiro de George Perez e arte de Jesus Merino. Àquela altura, Perez era um veterano das HQs, o famoso artista de Novos Titãs e Crise nas Infinitas Terras, mas que também tinha uma carreira como escritor, notadamente, à frente da origem pós-Crise da Mulher-Maravilha. Construída sob a supervisão de Geoff Johns, Dan DiDio e Jim Lee, a nova ambientação mostrava um novo mundo no qual Clark Kent é um cara tímido, reservado e algo isolado, estando incomodado com as mudanças que vê em Metrópolis, uma cidade que decidiu abraçar o futuro.

Morgan Edge nos Novos 52.

A principal dessas mudanças é a venda do Planeta Diário para a Galaxy Broadcasting System de Morgan Edge (tal qual nas HQs dos anos 1970) para formar a Planet Global Network (PGN), um conglomerado de mídia, TV e internet. Como símbolo disso tudo, o velho prédio em estilo art-décor com o globo dourado no topo está sendo demolido e as operações transferidas para um moderno edifício de vidro e aço. Vemos que a relação entre Clark e Lois é absolutamente diferente daquela que conhecíamos, onde ambos eram casados. Agora, os dois estão distantes, mal são amigos e ainda brigaram porque Clark se recusou a aderir à mudança: Lois assumiu a Direção de TV e Conteúdo Digital da PGN e apontou Clark para ser o novo âncora do principal jornal, o que ele rejeitou, dizendo que não iria participar daquele circo, como vemos no flashback da discussão dos dois.

Lois e Clark: não mais casados.

Ao mesmo tempo, percebemos que a população ainda vê o Superman com alguma desconfiança, quando o herói entra em ação contra um alienígena com poderes relacionados ao fogo, (a PGN faz a cobertura do evento e Edge fica decepcionado porque Lois não arrisca a vida de seus repórteres, afirmando que ela não é mais a mesma, e ela diz que é a mesma, mas a decisão de vida ou morte cabe somente a ela mesma e não aos membros de sua equipe) e após o homem de aço sair vitorioso, Clark vai ao apartamento de Lois pedir desculpas e vemos que ela está acompanhada por um homem chamado Jonathan Carroll, que quer “comemorar” na cama o sucesso da cobertura de TV liderada por Lois.

Arte de George Perez.

A edição 02 amaina um pouco as coisas entre Lois e Clark, com os dois tendo uma conversa no escritório dela, onde ela aparece mais relaxada e amigável, elogiando seu trabalho e dizendo que é uma amiga e que ele pode contar com ela. Lois até mesmo sugere que Clark saia com a repórter Heather Kelley! Vemos ainda que Jimmy Olsen tem uma parceira de trabalho na figura de Miko Ogawa. A edição também reintroduz o general Samuel Lane como um tipo de aliado-rival, que pensa que a existência do herói põe a cidade em risco.

A nova ambientação e a trama envolvendo misteriosos alienígenas de poderes elementais se apossando de corpos humanos não interessou aos leitores. De partida, Os Novos 52 foram um estouro de sucesso: no mês de setembro de 2011 (quando saíram as primeiras número 01 das novas revistas, depois da Liga da Justiça ter estreado sozinha no mês anterior), nada menos do que oito das dez revistas mais vendidas do mês foram da DC Comics, com Batman em primeiro lugar, Action Comics em segundo, seguidas por Green Lantern (3º), The Flash (4º) e Superman no 5º lugar, mais Detective Comics (6º), Batman: The Dark Knight (7º) e Batman and Robin (10º). No Top20 de revistas mais vendidas, a DC ocupou 17!!! Das 52 novas revistas, 27 esgotaram a primeira tiragem e precisaram de novas reimpressões, que eram identificadas a partir de novas capas, mas Superman 01 (que ainda vendeu mais de 100 mil cópias) não foi uma delas. Justice League 01 venderia no final 361 mil cópias em cinco reimpressões, sendo a mais vendida do ano, Batman 01 foi a segunda com 262 mil e Action Comics 01 foi a terceira, com 250 mil cópias.

Em outubro – contabilizando as revistas de número 02 – a DC teve de novo 17 revistas no Top20, com a concorrente Marvel ocupando apenas as posições 7, 8 e 9. O primeiro lugar foi com Justice League, o segundo com Batman e o terceiro com Action Comics, enquanto Superman apareceu em 10º lugar.

A arte bonita de Nicola Scott.

Em janeiro de 2012, com as edições de número 05 nas comic shops, a DC ocupou todo o Top10 das revistas mais vendidas dos EUA, com Justice League em 1º, Batman em 2º e Action Comics em 3º, ao passo que Superman ficou em 7º lugar, atrás de Detective Comics (outra revista do Batman), Green Lantern e Batman: The Dark Knight. Apesar de uma boa colocação nas vendas, a DC provavelmente esperava mais do relançamento do homem de aço em sua revista principal, já que sua nova origem na Action Comics de Grant Morrison era um sucesso absoluto.

O fato é que Superman (vol. 3) 05 foi a última edição “tradicional” do arco de George Perez, já contando com a arte da desenhista Nicola Scott neste número, e a edição 06 foi um crossover com a Supergirl, contando com Perez e Scott mais a dupla daquela outra revista: Dan Jurgens e Keith Giffen (ambos no texto e arte), mas na prática encerrando a participação de Perez na revista, um final precoce e claramente relacionado a uma “mudança de rumos”, pois nas demais revistas do reboot, especialmente naquelas de grande sucesso, as equipes criativas permaneceram por bastante tempo (em Batman, Snyder e Capullo ficaram 50 edições!!!).

Capa da edição 07 traz o vilão Helspot e a arte do brasileiro Ivan Reis.

A equipe criativa, portanto, mudou na edição 07, com texto de Giffen e Jurgens e arte deste último, além do brasileiro Ivan Reis nas capas (naquele ponto, Reis era um dos principais ilustradores da DC e era muito popular), que firmam a nova ameaça com um visual aterrador em Helspot.

Dan Jurgens faz a capa da edição 11.

A partir de Superman 10 até 12, começando em agosto de 2012, Jurgens voltou a comandar sozinho a revista, com texto, arte e capa, apresentando um arco que mostra o herói procurando maneiras de ser melhor visto pelos humanos que desconfiam dele, “revelando” que seu uniforme é um tipo de armadura kryptoniana parecida com nanotecnologia e até trazendo um subplot no qual Clark vai em um encontro duplo com Lois e seu namorado Jonathan (que é apresentado como um cara decente) e a irmã dela, Lucy Lane.

