O CEO do Spotify deu uma entrevista e sua declaração causou a fúria dos roqueiros. Falando ao Music Ally (via Ultimate Classic Rock), Daniel Ek disse que os músicos têm que produzir mais rápido, no que vários roqueiros, como David Crosby, Mike Mills (do REM), Sebastian Bach e Dee Snider responderam com comentários furiosos nas redes sociais.

Ao site, Daniel Ek disse:

Alguns artistas que costumava ir muito bem no passado, talvez não o faça neste horizonte de futuro. Você não pode gravar músicas a cada três ou quatro anos e achar que será o suficiente.

A reação nas redes foi imediata. Seguindo a ordem organizada pelo UCR, tivemos:

Enquanto você (o ouvinte) se beneficia e aproveita o Spotify, é parte do que está matando a onda vindoura dos artistas e criadores. A quantidade de artistas “ricos demais” para não sofrer com as perdas está na casa dos 0,0001%. A solução do Daniel EK para nós é escrever e gravar mais? Ele que se foda! (Dee Snider, do Twister Sisters).

Quando esse cara lançar um álbum de sua autoria eu irei ouvir o que ele tem a dizer sobre os meus álbuns. (/Sebastian Bach, do Skid Row).

Música + produto e deve ser gerada com regularidade, diz bilionário Daniel Ek. Vá se fuder! (Mike Mills, do REM).

Você é um merdinha mesquinho e infame, Daniel Ek (David Crosby, do Crsoby, Stills, Nash & Youg, em resposta ao comentário de Mills).

A fúria dos roqueiros está baseada na parte do comentário sobre a produção musical necessitar ser mais rápida em dias como os de hoje e se somam à crescente insatisfação da parte artística sobre plataformas de Streaming como o Spotify pagarem muito pouco aos seus artistas.

O REM, com Mike Mills à esquerda.

O UCR toca no assunto e diz que a plataforma costuma pagar US$ 0,00437 por cada execução de canção, ou seja, o artista ganha apenas 4 milésimos de centavo por cada vez que você escuta uma de suas músicas. Essa taxa é muitas vezes inferior àquela que os artistas ganhavam nos tempos das grandes gravadoras, ainda mais no auge do mercado, entre os anos 1970 e 80 e a era do músicos multimilionários.

Mas de fato são duas discussões diferentes aqui.

Em primeiro lugar, é doloroso admitir, Daniel Ek está certo. E isso não faz dele uma boa pessoa. Inclusive, pelo que iremos discutir no ponto seguinte. Mas vamos insistir neste um pouco…

David Crosby.

Ele está certo no sentido de que o mercado musical mudou. Mudou completamente. Talvez tenha mudado da forma mais radical desde que foi criado, segundo as conformidades mais recentes, lá pelo fim da primeira metade do século XX.

Roqueiros como David Crosby – que conheceu a fama como membro do The Byrds, que chegou ao primeiro luigar das paradas dos EUA em 1965, e depois, ainda conheceu um sucesso duas vezes maior como parte do supergrupo Crosby, Stills, Nash & Young – viveu o apogeu dessa indústria fonográfica que teve o rock como ponta de lança.

The Byrds, com Crosby no centro.

A despeito da maravilhosa música que a geração de Crosby produziu, esses músicos viveram uma das realidades mais exageradas que a humanidade pôde perceber nos tempos recentes, que foi o rock star.

O Led Zeppelin e seu avião: símbolo da era das grandes turnês e dos rock stars.

O rock star tinha aviões e iates particulares; acumulava residências nos principais centros econômicos e culturais do mundo (Londres, Nova York, Los Angeles, Mônaco, Riviera Francesa, Ibiza…); gastava em roupas e instrumentos musicais como se não houvesse amanhã; sustentavam uma rede de traficantes de drogas e prostitutas sem igual na história da humanidade; tomavam banho em piscinas de champanhe; gastavam como se não houvesse amanhã.

Os rock stars uniam o hedonismo das estrelas de Hollywood (hoje não mais tão ricas assim, também) com a grana dos bilionários da tecnologia, como o próprio Daniel Ek ou seus “amigos” como Steve Jobs, Bill Gates, Mark Zuckerberg, Elon Musk e mais alguns.

Crosby, Young e Stills nos concertos de 1974: em estádios pela primeira vez.

Tal fortuna foi possível porque havia um monstro gigante por trás disso tudo, que eram as gravadoras musicais, que alimentavam cifras ainda maiores, sustentavam seus artistas e comandavam um negócio sem igual, com lucros exorbitantes e vendagens de discos que chegavam fácil às 10 milhões de unidades por cada álbum de um grande artista lançado. Havia patrocínios, jabá, bajuladores, aproveitadores e muito mais para construir um jet set que se beneficiava de um mundo no qual o dinheiro era praticamente infinito.

Mas isso acabou. E, você, fã, você, ouvinte – como aponta acertadamente Dee Snider – é o culpado!

