Nem precisava, mas tanto o ator Tom Holland quanto o presidente do Marvel Studios, Kevin Feige, jogaram a “pá de cal” sobre a saída do Homem-Aranha do Universo Marvel dos Cinemas, em duas entrevistas diferentes, após o anúncio de que a Sony Pictures (detentora dos direitos de adaptação do aracnídeo aos cinemas) e a Disney (proprietária da Marvel) não chegaram a um acordo para manter a coprodução que permitia o cabeça de teia ter seus filmes solo pela Sony e aparecer também nos longas dos Vingadores da Marvel.

Ainda no contexto da D23, a convenção da Disney que ocorre esses dias, Tom Holland foi entrevistado pela Entertainment Weekly e garantiu que ele continua como o Homem-Aranha do cinema, mas disse que o “futuro será diferente”, praticamente confirmando o fim do acordo e sua partida da Marvel.

Basicamente, nós fizemos cinco grandes filmes. Têm sido cinco anos espetaculares. É a melhor época da minha vida. Quem sabe o que o futuro aguarda?

Mas tudo o que eu sei é que eu irei continuar a interpretar o Homem-Aranha e a ter o melhor momento da minha vida. Vai ser divertido, o que quer que escolhamos fazer. O futuro do Homem-Aranha será diferente, mas será igualmente legal e fantástico, e encontraremos novas formas de fazê-lo ainda mais legal.

Kevin Feige, presidente do Marvel Studios.

Kevin Feige foi ainda mais incisivo, em resposta à mesma Entertainment Weekly, divulgado hoje cedo:

Foi um sonho que eu pensei que nunca aconteceria. Nunca significou que duraria para sempre. Sabíamos que tínhamos uma quantidade de tempo finita para fazer isso e contamos a história que queríamos contar. E sempre serei grato por isso.

Para aqueles que ainda estão confusos com a história, um resumo: os direitos de adaptação do Homem-Aranha ao cinema pertencem à Sony Pictures; mas após uma série de fracassos na telona, o estúdio entrou em acordo com o Marvel Studios para que o personagem fosse compartilhado, de modo que a Marvel poderia usar o aracnídeo nos filmes dos Vingadores, enquanto a Sony faria os filmes solo do herói e, ainda, pudesse explorar o universo de personagens relacionados a ele aos quais também têm direitos, como é o caso de Venom e de Morbius – O Vampiro Vivo (e mais vários outros que estão em desenvolvimento).

O acordo foi possível pela amizade entre Amy Pascal (ex-CEO da Sony Pictures e atual produtora dos filmes do Homem-Aranha) e Kevin Feige, presidente do Marvel Studios.

Mas o que comanda o mundo é dinheiro e nem Pascal nem Feige são os donos do dinheiro. Os termos do acordo eram: a Disney cedia o direito de alguns personagens (Homem de Ferro, Capitão América, Nick Fury, Happy Hogan etc.) para que a Sony usasse nos filmes solo do Homem-Aranha e ganhava 5% da bilheteria e o merchandising do Aranha; enquanto a Sony cedia o Homem-Aranha para aparecer nos filmes dos Vingadores e ganhava uma porcentagem ainda não revelada da bilheteria. O acordo cobria dois filmes solo do escalador de paredes entre três dos Vingadores e se encerrou com Homem-Aranha – Longe de Casa.

Na nova rodada de negociações para renovar o acordo, a proposta da Disney foi compartilhar a bilheteria em 50%, o que a Sony não concordou. Pronto. Fim. São negócios.

O momento é propício ao fim do acordo: a Sony está confiante, com o sucesso de Venom (que mesmo sendo ruim de doer arrecadou 800 milhões nas bilheterias, mais do que Homem-Aranha – De Volta ao Lar!) e de Homem-Aranha – Longe de Casa, que é o primeiro filme do cabeça de teia a alcançar 1 bilhão nas bilheterias – e ainda mais importante: se tornou a maior bilheteria da história da Sony, ultrapassando o recordista anterior, 007 – Operação Skyfall, de 2012.

Veja, foram sete anos para que o estúdio quebrasse o próprio recorde. Nem todo mundo é como o Marvel Studios, que teve 4 filmes ultrapassando a marca do 1 bilhão em 2 anos – e isso sem contar Longe de Casa!

Assim, o sucesso próprio da Marvel faz com que ela não precise tanto do Homem-Aranha. Ele é um fator menor quando você consegue com que personagens absolutamente desconhecidos do grande público (como Pantera Negra e Capitã Marvel que já existem nos quadrinhos há 50 ou 40 anos sem que o público se desse conta) se transformassem em não somente sucesso de bilheteria, mas em fenômenos culturais globais.

E para completar, por causa da compra da 20th Century Fox pela Disney, a Marvel agora detém os direitos para o cinema das franquias dos X-Men e do Quarteto Fantástico e – tal qual fazia com o Homem-Aranha – agora pode fazê-los interagir com os Vingadores (e com a vantagem de não ter mais um intermediário).

Bem, é o fim.

A Marvel agora irá focar na consolidação de seu universo pós-Vingadores – Ultimato, fazendo algumas experimentações (Doutor Estranho no Multiverso da Loucura será um filme de terror; Os Eternos poderá ser um tipo de épico bíblico; nenhum grande medalhão fará parte da Fase 4; X-Men e Quarteto Fantástico serão introduzidos na Fase 5 etc.) e investindo na TV (via streaming do Disney+) para ampliar ainda mais suas narrativas; enquanto a Sony fará o Homem-Aranha começar a interagir com o seu universo próprio de personagens, que inclui o já lançado Venom, e trará o ainda vindouro Morbius – O Vampiro Vivo e vários outros projetos planejados.