Chamar Bob Dylan de “um dos nomes mais importantes da história do rock” soa até redundante. Na verdade, existe um seletíssimo grupo que pode usar esse título, e dentro dele, muitos poucos o podem com a mesma propriedade do que Bob Dylan. Na história da música, Bob Dylan e os Beatles são os artistas mais influentes do século XX e sua importância não pode ser medida. Tudo o que é produzido musicalmente desde 1962 tem a marca indelével desses dois nomes.

Bob Dylan em 1966: ícone do rock clássico.

O HQRock traz a biografia do artista e – correndo o risco de ser repetitivo – poucos merecem isso mais do que Bob Dylan.

Bob Dylan no início da carreira.

Nascido Robert Allen Zimmerman em Duluth, no Estado de Minnesota nos Estados Unidos, em 24 de maio de 1941, filho de descententes de judeus russos. O envolvimento com a música veio cedo e, autodidata, aprendeu a tocar piano e guitarra sozinho. Com a adolescência, viu a explosão do rock and roll nos anos 1950 e logo estava sonhando em seguir os passos de Little Richard e Buddy Holly, de modo que formou suas primeiras bandas de rock.

Porém, ao migrar para a Universidade de Minnesota, em Minneapolis, gradualmente o jovem Zimmerman migrou seu interesse do rock and roll para a música folk, a mais tradicional vertente da canção norteamericana, cuja vertente “protest song” (música de protesto) ganhava um revival no fim da década de 1950, a partir do resgate de artistas do passado, como Woodie Guthrie, e de artistas do presente como Pete Seeger.

O primeiro álbum, de 1962.

Mudando o nome para Bob Dylan – por gostar da sonoridade do último nome, que encontrou no poeta Dylan Thomas, e por se aproximar sonoramente do seu próprio Allen – o garoto mergulhou funda na folk song e, logo, abandonou a faculdade e foi para Nova York, se apresentar tocando violão e gaita em barzinhos da forte cena folk da grande maçã.

Descoberto pelo famosíssimo produtor musical John Hammond Jr., gravou seu primeiro disco em 1962, chamado simplesmente Bob Dylan, trazendo em sua maior parte releituras do cancioneiro tradicional da música folk. O disco não fez sucesso e a gravadora Columbia pensou seriamente em romper o contrato, mas Hammond Jr. insistiu efusivamente para que o artista continuasse na casa. Gradualmene, porém, o jovem artista ganhou reconhecimento da cena folk.

Com violão e gaita, o primeiro Bob Dylan: caipira intelectual engajado.

Em seguida, Dylan assinou contrato com o empresário Albert Grossman, que se tornaria um daqueles superempresários dos anos 1960, como Brian Epstein, Robert Stigwood e Peter Grant. O estilo agressivo de Grossman entrou em choque com Hammond Jr., o que levou ao afastamento deste das gravações do segundo álbum do artista. O cargo de produtor foi ocupado pelo jovem Tom Wilson, que seria alçado à fama pelo trabalho e, mais tarde, também “lançaria” a dupla Simon & Garfunkel.

O segundo álbum saiu em 1963: The Freewhelin’ Bob Dylanera integralmente autoral e se transformou em um fenômeno musical. A canção Blowin’ in the windna qual Dylan faz uma crítica social à sociedade americana se tornou um grande sucesso, inclusive na regravação por outros artistas, como foi o caso do trio folk Peter, Paul & Mary.

“The Freewheelin’”: o primeiro clássico.

Bob Dylan em si não foi, de imediato, um sucesso de massa, mas se tornou o preferido da crítica musical e do circuito universitário dos EUA, que preferiam a sonoridade séria e engajada do artista ao mercado musical popular marcado pelo fenômeno dos teen idols, aqueles jovem cantores inexpressivos que cantavam canções tolas em uma sonoridade que era um rockinho diluído em pop music.

Curiosamente, Dylan virou um fenômeno de vendas no outro lado do Atlântico, na Inglaterra, onde seu álbum fez mais sucesso do que na terra natal e influenciou por demais a então emergente cena roqueira britânica que, sem o conhecimento do resto do mundo ainda, elaborava uma das principais revoluções artísticas do século XX.

A voz de uma geração.