O novo uniforme em Os Novos 52.

O staff da DC deve ter considerado aquilo apenas um trabalho temporário, uma transição, pois outra nova equipe assumiu a revista em seguida, com roteiros de Scott Lobdell (que já trabalhava em outras revistas dos Novos 52) e desenhos de Kenneth Rocafort, que estreou na revista especial Superman 0, de novembro de 2012, com uma história focada em Krypton e Jor-El descobrindo uma conspiração liderada pelo Erradicador. O número zero foi uma estratégia da DC em comemorar o primeiro aniversário do reboot, com todas as revistas trazendo aquele número intervalar com uma história focada no passado. A nova fase, portanto, começou mesmo em Superman 13, que explora mais novas ameaças para o último filho de Krypton e coloca Morgan Edge de novo no papel vilanesco que teve nos anos 1970.

Mas se por um lado a revisão da origem do herói por Grant Morrison conquistou fãs e críticos, realmente, a revista “principal” do personagem não conseguiu se estabelecer. Vejamos… o reboot da DC de fato reaqueceu o mercado de HQs e teve um impacto profundo nas vendas: seis meses depois, em março de 2012, a DC ainda dominava o mercado e nada menos do que cinco revistas ultrapassavam a marca “limite” de 100 mil cópias vendidas, ainda que a Marvel esboçasse sua reação tomando os dois primeiros lugares com sua nova saga Vingadores versus X-Men.

Mesmo assim, a DC ocupava as outras oito posições do Top10, com Action Comics 07 em sexto lugar e 91 mil cópias vendidas e Superman em décimo lugar, com 66 mil cópias. No ranking de vendas de abril, Action Comics se manteve no sexto lugar, mas Superman desceu ao 13º, mantendo 64 mil cópias; e o reboot começou a perder força como um todo daí em diante: quando Os Novos 52 completou um ano, o ranking de agosto de 2012 trouxe quatro edições do reboot no Top10 (Batman, Justice League, Green Lantern e Detective Comics) e outras duas revistas da DC não-relacionadas, já envolvendo outro evento, o Before Watchmen, trazendo um conjunto de minisséries com prequelas da célebre história de Alan Moore e Dave Gibbons. Action Comics 12 estava no 11º lugar com 71 mil cópias e Superman não estava mais no Top20.

Ao fim e ao cabo, Os Novos 52 foi um empreendimento exitoso e o ano de 2012 foi o melhor para o mercado de HQs dos EUA desde 1996 (!) trazendo um incremento importante nas vendas, com o ranking de novembro daquele ano, por exemplo, trazendo cinco revistas vendendo mais do que a barreira de 100 mil cópias, o número 1 (o lançamento da nova revista Uncanny Avengers, da Marvel) batendo recorde com 303 mil unidades. Naquela altura, Action Comics 13 bateu o 12º lugar do ranking, com 67 mil cópias, e Superman permanecendo fora do Top20.

Superman e Mulher-Maravilha no beijo pelo artista Jim Lee.

O homem de aço continuava a chamar a atenção dos leitores, embora sem a força de antes. Talvez numa estratégia de aumentar as vendas, a DC se aproveitou do fato dele não estar envolvido romanticamente com Lois Lane, então, Justice League 12, com data de capa de outubro de 2012, mostrou o início do explosivo romance do Superman com a Mulher-Maravilha, o que é bastante lógico do ponto de vista conceitual.

Nas histórias atuais, a Mulher-Maravilha é namorada do Superman.

O romance foi tão bem recebido pelo público que a dupla até ganhou uma revista só sua: no fim de 2013 chegou às comic shops Superman/ Wonder-Woman 01, nas mãos de Tony Daniel (texto e arte), focada apenas nas desventuras amorosas do casal.

O Universo DC nos Cinemas

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Henry Cavill como Superman.

Foi preciso algum tempo para que a franquia cinematográfica do personagem fosse retomada de verdade, com Superman – O Homem de Aço, estrelado pelo britânico Henry Cavill e dirigido por Zack Snyder (de 300 e Watchmen), com uma história criada por Christopher Nolan e David S. Goyer, a mesma dupla dos filmes do homem morcego. A estreia foi em 2013, quando o herói fez 75 anos, mas não agradou a maioria do público.

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Clark Kent “antes da fama”: jornada do herói.
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Jonathan Kent e Clark adolescente: boas bases para a formação moral do herói.

O filme se inspira na história Terra 1 de J.M. Strawcziski e Shane Davis, lançada em 2010 com uma abordagem mais moderna da origem do Superman. O 1º Ato do filme é maravilhoso: após um longo prelúdio em Krypton (com Russell Crowe como Jor-El) na qual é recontada a história do pai do Superman previndo o fim do planeta e a rebelião liderada pelo General Zod; pula-se a infância e adolescência de Clark Kent para mostrá-lo como um jovem perdido no mundo; indo de um lugar ao outro, sem saber muito bem o que fazer, ajudando como pode, mas mantendo o anonimato e sumindo sempre que necessário. É por meio de flashbacks que vemos um pouco de como chegou ali – cenas na infância descobrindo os poderes, a frustração na adolescência por não poder usá-los ao mesmo tempo em que sofre bullying, e claro, a morte do pai, Jonathan Kent (Kevin Costner), apenas para manter seu segredo – que criam uma grande profundidade e densidade ao seu personagem.

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O quarteto de vilões kryptonianos: muita porrada!

Mas os dois Atos seguintes são acelerados demais, com Zod e seu time chegando à Terra querendo roubar o código genético de Krypton que Jor-El havia escondido no corpo do filho; e Clark sendo obrigado a se revelar ao mundo para combatê-los. Usando uma típica roupa kryptoniana, Kal-El saí à luta e é chamado de Superman pelas pessoas.

Contudo, para espantar o risco de ter um novo Superman – O Retorno nas mãos, Zack Snyder exagerou demais na ação. A luta final entre Superman e Zod dura quase 20 minutos e já chega tão tarde na história – após várias e várias batalhas diferentes já travadas – que o expectador já está cansado disso tudo quando apenas começa. O filme foi muito criticado pela falta de zelo do diretor em mostrar uma batalha simplesmente pulverizando uma megalópole, ainda mais quando quem é o herói é o Superman, conhecido pelo cuidado com o outro, com o inocente.

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O vilão Zod.

