Com toda a carga de encerrar a saga principal da franquia, Star Wars – A Ascensão Skywalker estreou este fim de semana em primeiro lugar no ranking das bilheterias mundiais, mas ainda assim, fez menos dinheiro do que seus antecessores.

Segundo o Mojo Box Office, principal site de coleta de informações de arrecadações, o Episódio IX fez US$ 175,5 milhões nos EUA no seu primeiro final de semana. Isso é mais do que a previsão conservadora do estúdio (de 165 milhões) e é o suficiente pra torná-la a terceira maior estreia do mês de dezembro da história.

O problema é que os dois primeiros lugares da lista são justamente os capítulos anteriores da saga, O Despertar da Força (2015) e Os Últimos Jedi (2017). Isso faz com que não apenas a estreia de A Ascensão Skywalker seja menor, mas promete que sua arrecadação geral será menor também.

Segundo os dados da Mojo, nos EUA, 59% da audiência foi masculina e 64% tinha 25 anos ou mais. Isso aponta ainda certa dificuldade de adesão do público feminino, e pior ainda, baixa frequência do público mais jovem, que é o grosso da audiência de cinema de massa. São informações importantes para a Disney refletir daqui em diante a respeito da saga: se quiser manter a alta popularidade, precisará de estratégias para atrair um público mais jovem.

O que torna um pouco pior para Star Wars e a Disney é que, apesar da expectativa conservadora de 165 milhões do estúdio, a expectativa do mercado era bem mais otimista, em torno de US$ 200 milhões, e baseados no falatório da estreia na sexta-feira, alguns analistas (como o Deadline) chegaram a estimar uma arrecadação na casa dos 195 milhões para o fim de semana, o que não se confirmou, chegando-se “apenas” a 175,5 milhões.

No mercado internacional, A Ascensão Skywalker estreou com US$ 198 milhões, diz a Mojo, a partir de 52 mercados, com destaque para o Reino Unido (26,8 milhões), Alemanha (21,8), França (15,2), Japão (14,6), Austrália (12,6), China (12,1), Espanha (7,6), México (7,4), Brasil (5,9), Itália (5,9), Rússia (5,8) e Suécia (4,6). O site ainda informa que o longa já estreou em 98% de seus mercados, com apenas Vietnã, Coréia e Filipinas, que irão estrear em janeiro próximo.

Somando as arrecadações, A Ascensão Skywalker estreou com US$ 373,5 milhões no mundo todo em seu primeiro final de semana. É uma estreia forte, sem sombra de dúvidas, e os cálculos do Mojo – tendo em vista a relação entre a arrecadação da estreia e a total ao final dos capítulos anteriores da saga – parecem indicar que o Episódio IX ainda conseguirá atingir o 1 bilhão nas bilheterias, mesmo que por uma pequena margem. Mas por outro lado, deixa uma mensagem clara de desgaste da franquia.

Não é à toa: a gestão da Disney, que comprou a Lucasfilm em 2013, primou pela velocidade, o que só podemos classificar como ganância. Foram 5 filmes em quatro anos. É uma média menor do que a Marvel, por exemplo, que chegou a produzir 3 filmes por ano, mas Star Wars não é o universo Marvel. A saga espacial de George Lucas guarda uma mística cult e tem o trunfo de uma produção relativamente pequena. Quando ainda era o próprio Lucas quem tocava as coisas, a média era de um filme cada 3 anos. Isso dá tempo de planejar, de pensar, de refletir, de mudar planos.

No esquema Disney, quando da estreia de O Despertar da Força, a produção de Os Últimos Jedi já estava em pleno vapor. E pior que isso: não houve um planejamento de franquia. Parece que a Disney nunca fez a pergunta: o que queremos com essa saga? Qual o objetivo? E mais importante ainda: que história queremos contar?

Ao contrário, a Disney planejou uma trilogia baseada em novos personagens na qual um diretor diferente faria cada um dos episódios com bastante liberdade criativa. É claro que isso não ia dar certo. Na verdade, como se trata de uma franquia – e não de uma obra de autor – chega a ser vergonhoso a disputa entre J.J. Abrams (o diretor de A Ascensão Skywalker) em desfazer o que Rian Johnson (des)construiu em Os Últimos Jedi. Aparentemente, tudo ainda seria bem pior, pois Abrams havia dirigido O Despertar da Força e Colin Trevorrow estava programado para o Episódio IX, porém, ele saiu (ou foi demitido, não sabemos) e no que só pode ser interpretado como uma tentativa de “correção de rota”, Abrams voltou para fechar a trilogia que começou.

Não é assim que se faz. Se a LucasFilm queria inovação e liberdade, então, teria que deixar seus cineastas criar histórias (pontuais) baseadas em seu universo, mesmo que dentro de um espaço controlado. Mas criar uma trilogia com personagens específicos dando continuidade às duas trilogias anteriores e ainda querendo uma trama pretensamente lógica com começo, meio e fim, precisa de direcionamento. Aí é o calo das franquias: não há liberdade artística. Não muita.

O Universo Marvel – que curiosamente também pertence à Disney – funciona e conseguiu o grau de aclamação resultante em Vingadores – Ultimato porque tem uma centralidade muito clara na figura de Kevin Feige. Ele é o chefe. A decisão final é dele. Não do diretor. Se você é diretor e consegue trabalhar sob essa pesada supervisão e com um limite estrito de liberdade, então, será feliz no Marvel Studios. Se não, vai cair fora ruidosamente, como muitos o fizeram.

Se a intenção da LucasFilm era seguir uma linha narrativa coerente, precisava replicar esse modelo. Ao não fazê-lo só mostrou que cineastas, assim como a maioria dos artistas, são seres muito individualistas e vaidosos para seguir convenções definidas por outros e preferem “fazer suas próprias coisas” em vez de dar continuidade à visão de um antecessor. A irritante sequência de “desfazimentos” entre os filmes de Abrams e Johnson é o melhor exemplo: Os Últimos Jedi vinha desfazer um monte de coisas do anterior O Despertar da Força, enquanto o seguinte A Ascensão Skywalker vem desfazer quase tudo o que Os Últimos Jedi construiu.

Quem perde é o público que não vê uma história coerente, mas a sucessão de cineastas querendo sobrepor sua visão a do que veio antes.

Por fim, vale ressaltar, a visão (corajosa, diga-se de passagem) de Rian Johnson em quebrar as expectativas e surpreender o expectador (ainda que negativamente) com Os Últimos Jedi, simplesmente parece não ir de acordo com o que a LucasFilm queria. Ora, como assim? Isto é uma franquia, não um filme independente. Sim, é cruel do ponto de vista do diretor e da liberdade artística. Mas também, por outro lado, Johnson não criou nada sobre os Jedi, Luke Skywalker e Darth Vader. Ele está trabalhando com a propriedade alheia. Com uma franquia. O jogo é esse.

No fim das contas, é uma pena que Star Wars encerre sua saga principal em baixa nota. Mas quem sabe tudo isso ensina uma lição à Disney e à LucasFilm?