Esta semana a DC Comics quebrou a internet, como se diz, e não foi pelo anúncio de Liga da Justiça 2 (que não houve) ou pela notícia de que Henry Cavill regressa como Superman (que ainda não aconteceu), mas por um fato relacionado aos quadrinhos da editora, à fonte de onde vêm todos os personagens, histórias, mitos e adaptações. E o fato foi: o Robin se descobre bissexual. Agora, o personagem que sempre esteve relacionado ao mundo gay pôde finalmente sair do armário e viver plenamente seus sentimentos.

Trecho da nova Batman: Urban Legends 06. Arte de Belén Ortega.

A revelação aconteceu na revista Batman: Urban Legends 06, publicada nesta semana, com roteiro de Meghan Fitzmartin e desenhos de Belén Ortega. A trama de Sum of our parts narra Tim Drake, o terceiro jovem a empunhar o título de Robin, numa missão para resgatar o velho amigo chamado Bernard. Em meio ao resgate, sem saber a identidade do herói, Bernard pede ao menino prodígio que passe um recado a Tim Drake e vemos o auxiliar do Batman gostar do que ouve.

No final da história, vemos Tim indo a casa de Bernard e convidando-o a sair.

O convite.

A trama não é resolvida e ficou prometida a continuação na edição 10, de dezembro.

Como de costume, revelar que um heróis das HQs é LGBTQIA+ gerou bastante controvérsia. Enquanto alguns parabenizaram a iniciativa da DC Comics, os raivosos da internet reclamaram do que chamam de excesso de saídas de armário. Claro, vivemos uma época em que, vez ou outra, algum personagem conhecido termina por se assumir: desde a Batwoman (já há uma década), que terminou transposta para uma série de TV recentemente; até o carismático e querido vilão Loki, da Marvel, que também se revelou bissexual em sua própria série de TV, que estreou há algumas semanas no Disney+, o canal de streaming que acolhe as produções do Marvel Studios. E não para por aí: muitos outros personagens da comunidade LGBTQIA+ irão aparecer na telinha ou na telona em breve.

Marston e a Mulher-Maravilha: lesbianismo e sadomasoquismo eram mensagens subliminares nas histórias do psicólogo.

No caso do Robin, a revelação ganha uma importância diferenciada, porque o personagem já é identificado com o mundo gay há décadas. Não somente por seu visual extravagante, de colete vermelho, pernas de fora e capa amarela; mas pela “acusação” de ser gay feita pelo psicólogo Fredric Wertham no livro A Sedução do Inocente, publicado nos EUA em 1954, e que demonizava as HQs como as responsáveis pelo aumento da delinquência juvenil naquele país na época. (O livro também dizia que a Mulher-Maravilha era lésbica, junto às suas companheiras Amazonas – que viviam no ilha habitada apenas por mulheres, vejam só! – e suas amiguinhas que acompanhavam suas aventuras. Neste caso, pelo menos seguindo as intenções do criador da personagem, o também psicólogo William Moulton Marston, Wertham estava certo).

Batman e Robin na arte de Bob Kane e Jerry Robinson.

Quanto ao Robin, as acusações de Wertham eram graves porque, na verdade, se tratava de pedofilia, com o jovem Dick Grayson retratado como um menino de 12 anos, seduzido por seu tutor Bruce Wayne, que aparentava ser um homem de 30 ou 40 anos. Wertham era um autor popular nos EUA e suas acusações tiveram grandes efeitos: o Congresso dos EUA abriu uma investigação sobre o caso e como resultado, as editoras de quadrinho criaram um selo de autocensura, o Comics Code Authority (CCA), que passou a regulamentar o conteúdo das histórias e a proibir qualquer exposição sexual explícita, além da proibição da violência explícita e do uso de monstros típicos do terror. O resultado é que as histórias de Batman e Superman, que traziam altas doses de violência, foram abrandadas e se tornaram cada vez mais infantilizadas, criando uma “década perdida” de histórias fúteis horrorosas, em especial no caso do Batman. E do Robin.

A série de TV (1966-68) fez sucesso, mas manchou a imagem do homem-morcego.

Mas a reação da DC Comics – cujas histórias passaram a deixar mais claro que Bruce Wayne era o pai adotivo de Dick Grayson e não seu amante – não conseguiu afastar da memória coletiva a imagem gay dos personagens, e mais ainda do menino prodígio, com seus ares juvenis, suas pernas de fora e sua capa amarela. A retratação afetada de Burt Ward na série de TV cômica non-sense Batman, de 1966, que fez um enorme sucesso no mundo inteiro, não ajudou a editora. Não adiantou fazer Robin seguir seu próprio rumo e deixar de ser o parceiro do crime do Batman e viver aventuras solo ou engatar um namoro com a Batgirl nos anos 1970 para que a imagem persistisse. A homossexualidade do Robin (e do Batman) permaneceu como uma piada infame usada pelo grande público para alfinetar a hermética comunidade de fãs de quadrinhos e super-heróis.