E para piorar, no fim, sem ter como parar Zod, o Superman decide tirar a vida de seu inimigo, quebrando o pescoço dele. Por mais que a cena faça sentido dentro da história e tenha sido bem realizada – dando ênfase no desespero do herói ao ter que tomar tal decisão – grande parte do público e da crítica não engoliu o ato, achando-o fora de tom para o personagem.

Como resultado, O Homem de Aço fez mais de 600 milhões nas bilheterias, mas a Warner esperava muito mais.

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Superman versus Batman.

Incertos do futuro, em vez de produzir um Homem de Aço 2 e ter resultados duvidosos de novo, os executivos da Warner decidiram arriscar na retomada do velho projeto de 15 anos de unir o homem de aço e o cavaleiro das trevas no cinema. Aproveitando que a Trilogia Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan havia sido encerrada em 2012, o estúdio investiu em Batman vs. Superman – A Origem da Justiça, que serve como sequência para o Homem de Aço, e estreou em 2016.

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A Origem da Justiça.

Novamente dirigido por Zack Snyder e estrelado por Henry Cavill, BVS ganhou a adesão do roteirista Chris Terrio (que ganhara o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por Argo) e surpreendeu todo mundo ao escalar o ator Ben Affleck (de 42 anos!) para viver Bruce Wayne. A trama fazia sentido: Batman estava em ação há 20 anos, mas num mundo de poucas manifestações sobrenaturais, até o Superman aparecer e destruir metade da cidade de Metropolis (no filme, retomando a ambiência da Era de Ouro dos Quadrinhos, estabelecida como uma vizinha de Gotham City, com as duas separadas apenas por uma larga baía). Furioso das vidas perdidas e acreditando que o kryptoniano é uma ameaça, o Batman termina sendo manipulado por Lex Luthor (retratado como um jovem louco e excêntrico) para sair numa briga contra o Superman.

A despeito das suspeitas iniciais, a versão mais madura, calejada, cínica e extremamente eficiente do Batman de Ben Affleck é a melhor coisa do filme e o público adorou!

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Ben Affleck como Batman em duas versões: tradicional…
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… e com a armadura para enfrentar o Superman.

Era uma desculpa para usar o design, as ideias e um pouco da ambiência de Batman: O Cavaleiro das Trevas, a lendária história de Frank Miller de 1986.

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A Origem da Justiça reuniu Superman, Mulher-Maravilha e Batman.

Mas Luthor também formula um Plano B, que é usar o corpo do General Zod para criar uma abominação genética monstruosa e praticamente de poderes ilimitados (uma versão de Apocalipse ou Doomsday, que nunca ganha esse nome no filme). Superman e Batman percebem que foram manipulados e se unem contra a criatura, mas só conseguem vencer com a ajuda da misteriosa Mulher-Maravilha, que aparece no meio do conflito. Luthor vinha investigando os metahumanos que vivem na Terra e descobriu a existência dela. Batman investiga as ações do empresário louco e a conhece antes de Diana Prince revelar ser tão poderosa.

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Apocalipse ganha sua versão nos cinemas.

No fim, Superman ganha a luta ao sacrificar sua própria vida, com o 3º Ato do filme adaptando ligeiramente A Morte do Superman.

A despeito da grande curiosidade gerada no grande público, Batman vs. Superman não foi um sucesso estupendo. Arrecadou US$ 800 milhões, o que é um volume enorme, um grande sucesso, mas todos sabem que a Warner esperava atingir 1 Bilhão nas bilheterias, tal qual os filmes do Batman de Nolan. Porém, o público parece não conseguir se relacionar com o tom pesado, denso, carregado e escuro criado pelos filmes Zack Snyder.

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Superman é um mero coadjuvante no filme.

Além disso, A Origem da Justiça tem três graves problemas: primeiro, é muito mais um filme do Batman do que do Superman, que na versão dos cinemas nunca tem tanta relevância na história quanto o “amigo”; segundo, que é prematuro demais matar o homem de aço em seu segundo filme, o que tira muito do peso e da dramaticidade do ato (sem contar que, com sua participação menor e carrancuda no filme, esse efeito vai quase a zero); terceiro, ao apresentar a Mulher-Maravilha no Ato final, torna inócua a ideia de um filme da Liga da Justiça.

Para piorar tudo, a concorrência Marvel Studios vinha em paralelo arrasando o tempo todo em seus filmes: entre 2012 e 2016, Os Vingadores, Homem de Ferro 3 e Capitão América – Guerra Civil  ultrapassaram o 1 Bilhão nas bilheterias; com Os Vingadores tirando da Liga da Justiça a oportunidade de ser a primeira equipe de super-heróis a ser apresentada de verdade nos cinemas; e Guerra Civil tirando a primazia de Batman vs. Superman de ser o primeiro grande duelo entre os principais heróis de um universo. A DC chegou tarde e comeu poeira.

Os filmes seguintes da DC foram desiguais: Esquadrão Suicida desagradou o público com um roteiro sem graça, uma edição bagunçada e o desperdício completo do Coringa; tendo de positivo a apresentação da Arlequina de Margot Robbie e o Pistoleiro de Will Smith; e Mulher-Maravilha foi um grande sucesso, com uma história leve, de época (se passa na I Guerra Mundial) apresentando as origens da Princesa Amazona.

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Veio então Liga da Justiça, que desde a campanha de marketing NÃO conseguiu cativar o público. A situação foi ainda pior: Zack Snyder no comando de novo, foi demitido porque os executivos predisseram um fracasso; Joss Whedon (diretor de Os Vingadores) foi chamado às pressas para reescrever e refilmar o longa, porém, na iminência de um fracasso e com a data de estreia muito próxima, o estúdio teve a atitude suicida de manter a data de novembro de 2017 e deixar Whedon comandar seis semanas de refilmagem (tempo suficiente para gravar um filme de médio porte), porém, realizadas entre agosto e setembro, há meros dois meses (!!!!!) do lançamento.

O resultado é um filme que mistura desequilibradamente as características díspares de Snyder e Whedon (a direção continuou creditada ao primeiro e o segundo ganhou o crédito de roteirista), mas não consegue se resolver em termos de história – praticamente não há uma, apenas a interação de personagens reagindo a situações (o que até funciona em termos gerais), além de efeitos especiais em sua maioria ruins.

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O (de)efeito especial do bigode de Cavill.

