Eis que 3 anos e 4 meses depois, aqui estamos, de novo, fazendo uma resenha para Liga da Justiça, mas desta vez, em sua versão Liga da Justiça de Zack Snyder. Após a versão truncada de 2017 e da campanha para que o filme ganhasse a sua versão do diretor, finalmente, a SnyderCut, como foi chamada nas redes, chegou ao público. E como ela é? Leia nossa resenha livre de spoilers do HQRock.

Na verdade, há um único spoiler, portanto, precisamos que nos perdoem por isso, mas é algo que não podemos deixar de mencionar para podermos analisar o filme como um todo.

Então, começamos pelo bendito spoiler logo: Liga da Justiça de Zack Snyder é em essência o mesmo filme lançado nos cinemas em 2017. A mesma trama. Mas não o mesmo tom.

A este ponto, todos já conhecem suficientemente bem a longa e complexa trajetória que levou ao lançamento da versão dirigida e não finalizada por Joss Whedon em 2017, e como ela foi reinventada até chegar ao SnyderCut que saiu pela HBO Max, o streaming da WarnerMedia – mas que está disponível no Brasil nos pay per view da vida. Não sabe? Então, leia este pequeno Dossiê do HQRock. Não iremos mais tratar desse contexto aqui. Então, vamos direto ao filme em si.

Ops… o uniforme não é mais azul…

A nova versão de Liga da Justiça é, antes de tudo, uma versão ampliada e mais séria do mesmo filme de 2017, mas é bem mais longo. E melhor. Muito melhor. Quanto a isso não deve haver nenhuma dúvida: a versão de Snyder é mesmo superior à dos cinemas. A história é melhor contada, os personagens são melhor desenvolvidos.

As cenas de ação são boas, mas de fato, este não é o diferencial de Liga da Justiça; mas sim, a profundidade que a trama desenvolve ao poder explorar seus personagens em detalhes. E claro, foi preciso 242 minutos para fazer isso!

Na maioria das resenhas que estão aparecendo na internet, há uma certa queixa da duração do filme. Também se fala que ele é arrastado e lento, demorando a decolar. Mas neste ponto discordamos. Totalmente!

Bom, é preciso dizer que cresci assistindo filmes de cinema de verdade: O Poderoso Chefão, 2001 – Uma Odisseia no Espaço, Apocalipse Now, Assim caminha a humanidade… Ou até o Hamlet de Kenneth Branagh. Quem gosta de cinema mesmo, não se importa com longa duração se o propósito é contar uma boa história. É isso que o novo Liga faz: gasta metade de seu tempo construindo a trama, a ameaça, os personagens e as ligações (perdoem) entre eles. .

Se você quer um filme mais escapista, cheio de ação e desenvolvimento rápido, ora, é só pular a SnyderCut e ir direto para a versão de Joss Whedon de 2017. Isso já está lá. Pronto. É o mesmo filme, as mesmas cenas, a mesma trama… só que mutilado, cortado, com mais piadinhas, uma ou outra amarração diferente e um monte de porrada. Aliás até a ação é basicamente a mesma, já que Whedon não teve tempo de fazer grandes cenas de ação cheias de efeitos especiais, então, usou o material que já existia e apenas os remendou de um jeito diferente. E mais curto. E menos sangrento.

Mas Liga da Justiça de Zack Snyder não tem pressa nenhuma em desenvolver seus personagens e criar a ambientação da trama. E claro, isso vai causar estranhamento naqueles que querem uma partida de videogame frenética que dure só 2h de gozo traduzido em brutalidade. Mas quem gosta de histórias, vai curtir esse longuíssimo “prólogo” no qual vemos cada um dos 5 principais membros da Liga sendo envolvido pela trama e chegando uns aos outros, lidando com o luto da morte do Superman, enquanto devagar, as forças de Apokolips, representadas por uma versão mais assustadora do Lobo da Estepe, vão armando o circo para sua estreia.

Liga é dividido em 6 capítulos e um epílogo, e claramente o 3º ato se dá nos capítulos 5 e 6, com a grande preparação para a batalha final e ela propriamente dita.

Mas a distribuição do tempo não é igual e apesar de vermos algumas cenas de ação ao longo dos primeiros episódios – incluindo uma versão expandida da Batalha da Antiguidade, quando Amazonas, Atlantes, Humanos, Deuses Gregos e um Lanterna Verde se unem contra a invasão de Apokolips – de fato, as coisas só começam a esquentar no capítulo 4, quando já temos mais de 2 horas de filme. E isso é bom.

A maior duração dá mais tempo para Ciborgue aparecer como um tipo de protagonista verdadeiro – ainda que sempre eclipsado na expectativa do público pelos outros personagens mais populares – e ambientamos um pouco melhor o Aquaman (cujo conflito com Atlântida fica mais nítido) e, em menor medida, o Flash. Lois Lane ganha um pouquinho mais de tempo também para vermos sua dor e seu luto.

Com isso, vemos a Liga sendo construída lentamente e sua interação em mais cenas com diálogos, que tornam o filme melhor.

Quando parte para a ação, na verdade, Liga da Justiça perde um pouco de força, porque a maior parte dela já foi vista anteriormente. As cenas são mais longas, é verdade, e há uma ou outra surpresinha nos embates, mas no geral, são as mesmas. O Lobo da Estepe tem um propósito desta vez e uma motivação oculta, o que lhe faz bem. Talvez seu visual mais ameaçador faça bem ao grande público, mas ao leitor dos quadrinhos, ainda é frustrante tê-lo como maior ameaça, em vez de seu chefe, Darkseid. Na versão dos cinemas, Darkseid era apenas mencionado, mas agora, aparece e tem falas, mas é, no fundo, uma ameaça que nunca se concretiza. Há somente o consolo de vê-lo em ação uma vez. Outro membro da corte, Desaad, também aparece, fazendo as vezes de arauto, e isso é quase um pequeno aceno aos fãs das HQs.

