No dia 18 de março de 2021 estreará Zack Snyder’s Justice League, a tão esperada versão do diretor de Liga da Justiça, depois de ter sido expulso do filme original que foi refeito quando chegou aos cinemas originalmente em 2017. Três anos e quatro meses depois, após uma intensa campanha dos fãs para o lançamento da Snyder’s Cut como era chamada, finalmente, o material chegará aos cinemas. Ops… aos serviços de streaming. Ops… ao HBO Max. Fala-se em lançamento mundial do filme, mas isso ainda não está claro como se processará. O Brasil, por exemplo, não tem o HBO Max ainda. O longa sairá nos cinemas? Ou na Netflix? Ou apenas em serviços de compra ou aluguel? Ou nada? Saberemos em breve…

Mas mais importante, por hora, é entender: o que será o Liga da Justiça de Zack Snyder? Neste pequeno Dossiê iremos explorar o caminho tortuoso que o filme percorreu para chegar ao público e o que podemos esperar de sua trama. Portanto, vista seu uniforme, reúna um time poderoso para enfrentar uma invasão alienígena e cai na porrada com o texto que vem a seguir.

Claro, aproveitamos a oportunidade para reconstruir a história do DCU e como se chegou ao ponto de uma versão de Zack Snyder não lançada nos cinemas.

A Era Heroica

Houve um tempo em que filmes de super-heróis eram um subgênero desvalorizado não apenas no cinema, mas até dentro dos gêneros de ação, aventura ou ficção científica! Desde os seriados matinais exibidos nos cinemas nos anos 1940 – quando ainda não havia TV – esses filmes eram produções baratas e sem grande investimento. E sem grande respeitabilidade. Mesmo com o surgimento da TV propriamente dita, essa regra não mudou, ainda que ao longo das décadas algumas produções tenham feito sucesso e marcado o público – notoriamente As Aventuras de Superman (1952-1958), Batman (1966-1968) e Mulher-Maravilha (1975-1978), todos da DC Comics, e O Incrível Hulk (1977-1980), da Marvel Comics – nenhuma delas foi, em seu tempo, realmente respeitada pela crítica “séria”, ainda que o olhar retrospectivo seja mais complacente.

Ainda que uma mudança nesse panorama só tenha acontecido a partir do ano 2000 e por iniciativa da Marvel, que apresentou ao público superproduções com esmero estético, bons roteiros, bons atores e um ar artístico mais elaborado; essa leva do século XXI se baseava fundamentalmente no trabalho pioneiro de dois antecessores da DC Comics que serviram que exceção à negatividade e faróis de esperança de que um filme de super-heróis poderia ser “cinema sério” algum dia: Superman – O Filme (1978) e Batman – O Filme (1989). Infelizmente, os dois casos – amados pelo público e pela crítica (e até premiados) – não conseguiram consolidar um padrão nem em si mesmos, já que suas sequências desceram a ladeira da respeitabilidade e do sucesso de maneira praticamente imediata. O Caso do homem-morcego, inclusive, foi tão vexatório nos anos 1990, que chegou-se por um tempo a se pensar que um grande estúdio jamais investiria em uma superprodução de filme de herói de novo.

Mas aí veio a Marvel. O pano de fundo era até miserável em certo sentido – a Marvel passara por seríssimos problemas financeiros nos anos 1990 e vendera os direitos cinematográficos de seus personagens a preço de banana para gerar capital rápido – mas o resultado é que um grupo de produtores e cineastas que cresceram lendo HQs buscaram inspiração nos casos de Superman e Batman e a esperança de fazer aquela qualidade se tornar perene. Inclusive, em franquias! E deu certo!!!! X-Men – O Filme (2000), dirigido por Bryan Singer deu o pontapé inicial, com trama simples e eficaz, subtexto erudito e atores sheakespereanos e foi bem sucedido com público e crítica; e foi logo seguido pelo ainda melhor Homem-Aranha (2002) de Sam Raimi, com drama maduro, diversão inteligente e bons jovens atores.

Coringa versus Batman em um filme excepcional.

A pioneira DC Comics reagiu com o bom e velho homem-morcego, mirando-se no exemplo da concorrência: Batman Begins (2005) de Christopher Nolan pegou o bom momento e o levou à máxima potência! Não só era um filme bem feito, mas era inteligente, maduro, artístico, sério… Uma obra de arte verdadeira. E era apenas o ensaio: Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008) deixou o mundo boquiaberto, com suas interpretações viscerais, um roteiro de altíssimo nível, e um filme fabuloso, mais na linha de O Poderoso Chefão do que de Homem-Aranha.

E isso aconteceu justamente ao mesmo tempo em que após todo aquele sucesso com X-Men e Homem-Aranha (os outros personagens – Demolidor, Hulk, Motoqueiro Fantasma, Quarteto Fantástico, Elektra… nenhum deles se saiu bem em crítica ou público), a Marvel decidiu abrir um novo capítulo e eles próprios produzirem seus filmes em vez de comissionar a outros estúdios. E para isso, ajuntaram uma série de personagens espalhados por estúdios diferentes para reuni-los em um plano ambicioso e nunca visto nas telas: Homem de Ferro, Hulk, Capitão América, Thor… ganhariam filmes individuais antes de se unirem todos eles em um único filme, Os Vingadores, criando o Marvel Cinematographic Universe (MCU) que funcionava como uma rede de histórias interligadas, organizadas em uma cronologia comum, tal qual as HQs faziam desde os anos 1960. Foi um sucesso tão grande que a poderosíssima The Walt Disney Company comprou a Marvel em 2009 ainda antes de o plano estar concretizado de todo!

Os super-heróis – e não os vilões – estavam prestes a dominar o mundo.

Universos Compartilhados

Tendo a mesma origem que a Marvel nos quadrinhos e gozando da vantagem que a concorrência não tinha de não somente pertencer a um estúdio de cinema, mas de ter os direitos cinematográficos de todos os personagens sob o mesmo teto, imediatamente se pressionou a DC Comics a fazer o mesmo: criar o DCU.

Mas era mais difícil do que aparentava…

A Marvel dividia seus personagens no cinema entre Fox, Sony e Universal, e o Marvel Studios só pôde autoproduzir os personagens que sobraram, apenas nomes pouco conhecidos – Capitão América, Thor, Homem de Ferro, Viúva Negra, Gavião Arqueiro… – coisa que ninguém queria. A Paramount Pictures tinha os direitos de alguns desses personagens, mas vendo que filmes como Demolidor e Motoqueiro Fantasma naufragaram, concordaram em reverter os direitos à Marvel em troca de apenas distribuir os filmes, um empreendimento de pouco risco. Por sorte do destino, eram justamente esses personagens que formavam os Vingadores, um time de heróis bastante importante nas HQs, mas praticamente desconhecido do grande público nos anos 2000. O grande público conhecia a Liga da Justiça da DC, porque por décadas vira desenhos animados como Super-Amigos e Liga da Justiça – A Série Animada, além dos filmes individuais no cinema. Tinha até brinquedos com eles! Nada disso existia para os Vingadores da Marvel. Sorte deles!

