Há algumas semanas os Estados Unidos estão “em chamas”, desde que o afroamericano George Floyd, já rendido, foi sufocado e morto por um policial em Mineápolis, no Minnesota. Entre protestos violentos e manifestações contra o racismo, foi notado que muitos policiais estavam revidando, protestando ou atuando usando o símbolo da caveira do Justiceiro da Marvel Comics. Não é uma prática nova e já suscitou críticas até do criador do personagem, mas agora, um movimento vem se organizando para exigir que a Disney – empresa-mãe da Marvel – proíba o uso da caveira estilizada do anti-herói por policiais.

O Justiceiro nos quadrinhos, por Mike Zeck.

A estratégia seria a única que a sociedade respeita: dinheiro. Ou seja, processar quem fizesse o “uso indevido” da marca.

A ideia começou a circular no Twitter e ganhou força depois que postada pelo desenhista de quadrinhos Matt D. Wilson. Tendo revistas de como Mulher-Maravilha (da DC Comics) e Viúva Negra, Demolidor, Vingadores Secretos, Jovens Vingadores e Thor (na Marvel), Wilson criticou que a Disney tenha doado apenas US$ 5 milhões para instituições sociais em meio à reação pelo caso Floyd, enquanto a empresa teve uma receita de US$ 70 bilhões em 2019. Isso equivale a 0,007% do valor, como Wilson calculou.

Como sugestão, Wilson apontou que a empresa – que comprou a Marvel em 2009 – simplesmente proibisse policiais de usar a logomarca do Justiceiro (que é Trade Mark, ou seja, Marca Registrada) e processasse os departamentos de polícia que insistissem no uso. Isso geraria muito mais renda do que a “filantropia” da Disney.

A campanha ganhou vulto no Twitter e foi referendada por outros quadrinistas, como Mags Visaggio e Kat Verhoeven, como notou o Omelete, acrescentando que o Justiceiro servir como símbolo dos movimentos de ódio que ascendem no mundo todo deveria ser algo a ser discutido.

Gerry Conway.

No início de 2019, o criador do Justiceiro, o escritor Gerry Conway, já havia se manifestado endossando que era errado policiais e militares usarem a caveira do uniforme de Frank Castle, afinal, o anti-herói é um fora da lei que mata criminosos impiedosamente; enquanto, ao contrário, é papel da polícia defender o cidadão e manter a lei e a ordem, não cabendo às forças policiais a função de executar suspeitos.

Na época, Conway disse:

O anti-herói vigilante é fundamentalmente uma crítica ao sistema de justiça, um exemplo de derrocada social. Então, quando os policiais colocam a caveira do Justiceiro em seus carros, ou membros do exército usam estampas com a caveira do Justiceiro, eles estão se alinhando com um inimigo do sistema. Estão abraçando a mentalidade de um fora da lei. Quer você ache as ações do Justiceiro justificadas ou não, quer você admire o seu código de ética ou não, ele é um criminoso. A polícia não deveria estar abraçando um criminoso como o seu símbolo.

O Justiceiro nas HQs.

Agora, o quadrinista se manifesta de novo. Em consequência ao assassinato de George Floyd em 25 de maio passado, percebendo que muitos policiais estão usando a caveira do Justiceiro na repressão aos protestos de negros pela morte de Floyd e em meio ao movimento Black Lives Matters, Conway escreveu no Twitter:

Estou procurando por jovens artistas negros de quadrinhos que gostariam de participar do levantamento de fundos de um pequeno projeto para o BLM [Black Lives Matters] para criticar o uso da caveira do Justiceiro pela opressão fora da lei da polícia. Respondam e sigam.

A morte de George Floyd gerou comoção no mundo inteiro e diversos veículos de comunicação emitiram comunicados oficiais criticando a morte e apoiando a diversidade e o movimento negro, como a própria Marvel Studios, a Netflix (nos EUA e no Brasil), a Academia de Hollywood (que entrega o Oscar), Cartoon Network, HBO, Prime Video, Warner Bros., Paramount Pictures, Universal Pictures, e muitas outras.

Primeira aparição do Justiceiro em “Amazing Spider-Man 129”.

O Justiceiro foi criado por Gerry Conway com o visual idealizado por John Romita, estreando numa revista do Homem-Aranha, Amazing Spider-Man 129, de 1974. Na trama, Frank Castle servia como um oponente do aracnídeo e retornou em aventuras futuras. Com o passar dos anos, o Justiceiro ficou tão popular que ganhou uma revista própria no fim dos anos 1980 e foi um dos mais populares personagens da Marvel Comics na década seguinte. Recentemente, Castle foi adaptado nas séries de TV da Marvel exibidas no Netflix, aparecendo na segunda temporada do Demolidor e, depois, ganhando o próprio programa, que teve duas temporadas.

Assim como nos EUA, no Brasil, a caveira do Justiceiro é usada por policiais e militares, pregada como adesivos em viaturas e serve, ainda, como símbolo de movimentos que pregam o ódio às minorias e a violência.