A DC Comics ignorou isso da maneira possível, insistindo na relação de paternidade entre Batman e Robin e como a relação entre Bruce e Dick sempre pareceu de companheirismo ao grande público – que possuía pouco contato com os personagens – os quadrinhos pós-1969 (ano da ruptura da Dupla Dinâmica nas histórias) insistiam em uma relação tensa, carregada de ressentimento e doses de autoritarismo, típicas da revolta de um adolescente contra um pai controlador.

Asa Noturna entra em ação diante do espantado Robin Jason Todd. Arte de Jim Aparo.

Quando, a partir de 1982, Dick Grayson passou a fazer sucesso como líder dos Novos Titãs em suas próprias aventuras, os criadores Marv Wolfman e Geoge Perez decidiram cortar de vez o cordão umbilical do Robin e fizeram o menino prodígio assumir uma nova identidade heroica, o Asa Noturna, em 1984, e retratando-o como um jovem adulto – afinal, as histórias já o mostravam cursando a universidade desde 1969! E para preencher o espaço vazio – e não perder direitos autorais – a DC criou um novo Robin, quando Bruce Wayne adota um outro jovem chamado Jason Todd, que tal qual Grayson no passado, se tornara órfão na adolescência.

Bruce Wayne dá conselhos a Jason Todd. Arte de Don Newton.

Para não criar margem de polêmica, as tramas mostravam Bruce Wayne agindo como um pai mesmo, inclusive, brincando com seu filho, embora tivesse o mau costume de levá-lo à cidade pelas madrugadas para combater criminosos armados.

Tim Drake, o terceiro Robin. Arte de Tom Grummett.

O personagem que se assume como bissexual é Tim Drake, o terceiro Robin. Jason Todd foi morto pelo Coringa em uma história de 1988, mas terminou trazido de volta à vida em 2006, se tornando outro personagem, o Capuz Vermelho. Nesse ínterim, Tim Drake apareceu (em 1989) e foi o terceiro a assumir o manto do menino prodígio (em 1990). Ele era retratado como um jovem incrivelmente inteligente, meio hacker e, à princípio, não era nem órfão nem adotado por Bruce Wayne, mas como um vizinho, filho de um casal de cientistas relapsos.

Tim Drake foi um personagem completamente diferente de seus dois antecessores: criado num momento em que a indústria de quadrinhos estava mais madura e autoconsciente, o que permitiu aos seus criadores – Marv Wolfman, George Perez, Jim Aparo, Alan Grant, Norm Breyfogle e mais tarde, e mais importantes (pois produziram suas aventuras solo) Chuck Dixon e Tom Grummett – desenvolvê-lo com mais cuidado e retidão. Drake foi introduzido nas histórias como um fã do Robin, que usando sua própria inteligência terminou deduzindo que Bruce Wayne era o Batman e. suspeitando de que o Robin havia sido morto (nas histórias, o público não soube que o Coringa matou o menino prodígio), estranhou o comportamento mais violento e desleixado do cavaleiro das trevas e passou a defender a causa de que o Batman precisava de um Robin para equilibrar sua psiquê e sua violência, e se candidatou ao posto.

Tim Drake em sua estreia tenta convencer o Batman de que ele precisa de um Robin. Arte de Jim Aparo.

O argumento de Drake era o mesmo de muitos criadores das HQs e alguns fãs: de que o cavaleiro das trevas se torna cada vez mais sombrio e violento na medida em que não tem um menino prodígio ao seu lado. E a década de 1980 onde isso aconteceu estava repleta de exemplos que reforçavam a tese: cada vez mais retratado como um vigilante urbano solitário (mesmo quando Jason Todd ainda estava por ali), Batman aparecia como um personagem perturbador em uma série de histórias adultas, como O Filho do Demônio, O Cavaleiro das Trevas, A Piada Mortal etc.

Drake foi criado tendo em vista a problemática da função e da visão do público sobre o Robin. Por isso, ele foi o único daqueles personagens cujo desenvolvimento foi lento e processual, com o jovem sendo introduzido primeiro numa aventura interligada do Batman e dos Novos Titãs (ele ganha um tipo de apadrinhamento de Dick Grayson) e, depois, mais de um ano e meio de histórias nas quais o personagem vai sendo desenvolvido, bem como sua relação de confiança com Bruce Wayne, até que, após o rito de passagem na qual sua mãe é assassinada brutalmente, termina por se tornar o Robin após provar seu valor e salvar a vida do Batman, que caíra nas mãos do Espantalho.