Para se ter uma ideia, enquanto nos EUA Freewhelin’ chegou ao 22º lugar das paradas de sucesso nacionais; na Inglaterra, o disco alçou o 11º lugar. Além de Blowin’ in the wind, o disco trazia canções fortes como Masters of war, um manifesto contra a guerra; A hard’s rain a-gonna fall, criava um futuro apocalíptico fruto da devastação nuclear (e que, de certo modo, refletia o medo insurgente da Crise dos Mísseis em Cuba); e Oxford town falava das primeiras matrículas de negros em universidades norteamericanas.

A sonoridade do álbum se pautava essencialmente na própria voz de Dylan, uma voz anasalada e até certo ponto desafinada (que de certo modo guarda lampejos com a de Chico Buarque e essa não é a única proximidade desses dois artistas geniais), mas que traz aquela “força de autor” que a torna irresistível e fundamental (mesmo que tecnicamente imperfeita ou talvez por isso mesmo); enquanto a sonoridade é montada principalmente apenas em seu violão e gaita. Outros instrumentos, como baixo e bateria, aparecem apenas eventualmente.

Com a amiga e parceira Joan Baez.

A força de Dylan se deu não apenas em sua obra, mas em sua atitude. Rapidamente alçado à condição de “voz crítica da América” (título que ele sempre odiou), o artista teve forte participação na turbulência das discussões sobre o Movimento dos Direitos Civis dos negros que emergiu midiaticamente em 1963, liderado por Martin Luther King.

Ao lado da cantora – e por um período sua namorada – Joan Baez, Dylan esteve presente na Marcha Sobre Washington naquele ano. Então, Baez era a maior estrela da música folk e tinha sido capa da revista Time, o que ajudou na popularização de Dylan. Sem contar que a cantora também gravaria diversas composições do artista com sua voz forte e expressiva.

Dylan ao piano.

O álbum seguinte seguiu o mesmo formato: clima acústico e canções fortes de protesto. Lançado em janeiro de 1964, The Times They Are A-Changin’, fez mais ou menos o mesmo sucesso e teve como grande destaque a faixa-título, um manifesto pela ascensão da “nova juventude” típica dos anos 1960 e um aviso, por vezes ameaçador, para que a “velha guarda” tome cuidado porque será substituída por aqueles que, então, estavam em uma situação desprevilegiada ou secundária, no que foi, provavelmente, o primeiro dos grandes “hinos geracionais” daquela década, como o seriam My Generationdo The Who.

Ao mesmo tempo, os EUA vivenciaram um grande processo de mudança cultural, causado pelo fenômeno chamado de Invasão Britânica. Embora os EUA tenham criado o rock and roll, o gênero praticamente tinha “caído em desuso” desde o fim da década de 1950, com o “desaparecimento” dos grandes nomes do gênero da mídia.

Os Beatles: influência mútua.

Coube aos britânicos o papel de refinar o rock e transformá-lo no gênero musical que hoje conhecemos. E foram os artistas da Invasão Britânica quem apresentaram ao mundo esse “novo” rock. Em fevereiro de 1964, os Beatles se tornaram o primeiro grupo de rock inglês a fazer sucesso nos EUA e abriram as portas para toda uma geração. Num primeiro momento, artistas como The Animals, Manfred Mann e Hollies invadiram as paradas de sucessos dos EUA e causaram um reencontro do país com o rock.

Esse reencontro foi fundamental também para Bob Dylan. O artista sempre gostara de rock, mas achava que o gênero não era “sério” (principalmente em suas letras) e não discutia nem pensava o mundo tal qual o folk fazia. Mas o rock dos britânicos como os Beatles era diferente: era mais sério, era mais complexo musicalmente, era vibrante, colorido, pulsante e irresistível.

Bob Dylan: mudando do protesto para o amor.

Com isso, Dylan começou a vislumbrar que poderia se reaproximar do rock, embora também soubesse que o circuito da música folk era extremamente fechado e que julgava o rock como um gênero musical alienado e infantil.

O disco seguinte, Another Side of Bob Dylan começava, mesmo que timidamente, essa reaproximação do artista com o rock. Lançado em agosto de 1964, sua sonoridade ainda se mantinha folk e acústica em sua maior parte, mas a temática das letras deixava de ser a crítica social para as dores de amor. Muito embora fossem canções “românticas” com um nivel de texto extremamente superior ao de seus pares.

