Um dos gigantes do cinema saiu de cena: Sir Sean Connery, o maior de todos a interpretar o agente 007, James Bond, morreu hoje de manhã. Mas não somente: o escocês teve uma grandíssima carreira que o fez um dos maiores de seu tempo e, por um tempo, o mais bem pago (e apreciado) ator de Hollywood.

Para muitos, Goldfinger é o melhor filme de Bond.

Sean Connery foi o primeiro ator a interpretar James Bond no cinema, estreando em 007 Contra o Satânico Dr. No, em 1962, e retornando para uma série de clássicos, como Moscou Contra 007 (1963), 007 Contra Goldfinger (1964), 007 Contra a Chantagem Atômica (1965) e Com 007 Só Se Vive Duas Vezes (1967), quando decidiu deixar a franquia. Após um filme com outro ator no qual não foi bem sucedido, a EON Productions pagou um salário milionário (o maior de seu tempo) para que Connery regressasse como Bond uma última vez, com 007 – Os Diamantes São Eternos (1971). Mas num golpe irônico, Connery ainda viveria Bond em um filme apócrifo à franquia oficial, em 007 – Nunca Mais Outra Vez (1983).

Sua personificação de Bond era carregada de charme irresistível, poder de sedução, um humor irônico tipicamente britânico, nervos de aço e, ao mesmo tempo, crível na brutalidade, frieza e habilidade necessárias a um agente secreto à serviço de sua Majestade com permissão para matar. Tudo isso somado às qualidade imortais de alguns desses filmes (em especial os três primeiros) fizeram de Connery praticamente uma unanimidade entre os fãs e críticos como o melhor 007 de todos os tempos.

Mas o que é melhor é que – ao contrário de outros personificadores de Bond – a carreira cinematográfica de Sean Connery nem de longe se restringiu a 007, realizando papeis marcantes em uma longa cinegrafia antes, durante e depois de sua passagem na franquia, como Another Time, Another Place (1958), O Mais Longo dos Dias (1962), A Colina dos Homens Perdidos (1965), Assassinato no Expresso Oriente (1974), O Homem que Queria Ser Rei (1975), Os Bandidos do Tempo (1981), O Nome da Rosa (1986), Os Intocáveis (1987), Indiana Jones e a Última Cruzada (1989), Caçada ao Outubro Vermelho (1990), Highlander II (1991), A Rocha (1996), Encontrando Forrester (2000) e A Liga Extraordinária (2003).

Vale à pena conhecer sua biografia e vamos fazer a partir do Obituário da BBC News

Nascido Thomas Sean Connery em Fontainbridge, em Edimburgo, na Escócia, em 25 de agosto de 1930, veio de uma família operária. Seu pai era um trabalhador de fábrica católico emigrado da Irlanda e sua mãe era uma empregada doméstica protestante de origem galesa, da ilha de Skye. Tommy (como era chamado por sua família) viveu em um cenário de pobreza na infância, abandonou a escola aos 13 anos e começou a trabalhar ainda criança, como entregador de leite, e depois, mais crescido como pedreiro. Aos 18 anos foi convocado para servir na Marinha Real do Reino Unido e lá ficou por três anos, até ser dispensado em consequência a uma úlcera.

Eram tempos duros e Connery era um homem duro também. Certa vez, uma gangue de seis homens tentou roubar seu casaco em Edimburgo e o futuro 007 liquidou o sexteto com as mãos livres. Exatamente como James Bond faria.

Ele trabalhou como motorista de caminhão, salva-vidas e ingressou (sem querer) no meio artístico como modelo vivo para pinturas e esculturas. Connery chegou a este trabalho porque mantinha o corpo em plena forma com fisiculturismo herdado dos tempos de marinha. Ficou famosa a declaração do artista Richard Demarco, que fez uma pintura usando Connery como modelo quando ainda era um estudante de artes, que descreveu o futuro ator como “bonito demais para palavras, um verdadeiro Adonis”.

Connery começou a trabalhar em um teatro e se encantou com a arte da atuação, mas também era um grande jogador de futebol, ao ponto que foi convidado a jogar no Manchester United por um salário de 25 Libras semanais, o que era muito dinheiro na época. Mas avaliou que a carreira como jogador era muito curta e preferiu seguir ao teatro, iniciando sua carreira como ator.