Ficou lendária – e é uma mancha à reputação da Warner, da DC e do Superman – o tremendo azar de Henry Cavilll estar filmando Missão Impossível 6 durante o momento em que ocorreram as refilmagens de Liga da Justiça e naquele filme, interpreta um vilão com bigode (e com um contrato que o impedia de tirá-lo!). Como o roteiro de Whedon recomendava que TODAS as cenas do Superman fossem refeitas, a solução foi encobrir o bigode de Cavill por meio de computação gráfica.

Até aí, nada demais, o cinema de ação vive fazendo isso: Scarlett Johansson gravou Vingadores – Era de Ultron (também de Whedon) estando grávida de já alguns meses, um barrigão, e a Marvel simplesmente apagou a barriga na pós-produção, algo que é imperceptível no resultado final. Mas ou a Warner não sabe fazer ou foram enganados pela empresa: o efeito sobre o rosto de Cavill ficou simplesmente horroroso! Parece um filme caseiro. Foi motivo de piada e não ajudou a bilheteria.

No fim das contas, Liga da Justiça arrecadou apenas US$ 200 milhões nos EUA e no mundo chegou a somente 600 milhões, sendo a menor bilheteria do Universo DC, o que resultou nas demissões dos CEOs da Warner e da DC Films!

Sacudindo as coisas: novos poderes, identidade pública… morte?

Voltando aos quadrinhos… Assentado o efeito imediato do lançamento de Os Novos 52, a DC avaliou que parte do reboot foi bem exitoso, especialmente no universo particular do Batman, que assumiu a dianteira do Universo DC de uma vez, mas em alguns outros recantos, como HQs do Lanterna Verde, do Aquaman e da Mulher-Maravilha, que venderam muito bem e foram elogiados pelos críticos. Todavia, era preciso fazer algo para dar uma levantada em outros recantos… a Liga da Justiça arrefeceu tão logo Jim Lee deixou de desenhar a revista (depois da 12ª edição); e o Superman era uma preocupação constante, já que a revista principal do herói nunca decolou de verdade e a melhor bem-sucedida Action Comics foi gradualmente perdendo força e afundou de vez após o encerramento da temporada de Grant Morrison (após 18 edições), que escolheu não mais se envolver na produção de HQs mensais.

E o que fazer então? Era preciso sacudir as coisas e agregar grandes nomes.

Clark Kent vira o Superman… Não mais?

Foi o que a DC fez: convocando de novo Geoff Johns, que não custa lembrar, àquela altura era o Diretor Criativo da DC Entertainment, e mais importante, o célebre desenhista John Romita Jr., um dos mais apreciados e famosos das HQs, mas que até ali, havia trabalhado apenas na concorrente Marvel Comics, especialmente no Homem-Aranha. A arte expressiva e estilizada de Romita Jr. casou muito bem com as aventuras mais dinâmicas do herói.

A temporada da dupla inicia em Superman (vol. 3) 32, de agosto de 2014, numa trama na qual há 25 anos atrás, um experimento na Terra pesquisando outras dimensões (a 4ª e a 5ª) deu errado e resultou na destruição de um centro de pesquisas, mas um casal deles (antes de morrer) conseguiu enviar seu filho bebê para a quinta dimensão, onde havia vida inteligente e uma atmosfera que lhe conferiria habilidades especiais, e salvá-lo – numa origem que obviamente mimetiza a do Superman ao contrário.

A dinâmica arte de John Romita Jr. pela primeira vez na DC Comics.

Na trama, Clark Kent é convidado por Perry White a trabalhar de volta no Planeta Diário, pois o editor acredita que é o melhor para o repórter e, principalmente, precisa de sua ajuda para desmascarar Lex Luthor, que vinha criando uma reputação de herói em outras revistas da DC Comics.

… junto à arte de John Romita Jr.

Além da conversa profissional, o velho Perry também dá alguns conselhos pessoais ao seu pupilo, insistindo que Clark optou por se tornar um antissocial, mas tinha potencial ser mais socializável, inclusive, citando explicitamente que ele poderia ter se relacionado com Lois se fizesse algum esforço, em vez de deixá-la se envolver com Jonathan Carroll. A conversa ecoa no herói, que chega sozinho em seu apartamento e contempla a sua solidão: ao tentar conversar com seu amigo Batman e sua namorada Mulher-Maravilha, eles não estão disponíveis para isso.

Era um primeiro passo para começar a devolver alguns elementos da cronologia pós-Crise (a proximidade com Lois) dentro daquela realidade d’Os Novos 52, ao mesmo tempo em que a edição de estreia do arco dá pistas de que alguns elementos não explorados permanecem, como uma das reportagens do Planeta Diário pregadas na parede do corredor fazer menção à morte e ressurreição do Superman, algo que não fora mencionado antes.

De qualquer modo, quando sai para a ação, combatendo uma invasão alienígena, o Superman se depara com outro “alien” tão poderoso quanto ele o ajudando na luta. Quando vencem, ele descobre que o rapaz se chama Ulisses e este fica surpreso em saber que ali é a Terra e que o Superman fala inglês: Ulisses é o bebê enviado à quinta dimensão.

Aquela edição 32 também apresenta um elemento que desaguaria num evento futuro da DC: uma figura cósmica misteriosa de capuz chamada Mr. Oz que observa os eventos transcorrerem. Falaremos sobre isso mais adiante…

Gradativamente, o arco O Último Filho da Terra se desenvolve nas edições seguintes, com Ulisses percebendo que o mundo em que cresceu será destruído e que ele precisaria sacrificar a Terra para salvá-los, o que vai lhe tornando, se não um vilão tradicional, mas um oponente ao homem de aço, até uma acirrada batalha final na edição 38, de abril de 2015, quando um enfurecido Ulisses quer destruir a Terra porque o mundo dele foi destruído na edição anterior. Sem conseguir bater de frente a força de Ulisses, o Superman faz um último gesto desesperado e concentra toda a sua força em uma poderosíssima rajada de sua visão de calor.

Capa de Superman 38, por John Romita Jr.

O disparo é simplesmente explosivo e deixa o herói e seu oponente desacordados. Quando acorda, Clark está na Batcaverna e Batman lhe explica que ele desenvolveu um novo poder: utilizar a energia solar de cada uma de suas células numa explosão nuclear solar devastadora. Como consequência, precisa de algum tempo para recuperar seus poderes (algo como 48 horas) e Bruce lhe dá uma carona até Metrópolis.

