Depois de 14 meses, adiados pelos efeitos da pandemia global de Covid-19, Viúva Negra, a primeira (e provavelmente última) aventura solo da querida Vingadora da Marvel, chegou aos cinemas. E ao streaming. O que podemos dizer do longa? Siga o Resenha do HQRock sem spoilers!

Em primeiro lugar, não podemos deixar de falar: um dos problemas de Viúva Negra (e falaremos das coisas boas também) é sua temporalidade. A Marvel perdeu ligeiramente o “bonde da história” em não ter realizado essa aventura antes. A personagem havia estrado com algum alarde como um tipo de “elemento surpresa” no longínquo Homem de Ferro 2, de 2010, e regressou de forma bombástica – no bom sentido – em Os Vingadores, em 2012, surgindo como uma das melhores e mais bem escritas personagens do longa, e dotada de algumas das melhores cenas, dentre elas, o diálogo com Loki na prisão em que o vilão é confinado na base voadora da SHIELD. E para confirmar seu status de uma das favoritas do público, a Natasha Romanoff de Scarlett Johansson regressou de maneira espetacular em Capitão América – O Soldado Invernal, de 2014, ainda um dos melhores filmes do Marvel Studios; também ganhando destaque (e um pouco de controvérsia) em Vingadores – Era de Ultron, de 2015, que tem o mérito de apresentar vislumbres impactantes de seu passado tenebroso na Sala Vermelha da União Soviética. Naquele ponto, a Viúva Negra era um dos Vingadores mais populares (o adjetivo masculino aqui é proposital, entendem?) e este era o ponto em que a ex-espiã e ex-assassina deveria ter explodido com tudo na tela grande em uma aventura própria.

Caso a Marvel tivesse tido a coragem – e essa é a expressão correta – Viúva Negra teria sido o primeiro filme de uma super-heroína na nova fase desse tipo de filmes (iniciada pelas adaptações dos personagens da Marvel na primeira década do século XXI), se excluirmos os malfadados Mulher-Gato e Elektra, que mal realizados e desentendidos pelos estúdios, produtores e (talvez até) diretores, são produções medonhas (no mau sentido). Assim, Romanoff teria a primazia que foi dada a Mulher-Maravilha da concorrente DC Comics, de 2017, fazendo a Marvel demorar ainda alguns anos até entregar Capitã Marvel, em 2018. E Natasha esperou até 2021 para ter sua “chance”. O descompasso temporal termina sendo ironizado involuntariamente com Viúva Negra localizada no passado, entre os eventos de Capitão América – Guerra Civil e Vingadores – Guerra Infinita.

Sua chegada às telonas em aventura individual termina tendo uma pequena dose de melancolia, pelo fato de todos já saberem que a personagem morre em Vingadores – Ultimato, fazendo Viúva Negra se passar “no passado”; e ainda estreando depois de WandaVision na TV.

Isso é uma pena, pois sem dúvidas é importante termos uma aventura solo da querida personagem dos Vingadores e a primeira Luluzinha no Clube do Bolinha dos heróis da Marvel, e se é fundamental aprofundar a representação feminina e feminista; teria sido ainda mais forte e importante em tempos pré-MeToo.

Dito isso, Viúva Negra é repleto de coisas interessantes a discutir. Em primeiro lugar, sendo protagonizado (e produzido) por uma atriz, escrito por uma roteirista e dirigido por uma diretora, a pegada feminina do longa pode ser sentida e isso é ótimo. A temática da mulher, ou seja, uma discussão quase sociológica de gênero, permeia toda a história com analogias muito pertinentes. A divisão sexual do trabalho, a distribuição de papeis parentais sexistas, o abuso nas relações sociais (e a exploração sexual da mulher) e a sororidade são apresentados de maneira contundente o tempo inteiro de um modo delicado sem atrapalhar a narrativa.

Falando nisso, Viúva Negra funciona como uma trama em 5 atos se considerarmos o pequeno prólogo e as cenas pós-créditos e tudo flui bem. Vemos as consequências de Natasha ter traído seus colegas da facção legalista em Guerra Civil e sendo perseguida pelo ex-General e agora Secretário Thaddeus Ross e sendo obrigada – de início contra a sua vontade – a revisitar seu passado e encarar uma série de fantasmas que evitou em seus anos de Vingadores.

