O cantor e compositor Roger Waters, ex-líder e fundador da lendária banda Pink Floyd, escreveu uma carta pública pedindo que o cantor Milton Nascimento cancele seu show em Israel, agendado para amanhã, 30 de junho.

Há algum tempo, Waters havia escrito missiva similar à dupla Caetano Veloso e Gilberto Gil, o que gerou algum mal estar internacional – e culminou com Waters e Caetano compartilhando uma conversa presencial ano passado, quando o músico britânico passou pelo Brasil com sua turnê do álbum Is This The Life We Really Want?.

Waters é um militante de esquerda desde a juventude, algo indissociável de sua obra no Pink Floyd – onde foi o principal compositor e criador durante todo o período clássico, em álbuns como Darkside of The Moon (1973), Wish You Were Here (1975) e The Wall (1979) – e atualmente é um forte membro do movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), que busca realizar boicotes a Israel, em represália ao estado político do país, em especial as denúncias de apartheid em relação aos árabes.

Na carta, Waters informa que tentou falar com Milton Nascimento e não obteve resposta, lamentando a postura do lendário compositor brasileiro.

Leia na íntegra:

27 de junho de 2019
Quando estive no Brasil no ano passado, fui apresentado ao lendário músico brasileiro Milton Nascimento, e bebemos algumas belas cachaças juntos. Quando li que ele estava planejando cruzar a linha de piquete do movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), para se apresentar em Tel Aviv, fiquei chocado. Eu escrevi para Milton pedindo uma oportunidade de falar com ele.
Nem ele nem ninguém de sua equipe me respondeu.
Estou com peso no coração. Eu queria falar com Milton sobre amor, morte e música. Amor por todos os nossos irmãos e irmãs em todo o mundo, independentemente de sua religião, ou etnia, ou nacionalidade, mas particularmente pelos palestinos e palestinas que buscaram artistas em todo o mundo para pedir ajuda, através de sua recusa em lavar a imagem do Estado de apartheid israelense, não se apresentando por lá.
Eu queria falar com Milton sobre morte. Eu queria perguntar a ele se ele tem filhos, e como ele se sentiria enterrando um deles após um abate casual perpetrado por um exército de ocupação. Eu queria falar com ele sobre música, e sua profunda obrigação moral como eminente músico de evitar que sua música seja utilizada para lavar o apartheid com arte.
Milton escolheu caminhar pelo outro lado, ignorando o que Angela Davis chama de indivisibilidade da justiça. Que pena.
Com amor,
Roger Waters

Não há até agora nenhum sinal de resposta de Milton, que é um dos maiores compositores da história da Música Popular Brasileira e uma das vozes mais bonitas do mundo da música, reconhecido no Brasil e no planeta inteiro.

A militância política de Waters vem gerando algumas polêmicas nos últimos tempos. Em sua turnê no Brasil, em 2018, em pleno período eleitoral, suas críticas ao então candidato à presidência, Jair Bolsonaro, renderam vaias e palmas. Em entrevista recente, o compositor afirmou à imprensa internacional que temeu por sua vida no Brasil, foi ameaçado de morte e que sua equipe de segurança recomendou uma mudança estratégica de hotel.