Capa de Robin 01, de 1993, por Tom Grummett.

Em seguida, em vez de vermos Drake pulando os telhados de Gotham City ao lado do Batman, a DC Comics lhe desenvolveu em uma trilogia de minisséries na qual agia sozinho e mostrava suas habilidades (como herói e como personagem), até que ganhasse sua própria revista Robin, lançada em 1993, sendo o primeiro dos meninos prodígios a conseguir tal feito. Em sua revista, Chuck Dixon e Tom Grummett colocaram Drake em um cenário adolescente e escolar, aproveitando para trabalhar de maneira sensível e inteligente os dilemas juvenis – que espelhavam as experiências de parte significativa dos leitores das revistas – não se furtando a temas “difíceis”, como uso de drogas e o início da vida sexual. Ficou célebre uma história, por exemplo, no qual Drake descobre que sua namorada, a também heroína Salteadora, estava grávida de seu ex-namorado, e a trama acompanhou toda a complexidade da situação, que culminou na criança sendo entregue à adoção após o parto.

O resultado é que as aventuras de Tim Drake fizeram bastante sucesso e a revista Robin durou 185 edições até 2009, quando surgiu o quinto Robin (Damian Wayne, filho biológico de Bruce Wayne com a semi-vilã Talia Heard, filha do vilão Rã’s Al Ghul). [Você fez as contas e percebeu que pulamos o número 4, né? Quando Drake ainda era o detentor do manto, surgiu a quarta Robin, sua ex-namorada Stephannie Brown, a Salteadora, que ocupou o posto de menina prodígio por um breve período]. Com o aparecimento de Damian Wayne, Tim Drake assumiu o nome de Red Robin ou Robin Vermelho.

Como a cronologia da DC Comics na última década é uma confusão incompreensível até para aqueles que escrevem as histórias, nem vamos entrar em detalhes porque Tim Drake é o Robin atual nas tramas, porque voltou a usar o título.

O Robin Dick Grayson na série de TV Titans.

Com essa longa descrição, percebemos que Drake era o personagem ideal para o desenvolvimento dramático que se tornasse um legitimo representante da comunidade LGBTQIA+, embora, verdade seja dita, ele deita sobre a reputação que Dick Grayson construiu (pois este foi o Robin entre 1938 e 1984). E apesar de Grayson também ser um personagem bem desenvolvido, a de se convir que a maior parte desse desenvolvimento (maduro, vamos dizer) ocorreu com o personagem já usando o manto de Asa Noturna, e não de Robin. (Veja, por exemplo, a série de TV Titans, do HBO Max, que mostra uma versão do desenvolvimento do personagem e sua relação com Jason Todd e Bruce Wayne e que vai introduzir Tim Drake em sua 3ª temporada que estreará em breve).

Claro, embora os avanços estejam ocorrendo, seria demais esperar que a DC Comics (ou a Warner, que é sua proprietária) tivessem a coragem ou a ousadia de fazer com que Dick Grayson fosse bissexual. É mais “seguro” ir ao titular secundário do título e fazer isso. Do mesmo modo que o Lanterna Verde Alan Scott também foi revelado como gay em histórias recentes e, apesar de ter sido o primeiro herói a ostentar este título, não é considerado o “principal”, pois este é Hal Jordan.

Robin e a Salteadora na arte de Tom Grummett.

Todavia, ainda que seja pela via de usar personagens secundários para trazer a comunidade LGBTQIA+ à baila em seus quadrinhos (com ramificações esperadas nas adaptações em live action da TV ou cinema), não deixa de ser importante dar espaço a essas representações, do mesmo modo que estão fazendo com personagens de diversidade étnica. Isso ajuda na identificação do público e na representação dessas minorias que se veem também como super-heróis.

Infelizmente, o preconceito persiste.

Veja o que aconteceu com os Jovens Vingadores, heróis da Marvel, um time de adolescentes que mimetizam os poderes e aparência dos Vingadores, cujos membros Hulking e Wiccano formam um casal e foram alvo de censura aqui no Brasil. Wiccano possui ligações com a Feiticeira Escarlate, que estrelou a série de TV WandaVision recentemente e o jovem herói aparece brevemente.

A polêmica em torno o fato de Tim Drake se descobrir bissexual e as reações odiosas em comentários na internet, os infames haters, mostram que uma parcela da sociedade ainda não aceita esse tipo de situação e parece calcada na satisfação de ver os outros infelizes, preferindo que vivam reprimindo aquilo que são.

Os Vingadores em 1971 na arte de Sal Buscema.