O filme mantém a pegada Marvel Studios, com suas piadinhas e humor ligeiramente constrangedor em alguns momentos, e cria um ligeiro desconforto com sua trama vilanistica no terço final, que remete mais do que devia a elementos narrativos (e até visuais) já vistos em O Soldado Invernal. A batalha final leva a trama para um campo inverossímil/ fantástico que não beneficia o filme, que poderia se dar bem melhor se se mantivesse na esfera mais íntima e pseudo-realista ou de realidade exagerada como nos (bons, não nos maus) filmes de 007. Mas ao fim, o longa até se redime um pouco do 3º Ato fantasioso ao colocar a resolução da trama num cenário – vamos dizer assim – mais pé no chão (quem assistir vai entender); o que remete também a outro longa da Marvel, Capitã Marvel. Parece que o estúdio anda estudando acertos e erros do seu passado.

Além do chefão que conduz a trama dos bastidores, Viúva Negra traz um vilão físico na figura do Treinador, um pequeno vilão das HQs, surgido nas histórias dos Vingadores mesmo, mas que é uma boa escolha para uma personagem física como Natasha, e sua identidade traz um ar de mistério bem vindo à trama.

Ao longo do filme, praticamente toda a ação é conduzida pelas mulheres e os homens ocupam papeis que vão do falastrão (caso do Guardião Vermelho de David Harbour, que está bem em sua canalhice) ao abusador sem escrúpulos (caso do vilão Dreycov de Ray Winstone). Ver as mulheres se unindo para acabar com o abuso que sofrem da sociedade – representado no filme pelo uso de novas Viúvas Negras controladas mentalmente pela Sala Vermelha – criam analogias bem legais, como as meninas dando as mãos, uma imagem recorrente na trama e de forte poder simbólico.

Como personagem, a Viúva Negra ganha uma exploração bem construída que desenvolve os vislumbres que tivemos de quem é realmente Natasha Romanoff em Ultimato. Sempre durona e fria, a personagem mostrou um lado sensível na sua derradeira aventura e vemos mais disso na trama solo, enfatizando o mesmo tema: família! Viúva Negra explora o fato de Natasha ter vivenciado – ainda que sob disfarce que a condição de espião exige – uma experiência de família que, em vista dos abusos e explorações causados pela Sala Vermelha, tiveram grande impacto psicológico e emocional não apenas em Natasha, mas também na nova Yelena Belova, vivida de maneira competente por Florence Pugh, que, se não rouba a cena, pelo menos aparece como uma presença interessante, dramática e profunda dentro da história.

Muito se fala em Yelena se tornar a nova Viúva Negra do MCU – algo que ocorreu nas HQs por um tempo – e se for o caso isso é bem vindo.

Johansson e Pugh fazem suas interpretações conduzirem o filme e apesar de Viúva Negra ter ação espalhada para todos os lados, seguindo um tipo de narrativa muito similar ao filmes de James Bond, a diretora Cate Shortland soube imprimir momentos íntimos e dramáticos de verdade no meio disso tudo, de uma maneira muito competente, dando profundidade ao filme e às personagens.

Dessa forma, Viúva Negra abre a nova fase do MCU nos cinemas mostrando que na essência o Marvel Studios continua o mesmo (elementos de O Soldado Invernal e Capitã Marvel se repetem no filme, como dito), mas abre espaços nas frestas para um pouco mais de profundidade e, quem sabe, até autoria (da parte de Shortland) e isso pode ser muito bem vindo. Ainda assim, como se passa “no passado”, será realmente nos passos seguintes – Shang Chi, Eternos, Doutor Estranho e Homem-Aranha – que veremos o que realmente aguarda ao universo Marvel pós-Ultimato nos cinemas.

Black Widow é dirigido por Cate Shortland, com roteiro de Eric Pearson a partir de história de Jac Shaeffer e Ned Benson. O elenco traz: Scarlett Johansson (Natasha Romanoff/ Viúva Negra), Florence Pugh (Yelena Belova), Rachel Weisz (Melinda Vostokoff), David Harbour (Alexei Shostakov/ Guardião Vermelho), Ray Winstone (Dreykov), O.T. Fagbenle (Eric Mason), com participações de Ever Anderson (jovem Natasha), Violet McGraw (jovem Yelena), William Hurt (Secretário Ross), e Olga Kurylenko. O filme estreou nos cinemas e no streaming do Disney+ (via Premier Acess) no dia 09 de julho de 2021.

A Viúva Negra foi criada por Stan Lee, Don Rico e Don Heck e estreou na revista Tales of Suspense 52, de 1964, como oponente em uma história do Homem de Ferro, antes de migrar ao papel de heroína nas histórias dos Vingadores.