Christopher Reeve: o Superman para toda uma geração.

A história da DC era outra: a editora de quadrinhos fora comprada pela Warner ainda em 1969!!!! Animada com a série de TV do Batman, o estúdio pensou que poderia ser uma usina criadora de programas baratos e rentáveis bem ao estilo da época. Novas séries de Superman, Superboy, Mulher-Maravilha e até da Liga da Justiça chegaram a ser planejadas, mas só a princesa amazona saiu do papel. A Warner ainda pensou em fazer um filme de verdade do Superman – porque seus poderes eram caros demais para a TV – e se começou um projeto que visava ter Clint Eastwood no papel – o ator jamais aceitou – e também não foi para frente até alguns anos mais tarde se chegar ao Superman de Richard Donner, em 1978, com o clássico Christopher Reeve no papel. Mas como já mostramos, o próprio estúdio não acreditou no potencial que tinha nas mãos e conseguiu destruir as promissoras franquias que iniciou em 1978 e 1989.

Quando se iniciou a movimentação do Marvel Studios, entre 2005 e 2007 Homem de Ferro, o primeiro filme, saiu em 2008 – a Warner começou a cogitar fazer o mesmo: construir um universo integrado. Mas eles não eram a Marvel. O contexto era muito diferente…

Tony Stark: drama profundo.

Vejamos: a trajetória do Marvel Studios foi exitosa por dois motivos. Primeiro, foi inversa ao tradicional… O estúdio decidiu produzir os próprios filmes (via financiamentos malabarísticos), contratar terceiros para distribuir e manter o controle criativo. E em segundo lugar, toda essa produção era centralizada: o presidente Kevin Feige supervisionava pessoalmente cada projeto, participando da escolha de diretores e tendo a palavra final no roteiro e na edição. Tudo para que fosse possível criar uma lógica de ligação entre filmes diferentes feitos por equipes diferentes, com ideias e desejos diferentes. O controle funcionou muito bem em termos narrativos e a coesão do MCU é de impressionar. Mas tem um lado negativo: ausência de liberdade criativa. Os cineastas, acostumados a serem senhores de seus filmes agora tinham que se submeter à mão pesada de Feige e sua aprovação. Nem todo mundo lidou bem com isso e muitos diretores saíram insatisfeitos em trabalharem no Marvel Studios por isso. Só os bem adaptados ficaram.

Claro diretores sempre tiveram que prestar contas com os estúdios e suas imposições ou limites, mas geralmente, essas coisas estavam na ordem das grandes coisas – conceitos, tramas, temas, tipos de cena, classificação etária, tom (humor ou sombrio), essas coisas. Na Marvel não: Feige interferia em tudo, onde a trama começa, onde termina, que personagens podem ser usados, que desenvolvimentos podem ter. “Ah, queria fazer tal coisa…”; “não pode porque no próximo filme vai acontecer isso e isso e ele tem que fazer isso para ficar assim”; “ah, personagem tal tem que aparecer aqui para que façamos uma ponte para o filme seguinte do outro herói, tá?”.

Deu certo no fim das contas, mas não é o normal em Hollywood, onde o diretor de cinema de alto escalão tem uma boa dose de autonomia. Não completa, mas uma boa dose. É mais comum deixarem o diretor fazer seu filme sem grandes interferências além daquelas basilares (definidas no projeto) e as discussões maiores serem deixadas para a edição, quando se interfere na abordagem, no tom e nessas coisas. Na Marvel a interferência era antes, durante e depois.

Então, a Warner nunca se adaptou bem ao modelo e não soube imprimir um universo compartilhado ao mesmo tempo em que dava liberdade aos diretores, pois essas duas coisas se mostraram impossíveis na prática. Mas estamos adiantando o fim da história. Voltemos…

Brandon Routh como o Superman.

Tentativas Frustradas

Em 2006, a Warner estava disposta a criar um DCU, mas Christopher Nolan era taxativo de que não iria participar de nenhum universo partilhado. Sua ideia era contar a história fechada do Batman e partir para outros desafios. E ele o fez. E como seus filmes estavam batendo o 1 bilhão de dólares de arrecadação, ninguém quis mexer nisso. Enquanto isso, um novo filme do homem de aço estava estreando, Superman – O Retorno (2006), dirigido pelo mesmo Bryan Singer dos X-Men e calcado na nostalgia do ótimo filme de Donner, servindo como um tipo de sequência. Singer também não queria saber de universo compartilhado. Unir os dois heróis era impossível no momento.

A Warner seguiu em frente com seus planos. A primeira ideia – tola ou genial depende de quem vê – foi criar um filme da Liga da Justiça. Sim, isso mesmo! Como o Superman e Batman já estavam em uso em outras franquias, a Warner decidiu fazer algo inesperado: outras versões do Superman e Batman, com outros atores, estrelariam Liga da Justiça – Mortal, e dariam origem ao DCU de modo inverso à Marvel, começando pelo time para depois chegar aos heróis individuais. O roteiro foi escrito por Kieran Mulroney e Michelle Mulroney, a direção seria de George Miller (de Mad Max) e as gravações seriam na Austrália, porque era mais barato. A Warner queria um lançamento em 2008, mas este era o ano de lançamento de O Cavaleiro das Trevas e Nolan reclamou. A data foi mudada para 2009, os atores foram contratados, os figurinos foram feitos, os cenários começaram a ser construídos, as locações foram escolhidas…

Então, dois problemas: a Greve dos Roteiristas de 2008 impediu que o texto ficasse finalizado em bom prazo; e em 2009 a Austrália – em resposta à Crise econômica mundial – mudou a política de incentivos fiscais. Com O Cavaleiro das Trevas fazendo um sucesso absurdo – foi o primeiro filme de super-heróis a atingir a marca de US$ 1 bilhão nas bilheterias e ganhando o Oscar de Melhor Ator Coadjuvange para Heath Leager pelo papel do Coringa, elegido o melhor filme de super-heróis de todos os tempos – o estúdio começou a ficar receoso de manchar essa franquia tão bem sucedida caso Mortal não desse certo. Ou o Batman de Armie Hammer fosse muito inferior ao de Christian Bale. (Puxa, eles não pensaram nisso antes, né?). Com os problemas se acumulando e o risco eminente, a Warner cancelou o filme literalmente faltando uma semana para o início das filmagens.