Álbum A Night a the Opera, do Queen, de 1975.

Sim, porque você prefere ouvir os artistas “sem pagar” do que comprar seus discos, cada vez mais caros (e raros). É uma conta básica: digamos que você goste muito de música e escute bastante, e ouça pelo Spotify; você tem à sua disposição um catálogo infinito de bandas, artistas, discos e músicas; e você escuta tudo isso pagando uma assinatura que mal passa dos R$ 20 mensais. Agora, imagine se você precisasse comprar os discos (ou os singles) de cada música que você escuta no Spotify? Quanto você gastaria por mês?

Essa diferença é o que gera a mudança do mercado.

Hoje, você tem o acesso quase infinito a tudo. Aquele artista obscuro, que você só tinha ouvido falar, que era impossível de ouvir porque o disco não havia sido lançado no Brasil e ninguém que você conhece era endinheirado o suficiente para mandar importar: agora, você pode escutar quantas vezes quiser em alguns cliques.

A formação com Mick Taylor nos anos 1970: Watts, Taylor, Jagger, Richards e Wyman.

Mas isso tem um preço. Um preço barato. O Spotify paga uma micharia aos artistas. Dez, vinte, cem vezes MENOS do que as gravadoras pagavam no passado.

A consequência é clara: os artistas não podem mais sobreviver profissionalmente de suas gravações. É simples: se sua música foi ouvida por 50 milhões de pessoas no Spotify, você vai ganhar pouco mais de 200 mil dólares. É um bom dinheiro, sim. Mas você não vai ficar milionário com isso. Nem de longe.

Quantos artistas podem atingir essa marca? Não muitos.

  • Provavelmente, a banda de rock mais popular do mundo hoje é a Imagine Dragons, que soma 34 milhões de ouvintes mensais. Sua canção mais ouvida é Believer, com 1,4 bilhões de audições.
  • O Queen, sempre tão querido, tem 33 milhões de ouvintes mensais e Bohemian rhapsody foi escutada 1,2 bilhões de vezes.
  • Os Beatles têm 23 milhões de audições/ mês e Here comes the sun teve no total 501 milhões de execuções.
  • Os Rolling Stones têm 20 milhões/ mês e Paint it black teve 450 milhões de audições.
  • O Pink Floyd tem 13 milhões/ mês e Wish you were here foi escutada 360 milhões de vezes.
  • O REM tem 10 milhões ouvintes/mês e Losing my religion foi escutada 500 milhões de vezes.
  • O Crosby, Stills, Nash & Young tem quase 3 milhões/ mês e Our house foi ouvida quase 66 milhões de vezes.

Então, os roqueiros hoje ganham muito menos do que antes com suas gravações.

Claro, seria justo que os artistas sejam pagos mais do que os 4 milésimos de centavos de dólar; mas por outro lado, imaginar que eles voltarão aos tempos de fartura do passado é pura fantasia.

E isso põe um sério problema. Já comentamos a questão aqui no HQRock até recentemente, inclusive, a partir de uma entrevista do mesmo David Crosby, se queixando de que o cancelamento dos shows por causa da pandemia de Covid-19 estaria arriscando sua vida financeira ao ponto dele ter que vender a própria casa.

Isso é triste e injusto.

Mas a situação do músico independente é muito pior!

Os Rolling Stones tocam Come Together dos Beatles.

Vamos ser duros: Mick Jagger pode vender suas casas na França, no Caribe, em LA ou Londres e juntar uma grana para sobreviver nesses tempos sombrios.

Um artista como Crosby, que está afastado dos holofotes e do sucesso de massa já há décadas não tem a mesma sorte. Para ele, sem a renda dos discos, que não são mais suficientes para sustentar um alto padrão de vida, os shows se tornam sua renda principal. E, claro, isso não é moleza: um artista como ele, com mais de 70 anos de idade, precisa de uma agenda cheia de concertos ao longo do ano, começando em março até a semana do Natal, praticamente sem intervalos, para poder sobreviver.

O artista advindo de mercados menores, como o brasileiro, na qual nunca houve tal fartura, e que precisava dos discos para sobreviver, está completamente perdido. E sem shows na pandemia, então, é o fim.

E o músico independente, que já não ganhava nada em discos e rala muito para conseguir algo com shows, agora, está sem saída. Sem jeito.

Então, passamos ao outro ponto.

Daniel Ek disse que o artista precisa lançar mais material e não esperar 3 ou 4 anos.

Porque essa era a lógica do mercado de discos. Vejamos…

As turnês têm – no caso de artistas de sucesso ou estabelecidos – os discos como ponta pés, certo?

Nos anos 1960, artistas como Beatles, Rolling Stones ou The Byrds, lançavam dois álbuns por ano, porque suas turnês eram curtas. Afinal, só cobriam os Estados Unidos e a Europa central. Quando o avanço da tecnologia aumentou a possibilidade de barateamento dos concertos, e os músicos puderam ir para cidades de médio porte que tinham grande estrutura para concertos, as turnês se tornaram mais longas e os lançamentos de discos começaram a alargar em termos temporais.

