O Capitão Marvel agora se chama oficialmente apenas Shazam.

Criado com o nome de Capitão Marvel em 1939, o super-herói popularmente conhecido como Shazam tem uma história de altos e baixos. Há alguns anos sem ser publicado com regularidade pela DC Comics, o personagem voltará às páginas da editora em meio ao reboot cronológico e editorial chamado The New 52.

Preview do personagem no reboot: Harry Potter?

A editora, porém, vai inovar na maneira de fazer isso. Em vez de lançar mais uma vez uma revista própria ao personagem, ele irá aparecer em uma série de histórias secundárias na revista Justice League, chamadas The Curse of Shazam (a maldição de Shazam), escritas por Geoff Johns e desenhadas por Gary Frank, a mesma dupla que recriou a origem do Superman em Origem Secreta, em 2010.

A estratégia da DC é clara: a revista da Liga da Justiça é a mais vendida da editora e vão usar essa popularidade para reinserir o personagem ao grande público. Outras duas medidas também chamam a atenção. A primeira é que, pela primeira vez, a DC vai abandonar oficialmente o nome Capitão Marvel e usar o mais popular Shazam (pois nos quadrinhos, Shazam é o nome do mago que concede os poderes ao jovem Billy Batson, bem como é o nome que o menino grita para se tornar o “mortal mais poderoso da Terra”). A segunda é que o visual de Billy Batson foi ligeiramente modificado para que o menino fique parecido com o Harry Potter, usando óculos. Sabe como é, né? Crianças envolvidas com magia, óculos…

A nova origem do herói começará a ser publicada em Justice League 07, de março.

A capa de "Whiz Comics 02", de 1939, pela Fawcett. Plágio do Superman?

O Capitão Marvel foi criado pelo escritor Bill Parker e pelo desenhista C.C. Beck e publicado pela primeira vez em Whiz Comics 02, de 1939, da editora Fawcett Comics. Em sua trama, o menino Billy Batson – de aproximadamente 10 anos – é levado até um velho mago chamado Shazam que é responsável pela poderosa Pedra da Eternidade. Shazam concede os poderes de seis deuses para Billy: a sabedoria de Salomão, a força de Hércules, a resistência de Atlas, o poder de Zeus, a coragem de Aquiles e a velocidade de Mercúrio. Quando pronuncia a palavra “shazam”, Billy é atingido por um raio que o transforma no poderoso Capitão Marvel, um adulto.

O personagem fez um sucesso extremo no início dos anos 1940 e a revista Adventures of Captain Marvel chegou a vender mais do que a do Superman, da concorrente DC Comics. Entretanto, era notório que o herói da Fawcett era uma cópia descarada do homem de aço, que tinha aparecido um ano antes. Até a capa da primeira revista do “mortal mais poderoso da Terra” trazia ele arremeçando um carro, tal qual Superman havia feito em sua primeira aparição, em Action Comics 01. Seus poderes também eram muito parecidos, embora as habilidade de Billy Batson fossem mais contidas: força, velocidade, resistência, vôo, enquanto o herói da DC tinha tudo isso e mais visão de raios-x, visão de calor, superaudição etc.

O herói e seu alterego, Billy Batson, na capa de "Whiz Comics 22".

O grande sucesso do Capitão Marvel levou à ampliação do leque de personagens, surgindo a Família Marvel, com Capitão Marvel Jr., Mary Marvel, Tio Marvel, Capitão Marvel Hillbilly e os Tenentes Marvel etc. O mais célebre vilão das histórias era o Dr. Sivana, um cientista louco e careca, tal qual Lex Luthor, embora também usasse óculos “fundo de garrafa”. Muitos artistas colaboraram com as aventuras do Capitão Marvel em seus primeiros anos, como o escritor Otto Binder e a dupla de escritores e desenhistas Joe Simon e Jack Kirby.

A Família Marvel canta seu lema.

O Capitão Marvel ainda foi o primeiro super-herói dos quadrinhos a ganhar uma adaptação em live action, com atores, num seriado para os cinemas, o que ocorreu em 1941, produzida pela Republic e estrelada por Tom Tyler. Depois, vieram séries de Batman, Capitão América (em 1943 e 1944, respectivamente) e o Superman (em 1949).

Assim como o Superboy, o Capitão Marvel Jr. também foi um grande sucesso. Aqui, jogando contra Hitler, Mussolini e Hirohito.