Trazendo clássicos como All I really want to do, Spanish harlem incident, Chimes of freedom, My back pages eIt ain’t me babe, o álbum seria extremamente influente dentro da nova cena roqueira que emergiria nos EUA dali há pouco e suas canções seriam gravadas intensamente por artistas como The Byrds e Sony & Cher; mas a extranheza da mudança temática assustou o mercado e fez o disco ser um grande fiasco comercial na época de seu lançamento.

A tomada do mercado americano pelas bandas de rock britânicas também deve ter ajudado, mas Another Side… chegou apenas a 43ª posição das paradas dos EUA, o número mais baixo na lista em que Dylan teria um disco inédito até 1986! Curiosamente, o disco foi um grande sucesso na Inglaterra, onde chegou ao 8º lugar das paradas nacionais.

Encontro de ícones: Dylan e Lennon em 1965.

Bob Dylan não se importou muito com isso e prosseguiu seu intento de reaproximação com o rock. Inclusive, quando os Beatles vieram fazer sua segunda turnê nos EUA, em agosto de 1964, Dylan – que tinha adorado a música do quarteto de Liverpool – tratou de encontrá-los em um hotel em Nova York. Daí veio a lenda – já confirmada por todos os envolvidos – de que Dylan apresentou os Beatles à maconha, introduzindo-os ao mundo das drogas ilícitas, pois até ali, só usavam álcool e anfetaminas como estimulantes.

A influência foi mútua. Bob Dylan teve grande impacto nos Beatles, particularmente em John Lennon que passou a repensar o seu papel como compositor e direcionou sua obra para um aspecto mais pessoal e reflexivo, que marcaria suas obras mais famosas, seja na banda, seja em carreira solo.

Dylan no clipe de “Subterranean homesick blues”.

A música dos Beatles teve profundo impacto na obra de Dylan e o artista levou o estilo para o seu álbum seguinte: lançado em março de 1965, Bringing It All Back Homemantinha a temática de rock (embora a crítica social não estivesse ausente) e, pela primeira vez, fazia uso de instrumentos elétricos, o que causou grande comoção do circuito folk, que via isso como “se vender”.

O álbum abria com o barulho ensurdecedor de Subterranean homesick blues, um rock rápido e distorcido em que Dylan declama a letra em uma grande velocidade, que se assemelha ao RAP dos dias de hoje. O álbum também trazia o superclássico Mr. tambourine mane outras como It’s alright, ma (I’m only bleeding) eIt’s all over now baby blue (esta última, mais tarde versionada ao português por Caetano Veloso como Negro amor, também gravada pelos Engenheiros do Hawaii.

A chegada de Dylan ao território do rock o tornou o padrinho do movimento conhecido como A Resposta Americana, na qual os EUA produziram os primeiros roqueiros “de verdade” desde o fim dos anos 1950. Esse movimento eclodiu principalmente em 1965 e, embora tenha alçado à fama artistas já atuantes, como os Beach Boys, revelou uma série de novos nomes, como The Byrds, Simon & Garfunkel, The Mamas and the Papas, Sony & Cher, Lovin’ Spoonful e muitos outros. O que a maioria desses artistas faziam – à exceção dos Beach Boys – era simplesmente revestir a sonoridade folk de Bob Dylan com a argamassa sonora britânica de Beatles e Rolling Stones. Aqueles artistas americanos criaram, assim, o subgênero do rock chamado de folk rock, que foi o principal desenvolvido nos EUA ao longo da década de 1960.

Não foi coincidência então, Bringing It All Back Home ter sido o maior sucesso de Dylan até então, tendo chegado ao 6º lugar das paradas dos EUA e ao 1º lugar das paradas da Inglaterra.

The Byrds fizeram a fama cantando as canções de Dylan.

E Dylan continuou frequentando as paradas como compositor: Mr. tambourine manfoi gravada pelos Byrds e nomeou não somente o seu primeiro single, como também o primeiro álbum da banda, que foi um enorme sucesso e chegou ao n.º 01 das paradas. E em seus primeiros álbuns, grande parte do material dos Byrds seria formado justamente por composições de Dylan, como a citada e All I really want to do, Chimes of freedom, The times they are a-changing, Lay down you weary tune, My back pagesetc., algumas dessas até inéditas.

Nesse meio tempo, Bob Dylan se apresentou com uma banda elétrica no Newport Folk Festival, a mais tradicional festa daquele gênero musical, e foi vaiado pela plateia, o que representa simbolicamente sua ruptura com o gênero tradicional em prol do rock clássico. Porém, com o tempo, a maior parte do público tradicional do folk terminaria aceitando o rock como uma espécie de “parente” do gênero.