Chegando lá, ele entrega uma matéria para o Planeta Diário, que vira uma manchete de capa de estouro (mas que apesar de trazer empatia à figura de Ulisses foi alterada por Perry White para algo mais agressivo contra ele). Clark faz uma visita a Ulisses na prisão, onde está numa cela adaptada aos seus poderes, mas ele se recusa a conversar. Após uma celebração no Planeta Diário, conversando a sós com Jimmy Olsen depois – o rapaz foi revelado como filho de milionários neste arco e abriu mão de todo o dinheiro para ajudar às pessoas que perderam tudo ao se animarem a ir para o Grande Mundo de Ulisses – o fotógrafo conta esse grande segredo a Clark, e em retribuição, Clark decide revelar ao amigo que ele é o Superman.

O arco ganha um epílogo na edição 39, na qual Johns e Romita Jr. mostram o Superman recuperar seus poderes e usar de novo a rajada solar, ficando fraco novamente, descobrindo que precisa de alguns dias para o retorno pleno de seus poderes e precisando da ajuda de Jimmy. Aqui encerra o arco de Johns e na edição 40, John Romita Jr. assume o roteiro e a arte para mostrar o herói fazendo um teste científico sobre seu novo poder com a tecnologia da Liga da Justiça, depois, bebendo uns drinks em uma celebração e ficando com ressaca (pela primeira vez na vida) e decidindo (como sempre acontece) “nunca mais beber”.

O Fim da Identidade Secreta?

Esse punhado de edições aumentou o interesse do público na revista Superman, especialmente pela arte de Romita Jr., mas era preciso mais. Naquele ponto, com o herói de volta aos cinemas, questões básicas do personagem como o uso da cueca vermelha ou a inveracidade de sua identidade secreta (protegida apenas por um par de óculos) eram novamente debatidas pelo grande público, e a DC (Johns, DiDio, Lee) decidiu sacudir mais ainda as coisas: que tal acabar com sua identidade secreta?

A página publicada pelo Bleeding Cool. Arte de John Romita Jr.

No mês de abril de 2015, no Dia do Quadrinhos Grátis (celebrado nos EUA como forma de promover a mídia, na qual as comic shops doam HQs especiais em tiragem limitada aos fãs), foi lançada a revista DC Comics Free Comics Book Day 2015 com trechos de uma história inédita do Superman por Gene Yang e John Romita Jr. que trazia uma cena na qual uma repórter de TV noticia que Lois Lane revelou ao mundo o segredo da identidade do herói, que Clark Kent é o Superman. Como assim?

O mistério ficou no ar por um tempo, criando expectativa para o longo arco chamado Truth (Verdade), por Yang e Romita Jr., que se iniciou em Superman (vol. 3) 41, com data de capa de agosto de 2015 e que prosseguiria até a edição 50. A trama meio amalucada de Yang (mas com qualidade – iniciando num estilo similar às ousadias extremas de Grant Morrison) mostravam Clark Kent investigando uma corporação tecnológica chamada HORDR, enquanto recebe por mensagens de celular dicas “quentes” de reportagem de um fonte misteriosa, embarcando em uma investigação para o Planeta Diário ao lado de Jimmy, que localiza uma antiga funcionária daquela empresa que se dispõe a ajudar, Ada “Condesa” Amoragujeta, quando os três passam a ser perseguidos por agentes poderosos que parecem ninjas feitos de luz sólida e sem rosto (que são chamados de Quarmers, esse nome lhes parece familiar?), e quando Clark passa a ser chantageado por sua fonte anônima, que tem imagens dele se transformando em Superman, descobrem que seu inimigo é um login chamado HORDR_root, que é o responsável pela empresa.

Daí pra frente as coisas ficam cada vez mais estranhas: a HORDR_root é uma Inteligência Artificial que se transfere entre máquinas e entre corpos, conseguiu o segredo do Superman através das máquinas fotográficas digitais de Jimmy, e põe os três (Clark, Jimmy e Condesa) para correr, obrigando o herói a usar de novo sua rajada solar e ficando fraco, mas depois, o vilão consegue injetar alguma coisa no corpo de Clark, quando ainda não está totalmente invulnerável, que daí em diante o impede de recuperar plenamente seus poderes. Clark continua forte e rápido, mas não consegue voar e nem é mais tão forte ou invulnerável quanto antes. Ah, e Lois paralelamente está investigando a mesma matéria e se junto ao trio em sua escapada.

… e arte de John Romita Jr.

Na edição 42, então, vem o grande momento… quando estão nos subúrbios de Metrópolis tentando escapar, o quarteto é encurralado pelos ninjas da HORDR e Clark é obrigado a usar seus poderes para protegê-los. Àquela altura, Jimmy e Condesa já sabiam de sua identidade secreta, mas não Lois. Com as roupas em frangalhos, Clark destrói os inimigos e Lois o puxa para uma conversa, na qual resga o restante de sua camisa para revelar o uniforme do Superman por baixo!

Clark tenta se explicar, mas uma nova batalha com o HORDR_root deixa o herói em estado de coma e seus amigos cuidam dele no apartamento de Jimmy. Quando desperta, continuam sendo chantageados e Clark concorda em seguir o jogo por enquanto e vai ao encontro do vilão em um complexo industrial, onde é encurralado em batalha, com a IA dizendo que vai por todos os seus amigos em risco ao revelar sua identidade secreta ao mundo. Mas Lois o segue e quando vê o Superman encurralado, toma a iniciativa e ela mesma revela ao mundo que Clark Kent é o Superman na edição 43, de outubro de 2015.

Não era pouca coisa se pararmos para pensar… Aquela era a primeira vez, desde que fora criado no já bem distante 1938, que o Superman deixava de ter uma identidade secreta nos quadrinhos regulares (não em versões alternativas ou elseworlds).

Após Clark enfrentar as consequências diretas da revelação na edição 44 (com ataques de vilões aos seus amigos e ao Planeta Diário), [que por sinal, é o último número desenhado por Romita Jr., que continua a fazer apenas a arte das capas das revistas seguintes] e, na edição 45, com arte de Howard Potter, Clark descobre que a base principal da HORDR fica em Oakland, uma cidade ao norte de San Francisco, na Califórnia. Vocês não acharam essa trama tão estranha até agora, não é? Pois bem… Sem a plenitude de seus poderes, o Superman vai para a Costa Oeste pendurado por fora de um avião (cena antecipada logo no início do arco) e chegando lá precisa enfrentar uma série de seres superpoderosos, que se reúnem na Casa Mil e Um, na qual participam de um tipo de “clube da luta” no qual o público aposta nos competidores, liderado pela Rainha Shahrazad, e o homem de aço descobre que aqueles seres são deuses antigos (das mitologias do Oriente, do Pacífico etc.), que por não serem mais cultuados, estão prestes a morrer, pois precisam da adoração para viver e terem seus poderes. Então, enquanto lutam, agrariam fãs e se energizam, e quando ficam feridos ou morrem nas lutas, Shahrazad reconta suas histórias, suas lendas, e eles se recuperam!