Com o fim da II Guerra Mundial, o interesse do grande público nos super-heróis decaiu e as vendas do Capitão Marvel caíram. Para completar, a DC Comics intensificou o processo judicial por plágio e litígio que moveu desde o surgimento do personagem até que foi considerada vencedora do processo. Então, a Fawcett foi obrigada a tirar o Capitão Marvel de circulação em 1953.

Coincidência ou não, vários dos artistas do personagem, como Otto Binder e C.C. Beck, seriam contratados pela DC Comics para trabalharem nas aventuras do Superman. Binder seria o criador de personagens como Supergirl e Brainiac.

O Capitão Marvel da Marvel Comics.

O personagem ficou no limbo por quase duas décadas e, nesse meio tempo, surgiu a Marvel Comics de Stan Lee e Jack Kirby. Inclusive, em 1968, Stan Lee e Gene Colan criaram um herói chamado Capitão Marvel, que não tinha absolutamente nada a ver com o anterior: era um alienígena da raça Kree que veio espionar a Terra e termina se aliando ao planeta. Pouco depois, em 1970, este Capitão Marvel foi reformulado por Roy Thomas e Gil Kane e passou a ser coadjuvante das revistas dos Vingadores, inclusive, participando da clássica história A Guerra Kree-Skrull, a mais importante da equipe. O personagem, então, ficou bastante popular.

Talvez por isso, em 1973, a DC Comics entrou em um acordo com a Fawcett Comics e passou a licenciar as histórias do velho Capitão Marvel, numa situação irônica. A DC integrou o herói ao conceito do Multiverso, na qual, a realidade é formada por vários universos paralelos, cada um deles com uma Terra específica. A realidade “principal” era a Terra-1, mas havia a Terra-2 (onde Superman e Batman surgiram na época da II Guerra Mundial), a Terra-3, a Terra X onde os Nazistas tinham ganho a guerra etc. A Família Marvel e seu universo foram integrados à Terra S.

Superman introduz o Capitão Marvel à DC Comics.

A nova revista Shazam foi escrita por Dennis O’Neil e desenhada pelo cocriador do personagem, C.C. Beck. Mais tarde, Beck abandonaria o título por diferenças criativas, cedendo lugar a Bob Oksner e Kurt Shaffenberger. Os roteiros também mudariam futuramente para Elliot S. Maggin e E. Nelson Bridwell. Os três escritores já haviam trabalhado com sucesso no Superman.

Como também era muito comum, havia grande interação entre as diferentes Terras e logo a Família Marvel estava interagindo com a Liga da Justiça. Em 1978, uma edição especial em formato tablóide trouxe a clássica aventura Superman vs. Shazam, escrita por Gerry Conway e desenhada por Rick Buckler. Entretanto, por causa do personagem homônimo da Marvel Comics, a DC não podia usar o nome “Capitão Marvel” na capa das revistas nem em material de divulgação, criando a estranha condição na qual o herói era chamado de Capitão Marvel nas histórias, mas apenas Shazam aparecia nas capas das revistas.

Em 1974, o herói ganhou uma série para a TV, produzida pela Filmation e chamada de Shazam, claro, que fez relativo sucesso com o público e durou três temporadas, com o herói vivido por Jackson Bostwick na primeira temporada e John Davey nas outras duas.

"Lendas" reintroduziu o herói ao novo universo DC pós-Crise.

Quando a DC Comics realizou o megaevento Crise nas Infinitas Terras, em 1985, para consolidar todo o Universo DC em uma única realidade (uma única Terra), a Família Marvel foi definitivamente integrada ao universo fictício da editora, embora os personagens ainda fossem apenas licensiados. Na minissérie Lendas, escrita por John Ostrander e Len Wein e desenhada por John Byrne, em 1987, o Capitão Marvel fez sua primeira aparição pós-Crise e termina se integrando à Liga da Justiça pela primeira vez.

O herói prosseguiu na equipe em meio à fase cômica da equipe, brilhantemente escrita por Keith Giffen e J.M. DeMatteis e desenhada por Kevin Maguire, na qual os artistas faziam piadas constantes sobre o fato do Capitão Marvel ser um bobo (para não dizer burro), afinal, era apenas uma criança, certo?

Como parte da Liga da Justiça versão cômica do fim dos anos 1980.