De qualquer modo, é interessante observar esse movimento de criação de diversidade sexual e étnica dos super-heróis, em especial pelo fato dessa mídia ser a mais antiga daquelas que compõem o universo da cultura pop. Superman e Batman foram criados em 1938 e 1939, e mesmos os personagens mais “novos” advêm de muito tempo, como o Homem-Aranha (1962), Vingadores e X-Men (1963), Wolverine (1974) etc. Por causa disso, a representação étnica e racial no universo desses personagens é muito baixa. Esses heróis são todos americanos e brancos. A Mulher-Maravilha é tecnicamente grega, porque nasceu na Ilha Paraíso, mas ainda é caucasiana. Wolverine, que foi criado já nos anos 1970, quando os quadrinhos se esforçavam para iniciar um esforço de diversificação, era tido como exótico porque era Canadense, para vocês verem o grau de ausência de diversidade.

O Falcão ganha suas asas numa história do Capitão América. Arte de Sal Buscema.

Personagens como Pantera Negra (1966), Falcão (1969), Luke Cage (1972) e Tempestade dos X-Men (1975), todos da Marvel, foram importantes para trazer os negros aos quadrinhos e outros surgiram depois. Mas até o início do século XXI, a representação era baixa, pois mesmo surgindo algum grau de diversidade, a maioria dos personagens principais são os mesmos das décadas de 1930 ou 60. E são brancos.

As adaptações ao cinema ou TV cumpriram um papel importante ao trocar deliberadamente as etnias de muitos desses coadjuvantes, não sem polêmicas, como Nick Fury nos filmes da Marvel (mesmo com um antecedente nos quadrinhos), mas veja a polêmica de uma década atrás quando Idris Elba foi anunciado como Heimdall no primeiro filme do Thor. O artifício continua sendo usado, vide o Jimmy Olsen negro na série da Supergirl. E exemplos não faltam. É uma pena que esse esforço de diversidade ainda cause reclamações de fãs, inclusive, daqueles que não são brancos e americanos, vide o aconteceu com o elenco altamente diverso de coadjuvantes dos novos filmes do Homem-Aranha.

Quando chegamos à sexualidade, o preconceito se soma ao discurso moral conservador. Personagens novos vêm surgindo já assumidamente dentro da comunidade LGBTQIA+, como a Miss América da Marvel (ainda que use o nome de uma personagem da década de 1940) e mais ainda personagens mais antigos vão aderindo ou saindo do armário, como a já citada Batwoman e agora o Robin Tim Drake, ambos do universo do homem-morcego.

Robin (Tim Drake) ganha sua própria revista por Chuck Dixon e Tom Grummett.

A própria DC Comics reconhece a importância do gesto. No site oficial, a editora publicou uma nota oficial assinada pelo colunista Alex Jaffe:

É um momento sobre o qual continuaremos falando e celebrando por anos. O momento em que os fãs LGBTQIA+ foram, não através de subtextos ou de um ‘ponto de vista’ mais permissivo, mas aberta e textualmente apoiados pela primeira vez desde que Kate Kane foi expulsa do exército. O momento em que um Robin, particularmente um Robin com história, legado e décadas de leituras com codificação queer em seu cinto de utilidades, recebeu a permissão de ser o ícone queer que sempre foi.

Expressar-se plenamente com uma traje colorido enquanto você escondia sua identidade do mundo já foi considerado escandaloso em uma nação amplamente homofóbica.

No contexto da história, Tim Drake está apenas descobrindo sua sexualidade, afinal, ele é representado como um adolescente. E é essa a ênfase que a escritora Meghan Fitzmartin deu, segundo sua declaração ao site Polygon:

Eu queria prestar homenagem ao fato de que a sexualidade é uma jornada… No entanto, Tim ainda está se descobrindo. Eu não acho que ele tenha a linguagem para tudo isso… ainda.

Os Robins em sentido horário: Dick Greyson, Jason Todd, Tim Drake, Damian Wayne, Stephannie Brown e Carrie Kelley.

Há muito o que avançar, mas passos como essa descoberta de Tim Drake são extremamente importantes, ainda mais se realizadas de modo orgânico e desenvolvido como parece ser este caso.

O Robin foi criado por Bob Kane, Bill Finger e Jerry Robinson e estreou na revista Detective Comics 38, de 1940, mais ou menos um ano após a criação do Batman. Ele era Dick Grayson, um jovem trapezista que viu os pais serem mortos por gangsteres e foi adotado por Bruce Wayne, que lhe transformou em um combatente ao crime. Ao longo das décadas, além de um dos personagens mais populares da DC Comics, vários outros personagens ocuparam o “cargo” de Robin, que serve como um tipo de estágio de formação de vigilantes supervisionado pelo Batman.

Quer saber mais sobre o Robin nos quadrinhos? Veja esse Dossiê completo do HQRock sobre o menino prodígio!