Batman ia de vento e popa, mas Superman – O Retorno não foi bem nas bilheterias e a crítica não gostou. Era um filme bonito, com alguma poesia na parte inicial, mas não tinha boa trama, uma ameaça sem graça e faltava heroísmo. Baseado apenas na reputação de Bryan Singer, o estúdio ainda cogitou fazer uma sequência na esperança de que fosse um arrasa-quarteirão tardio, mas as ideias de Singer não empolgaram o estúdio e foi tudo cancelado.

Naqueles tempos, o diretor Joss Whedon – famoso pela série de TV Buffy, a Caça Vampiros, estava trabalhando em um roteiro para Mulher-Maravilha, que iria dirigir, porém, o estornado do caldo do homem de aço, pesou contra seu projeto que também foi engavetado. (A Warner deve ter tomado algumas reflexões quando, pouco tempo depois, Whedon comandou o megassucesso Os Vingadores, da Marvel, em 2012).

Ryan Reynolds como o Lanterna Verde.

Partiram para outro herói. Naqueles fins de anos 2000, o herói da DC Comics com maior prestígio e melhores vendas nos quadrinhos era – por incrível que pareça hoje – o Lanterna Verde, graças à aclamada fase escrita por Geoff Johns e desenhada pelo brasileiro Ivan Reis. Johns vinha da indústria do cinema, ele trabalharam como assistente de Richard Donner, e aplicava uma narrativa cinematográfica em suas histórias. A Warner pensou que era um bom começo para o sonhado DCU. Afinal, a Marvel começou com o Homem de Ferro, um herói que ninguém fora do mundo das HQs conhecia.

Lanterna Verde estreou em 2011, com a estrela em ascensão Ryan Reynolds no papel principal, outros nomes fortes no elenco, e até Geoff Johns na equipe de roteiristas, já que ele fora promovido a Diretor Criativo da DC Entertainment – a empresa holding da DC – justamente para ser a mente criativa por trás das adaptações daqueles personagens às outras mídias. Mas deu tudo errado: foi um fiasco completo. Não foi só ruim de bilheteria: foi um dos piores fracassos da história quando se leva em consideração o cruzamento orçamento e arrecadação. O público detestou e a crítica mais ainda. Executivos do alto escalão já começaram a pensar… será que só o Batman é capaz de emplacar? Os ânimos esfriaram e alguns planos foram desfeitos.

A sorte é que outros planos já estavam em andamento e não foram freados. E dentre eles estava Zack Snyder e o Superman!

Superman vai voltar.

Recomeço do DCU

Lanterna Verde foi pensado como a primeira pedra do DCU. É por isso que a personagem Amanda Waller, interpretada por Angela Bassett, diz que Abi-Sur fora o primeiro extraterrestre já encontrado a despeito das teorias conspiratórias, o que sinaliza a partida do Universo DC rumo a uma “nova fronteira” (para usar o título de uma famosa HQ sobre o tema) que teria no Superman um segundo passo. É claro que àquela altura, Berry Meyer (CEO da Warner Bros.) e Geoff Johns já tinham um plano de trazer uma nova encarnação do Batman (após o fim da saga de Nolan) e da Mulher-Maravilha para , enfim, reunir a Liga da Justiça num filme.

Com o Lanterna Verde fora da jogada, toda esperança do DCU recaiu sobre o Superman.

Watchmen: obra-prima de Zack Snyder.

E damos um passo atrás: em 2009, Zack Snyder – que vinha do sucesso de Os 300 de Esparta para a Warner (a adaptação da HQ de Frank Miller) – lançou Watchmen, a adaptação da HQ de Alan Moore e Dave Gibbons que é considerada a melhor história em quadrinhos de todos os tempos. É uma obra densa, sombria e violenta, então, não se esperava um sucesso maciço entre o grande público, mas a crítica amou, o público também e a arrecadação foi excelente. Isso credenciou Snyder para assumir a nova encarnação do Superman, com o desafio de se desvencilhar da tentativa anterior de Bryan Singer, que não fazia sequer cinco anos que tinha estreado.

Superman.

A proposta de Snyder era fazer um Superman diferente: mais realista, mais pé no chão, menos bonzinho, mais sombrio. A exigência do estúdio era ter muita ação. pois julgavam que a falta de cenas de luta e destruição era um dos problemas que não colou O Retorno ao público jovem. E num feito incrível, o roteirista David S. Goyer, que trabalhara nos filmes do Batman, até conseguiu que Christopher Nolan cedesse seu nome como produtor executivo. Nolan atou, na verdade, como um conselheiro, e suas principais contribuições foram manter uma pegada realista que permitisse cogitar a existência do Superman na realidade; e o uso de efeitos especiais práticos sempre que possível, para que o longa tivesse parte do peso artístico de Superman – O Filme, e fosse menos o Homem-Aranha digital de Sam Raimi.

Para o papel foi escalado o britânico Henry Cavill – primeiro não americano a interpretar o Superman – um ator incrível, que fez um papel excepcional, ainda que poderia ter sido melhor utilizado como se verá a seguir.

Superman – O Homem de Aço chegou a ser planejado para lançamento em 2012, mas Nolan pediu que deixassem este ano apenas para Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, o fim de sua trilogia, então, o longa do último filho de Krypton estreou em 2013 com a missão (discreta) de lançar o DCU. Visto apenas em si mesmo, o filme não assume isso, apenas exibe muito rápido e discretamente um satélite com o nome Wayne Enterprises, sinalizando o Batman. Mas bastava para os fãs.

Zod pronto para atacar.

O Homem de Aço não foi um estouro absoluto, mas arrecadou na casa dos US$ 600 milhões. Era menos do que a Warner queria, mas os executivos se contentaram com o caráter sério que as críticas classificaram o filme e a fé no potencial de Snyder e do DCU. “Não é um mau começo” se pensou quando se comparava aos 500 milhões do Homem de Ferro que dera início à Era do Marvel Studios e do MCU. A diferença – que ninguém queria assumir – era que ninguém sabia quem era Tony Stark, mas todo mundo conhecia o Superman.

Os fãs gostaram do retrato hercúleo do homem de aço, em particular no uso de seus poderes na catártica batalha final em que ele e o General Zod destroem metade da cidade de Metrópolis, mostrando o real impacto que esses seres poderosos poderiam causar em uma cidade do mundo verdadeiro. Mas por outro lado, uma facção ruidosa de fãs (e críticos) se incomodou com o fato de que uma batalha daquela resultaria na morte de umas 300 mil pessoas (trezentas vezes mais do que o Atentado ao World Trade Center); e para piorar, no fim, na falta de perspectiva para parar Zod, Kal-El opta por matar seu oponente. Foi um gesto corajoso. Os quadrinhos já tinham explorado esse tipo de situação em histórias clássicas, como aquela de John Byrne, de 1988, com temática e desfecho muito similar. Mas o cinema nunca nem chegara perto. Foi um choque e gerou algum mal estar.

Kevin Tsujihara: CEO da Warner Bros.

