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O Queen recriado para o filme: boa caracterização.

Uma série de problemas me impediu de comentar Bohemian Rhapsody, a cinebiografia de Freddie Mercury e da banda Queen, mas não queria deixar passar. O que dizer do filme que retrata uma das maiores forças musicais do século XX?

Falando de música, Bohemian Rhapsody é simplesmente espetacular. A recriação de concertos e gravações do Queen exibem a força musical da banda e o poder de suas canções, que se mostram atuais e relevantes mais de 30 anos depois. Os realizadores e atores se esforçam para reproduzir à perfeição figurinos, gestos e trejeitos dos músicos e o bom uso das câmeras e de enquadramento cumprem uma função interessante de colocar o espectador dentro do palco, em meio aos músicos, curtindo o som, vendo o público e se emocionando com a troca entre os artistas e público, especialmente, no concerto final do Live Aid, que cumpre um papel fundamental na trajetória do grupo.

Tal uso evita que pareça que estamos assistindo a videoclipes ou mesmo às cenas já conhecidas de performances ao vivo, pois o filme faz uso de abordagens que não são possíveis naqueles outros casos.

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Rami Malek como Freddie Mercury: boa atuação.

A linha dramática padrão de luta pelo sucesso, aclamação, decadência e recuperação é seguida à risca pelo roteiro, o que traz uma narrativa tradicional; mas por outro lado, o pequeno arco dramático do filme acrescenta, sim, às performances musicais e as tornam, portanto, mais fortes quando aparecem, especialmente no terço final do longa.

Então, vem um ponto polêmico: ao contrário da maioria das cinebiografias de músicos em tempos recentes, Bohemian Rhapsody não usa as vozes dos atores, mas prefere se valer das originais da banda. Não há consenso do que é melhor para um filme: se por um lado, dar ao ator a possibilidade de cantar lhe conecta ainda mais com o personagem e leva ao ator a outro nível de performance (e não raro, atores nessa categoria são indicados ao Oscar, como nos casos de Joaquin Phoenix em Johnny & June – sobre Johnny Cash – ou de Jamie Fox em Ray – sobre Ray Charles); por outro lado, tal abordagem aliena o filme da presença física do homenageado, que poderia aparecer não somente no aspecto abstrato de suas composições, mas também com seus instrumentos ou voz, especialmente no caso de cantores singulares.

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O Queen de verdade, entre 1985 ou 1986.

E é nesta última categoria que está Freddie Mercury: a despeito de ser um grande compositor (escreveu Bohemian rhapsody, We are the champions, Love of my life e muitas outras) e de sua performance afetada no palco (especialmente quando adotou o visual “cabelo curto e bigode”), a maior marca dele foi sua voz, de alcance notável e expressão forte, decisiva e única.

Embora existam canções do Queen cantadas por seus outros membros, todos reconhecem o grupo pela voz única de Freddie Mercury e, com uma voz daquelas, não podemos nos queixar de Bohemian Rhapsody optar por usar as gravações originais, mesmo que isso relegue o ator Rami Malek – que se sai muito bem imitando os trejeitos do cantor – a somente dublar as performances musicais.

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May e Mercury no palco, no filme.

Mas penso que foi a medida acertada para este filme, para este cantor. É bem verdade que a voz de Malek aparece em uma única cena, quando Mercury está compondo a canção-título no estúdio, e é o suficiente para mostrar que não havia como tornar o longa crível sem a voz real de Mercury. E neste ponto, o filme se beneficia da banda ter produzido já nos anos 1970 e 80, com uma melhor tecnologia, o que permite usar não somente as canções reais – quando são trilha de fundo ou sessões de gravação – mas também, e especialmente, as performances ao vivo.

Seja no Rock In Rio no Brasil ou no Live Aid, as boas gravações do Queen ao vivo fornecem o material para o filme e embelezam a trilha sonora com sua naturalidade e caráter de “vida real”.

Quanto à história, Bohemian Rhapsody sofre do mal comum às cinebiografias: como comprimir os fatos de uma vida em um filme de uma hora e meia ou duas horas? Mesmo que o filme se concentre num período mais curto, entre 1970 e 1985, são necessários atalhos e estratégias narrativas para tornar o longa uma história interessante, que aja conflito e que se desenvolva o já citado arco dramático de ascensão, aclamação, decadência e superação.

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No Live Aid.

A cronologia é bagunçada para dar à história uma linha coerente. Assim, o Rock In Rio, que ocorreu no mesmo ano de 1985 da lendária apresentação no Live Aid, respectivamente, em janeiro e julho daquele ano; no filme, a passagem da banda pelo Brasil fica situada mais ou menos em 1980. A pausa na carreira do Queen, por outro lado, também não se deu imediatamente antes do Live Aid que, portanto, não teve a caraterística de “retorno triunfal” que o longa apresenta. Tudo para construir um arco dramático no cinema.

Pelo mesmo motivo, vários personagens são simplificados ou representam a soma de várias pessoas da vida real. Daí, temos o vilão manipulador – que não é exatamente mal, mas gostou de surfar no sucesso e explora o protagonista; temos o injustiçado, que paga o preço pelas ações do primeiro; o executivo de gravadora sacana, que não aposta no sucesso da banda etc.