Paralelamente, o herói ganhou uma nova origem, adaptada ao novo Universo DC, escrita por Roy Thomas e Dann Thomas e desenhada por Tom Mandrake. Essas histórias ainda consolidaram a ideia de que, quando se transforma no Capitão Marvel, apesar do corpo adulto e poderoso, a mente permanece a da criança Billy Batson, de 10 ou 12 anos, ao contrário da versão clássica na qual o herói tem uma personalidade praticamente distinta. Esse recurso foi utilizado para constratar o estilo “antigo” do personagem em contrapartida às histórias tipicamente sérias e violentas da época.

"The Power of Shazam": o personagem reencontra o sucesso brevemente.

Em 1991, a DC adquiriu definitivamente a propriedade do Capitão Marvel e toda a Família Marvel. Então, em 1994, a editora tentou fazer um reboot no personagem e dotar-lhe de significância: o artista Jerry Ordway (também vindo do Superman) escreveu, desenhou e pintou uma graphic novel chamada The Power of Shazam, que recontava a origem do Capitão Marvel, mesclando elementos da origem clássica da Fawcett juntamente à nova pós-Crise. O texto ágil e maduro e a bela arte transformaram a edição em um grande sucesso, que resultou em uma série mensal com o mesmo nome.

Superman vs. Capitão Marvel em "O Reino do Amanhã", na arte pintada de Alex Ross.

O herói também ganhou destaque na minissérie O Reino do Amanhã, de 1996, na qual o escritor Mark Waid e o pintor Alex Ross imaginam um futuro em que os velhos heróis saíram da ativa e foram substituídos por uma nova geração de vigilantes superpoderosos, mas totalmente irresponsáveis e antiéticos, num claro manifesto contra a Era Sombria dos Quadrinhos que dominava as bandas desde a década anterior. Na trama, um crescido Billy Batson é mantido como um serviçal por Lex Luthor, por meio de controle mental. O velho Batman descobre que, na verdade, Billy está sem seus poderes e tenta libertá-lo, mas após gritar Shazam e ganhar seus poderes de volta, a mente do rapaz não volta ao normal.

A cena de luta épica entre o Superman e o Capitão Marvel é um dos grandes destaques desta que é uma das melhores histórias dos anos 1990.

Adam Negro combate o Superman na arte de John Byrne.

Contudo, com o cancelamento da revista The Power of Shazam!, em 1998, o herói caiu novamente no ostracismo. Ao longo dos anos seguintes, a DC tentou de diversas formas reativar o interesse do grande público pelo personagem. Os escritores Geoff Johns e David S. Goyer o introduziram nas histórias da Sociedade da Justiça, os heróis mais velhos da DC, cuja revista produzida pela dupla foi considerada uma das melhores no início dos anos 2000, mas ainda assim, não conseguiram trazer o brilho do herói de volta.

A principal consequência dessa tentativa foi o vilão Adam Negro (uma versão malígna do Capitão Marvel, inclusive com o mesmo uniforme, apenas preto) ter se tornado um dos principais opositores do Universo DC, ganhando projeção nas revistas da Sociedade da Justiça, da Liga da Justiça, do Superman e nos grandes eventos da DC na segunda metade da década de 2000, como Crise Infinita e Crise Final, publicadas entre 2005 e 2008.

Em 2006, iniciou-se a publicação da maxissérie The Trials of Shazam, escrita por Judd Winick e desenhada por Howard Potter e Mauro Casioli, que tentou consolidar uma nova versão do Capitão Marvel, chamado apenas Marvel e com uniforme branco e cabelos longos, mas não deu certo.

A publicação de Justice League 07, em março próximo, dará início à nova tentativa de consolidar o herói, agora oficialmente chamado apenas Shazam, para um novo e amplo público.

Vale lembrar, ainda, que Geoff Johns é atualmente o Diretor Criativo da DC Entertainment, o mais poderoso cargo de criação dentro do conglomerado DC, e por ser grande fã do personagem, vem tentando há algum tempo emplacar uma versão para o cinema do herói, que seria dirigida por Peter Segel (de Como se Fosse a Primeira Vez). Inclusive, esta semana Johns foi perguntado sobre o projeto e garantiu que ele ainda está de pé e que há alguma esperança. Ele também é o roteirista do filme.

O sucesso da nova empreitada pode ser decisiva para que o “mortal mais poderoso da Terra” chegue aos cinemas. Geoff Johns já foi bem sucedido uma vez: suas histórias do Lanterna Verde fizeram tanto sucesso que o herói ganhou um filme, em 2011. Shazam conseguirá?