Os Beatles em 1966 lançaram um único disco, porque, como banda de maior sucesso do mundo, fizeram uma grande turnê mundial que os levou aos EUA, Europa, Ásia e Oceania, tocando em lugares “distantes”, como Japão e Filipinas. No caso dos EUA, não se ia mais somente nas grandes capitais, mas praticamente cada estado tinha pelo menos uma grande arena que recebesse esse tipo de concerto.

O Cream psicodélico em 1967.

Como resultado, já no fim daquela década, artistas como Jimi Hendrix, Cream (banda de Eric Clapton) e o The Byrds podiam passar o ano inteiro rodando só pelo interior dos Estados Unidos.

Isso levou à era das grandes turnês, iniciada nos anos 1970, quando os artistas de primeira grandeza – gente como Rolling Stones, Led Zeppelin, Pink Floyd, Queen etc. – podiam lotar estádios em qualquer liugar daquele circuito EUA-Europa-Ásia-Oceania – e a partir da década seguinte, começaram a incluir a América Latina no roteiro.

Led Zeppelin.

Com mais lugares para visitarem e fazer shows, era preciso, claro, mais tempo entre um disco e outro. É uma matemática simples. Se você lança um disco e precisa promover em todos esses lugares – o mundo todo – não dá para fazer isso num ano só. Precisa de mais tempo.

Então, os Rolling Stones – que lançaram dois álbuns em 1965 – já lançavam discos só de dois em dois anos nos anos 1970; e começou a crescer o intervalo para três, quatro anos na outra década.

Nos anos 2010, pré-pandemia, o circuito de shows era tão intenso, que as grandes bandas do cenário mundial começaram a fazer pernas na turnê. Ou seja, lançavam um disco e estabeleciam a primeira perna da turnê: no começo do ano vão ao hemisfério sul (onde é verão), entre maio e junho vão aos EUA (o período mais “quente” de shows); de julho a agosto faziam o circuito de grandes festivais na Europa; entre setembro e dezembro, mais datas soltas, que podiam ser tanto nos EUA, quanto na Europa e hemisfério sul (de novo). No ano seguinte, vinha a segunda perna, quando repetiam o mesmo circuito de novo. Se a banda tivesse com muito sucesso e enchendo os estádios, era capaz de fazer até uma terceira perna!

Claro, com isso, demorava três ou quatro anos para lançar um novo álbum para promover de novo. E gravar um disco não é algo simples: precisa compor as músicas, criar arranjos, ensaiar, ir ao estúdio, trabalhar com um produtor, criar novos arranjos, gravar – que por si só pode levar três, quatro meses, mesmo com uma banda bem ensaiada e que saiba aonde quer ir -, mixar, masterizar, e organizar o lançamento, com sequências de singles, aparições na TV e tal.

Enfim, tudo isso para explicar que era assim que funcionava.

Mas o streaming está moldando um novo tipo de ouvinte.

O ouvinte médio de hoje não escuta mais álbuns. Ele prefere playlists, que pode moldar ao seu bel prazer. Como as coletâneas de antes. Como as fitas K7 que se gravava em casa. Mas com uma amplitude muito maior.

Esse ouvinte ouve as canções em modo randômico de uma playlist com centenas de canções e dias de duração.

O formato de álbum ao qual o mercado ainda funciona, simplesmente não atinge esse público.

De fato, pelo comportamento do público, é provável que o reino do streaming irá promover um novo tipo de produção musical: em vez de álbuns de 13 faixas; talvez funcionasse melhor um formato menor (como o EP, com 4 ou 6 faixas); e é possível que, num futuro próximo, as bandas tenham que se focar no lançamento de singles.

E num lançamento consecutivo: um single a cada três meses para que o público atual, tão disperso, tão alheio, tão cheio de informação, consiga “chegar” ao artista. Isso porque o lançamento gera “buzz” (barulho), atenção da mídia. O ouvinte vai lá, ouve, adiciona às favoritas, talvez, com sorte, até coloque em uma playlist… E esquece. Dali há três meses, outra faixa, outra atenção, outro sucesso.

É um formato opressor para o artista. É parecido com o mercado do início dos anos 1960.

Mas parece que é para aí que o mercado caminha.

Os artistas, em especial esses aqui citados, mais relacionados a um outro momento, não estão felizes e querem continuar no formato ao qual estão acostumados.

Não podemos culpá-los por isso. Fazer música não é como vender tapioca.

Mas o vendedor de tapioca precisa dar o seu melhor para produzir várias tapiocas por dia e vendê-las todos os dias para conseguir sobreviver.

O músico precisa de mais tempo.

Mas o mercado não vai dar mais tempo para ele.