Highway 61 Revisited: para muitos o melhor disco do artista.

O álbum seguinte de Dylan já seria praticamente inteiramente elétrico e, para muitos, é considerada a sua melhor obra: Highway 61 Revisited, lançado em agosto de 1965. Além do superclássico Like a rolling stone, o disco traz Tombstone blues, Ballad of a thin man eDesolation road. Foi outro grande sucesso, chegando ao 3º lugar das paradas dos EUA e ao das da Inglaterra.

Like a rolling stonese tornou um grande ícone do cancioneiro do rock com sua confusa história sobre a figura do andarilho, aquele ser errante que vaga pelo país e – não raro – é um cantor de blues ou folk. Na história, a personagem é uma menina rica que larga tudo, mas a letra não a poupa de ironia até escárnio.

Com seus mais de seis minutos de duração, a canção também foi uma pequena revolução mercadológica, pois foi lançada em compacto e chegou ao n.º 01 das paradas. Contudo, na época, as rádios se recusavam a tocar canções com mais de três minutos! Qualquer canção que ultrapasse isso em alguns segundos era editada (cortada) para tocar no rádio! Mas isso não podia ser feito com Like a rolling stone, porque é uma narrativa e ficaria sem sentido com parte da letra cortada. Assim, foi executada na íntegra, o que abriu o caminho para o aumento do tamanho das canções dentro da música comercial de massa.

A partir de 1965, Dylan exibiu um visual mais dark com longos cabelos e óculos escuros.

Nessa altura da carreira, Bob Dylan já era um superastro mundial. Sua primeira turnê na Inglaterra foi um fenômeno, intensamente acompanhada pela crítica e imprensa, repetindo cenas de incompreensão em relação à eletricidade do som que já haviam ocorrido nos EUA e, ao mesmo tempo, um tour de force na qual inúmeros astros da música internacional rondavam o artista. Em meio à turnê, nomes como os Beatles, Joan Baez, John Mayall e Eric Clapton (que tocavam juntos nos Bluesbreakers), Alan Price (dos Animals) e vários outros acompanhavam Dylan e ele fez grandes amizades com todos eles.

Ao mesmo tempo, Dylan começava cada vez mais a se cansar de seu papel de “líder da geração” e a odiar o showbizz em torno da música. Com isso, passou a evitar certos círculos e a manter contato apenas com artistas que realmente lhe interessavam do ponto de vista pessoal e musical. E escolheu como sua banda de apoio um grupo de rock canadense chamado de The Hawks, mas que, devido aos cartazes de shows com “Bob Dylan & Band”, terminaria mais tarde mundialmente famosa como The Band.

Capa de “Bondie on Blondie”.

Foi com a The Band que Dylan gravou a maior parte de seu próximo álbum, Blonde on Blonde, que seria lançado em maio de 1966, sendo o primeiro álbum duplo da história do rock e trazendo clássicos como Rainy day women 12&35, Visions of Johanna, Just like woman eI want you (esta última, décadas mais tarde gravada em português pelo Skank como Tanto).

Apesar do apelo não comercial do disco, com canções barulhentas, sem estrutura definida e algumas muito longas – chegando até aos 11 minutos – o disco ainda assim fez muito sucesso, chegando ao 9º lugar das paradas dos EUA e ao das da Inglaterra.

Contudo, pouco tempo após o lançamento do disco, Bob Dylan sofreu um grave acidente de trânsito ao cair de sua moto na região de Woodstock, em Nova York, onde morava, e quase quebrar o pescoço. A maior sequela seria na sua voz, que se tornaria mais grave a partir dali.

Bob Dylan de cabelos bem curtos durante seu “exílio” em 1967.

Mas Dylan usaria a recuperação do acidente como desculpa para se isolar do showbizz e encerrar temporariamente sua carreira nos palcos, que só retomaria de fato três anos depois.

O artista continuou compondo e vários grupos lançaram canções inéditas de Bob Dylan nesse período – como Wheels of fire eThe mighty queen – mas o cantor só saiu discretamente do retiro com o lançamento do álbum John Wesley Harding, em dezembro de 1967 e, ainda assim, sem aparições públicas para promovê-lo.

Capa de “John Wesley Harding”.

