Em uma entrevista à revista Empire, divulgada pelo jornal The Guardian, o aclamado diretor Martin Scorsese criticou duramente os filmes de super-heróis, em particular, os do Marvel Studios, que demarcou fenômenos de sucesso e popularidade recentemente em obras como Pantera Negra e Vingadores – Ultimato. Na concepção do diretor, esses filmes “não são cinema”, mas “parques de diversão”.

Perguntado pela revista se ele viu os recentes filmes da Marvel, Scorsese foi honesto, mas duro:

Eu tentei, sabe? Mas aquilo não é cinema.

Honestamente, o mais perto do que posso pensar deles é que, do modo como são feitos, com os atores fazendo o melhor que podem, sob essas circunstâncias, são os parques temáticos. Isto não é o cinema de seres humanos tentando convencer de forma emocional, experiências psicológicas a outros seres humanos.

Scorsese é um dos diretores de cinema mais aclamados pós-anos 1970, com obras decisivas, como Taxi Driver, Touro Indomável e O Rei da Comédia, e segue firme nos últimos anos entregando obras fundamentais, como Gangues de Nova York, O Aviador e Os Infiltrados. Ele também trabalha com documentários musicais – tendo lançado The Blues (sobre o blues); No Diretion Home, sobre Bob Dylan; Shine a Light, dos Rolling Stones; e Living in the Material World, sobre o ex-Beatles George Harrison. Neste campo, entregou recentemente Rollin’ Thunder Revue, sobre uma turnê de Bob Dylan em 1975; e no campo do cinema tradicional, está lançando The Irishman. Quero deixar bem claro: adoro Scorsese e sou seu fã!

Sobre os filmes da Marvel, Scorsese tem um argumento forte.

Claro, os leitores do HQRock sabem que temos apreço pelos filmes de super-heróis e já mencionamos várias vezes – em particular comentando notícias sobre premiações do “bom” cinema, como o Oscar – que a crítica de cinema (e a indústria de um modo geral, em particular a Academia que vota o Oscar) não conseguem dosar entre qualidade e diversão.

A crítica de cinema normalmente é sisuda e acha que a alegria é inimiga da intelectualidade. Então, se um filme diverte – e faz sucesso – “não pode ser bom”. É por isso que desde sempre o Oscar tem profunda dificuldade em premiar (e portanto, reconhecer) diretores que são capazes de fazer obras profundas e divertir o público ao mesmo tempo.

É por isso que Charles Chaplin nunca ganhou um Oscar (o de 1970 por “conjunto da obra” não vale!), mesmo sendo aclamado como um dos maiores artistas da 7ª arte em todos os tempos. (E olha que ele escrevia, dirigia, estrelava e até compunha a trilha sonora de seus filmes!!!!!). De modo similar, a lista avança, com Alfred Hitchcock e até Stanley Kubrick! Em tempos mais recentes, nomes como Steven Spielberg (que só foi reconhecido mesmo, de verdade, pelo prêmio para A Lista de Schindler, de 1993, porque este era indiscutivelmente sério) e, ainda mais emblemático, Christopher Nolan.

Christian Bale (esq.) é dirigido por Christopher Nolan (dir.), ao lado de Tom Hardy (meio).

Este último chega a ser dramático. Nolan entregou algo dentre o que o cinema contemporâneo tem de melhor, como Amnésia, O Grande Truque, A Origem, Interstellar… E mesmo com todo esse currículo, só conseguiu ser indicado por Durkirk, e apenas como Melhor Filme, mas não como Melhor Diretor. Ter dirigido a Trilogia Cavaleiro das Trevas, sobre o Batman, só torna mais difícil ao diretor ser reconhecido e premiado. E de boas: o segundo volume daquela série podia tranquilamente ter sido indicado (e premiado) no Oscar de Melhor Filme.

O problema não é de Scorsese, mas do mundo que o cerca e das concepções que encerram.

Porém, para não deixar de pôr o dedo na ferida, o diretor de Taxi Driver também tem um pouco de razão.

Por mais que os filmes estejam entupidos de situações emocionais e grandes performances de atores – em particular dos protagonistas – o esquema do Marvel Studios de contar uma história que se conecta a outros filmes e formam um todo diminui a autonomia do diretor (e muito), deixando a obra com uma mão pesada do produtor executivo – no caso, Kevin Feige, presidente do Marvel Studios – o que vai de encontro ao posicionamento autônomo, “cinema de autor” do qual Scorsese representa. Isso deve incomodar parte da indústria.

Não à toa, embora tenha um caso de sucesso com diretores como os irmãos Russo ou James Gunn, igualmente, a Marvel guarda desafetos que não se encaixaram no esquema “sua ideia é legal desde que se encaixe na história maior que queremos contar”.

