Um dos maiores compositores da história do rock, Bob Dylan terá uma cinebiografia sobre o emblemático momento em que chocou o movimento folk e adotou a guitarra elétrica. Going Electric será dirigido por James Mangold (de Logan e Garota Interrompida) e terá Timothee Chalamet (de Me Chame por seu Nome) como protagonista.

Bob Dylan e Timothee Chalamet.

Num momento em que cinebiografias de rock ganham destaque – com Bohemian Rhapsody sobre o Freddie Mercury e o Queen e Rocketman sobre Elton John fazendo sucesso e ganhando prêmios – um olhar sobre Dylan e sua figura misteriosa e enigmática pode ser uma boa diversão.

O diretor James Mangold é um nome crescente em Hollywood, com seu filme Ford vs. Ferrari com algum destaque na temporada de prêmios deste ano, e tem uma experiência no campo das cinebiografias, pois dirigiu Johnny e June, sobre Johnny Cash, em 2006. O ator Timothee Chalamet é um dos jovens em destaque na indústria.

Bob Dylan, por sua vez, foi objeto de um cinebiografia não convencional há alguns anos, Eu Não Estou Lá, na qual o músico é vivido por seis atores diferentes – dentre os quais Christian Bale, Heath Ledger, Richard Gere e até Cate Blanchett, que ganhou um Globo de Ouro pelo papel e foi indicada ao Oscar.

Bob Dylan em 1966: ícone do rock clássico.

Going Electric tem o diferencial de contar com a parceria do próprio Bob Dylan, que está colaborando com Mangold, assim como Elton John e o Queen também contribuíram para suas respectivas biografias cinematográficas recentes.

Segundo o que foi divulgado, Going Electric irá abordar o momento da carreira de Dylan em que deixou o movimento folk tradicional e passou a usar instrumentos elétricos, o que chocou seu velho público, mas o transformou em um astro de rock em plena efervescência dos anos 1960.

Nascido como Robert Zimmerman em 1941, em Duluth, Minnesota, nos EUA, em uma família judia de ascendência ucraniana e da Lituânia, ainda criança, aprendeu a tocar violão e piano e tocou em bandas de rock and roll no Ensino Médio, mas quando ingressou na Universidade de Minnesota, já estava se dedicando mais à música folk e se apresentando sozinho em clubes e cafés, acompanhado apenas por sua voz, violão e gaita, e adotando o nome artístico de Bob Dylan.

A voz de uma geração.

Emigrando para Nova York, em 1961, começou a chamar a atenção na forte cena folk local – a principal do país – o que fez com que chegasse ao primeiro álbum, Bob Dylan, já em 1962, embora ainda calcado no repertório tradicional da música folk. É com o segundo álbum, The Freewhellin’ Bob Dylan, de 1963, que realmente se revelou como um grande compositor, chamando a atenção da crítica com canções fortes como Blowin’ in the wind e A hard rain a-gonna fall, marcadas pelo conteúdo social e de protesto, com forte dinâmica imagética em suas letras, complementadas pela interpretação apaixonada, ainda que dissonante – por sua voz anasalada e estridente.

Nome respeitado no público universitário que acompanhava a música folk, Dylan ganhou popularidade no público “mais refinado” com o sucesso que Blowin’ in the wind ganhou na voz do trio folk Peter, Paul & Mary. Outra cantora de sucesso, Joan Baez, também cantou várias de suas composições. Mas Dylan não se contentou com o rótulo de compositor “crítico” e surpreendeu seu público com o álbum Another side of Bob Dylan, de 1964, no qual escreve canções de amor.

Dylan ao piano.

Mas a grande virada ainda estava por vir. Sempre um fã do rock and roll dos anos 1950, Dylan ficou impressionado com o sucesso dos Beatles e da Invasão Britânica que proporcionaram: um novo rock, mais maduro, mais sólido e com gritante influência de blues e R&B. Isso o motivou a começar a experimentar instrumentos elétricos em seu acompanhamento. após ver o que a banda de rock de Los Angeles, The Byrds, estava fazendo ao converter suas canções em rocks de influência dos Beatles, Dylan aparece acompanhado por uma “banda de rock” com guitarras, órgão e bateria nos dois álbuns de 1965, Bring it All Back Home e Highway 61 Revisited, e singles como Subterranean homescik blues e Like a rollin’ stone, que fizeram grande sucesso com o público em geral.

Episódio emblemático desse período – e que deve ser o ponto central do filme Going Electric – quando Dylan foi se apresentar no tradicional Newport Folk Festival de 1965 – onde já havia aparecido com sucesso e aclamação nas edições de 1963 e 64 – subiu ao palco com uma banda elétrica e foi vaiado pelo público, que o considerou um “vendido” por ter aderido à música comercial, como o rock era visto. Essa reação levou o compositor a deixar o palco após apenas 3 canções. Mas o evento gerou uma reação muito negativa na comunidade folk em geral.

Por outro lado, aderir ao rock tornou Dylan bem mais popular e virou uma verdadeira celebridade, um rock star idolatrado por suas canções fortes, pujantes e letras inteligentes. Contudo, a histeria causou um grande custo emocional ao cantor, o que resultou em optar por se afastar do meio musical após um acidente de motocicleta em 1966.

Embora tenha continuado a lançar discos, Dylan adotou uma postura mais low-fi em seu trabalho, só voltou a fazer shows três anos depois e nunca mais foi tão popular quanto nos anos de 1965-66. De qualquer modo, continuou a ser um dos mais respeitados compositores da história do rock e prosseguiu realizando álbuns relevantes ao longo da carreira.

Bob Dylan: Prêmio Nobel de Literatura.

Dylan ainda está ativo, aos 78 anos, lançando discos periodicamente, e fazendo shows de modo contínuo. Ele ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2016 e protagonizou um documentário dirigido por Martin Scorsese sobre uma turnê de 1975, Rolling Thunder Revue, que está disponível na Netflix.