O Peter Parker de Tom Holland fecha sua (primeira?) trilogia com chave de ouro em Homem-Aranha – Sem Volta Para Casa e o HQRock traz sua resenha SEM SPOILERS. Então, se não assistiu ainda, pode seguir tranquilo. Se assistiu, pode ler também, que é sempre interessante ver se as expectativas foram atingidas e qual a leitura crítica do longa.

Bom, em primeiro lugar, devemos dizer que é muito difícil escrever uma resenha desse filme sem spoilers, porque são eles que fazem a história acontecer e são importantes para garantir o impacto que o filme tem, tal qual em outros dessa natureza, como seu “irmão espiritual” Vingadores – Ultimato. Mas reforçamos: não colocaremos spoilers aqui, apenas aquilo que já havia sido apresentado nos trailers.

Sem Volta para Casa cumpre seu papel de capítulo final de trilogia, indo mais longe do que os demais e dando um fim apoteótico – e por vezes exagerado – à trama geral que desenrolou desde De Volta ao Lar. Contudo, seja por estilo, grandeza ou por elementos narrativos (e estéticos), o novo filme surge muito mais como uma sequência de Ultimato do que de Longe de Casa, ainda que este último já se passava após aquele.

Mas não dissemos que Sem Volta… era um “irmão espiritual” de Ultimato à toa, mas sim, porque há realmente aquele mesmo senso épico, aquela grandeza narrativa e o sentido de entrega ao fã que o derradeiro filme dos Vingadores apresentou. Por isso, a aventura de Peter Parker toca no telespectador e mexe com sua nostalgia, sua expectativa, suas emoções e suas memórias.

É por isso que o terceiro longa aracnídeo de Jon Watts sofre do mesmo mal potencial que o épico final dos irmãos Russo: sua eficácia narrativa depende do envolvimento do espectador com aquele mundo que fora construído tão efusivamente nos últimos anos e – lá com os Vingadores e todo o MCU, aqui – com o mundo em torno do amigão da vizinhança. A vantagem que Sem Volta.. tem é que praticamente todo mundo acompanhou as desaventuras cinematográficas de Peter Parker e, por isso, o envolvimento afetivo é muito provável mesmo naquele espectador que não é sócio do clube do MCU.

Dito isso, é preciso ressaltar que o terceiro filme da franquia aracnídea atual – houve outras duas, você lembra, né? (precisa de mais?: os três filmes dirigidos por Sam Raimi entre 2002 e 2007; e os dois filmes menos bem sucedidos de Marc Webb de 2012 e 2014) – traz um aspecto bem-vindo que parecia ligeiramente distante dos anteriores: o peso dramático na vida mundana desgraçada de Peter Parker. Explico: os longas do herói frutos da parceria entre a Sony Pictures e o Marvel Studios sempre foram muito dependentes da linha narrativa principal em torno dos Vingadores (e neste ponto específico este não é diferente), e por isso, colocavam Parker em uma ambientação totalmente distinta das anteriores, com apoio da tecnologia (e fortuna, por que não dizer?) de Tony Stark e o status de Vingador que ostentou desde seu primeiro filme solo da atual fase (afinal, não esqueça Tom Holland estreou no papel em Capitão América – Guerra Civil, antes de sua franquia própria).

Isso dava um tipo de suporte que afastava este Peter dos outros: dois caras desgraçados, se virando sozinho para impedir (sem sucesso) que seu mundo particular vire de cabeça para baixo. O Homem-Aranha de Holland teve seu problemas, claro, mas pôde contar com a condição de membro dos Vingadores e o acesso à tecnologia Stark para resolvê-los. Daí, seu uniforme é mais tecnológico – aliás, é uma armadura com nanotecnologia – algo que é destacado por outro personagem no filme – e, em De Volta ao Lar, usava inteligência artificial e uma série de apetrechos fantásticos, que são tirados dele como uma lição no terceiro arco, tornando seu confronto com o Abutre um pouco mais difícil. Em Longe de Casa, apesar da tecnologia Stark ser parte principal do problema catastrófico da trama, de novo, Peter pode voar de jatinho e usar uma fábrica portátil herdada de Stark para construir um novo uniforme espetacular.

