A revista Rolling Stone noticiou hoje que Olivia Harrison e Dhani Harrison, viúva e filho do ex-Beatles George Harrison, irão relançar o Selo Dark Horse, que o músico criou em 1974. Por enquanto, porém, o foco será no catálogo da antiga gravadora, mas muito material inédito do músico virá nos próximos anos.

Segundo as declarações de Olivia e Dhani Harrison, a Dark Horse irá trazer de volta ao mercado os discos que publicou nos anos 1970, como das bandas Splinter e Attitudes, do guitarrista Henry McCullough e dois álbuns do tocador de cítara e lenda da música indiana Ravi Shankar. Porém, com problemas com os negócios e desilusão com a indústria musical, George Harrison desistiu do selo, que prosseguiu existindo apenas como a casa de seus próprios discos.

Harrison e Lennon nos Beatles, em 1969.

Harrison foi um membro dos Beatles que passou quase toda a carreira do grupo eclipsado pelas composições da dupla John Lennon & Paul McCartney, porém, emergiu na etapa final da banda com algumas de suas melhores canções, como While my guitar gently weeps (no White Album, 1968) e Something e Here comes the sun (ambas em Abbey Road, 1969).

George Harrison e Bob Dylan no Concert For Bangladesh,em 1971.

Com o fim do grupo, Harrison surpreendeu o mundo de novo com seu primeiro álbum solo, All Things Must Pass, de 1970, um disco triplo recheado de sucessos, como My sweet Lord, e que o tornou o ex-Beatles mais bem sucedido na carreira solo nos anos imediatamente posteriores à dissolução. Em 1971, o guitarrista organizou o Concert For Bangladesh – primeiro dos grandes concertos beneficentes, que reuniu no mesmo palco estrelas como Bob Dylan, Eric Clapton, Billy Preston, Ringo Starr, Leon Russell e o próprio Harrison. Lançado em disco no ano seguinte, foi outro grande sucesso.

O segundo álbum, Living in the Material World, de 1973, fez outro grande sucesso, emplacando o hit Give me love (peace on Earth). Animado com o sucesso e a oportunidade de abrir portas para novos artistas, Harrison decidiu criar o próprio selo, refazendo a trajetória que os Beatles haviam tentado com a Apple Records – que chegou a lançar artistas de sucesso como Billy Preston, Badfinger, Mary Hopkins, James Taylor e alguns outros, mas terminou soterrada nas disputas judiciais do fim dos Beatles pós-1970.

Com o encerramento da Apple e o desvinculamento da gravadora britânica EMI, Harrison se mudou para a A&M Records, uma gravadora em ascensão na época, que tinha em seu cast nomes poderosos, como Peter Frampton e The Carpenters. Lá criou a Dark Horse como um selo independente com distribuição pela A&M. O nome também foi usado no álbum que o próprio Harrison lançou no fim daquele ano.

Harrison na fatídica turnê de 1974.

Mas logo as coisas deram errado. Querendo visibilidade para sua empreitada – e provavelmente, empolgado com os bons ventos da própria carreira – Harrison se arriscou a fazer a sua primeira turnê solo, organizando uma excursão de 40 shows pelos Estados Unidos entre os meses de novembro e dezembro de 1974. O resultado não foi o esperado.

Além do álbum Dark Horse não ter sido recebido de modo caloroso como seus lançamentos anteriores – o disco foi até certo ponto acelerado para a finalização há tempo da turnê – Harrison contraiu uma crise aguda de garganta (agravada pelos excessos de álcool e drogas na turnê) e sua voz entoou fraca, frágil e errante em todos os shows. Além disso, o músico insistiu em criar novos arranjos para suas principais canções, o que desagradou a audiência, que ainda era testada em sua paciência nos concertos quando o show do ex-beatle era dividido em duas metades com um set de música indiana de Ravi Shankar durante mais de uma hora no meio das duas.

Duramente criticado pela imprensa, a reação à turnê foi tão negativa que Harrison jamais fez outra, à exceção de uma excursão mais curta e discreta no Japão no ano de 1991!

Harrison não queria que a Dark Horse, o selo, fosse uma “gravadora de sucesso”, porém, como negócio, é necessário que uma empresa seja viável financeiramente. Após um par de anos, o músico rompeu as relações com a gravadora A&M e se “mudou” para a Warner Records (mais tarde WEA), o que gerou um processo judicial da primeira. Harrison conseguiu alocar seu selo na nova gravadora, mas por volta de 1979 simplesmente desistiu de lançar novos artistas ou discos e a Dark Horse se tornou apenas o selo pelo qual lançaria os próprios álbuns.

Nos anos 1980, o guitarrista se tornou um recluso.

Após o fiasco de 1974, Harrison – que sempre foi recluso – se tornou ainda mais afastado dos holofotes e sua carreira entrou em uma longa fase de pouco sucesso e destaque, com apenas alguns hits pontuais. Isso mudou apenas no álbum de 1987, Cloud Nine, quando fez de novo outro grande sucesso.

Porém, apesar de ter se juntado ao supergrupo Travelling Wildburys – com Bob Dylan, Tom Petty, Jeff Lyne e Roy Orbison – e lançado dois discos de sucesso, em 1988 e 1990, Harrison não lançou mais material inédito depois disso. A turnê no Japão de 1991 foi muito mais uma maneira de dar uma válvula de escape ao amigo Eric Clapton, que perdeu o filho de 4 anos em um trágico acidente, o que levou à inusitada escolha de Harrison fazer um punhado de shows no país.

Apenas no final dos anos 1990 Harrison retomou a gravação de um novo disco, mas terminou morrendo de um câncer em 2001. Após o falecimento, seu filho Dhani capitaneou a finalização do álbum e o póstumo Brainwashed foi lançado em 2002.

Agora, Dhani e Olivia Harrison afirmam que estão escutando muito material de arquivo do ex-beatle e que muita coisa pode sair daí. Olivia cita à Rolling Stone de modo específico que eles possuem todas as fitas de 24 canais das gravações de All Things Must Pass e que há versões diferentes muito interessantes. Mesmo que parte do material seja conhecido pela pirataria, o áudio nos arquivos é muito melho.

Já Dhani Harrison, que também é guitarrista, cita especialmente os shows da turnê de 1974, destacando que mesmo a voz rouca e falha do pai naquele momento adiciona uma textura diferente e uma beleza. Olivia acrescenta que os shows também foram filmados e que há material para algo como um documentário sobre a turnê.

O material pirata (em áudio) sobre a turnê mostra que há muito potencial a explorar e é interessante, mesmo que diferente do que o público poderia esperar.

É provável que a família Harrison aproveite o embalo do cinquentenário dos discos de George e lance edições especiais dos álbuns, recheadas de material extra. All Things Must Pass completa 50 anos em 2020. Bangladesh fará o mesmo em 2022 e Living in the Material World em 2023. É possível que eles voltem às lojas (físicas e virtuais) com out-takes, ensaios, novas mixagens, vídeos e sabe-se o que mais.

O mundo só tem a ganhar.