E mais: se vendo na mesma situação daqueles pobres coitados, Clark adere à arena, chamada de Mythbrawl. Ah, não podemos esquecer: toda essa aventura até aqui, pós-revelação, com o homem de aço enfrentando as seguidas ameaças que a HORDR enviava contra ele, fizeram a imprensa questionar a “nobreza” do herói e ele passa a ser perseguido pela mídia, e também, pelas autoridades, pois manter uma identidade secreta (como ele fez) é potencialmente um crime de “falsidade ideológica” e Clark precisava responder algumas perguntas aos Federais, o que ele se recusa.

Na edição 46, Jimmy e Condesa chegam a Oakland e seguem o rastro do amigo, com Jimmy lutando para restaurar a reputação do herói, e Clark usa seus novos amigos deuses para ir atrás das pistas da HORDR até um bar clandestino frequentado por pessoas metahumanas e descobrir a vinculação com uma menina chamada Yurei, que tem um braço metálico, ao mesmo tempo em que continua a ser perseguido pelos Quarmers e – vejam só – enfrentar um Superman de Areia (sim eles mesmo!) que retém uma porção maior de seus superpoderes do que ele próprio. No confronto que se segue, o Superman de Areia fere Jimmy com sua visão de calor e o rapaz fica à beira da morte, mas não morre, e no número 47, Clark consegue forçar o Superman de Areia a usar a rajada solar, pensando que isso vai fazê-lo restaurar seus próprios poderes, mas quando acontece, o vilão se transforma em vidro, o que possibilita Clark destruí-lo facilmente, mas não faz seus poderes voltarem.

Por Jimmy ter sido infectado pela IA da HORDR_root, o rapaz retêm as memórias do vilão e, finalmente, descobre sua origem: ele era um nerd preso em uma cadeira de rodas, amigo de Yurei, que criou essa IA e transferiu sua mente para ela, mas a IA se tornou autoconsciente e capaz de transicionar entre redes e corpos, matando seu criador, que, como se não bastasse, descobriu ser um dos muitos filhos do vilão imortal Vandal Savage! No que parece ser uma batalha final, o Superman consegue aprisionar HORDR_root em um hard drive sem conexão à rede e, com todos os outros hospedeiros mortos, manter o vilão inoperante.

Mas por pouco tempo… o herói deixa o disco rígido com o Sr. Incrível (que é um perito em tecnologia), mas Vandal Savage consegue invadir os escritórios dele e roubar o drive. Na edição 48, o Superman vai ao Projeto ARGUS pedir ajuda ao amigo Steve Trevor, o principal contato da Liga da Justiça com os militares (na realidade pós-Crise, pré-Novos 52, o interesse romântico da Mulher-Maravilha. E falando nisso… ele comunica a Trevor que rompeu com Diana, o que o militar lamenta – consequências dos eventos da revista Superman/ Wonder-Woman e o indicativo de alguns planos específicos estavam em curso…). O plano do Superman é usar a kryptonita mantida pelo ARGUS para fazer um tipo de quimioterapia nele, usando sua radiação para destruir suas células doentes, infectadas pelo composto injetado pelo HORDR e permitir às novas células crescerem saudáveis e capazes de absorver a radiação solar.

O plano é parcialmente bem-sucedido, mas o HORDR_root também usa as instalações do ARGUS para criar um poderoso robô e transfere um back-up de sua “mente” para ele, dando origem a uma entidade separada que batiza a si mesmo de The Puzzle, usando, como se vê, o nome do velho vilão da Era de Ouro.

A edição 49 apresenta Vandal Savage como a real ameaça, alguém que manipulou o HORDR_root nos eventos até aqui, e com um plano de despertar todos os filhos e descendentes que semeou pelo mundo para dar-lhes poderes e remodelar o mundo, usando a IA como uma ferramenta para isso. Com o auxílio de Metallo, que lhe fornece seu coração de kryptonita, Superman ganha mais poderes para enfrentar Savage, HORDR_root e Puzzle, e em Superman 50, já em maio de 2016, o vilão usa um cometa para tentar destruir a Terra como conhecemos, mas (com o intermédio de uma simulação virtual de Krypton não destruído no presente, no meio) o homem de aço consegue convencer o Puzzle a lhe ajudar e eles destroçam o cometa, com HORDR perdido, Savage lançado no vácuo do espaço e Puzzle caindo no oceano.

Mas o novo status do Superman não dura muito…

A Morte do Superman (de novo?)

Em médio prazo, Os Novos 52 não funcionou… Embora alguns personagens tiveram boas histórias – o Batman em particular – a despeito do sucesso inicial, a maioria começou a patinar de cansaço em suas novas/jovens versões com apenas um par de anos. A resposta da DC foi: mudar tudo de novo. Mas dessa vez, com mais mistério e mais lentamente…

Banner de Rebirth por Jim Lee.

Tomando gosto pela “antecipação misteriosa” como foi no caso da identidade secreta do homem de aço, em maio de 2016 a DC publicou a bombástica edição especial Rebirth 01, com roteiro de Geoff Johns e vários desenhistas distintos. Como o nome sugere, era o início de mais um reboot. Sim, isso mesmo. Outro reboot apenas cinco anos depois!!!

A trama de Rebirth 01 mostrava que o Universo DC pré e pós-Os Novos 52 estão meio que se fundindo. Tudo começa quando Wally West, usando um novo uniforme vermelho, aparece e afirma que 10 anos daquela realidade primeira foram “roubados”: ou seja, os heróis são mais jovens porque uma parte de suas vidas foi roubada! E não somente isso: a realidade de Os Novos 52 não trazia Wally West (que não custa lembrar, era o Kid Flash dos Novos Titãs e quando Barry Allen morreu em Crise nas Infinitas Terras, se tornou o segundo Flash), pois fora substituído por outro personagem com o mesmo nome, porém, em vez de ruivo como sua versão antiga, era afrodescendente.

O “velho” Superman está vivo e encontra… o Sr. Oz.