Essa muleta tecnológica permanece em Sem Volta para Casa – de novo, acesso a uma fábrica portátil de Stark para criar uma série de apetrechos fantásticos – mas em contraposição, a trama consegue trazer um peso dramático e desgraçado (típico da vida de Parker) que os outros dois não tinham. E isso cai muito bem. E embora as piadinhas típicas do Marvel Studios continuem a aparecer também – algumas vezes com aquela sensação de “pra quê isso?” ou cumprindo a irritante função de aliviar o peso das situações e dos dramas (que não deviam ser aliviados para terem mais peso e ressonância) – não conseguem tirar o brilho que o roteiro constrói, tornando esse longa mais sombrio e adulto do que os demais. E isso foi uma boa surpresa. Não estava esperando isso.

Há ainda uma ressonância interessante aos dias de hoje e sua superexposição de celebridades quando o filme trata da revelação ao público da identidade secreta do Homem-Aranha, dando a oportunidade da aparição de J. Jonah Jameson (e J.K. Simmons de volta ao papel) para sua cruzada jornalística contra a “ameaça mascarada”. Curiosamente, enquanto o personagem era mais um tipo de alívio cômico na franquia de Sam Raimi, esta releitura não é dada a piadinhas, mas algo como um oponente mesmo, embora ainda possamos ver algo do velho Jameson, com sua fala rápida e mordaz.

As cenas de Peter e seus amigos – os ótimos Zendaya como MJ e Jacob Batalon como Ned Leeds – perseguidos por câmeras de celulares, sendo importunados por todos, xingados e louvados por facções distintas do público são muito interessantes e não deixam de ser um aceno (quase subliminar, é verdade) aos tempos atuais com seus TikToks e exposição virtual.

Mas isso não é o principal. Se os fãs do Aranha sentiam falta daquela sensação de que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades” que parecia (quase) ausente aos dois longas anteriores, este traz isso de volta. Com Tudo! Afinal, é sobre isso que o filme trata: consequências e a responsabilidade que temos sobre elas.

Nesse sentido, o filme realmente surpreende positivamente, pois o roteiro de Chris McKenna e Erik Sommers encontra uma maneira muito inteligente de lidar com os problemas e as consequências da ruptura do multiverso que os trailers já entregaram e dar um sentido razoável para que o filme não tenha uma solução imediata. E isso gera mais consequências na trama.

Vamos evitar spoilers, então, nos ater ao que os trailers já entregam: Duende Verde, Doutor Octopus, Electro, e alguns outros, saem de seus universos particulares e vêm ao nosso – e porque fazem isso também tem um motivo bem claro na trama – criando um caos e um risco à nossa realidade. O melhor é que os vilões não são meros bibelôs decorativos (bom, alguns deles são, claro, para fins narrativos), mas são desenvolvidos realmente como personagens, cada qual avançando em relação ao ponto em que foram deixados em seus velhos filmes.

E este talvez seja o pulo do gato (ou da aranha) no filme: três deles realmente geram arcos interessantíssimos e fazem um ótimo trabalho, dando material para Willem Dafoe, Alfred Molina e Jamie Foxx para trabalharem de verdade, fazendo jus aos grandes atores que são (cada qual já premiado por suas performances) e aparentemente todos muito satisfeitos em repetir seus velhos papeis e entregarem performances aperfeiçoadas em relação às anteriores. E embora o roteiro se esforce para dar espaço e importância ao Max Dillon de Foxx; e o Otto Octavius de Molina seja o curinga do baralho; não dá pra negar: é o Norman Osborn de Dafoe quem rouba a cena e brilha em cada segundo em que aparece na tela.

É incrível: não há um olhar, uma virada de rosto, um sorriso ou rosnado, uma frase dita por Osborn no filme que soe secundária ou desnecessária e Dafoe reluz como um gigante do cinema em cada uma delas. Tal qual nos bons quadrinhos, Osborn, embora totalmente louco, sabe exatamente o que está fazendo e tem domínio de tudo, mostrando porque é o arqui-inimigo do Homem-Aranha em sua mídia original.

Nesses tempos em que Coringa rende um Oscar de Melhor Ator para Joaquim Phoenix e em que Pantera Negra é indicado a Melhor Filme, caberia muito bem uma indicação de Melhor Ator Coadjuvante para Dafoe. Mesmo que ele não leve a estatueta, seria um reconhecimento ao trabalho espetacular que ele faz.

