Vou começar esta matéria sendo sincero: não sei de onde isso veio. Vários veículos de comunicação trouxeram hoje essa notícia “Roger Waters quer fazer show do The Wall na fronteira México-EUA”, inclusive, o LoudWire, o português NiT e os brasileiros Estadão e Omelete, todos citando uma entrevista do ex-líder e fundador do Pink Floyd feita à AFP, uma das principais agências de notícias do mundo. Porém, (e um “porém” bem grande!) os veículos citam também como fonte a EuroNews e algumas (como o LoudWire, o NiT e o Omelete) até colocam o link da matéria original; mas a reportagem citada é de 16 de fevereiro de 2017! Isso mesmo, dois anos atrás! Outro site confiável, The Consequences of Sound e Ultimate Rock Classic trazem matérias sobre o tema em 2017.

Bom, o HQRock é um humilde comentador de matérias e quem somos para contestar veículos nacionais e reconhecidos como Estadão e Omelete, mas qual é o propósito da notícia se ela é de dois anos atrás? Então, assumindo nossa posição de Blog, vamos comentar o que foi vinculado, mas já tendo sido feita a ressalva temporal.

(Para deixar mais claro: por via das dúvidas, fui no próprio site da AFP (versões em francês e inglês) e não encontrei nenhuma reportagem ou entrevista recente de Roger Waters sobre o tema).

A capa simples de The Wall: um dos discos mais vendidos da história do rock.

O músico teria dito que gostaria de fazer um show com o álbum The Wall (o mesmo ao qual promoveu uma grande turnê mundial entre 2011 e 2013 e não a mais recente que passou pelo Brasil no ano passado, que promovia seu novo álbum solo, Is This The Life We Really Want?) em algum lugar da fronteira entre os Estados Unidos e o México, porque o presidente do primeiro, Donald Trump, quer construir um muro e isolar os dois países. Na tal entrevista de 2017 (!), Waters diz:

Mas para que isso possa acontecer, primeiro é preciso um despertar contra as políticas da extrema direita. Os esgotos estão cheios de homens poderosos e mesquinhos enquanto eu falo com você.

Os veículos de notícias também citam outra frase de Waters que não está no link original, na qual o músico teria dito:

[The Wall] é muito relevante agora, com o Sr. Trump e toda essa sua conversa sobre construir muros e criar tanta animosidade quanto for possível entre as raças e as religiões. [O álbum] é sobre como a construção de um muro pode ser mentalmente debitante em um nível pessoal, mas também em outros níveis maiores.

Talvez, um dos veículos citou a fonte errada e todos os outros apenas seguiram. Ou então, tá todo mundo requentando notícias de 2017.

O governo de Donald Trump está sofrendo de uma grande paralisação desde meados de dezembro, porque o Congresso não acata a decisão do presidente de mobilizar bilhões de dólares do orçamento 2019 para construir o tal muro, e sem a definição do orçamento, o governo não pode funcionar.

O álbum The Wall é o 11º do Pink Floyd e foi lançado em 1979, quando Waters era o líder, baixista e principal compositor da banda. O disco duplo foi um dos maiores sucessos da banda e é uma ópera rock que narra a história de um roqueiro decadente que, na mistura de graves problemas pessoais, da pressão da fama e das drogas, termina praticamente sucumbindo à loucura e constrói um muro imaginário entre ele e as outras pessoas e a sociedade, ao mesmo tempo em que começa a alucinar e se imaginar como um líder fascista que usa a música para pôr em prática ideias racistas de extrema direita até entrar em colapso e começar a se recuperar.

De grande força simbólica, o álbum tem um subtexto político muito forte e já foi associado a outro muro antes: o Muro de Berlim, inclusive, após um ano da queda do muro – que separava a Alemanha em dois países, um ligado ao bloco capitalista dos EUA e outro ao bloco socialista da União Soviética nos tempos da Guerra Fria – (o muro caiu em 1989), Waters realizou um grande concerto reproduzindo o álbum ao vivo com vários convidados especiais. Sua turnê solo resgatando o disco entre 2011 e 2013 foi uma das maiores e de maior sucesso deste século.

Tendo sido um dos fundadores do Pink Floyd em 1965, (a banda gravou seu primeiro álbum dois anos depois) Waters permaneceu no grupo até 1985, quando tentou encerrar suas atividades, mas os membros restantes decidiram prosseguir sem ele e o Pink Floyd fez discos e shows sem seu ex-líder – e agora tendo o guitarrista e vocalista David Gilmour à frente – até 1996. Desde então, seus membros seguem em carreiras solo e a banda até se reuniu em um par de ocasiões.

Ainda contendo elementos do The Wall, a turnê mais recente de Waters foca no aspecto político do mundo contemporâneo com críticas severas à ascensão da extrema direita (e do fascismo) no mundo e seus shows no Brasil em pleno período eleitoral causaram bastante controvérsia.

Veja aqui e aqui.