Em 1953, Connery foi a Londres competir pelo Mister Universo e descobriu que estavam recrutando artistas para o coro na peça musical South Pacific, que conseguiu passar. Depois, foi promovido para o papel do Tenente Buzz Adams. Praticamente sem instrução formal, Connery decidiu se autoeducar e mergulhou no estudo de autores como Ibsen, Shakespeare e Bernard Shaw, além de aulas de elocução. Sua estreia no cinema, como a maioria dos atores (informação, aliás, que os atores adoram omitir de suas biografias) não foi nada glamorosa: um papel de extra sem ser creditado em Lilacs in the Spring, de 1954, mas pouco depois, começou a ter alguns papeis mais importantes, como num episódio da série de TV da BBC, Dixon of Dock Green.

Em Bloody Money: elogios da crítica.

Seu primeiro papel como protagonista veio em 1957, no filme para a TV (na BBC) Blood Money, que era uma refilmagem do americano Requiem for a Heavyweight, que tinha sido estrelado por Jack Palace. A ideia da BBC era que o próprio Palace refizesse seu papel de um boxeador em decadência, mas o ator se recusou a viajar para Londres, então, diz a BBC News, a esposa do diretor sugeriu que usasse Sean Connery em seu lugar, dizendo: “as mulheres vão gostar dele”. Elas gostaram mesmo, mas a crítica também, e Connery começou a se tornar um ator conhecido no Reino Unido.

Com Lana Turner em Another Time, Another Place, em 1958.

O protagonismo no cinema veio no ano seguinte, 1958, estrelando ao lado de Lana Turner Another Time, Another Place. Rumores de um romance entre o duo começaram a correr, o que levou ao namorado de Turner, o mafioso Johnny Stompanato, a irradiar enfurecido nos sets de filmagem armado de revólver. Mas Connery trouxe à baila de novo o marinheiro que tinha dentro de si e, de mãos nuas, desarmou o rapaz e lhe deu uma surra.

E então, veio 007. O escritor Ian Fleming também era um ex-marinheiro, mas diferente do Connery operário, vinha de um background mais refinado e tinha sido Comandante, e realmente foi um agente secreto à serviço de sua Majestade durante a II Guerra Mundial, antes de virar um famoso jornalista. Fleming começou a escrever romances de espionagem nas férias e lançou o primeiro livro de 007 em 1953, Cassino Royale, que foi um grande sucesso editorial. A sucessão de sequências de sucesso, uma por ano, levaram os estúdios a se interessarem em adaptar o amante de Martini batido, não mexido ao cinema.

Estreando como James Bond em Dr. No.

A EON Productions de Cubby Broccoli e Harry Saltzman adquiriu os direitos e começou a busca por um ator para o papel, mirando inicialmente em astros americanos de Hollywood, como Richard Burton, Cary Grant e Rex Harrison. Entre os britânicos, Lord Lucan e Peter Snow foram considerados. Com seu porte atlético e bom currículo, Connery entrou no páreo por sugestão do diretor Terence Young, e a esposa de Broccoli, Dana, fez campanha para que ele fosse o escolhido. O escritor Ian Fleming, tendo sonhado com o americano James Steawart para o papel, não gostou da escolha e disse a célebre frase: “estou procurando um Comandante, não um dublê parrudo”. Havia outro pequeno detalhe: já atacado pela calvice aos 32 anos, Connery precisava usar uma discreta peruca para dar ares mais joviais a Bond.

Criador e criatura: Sean Connery e Ian Fleming nos sets de Dr. No, em 1962.

Mas ao ver as primeiras filmagens de teste de Connery, Fleming mudou de ideia: o charme magnético e a ironia do ator o capturaram. Young complementou o “aprendizado” de Connery levando-o a frequentar cassinos e restaurantes caros para que o ator mimetizasse os trejeitos finos de alta classe exigidos ao papel, e Connery se deu muito bem nisso. Lançado em 1962, 007 Contra o Satânico Dr. No foi um enorme sucesso e as plateias foram cativadas por sua interpretação, embora os críticos nem tanto, que achavam que Connery ainda transparecia seu background da classe trabalhadora, sem entender que esse caráter rude dava mais virilidade, frieza e brutalidade a James Bond. Fleming, inclusive, incorporou elementos escoceses nas origens de Bond em seus últimos livros (o autor morreu em 1964).

Em Só Se Vive Duas Vezes.