Marvel Studios’ AVENGERS: ENDGAME..L to R: Hulk (Mark Ruffalo), Giant Man (Paul Rudd), Rocket (voiced by Bradley Cooper) and War Machine (Don Cheadle)..Photo: Film Frame..©Marvel Studios 2019

Além disso, há outro problema no fato dos filmes carregados de efeitos especiais (digitais, principalmente) realmente alienam não só o público quanto os atores, porque diminuem a suspensão de descrença de um lado (nosso cérebro sabe que aquilo não é real e freia as emoções) quanto impede o ator de reagir adequadamente ao que (apenas virtualmente) está presente na tela, exceto se tiver muita imaginação ou for muito bem orientado pelos diretores no set e for capaz de reagir com as informações que tem.

E nem todos podem.

Tomando Vingadores – Ultimato como exemplo, em um filme que tem uns 15 protagonistas (ou semi-protagonistas) e mais uns 30 coadjuvantes de luxo, apenas uns três atores (isso mesmo, só 3 de 45) tinham o roteiro completo em mãos e sabiam o que estavam acontecendo. Muitos dos restantes (entre os 15 e os 30) não tinham texto nenhum, apenas iam aos set sabendo que iam gravar qualquer coisa e eram instruídos na hora pelos diretores, sem revelar, muitas vezes, o que realmente estava acontecendo para que os segredos não vazassem ao público.

Fica realmente difícil ao ator se expressar com tal escassa informação e isso deve ser frustrante para eles também.

A soma problemática entre a dificuldade de aceitar a diversão junto às insatisfações que o esquema blockbuster de filmar gera em diretores, atores e outros profissionais da indústria cinematográfica deve continuar a afastar filmes desse tipo das premiações e aclamações da crítica “séria”.

Mesmo que Ultimato gere uma avalanche de emoções em seus espectadores – e a sessão de pré-estreia que assisti simplesmente vai ficar marcada para sempre na minha memória pela maneira calorosa como o público reagiu (como se estivesse em uma partida de futebol!) e também emotiva, com gente não apenas chorando, mas aos prantos (!) nas cenas finais – e traga junto disso interpretações arrebatadoras, notadamente a de Robert Downey Jr., mas também a de Chris Evans, em menor medida, não espere que sejam levados “à sério” pela crítica “séria”.

E não se iludam (parte I): Pantera Negra só foi indicado ao Oscar de Melhor Filme, porque a) foi um fenômeno cultural de muito impacto (em particular na comunidade afrodescendente dos EUA), num tema sensível àquele país, então, grande demais para ser ignorado; e b) porque a Academia tentou criar a categoria Melhor Filme Popular – justamente para diferenciar obras como Pantera Negra (ou Star Wars ou Batman de Nolan) das “reais” obras “sérias” – gerou tanto mal-estar na indústria (tanto por aqueles que não queriam ser vistos de modo distinto quanto aqueles que não queriam que fossem iguais) que foi rechaçada (mesmo tendo sido anunciada) e ficou para decidir depois.

E não se iludam (parte II): Coringa só está tendo esse “bafafá”, inclusive, na crítica “séria”, ganhando o Leão de Ouro do Festival de Veneza, porque mesmo baseado em um personagem dos quadrinhos – o mesmo retratado no O Cavaleiro das Trevas de Nolan – no fundo, está bem distante da lógica blockbuster. É um filme pequeno, de pequeno orçamento, sem super-heróis, e pautado no estudo de um personagem, que decaí à loucura. Com pouquíssimos efeitos especiais. Enfim, bem no estilo “humanos com emoções” da qual Scorsese mencionou, e talvez, não coincidentemente, o próprio Scorsese é listado como produtor executivo de Coringa.

Para finalizar: Hollywood sempre buscou equilibrar – em termos de mercado – essas duas facetas que não consegue unir – “Arte” (com A maiúsculo) e diversão – mas a diferença é que, no passado, enquanto as matinês eram recheadas de filmes baratos e que faziam sucesso (numa ótima relação custo benefício); os filmes sérios eram mais caros e faziam também bastante sucesso. Veja … E o Vento Levou, por exemplo, que caso tiver sua bilheteria atualizada pela inflação, provavelmente, ainda se mantém à frente de Vingadores – Ultimato.

Mas nos tempos atuais, a balança inverteu: os filmes de diversão típicos das matinês, hoje são os mais caros; enquanto os filmes “sérios”, “artísticos”, são mais baratos. Em contrapartida, os filmes “sérios” não fazem mais sucesso. Sucesso nenhum! Mal dobram a esquina dos 100 milhões de dólares em bilheteria, quando muito chegam aos 200 milhões.

Ou seja, os filmes “sérios”, “artísticos” que ganham o Oscar, geralmente, arrecadam cerca de 27 vezes MENOS do que um Ultimato da vida.

Isso quer dizer que os blockbuster comandam o mercado. Não só isso: eles financiam a indústria toda.

Quem tem a grana manda. E essa tensão irá dar o tom da Hollywood dos próximos anos. Afinal, os Vingadores não irão mais sustentar os Scorseses da vida sem serem reconhecidos dentro desse campo artístico – nota: leiam a obra do sociólogo Pierre Bourdieu sobre o campo artístico.

E quem manda não acha que uma categoria de Oscar à parte, como o Melhor Filme POPULAR, é o suficiente. Quem tem a grana e manda, quer mais. Quer ser considerado artístico também.