Contudo, os planos seguiram adiante. Naquela altura, a Warner tinha um novo CEO, com Kevin Tsujihara, que estava totalmente de acordo com o DCU e a possibilidade de replicar o sucesso comercial e artístico da Marvel. Tsujihara comissionou a produção do filme da Liga da Justiça e contratou Will Beall para o roteiro. E paralelamente, Snyder foi contratado para a sequência de O Homem de Aço.

Mas Snyder não tinha interesse em seguir explorando o Superman, então, trouxe consigo um roteirista de maior renome, Chris Terrio (que tinha ganho o Oscar de roteiro por Argo, o filme dirigido por Ben Affleck), numa proposta ainda mais ousada: unir o homem de aço e o Batman nos cinemas. E mais, com uma ideia de trazer um nome de grande peso para ocupar o lugar de Bruce Wayne. O Cavaleiro das Trevas Ressurge mostrava um Batman mais veterano, com Christian Bale usando cabelos grisalhos até. E funcionou. Snyder queria seguir esse caminho: um homem-morcego veterano para bater no homem aço e ainda aproveitando para trazer elementos da HQ The Dark Knight Returns (O Cavaleiro das Trevas, no Brasil), de Frank Miller. A Warner gostou da ideia e o roteiro de Will Beall foi arquivado: o plano agora era juntar Batman e Superman num filme e a Liga da Justiça em outro. Ambos com Snyder.

Ben Affleck como Bruce Wayne.

Trazendo Ben Affleck como Bruce Wayne, Batman vs. Superman – A Origem da Justiça capitaneava o sentimento do público e da crítica: o homem-morcego culpava o kryptoniano pelas mortes em Metrópolis e, vendo-o como uma ameaça de nível global, decide eliminá-lo. E quem mais poderia fazer isso? Afinal, ele era o Batman! Combatia os criminosos sem ser pegue pela justiça e mantendo seu segredo e posição há 20 anos! E como se não bastasse, o longa ainda introduz Diana Prince, a Mulher-Maravilha, vivida por Gal Gadot. E mais ainda: um arquivo de Lex Luthor roubado pelo Batman mostra relances rápidos de Flash (Eza Miller), Ciborgue (Ray Fisher) e Aquaman (Jason Momoa).

Os planos da Warner deram certo em parte. A empolgação em torno de Batman vs. Superman permitiu que fossem produzidos dois filmes “derivados”: Esquadrão Suicida trazia a ousada ideia de ter um grupo de vilões como protagonistas, trazendo o Coringa (Jared Leto) e a supercarismática Arlequina (Margot Robbie), com Will Smith como o Pistoleiro, e a participação especial do próprio Batman; e Mulher-Maravilha mostrava uma aventura mais leve da princesa amazona na I Guerra Mundial, trazendo também citações discretas a Bruce Wayne.

A Origem da Justiça reuniu Superman, Mulher-Maravilha e Batman.

Mas A Origem da Justiça arrecadou US$ 800 milhões e a Warner esperava bater 1 bilhão – afinal, eram Batman e Superman juntos pela primeira vez no cinema! Como errar com isso? – e as críticas negativas foram muito maiores do que as de O Homem de Aço, porque agora, o novo filme era mais explícito, mais sombrio, mais violento, mais barulhento, mais tudo. E com uma trama labiríntica que incluía até viagens no tempo (falaremos mais disso adiante), sonhos apocalípticos sem contexto, a Mulher-Maravilha, Doomsday (Apocalipse) e a trama de A Morte do Superman, a grandiosa HQ de 1992. A crítica não gostou. Achou excessivo e sem foco. E pesado demais!

Tudo isso, claro, teria consequências ao passo seguinte, a Liga da Justiça.

Zack Snyder usa a luva do Batman para trabalhar nos storyboards.

A (Primeira) Liga da Justiça de Zack Snyder

A produção de Liga da Justiça foi complicada desde o Dia 1. Apesar da recepção mista de A Origem da Justiça, a Warner decidiu seguir com os planos e manteve Snyder à frente do projeto, mas com uma condição: o tom teria que ser mais leve, o filme tinha que ser mais divertido e menos sombrio. Numa posição típica de que “confio no meu taco”, Snyder fez que aceitou e seguiu com seus planos. Mas ele não estava fazendo 300 de Esparta, estava trabalhando com a propriedade intelectual mais valiosa da Warner, já que a franquia de Harry Potter tinha se encerrado.

Snyder e o roteirista Chris Terrio criaram uma história mirabolante para 3 filmes, incluindo viagens no tempo ao estilo do que Vingadores – Ultimato usou depois. Na trama original, Darkseid invade a Terra, mata Lois Lane, e com a Equação Anti-Vida consegue dominar a mente do Superman, usando-o para dominar o planeta. Num futuro apocalíptico – aqueles dos sonhos do filme anterior – Batman consegue enviar o Flash ao passado para mudar isso e derrotar o vilão. Mas a Warner não topou. Era ousado demais. Solicitaram uma simplificação.

Então, a Parte 1 traria a invasão do Lobo da Estepe, o lacaio de Darkseid, e o grande vilão ficava guardado para a Parte 2. A Warner ainda não ficou convencida. Mandou tirar a conexão direta para a sequência e se concentrar apenas na Parte 1, apenas Liga da Justiça agora, como se a Parte 2 não existisse. Então, Snyder decidiu usar a mesma estratégia do filme anterior: filmar mais cenas de modo que pudesse usá-las como barganha para sua visão – o que gerou uma edição de 3 horas de Batman vs Superman que torna o filme melhor, sem sombra de dúvidas.

Snyder reuniu seu elenco e filmou Liga da Justiça em 2016 – o mesmo ano em que Batman vs Superman saiu – e rodou muitas mais cenas do que o roteiro previa, como parte de seu plano. Snyder queria usar o uniforme preto do Superman, tal qual se vê em O Retorno do Superman (a HQ sequência de A Morte do Superman), mas a Warner não deixou. Ainda assim, ele tinha um trunfo na manga: a coloração escura da roupa de Henry Cavill permitia que ela fosse escurecida digitalmente até ficar cinza numa pós-produção. Contava com o apoio dos fãs para isso.

Geoff Johns, ex-presidente da DC Films.

Mas a Warner já estava escaldada… Snyder não teria a liberdade que queria. Em primeiro lugar, o estúdio colocou Geoff Johns como presidente da DC Films e o comissionou ao lado do produtor Jon Berg para acompanhar as filmagens de perto e fiscalizar o trabalho de Snyder. Geoff Johns havia se notabilizado como um escritor de HQs não apenas do Lanterna Verde, mas principalmente do Superman, e entendia o personagem, e defendia uma versão mais luminosa e inspiradora do personagem, sendo portanto, contrária à visão sombria de Snyder. A tensão nos sets subiu!