Connery viveu anos de estrelato e sex symbol, mas começou a ficar cansado do papel e não queria ficar estereotipado, além de ter problemas com Broccoli. Nas filmagens de A Chantagem Atômica (1965), inclusive, sua vida ficou em risco ao gravar uma cena rodeado de tubarões em um tanque de acrílico e um dos peixes romper a proteção e atacá-lo, mais uma vez, obrigando Connery a usar os punhos na vida real. O ator já fez Só Se Vive Duas Vezes (1967) ligado no piloto automático, sem querer estar ali e não renovou o contrato, apesar dos apelos.

Connery conseguiu estrelar Marmie, Confissões de uma Ladra (1964 – de Alfred Hitchcock), A Colina dos Homens Perdidos (1965), Sublime Loucura (1966) e Ver-Te-Ei no Inferno (1970), mas sua carreira realmente sofreu um baque, tão marcado que estava pelo personagem de Fleming. Por sua vez, 007 não se deu bem sem o escocês: A Serviço Secreto de Sua Majestade (1969) é de fato um filme incrível, mas falha justamente em seu protagonista, com o australiano George Lazenby fazendo um Bond sem graça e sem charme. A crítica odiou e o filme não foi bem nas bilheterias.

Preocupado, Broccoli foi atrás de Connery para ele que ele voltasse pelo menos uma vez ao papel, enquanto ganhariam tempo de selecionar um bom substituto, e diante de várias recusas, lhe foi oferecido o pagamento de US$ 1,25 milhões, então, o maior salário já pago a um ator por um filme. Connery aceitou e usou a fortuna para criar o Scottish International Education Trust, organização para auxiliar a educação de artistas escoceses.

O vilão Emilio Largo faz a tradicional sala à James Bond.

Connery se despediu (oficialmente) de James Bond em Os Diamantes São Eternos (1971) em grande estilo – embora infelizmente, o arco com o vilão Blofeld ficou inacabado – mas sua carreira não seguiu um bom momento. Ainda muito marcado pelo papel, precisou se reinventar para seguir adiante: assumiu a calvice e deixou a barba ou bigode crescerem para ajudar a lhe desvencilhar à imagem jovial e polida de 007.

Como o famoso detetive Poirot de Agatha Christie em Assassinato no Expresso Oriente.

Deu certo no início, conseguindo destaque em filmes como a ficção científica Zardof (1973), a adaptação do livro de Agatha Christie, Assassinato no Expresso Oriente (1974) e a fábula sombria O Homem que Queria Ser Rei (1975), mas logo depois, os papeis perderam expressão, e Connery ficou relegado às participações especiais, ainda que pelo menos uma delas marcaria a história, com Bandidos do Tempo (1981) de Terry Gilliam (de Brazil, o Filme e Os 12 Macacos).

Ao lado do grande amigo Michael Kaine em O Homem que Queria Ser Rei.

Tal situação deve ter ajudado quando foi convidado pelo escritor Kevin McClory para um filme não-oficial de 007. O fato é que, ainda nos anos 1950, McClory foi convidado por Ian Fleming a desenvolver um roteiro para o cinema adaptando James Bond à tela grande a partir de uma premissa sua. McClory o fez, mas como Fleming não conseguiu vender o filme, decidiu lançá-lo como livro, tendo McClory como coautor. Mas depois, o escritor processou Fleming, alegando que era o criador de alguns elementos usados nos livros seguintes, inclusive, a organização secreta SPECTRE. Chegou-se a um acordo judicial que permitiu que o livro da dupla, A Chantagem Atômica, fosse adaptado na franquia de 007, em 1965.

Como Agamenon em Bandidos do Tempo.

Porém, o processo judicial continuou e McClory ganhou o caso no fim dos anos 1970 e decidiu levar sua versão da história ao cinema, conseguindo apoio da Warner Bros. e contratando o diretor Irving Kershner (de Star Wars – O Império Contra-Ataca). E quem melhor para interpretar essa versão alternativa de James Bond do que Connery? A negociação foi feita e Connery aceitou retornar por um salário de US$ 3 milhões! Mais aprovação de roteiro, de elenco e porcentagem da bilheteria.