E para a gente, o mais importante: a história traz o retorno do Superman pré-Os Novos 52 (mais velho do que sua contraparte atual): vemos Clark vivendo uma vida comum, numa fazenda, ostentando barba, estando casado com sua versão de Lois Lane (como era antes) e tendo um filho chamado Jonathan Samuel Kent! Mas de algum modo, essa superfamília foi transportada para a realidade de Os Novos 52 e tenta entender o que está acontecendo sem se revelar ao mundo.

As aventuras do casal Kent e de seu filho são apresentadas na minissérie Superman & Lois, publicada em 8 partes a partir de dezembro de 2015, com roteiro de Dan Jurgens e arte de Lee Weeks. Nela somos apresentados à origem desse novo casal, de como Jon nasceu e como ainda bem criança terminou descobrindo a verdade sobre seu pai e, em seguida, seus próprios poderes.

Enquanto isso, ocorria uma importante saga com implicações importantes aos heróis na revista da Liga da Justiça: com roteiro de Geoff Johns e arte de Jason Fabok, The Darkseid War foi publicada entre Justice League 40 e 50, terminando em julho de 2016, no qual o lorde de Apokolips trava uma acirrada guerra contra o Anti-Monitor (o velho vilão da Crise), e no meio desses eventos o relativamente enfraquecido Superman é sobrecarregado pelas Chamas de Apokolips.

Então, em Superman 51, por Peter J. Tomasi e Mikel Janín, se dá início ao arco Os Últimos Dias do Superman, no qual, mimetizando a trama de All-Star Superman, o homem de aço descobre que a combinação do soro do HORDR_root, da exposição à kryptonita do ARGUS e às Chamas de Apokolips, seu corpo foi irremediavelmente danificado e ele irá morrer em breve.

O herói toma uma série de atitudes em relação a isso, mostradas nas suas revistas então publicadas, como Superman, Action Comics, Superman/ Batman e Superman/ Wonder-Woman, inclusive, para se despedir de amigos e amores, e no meio desses eventos, ele encontra, pela primeira vez, sua contraparte da realidade pós-Crise, a versão um pouco mais velha do Superman que estávamos mais acostumados a ver nas décadas anteriores. No fim, em Superman (vol. 3) 52, de julho de 2016, o último filho de Krypton precisa lutar contra um vilão com poderes parecidos com o seu, e após se despedir de Lana Lang em Smallville e pedir que ela o enterre no cemitério da cidade, ao lado de seus pais terráqueos, o Superman enfraquecido consegue levar o vilão para a órbita terrestre e, ajudado pelo Superman mais velho, dispara sua rajada solar uma última vez, anulando os poderes do vilão, que é incinerado, e cai, sendo salvo por sua contraparte.

No chão, o Superman se despede de Lois, Batman, Mulher-Maravilha e da Liga da Justiça, morrendo e tendo seu corpo reduzido a cinzas. O Superman mais velho promete manter contato com os outros e vai embora. O mundo lamenta a morte do herói e Lex Luthor constrói uma nova armadura com o símbolo dele no peito.

Era o fim do Volume 3 da revista Superman e, em muitos sentidos, o fim dos próprios Os Novos 52, abrindo a porta para a nova fase da DC chamada Rebirth.

A Volta do Superman Pós-Crise, Pré-Os Novos 52

Com o fim da revista Superman (vol. 3), saiu o especial Superman: Rebirth 01, em agosto de 2016, por Peter Tomasi e Patrick Gleason e arte de Doug Mahnke, na qual após o funeral do Superman, sua contraparte mais velha vai ao memorial construído para ele em Metrópolis, na espera de que o jovem herói ressuscite, e fica surpreso ao encontrar Lana Lang lá, que foi recolher as cinzas de seu amigo para enterrá-lo em Smallville como ele o pedira. O Superman mais velho conta sobre sua própria morte e diz que espera que o jovem Clark volte, mas Lana não tem o que fazer e quer cumprir sua promessa.

Superman o ajuda com isso, mas antes, a leva à Fortaleza da Solidão, onde consegue o acesso facilmente, pois partilha o mesmo DNA, e tenta reproduzir a Matriz Regeneradora que lhe salvou da morte na saga de 1992, mas tal artefato não existe na realidade d’Os Novos 52, então, ele deixa Lana cumprir seu funeral particular em Smallville e, na Fortaleza, ergue uma estátua em homenagem ao seu jovem self, decidindo ele mesmo assumir seu lugar como protetor daquela nova realidade.

Dali, saltamos para Superman (vol. 4) 01, também de agosto de 2016, com roteiro de Peter J. Tomasi e arte de Patrick Gleason, que dá origem efetivamente à nova fase. Uma marca visual dessa fase é que o (novo?) homem de aço passa a usar um uniforme ligeiramente diferente: não é uma armadura como a d’Os Novos 52, mas mantém a ausência da sunga vermelha, com um cinto vermelho, uma borda vermelha nas mangas e botas azuis, com molduras vermelhas.

O grande tópico dessa fase era a introdução do pequeno Jon Kent como o novo Superboy, o que rendeu momentos tocantes, como quando ele descobriu sua visão de calor ao sem querer matar seu gatinho Goldie, ou quando tentou voar pela primeira vez e terminou perdido numa zona rural e escondido em uma caverna, quando foi encontrado por Batman e Asa Noturna, mas realmente confortado por este último, com o qual o pequeno herói criou um vínculo forte.

Em Superman 10 e 11, começando em janeiro de 2017, Superman e Batman colocam seus filhos, Superboy e Robin, para agirem juntos, com uma série de desafios que exigem cooperação, e como eles não conseguem, à princípio, vão falhando em todas, até conseguirem agir como uma equipe e passarem a respeitar um ao outro.

Mas um problema que permanecia nessa fase toda era que o “velho” Superman substituiu o “novo” que morreu, não é? E ainda existia a outra Lois Lane (que dor de cabeça…), então, veio a história Superman Reborn, publicada em Superman 18 e 19, por Tomasi e Gleason, e Action Comics 975 a 978, por Dan Jurgens e Doug Manhke, na qual há o retorno de Mr. Mxyzptlk, que tenta apagar Jon da mente de seus pais, mas no fim das contas, sua ação termina fazendo com que o garoto absorva as “essências” das versões Os Novos 52 de seus pais, e no fim, ele as transfere para as versões correntes, fazendo com que as versões pré e pós Flashpoint se unam em uma só, cada, para o casal. Puxa, que confuso, né?

O novo visual.

