Existe uma expressão popular que se diz que “não se deve chutar cachorro morto”, ou seja, quando alguém já está mal ou na desgraça não adianta degradá-lo ainda mais. Não tem como não pensar nisso quando é o caso do diretor de cinema Bryan Singer, que de uma carreira promissora passou ao escrutínio após sucessivas acusações de abuso sexual de meninos mais jovens. Agora, a atriz Olivia Munn, que atuou com ele em X-Men – Apocalipse, de 2016, falou sobre o estranho comportamento do diretor durante a produção, o que incluía se afastar por dias seguidos das filmagens.

… Os Quatro Cavaleiros de Apocalipse.

Em uma longa reportagem da Variety, para divulgar seu novo filme, Violet, Munn é questionada sobre o movimento #MeToo e o trabalho – muitas vezes pouco valorizado – de diretoras de cinema e falou sobre sua experiência com Singer em Apocalipse:

É o problema que eu sempre tive nesse negócio, muito antes do movimento #MeToo expor isso tanto. Você está dentro e vê essas pessoas que continuam agindo mal e não são grande coisa e pensa: “sério?”. Quando filmamos X-Men [Apocalipse], eu nunca tinha filmado algo tão grande daquele jeito antes. Eu não sabia o que era certo ou errado, mas eu sabia que era estranho que Bryan Singer podia cair fora e dizer que tinha tido um problema na tireoide.

Em vez de ir em um médico em Montreal [no Canadá, onde o longa foi filmado], que é uma cidade de altíssimo nível, ele disse que teve que ir em L.A. [Los Angeles]. E ele se foi por tipo 10 dias em minha lembrança. E ele disse: “continuem filmando”. Estávamos no set, eu lembro de que era uma grande cena que estávamos fazendo, e então, voltamos do almoço e um dos assistentes de Bryan chegou e nos mostrou um celular com uma mensagem de texto nele.

Ele escreveu para os atores: “ei, caras, estou ocupado agora. Mas vão em frente e comecem a filmar sem mim“. E nós ficamos tipo “Ok” e eu nunca pensei que isso fosse normal de jeito nenhum, mas não percebi que as outras pessoas também pensavam que isso não era normal. E as outras pessoas que pensavam que não era normal poderiam ser pessoas do alto escalão, pessoas que tomam decisões e escolhem contratar essa pessoa.

Vir a descobrir que isso era realmente estranho e não era OK. Mas essa pessoa ainda é permitida continuar a ir em frente. Fox ainda deu para ele Bohemian Rhapsody, e então, todos sabem o que aconteceu!

Estou dizendo que, mesmo antes da coisa do #MeToo ter sido exposto – coisa que é realmente horrenda e nauseante de estar perto – já havia o mau comportamento de pessoas saindo por aí. E ninguém no mundo é tão talentoso que lhe é permitido desrespeitar outras pessoas e seu tempo. E há tanta gente talentosa esperando por uma oportunidade.

Apesar das primeiras denúncias contra Bryan Singer serem mais antigas, elas não se tornaram públicas exatamente até a época de X-Men – Apocalipse. Inclusive, quando as denúncias começaram a sair, pouco antes do lançamento do filme, a 20th Century Fox removeu Singer de todo o trabalho de divulgação, que coube ao produtor e roteirista Simon Kinberg – que terminou por suceder Singer na direção do filme seguinte, X-Men – Fênix Negra, o último da franquia, já que a Fox foi vendida para a Disney.

Bryan Singer.

Porém, ainda assim, Singer foi envolvido na produção de Bohemian Rhapsody, a cinebiografia de Freddie Mercury e da banda Queen. No fim das contas, uma série de problemas levou Singer a ser demitido da produção. O que chegou à imprensa foi de que Singer não tinha o comportamento profissional nos sets, se ausentava longamente das gravações (de novo) e entrou em atrito com o protagonista, Rami Malek. No fim das contas, o elenco pressionou – e as acusações de estupro e abuso sexual ajudaram – e Singer terminou demitido do filme.

Dexter Flesher assumiu a direção de Bohemian Rhapsody em seu lugar, mas por causa das rígidas regras de Hollywood – para qual um diretor só pode sair dos créditos se seu substituto refilmar 75% do material final – o longa foi lançado creditado ainda a Singer. Em resposta, Bohemian Rhapsody foi indicado a Melhor Filme no Oscar, mas não a Melhor Diretor. No fim das contas, o filme ganhou 4 prêmios: Melhor Ator para Malek, Melhor Edição, Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som.

Flesher, em seguida, dirigiu outra cinebiografia, Rocketman, inspirada em Elton John.

Singer saiu do radar de Hollywood.

Nascido em 1965, Singer despontou em Hollywood nos anos 1990 com filmes arrebatadores, como Public Access, Os Suspeitos e O Aprendiz, antes de fazer grande sucesso com a franquia dos mutantes da Marvel Comics, com X-Men – O Filme (2000) e X-Men 2 (2004). Ele também lançou Superman – O Retorno (2006), que não foi bem recebido, e voltou à ribalta com Operação Valquíria (2008). Pronto para filmar X-Men – Primeira Classe, foi impedido por uma disputa contratual entre a Fox e a Warner e foi fazer João e o Pé de Feijão (2013), antes de regressar aos mutantes com X-Men – Dias de Um Futuro Esquecido (2014) e X-Men – Apocalipse (2016). Por fim, filmando Bohemian Rhapsody (2018) antes de ser demitido da produção.

Novo trio: Jean Grey, Noturno e Ciclope em Apocalipse.

Olivia Munn interpretou Betsy Braddock, a Psylocke, em Apocalipse, uma personagem com grande potencial e uma boa história nas HQs dos X-Men, mas que no filme foi reduzida a apenas uma figurante como parte dos Cavaleiros do Apocalipse no filme.

Leia a Resenha do HQRock para X-Men – Apocalipse na época de seu lançamento.