Quando as pessoas ouvem o nome Fleetwood Mac, associam logo aquela que foi uma das bandas de maior sucesso na história do rock no fim dos anos 1970. E elas estão certas. Mas o grupo teve uma fase anterior totalmente diferente, calcada no Blues e liderada pelo guitarrista Peter Green. E o músico ganhará uma homenagem das mãos do baterista Mick Fleetwood.

Peter Green: Guitarrrista brilhante e influente.

Segundo a revista Uncut, Mick Fleetwood irá liderar o tributo, que ocorrerá no dia 25 de fevereiro de 2020 no London Palladium, em Londres, e contará com participações especiais de gente como David Gilmour (Pink Floyd), Steve Tyler (Aerosmith), Bill Wyman (Rolling Stones), Zak Starkey (Oasis, The Who), Christine McVie (Fleetwood Mac), Billy Gibbons e John Mayall. A banda fixa contará ainda com Andy Fairweather-Low, Dave Bronze e Rick Peterson. O engenheiro de som e produtor Glynn Johns (que trabalhou com Beatles, Rolling Stones, The Who e Led Zeppelin) será o diretor musical do evento.

No comunicado oficial, o baterista, que fundou o Fleetwood Mac ao lado de Green, ressalta a importância e influência do guitarrista para a história do rock e do Blues. É realmente um ótima oportunidade para celebrar um dos mais importantes guitarristas do rock clássico, infelizmente, não tão popular quanto outros mais famosos.

Peter Green nasceu Peter Allen Greenbaum, em 29 de outubro de 1946, em Bethnal Green, na Inglaterra, filho de uma família judia. Mais novo de quatro irmãos, seguiu os mais velhos no interesse pela música, mas já aos 11 anos impressionava com sua desenvoltura e talento. Aos 15 anos Green começou a tocar com bandas, algumas das quais no baixo, fazendo covers de rock e de Blues.

Peter Green (centro) nos Bluesbreakers, com John Mayall (dir.).

A grande virada veio em 1966, quando Green foi convidado pelo cantor, compositor e tecladista John Mayall a substituir ninguém menos do que Eric Clapton em sua banda, The Bluesbreakers. Na época, Clapton estava no auge de sua popularidade nos clubes, o que lhe deu a alcunha de Deus da Guitarra, especialmente, em sua residência de um ano com os Bluesbreakers. Mas Clapton partiu em novas aventuras, fundando o Cream e levando sua fama para o mundo todo.

A responsabilidade sobre Peter Green, portanto, era enorme, mas mesmo aos 19 anos, o guitarrista se mostrava um talento ímpar e não fez feio, segurando a peteca dos Bluesbreakers nos shows e gravando com eles o álbum A Hard Road, lançado em 1967, que trouxe sua estreia como compositor nas faixas The same way e a instrumental The supernatural.

Jeremy Spencer, Peter Green e John McVie no Fleetwood Mac do início.

Mas servir como siderman para John Mayall não estava nos planos de Green, que já desenvolvida seus talentos como compositor. Numa relação tensa com o líder, Green decidiu sair dos Bluesbreakers e ainda convenceu os demais membros a irem com ele: o baixista John McVie e o baterista Mick Fleetwood (deixando Mayall sozinho na banda). Nascia a banda Peter Green’s Fleetwood Mac, que era uma forma de reunir o nome do trio. Mas ainda assim, adicionaram um quarto membro com o segundo guitarrista Jeremy Spencer.

Fazendo um blues rock poderoso, com influências fortes do Blues Elétrico de Chicago e uma melancolia tipicamente britânica, adicionadas ao belo timbre de guitarra de Green (agudo, melancólico e profundo) e sua voz doce, o Fleetwood Mac causou ótima impressão já nos primeiros shows ao longo do verão de 1967.

O Fleetwood Mac como quinteto: Kirwan, Fleetwood, Spencer, McVie e Green (deitado).

O primeiro álbum foi lançado em 1968, Fleetwood Mac, e fez bastante sucesso na Grã-Bretanha, ainda que o grupo nunca tenha conseguido estourar nos EUA. A banda lançou vários sucessos seguidos, como Black magic woman, Albatross, Oh, well, Man of the world (todas composições de Green), até 1969, ainda adicionando um terceiro guitarrista no meio do caminho, Danny Kirwan.

Mas a fama levou Green a consumir muitas drogas e – similar ao que aconteceu com o guitarrista e líder do Pink Floyd, Syd Barrett, quase no mesmo tempo – a combinação de um quadro clínico de esquizofrenia com o uso abusivo de LSD foi a receita para a tragédia e a loucura. Green começou a ficar cada vez mais paranoico e com o comportamento se tornando gradativamente estranho até que no início de 1970, após uma festa em Munique, na Alemanha, uma dose alterada de LSD o deixou fora de si e ele decidiu sair da banda.

Sem Green, o Fleetwood Mac prosseguiu seu caminho e após uma série de mudanças na formação (mantendo apenas McVie e Fleetwood como membros duradouros) e de uma migração para os EUA, o grupo terminou mudando a sonoridade para algo mais pop e estourando com um grande sucesso e fazendo o álbum Rumours, de 1978, se transformar em um dos mais vendidos da história do rock.

Com um comportamento bizarro e usando muitas drogas, Green foi incapaz de seguir uma carreira propriamente dita, apesar de sua gravadora – a Reprise Records (subsidiária da Warner, futura WEA) – ainda conseguir reunir uma jam session e transformar no álbum solo The End of the Game, em 1970. Mas Green permaneceu praticamente inativo o restante da década, sendo acolhido por sua família e submetido a um tratamento psiquiátrico com eletrochoque, culminando numa prisão por porte ilegal de arma de fogo em 1977.

A carreira foi retomada a partir de 1979, com o álbum solo In the Skies, seguido por outros 4 discos até 1983; antes de montar a banda The Enemy Within, com o também guitarrista Mick Green (da banda pré-Beatles, Johnny Kid and the Pirates), em 1986; e formou a banda Peter Green Splinter Group, em 1997, que se manteve ativa até 2004 e lançou 8 discos. Infelizmente, esse trabalho tardio jamais reprisou a grandeza do início de sua carreira.