Para dar mais peso aos dramas que o filme quer explorar, então, o longa tem um início acelerado e as origens do Queen – vindas da banda Smile, na qual já tocavam Brian May e Roger Taylor, astrofísico e dentista, como o filme faz questão de classificar; e que Freddie Mercury gostava de assistir em um pub qualquer, e para a qual pediu para entrar quando o vocalista original caiu fora – são contadas bem rapidamente, não somente da formação do grupo e seus primeiros shows, mas de seu contrato de gravação e turnês. Tudo rápido para ir ao que interessa.

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O Queen grava vozes no estúdio, no filme.

Talvez cinematograficamente essa acelerada tenha seus custos, mas também permite ao espectador ficar mais focado no que o filme quer celebrar: o arco dramático de Mercury, sua relação com a namorada/esposa Mary Austin e o equilíbrio interno do Queen. Claro, de novo, a vida dentro do filme tem que ser simplificada e os estereótipos são construídos: Brian May, o cara simpático, criativo, boa pinta e sensato; Roger Taylor com personalidade mais forte, colérico, histérico às vezes, e o grande gozador das libertinagens que a vida de astro do rock permitiam; e John Deacon, como um sujeito mais calmo, introspectivo, engenheiro eletricista (como o filme faz questão de mencionar), careteiro, mas que diz as coisas certas (por vezes duras) nas horas certas e, a despeito de ter composto grande números do Queen (como You’re my best friend, Another bite of dust e I want to break free), goza de um papel “secundário” na banda – mostrado na hilária cena na qual são distribuídos os quartos aos músicos no estúdio onde criarão o álbum A Night A Opera, de 1975.

Mas a caricatura é uma leitura válida da realidade.

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O casal Mercury-Austin no longa.

E embora Bohemian Rhapsody seja claramente um filme sobre Freddie Mercury, procura fazer justiça ao Queen como banda, pois o trio remanescente não somente era composto por grandes músicos, mas também compuseram parte importante do repertório do grupo, como o exemplo de Deacon já ilustra. Embora o gesto pareça um afago às figuras de May e Taylor, que são produtores do longa; o reconhecimento é válido e justo.

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Freddie Mercury no clipe de I want to break free, que também está no filme.

Por fim, durante muito tempo, o longa foi vendido como um “filme família”, pois é produzido por May e Taylor e, portanto, tem o caráter de uma biografia oficial do Queen e de Mercury. Assim, a dupla – pois Deacon não se envolveu mais nas coisas da banda após a morte do cantor em 1991 – se preocupou em contar a história de Freddie sem exagerar no lado negativo do artista: sua descontrolada vida sexual e as farras homéricas de uma típica estrela do rock. Provavelmente, este foi o motivo da saída de Sasha Baron Cohen (ele mesmo, o Borat) que por muito tempo esteve associado ao papel de Mercury no filme: segundo relatos da imprensa ao longo dos anos, Cohen queria um filme mais adulto, focado na complexidade da personalidade do cantor; enquanto May e Taylor preferiram uma abordagem mais branda.

Com toda essa propaganda de “filme família”, honestamente, eu esperava até menos do que foi mostrado quanto à homossexualidade de Mercury. Provavelmente, seja nos EUA puritanos ou na Europa mais liberal, Bohemian Rhapsody será, sem sombra de dúvidas, um filme família. No Brasil de 2018, com nosso clima político e ascensão de uma moral conservadora, o filme será visto como um insulto à família. Daí, os tristes episódios já relatados de brasileiros vaiando as cenas que exploram – tão delicada e discretamente – a sexualidade do cantor. Uma demonstração de intolerância, pequenez e outra coisa: o que essas pessoas esperavam de uma biografia de Freddie Mercury?

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A recriação impressionante do Live Aid.

No fim, com um elenco muito bom – puxado por Rami Malek e sua interpretação afetada (no bom sentido) – e a música maravilhosa do Queen, Bohemian Rhapsody tem mais acertos do que falhas e cumpre o papel que se propõe: não como um drama pesado, mas como uma celebração à vida e à arte de um grande músico e o legado de uma das mais importantes (e queridas) bandas da história do rock.

Bohemian Rhapsody ganha os créditos de direção de Bryan Singer (dos filmes dos X-Men), mas ele foi afastado da produção por causa de denúncias de assédio sexual, e substituído por Dexter Fletcher que, pelas confusas regras hollywoodianas, ganha somente o crédito de Produtor Executivo. O roteiro é de Anthony McCarten e o elenco traz: Rami Malek (Freddie Mercury), Ben Hardy (Roger Taylor), Gwillym Lee (Brian May), Joseph Mazzello (John Deacon), Lucy Boynton (Mary Austin), Allen Leech (Paul Prenter), Tom Hollander (Jim “Miami” Beach), Aideen Gillen (John Reid), dentre outros.

O lançamento no Brasil foi em 1º de novembro de 2018.