Na medida em que o diretor não cedia de sua visão, se formou uma “sala de roteiristas” composta por Johns, Joss Whedon (que trabalhava para Warner na época em um filme da Batgirl), Allen Heinberg (escritor de HQs que roteirizou o filme da Mulher-Maravilha), Seth Grahame-Smith e Andrea Berloff. A missão deles era reescrever o roteiro de Terrio e aliviar o tom pesado, com uma historia mais leve e divertida. Isso obrigava Snyder a ter que refilmar algumas cenas nessa nova visão. O mal estar chegou a um ponto que, no terço final das filmagens, Joss Whedon assumiu a cadeira de segundo diretor para comandar algumas dessas cenas mais leves.

Mas no fim das contas, Snyder finalizou as filmagens em outubro de 2016 e começou a trabalhar na pós-produção. Em março de 2017, Snyder se reuniu com Tsujihara, Johns, Berg e outros para exibir sua versão prévia do filme. Todos odiaram! Foi um horror!

Joss Whedon.

A Versão de Joss Whedon

Mais tarde se noticiou que um executivo da Warner – provavelmente o próprio Tsujihara – considerou o filme inassistível. Liga da Justiça, na opinião deles, era tão confuso, pesado, denso, violento e sombrio quanto Batman vs Superman. Mas com o agravante de ter não dois, mas seis protagonistas! E não era isso o que Warner queria. Queria algo mais leve e divertido. Algo que atingisse 1 bilhão nas bilheterias! E em vista da bilheteria “baixa” de Batman vs Superman, o estúdio determinou que Liga da Justiça tinha que ter apenas 2 horas de duração. (Era uma estratégia para ter mais sessões de cinema e aumentar mais a arrecadação). Snyder queria 3 horas e meia!

Neste ponto, era uma questão de edição (cut em inglês), Snyder precisava lutar por sua ideia, mas agora, Geoff Johns e Jon Berg tinham mais poder para escolher versões mais engraçadas e leves de cenas e montar um Liga da Justiça que agradasse ao público. A tensão só cresceu, mas no dia 20 de março de 2017, Autumn Snyder, a filha do diretor, se suicidou. Todos ficaram em choque e tristes. Snyder tirou alguns dias de descanso para ficar com a família – sua esposa Deborah Snyder era também produtora do filme – mas depois voltou aos embates com a Warner. Mas agora, ele não tinha a energia de antes. A Warner já antevia que uma demissão era iminente: julgava que o risco de sujar a imagem era menor do que o resultado que o filme teria ao ser lançado.

Então, no fim de abril de 2017, Snyder jogou a toalha. O diretor nunca admitiu que foi demitido e o estúdio também nunca afirmou, então, vamos aceitar – por enquanto – que Snyder desistiu. Desligou-se do projeto. Um comunicado foi preparado para maio colocando que o motivo do afastamento era a morte da filha e que o diretor queria ficar mais tempo com a família, em vez de dizer que o estúdio não queria mais o diretor nem sua visão. Tudo foi construído para que a transição parecesse amigável.

Em vista do contexto, o nome óbvio para substituí-lo era Joss Whedon. Afinal, ele tinha dirigido e escrito os dois primeiros Vingadores, cada qual com 1 bilhão de bilheterias para chamar de seus, e tinha aquele tom leve e divertido, para a família toda, que a Warner almejava. Mas Hollywood não é uma terra sem lei. Os sindicatos simplesmente não permitem que um diretor assuma o trabalho do outro assim sem uma série de condicionantes. Whedon só poderia assumir os créditos de diretor se refilmasse 75% do material final. Mas o estúdio queria manter o lançamento em novembro daquele ano, o que era incompatível. Então, para gerar a versão que a Warner queria, seriam necessárias muitas refilmagens, mas ainda assim, sem que Whedon ganhasse o crédito de diretor. Parece que ele topou.

Existem rumores que afirmam que Whedon embarcou no projeto com a esperança de que a data de estreia fosse adiada e ele pudesse fazer sua versão de Liga da Justiça, mas isso não aconteceu.

A partir do roteiro de Terrio, das cenas de Snyder e da maior reutilização possível de material de efeitos especiais, Whedon desenhou um “novo” roteiro e comandou seis semanas de filmagens entre julho e setembro de 2017. Foi uma loucura, com um prazo superapertado, com o elenco nunca reunido, pois àquela altura cada qual já estava envolvido em outros projetos, e agora, todos já conhecem as acusações de comportamento inadequado de Whedon nos sets: Ray Fisher denunciou o diretor de comportamento abusivo e não profissional. Uma dublê de Gal Gadot demonstrou o desconforto de ser obrigada a gravar uma cena de teor meio sexual (quando o Flash cai em cima dela e toca em seus seios acidentalmente) e a própria atriz teria se recusado a gravar a cena, de modo que foi a dublê quem a fez. Fisher também teria dito que Jon Berg e Geoff Johns foram coniventes com o comportamento de Whedon.

Mas o problema mais famoso dessas refilmagens seria o bigode de Henry Cavill, um evento capaz de destruir reputações inteiras, inclusive, do próprio filme. O fato é: uma vez terminada as filmagens de Liga da Justiça, Cavill embarcou na produção de Missão Impossível – Protocolo Fantasma ao lado de Tom Cruise. Por uma “sorte”, Cruise se acidentou nas gravações e Cavill ganhou várias semanas de folga justamente quando Whedon queria gravar suas cenas. Mas havia um problema: por contrato – sim, em Hollywood eles colocam até isso em contrato – Cavill não podia raspar o bigode que ostentava para o papel do outro filme. Sim, Cavill não só pagaria uma multa enorme se raspasse, como podia ter a carreira destruída em Hollywood por ter quebrado uma regra basilar da indústria, o respeito aos contratos.

Negociações ocorreram e os produtores de Missão Impossível, inclusive, o diretor Christopher McQuarrie, estavam dispostos a liberar Cavill da exigência, desde que a Warner pagasse 5 milhões de dólares para que eles incluíssem o bigode digital no rosto do ator nas cenas que filmasse enquanto os pelos voltassem a crescer. Mas os diretores do estúdio disseram “não!”. De jeito nenhum! O contrário se mostrou bem pior: Cavill teria que gravar as cenas do Superman com seu bigode e os artistas digitais apagarem os pelos na pós-produção. O problema é que não havia tempo para pós-produção! Com as refilmagens terminando em setembro, só restavam dois meses – DOIS MESES!!!! – para a estreia do filme.

Sim, enquanto o plano original era a Warner ter 13 meses para finalizar os efeitos especiais, agora, seria apenas 2.

No produto final, o Superman aparece com a boca deformada em 80% de suas cenas e como se desgraça pouca fosse bobagem, a primeira cena do filme – que mostra o homem de aço interagindo com duas crianças que o filmam em um celular – é a pior de todas. Uma aberração. Algo amador. Algo inacreditável a uma superprodução desse tipo. Simplesmente inacreditável.

