Existem muitos e muitos filmes sobre os Beatles e seus membros, em particular, John Lennon. A maioria é abaixo da média, mas dentre os melhores (e mais recentes) está O Garoto de Liverpool, dirigido por Sam Taylor e lançado em 2009. Agora, a Rolling Stone informa que o longa vai virar um musical, contando a adolescência do homem que fundou os Beatles e se tornou um dos compositores mais importantes e influentes do século XX, e que foi assassinado por um fã com distúrbios mentais aos 40 anos, em 1980.

Aaron Johnson como John Lennon.

A revista diz (via Deadline) que os direitos da história foram vendidos para Brian e Dayna Lee, Robyn Goodman e Josh Friedler. A dupla Brian e Dayna Lee são os responsáveis pelo musical da Broadway Angels in America, enquanto Robyn Goodman é o produtor de American Idiot, o musical baseado na obra do Green Day.

Dayna Lee falou ao Deadline, mas ainda não há nenhum detalhe sobre a obra: apenas diz que o quarteto acabou de comprar os direitos e que estão em Londres em busca de organizar o espetáculo. Claro, não há um prazo para o musical entrar em cartaz na capital do Reino Unido.

Londres tem um circuito fortíssimo de musicais em teatro, até mais sólido do que o de Nova York, na Broadway, embora menos espetaculoso e badalado. Como é bastante comum, musicais bem sucedidos nos palcos londrinos terminam migrando para a Broadway, como é o caso de O Rei Leão, um dos maiores sucessos do gênero.

O sucesso nos cinemas de Bohemian Rhapsody, contando a história de Freddie Mercury e do Queen deve turbinar o mercado de musicais, tanto no teatro quanto no cinema. Inclusive, além de The Dirt, com a história do Montley Crue (na Netflix), está prestes a estrear Rocketman sobre Elton John e o próprio John Lennon ganhará um filme no estilo, produzido pela mesma equipe do longa do Queen, que foi indicado ao Oscar e levou o de Melhor Ator para Rami Malek.

Quanto a adaptação de O Garoto de Liverpool aos palcos, não há mais detalhes do formato da obra, mas a Rolling Stone diz que o musical não usará música dos Beatles, assim como o filme. Mas isso não é verdade: o longa usa duas canções do repertório da banda – Hello, little girl e In spite of the danger, duas canções que John Lennon e Paul McCartney compuseram e gravaram (muito) antes da banda fazer sucesso, e que não fazem parte da obra oficial do quarteto de Liverpool, mas foram lançadas ao público na grande coletânea de sobras e curiosidades chamada Anthology. Ambas estão no Volume 1, cujo CD foi lançado em 1995. O longa também termina com a canção Mother, que John Lennon lançou em seu primeiro álbum solo, Plastic Ono Band, em 1970, embora em uma versão alternativa, lançada em The John Lennon Anthology, em 1999.

Para fazer isso, o filme precisou da autorização de Yoko Ono, a viúva de John Lennon, que aprovou o filme e o uso da música. Fará o mesmo sobre o musical?

Originalmente chamado Nowhere Boy – em referência à canção Nowhere Man, lançada pelos Beatles em 1965, no álbum Rubber Soul O Garoto de Liverpool narra a adolescência de John Lennon, focando na atribulada relação entre o futuro astro e sua mãe, Julia Spencer, e a tia que lhe criou, Mary “Mimi” Smith; enquanto também mostra o jovem se interessando pela música e formando a banda (The Quarrymen) que irá resultar nos Beatles, ao mesmo tempo em que conhece tanto Paul McCartney quanto George Harrison.

Os Quarrymen de verdade (com Lennon no meio) tocam em 1957.

John Lennon nasceu em Liverpool, em 09 de outubro de 1940, filho de Alfred Lennon e Julia Spencer. Ela trabalhava como garçonete e ele na marinha mercante e já estavam casados há alguns anos quando o pequeno John nasceu. Mas Julia se envolveu com outro homem e gerou uma filha bastarda – que foi dada à adoção – enquanto a II Guerra Mundial deixou Alfred retido na Nova Zelândia sem poder voltar. Em 1944, Alfred retornou e tentou levar o filho consigo para a Nova Zelândia, e Julia estava disposta a aceitar. No fim das contas, a mais conservadora Mimi, irmã de Julia, terminou tomando a criança para si, para criá-la. Mimi era casada com George Smith, um pequeno produtor de leite.