Um novo arco começa a seguir em Superman 20 e segue em Action Comics 977, de abril de 2017, mantendo Peter J. Tomasi e Patrick Gleason na primeira, e Dan Jurgens agora com Ian Churchill na segunda, na qual o herói volta usar um uniforme que parece tecido em vez da armadura de Os Novos 52, mas ainda mantendo a ausência da sunga vermelha.

Em Action Comics 977, Dan Jurgens (que foi o escritor e desenhista de A Morte do Superman, por sinal) mostra o Superman atrás de resolver os mistérios de sua vida e descobre que o misterioso Mr. Oz – que todos presumem ser Ozzymandias, de Watchmen – conseguiu apagar 10 anos de história desse mundo de Os Novos 52. Quando o Superman rememora sua origem – portanto, mostrando a nova origem do homem de aço válida nos quadrinhos – ela apaga praticamente tudo o que foi feito em Os Novos 52: Krypton mescla as versões pós-Crise (houve mais de uma) e a vida pessoal de Clark Kent é a mesma antes do reboot, com Clark Kent e Lois Lane casados, com a diferença de que agora têm um filho.

Action Comics 997 e 998 trazem finalmente a revelação da identidade do misterioso Mr. Oz que vem interferindo na ação do homem de aço e de vários outros personagens da DC desde o começo de Rebirth. Essas duas revistas servem como um pequeno arco de duas histórias chamadas The Oz Effect, na qual o misterioso personagem revela sua identidade ao Superman.

Escrita por Dan Jurgens (o mesmo de A Morte do Superman) e traz os desenhistas Victor Bogdanovic na primeira e Ryan Sook na segunda, com incríveis capas lenticulares criadas por Nick Bradshaw. Na trama o Superman descobre que Mr. Oz é ninguém menos do que seu próprio pai biológico, Jor-El, que foi “resgatado” um instante antes da explosão de Krypton pelo poderosíssimo Dr. Manhattan, o ex-herói de Watchmen que se tornou tão poderoso que deixou de ser humano e, em Rebirth, é apontado como quem causou uma série de mudanças cronológicas ao universo DC.

Até então, todos pensavam que Mr. Oz seria Ozzymandias, outro dos personagens de Watchmen. Ficou então a questão se outros da maxissérie iriam mesmo aparecer ou tudo ficaria restrito apenas ao Dr. Manhattan.

Arte de Jim Lee.

A trama ganhou um breve intervalo no mês de junho de 2018, quando o Superman celebrou seus 80 anos de publicação, marcados ainda pelo fato da revista Action Comics ter chegado à incrível numeração 1000!!! Claro, foi um momento de grande comemoração, com a edição especial da revista, com 80 páginas, uma história principal – seguindo a linha narrativa de então – por Dan Jurgens sobre Metrópolis estar comemorando o Superman Day para celebrar o homem de aço e rendendo-lhe uma homenagem pela cidade, enquanto os demais heróis da Liga da Justiça impedem uma grande ameaça para que o herói possa curtir seu evento em paz; e outra série de aventuras curtas celebrativas, incluindo tramas de Marv Wolfman e Curt Swan, de Geoff Johns e Richard Donner com Oliver Coipel, Scott Snyder e o desenhista brasileiro Rafael Alburquerque e Paul Dini escrevendo com a arte do clássico José Garcia-Lopez.

A revista ainda foi publicada com mais de uma dúzia de capas variantes, cada qual representando uma década de vida do personagem, mais outras especiais, e foi a revista mais vendida do ano de 2018 no mercado de HQs dos EUA, atingindo 504 mil unidades vendidas.

A DC também publicou no mesmo mês a edição especial Action Comics: 80 Years of Superman – The Deluxe Edition, um encadernado especial de mais de 200 páginas e capa dura, reunindo algumas das mais célebres histórias da publicação, como das edições 01, 02, 241, 242, 252, 554, 800 etc., mas também dando espaço aos outros personagens importantes publicados pela revista, com Zatara, Vigilante (o cowboy original) e Alvo Humano; tendo dois bônus muito interessantes: primeiro, uma história inédita do Superman da Era de Ouro, uma HQ criada por Jerry Siegel e Joe Shuster em 1945 (nos momentos finais da colaboração da dupla com a editora antes do primeiro processo judicial), que não foi publicada na época, mas terminou reescrita por Bill Finger (e com a adesão de algum outro artista) e publicada na revista Superman 55, de 1948; e fechando a homenagem, uma história nova do personagem, escrita por Paul Levitz (ex-vice presidente da DC) e desenhada pelo lendário Neal Adams.

A bela arte de Ivan Reis.

Superman (vol. 4) se encerrou no número 45, de junho de 2018, e deu lugar a Superman (vol. 5) 01, agora escrita pelo escritor-sensação Brian Michael Bendis, o homem que revolucionou a Marvel Comics na década de 2000 com as histórias dos Novos Vingadores que levaram a sagas como Dinastia M e Invasão Secreta, escritas por ele. A arte, não menos importante, foi assumida pelo brasileiro Ivan Reis, que desde a década anterior ascendeu como um dos principais artistas da DC, primeiro com a fase áurea do Lanterna Verde com Geoff Johns e, depois, na abertura do Aquaman em Os Novos 52.

Bendis fez uma fase bombástica, na qual – em consequência dos eventos do volume anterior – Lois e Jon estão perdidos no espaço e um deprimido Clark Kent precisa tocar a vida sozinho, mas descobre evidências de que Krypton não foi destruído em um acidente natural, como sempre pensou, mas por fruto de uma guerra travada pelo vilão Rogol Zaar, que o homem de aço descobrirá ter sido criado artificialmente por seu pai, Jor-El.

De modo complementar, Bendis também lançou a nova revista The Man of Steel (vol. 2), com vários artistas diferentes, nas quais tinha espaço para completar as informações necessárias à revista principal.

Um evento importante é que, como fruto das aventuras galácticas de Jon, o rapaz caiu em um Buraco Negro, e quando retorna à Terra em Superman 08 e 09, começando em abril de 2019, percebe que para ele passaram anos e na Terra apenas três semanas. O pequeno Jon agora é um adolescente!

A saga de Bendis só termina no número 28, de fevereiro de 2021.

De volta às tramas das revistas da DC naquele momento tão celebrativo, as respostas vieram no megaevento Doomsday Clock, por Geoff Johns e Gary Frank, maxissérie em 12 capítulos que colocou o Superman contra o ultrapoderoso Dr. Manhattan, personagem da maxisserie Watchmen, cuja existência estava à parte do Universo DC até o evento Rebirth.