O Daily Mail divulgou que as últimas fotografias tiradas do ex-membro dos Beatles, John Lennon, momentos antes de sua morte, serão leiloadas nos Estados Unidos amanhã, terça-feira. O jornal também publicou pela primeira vez as imagens em alta resolução, inclusive, trazendo três delas inéditas. Os registros incluem uma fotografia de Lennon dando autógrafos ao seu futuro assassino, Mark David Chapman.

Lennon autografando um disco de seu futuro assassino, Mark Chapman, em 08 de dezembro de 1980, horas antes do crime.

As fotos foram captadas pelo fã dos Beatles e de Lennon, Paul Goresh, que com alguma frequência fazia plantão em frente ao apartamento que o músico vivia em Central Park West, na cidade de Nova York, no mítico edifício Dakota. O fã, que morreu em 2017, deixou um grande legado de memorabília dos Beatles, acervo este que será leiloado no Just Kids Nostalgia. É esperado que o conjunto de fotografias raras atinja um valor de US$ 500 mil ou 450 mil libras – algo como mais de R$ 3 milhões.

Paul Goresh, autor das fotos.

O mais notório das fotos de Paul Goresh – além do fato singular e, por si só histórico, de serem as últimas fotografias de John Lennon vivo – é o fato do horrível acaso de trazerem o ex-líder dos Beatles ao lado de seu futuro assassino, Mark David Chapman, dando-lhe um autógrafo.

Dentre as fotografias de Goresh, que não são profissionais, que fique bem claro, a com Chapman era a única realmente conhecida, pois já fora reproduzida logo após o crime e rodado o mundo em jornais e livros. As outras, contudo, são praticamente inéditas.

Goresh já tinha estado com John Lennon antes e existe uma foto dele com o ídolo em outro dia. Lennon adorava viver em Nova York justamente porque podia andar tranquilo pela cidade. Ele relatou em entrevistas que as pessoas passavam e lhe davam “bom dia” ou “olá”, às vezes, lhe pediam um autógrafo, mas o músico podia circular normalmente, e constantemente era visto passeando no Central Park, visitando lojas e restaurantes. Era uma experiência totalmente diferente da que vivia em Londres, nos anos 1960, quando qualquer saída à rua era um pandemônio por causa da beatlemania. Mesmo no fim daquela década, ainda não havia total tranquilidade, embora ainda tenha tentado viver no centro de Londres ao lado da esposa Yoko Ono, no que não foi bem sucedido.

Lennon passou a viver em Nova York em 1971.

No fim dos anos 1970, qualquer fã dos Beatles sabia que Lennon morava no Dakota em Nova York, e alguns mais extrovertidos ficavam perambulando pela entrada do edifício na esperança de vê-lo, tirar uma foto ou pedir um autógrafo. Gentil e relaxado, Lennon atendia sem exceção esses fãs e nunca teve problema nenhum com eles. Até 08 de dezembro de 1980.

Naquele dia, Lennon passou o início da tarde em seu apartamento no sétimo andar do Dakota dando uma entrevista à rádio RKO de San Franscisco. O ex-Beatles tinha lançado há poucas semanas o primeiro álbum inédito em cinco anos, Double Fantasy (disco que é dividido metade-metade com Yoko Ono), e seu compacto (Just like) Starting over, estava subindo nas paradas. Lennon havia interrompido sua carreira artística em 1975, após o nascimento de seu filho Sean, o primeiro e único com Yoko Ono, decidido a dar ao rebento uma presença na infância que não havia dado ao primeiro filho, Julian, com a primeira esposa, Cynthia Powell.

Pouco depois da hora do almoço, Paul Goresh chegou à entrada do Dakota com a finalidade de ver Lennon. Logo, outro fã se aproximou dele, um ex-guarda de boate advindo do Havaí, Mark Chapman, que trazia um cópia do Double Fantasy para que Lennon o autografasse.

Mark Chapman, o assassino.

Goresh não sabia, mas Chapman tinha chegado no dia 05 e nos dias 06 e 07 tinha aparecido no Dakota sem conseguir ver Lennon.

Às 16 horas do dia 08, Lennon desceu à portaria do Dakota com destino ao Record Plant, onde ele e Yoko preparavam o sucessor de Double Fantasy. Goresh se aproximou e cumprimentou Lennon, que já o conhecia, mas Chapman não disse nada. Sempre solícito, Lennon (que entendia a timidez dos fãs) perguntou a Chapman: “Você quer que eu assine isso?”. Chapman sacudiu a cabeça e lhe passou o LP.

Lennon assinou e Goresh capturou o momento em fotografia, com o músico em primeiro plano e seu futuro assassino em segundo plano, meio cortado do enquadramento, mas ainda visível. Uma fotografia anterior a este momento mostra Lennon olhando para Chapman (dessa vez sem o assassino estar no enquadramento), segurando um conjunto de fitas K7, provavelmente, demos das gravações que estava realizando para o disco que nunca terminou.

Goresh ainda tirou três outras fotos, com uma na qual Lennon olha diretamente para ele – infelizmente, nesta, o flash de sua câmara falhou e, já estando escuro por causa do inverno, o resultado foi uma fotografia descrita como “fantasmagórica” pelo Daily Mail. Outras duas trouxeram o músico esperando pelo carro que lhe vinha pegar.

A equipe da RKO, então, ofereceu carona, já que iriam ao aeroporto e passariam próximo do endereço do Record Plant. Goresh registrou Lennon entrando no carro e indo embora.

Goresh foi para casa feliz de ter visto seu ídolo outra vez. Lennon seguiu para o estúdio e passaria aquela noite gravando uma guitarra na faixa The thin ice, de Yoko Ono. Chapman se manteve por ali.

Às 22h30, Lennon e Ono regressavam do estúdio – ela insistiu para jantarem em um restaurante, mas Lennon queria ir logo para casa e botar Sean para dormir. Chegaram em uma limousine, Yoko desceu na frente e entrou; Lennon ia atrás, Chapman saiu das sombras e se aproximou com um revólver .38 nas mãos e disparou cinco tiros à queima roupa: quatro atingiram o músico.

O porteiro chamou a polícia, que chegou em 3 minutos e, na ausência de uma ambulância, levou Lennon ensanguentado e em choque no banco traseiro da viatura. O ex-membro dos Beatles, que revolucionou o mundo da música, que cantou a paz e produziu canções cheias de críticas sociais e mensagens de amor, já chegou morto ao hospital.

Em dezembro deste ano se completará 40 anos do trágico crime.

Mark Chapman, por sua vez, não se deu ao trabalho de fugir. A polícia o encontrou ao lado da cena do crime, encostado no muro e lendo O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger. Foi preso e condenado à prisão perpétua, mantendo-se até hoje cumprindo sua pena.

Conheça a Discografia Completa de John Lennon neste post especial do HQRock.