Este é um dos pontos mais obscuros da jornada. Por que a Warner não adiou o lançamento do filme e lançou Liga da Justiça em março de 2018 com tempo para terminar os efeitos especiais? Na época circularam rumores de que um dos motivos era que os produtores perderiam bônus se adiassem. Mas essa história ainda não foi resolvida.

Outro ponto importante a salientar é que a versão dos cinemas também não é a versão de Joss Whedon. Independente do comportamento abusivo do diretor, o fato é que a história que ele planejou para o filme não foi executada, pois ele precisaria de mais tempo. Até hoje não se sabe de quem é o corte final de Liga da Justiça. Talvez de Geoff Johns, mas ninguém apareceu para levar a culpa.

Esse processo não ocorreu sem custos: a relação entre Whedon e a Warner não sobreviveu a isso e o diretor se afastou imediatamente do projeto do filme da Batgirl ao qual estava envolvido, demonstrando sua insatisfação com o resultado final.

No filme que chegou aos cinemas, Bruce Wayne procura por Aquaman e Flash para sua missão intuída, mas evita a Mulher-Maravilha, com a trama sugerindo uma química sexual entre os dois. Arthur Cury recusa, mas um Barry Allen completamente inexperiente e bobinho aceita na hora. Depois que Diana Prince e Wayne conseguem conversar, Victor Stone os espia e Diana vai atrás dele, que se mostra relutante, mas depois, acaba aceitando. O grupo toma ciência das Caixas Maternas – deixadas na Terra após a Batalha da Antiguidade (uma longa sequência em flashback), na qual o Lobo da Estepe enfrentou a força combinada dos humanos, dos Atlantes, dos Deuses Gregos e até de um Lanterna Verde alienígena – que estão intrinsicamente ligadas ao Ciborgue, e enfrentam uma leva de Parademônios e o próprio Lobo da Estepe em um primeiro round.

Sentindo a responsabilidade da missão, Batman bola o plano maluco de usar a tecnologia kryptoniana e a Caixa Materna para ressuscitar o Superman, mas quando o homem de aço desperta, está fora de si, sem memória e raivoso. O grupo enfrenta Clark Kent, mas mal consegue contê-lo, até que ele vê Lois Lane, e sai voando desesperado. Esperando que possam contar com Clark depois, os heróis decidem ir até a Rússia, onde está a base do Lobo da Estepe para uma batalha final. Superman se reencontra com a mãe, Martha Kent, e Lois, na Fazenda Kent, em Smallville, se reconcilia consigo mesmo, vai à Batcaverna e encontra Alfred, que o encaminha à Rússia. O grupo ataca aos vilões e vence. A reunião da Liga da Justiça se torna pública e o público começa a pensar que se iniciou uma Era Heroica.

Quanto disso tudo é de Snyder? Não é muito claro. Mas em entrevistas, Snyder afirma que nunca assistiu à versão dos cinemas – foi recomendado por amigos a não fazê-lo – mas pessoas que trabalharam em ambas as versões lhe disseram que usaram cerca de 60 minutos de suas filmagens. Tendo em vista que Liga da Justiça tem 120 minutos, coube a Joss Whedon exatamente a outra metade. Mas tudo o que foi filmado por Snyder foi alterado digitalmente, trocando-se cenários e principalmente a paleta de cores, que foram atenuadas para tornar o filme mais colorido. É possível notar uma pegada mais séria nas cenas principais (de autoria de Snyder) e um clima mais aliviado e cheio de piadinhas nas transições entre cenas (de Whedon). E provavelmente isso é o que foi feito: se manteve a linha principal de Snyder em uma versão simplificada (afinal, 3h30 versus 2h), mas o início e o fim das cenas e os close-ups foram refilmados para inserir um clima mais ameno e as infames piadinhas que muitas vezes caem mal, especialmente aquelas feitas pelo personagem de Barry Allen, que aparece como um bobo alienado. Algumas cenas mais longas são claramente de Whedon – nunca sequências de ação, que são mais complexas e não tinham tempo de ser refeitas – como o reencontro de Clark e Lois na Fazenda e uma bonita cena íntima (mas não sexual) entre Bruce e Diana a parte do grupo. Toda a sequência envolvendo a família russa acuada pelos Parademônios também é de Whedon, assim como a corrida entre Flash e Superman no fim do filme.

O fato é que Liga da Justiça estreou em novembro de 2017. Zack Snyder continuou creditado como diretor, embora todos soubessem que não era o filme dele (regras dos sindicatos de Hollywood). Joss Whedon ganhou o crédito de roteirista, apesar de ter dirigido algo em torno de 50% da versão vista nos cinemas. E até Will Beall ganhou seu crédito de roteirista (outras das regras do sindicato), porque elementos fundamentais da história que criaram permaneceram na versão final. (Na verdade, era para evitar que ele ganhasse uma indenização, já que foi ele quem produziu o primeiro tratamento de projeto).

Mas e daí? Liga da Justiça arrecadou apenas US$ 600 milhões na bilheteria… Menos do que Superman – O Homem de Aço. Menos do que Esquadrão Suicida ou Mulher-Maravilha. Aliás foi a menor bilheteria do DCU. A crítica detestou. O público achou sem sal. Ninguém deu muita bola. Não causou sensação nem muitos comentários. Esquecível.

Mas era um filme com Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Flash e até uma versão fodástica do Aquaman… Quem liga? Fracasso total!

(No outro lado do front, a Marvel fazia os desconhecidos Guardiões da Galáxia virarem um fenômeno e campeões de bilheteria, e até o inacreditável Homem-Formiga garantia bilheterias maiores do que a de Liga da Justiça, com direito a sequência e tudo mais).

Walter Hamada.

Consequências

As consequências desse fracasso seriam devastadoras para a Warner. Kevin Tsujihara foi obrigado a promover uma grande mudança na parte cinematográfico como maneira de poupar a própria cabeça, e mudanças foram feitas: a presidente da divisão de filmes da Warner, Sue Kroll, foi afastada do cargo e substituída por Toby Emmerich, enquanto Geoff Johns também foi destituído da presidência da DC Films e substituído por Walter Hamada, que se tornou o responsável direto pelo desenvolvimento do DCU dali em diante. (Tsujihara seria afastado do cargo de CEO em 2019 em resposta a acusações de assédio sexual na esteira do #MeToo).