Nomeado a partir de uma piada em cima da frase que Connery havia dito a Broccoli anos antes, 007 – Nunca Mais Outra Vez (1983) foi lançado com sucesso de público e de crítica. O roteiro usou a idade de Connery como um elemento da história – ele tinha 52 anos na época das filmagens – e, apesar de voltar a usar a peruca, suas suíças foram deixadas grisalhas para reforçar a passagem do tempo. Foi um movimento curioso, pois Connery ainda era 3 anos mais jovem do que o Bond oficial da época, Roger Moore, cujo filme foi lançado na mesma época, 007 Contra Octopussy, que, por sinal, foi melhor nas bilheterias do que a aventura apócrifa de McClory. Mas dentro do contexto dos filmes de ação dos anos 1980, Nunca Mais Outra Vez é um bom produto.

O Nome da Rosa.

Mas o jogo virou para Connery em plenos anos 1980. Tudo começou com uma participação especial como um mestre guerreiro escocês em Highlander (1986), filme que terminou fazendo bastante sucesso, empurrado pela trilha sonora da banda Queen. Uma aventura despretensiosa, ainda chamou bastante a atenção e recolocou Connery – em sua versão calva e de barba – no mapa de Hollywood. No mesmo ano, ele protagonizou O Nome da Rosa, adaptação do romance histórico de Umberto Eco, papel que lhe foi muito elogiado e lhe rendeu o BAFTA de Melhor Ator.

Em Os Intocáveis.

A consagração total veio logo em seguida, com o papel do irlandês Malone em Os Intocáveis (1987), que foi muito elogiado e lhe rendeu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.

Como pai de Indiana Jones.

Outro ponto certeiro foi ter feito o pai do herói da dupla George Lucas e Steven Spielberg em Indiana Jones e a Última Cruzada (1989), embora Connery só fosse apenas 6 anos mais velho do que o protagonista Harrison Ford, que tinha ares mais joviais.

Em 1990, Connery apareceu como um comandante russo em Caçada ao Outubro Vermelho, primeiro dos filmes a adaptar o herói dos livros de Tom Clancy, Jack Ryan, vivido por Alec Baldwin. Mas é Connery quem rouba a cena em uma de suas interpretações mais marcantes, que rendeu outra indicação ao BAFTA, embora não tenha ganho.

Entre o fim dos anos 1980 e os meados dos 90, Connery se firmou como o mais bem pago ator de Hollywood e uma presença disputada nos filmes, o que lhe rendeu não somente protagonistas, mas também, uma série de participações especiais célebres, como o rei da Inglaterra em Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões (1991), estrelado por Kevin Costner no auge de sua carreira.

Seguiram filmes menos marcantes em seguida, como O Curandeiro da Selva (1992), Justa Causa (1995), A Rocha (1996), A Armadilha (1999) e o bonito e sensível Encontrando Forrester (2000), sobre um escritor ermitão que descobre um improvável jovem gênio.

No início dos anos 2000, após fazer 70 anos, Connery estava meio cansado da lógica comercial de Hollywood e começou a se afastar lentamente dos holofotes, o que rendeu duas famosas recusas a papeis famosos: o mago Gandalf de O Senhor dos Anéis (2002) e o Arquiteto de Matrix Reload (2003).

Sean Connery February 1995

Seu último papel completo foi em A Liga Extraordinária, filme baseado na HQ de Alan Moore (de Watchmen, V de Vingança e A Piada Mortal) na qual uma série de célebres personagens britânicos da literatura do século XIX se reúnem em uma aventura fantástica, na qual Connery vive uma versão idosa de Alan Quartermain, o arqueólogo aventureiro que serviu de inspiração para George Lucas criar seu Indiana Jones. Infelizmente, o filme foi mal realizado e se produziu uma versão genérica e sem graça da história, sendo um final indigno para uma carreira gloriosa. Na verdade, Connery ainda fez uma dublagem para Sir Billy the Vet (2006) e se aposentou definitivamente.

Além da carreira artística, Connery foi um ferrenho defensor da autonomia de sua Escócia natal e foi uma voz ativa da campanha que resultou no país ganhar um Parlamento próprio, ainda que submetido ao comando da Rainha da Inglaterra. O ator acreditava que veria a Escócia como um país independente ainda em vida. Ele também criou um fundo de apoio aos artistas escoceses. Apesar de sua militância separatista, o conjunto de sua obra era grandioso demais para ser ignorado, e apesar da premiação ter sido postergada por muitos anos, Connery foi ordenado Cavaleiro de Sua Majestade em 2000 e passou a ostentar o título de Sir.

Segundo sua família, o ator já estava doente há algum tempo e morreu enquanto dormia em sua casa nas Bahamas. Ele tinha 90 anos.