O disco representava uma ruptura em sua obra, se voltando para um estilo mais country rock e básico e era uma exceção ao mercado tomado pelo psicodelismo. Trazia apenas canções simples e despojadas como a faixa-título, All along the watchtower eI’ll be your baby tonight. Ainda assim, o álbum chegou ao 2º lugar das paradas dos EUA e das da Inglaterra.

Jimi Hendrix fez uma versão explosiva e famosa de “All along the watchtower”.

E em 1968, a banda The Jimi Hendrix Experience faria sucesso com uma versão explosiva de All along the watchtower.

Enquanto isso, no mesmo ano, a The Band lançou o seu primeiro álbum, Music From the Big Pink(“big pink” era o nome da casa que o grupo dividia com Dylan em Woodstock), que foi um grande sucesso, além de causar uma grande influência no circuito internacional do rock. A simplicidade da música do The Band reforçou a onda oposta aos excessos do experimentalismo psicodélico e terminou por tirar a força daquele movimento.

Eric Clapton abandonou esse estilo psicodélico influenciado por Bob Dylan e The Band.

Artistas como Eric Clapton, por exemplo, foram profundamente atingidos pelo impacto da simplicidade da The Band. O grupo também deu início a uma nova onda de country/folk blues, que revelaria nomes como Crosby, Stills and Nash, Neil Young e James Taylor.

Porém, o lançamento parecia quase uma travessura e Dylan continou “desaparecido” por mais algum tempo, não lançando nenhum disco em 1968. Curiosamente, o artista recusou o convite de se apresentar no Festival de Woodstock que ocorreu bem perto de sua casa, em agosto de 1969, mas terminaria fazendo uma volta triunfal aos palcos poucos dias depois, no Festival da Ilha de Wight na Inglaterra.

O novo Bob Dylan, em 1969.

Esse show – um grande marco pela volta de Dylan – virou um fenômeno no circuito musical e foi assistido por grandes nomes da música como o guitarrista Eric Clapton e os membros dos Beatles, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr.

Após o show, houve uma grande festa que terminou em uma grande jam session (improvisação), que reuniu os membros dos Beatles (que estavam praticamente extintos àquela altura), Clapton e Dylan.

Dylan foi lentamente voltando aos holofotes, mas num papel diferenciado agora e até menos popular. Ele realizou uma espécie de trilogia de country rock com seus álbuns seguintes – Nashville Skyline(1969), Self Portrait(1970) e New Morning  (1970), que fizeram sucesso, pois chegaram ao 3º, 4º e 7º lugar das paradas dos EUA, respectivamente, embora todos tenham chegado ao 1º lugar das paradas da Inglaterra.

George Harrison e Bob Dylan no Concert For Bangladesh,em 1971.

O encerramento dessa fase veio com sua participação no Concert For Bangladesh, em 1971, evento beneficente organizado por seu amigo George Harrison, com o qual dividiu o palco. A performance de Dylan ficou imortalizada no álbum e no filme do concerto, que foram grandes sucessos. Inclusive, foi a primeira vez em cinco anos que o compositor cantou Blowin’ in the wind ao vivo.

Eric Clapton fez um grande sucesso com “Knockin’ on a heavens door”, em 1975.

O início dos anos 1970 foi um pouco mais difícil, com os discos Dylan e Pat Garrett and Billy the Kid, ambos de 1973, não fazendo sucesso, o que era algo estranho à sua carreira. O segundo era a trilha sonora de um filme sobre a famosa lenda do velho oeste dos EUA, e trouxe um grande clássico do compositor, Kocking on heaven’s door, que curiosamente não fez nenhum sucesso; mas relançada por Eric Clapton em 1975, se tornou um fenômeno mundial que vem sendo regravado por inúmeros artistas, como Guns and Roses ou Zé Ramalho.

No entanto, quem nasce Bob Dylan continua Bob Dylan, e o artista voltou à tona com uma série de bons álbuns nos meados dos anos 1970, como Planet Waves, Blood on the Tracks e Desire, lançados em 1974, 1975 e 1976 e todos de volta ao 1º lugar das paradas dos EUA.

Capa de “Desire”, que traz “Hurricane”.

