Nove dias atrás, a saiu a surpreendente notícia de que o presidente do Marvel Studios, Kevin Feige foi promovido dentro da estrutura da empresa-mãe The Walt Disney Company. Enquanto mantém o cargo anterior, Feige agora será o Diretor Criativo da Marvel Entertainment, colocando o produtor como a palavra final na decisão criativa de todos os produtos Marvel desde os filmes até os quadrinhos. E passando pela TV. Desde então, a situação do presidente da Marvel Television, Jeph Loeb, estava incerta, mas agora, é dito que a cabeça deste já rodou! E ainda: que o CEO da Marvel Entertainment, Ike Perlmutter, perdeu na prática todo o seu poder.

Segundo um conjunto de reportagens do The Hollywood Reporter e da Variety, nos últimos dias. a cabeça de Jeph Loeb já estava comprometida antes mesmo da promoção de Kevin Feige.

Segundo essas notícias, o alto escalão da Disney estava profundamente insatisfeito com a performance da Marvel TV, que embora tenha lançado alguns sucessos relativos no início de sua empreitada, em 2013, como Agents of SHIELD e a minissérie Agent Carter; nos últimos anos, uma série de má decisões e baixas audiências comprometeram seriamente a empresa.

E os jornais se apressam em dizer que a culpa recai sobre Jeph Loeb. O caso mais drástico diz respeito à série Inumanos, que foi lançada pela Marvel TV via o canal Hulu, e que era superaguardada – pois chegara a ser anunciada como um filme do Marvel Studios muitos anos atrás – e terminou virando um programa de trama fraca, péssimos efeitos especiais e elenco sem graça. Os site ainda dizem que a peruca da personagem Medusa ficou tão horrenda que foram necessários nada menos do que US$ 100 mil para consertar o estrago com efeitos digitais, uma fortuna em se tratando de TV.

Inumanos terminou como um grande fracasso de público e crítica e só teve uma temporada.

Também recai sobre Loeb o fato da série do Motoqueiro Fantasma ter sido cancelada nos estágios iniciais de produção (o personagem apareceu em Agents of SHIELD e foi bem-recebido) e que algo do mal-estar com a Netflix – que cancelou de uma vez todas as seis séries que estava produzindo da Marvel – respinga sobre ele.

A demissão do produtor ainda não foi anunciada, mas é apenas uma questão de tempo. Ele provavelmente ficará no cargo apenas até entregar o episódio final de Agents of SHIELD e o futuro da Marvel TV é incerto, já que o Marvel Studios de Feige irá produzir para o formato via Disney+, o streaming da empresa-mãe.

Jeph Loeb tem uma profícua carreira nos quadrinhos, tendo escrito alguns clássicos modernos tanto na Marvel (Homem-Aranha: Azul) quanto na DC Comics (Batman: O Longo Halloween, Batman: Silêncio, Superman: As Quatro Estações); mas desenvolveu sua carreira mais na televisão nos últimos anos, tendo sido produtor de séries de sucesso como Lost e Smallville antes de encabeçar a Marvel TV.

Jeph Loeb e Kevin Feige.

Se a cabeça de Loeb rola escada abaixo, a de Ike Perlmutter pelo menos ficará de canto. Segundo a Variety e o The Hollywood Reporter, o CEO da Marvel Entertainment – empresa guarda-chuva da Marvel – teve seu poder completamente esvaziado pelo movimento da Disney de colocar a palavra final na boca de Kevin Feige.

O movimento é a culminância de um processo mais longo, que tem origem nos anos iniciais do MCU nos cinemas. Ike Perlmutter foi um dos compradores da Marvel Entertainment quando a empresa enfrentou uma grave crise financeira em 1997 e pediu concordata. Junto a outros sócios – como Avi Arad da companhia de brinquedos ToyBizz – Perlmutter comprou a Marvel e ajudou a impulsionar a divisão de cinema ao fundar o Marvel Studios, da qual Arad foi o primeiro presidente.

Ike Perlmutter, CEO da Marvel Entertainment.

Quando a Marvel decidiu produzir os próprios filmes – para lançar seu universo cinematográfico compartilhado – Kevin Feige se tornou o presidente do Marvel Studios, em 2007, mas esta empresa era apenas uma subsidiária da Marvel Entertainment. A Disney comprou a Marvel em 2009, mas Perlmutter continuou a ocupar o cargo de CEO.

Para a realização dos filmes do Marvel Studios, Ike Perlmutter criou um Comitê Criativo, encabeçado por Alan Fine – principal diretor da Marvel na época – para supervisionar o trabalho de Feige. Enquanto a empresa fazia sucesso com Homem de Ferro ou Os Vingadores, houve muitos atritos entre Feige e o Comitê.

Como resposta, o CEO da Disney, Bob Iger, determinou em 2015, que o Marvel Studios iria se reportar diretamente a ele e seus subordinados na Disney Studios; enquanto Perlmutter ficava responsável pelas outras divisões da Marvel que não o cinema, como os quadrinhos e a TV.

Daí, já viu: enquanto o Marvel Studios se tornou o mais poderoso estúdio de cinema do mundo, emplacando sucesso atrás de sucesso, a Marvel TV, emplacou fracasso atrás de fracasso.

Para piorar, Perlmutter – um sujeito excêntrico que nunca deu uma entrevista e que foi fotografado pouquíssimas vezes (até dois anos atrás se conhecia uma única fotografia dele, datada de 1986!) – ainda tentou impedir a produção de filmes como Pantera Negra e Capitã Marvel (dois grandes sucessos) e é um homem de ideias conservadoras que apoia abertamente Donald Trump.

Este último ponto trouxe problemas em Hollywood, com o THR afirmando que um famoso escritor islâmico se recusou a trabalhar para a Marvel TV por causa de Perlmutter e suas ideias políticas.

Embora os detalhes da reorganização administrativa da Marvel ainda não sejam claros, tanto o THR quanto a Variety dizem que, na prática, Perlmutter perdeu o poder de tomar decisões dentro da Marvel Entertainment, mesmo que – até segunda ordem – ainda mantenha o cargo de CEO. As grandes decisões passam agora por Kevin Feige, com o aval de Bob Iger na Disney.

É cedo para dizer que mudanças ocorrerão nos campos dos quadrinhos e TV com a reorganização, mas de fato, as coisas não serão mais as mesmas.