A Folha de São Paulo deu destaque ao lançamento de uma HQ do Demolidor no Brasil: na edição, o vilão Wilson Fisk é eleito prefeito de Nova York e passa a perseguir os super-heróis da cidade por meio de políticas públicas repressoras e o uso de fake news. Na tradução brasileira, numa cena em que há uma manifestação a favor do criminoso (que é conhecido Rei do Crime), um dos cartazes traz os dizeres “Fisk Mito” tal qual aconteceu na campanha de Jair Bolsonaro para a presidência do Brasil.

Primeiro aos fatos! Demolidor 17 é uma publicação da Panini Comics que edita no Brasil o material original da Marvel Comics. A revista brasileira não tem periodicidade fixa: como maneira de evitar baixas vendas, a editora adotou a estratégia de fazer com que personagens que não sejam de primeiríssima linha – como Vingadores, Homem-Aranha ou X-Men – seja publicados em pequenos encadernados que somam várias edições ou um arco de histórias completo (geralmente entre 5 e 7 edições norteamericanas originais). O formato vem fazendo sucesso em alguns casos, como no Demolidor e no Pantera Negra.

Demolidor 17 mostra Matt Murdock voltando a Nova York após passar um tempo em San Francisco. Mas duas coisas mudaram: o mundo esqueceu que ele é o Demolidor – sua identidade secreta tinha ficado pública, mas numa solução típica dos quadrinhos, um grupo criminoso usou uma máquina de controle mental especial que apagou tal informação do mundo inteiro (reciclando uma tática que já foi usada nas HQs do Capitão América nos anos 1970 e de outra forma mais complicada nas do Homem-Aranha do fim da década de 2000) – e, pior do que isso, seu arqui-inimigo Wilson Fisk, o Rei do Crime, se elegeu prefeito de Nova York!

(Fisk é o segundo personagem da Marvel a assumir esse cargo em anos recentes, pois há pouco tempo, o editor do Clarim Diário e ferrenho rival do Homem-Aranha, J.J. Jameson também se elegeu).

De novo com uma identidade secreta, Murdock se torna vice-Promotor Público da cidade ao mesmo tempo em que Fisk passa a perseguir todos os heróis com políticas repressoras e o uso de fake news.

Embora produzida nos EUA, a história termina por se associar sem querer à realidade brasileira, pois uma das marcas da campanha eleitoral presidencial do ano passado foi justamente uma organizada máquina de produção de fake news disseminadas nas redes sociais. Entretanto, a Panini nega que buscou uma associação direta a Bolsonaro quando traduziu o cartaz a favor de Fisk com “Mito”, tal qual o novo presidente do Brasil é chamado (fanaticamente?) por alguns de seus seguidores.

De acordo com a Folha, a Panini emitiu uma nota esclarecendo a relação:

A editora esclarece que a tradução se apropria do termo “mito” para se referir a alguém que as pessoas admiram, como é o caso do personagem Wilson Fisk.

Porém, os paralelos com o caso brasileiro são fortes. Na primeira cena da história, Matt Murdock pergunta a um amigo como foi possível um criminoso como Fisk ser eleito prefeito e ouve:

Os outros candidatos eram a mesma coisa de sempre. Fisk parecia diferente. Ele lançou uma candidatura independente, sem filiação partidária, não tinha o rabo preso com ninguém.

Na HQ original, o cartaz que vincula a ideia de modo direto traz os dizeres Fisk Rules, uma expressão da língua inglesa que pode ser traduzida como Fisk manda [aqui] ou mesmo Fisk é o maior, num sentido de idolatria, o que é justificável à tradução da Panini usar mito como substituto.

Em entrevista à Folha, o tradutor da edição, Paulo França justificou a escolha:

Temos um paralelo de um político que é idolatrado no Brasil, achei que seria algo próximo do leitor. Apelidaram o sujeito [Bolsonaro] de mito, mas ele não se apropriou da palavra. (…) Mas não é uma alusão direta. É uma tradução aberta à interpretação. O pessoal que é eleitor do Bolsonaro está doído achando que é uma comparação com o vilão, mas pensei muito mais na questão da idolatria do que numa associação tão direta. Comparação direta é algo meio raso.

No contexto original, a história, claro, lança reflexões sobre outra eleição: a de Donald Trump como presidente dos EUA.

Curiosamente, a mente do público – e do público brasileiro em especial – recorda de que a 3ª Temporada de Demolidor na Netflix, uma adaptação das HQs à TV, traz Wilson Fisk saindo da prisão – onde foi parar na 1ª Temporada – após um acordo de delação com o FBI, mas uma vez solto, começa a manipular a opinião pública de que ele é honesto e injustiçado pelo governo e reforça isso pelo uso de fake news para que seja visto como um herói e querendo transformar o Demolidor e a Promotoria Pública de Nova York em vilões que temiam porque ele estaria lutando contra o sistema.

Demolidor 17 foi lançada agora em janeiro pela Panini Comics e traz o material original publicado em Daredevil 695 a 600, com o arco de histórias Prefeito Fisk (ou Mayor Fisk, no original), com roteiro de Charles Soule e arte de Stefano Landini, Ron Garney e Matt Milla, em 164 páginas, ao preço sugerido de R$ 24,90.