Mandatory Credit: Photo by Matt Baron/BEI/Shutterstock (5775459el) Toby Emmerich ‘Lights Out’ film premiere, Los Angeles, USA – 19 Jul 2016

Ben Affleck estava comprometido a fazer o filme solo The Batman, trazendo o Exterminador (Deathstroke) vivido por Joe Manganiello, que estreara na cena pós-créditos de Liga da Justiça; mas em meio ao esfriamento do DCU, Affleck teve problemas com o álcool, arcou com parte da culpa (injustamente) e alegou ter perdido o interesse no papel e no projeto. Matt Reeves foi contratado para desenvolver The Batman e optou por fazer um reboot com um homem-morcego mais jovem e Affleck anunciou oficialmente que estava deixando o papel, sendo substituído por Robert Pattinson para fazer essa nova versão mais jovem de Bruce Wayne.

O Superman de boca deformada também não fez nada bem à reputação de Henry Cavill e do DCU e qualquer projeto envolvendo uma sequência para O Homem de Aço também perdeu força. Boatos colocavam a volta do Superman em filmes como Shazam ou Adão Negro, mas isso não se concretizou. De fato havia uma cena para o Superman em Shazam, mas Cavill aparentemente não concordou com o valor e um dublê o substituiu – sem ter o rosto exibido em tela. Contudo, Cavill insistia em entrevistas que ainda iria voltar ao personagem.

Ainda assim, derivado de Liga da Justiça, Aquaman surpreendeu e atingiu o US$ 1 bilhão na bilheteria (que tanto se queria para o filme da equipe), mas o projeto do Flash nunca decolou e até hoje não foi produzido. Cogitou-se um filme do Ciborgue, mas as denúncias de Ray Fisher contra o comportamento abusivo de Joss Whedon e a conveniência de Jon Berg e Geoff Johns não deve ter facilitado seu caminho e ele está praticamente fora de qualquer DCU do futuro.

Mulher-Maravilha 1984, segundo filme da amazona, foi lançado no fim de 2020, mas em meio à pandemia, com estreia mista entre cinemas e streaming no HBO Max e teve recepção fria.

A Campanha

Desde o início, os fãs mais aguerridos de Zack Snyder começaram uma campanha chamada #releasethesnydercut que só fez crescer com o tempo. Snyder captou o movimento e começou a atiçar os fãs divulgando imagens das filmagens, artes conceituais e storyboards, o que manteve a chama acesa.

Ainda assim, as chances de Snyder poder contar sua histórias pareciam remotas demais. Em novembro de 2019, por exemplo, dois anos após o lançamento do filme de Whedon, a Warner dizia que não tinha interesse em produzir uma Snyder Cut (como apurou o The Hollywood Reporter na época). Mas o mundo é um lugar surpreendente e dois fatores pesaram positivamente para que isso acontecesse.

Primeiro, a pandemia global de Covid-19 paralisou as produções cinematográficas e de TV e deixou as marcas sem produtos no mercado. Filmes previstos para estrear em 2020 foram adiados sucessivamente e não viram a luz do dia ainda em 2021. De repente, os canais de streaming se tornaram uma plataforma de lançamento viável e o exemplo do Disney+ com seu The Mandalorian arrecadando milhões pelo mundo não passou despercebido. A Warner viu que produzir material para o streaming era a alternativa da hora para os cinemas vazios e o HBO Max deixou de ser um complemento para ser o prato principal. Mas exibir o quê de novo? A afamada Snyder Cut surgiu como uma possibilidade.

As notícias sobre a Snyder Cut e sua possibilidade de lançamento no HBO Max começaram a crescer no fim de 2019, provavelmente ao mesmo tempo em que as negociações nos bastidores já iam acontecendo. Ainda em novembro de 2019, a respeitada Forbes publicou uma extensa reportagem em que avaliava que o lançamento da versão do diretor era viável e que o filme estaria 90% pronto. Alguns dias depois, Snyder exibiu imagens de seus HDs externos comprovando que sua versão existia.

As notícias de que Liga da Justiça seria lançado no HBO Max começaram a crescer na mídia especializada e em março de 2020 foi noticiado que a Warner ofereceria US$ 10 milhões para Snyder finalizar o filme e em maio a notícia de que sua versão teria sido exibida para os novos executivos do estúdio. No dia 20 de maio de 2020, a Warner confirmou que a Snyder Cut seria lançada no HBO Max em 2021, aprovada por Robert Greenblat, o presidente do streaming.

O segundo fator foi que, em agosto de 2020, a Warner Bros. promoveu uma grande reformulação interna, a maior que realizara desde as funções com a Turner (nos anos 1990) e com AT&T. Em termos técnicos, a Warner Bros. foi substituída pela WarnerMedia, uma empresa que unificou as seções de cinema e streaming sob o mesmo teto, a partir do trabalho do novo CEO, Jason Kilar, que designou Ann Sardoff para supervisionar os dois braços do estúdio. Greenblat foi demitido.

Nesse embalo, depois ficamos sabendo, a ideia inicial era exibir Liga da Justiça inacabado, apenas para satisfazer os fãs, algo que Snyder rejeitou. Mas os 10 milhões prometidos poderia fazê-lo finalizar sua versão de modo modesto. Depois, com a pandemia e a ideia de fortalecer o HBO Max, o estúdio aumentou o financiamento para 30 milhões e Snyder disse que com um pouco mais poderia fazer o filme que realmente queria. Então, o orçamento para a finalização de sua versão fechou em 70 milhões (o orçamento inteiro de um filme como Deadpool, por exemplo!).

Como resultado, Snyder pôde até ampliar seu plano de 3h30 de filme para um total de 4h, inclusive, com novas cenas gravadas em 2020. Vamos falar sobre as cenas abaixo, e a Warner planejou inicialmente lançá-lo como uma minissérie em 4 episódios de 1h cada, mas depois, a visão do diretor de um filme de 240 minutos prevaleceu. Afinal, não é cinema, é streaming. Os fãs estão acostumados a maratonar séries, não será problema ter um longa tão longo. Curiosamente, apesar de ser um filme, Snyder oficializou que o longa é dividido em 6 capítulos 1) Não conte com isso, Batman; 2) A Era dos Heróis; 3) Mãe Amada, Filho Amado; 4) Máquina da Mudança; 5) Todos os cavalos do rei; 6) Algo mais sombrio – o que serve como pontos de paradas estratégicas aos espectadores.

Aquaman, Mulher-Maravilha e Ciborgue em imagem oficial.

Enfim, qual a diferença da versão de Zack Snyder?

Claro, essa pergunta só pode ser respondida após a estreia do filme, mas podemos fazer algumas considerações e conjecturas.

Primeira questão: Snyder finalizou sua versão de 2016 ou decidiu ir além de fazer algo novo? Esse é o ponto principal!

Porque em 2016, a Warner não permitiu que o diretor realmente criasse o que queria – aquela trama amallucada da morte de Lois Lane, Superman maligno, visita a Apokolips e e viagens no tempo. Então, podemos dizer que a primeira versão, a versão ORIGINAL de Liga da Justiça nunca foi feito, porque Snyder e Terrio não puderam contá-la desde o início. O diretor inclusive mencionou isso de modo explícito em entrevistas.