Ademais, diferente dos outros oponentes aos quais Tom Holland enfrentou, o Duende Verde representa um inimigo físico, alguém com o qual o Homem-Aranha pode sair no braço de igual para igual, e as cenas de luta dos dois são as melhores que a franquia aracnídea entregou. Algo lindo de se ver.

Aproveitamos o momento para falar do elenco. Já citamos alguns, então, vamos reforçar que o elenco inteiro está acima da média neste filme. O roteiro procurar dar a cada um dos personagens pelo menos um ou dois momentos para brilhar e mostrarem do que são feitos. Com isso, temos reforçado o aspecto dramático de peso do filme.

Tom Holland sempre foi um ótimo ator e sempre entregou um Peter Parker cheio de facetas diferentes, entregando tudo aquilo que o personagem traz em si, seja o lado heroico, o atrapalhado, o sofrido… Mas em Sem Volta… ele se supera. Claro, o roteiro lhe dá muito com o que trabalhar, mas o ator corresponde de uma forma intensa, numa performance arrasadora.

O Dr. Stephen Strange de Benedict Cumberbatch, embora com um papel menor do que o esperado (mas há um motivo para isso no roteiro), inicia o filme no típico pastiche do Marvel Studios, como se não estivesse levando nada à sério – o que é uma característica que os roteiros colocam aos personagens e, por vezes, alguns atores incorporam ao modo como interpretam seus personagens – mas depois, quando o filme exige, o mestre britânico mostra lampejos do ator que é e isso cai bem. Seus últimos momentos em tela fazem desejarmos que Doutor Estranho no Multiverso da Loucura chegue logo.

Mesmo Marisa Tomei tem mais tempo de tela como May Parker e uma função maior à trama do que um alívio cômico. Dessa vez a tia jovial de Peter aparece com peso e mostra como é parte do edifício moral que é Peter Parker de uma maneira muito interessante e efetiva.

Sem Volta para Casa tem essa habilidade de manter o foco pessoal e dramático em torno de Peter Parker, fazê-lo realmente sofrer como personagem, ao mesmo tempo em que mantém também o caráter épico e grandioso das ameaças e daquilo que o herói precisa enfrentar. Esse equilíbrio é o grande trunfo do filme, ainda que uma trama tão interdimensional tenha seu custo narrativo e emocional no mau sentido. Afinal, não poucas vezes, aquela ideia de que a realidade está se rasgando ou que um feitiço pode mudar tudo cause desconfortou ou descrença a uma classe de espectadores.

Para isso, o filme contrapõe mexendo com a emoção, a expectativa e a memória do espectador de um modo muito similar ao que Ultimato fez. E o resultado termina por ser positivo, porque atinge os fãs do Homem-Aranha (jovens ou velhos) com grande impacto emocional e cria aquela sensação catártica que Ultimato também entregou. A sensação no terceiro ato é de êxtase!

Contudo, Sem Volta… é um filme controverso. Ou melhor: ele será! Explico, mas não explico, porque não posso falar… Digamos que o filme é tão emocionante e tão bem executado e conduzido que deixam o expectador maravilhado ao fim. Mas se pensarmos bem no que temos ao final, é algo que pode gerar algumas boas discussões no futuro. Digamos também que o cinema percorre um caminho que os quadrinhos já trilharam. E não deu bom.

Mas cada mídia tem suas próprias características, não é? Sem Volta para Casa traz uma grande história e deixa algumas portas abertas para o futuro do MCU que têm grande potencial. E enquanto filme em si, é uma experiência catártica e épica que deixa o expectador boquiaberto com a ousadia e a falta de pudor nerdístico do Marvel Studios. E se Viúva Negra foi um filme Ok; Shang-Chi e a Lenda dos 10 Anéis divertiu; Os Eternos diversificou e trouxe outro escopo… O terceiro filme do Homem-Aranha (nesta franquia) voltou ao mesmo patamar emocional e heroico de Vingadores – Ultimato, mostrando que o Marvel Studios pode voltar aquele mesmo nível sempre que puder e aponta um futuro ainda grandioso mesmo após 13 anos de super-heróis interconectados.