
Já há meses o site Bleeding Cool vem anunciando que a DC Comics faria uma série de minisséries que serviriam como prelúdios a Watchmen, a máxima obra de Alan Moore e Dave Gibbons, considerada por muitos como a melhor história em quadrinhos de todos os tempos e que foi originalmente publicada em 1985.
Pois agora chegou o momento em que a própria DC Comics, que nunca tinha se pronunciado sobre o tema, finalmente oficializar o projeto, revelando todas as minisséries e autores envolvidos, bem como o esquema de publicação.
Serão sete minisséries, cada uma focada em um personagem e produzida por alguns dos maiores nomes do mercado atualmente. De fato, isso ninguém pode negar, só há grandes astros envolvidos.
A lista das edições é a seguinte:
- Rorschach (4 edições) – Roteiro de Brian Azzarello, arte de Lee Bermejo
- Minutemen (6 edições) – Roteiro/Arte de Darwyn Cooke
- Comediante (6 edições) – Roteiro de Brian Azzarello, arte de J.G. Jones
- Dr. Manhattan (4 edições) – Roteiro de J. Michael Straczynski, arte de Adam Hughes
- Coruja (4 edições) – Roteiro de J. Michael Straczynski, arte de Andy e Joe Kubert
- Ozymandias (6 edições) – Roteiro de Len Wein, arte de Jae Lee
- Espectral (4 edições) – Roteiro de Darwyn Cooke, arte de Amanda Conner

As publicações serão semanais e iniciam no meio do ano, prosseguindo até o fim de 2012.
Cada mini focará, ainda, um período de tempo distinto, aprofundando temas e fatos que foram apenas mencionados na obra original. Em Watchmen, a trama se passa em 1985, iniciando com o assassinato do Comediante e a investigação de Rorschach que aponta para uma conspiração contra os antigos vigilantes uniformizados que agora, à exceção dele, estão inativos desde que uma lei proibiu sua ação.
Ao longo da trama, os personagens vão lembrando seus atos e vamos conhecendo o universo ficcional criado por Alan Moore, que mostra que os vigilantes uniformizados apareceram no fim dos anos 1930 e, em 1940, foi formado os Minutemen, o primeiro supergrupo de heróis.

No fim dos anos 1950, surge o Dr. Manhattan, o primeiro ser realmente muito mais poderoso do que um ser humano comum – praticamente um deus – o que muda completamente a balança política global e os rumos da Guerra Fria e da Guerra do Vietnã.
Nos anos 1960, emerge uma nova geração de vigilantes, que se tentam se reunir num grupo chamado Watchmen, formado por Dr. Manhattan, Rorschach, as segundas versões de Coruja e Espectral e o Comediante, ex-membro dos Minutemen.
Nos anos 1970, uma onda de violência eclode nos Estados Unidos e os vigilantes levam a culpa, de modo que é aprovada a lei que os proíbe de agirem e a maioria sai de cena.
As novas minisséries vão explorar esse ambiente.
As reações têm sido intensas na internet. Muitos fãs são contrários ao projeto, com medo de que as novas histórias não façam jus à original. Os novos autores tentam se defender.

Darwyn Cooke, o coordenador do projeto, afirmou ao blog Hero Complex, do jornal The Los Angeles Times que, inicialmente, negou o convite da DC, mas depois voltou atrás:
Logo de início, eu disse “não” porque não conseguia pensar numa história à altura da original. Mas aconteceu que, meses depois da negativa, a história surgiu de repente na minha cabeça. Foi tão emocionante aquele momento em que comecei a pensar sério em fazer.
E complementa, agora ao Entertainment Weekly, sua opção em escrever a mini da Espectral, afirmando que, na obra original, a personagem carece de identidade, sendo mostrada apenas como a filha da primeira Espectral e a namorada do Dr. Manhattan, num primeiro momento, e a namorada do Coruja, depois.
O escritor J.M. Straczynski – que é bem dado à polêmicas – tem falado bastante e cuidará de dois personagens fundamentais à obra: Dr. Manhattan e o Coruja. Quanto ao primeiro, dá a entender que vai criar uma trama secundária maior, talvez até com um quê de teoria da conspiração.

Na obra original, o Dr. Manhattan ganha seus poderes após ficar preso em uma câmera de campo intrínseco e ter seu corpo destruído, embora, dias depois, tenha ressurgido com a habilidade de controlar os átomos e matéria. A pergunta que Straczynski lança é: “como um homem tão brilhante e preciso comete um erro desses?”.
Quanto ao segundo Coruja, o escritor que explorar as motivações que o levaram a seguir os passos do herói original.
Eu queria mostrar como Dan tornou-se o Coruja, que circunstâncias levaram ele, ainda criança, a procurar o primeiro Coruja com o objetivo de tornar-se herói… a estrada que o trouxe até ali, e aonde ela o levou ao assumir o papel. Também queria mostrar como começou a amizade com Rorschach, como foi quando eles trabalhavam juntos, e porque deu errado… tendo como pano de fundo uma série de assassinatos nos quais estão trabalhando.

Como já havia sido anunciado antes, esta mini trará as artes de Andy Kubert e seu pai, o lendário Joe Kubert, cada um desenhando uma versão do Coruja, o que pode render um bom trabalho gráfico.
A maior surpresa do anúncio é a presença do veterano escritor Len Wein no projeto. Ele foi o editor da obra original e explica como ocorreu a coordenação dos trabalhos na nova empreitada, para que as obras não entrassem em contradição entre si e com o material original.
Vamos preencher um monte de espaços em branco numa história que, até certa medida, já foi contada. Ficaram vários buracos nas histórias dos personagens de Watchmen, e fatos mencionados só de passagem ou abordados brevemente na original. Vamos preencher estes buracos da forma mais criativa que pudermos.
Len Wein será o responsável por Crimson Corsair, uma história de pirata que sairá como atração secundária nas revistas, tal qual Os Contos do Cargueiro Negro na Watchmen original.

O escritor da obra original, Alan Moore, é um notório opositor do novo projeto. Dono de uma longa batalha contra a DC Comics – justamente por problemas de direitos autorais de Watchmen, ele foi sarcástico quando procurado pelo jornal The New York Times:
Tendo a levar esta última notícia como a confirmação de que eles [a DC] ainda dependem de ideias que eu tive há 25 anos atrás.
Questionado se abriria um novo processo contra a DC, o autor disse que não:
Não quero dinheiro. Só quero que isso não aconteça. (…) Até onde seu sei, não existe nem prelúdio nem continuação de Moby Dick.

Essas críticas já vêm sendo respondidas. Por quem? Por Straczynski é claro! À Wired, o escritor disse:
Nem Alan [Moore] nem ninguém chegou alguma vez a sugerir que apenas [Joe] Shuster e [Jerry] Siegel poderiam escrever histórias do Superman. Alan também não negou escrever O Monstro do Pântano, personagem marcante criado por Len Wein, e fez um serviço fantástico. Ele não disse: “Não, não, não posso, o personagem é do Len.” E nem devia.
Provavelmente muitas águas vão rolar embaixo dessa ponte.
É torcer para que esse novo projeto ao menos não sirva como um desserviço à obra original, tal qual outra das mais importantes histórias em quadrinhos de todos os tempos: O Cavaleiro das Trevas, que ganhou uma sequência – produzida por seu próprio autor, Frank Miller – vinte anos depois e foi uma das maiores catástrofes criativas já realizadas.