Portanto, a Liga da Justiça que Snyder filmou em 2016 já era uma simplificação do plano original e, provavelmente, estava preparado para ser um longa que, em essência – e desculpem os puristas – era o mesmo dos cinemas, apenas mais sombrio e taciturno. Mas em termos de história, basicamente o mesmo: Batman reúne os heróis para uma ameaça iminente que ele não entende, mas pressente (pelos sonhos que teve em A Origem da Justiça), então, os parademônios chegam à Terra, e com ele, Lobo da Estepe. Em vista da grande ameaça, Batman cria o plano audaz de ressuscitar o Superman, e depois de um despertar furioso e sem memória, o homem de aço se une à trupe para expulsar o vilão. E fim!

O grande Darkseid é apenas uma promessa para o futuro. E partindo do pressuposto de que não haverá um Liga da Justiça 2, será uma promessa que nunca se realiza.

Então, o que Snyder fez agora, com o “novo” filme? Está simplesmente resgatando o corte que idealizou na segunda tentativa e foi sacado fora? Ou está tentando criar um híbrido do que era a ideia original nunca filmada e o que ele filmou?

Esperamos que essa segunda!

Fazer uma Snyder Cut para a HBO Max que, tal qual aquela que Snyder filmou (pensando que faria um segundo filme depois) apenas criando expectativa em cima de uma aparição de Darkseid que nunca acontece e fica guardada para a sequência que não existirá seria muito frustrante. Os fãs ficariam completamente chateados com isso. As cenas mostradas até agora trazem Darkseid, mas dando a entender que são cenas do flashback que mostraria Uxas (o nome do vilão) invadindo a Terra no passado e outras em Apokolips reunindo seus lacaios (Lobo da Estepe, Desaad e Vovó Bondade) e não contra a Liga.

Realmente esperamos que Snyder tenha aproveitado a oportunidade para mexer na edição do filme e trocar a batalha final para um enfrentamento a Darkseid em vez do Lobo da Estepe, em vez de deixar o senhor de Apokolips prometido para uma sequência que nunca ocorrerá.

As pistas para isso esta no fato de que desde sempre Snyder falou em 3h30 para seu filme e quando da autorização no HBO Max, ele ganhou mais 30 minutos. É toda uma seção nova destinada a de fato incluir Darkseid como um personagem no filme? Talvez… Ou ponto interessante está nas tais novas cenas gravadas por Snyder em 2020. É curioso que o diretor fez bastante alarde sobre elas antes, mas quando chegou o momento, “fechou o bico” para não dar detalhes, à exceção do caso de Jared Leto, que foi trazido de volta para o papel de Coringa, justificando o desejo do diretor de reunir pelo menos uma vez Batman e Coringa nesse universo, ainda que apenas nas sequências do “sonho”. É uma forma de redimir o ator também, já que sua visão do palhaço do crime foi algo deturpada ou prejudicada pelo corte final do Esquadrão Suicida (filme que teve uma história tão conturbada quanto Liga da Justiça e sobre a qual também se existe uma campanha para uma versão do diretor David Ayer, embora mais frágil).

Ademais, os rumores apontavam que Ben Affleck e alguns outros dos heróis gravariam cenas novas, mas depois, nada foi confirmado. Joe Manganiello foi outro que também gravou cenas novas, provavelmente, também no sonho. Por outro lado, a produtora Deborah Snyder chegou a afirmar que gravou apenas uma única nova cena – implicando que seria a de Leto. Snyder disse outra vez que as cenas novas seriam apenas 4 minutos do novo filme. Será?

Por outro lado, Snyder pode estar secretamente mirando no futuro e tenha simplesmente mantido sua versão original do filme (com Darkseid apenas como uma participação especial breve), acreditando que sua Liga da Justiça fará suficiente sucesso para que a Warner o traga de volta para finalizar sua trilogia ou ao menos fazer a Parte 2.

Claro, isso não é impossível. Se Zack Snyder’s Justice League for um sucesso absoluto no streaming e causar um impacto no nível daquele de The Mandalorian do Disney+, é muito provável que a Warner mova seus pauzinhos para gerar sequências e derivados. Mesmo que não nos cinemas tradicionais, mas direto ao streaming. É um cenário possível, temos que admitir, ainda que pareça improvável a princípio.

De fato, já existem rumores há algum tempo de que a HBO Max quer produzir filmes ou séries do Batman de Ben Affleck de modo paralelo ao de Robert Pattinson nos cinemas. Em dias mais recentes, já se mencionou até que teríamos um filme com A Piada Mortal – a clássica HQ de 1987, escrita por Alan Moore (de Watchmen e V de Vingança) e desenhada por Brian Bolland, na qual vemos um ataque devastador do Coringa contra o Batman e o Comissário Gordon, resultando em Barbara Gordon (que o vilão sequer sabia ser a Batgirl) ficando paraplégica, e que foi adaptada como um bom desenho animado em longametragem há apenas alguns anos – reunindo Affleck e Leto. Seria algo impressionante se fosse verdade.

A visão épica e sombria de Snyder para Liga da Justiça, com sua densidade neurótica e ousadia destrambelhada (no bom sentido) – trazendo até uma longa sequência de “sonho” sobre um futuro apocalíptico mostrando Batman se aliando com o Coringa (e talvez o Exterminador) contra as forças de Darkseid e o Superman maligno, com a mente dominada pelo vilão – podem causar impacto nos espectadores e funcionar no ambiente do streaming mais do que nos cinemas. Claro, algumas coisas mudaram desde 2017, com os lançamentos de Vingadores – Guerra Infinita e Vingadores – Ultimato, séries como The Mandalorian e WandaVision, e até os crossovers da TV no Arrowverse, e tudo isso pode pesar a favor da Liga da Justiça de Snyder.

Ou não.

Parte do público tem dificuldade de se associar à visão sombria, densa e atormentada que o diretor dá aos heróis e, convenhamos, Batman vs Superman não é mesmo um filme para o “grande público”, quer se goste dele ou não. Um Snyder “sem freios”, como parece ser sua versão para o streaming, pode ser ainda mais radical e menos amigável ao grande público e resultar na mesma repulsa que vimos nos cinemas.

E se Liga da Justiça de Zack Snyder for apenas uma versão “estourada”, do tipo “rei do camarote” do Liga da Justiça (de Joss Whedon) – ou seja, a mesma história, e um time de heróis reunido contra um vilão inexpressivo (ainda que bem mais assustador visualmente como é o caso da “nova” versão) como o Lobo da Estepe, e com o grande Darkseid restrito só algumas participações especiais no início e no meio, mas sem lutar contra os heróis, pode terminar por gerar ainda mais desapontamento, desilusão e decepção.

Veremos…