Ninguém pode negar que Joss Whedon havia se esforçado para dar mais brilho ao Superman na versão dos cinemas, ainda que seu esforço tenha sido jogado no lixo pela pressa em lançar o filme e entregar uma versão borrada e deformada do homem de aço com a boca torta ou inchada (num dos episódios mais infames da história do cinema recente); mas o novo Liga torna ainda mais claro o poder e a importância do último filho de Krypton. Ainda que ele tenha proporcionalmente bem menos tempo de tela, já que o filme aumentou de tamanho antes do seu retorno.

Se há um único momento em que as 4 horas de duração do filme pesam, é no epílogo, que honestamente, apenas se apressa em entregar easter eggs ou vender a ideia de uma sequência que parece improvável, senão impossível, de acontecer.

Se havia um ponto positivo na versão de Whedon, era que ele entregou alguns momentos íntimos interessantes – como a conversa cúmplice com um tom de sensualidade entre Bruce Wayne e Diana Price no que parece ser uma antecâmara da Batcaverna – e a versão de Snyder é menos delicada nesse sentido, embora também sugira uma química entre os dois heróis. A humanidade de Snyder é mais amarga e vemos, portanto, os sentimentos expressos de forma densa e sofrida em momentos de sofrimento ou tensão, mas há pelo menos mais o que fazer para cada um deles. Também há humor – ao contrário do que se poderia pensar – e sem dúvidas, o humor de Snyder cai muito melhor aos personagens do que aquele inventado por Whedon na versão dos cinemas (como por exemplo, na monólogo do Aquaman abordo da nave).

O humor que ainda descola um pouco do tom é o do Flash e chega a ser uma pena que Snyder o tenha escolhido como alívio cômico. Ainda que ele não seja tão bobo quanto na versão de Whedon, alguns dos maus momentos da outra versão permanecem nesta. Que pena, pois Ezra Miller se sai muito melhor nas cenas dramáticas e seu semblante sério entrega um Barry Allen até assustador em alguns quadros, o que, infelizmente, não é desenvolvido nem por faças nem por situações.

Portanto, Liga da Justiça não é só acertos. Além de uma ameaça que não parece digna dos heróis que reúne – um mal que seria similar em Os Vingadores caso não houvesse a presença genial e carismática de Loki – pesa no filme os excesso dos maneirismos de Snyder, como cenas em câmera lenta e a escuridão excessiva em cenas carregadas de efeitos visuais que tornam até difícil entender algumas cenas, sem enxergarmos o que está se movendo em tela. A trama também parece depender demais de uma sequência que não vem, expressa em elementos da trama (que não podemos entregar, pois seriam spoilers) e no tão alardeado Pesadelo, que já havia sido mostrado em parte em Batman vs Superman – A Origem da Justiça, na qual Batman sonha com um vislumbre do que pode ser o futuro da Terra dominada por Darkseid e com um Superman do mal. Mas nem lá nem aqui esse cenário é explicado – nós sabemos por entrevistas na qual o diretor explica sua visão, mas nunca nos filmes em si – e fica uma coisa descabida na história. Afinal, de que adianta construir um Superman heroico – e temos que admitir, Snyder é menos eficaz nisso do que Whedon – e inspirador, se o que prevalece na mente do público, e do Batman, é um Superman malvado? Servo de Darkseid?

Outra questão é que o filme força situações por meio de buracos de roteiro. Do tipo: se as Caixas Maternas são tão importantes, porque os malvadões de Apokolips demoram 5 mil anos para voltar e pegá-las? E o pior, (acho que isso não é um spoiler de verdade, né?) o roteiro ainda dá a entender que Darkseid e os seus meio que esqueceram em que planeta deixaram as armas mais poderosas do Universo. Como assim? Há ainda outro elemento relacionado a isso – que não iremos falar para não aprofundar em spoilers, mas que os fãs de HQs podem intuir da mitologia de Darkseid – que ainda reforça essa amnésia tão conveniente ao filme.

É importante frisar que Liga da Justiça de Zack Snyder não parece ser mais sombrio do que Batman vs Superman. Nem é tão denso e carregado como o outro. É mais triste num sentido de luto que se transforma em raiva, com todos carrancudos e sofrendo – mesmo o Flash que pelo menos tenta usar (mal) o humor como escape – mas isso não torna o filme mais sombrio de verdade. Talvez mais tenso.

Por fim, vale comentar que há alguns efeitos especiais muito ruins, especialmente no início do filme, que demonstram que os US$ 70 milhões para finalizar a obra parece não ter sido o suficiente. Ou não houve tempo. Mas é possível perceber aqui e ali alguns efeitos que não ficaram realmente convincentes, em especial em cenas que sabemos que foram feitas em 2020 no intuito para finalizar o longa e das quais não podemos falar. Também vale dizer da última cena do filme, em que vemos um Ben Affleck visivelmente mais magro do que no restante do longa, em outra cena gravada em 2020. Claro é um mero detalhe desimportante, mas não podíamos deixar de mencionar.

Então, podemos concluir que, longe de ser perfeito, o novo Liga da Justiça é um filme muito melhor do que a versão de 2017, e se beneficia de sua longa duração no sentido de desenvolver com calma e devagar a parte mais interessante de sua trama, o que irá agradar aqueles que querem ver uma história mais do que apenas porrada de um lado para o outro. (Repetimos, para isso há a versão de 2017).