John e Julia no filme.

Julia terminou casando e teve outras duas filhas, a mais velha também chamada Julia, a outra Jacqueline.

Os Quarrymen já com Paul McCartney (esq.).

O pai de Lennon praticamente nunca mais voltou – John só retomou o contato com o pai em 1964, depois que os Beatles ficaram muito famosos e Alfred viu o filho num jornal e foi atrás dele em busca de dinheiro – e o menino também pouco viu a mãe até a morte do tio George Smith, em 1952. Lentamente, John foi se reaproximando da mãe e os dois descobriram uma grande afinidade na passagem de 1955 para 1956, quando viram que ambos eram fãs de Elvis Presley e rock and roll.

Mimi e John no filme.

Foi Julia quem ensinou os primeiros acordes para Lennon, num banjo, técnica que transferiu para o violão quando conseguiu convencer Mimi a lhe comprar um de presente no aniversário de 15 anos. No verão de 1956, Lennon reuniu os melhores amigos da escola e fundou a banda The Quarrymen, que tocava um repertório de rock and roll, folk music e blues rural embalados no estilo Skiffle, que era uma releitura do blues tocado de modo mais simples, com instrumentos improvisados. No Quarrymen, além de dois violões e uma bateria, havia os típicos instrumentos improvisados do Skiffle, como baixo montado a partir de cabo de vassoura e lata de chá; e a percussão feita com dedais de metal em uma barra de lavar roupa.

Paul McCartney e John Lennon no filme.

Os Quarrymen tocavam em bailes e quermesses e viraram uma atração popular no subúrbio de Woolton, em Liverpool, onde Lennon morava. Em julho de 1957, convidado por amigo, Paul McCartney assistiu a um show da banda e conheceu Lennon. Vendo que o menino tocava muito bem (apesar de ser dois anos mais novo em meio à adolescência), Lennon terminou convidando-o a ingressar no time, o que fez alguns meses depois. Em fevereiro de 1958, foi a vez de George Harrison entrar.

Paul McCartney, George Harrison e John Lennon nos Quarrymen.

Naquele mesmo ano, a mãe de Lennon morreu atropelada por um policial bêbado e fora de serviço, algo que marcou profundamente a personalidade do músico e o deixou mais raivoso, fechado e rebelde.

O Garoto de Liverpool é baseado no livro Imagine This: Growing up with my brother John Lennon, de Julia Baird, a irmã do músico.


Nowhere Boy foi a estreia de Sam Taylor na direção de um filme, depois de uma carreira como artista visual e fotógrafa. Ela conheceu o ator Aaron Johnson (de Kick-Ass e também o Mercúrio de Vingadores – Era de Ultron) naquele filme e os dois casaram e adotaram, ambos, o sobrenome Taylor-Johnson. Ela também dirigiu 50 Tons de Cinza, mas brigou com os produtores e não voltou para a sequência.

O filme foi baseado no livro da meia-irmã de Lennon, mas aparentemente, uma das condições de Yoko Ono para aprovar o filme e o uso das canções de Lennon foi omitir essa informação. De fato, nos créditos não há menção nenhuma ao livro ou a Julia Baird.

Nowhere Boy foi dirigido por Sam Taylor, com roteiro de Matt Greenhalgh, e o elenco traz: Aaron Johnson (John Lennon), Kristin Scott Thomas (Mimi Smith), Ann Marie Duff (Julia Lennon), Thomas Sangster (Paul McCartney), Sam Bell (George Harrison), Josh Bolt (Pete Shooton), Ophelia Lovibond (Marie Kennedy), dentre outros. O lançamento no Reino Unido foi em dezembro de 2009, mas nos EUA, apenas em outubro de 2010, para coincidir com o aniversário de 70 anos de Lennon.

A trilha sonora do filme traz algumas canções gravadas pelos Nowhere Boys, a banda formada pelos atores do filme para mimetizar os Quarrymen.