São bons discos que mostram um novo Dylan, mais maduro e menos sensacional, mas com um sabor muito interessante em suas melodias e letras. Desire tem certo destaque por trazer o clássico Hurricane, sobre a história real do boxeador negro que foi injustamente acusado de um crime e passou a maior parte da vida na cadeia (e virou filme); e também por uma curiosidade: trouxe Romance on durango, composição que, versionada ao português, foi um grande sucesso do cantor Fagner, Romance no deserto.

Bob Dylan e The Band reunidos em 1974.

No meio desses discos, Dylan ainda lançou oficialmente um famoso disco pirata que circulava a quase 10 anos trazendo suas sessões de improvisação com a The Band, gravadas em 1967. Chamado The Basement Tapes, foi lançado em 1975 e também foi sucesso, chegando ao 7º lugar das paradas.

Esse disco saiu porque, na época, entre 1974 e 1975, Bob Dylan fez uma série de apresentações novamente reunido à The Band, que por sinal, encerrou as atividades naquele último ano.

Também entre 1975 e 1976 Dylan fez sua primeira grande turnê em uma década! A Rolling Thunder Revue foi um tipo de turnê caravana na qual Dylan se uniu a inúmeros artistas, como Joni Mitchell, Joan Baez, Patti Smith, Ringo Starr, Roger McGuinn, Rumbin’ Jack Elliot e vários outros, tocando por todo o território dos EUA. Foram duas rodadas, a primeira entre outubro e dezembro de 1975; e a segunda entre abril e maio de 1976.

Com Joan Baez no Rolling Thunder Revue, em 1975.
Bob Dylan nos anos 1980: sinais de decadência.

Em seguida, a carreira de Dylan entra em uma outra fase, marcada por pouco sucesso e pela busca de uma nova identidade do próprio artista. No começo dos anos 1980, ele chegou até a se converter ao catolicismo e fazer canções religiosas, mas voltaria a um termo “normal” pouco depois.

The Traveling Wilburys (com Dylan ao centro): brincadeira que deu certo!

O melhor momento de Dylan nos anos 1980 foi quando se uniu ao despretencioso supergrupo The Traveling Wilburys, que além de Dylan, tinha o ex-beatle George Harrison, o cantor Roy Orbison (de Pretty Woman, lembra?), mais Jeff Lyne (da banda Electric Light Orchestra) e Tom Pretty (dos Heartbreakers). A banda lançou um álbum, The Traveling Wilburys Vol 01, em 1989, e foi uma grata surpresa, fazendo um grande sucesso em canções como Handle with care e End of the line.

Um segundo volume saiu depois, mas sem o mesmo frescor e qualidade.

Bob Dylan nos dias de hoje: sucesso e prêmios.

A partir dos anos 1990, seus discos melhoraram bastante de qualidade em relação ao imediatamente anteriores, embora não fossem grandes fenômenos de venda. Mas Dylan é Dylan, então, a partir de Time Out of Mind, de 1997, o compositor iniciou uma série ininterrupta de álbuns com sucesso de crítica e público.

Time Out of Mind, Love and Theft e Modern Times, de 1997, 2001 e 2006, chegaram ao 10º, 1º e 1º lugar das paradas dos EUA e lhes renderam uma série de prêmios, como Grammys até um Oscar de Melhor Trilha Sonora Original.

Em 2012, ele lançou o álbum Tempest, que foi de novo bastante elogiado e trazia uma homenagem ao seu velho amigo John Lennon, que morrera assassinado em 1980. Depois, lançou uma trilogia de discos – Shadows in the Night, Fallen Angel e Triplicate – dedicados a covers de artistas tipicamente norteamericanos, como Frank Sinatra. Há pouco tempo lançou o single Murder must foul com quase 17 minutos de duração e quase declamada, com um acompanhamento lento de piano, orquestra e uma bateria discreta, falando sobre o assassinato do ex-presidente dos EUA, John F. Kennedy, em 22 de agosto de 1963. Esta canção chegou ao 1º lugar das paradas da Billboard, sendo a primeira vez que o compositor chegou ele mesmo (e não suas composições por outros artistas) a tal posto.

Além disso, Dylan ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2016, sendo a primeira vez que um compositor musical ganhou tal honraria. A premiação gerou alguma polêmica, já que ele não é um escritor no sentido tradicional, porém, foi mais do que merecido.

Dylan ainda está ativo, aos 78 anos, lançando discos periodicamente, e até a pausa obrigatória pela pandemia mundial do novo coronavírus, vinha fazendo shows de modo contínuo.