Alguns dias atrás uma grande polêmica surgiu sobre Penny Lane, a rua do subúrbio de Liverpool que inspirou os Beatles a criarem a famosa canção homônima. O movimento Black Lives Matters denunciou que a rua teria sido batizada em homenagem a um mercador de escravos e alguém chegou a pichar a placa da rua com a inscrição “racista”. Mas agora, um grupo de historiadores da cidade afirma que a rua não homenageia um escravista.

Segundo a Rolling Stone, o historiador local Richard McDonald e um grupo de outros acadêmicos que estudam a origem dos nomes das ruas de Liverpool há mais de dez anos, afirmaram que Penny Lane tem outra origem que não a de homenagear James Penny, um famoso mercador de escravos.

James Penny foi um dos grandes mercadores de escravos, que capturavam africanos e os vendiam como escravos para as colônias da América no século XVIII. Como principal porto da Inglaterra do período, Liverpool era um dos principais pontos do negócio. Mas na época em que Penny viveu (ele morreu em 1799), o que chamamos hoje de Penny Lane era uma via rural sem nome. Segundo McDonald, a primeira menção a Penny Lane em um mapa data de 1840, com o nome de Pennies Lane (no plural).

O historiador questiona que a rua pudesse fazer menção ao mercador de escravos, pois a hipótese é que a rua ganhou esse nome por causa de um pedágio que lá existia. Penny Lane pode ser traduzida como “Viela das Moedas”, embora não há registro histórico. “Por que alguém iria registrar o nome de uma viela do interior [300 anos atrás]?”, questiona.

Disse McDonald à RS:

Penny Lane era, naquele tempo, uma pequena e campestre via rural. Então, isso sempre me pegou. Seria muito fora de propósito que aquela via no meio do interior pudesse ser nomeada em homenagem a alguém do mesmo modo que as prestigiosas ruas do centro da cidade.

Ainda hoje, Penny Lane é relativamente distante do centro de Liverpool, estando no subúrbio de Woolton, onde o futuro membro dos Beatles, John Lennon, cresceu.

Com a crescente questão sobre a via na mídia, o Museu Internacional da Escravidão, que é sediado em Liverpool, publicou uma nota oficial, assinada pela Diretora do Museu, Jane Dugdale, esclarecendo que Penny Lane não tem relação com a escravidão. A questão ganhou corpo porque a rua aparecia em uma lista de lugares batizados em relação à escravidão na amostra do próprio museu.

Porém, o Museu reconheceu na nota do dia 19 de junho de que não há referência histórica que justifique a vinculação. Diz a nota:

Depois de conversarmos com historiadores da escravidão em Liverpool, Laurence Westgaph, Tony Tibbles e nosso Mantenedor Emérito da História da Escravidão (e também ex-diretor do Museu Marítimo de Merseyside [que também fica em Liverpool, em vista da importância histórica do porto da cidade]), o historiador e blogueiro Glen Huntley, nós concluímos que a pesquisa analítica disponível para nós demonstra que não há evidência histórica que ligue Penny Lane a James Penny. Estamos, ao mesmo tempo, estendendo nossa revisão e organizando um projeto participativo para renovar nosso display [expositor] interativo.

A Rolling Stone também conversou com o historiador David Bedford, especialista em Beatles e que fez uma ampla pesquisa sobre os lugares de Liverpool relacionados à banda:

Estou feliz de ouvir que o Museu Internacional da Escravidão revisou sua pesquisa histórica que já tinham e vem se movimentando e confirmado o que já vínhamos dizendo, que não há evidências históricas que conectem James Penny com Penny Lane. Isto é um alívio para os fãs dos Beatles e a indústria de turismo local, o que também significa que o Museu da Escravidão pode continuar com seu excelente trabalho de educar, informar e nos ajudar a aprender com a história.

Penny Lane é uma importante rua nos subúrbios de Liverpool e faz a ligação entre uma área mais campal e um “mini centro”, no qual se localizam lojas, bancos, uma barbearia e, principalmente, uma rotatória que funcionava como terminal de ônibus. Assim, que vivia na área – como era o caso dos quatro membros dos Beatles, quando crianças e adolescentes – tinham na via como um elemento muito importante de suas vidas. John Lennon viveu bem próximo da avenida e ele, Paul McCartney e George Harrison costumavam pegar o ônibus na sua rotatória para ir ao centro estudar.

Capa do compacto Penny Lane/ Strawberry fields forever, de 1967.

Paul McCartney e John Lennon compuseram a canção Penny Lane em homenagem à via e seu entorno, numa linguagem surrealista e a gravaram nas sessões do álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, embora ela tenha sido lançada antes, em um compacto com Strawberry Fields forever (sobre outra localidade de Liverpool) em fevereiro de 1967, fazendo sucesso e chegando ao 1º lugar das paradas dos EUA.